quinta-feira, 10 de março de 2022

Dois erros sobre Nietzsche II

 

Nietzsche não é anticristão. A população gosta de o ver como tal, mas apenas porque isso lhe dá uma sensação de aventura, uma aventura que julga não perigosa, com cintos de segurança, das que são da predilecção da época.

O principal problema de Nietzsche é o Cristo. Ora os seus seguidores pretendem que Cristo deixou de ser problema. Como muitas vezes acontece, são os seguidores os maiores traidores.

Que entendo por isto? O tema da morte de Deus é tema cristão por excelência. Desde os Padres da Igreja que é expressão trivial. O paradoxo, um dos maiores paradoxos do cristianismo, é precisamente o da morte de Deus. Os chineses, quando contactam nos séculos XVI e XVII com o cristianismo, é exactamente essa objecção que fazem. O Mestre do Céu esteve durante trinta e três anos ausente, deixou de governar o mundo e depois morreu? No século VI na Arábia, antes do islão, missionários etíopes vêem ser-lhes atirado à cara o mesmo argumento, e Santo Agostinho fala de «Deus crucifixus».

A morte de Deus para Nietzsche não é uma mera verificação, uma certidão de óbito, uma peça burocrática. No «Zaratustra» o que é dito? «Matámos Deus! O que vamos fazer agora?» As frases são significativas. Cito de memória, mas revelam tudo o contrário do que a população julga. Em primeiro lugar não se trata de um evento exterior. Foi acto nosso. Matámos nós. Fomos nós a matar. De seguida há uma pergunta: que vamos fazer? É um problema. É o problema mais decisivo que existe. E é um problema nosso.

Nietzsche no fim da sua vida assinava como Dionísio ou o crucificado. O centro do pensamento de Nietzsche é precisamente o de se confrontar com Jesus. Jesus é o principal problema de Nietzsche, não uma peça sobressalente que se deixou para trás porque inútil. Nesse sentido é um pensador eminentemente cristão, como aliás era natural com a sua formação. Tentou ser o verdadeiro Israel, o que lutou com Deus. E perdeu.

 

Os dois problemas estão ligados, e em muitos mais níveis que os que possa agora desenvolver. Mas podemos ver os seus traços principais.

Nietzsche falava dele mesmo e não era pensador anticristão. Qual o centro da sua acusação? Muito simplesmente, o do «nulla salus sine Ecclesia». Não há salvação fora da Igreja. Nietzsche quis experimentar outra via. Criou o super-homem como substituto do Homem-Deus, bebeu dos profetas pagãos, seja os gregos seja um profeta de que pouco se sabe, Zaratustra, que foi desde sempre uma alternativa mítica ao cristianismo para os cristãos. E significativamente já tinha sido uma desilusão para os homens das Luzes e imagem de farsa em Mozart.

Quis demonstrar que era possível salvação fora da Igreja, mesmo que fosse uma salvação trágica, uma dissolução, um apagamento. E falhou. O fim da sua vida mostra que a experiência falhou. E é esse fracasso em grande medida que fascina os seus seguidores. O seu fracasso torna-o uma figura crística, que tanto fascina os que se dizem fora do cristianismo.

O seu projecto é a demonstração do seu fracasso, mas a população tem dificuldade em o ver.

Nietzsche seguiu um percurso nada original em si mesmo. Seguiu o percurso que se segue na Europa desde o advento do cristianismo. A forma de saída do cristianismo não é algo alem do cristianismo, mas sempre algo aquém do mesmo. Foi à cultura grega, imaginou ir ao mazdeísmo.

Ora este percurso é sempre e sempre o mesmo na História da Europa. Seja Celso, que ataca os cristãos, seja Porfírio, seja Juliano, o Apóstata, ou o pagão Damáscio, que segundo alguns é nada mais nada menos que o autor do Pseudo-Dionísio o Areopagita, o percurso foi sempre o mesmo. Retornar ao paganismo. Sim, mas que retorno é este, que é todo o retorno? O retorno nunca é nascer virgem, implica sempre trazer consigo o seu ponto de origem. Estes retornos ao passado foram sempre marcados pelo cristianismo. Ou a imitação da Igreja cristã, com Juliano, ou da doutrina, se for verdade a tese sobre Damáscio.

