segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Belém, a.D. 2007

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O Maquiavel de Alijó



Nem Sócrates é Lourenzo di Medici, nem eu sou (hélas!) Niccolò Machiavelli. Mas se eu tivesse a imensa fortuna de ser consultado pelo nosso Primeiro Ministro e se este me pedisse conselho sobre a forma de manter e engrandecer o seu iluminado poder, dir-lhe ia uma coisa muito simples: «controla os media e a banca; por esta ordem e sem contemplações; tudo o resto vai ao sítio».

Que eu não sou Machiavelli, repito, é uma cruel evidência. Mas que Sócrates, generoso, me vai seguindo a cartilha não é menos claro e a constatação enche-me de compreensível orgulho. Senão vejamos:

1 - Na RTP a limpeza está finalmente consumada. De forma magistral Sócrates conseguiu afastar aquela que provavelmente foi uma das administrações mais incómodas para qualquer poder político que aquela casa conheceu. Fê-lo com eficiência e rapidez. Mas fê-lo sobretudo evitando o coro de protestos que se adivinhava se as circunstâncias da mudança não tivessem sido eficazmente encenadas. Chapeau. Na TVI, devidamente ungida pelo Cardeal Pina Moura, o Eng.º sabe que conta com a sensatez de uma Prisa habituada a anos de profícuo convívio com o poder socialista e vê seguramente com bons olhos o aparecimento do seu novo canal de notícias. A PT está para o estado português como a Gazprom está para Putin e só o Pai Natal acredita que a com a PT.com a história vai ser diferente. O 5º canal não deixará de ir parar a mãos amigas. E sobre todos os outros paira, omnipotente, a famigerada ERC.

2 - Agora é a vez da Banca. O maior banco português é público e recebe ordens directamente do gabinete do Primeiro Ministro (lembram-se da opa sobre a PT?). Faltava que alguém zelasse pelos interesses do PS no maior banco privado português. Ora existirá melhor guardião desses sagrados interesses que o diligente Dr. Vara? Chapeau. Encore Chapeau.

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Amigos dos Amigos

A Rocinha é a maior favela do Brasil. Mais e melhor, a Rocinha é a maior favela da América Latina, território da multidão dos danados e ofendidos das classes D/E do Brasil. Fernando Cancian, repórter especial da Folha de São Paulo, descreve aqui como foi “autorizado” a entrar na favela para assistir a um show musica,l num sábado à noite. Recebeu luz verde da ADA, a associação de criminosos Amigos Dos Amigos, que controla tudo e todos, sem que o Estado meta no assunto nem prego, nem estopa.
Duas breves reflexões:

1. Será que, por tudo o que lemos, ouvimos e vemos nos últimos dias em Portugal sobre a crise do BCP, as classes A/B também têm os seus Amigos do Amigos?

2. Quando é politicamente sofisticado pedir, a todos os títulos, menos Estado, será que alguém poderá imaginar o que serão as nossas cinturas suburbanas, entregues hoje a um verdadeiro deserto de valores, se amanhã, abandonadas pelo Estado, ficarem entregues aos poderes privados, armados e arbitrários, dos Amigos dos Amigos?

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domingo, 23 de dezembro de 2007

Laicidade positiva, em nome das raízes cristãs


Cónego honorário de São João de Latrão, Nicolas Sarcozy recebe o legado que remonta a Henrique IV. Em Roma, há dias, em plena cerimónia de consagração, recordou o baptismo de Clóvis e as profundas raízes cristãs de França. E fê-lo para afirmar, nesse quadro, a necessidade de uma laicidade positiva.
Muito marcada pelo sentimento anti-clerical, a laicidade francesa, embora assente na proclamação da liberdade, da tolerância e da neutralidade, assentou em incompreensão e sofrimento. Como é sabido, as relações entre o Estado e a Igreja, antes e depois da lei de 1905, foram um palco privilegiado de múltiplas tensões. A influência do jacobinismo manteve-se poderosa. E a desconfiança permanece até hoje.
Mas Sarcozy apela, agora, a uma laicidade positiva que, sem pôr em causa a liberdade de pensar, a liberdade de crer e de não crer, recuse ver as religiões como um perigo, reconhecendo-as antes como um trunfo. Uma vantagem objectiva para o diálogo com o mundo e a construção da paz. Para tanto, aos católicos, especificamente, pediu militância: convicção, coragem, generosidade e esperança.
O ponto de Sarcozy não é coisa pouca (os mais atentos recordam, certamente, a sua não muito longínqua controvérsia com Chirac e de Villepin – estes, herdeiros mais ortodoxos dos velhos princípios do laicismo republicano francês). Recém-eleito, empreende o caminho da reconciliação. Com ele, a laicidade não implicará a negação das raízes cristãs que indelevelmente moldaram a história e a cultura francesas. Porque, nas suas próprias palavras, “arrancar a raiz é perder significado, enfraquecer o cimento da identidade nacional e secar ainda mais as relações sociais que têm tanta necessidade de símbolos de memória”.
Por cá, em tempo de tantos e tão lamentáveis equívocos, talvez valha a pena lembrar que nascemos da cruzada de um conde borgonhês, que chegou ao extremo da Europa em nome da fé cristã. Um conde que aqui teve um filho que o Papa viria a reconhecer rei. E lembrar que, depois disso, para o bem e para o mal, foram quase 900 anos de laços profundos que marcaram os costumes, os valores, a cultura, as artes, a arquitectura, a paisagem.

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sábado, 22 de dezembro de 2007

Orquestra Sinfónica do Iraque - "two shots for happy"

Por muito que nos espante existe uma Orquestra Sinfónica do Iraque e, toquem os sinos no céu, funciona. Este pequeno prodígio merece uma saudação especial e faz-me regressar ao espírito de celebração da bondade, optimismo e beleza que prometi, aqui e aqui, nos meus posts intitulados “two shots for happy”.
A Orquestra Sinfónica do Iraque ensaia três vezes por semana e dá um concerto pelo menos uma vez por mês. Já por três vezes incendiaram ou saquearam a Escola Sinfónica onde está sedeada, na Rua Abu Nawas, em Bagdad. Três vezes a destruíram, três vezes os seus membros a reconstruíram, sem que nunca, nestes anos de brasa, tenham cancelado um concerto, apesar de um músico ter morrido na explosão de um carro bomba e alguns terem tido familiares vítimas doutras acções terroristas.
São, diz-se neste artigo do El Mundo, “los más valientes” músicos do mundo. Para evitarem atentados não publicitam os concertos. Telefonam, mandam e-mails, sms e passam a palavra. É assim que enchem as salas de iraquianos que querem ouvir Bach ou Mozart.
Munzir Hafe é o mais velho destes músicos mais valentes do que os aventureiros “guapos”, esses “cultores del corage” da prosa de juventude de Jorge Luis Borges. Munzir tem 75 anos. Ele e o seu violencelo resistiram a tudo, da ditadura a golpes de Estado, das guerras aos atentados terroristas.A este velho guerreiro juntam-se mais 65 músicos sunitas, shiitas, cristãos, curdos e turcomanos. Une-os a convicção firme de que a “música é uma arma”. Tão inabalável ideal faz-nos despertar a consciência de que, afinal, em qualquer homem está um deus.

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Elegia para um passaporte

400 milhões de europeus podem, agora, viajar livremente de Portugal à Estónia, da Finlândia à Grécia. Schengen alastrou-se a um território de 3,6 milhões de quilómetros quadrados. Liberdade e expansão que, sem rebuço ou hesitação, saúdo.
Mas tenho no bolso, encostado ao coração, o meu passaporte e não me atrevo a dar-lhe a notícia. Não é do pé para a mão que se liquida uma relação de décadas.
A primeira vez que pedi o passaporte, fui explicar, em Luanda, a um agente da PIDE as razões dessa minha vontade desvairada. Devo tê-lo comovido com tanta ânsia de cosmopolitismo. Deram-mo, como o meu pai, resignado e bondoso, me tinha já dado a emancipação para que eu, e só eu, fosse responsável pelos meus actos em Lisboa, que incluíam faltar a todas as aulas do prof. Martinez, em Direito, e fazer a ronda das livrarias para aliviar as prateleiras mais escondidas de alguns herméticos livros da colecção 10/18, a que, por mais nobres princípios que nos animassem, as nossas bolsas não chegavam. Algumas garrafas de litro de leite Vigor, pressentindo a escassez de recursos, teimavam em prestar-nos filantrópica companhia quando, após termos jogado às cartas até às 4 da manhã e outras devassidões a que vos poupo, passávamos em revista as pastelarias da Estrada de Benfica, elegante e compassada marcha a que o som atroz da bicharada do Jardim Zoológico e o cheiro, meu Deus o cheiro, emprestavam um toque de expedição à selva tropical.
Não era para isso que precisava de passaporte, como não precisei dele para, pela primeira vez, ir a Espanha a salto, do lado de lá de Vilar Formoso. Não havia no gesto, nem grande perigo, nem exaltada revolta. Era só uma coisa juvenil: passar a salto, sem passaporte, fazer compras além fronteira e voltar.
A primeira vez que me carimbaram o passaporte, na única vez que chorei ao ver uma cidade, foi em Paris, ao pôr um descuidado pezinho em França.
A primeira vez que passei a cortina de ferro e o meu passaporte teve, ali, debaixo das minhas constrangidas barbas, um despudorado affaire, dançando a valsa nas mãos do sinistro agente de uma já anémica ditadura do proletariado, foi em Budapeste, a meia dúzia de passos do Danúbio.
Olho, agora, com alguma tristeza para este meu velho e cansado companheiro. Vou mentir-lhe quando amanhã for a Roma, ou a seguir a Copenhaga. Jamais lhe direi que é agora “expendable”, à pala de um acordo feito numa parola aldeia luxemburguesa. Nem sequer o posso consolar contando-lhe as vezes em que tive gélidos arrepios só de pensar, ao dar de caras com palavrões como Alfândega, Aduana, Customs, não o ter ali, colado ao meu peito.
Mas tenho de ganhar coragem, convidá-lo para um copo, fazer com ele o luto das falecidas fronteiras, carimbos, vistos, e sobretudo, quando ele me perguntar “What About us?” recordar-lhe que apesar de tudo, “Old buddy, we’ll always have America”.

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

II. Diane de Poitiers, Ivan Cloulas, Fayard, 1997

Afinal, todos têm um pouco de razão. Diane não é um símbolo de libertação feminina. Não mudou de forma majestosa o curso da História, não é essencial conhecê-la para sermos felizes. É evidente.

Mas a perda de Diane não deixa de ser significativa do mundo em que vivemos. Uma sociedade que admira uma Diane é uma sociedade que é capaz de admirar. Só por isso deve ser objecto de admiração. E duradouramente. Só por isso merece a nossa duradoura admiração. E admirar a beleza, o que convenhamos é dos melhores motivos que conheço para suscitar a admiração. É uma sociedade lúcida, não puritana, amante da vida e da extraordinária riqueza que a vida nos pode oferecer.