Mais que o pensamento de Nietzsche, o significativo na nossa época é o seu sucesso, e o seu sucesso por ser lido de certa maneira. Ora Nietzsche é lido como oráculo grego e anticristão. Que está por detrás disto? O que diz o sucesso de Nietzsche sobre a nossa época?

Que em boa verdade é simplista, tanto mais quanto supostamente invoca a imensa complexidade de cada átomo a que se refere. A ideia que está por detrás desta leitura de Nietzsche é que antes eramos todos cristãos e agora deixámos todos de o ser, porque em boa verdade mesmo os que têm fé fazem-no apenas por teimosia, sinceramente, concede-se, mas com muitas dúvidas.

Esta visão simplista do antes e do depois dá sucesso a Nietzsche, um sucesso errado, tão errado quanto o que teve na filologia, onde foi pouco original. Simplista e mentirosa. Em todas as épocas históricas houve dúvidas, em todas ser cristão foi sempre participar de uma vibração, nunca foi estar pura e simplesmente instalado. Os sinais que temos disso são por vezes fracos, mas isso não significa que a força de fundo seja fraca. No tempo de Gerbert d’Aurillac, o futuro papa Silvestre II, havia em Ravena um erudito que ensinava que os poetas antigos diziam a verdade e não os Evangelhos, uns anos depois São Pedro Damião agastava-se com os exageros dialécticos dos monges de Montecassino e em algumas cidades. No século XV Plethon irrompe na cultura europeia, dando impulso a uma forte presença de neopaganismo. Mas já séculos antes se praticava nos mosteiros e nas catedrais poesia erótica de inspiração antiga, mas de libido fresca.

Nietzsche não fala dos gregos, mas dele mesmo. Não é anticristão, mas mais um entre os muitos cristãos que tentaram o experimento de sair do cristianismo e pela mesma via que outros. Nietzsche é grande não pelo que disse sobre os outros, mas sobre si mesmo, grande como testemunho. Como certos médicos que experimentam consigo os medicamentos que inventaram, Nietzsche vale pelo experimento sobre si mesmo, pelo testemunho que dele deixou. E pelo seu fracasso.

Nisto vale portanto como prova que a modernidade apenas mente sobre si mesma. Idolatra Nietzsche como modelo, como doutrina. Mas é a mesma modernidade que tanto insiste que o pensador não pode ser sindicado pela sua vida - criação escolástica, o que esquece - que usa como modelo quem não separou a sua teoria da sua vida e se fez exemplo e experimento. A mesma modernidade que diz que já superou o cristianismo, que usa como modelo quem foi o atleta de Cristo alternativo por excelência. A mesma modernidade que invoca os deuses do complexo segue Nietzsche como modelo porque afinal só vê o passado de forma simplista. A mesma modernidade que segue Nietzsche porque não cristão, mas em boa verdade segue-o porque isso lhe permite viver os temas cristãos sem ter de o confessar. O que assusta a modernidade não é o facto, mas a confissão, por isso evacua.

Não, Nietzsche não falou dos gregos nem de Wagner: falou de si. Não, Nietzsche não é anticristão mas um pensador eminentemente cristão. Como todos nós: filhos de pagãos.

 

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

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terça-feira, 8 de março de 2022

Dois erros sobre Nietzsche I

 


 

Entre a população imperam acima de tudo dois erros sobre o pensamento de Nietzsche. São simples de enunciar:

a)     Nietzsche fala dos gregos;

b)    Nietzsche é anticristão.

Estão mais intimamente ligados do que parece. Por isso, carecem de análise comum.

Nietzsche não fala dos gregos. É evidente que nas proposições que ele enuncia, nos temas que apresenta, os gregos estão permanentemente presentes. Quando Nietzsche passa a ter prestígio como grande filósofo, até os filólogos helenistas começaram a citar a sua obra, a usar as suas categorias, a salientar a importância das suas análises, para a compreensão da Grécia.