Porque, convenhamos, a beleza é sempre um superávite. Um estafermo pode ser saudável, perfeitamente funcional, procriar (é certo que outros estafermos), dar felicidade. Mas que a natureza, para além da funcionalidade, ainda nos ofereça o espectáculo da sobreabundância da sua energia criativa, é palco sob o qual nos temos de sentar para admirar a generosa dádiva que nos dá. Que algo tão inútil como a beleza se instale no mundo, e sobretudo numa pessoa concreta, demonstrando que o ser humano pode ser portador de um benfazejo capricho divino, é algo que apenas nos deve provocar o espanto e a adoração.

Essa beleza serviu de pouca coisa, mas foi bastante para em hábil política de matrimónios, acabar por transmitir o seu sangue a um rei de França, Luís XV, e através dele, de todas as casas reais europeias. Não sei se a beleza transforme a História do mundo, mas transforma de certeza a História de muita gente.

Faz-nos reflectir além do mais sobre o lugar comum que afirma que vivemos numa época de imagem, com o culto da beleza. Tenho as minhas dúvidas. O que se admira hoje em dia é o produto de aparência saudável, ginasticado, o paralelo dos alimentos saudáveis. O mundo em que vivemos é muito mais mágico, timorato, que estético. Quando vemos as modelos raramente vemos beleza. Vemos produtos meramente instrumentais em relação a um fim. Seja ele a venda de um produto, de uma forma de vida, de uma marca. A beleza é exactamente o contrário do instrumental. Está aí. Apenas para ser admirada. Sem outra função que a de demonstrar que o mundo é capaz de a produzir.


Alexandre Brandão da Veiga


http://www3.fnac.com/item/author.do?category=book&id=41644
http://www.librarything.com/author/cloulasivan
http://www.clio.fr/espace_culturel/ivan_cloulas.asp
http://en.wikipedia.org/wiki/Diane_de_Poitiers
http://www.publius-historicus.com/diane.htm
http://www.dianedepoitiers.sharibeck.com/index.html

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Duas mulheres

Há poucas imagens na pintura ocidental tão enigmáticas como esta.

Lembrei-me deste quadro anónimo (atribuído à escola de Fointainbleau) ao ler o post anterior em que se louvam as virtudes de Diane de Poitiers, amante de Henrique II, rei de França.
Gabrielle d’Estrées, a figura feminina que vemos na pintura, à direita, foi igualmente amante de outro monarca francês, Henrique IV. A mulher à esquerda, que lhe aperta o seio, é a sua irmã, a duquesa de Villars.
A beleza das duas mulheres, a intimidade sáfica que emana do quadro, fazem dele uma obra-prima. Mas há uma interpretação simbólica para a insólita ternura do gesto. O quadro seria uma celebração da maternidade de Gabrielle. Os dedos da duquesa apertam o mamilo de uma grávida, o que a mulher ao fundo, a costurar roupa de bebé, vem confirmar. A delicadeza dos movimentos e dos olhares convida-nos, com gravidez ou sem ela, a só tocarmos neste quadro com pinças.

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I. Diane de Poitiers, Ivan Cloulas, Fayard, 1997


Duas coisas estão fora de moda: os paradigmas franceses e as grandes figuras míticas da História. Deixo a primeira questão para outras núpcias, mas ataco a segunda.

Todos nós sabemos que não existe essa coisa das grandes figuras históricas, ou pelo menos foi o que aprendeu a massa nas escolas. Certezas rapidamente fabricadas e mal digeridas, bem longe de ser neutras ideologicamente. No dia em que alguém me souber citar os vizinhos de Beethoven e que fizeram eles de relevante, poderei então pôr como hipótese debater essa tese tonta.

Diane de Poitiers pertence ao pequeno leque de mulheres que são conhecidas pela sua beleza, e que, estando descentradas na sua época, conseguem ao mesmo tempo ser o centro dela. Caso semelhante apenas o da imperatriz Sissi, que via as ideias liberais e progressistas com algum agrado.

Diane é o símbolo da beleza. Mais: da beleza eterna. Até ao fim da vida permaneceu como símbolo de beleza. Facto espantoso, não apenas o de a ter mantido, mas de igualmente não passar de moda.

É o símbolo da mulher desportista, que cuida de si, da sua alimentação, do seu exterior, do seu corpo, mas também não destituída de cultura. Nesse aspecto é a antecessora e o paradigma da mulher dita moderna.

Amante de um rei (Henrique II) de França não foi apenas pela sua beleza que lhe poude manter o afecto. História de amor duradoura, indesmentida.

Amante de um homem mais novo, que por ela se enamorou perdidamente. Também nisso moderna, seja o que isso for.

Detestada pela esposa legítima, mais hábil politicamente; mas no fundo Diane de Poitiers largou a política não por falta de capacidade, mas de interesse e de poder.

E no entanto, Diane é malquista na nossa época. Esquecida pelos ignorantes. Mas já sabemos que os ignorantes são distraídos, que pisoteiam tudo, e não sabem destrinçar o valioso do irrelevante. Esquecida pelos cultores de uma História pseudo-científica que se esquece tão-somente dos seres humanos, pequeno pormenor a evitar. Não muito bem vista pelas feministas, que não vêem com agrado uma mulher que depende de um homem e com base nele fez a sua glória.

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terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Sócrates, um herói de plástico? De plástico duro.