Mas Nietzsche não fala dos gregos. O grande equívoco passa-se ainda durante a sua vida. Quando von Wilamowitz-Moellendorf, o que virá a ser chamado de príncipe dos filólogos, lê a sua «Origem da Tragédia», fica de tal forma horrorizado que faz uma diatribe contra a obra de Nietzsche. Este não tinha percebido nada sobre a origem da tragédia. Faz entretanto um pequeno livro sobre o que é a tragédia ática. O adjectivo «ática» não é inocente, querendo salientar que a tragédia é feita nesta parte da Grécia, não é um fenómeno grego geral na sua origem.

Passados uns anos, quando Nietzsche já estava morto e já tem grande prestígio, von Wilamowitz repensa a questão e redime Nietzsche. Diz: realmente, as críticas que fiz foram injustas, Nietzsche não está a falar dos gregos, mas de Wagner. E teve a arte de, homem inteligente e culto que era, de falhar no alvo. Mais uma vez.

Nietzsche não fala dos gregos. E não fala de Wagner. Nietzsche fala dele mesmo. É esse o seu génio e a sua originalidade.

Se bem virmos, o que é vista como a grande originalidade de Nietzsche está bem longe de o ser. Este apenas traz para o público em geral o que já era movimento comum na erudição clássica, desde pelo menos a Renascença, para muitos filólogos, tanto os primitivistas ingleses do século XVII, como no fim do século XVIII e início do XIX com Wolf e Humboldt. O lugar comum era simples: o apogeu da cultura grega está na sua poesia primitiva, é em Homero, Hesíodo, ou Píndaro na melhor das hipóteses, que está o seu auge. A filosofia, a via discursiva, é já um sinal de decadência, de amaneiramento.

Esta a teoria que eventualmente prevaleceria na escola de Pforta, em que Nietzsche estudou. Nenhuma originalidade. Admirar Nietzsche pelo que ele tem de escolar é um paradoxo não pequeno da nossa época. Ou talvez não tão grande assim, porque a nossa época gosta de escolásticas, desde que não se apresentem como tal. Das encobertas, das clandestinas. Porque a nossa época é escolástica, mas não gosta de dizer o seu nome.

A grande originalidade de Nietzsche é ser uma espécie de ritual do Graal, do ciclo do rei Artur. Talvez por isso ele detestasse o «Parsifal» de Wagner, porque o punha nu. O grande ciclo que põe a nu as várias camadas de que somos feitos nós os europeus.

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Le style tricoteuse

 

Voilà que la France aime nous surprendre. Elle crée. Elle croit créer au moins et on peut faire semblant de le croire. Feindre c’est une seconde nature avec des gens qui se croient créateurs et ne sont que des créatures.

Le sapin de Noel est interdit par les écologistes à Bordeaux et dans le douzième arrondissement de Paris «Préserver l’esprit de Noël» ou «s’adapter à l’urgence climatique» : à Paris, la guerre des sapins est déclarée - Le Parisien Voici pourquoi la mairie de Bordeaux ne veut pas planter de sapin à la place de "l'arbre mort" | Actu Bordeaux. Le nouveau sapin de Noel c’est du verre et du fer (Bordeaux : les réactions des internautes devant le nouveau sapin de Noël (sudouest.fr)). Des vrais matériaux de guerre. Hitler aurait aimé. Il aurait aimé le matériaux et l’envi de purification.

Ailleurs de Noel est interdit. Désintox. Non « joyeux Noël » n'a pas été remplacé par « Fantastique décembre » à Besançon (francetvinfo.fr) ou non. Le vrai c’est qu’on parle de «Fantastique décembre» ce qui fait penser que pour ces gens-là les autres mois sont grisâtres. Pourquoi décembre est-il fantastique? On l’omet. Pourquoi on veut l’omettre ? On le sait. Ce n’est qu’une expérience. On l’étendra peu à peu. On veut en premier place habituer les gens à le voir disparaître : peu à peu.

On le sait. On le fait peu à peu. On teste la population. On l’habitue. Mais surtout on montre ce qu’on est. Voilà que les Français découvrent ce qu’est le fond de la pensée écologiste. Elle n’a rien à voir avec la nature. Le très catholique conte de Montalembert a plus protégé la nature que les ancêtres des verts. La nature n’est qu’un prétexte.