Sabem quem é Jean Quatremer? Um jornalista francês. Do Libération. Especialista em assuntos europeus.
Ora, Jean Quatremer foi convidado para jantar em São Bento, com José Sócrates. Jantou, portanto. E, manifestamente, gostou.
Alguns dias antes, recebeu um telefonema de um “próximo” do Primeiro-Ministro, perguntando-lhe “o que ele queria comer”… Ficou siderado. Mas o inusitado desvelo ainda lhe permitiu substituir por pato o sugerido bacalhau.
Depois, Quatremer entregou-se ao charme do seu anfitrião. Apreciou a informalidade, a disponibilidade, a absoluta serenidade do encontro – no tête-a-tête de São Bento, não sentiu qualquer pressão nos horários, qualquer indício de uma agenda cheia. Sócrates aparentava ter todo o tempo do mundo para Quatremer... Da conversa resultou o elogio rendido. Para Quatremer, Sócrates é sinónimo de sucesso: da harmonização do IVA à sonda espacial Galileu ou à proeza máxima do Tratado de Lisboa.
Mas Quatremer vai mais longe e ensaia o retrato do político e do estadista. Revela um Sócrates hábil, moderno, reformista, convicto. Mais: um Sócrates feito à sua própria custa, obra de esforço e vontade, vítima da hostilidade que envolve os que singram sozinhos, sem padrinhos, contra ventos e marés. Na essência, portanto, um homem admirável. E Quatremer não se poupa: Sócrates reduziu drasticamente o défice público, reformou a segurança social, começou a diminuir o número “pletórico” (sic.) de funcionários públicos, promoveu a avaliação do mérito no Estado. Enfrentou tudo e todos, polícias, militares, juízes, diplomatas. Prova da sua coragem, três greves gerais, que aguentou sem tréguas. Pelo caminho, este estadista de visão não esqueceu sequer a agenda social: aborto, paridade, procriação assistida. Ao pé disto, Sarcozy é um mero aprendiz – na expressão de Quatremer, as suas reformas, quando comparadas com as de Sócrates, não passam de “sympathiques amuse-gueules”
Em suma, um ícone da esquerda moderna. Um homem dinâmico, desempoeirado, tenaz. Provinciano? Talvez, mas sem complexos. O seu percurso é um tributo à possibilidade do êxito construído. Arrogante? Não. Apenas um homem determinado, que se convence da sua razão e não larga…
Sócrates segundo Quatremer é, afinal, o puro nirvana. Expressão paroxística da montagem publicitária, polida, vácua e inócua, de que falava Vasco Pulido Valente, há dias, no Público (vd. Sócrates: auto-retrato, 9 de Dezembro de 2007).
Uma invenção, o herói de plástico? Quatremer não se impressiona: se é de plástico, é de “plástico duro”!
Notável, hã? Tudo por conta de umas ameijoazinhas e do tal pato…

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Referendo? Não, obrigado.

Correndo os riscos inerentes a qualquer simplificação pode dizer-se que o ideal populista renasce na história moderna, pela mão de Jean Jacques Rousseau para quem ninguém era inteiramente livre a menos que participasse directa e continuamente na construção da comunidade em que se encontra inserido. Rousseau escreveu no seu Contrato Social que «No instante em que uma pessoa aceita ser representada perde toda a sua liberdade». Era de resto precisamente isso que criticava no sistema parlamentar inglês. Dos ingleses dizia aliás com desprezo que viviam na ilusão da liberdade. «São livres apenas durante o acto do voto para os representantes do Parlamento. Uma vez estes eleitos tornam-se escravos, não são nada».
Numa versão eventualmente menos radical o ideal populista aparece também, naquele que foi o grande momento de refundação do ideal democrático, a Revolução Americana, pela mão de homens como Thomas Jefferson ou Thomas Paine. Este último proclama, no seu «Common Sense» que «no primeiro parlamento cada homem terá o seu assento por direito natural» e que portanto «uma assembleia representativa deve ser uma miniatura fiel do povo em geral».
Já Jefferson, no longo debate que o opôs aos federalistas, nunca escondeu a ambição de trazer para o Novo Mundo uma forma de democracia participativa que recuperasse os ideais da democracia directa de tipo ateniense. Imaginava a América, à semelhança da antiga Grécia, como um conjunto de pequenas comunidades de lavradores que constituiriam outras tantas unidades políticas que se auto-governariam a si próprias, deliberando e decidindo de forma directa sobre todas as matérias. Sonhava com um sistema de governo inclusivo que centrasse a sua actuação no interesse da gente comum e temia que o governo federal acabasse por excluir a maioria dos cidadãos do controle político directo sobre os assuntos que lhes diziam respeito.

No pólo rigorosamente oposto ao do ideal populista sempre estiveram as concepções elitistas de raiz platónica.
Platão, que baseia o seu projecto político numa visão normativa do bem, na presunção de que existe uma verdade única e absoluta, tem uma visão radicalmente diminuidora do indivíduo e das massas populares. Ao contrário de Rousseau, e de resto dos liberais, imagina-as incapazes de descobrir por si sós o caminho para a verdade absoluta, para o bem absoluto que deve, segundo ele, nortear a construção da sociedade política. É aliás alicerçado nessa desconfiança profunda que nutre em relação às massas populares, que projecta aquele que é o primeiro grande ideal utópico da história do pensamento político. A sua cidade ideal é, como se sabe, dirigida por uma classe de magistrados, que têm à cabeça o célebre rei filósofo. São cidadãos expressamente escolhidos, seleccionados e, o que é mais importante, educados pelo Estado. São os únicos capazes de discernir racionalmente o bem do mal e de perceber o que é, em cada momento, o melhor para as massas. São, em suma, os guardiões de uma verdadeira sofiocracia.