Notre Dame du Pif dépense une fortune en produits de beauté créés par la société capitaliste. Et elle dit que la société capitaliste ne fonctionne pas. Elle a raison. On la voit, on voit ses produits de beauté, et ils ne fonctionnent pas. Elle ne voit pas les violences d’extrême gauche. Et pourtant elle porte des lunettes. Pourquoi ? Pour souligner le Pif. Elle n’aime pas la vérité, mais elle aime souligner les évidences. Ce n’est pas le roc du poète, parce que rien chez elle est poétique. Cyrano ne la chanterait point. Il la piafferait.

Monsieur Chiot est contre la chasse. Mais la chasse contre les chiots. Chasser des jeunes femmes ou des fœtus c’est tout une autre histoire. Là Monsieur Chiot sait qu’il est sur le terrain de la liberté. De sa liberté. Sa très chère liberté. Et on doit bien réfléchir. Monsieur Chiot n’aurait pas de prétendantes si elles étaient libres. Voyons Monsieur Chiot. Il n’est pas irrésistible. Il faut les forcer un peu. Au nom de la liberté. Celle de Monsieur Chiot. Si les Français aiment les Chiots, tant mieux pour les Chiots. Il pleure parce que qu’il a de la sensibilité. Sa sensibilité. Comme sa liberté, ce sont des choses importantes. Celles des autres… Existent-elles ?

On le sait. C’est de royaume du petit bourgeois. Il hait le prolétaire. Il s’est montré en Barthes et Foucault. Barthes avait fait la découverte géniale de la violence chez Racine, au-dessous du lisse du texte. Si Barthes était aristocrate ce serait pour lui une banalité. Mais comme il était petit bourgeois, il a révélé aux petits bourgeois ce qu’on savait dès toujours. Tout devient ontologique chez le petit bourgeois, parce qu’il n’a pas d’essence. Il hait qui en a. Il commence par «déconstruire» («Destruktion» c’est le mot original allemand, un peu nazi), mais pour dire que tout est naît de l’essence. On ne fuit pas à son essence : on naît oppresseur ou opprimé. On se dit contre les essences pour imposer les siennes. Le petit bourgeois vit dans le désespoir : il sait qu’il ne vaut rien, et il veut que personne ne vaut quoi que ce soit. Il est contre ce qui existe, parce que ce qui existe l’insulte. Et c’est vrai. La vérité dit qu’il est répugnant. Le monde où il gouverne est le monde de la nausée. Sartre dixit.

Ce sont des gens fascinants, ceux qui pullulent sur l’espace publique. Leurs ancêtres sont les tricoteuses. Ils veulent voir comme spectacle la chute d’une civilisation, tandis qu’ils font ce que leurs savoirs traditionnelles leur permettant de faire: du tricot. Le monde a admiré na France. Elle devient la risée du monde. Ce qu’ils montrent c’est le plus absolu manque de goût. Prétentieux, parvenus du recyclage, imitateurs et serviteurs des Américains. Si les Français veulent qu’on leur donne de l’importance ce serait mieux de voir le dommage que ces gens font à son image. Ou bien continuer à être gouvernés par des Pifs, des Chiots et des faux sapins de Noël.

J’aime vous admirer, vous les Français. C’est mon défaut.  Mais, si vous vous couvrez de ridicule et pas de gloire, c’est le vôtre.

 

Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 5 de novembro de 2021

A responsabilidade histórica

 

É o que vemos nas tabernas e na televisão. Falam-nos de responsabilidade histórica. A Europa tem responsabilidade histórica, coisa que mais ninguém tem. Invocação de privilégio aristocrático único, quem o invoca deve ser visto com particular admiração, ou suspeita. Porque julgas ter o que mais ninguém tem? O que te leva a sentir tão especial?

O problema é que a responsabilidade histórica… não é um conceito histórico. O adjectivo «histórica» está plantado como uma peruca torta numa cabeça mirrada que não a sustenta, como uma coroa feita para mais imperial cabeça. Não é tarefa histórica atribuir responsabilidades. Essa é tarefa de advogados, juízes, executores. Porque se precisa de usar o adjectivo «histórica» para fazer algo que a História não pode fazer?

Este conceito levanta mais um outro problema. É que quem fala da responsabilidade histórica dos seus antepassados mostra não conhecer bem os seus costados. Talvez não tenha sido claro para todos, mas os arranques industriais são feitos explorando em primeiro lugar os próprios provos, e só depois outros. Talvez tenha ficado algo esquecido, mas havia um proletariado inglês, alemão, francês, belga. Que significa isso? Que os primeiros explorados pela expansão capitalista são os próprios povos. Foi o que fez a Europa ao longo do século XIX, foi o que fez a China desde o fim do século XX.

A maioria das pessoas descende, não dos dominantes, mas dos dominados. Por isso, se alguém diz que tem responsabilidade históricas porque os seus antepassados exploraram outros, terá de verificar bem se não estará a violar não apenas a estatística, mas igualmente a sua história familiar. O mais provável é que seja descendente da criadagem, de proletariado, tão explorados quanto o nativo nas colónias. Posso por isso anunciar uma boa nova: não têm responsabilidade histórica. Os seus antepassados foram tão explorados quanto o indígena, são descendentes de explorados, tal como o colonizado.

A sensação desagradável que julgavam sentir pelos privilégios que tiveram os seus antepassados é apenas fruto de alguma presunção. Olhem-se ao espelho. Descendem de degradados, é de baixo coturno, tem finalmente motivo para se alegar pelo facto. Não têm responsabilidades históricas.

Resta portanto saber quem tem responsabilidade histórica. Mas é evidente: os descendentes dos dominantes. E quem são estes? A nobreza, é evidente. São os nobres quem descende de uma mais longa linhagem de exploradores, esses sim têm responsabilidades históricas.

Mas também aqui nos deparamos com um problema. É que desde há cerca de quarenta anos me dizem que não existo. Que não há nobres. E ficamos todos felizes. Os únicos com vocação para serem culpados são considerados inexistentes pela mesma ideologia que procura culpados a todo o transe.

As responsabilidades históricas são assim um conceito espúrio que apenas pode nascer em mentes muito fracas: são privilégio de europeus, e não de mais nenhum povo que teve impérios.  Os turcos e árabes podem ter impérios, mas não têm responsabilidades históricas. Pena que só atinge uma raça, estranha doença. Provoca sintomas ginecológicos em homens, até estes descobrirem que lhes é impossível apanhar a doença.

São descendentes de explorados, e ainda não perceberam que se podem reivindicar vítimas. E os únicos, os restantes, únicos culpados, de tal maleita não existem. Exclusividade, intensidade, reflectividade e inexistência. Cheira quase a criação de uma estrutura algébrica. Mas por quem não sabe fazer contas. Pode, por isso, o leitor alegrar-se sempre que vir alguém invocar responsabilidades históricas. Significa apenas que tem semblante não decorativo, e interior não funcional.

Façamos uma síntese. Quem fala de responsabilidades históricas:

1)   1) É confuso: confunde História com contabilidade e direito;

2)   2)  É racista: considera que a responsabilidade não vem do que se pratica, mas de uma raça, tem um pensamento racista (se forem outras culturas a fazer os mesmos que os europeus já acha que não têm responsabilidades; assim os turcos e os árabes, que fizeram impérios a que devemos muito);

3)  3)  É desprezante: despreza o proletariado;

4)   4)  É desprezante de si mesmo: despreza os seus antepassados;

5)   5)  É presunçoso: quando se sente responsável sente-se de origem nobre;

6)   6)  É inconsistente: o único responsável consistente que existiria, ele mesmo diz que é inexistente.

Em suma, não é muito dotado sob o ponto de vista intelectual. O que em si não é pecado. Salvo quando se demonstra que é ideias que pretende criar. Que um destituído intelectual queira fazer desporto, em nada tem de condenável. Que queira ter ideias… Apenas mostra que quem o segue com ele sente afinidades… Intelectuais.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 23 de agosto de 2021

A modernidade como paródia

 

 «Moderno» é uma palavra velha. De que me lembre, surgiu na prosa latina do século IV d. C. Com o significado de «à moda de hoje», «à maneira de hoje». Os medievais, pelo menos desde a Baixa Idade Média, não se chamavam a si mesmos de «medievais», é bom de se ver. Chamavam-se de «modernos». E muitas vezes com muito mais orgulho do que a maioria se lembra e, pior que isso, com boas razões para se orgulharem.