Parece-me fundamental que se entenda que a democracia representativa tal como hoje a conhecemos e que adoptámos, surge em grande medida, como uma terceira via entre este ideal platónico ou elitista não democrático e o populismo basista de tipo rousseauniano ou Jeffersoniano.
De facto, a corrente federalista que haveria de ver as suas ideias consagradas na Constituição e no modelo político americano, sempre defendeu uma engenhosa solução política que abraça o ideal revolucionário da soberania popular mas ao mesmo tempo isola a República do perigo das paixões súbitas das massas populares. É um modelo que consegue casar os valores da igualdade política com as virtudes da reflexão, da ponderação, da deliberação, e da construção de consensos. Um modelo que tem o propósito declarado de evitar que as opiniões públicas se transformem obrigatoriamente em políticas públicas.
O sistema político americano, que é neste sentido mais tributário de Hamilton do que de Jefferson, é assim erigido com múltiplos dispositivos e barreiras destinados a controlar as paixões das maiorias populares. Ao contrário do que acontecia na antiga Atenas, na democracia representativa americana do século dezoito, tal como hoje na moderna democracia representativa, o papel do povo não era o de governar-se a si próprio mas o de escolher quem, em seu nome, de forma mais competente governaria: «the people will decide who shall decide». A ideia de que todos os homens eram aptos a governar-se não era de forma alguma negada (Hamilton defendia que o povo tinha uma capacidade intrínseca para se auto-governar) mas era interpretada inteligentemente para que essa capacidade não fosse utilizada por todos os cidadãos, a todo o tempo e a propósito de todas as decisões, mas antes fosse utilizada para escolher e controlar um grupo de representantes periodicamente eleitos.
Como escrevia há tempos Pacheco Pereira, «A democracia representativa é suposto libertar os políticos da pressão da demagogia, dando-lhe uma reserva temporal ou poderes próprios em que o controlo popular é indirecto, permitindo-lhe tomar medidas impopulares mas necessárias sem terem imediatamente a sanção do voto»
Edmund Burke ia ainda mais longe. Num célebre discurso aos eleitores de Bristol afirmou categoricamente que «o vosso representante deve-vos o seu juízo, e trai-vos se o sacrificar à vossa opinião. Se o governo fosse uma matéria de simples vontade, a vossa, sem dúvida alguma, seria a mais importante. Mas o governo e a legislação são matéria de razão e de juízo e não de inclinação».

Tenho para mim muito claro que no discurso político se perdeu a noção de que existe um verdadeiro abismo entre as concepções democráticas de pendor directista ou populista, e as concepções democráticas representativas. No afã de combater as tentações totalitárias talvez tenhamos menosprezado o debate que há dois séculos opôs Hamilton a Jefferson. O que é certo é que o discurso politicamente correcto se confunde hoje com a vulgata populista e tornou-se difícil afirmar, nos dias que correm, a importância da ponderação, da reflexão e dos mecanismos moderadores próprios dos sistemas representativos.
Os sinais vêm de todos os lados. Da esquerda mais folclórica que tem no Bloco o símbolo máximo da promoção deste ethos politicamente correcto, à direita absolutamente falha de ideias do CDS/PP (pós plástica?). De Santana Lopes (talvez o político que melhor entendeu este ar dos tempos) a Alberto João Jardim, passando pelo inefável Paulo Portas. De todos os lados se cede à tentação fácil de exigir maiores doses de directismo, de democracia directa, de referendos. Estão na moda as propostas «anti-sistema»; as críticas às «elites políticas». Em todo o lado – dos partidos aos jornais - se confunde, por falta de coragem política para afirmar a diferença, os conceitos da titularidade do poder com o do exercício do poder. Em todo o lado e a propósito de tudo se apela à legitimação popular das decisões políticas. Em todo o lado se invocam sondagens, se convidam os media a invadir o palco da política e os cidadãos a interferir directamente na arte do problem solving.
Ora entendamo-nos: nos nossos regimes políticos a titularidade do poder é, inequivocamente, dos cidadãos eleitores. Mas o exercício do poder não pode nem deve ser, no quadro – repito - de uma democracia representativa, uma prerrogativa sua. E é porque estamos a perder a noção desta distinção basilar – que está no cerne do debate entre as virtudes de um sistema populista e de um sistema representativo – que as sociedades contemporâneas caem na ratoeira de eleger os referendos como um «device» hiper-democrático impassível de ser criticado. Tornou-se mesmo politicamente incorrecto afirmar que a «vox populi» não tem nenhuma legitimidade particular no período entre eleições. Ou pelo menos em nada belisca a legitimidade dos poderes democraticamente eleitos. Mais grave, tornou-se politicamente insustentável reintroduzir no discurso político a noção de que existem excessos democráticos e que é para os evitar que optámos por um sistema de governo representativo.
Em suma, longe de serem o «nec plus ultra» da democracia, os referendos são uma cedência facilitista a uma concepção populista da democracia e uma perversão do sistema democrático representativo. Está na altura de alguém assumir isso de uma vez por todas.

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O Prémio Pessoa 2007

O mercado dos livros em Portugal está em grande transformação, sobretudo nos últimos cinco anos. As mudanças traduzem-se na consolidação de grupos de editoras, distribuidoras e livrarias, e em investimentos avultados de grupos financeiros dinâmicos. E são bem visíveis no crescimento das livrarias e do público. Só as estatísticas não mostram isso porque as instituições públicas em torno do negócio (INE, associações de editores, institutos do livro, etc.) continuam num confrangedor atraso.

Este movimento de expansão tem um outro lado. Trata-se da grande procura de autores por parte das editoras. Há um campo onde essa busca tem sido muito profícua: o dos livros de História. Lembro-me de três editoras mais dinâmicas neste campo. São elas o Círculo de Leitores/ Temas e Debates, a Esfera dos Livros e, em menor escala, a Alêtheia. O Círculo de Leitores teve um enorme êxito há cerca de 15 anos com os oito volumes da História de Portugal organizados por José Mattoso e desde então promove a publicação de colecções e títulos isolados de História. A Esfera dos Livros tem conseguido chamar a si a produção de livros a partir de dissertações de doutoramento, entre outros livros de encomenda, centrando-se nos temas mais candentes da história nacional, sobretudo do período do Estado Novo. A Alêtheia tem tido menos sucesso mas está claramente por trás dos livros recentemente produzidos, também visivelmente por encomenda, de Vasco Pulido Valente e Filomena Mónica.

Eu não sei muito bem como é que os responsáveis destas editoras trabalham. Todavia, se eu fosse um deles seguramente que, hoje, candidatava os “meus” autores aos prémios em ciências sociais, como é o caso do Prémio Pessoa. E deve ser isso precisamente que é feito. O que podemos presumir que acontece é que todos os anos as editoras mais organizadas enviam candidaturas àquele prestigiado prémio, e a outros seguramente, até que um dia o Prémio Pessoa é mesmo concedido. Isso não tem nada de mal, claro. Todavia, é preciso que todas as editoras façam o mesmo, para que não cheguem às mãos do júri apenas os livros feitos pelas grandes editoras, pois esse não deve ser de modo algum um critério de pré-selecção.

Isto que acabo de dizer é baseado em 1/3 de factos e 2/3 de conjecturas e por isso pode estar tudo errado. Todavia, foi a única maneira de encontrar nas poucas meias-horas que tenho para pensar nestes assuntos uma explicação para a paradoxal atribuição do Prémio Pessoa de 2007. Tratam-se de primeiras obras e de alguém com mérito. Todavia, há muitos outros autores nessas condições que não ganharam o prémio e precisei de perceber porquê. A razão terá sido porque não foram publicados por grandes casas editoras, nomeadamente o Círculo de Leitores e a Esfera dos Livros.

Devo dizer que, a ser verdade esta ideia, acordei para ela tarde. Entre 2004 e 2007, fui responsável pela Imprensa de Ciências Sociais e agora penso que deveria ter mandado pelo menos uma candidatura ao Prémio Pessoa, a de Bruno Cardoso Reis, autor do livro Salazar e o Vaticano, publicado em 2006(1). Um outro livro muito importante, publicado neste ano de 2007, neste caso uma segunda obra de um jovem professor de História, é o livro de Pedro Aires de Oliveira, Os Desafios da Aliança. A Grã-Bretanha e a Questão Colonial Portuguesa, 1945-1975, da também pequena editora Tinta da China(2).

Espera-se que o Prémio Pessoa de 2007 seja um alerta para que haja mais concorrentes no futuro. Aliás não se justifica que um prémio tão importante tenha apenas 29 candidaturas.

Nada disto desmerece evidentemente a vencedora deste ano, Irene Flunster Pimentel, a quem deixo aqui os meus parabéns.

(1) http://www.ics.ul.pt/imprensa/det.asp?pesq=cardoso&pesq_escolha=autor&id_publica=182
(2) http://www.tintadachina.pt/book.php?code=03b104025a685cea8f3aa17f44706274&tcsid=37ffe448d6380fec12ca3e7a9c774d6a

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25 de Dezembro - Dia Mundial do Comércio

Não sei bem o que me leva a mim, agnóstico, determinista e pecador, a sofrer pelo desaparecimento do presépio. O Pai Natal não tem graça: parece um fanático do Benfica com pouca higiene alimentar. De resto, quantas casas em Portugal, com lareira, para o obeso entupir? A história do Natal prende-se com o nascimento, esperança sempre renovada, milagre da existência ainda por explicar. Paz aos homens de boa vontade. Pobre menino Jesus, poucos se lembram do seu dia de anos.

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domingo, 16 de dezembro de 2007

Liberais Equívocos

Dos promotores iniciais do Compromisso Portugal, António Carrapatoso é quem tem mantido uma mais constante actividade de intervenção cívica, como o próprio, por certo, preferirá afirmar, surgindo múltiplas vezes como comentador convidado nos mais diversos debates televisivos, integrando grupos de «sábios» de análise e monitorização da evolução política e económica da nação e, com igual regularidade também, dando à estampa artigos de opinião política, com particular destaque para a revista Atlântico, como sucede, uma vez mais, no recente número de Dezembro.

Embora algo conotado com o Liberalismo, o Compromisso Portugal, de acordo com o que é possível ler no seu «site» oficial, não estabelece compromisso nenhum em relação ao liberalismo, seja em que circunstância for, afirmando apenas nos seus propósitos gerais de acção:

«O Compromisso Portugal é um movimento de causas que propõe:

Um Estado forte e independente ao serviço dos cidadãos.

Um Estado existe para desempenhar com eficiência e eficácia todas as funções e actividades (mas só estas) que a iniciativa e o interesse individual dos cidadãos e das suas instituições privadas não conseguem garantir.

A flexibilidade e a predisposição à mudança como atitude dos cidadãos e da sociedade no seu todo.

A igualdade de oportunidades como ponto de partida para a liberdade e iniciativa individual.
Acredita na sã concorrência nos mercados enquanto fonte de valor económico e social.

A existência de direitos sociais e de uma rede de protecção social para os que deles realmente carecem.

O Compromisso Portugal pretende intervir na sociedade enquanto essa for a vontade dos seus promotores e seja possível reunir as condições necessárias para a realização das suas iniciativas.

O Compromisso Portugal acredita em Portugal.

E que pode contribuir para fazer do nosso País um melhor sítio para viver.»

Em boa verdade, pelo que fica exposto, não só compromisso algum se vislumbra do Compromisso Portugal com o liberalismo como, mais rapidamente se identificaria como um movimento socialista daqueles que se arrogam do socialismo democrático, em liberdade e moderno, como hoje, de certo modo, se poderá também arrogar o PS desde os idos de António Guterres a José Sócrates, senão mesmo desde os mais recuados dias do «socialismo na gaveta» de Mário Soares, mas já então, de facto, socialismo democrático, em liberdade e moderno

Em causa, não está, como é natural, a genuína e recta intenção do grupo do Compromisso Portugal em verdadeira e valorosamente contribuir para «fazer do nosso País um melhor sítio para viver», como os próprios afirmam nessa extraordinária expressão de tão elevado recorte literário.

Pois bem, neste «sítio» que, todos esperamos, um dia será ainda um melhor «sítio» para se viver, onde se publica a revista Atlântico, António Carrapatoso afirma no referido artigo, intitulado «Politrix», ser a distinção entre liberais e não liberais, o que hoje realmente interessa, tanto mais quanto «em Portugal ainda não temos, nem à esquerda nem à direita, forças e líderes políticos que assumam clara e convictamente um projecto de inspiração liberal para a transformação da sociedade».

Se bem interpretamos a o escrito, António Carrapatoso, à semelhança dos socialistas de há muito e Marx em particular, está preocupado com a «transformação da sociedade» _ não sabendo nós se eventualmente também do Homem também (e já agora da Mulher, não vá sermos acusados de machistas e politicamente incorrectos), opondo apenas ao tradicional «projecto» socialista para tal fim, o da mesma «transformação da sociedade», um novo «projecto» liberal.

Assim, admitindo que, «se o Partido Socialista não vier a demonstrar vontade ou capacidade para evoluir para um projecto de real inspiração liberal, este será aprofundado e promovido com o contributo da sociedade civil, como alternativa política», António Carrapatoso propõe, em consequência, um pequeno exercício, qual seja o de confrontar as políticas seguidas pelo Governo com nove proposições do que, segundo fica subentendido, entende o Presidente da Vodafone Portugal, constituírem-se nove proposições decisivas para uma boa, correcta e sã prática liberal.

Não discutindo a contradição em termos de um socialismo-liberal, nem sequer procurando averiguar qual seja o seu pensamento sobre ser «o ponto de partida do modelo social a igualdade de oportunidades assente desde logo numa formação base de qualidade para todos», o mais extraordinário chega a parágrafos 8, com a proposta de «impostos progressivos para que se promova a coesão social, até ao ponto em que não são inibidores da inovação, da criatividade e da criação de riqueza passível depois de ser redistribuída por diversas outras formas».

Se no Manifesto Comunista, de Marx e Engels, lá está já preconizado o «forte imposto progressivo», logo depois de se defender a «expropriação da propriedade fundiária e emprego das rendas fundiárias para despesas do Estado», quem somos nós para criticar tão alta proposta, mesmo quando, na nossa ingenuidade, sempre havermos crido ser exactamente esse um dos pontos cruciais de distinção entre socialismo e liberalismo, ou seja, da negação de qualquer forma de imposto progressivo, por este último, dada a sua intrínseca natureza em se constituir, de facto, como uma das formas mais vis, iníquas e perversas de esbulho da riqueza alheia, ou seja, da riqueza de todos em geral e de cada um de nós em particular. Engano nosso, por certo.

E dpois de ler e reler o artigo em causa, procurando melhor apreender e compreender o «novo liberalismo» aí proposto, no final, não é possível evitar uma última, terrível e melancólica reflexão mas também uma certeza: neste «sítio», que todos esperamos, um dia, será um melhor «sítio» para se viver, ainda vamos ter de muito penar, por muitos e longos anos, o socialismo que nos esmaga, atrofia e, a pouco e pouco, nos mentecapta (ou socializa) a todos.


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sábado, 15 de dezembro de 2007

Viva Verdi



Para «épater le bourgeois» (no caso em apreço, «moi-même») até podia ter servido. Mas a verdade é que foi fraco, muito fraco o Rigoletto que na segunda feira passada abriu a temporada lírica do S. Carlos. A crítica foi, em geral, demolidora. Blogoesfera incluída (exemplos aqui, aqui e sobretudo aqui). E antes que alguém diga que o problema é a crítica, registe-se que na sala houve direito a uma pateada das antigas.

A coisa não teria qualquer relevância política não fosse este Rigoletto que «lembra um empadão temperado a caldos Knorr e servido em regime de fast-food» a estreia de Christoph Dammann depois do controverso processo que levou ao afastamento de Paolo Pinamonti.

Quantas mais provas serão precisas de que temos a pior Ministra da Cultura que já passou pela Ajuda? E é bom lembrar que o inefável Dr. Lopes também por lá andou...

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Noches de Ronda

Há um tempo para todas as coisas. Eu perdi, a propósito dos "Led Zeppelin", o tempo para atacar a provocação do Pedro Norton e o comentário de requintado connaisseur do Gonçalo. Não, não meti a viola no saco. Bastou-me o colapso de um modem e o desfasamento (mea culpa) de um par de telefonemas com a netcabo para que, de repente, saísse da globalização, da populosa e vibrante metrópole virtual, e desse comigo sozinho, na límpida rua da minha aldeia, durante três longas noites, três tristes séculos, numa solidão de livros, jornais e música. Como é que hoje alguém sobrevive à cruel ausência da net?
Seja como for, I’m back. Perdeu-se a oportunidade, mas não esqueço. Venha o próximo e concertado incunábulo rock ‘n roll e prometo que o meu irrepreensível gosto kitsch (ou será camp?) reabilitará as mais gongóricas bandas, todas as bandas que me façam voltar “a la casa de mi infancia”. Do Alvin Lee dos “Ten Years After” ao Peter Green dos “Fleetwood Mac”.
Ah, pois, Pedro, e se quiser música, garanto que também lhe arranjo uns boleros para uma noche de ronda. Coisas de faca na liga e atirar a matar.

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Morte verde



Al Gore pode morrer descansado. Chegou o EcoPod, o primeiro caixão totalmente biodegradável. Dissolvem-se rapidamente e ainda alimentam a terra com os seus ingredientes ricos em nutrientes. Ah! E vem às cores!

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Imagens que dizem palavras


Depois de umas semanas de ausência regresso com uma sugestão para candidato a filme do ano: O Assassinato de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford. De uma beleza formal extraordinária o filme de Andrew Dominik é um caso raro no cinema de hoje: uma obra de adaptação de uma obra literária em que as imagens interpretam as palavras. Confesso que a certa altura pensei que o filme estava a ficar desprovido de sentido e se iria esgotar na sua extrema elegância formal. Estava enganado: com um ritmo narrativo que quase testa a nossa paciência, o filme vai-nos associando às personagens desta história sem, no entanto, permitir que com elas nos identifiquemos. Tudo isto, num estilo distante e apenas aparentemente frio, em que a distância do retrato acentua a dificuldade moral com que o filme se confronta. Um filme em que o cinema não fica subjugado à literatura. Tal como outra recente adaptação cinematográfica (Atonement, basado na obra de Ian McEwan) este filme é bem sucedido porque em vez de se limitar a ser um novo veiculo das palavras do escritor as procura interpretar em imagens. Em ambos os casos (O Assassínio de Jesse James e Atonement) a adaptação apenas procurou ser fiel à mecânica narrativa das obras e às emoções que transmitem. São adaptações bem sucedidas porque não abdicam de dar a posição de primazia ao cinema! Não me interpretem mal: no Assassínio de Jesse James a fidelidade às palavras e à composição literária são patentes, só que as imagens têm um tal poder e dimensão que sem eles não imaginamos as palavras.Realce, igualmente, para as grandes interpretações. Brad Pitt é excelente (ganhou o prémio de interpretação de Veneza por este filme) mas é Casei Affleck quem acaba por conquistar o ecrã. É o segundo filme com este actor (irmão de Bem Affleck) que vejo em pouco tempo e não tenho dúvidas em afirmar que é um dos grandes actores da nova geração.

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quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Da Visão: Privacidade e Segurança

Não é preciso ler os clássicos do Liberalismo para saber que privacidade e segurança são dois valores que raramente andam a par. Basta que o digam os cidadãos do Mundo Ocidental que, desde Setembro de 2001, têm assistido a uma invasão progressiva mas implacável da sua esfera de privacidade em nome da luta contra o terrorismo global. Estou aliás absolutamente convencido que nem só de Guantánamo e Abu Ghraib se fará, quando a poeira assentar, a história dos atropelos aos valores liberais perpetrados durante estes últimos anos. Muito mais exemplos, só aparentemente comezinhos e inofensivos, se invocarão então para descrever, com um nexo que se tornará bem evidente, esta decadência da civilização que um dia proclamou a inviolabilidade de certos direitos individuais.
Dirão os mais optimistas que em Portugal esta obsessão securitária com o terrorismo não se tem feito sentir de forma tão premente. Mas o que dificilmente negarão é que o ambiente mundial mudou, que os exemplos de fora sempre vão fazendo alguma escola (basta viajar de avião) e que os cidadãos se vão mentalizando, pouco a pouco, para aceitar medidas que, ontem ainda, seriam verdadeiramente impensáveis. A isto acresce que, de há uns tempos para cá, a criminalidade ganhou um estatuto mediático que tradicionalmente só lhe era concedida por jornais de sarjeta. O crime vende e se for violento vende ainda melhor. O que talvez explique que, embora as estatísticas oficiais continuem a não dar razões que justifiquem o aparecimento de uma onda de insegurança generalizada, o facto é que ela começa a existir. Pelo que só quem não quiser ver é que não percebe que o terreno está propício ao aparecimento de mais atropelos à nossa privacidade e direitos individuais.
Bem dito, melhor feito. O combate à criminalidade na baixa da cidade do Porto vai, a partir de agora, contar com câmaras de videovigilância. E já há planos para alargar a ideia a Guimarães, Coimbra, Portimão, Fátima... O «ex-espião» e agora Ministro Rui Pereira aplaude, o presidente da Associação de Municípios Fernando Ruas não lhe fica atrás em entusiasmo, a Comissão Nacional de Protecção de Dados aprova, a monstruosidade avança. Rodeada de garantias, é certo. As câmaras só estarão ligadas depois das 21h00, os rostos dos cidadãos serão desfocados e só podem ser analisados com recurso a uma chave de desencriptação. Tudo muito moderno, tudo muito bonito se em Portugal não soubéssemos quanto vale a palavra e a eficiência do Estado quando toca a guardar os seus segredos («remember Casa Pia?»).
Espero, sinceramente, estar enganado ou estar a fazer uma tempestade num copo de água. Compreendo a necessidade imperiosa de travar a criminalidade violenta. E sei bem que, nestas coisas, nenhuma medida, por mais intrusiva que seja, é de per si, de molde a transformar subitamente o país num estado totalitário. Mas há ensinamentos que aprendi ainda melhor. Um deles é que não pode haver liberdade sem privacidade. E espanta-me que num país que lutou quarenta anos para conquistá-la se brinque com o fogo com tanta leviandade e tão pouco escrutínio.

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Loira Burra?


«A modelo brasileira Gisele Bündchen, 27, teria colocado como condição para aceitar um contrato a garantia que de que não seria paga em dólares, segundo o tablóide britânico "The Sun". Em vez da moeda americana, Gisele pediu que o pagamento fosse realizado em euros. O contrato em questão seria o anúncio para a marca de xampu». in Folha Online
Ao contrário do que possa parecer este não é um simples fait-divers. A notícia diz mais sobre o actual momento macro-económico do que se possa pensar. E a continuar assim, a moça arrisca-se a substituir o oráculo Greenspan. Ganha-se em clareza e (já agora) em beleza.

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