 

Tem por isso de ser vista com suspeita a vontade de ser moderno. Ter vontade de ser algo diagnosticado na Antiguidade Tardia e enlevado na Idade Média não é em si problemático. O problema está em ter essa vontade enquanto se nega a origem do que se quer ser.

 

A modernidade apenas podia ter nascido como paródia. Imita-se o antigo e faz-se obra que se anuncia como original. Liberdade, igualdade e fraternidade, máxima aristocrática por excelência, passa a ser democrática por extensão. Já o velho Aristóteles dizia que o problema da democracia é considerar em tudo iguais os que o são apenas em algumas coisas. Todos são iguais e livres por nascimento. Que critério aristocrático. Que suspeito. Porquê o nascimento como critério? A morte de Deus surge como grande novidade quando é tema cristão trivial. Já Santo Agostinho falava de «Deus crucifixus». A velha da comunicação dos idiomas…

 

O problema é que a modernidade é uma paródia vazia e desonesta.

 

Vazia, porque tudo pode ser a moda de hoje. Desde amar judeus como matá-los, desde ajudar o próximo como o prejudicar. 

 

Desonesta, porque nunca se anuncia como paródia. Anuncia-se como origem. Uma paródia honesta só funciona caso se reconheça a sua fonte. É citação. Quando o deixa de ser, passa a ser plágio e distorção. 

 

Perante esta paródia, há tipicamente quatro tipos de personagens, segundo a sua reacção à paródia.

 

Os primeiros são os transeuntes. São os seguidores. Seguem a modernidade como seguiriam qualquer outra coisa. São os modernos por inevitabilidade, os modernos por submissão. Seguem a moda de hoje porque vivem hoje. Seguiriam a de ontem se tivessem vivido ontem.

 

Os segundos são os histriónicos. Parodiam a própria paródia. São os que perceberam que a paródia lhes dá poucas hipóteses: ou segui-la, ou intensificá-la. Incapazes de verdadeira criação e pensamento, aterrorizados pelo anonimato a que a razão os condena, decidem-se pela intensificação. É a sua única forma de existir. Se a modernidade preserva a hierarquia aristocrática na literatura, se ser patriota é amar Dante, Ariosto, Camões ou Racine, basta atacá-los e dizer que são apenas uma forma de dominação arbitrária. Bach é mais recente que a música do Mali e o free jazz é mais complexo no ritmo que Bach, Cole Porter é um génio, Mozart apenas um homem com muito talento. E o facto de os matemáticos italianos do século XVI terem resolvido em 50 anos mais problemas matemáticos que os muçulmanos em oito séculos é irrelevante. A expressão histriónica por excelência é a do «sem sentido», seja ela pronunciada por Wittgenstein ou um estruturalista. O que não gostamos nem sequer é falso, apenas não tem sentido, não surge no mundo se não para abortar. É a paródia do «credo, quia ineptus» de Tertuliano. Acredito porque é infértil, porque não produz resultado. Criam à sua volta um mundo estéril, incapaz de produzir fruto, exactamente para se sentirem em casa: no deserto.

 

Lévi-Strauss, com o seu modo pontifical, explica-nos que não podemos ver a antropofagia dos índios do Brasil como algo condenável, que isso era apenas fruto do nosso aparelho moral de pequeno burgueses europeus. De pequena burguesia talvez ele possa falar melhor que eu, porque é de onde ele vem - e não eu. E não percebe que, pela sua linha de raciocínio, a dele o judeu, o grande pecado pequeno burguês cometido pelos nazis no holocausto foi o de… não terem comido os judeus. Assim fora, toda a sua prelecção lembrar-nos-ia de como estaríamos a condenar por estreiteza pequeno burguesa (de novo, melhor sabe ele disso que eu) o que seria apenas mais uma expressão de riqueza cultural. Sem as garantias do cristianismo Lévi-Strauss acabaria estufado - e autor da ementa laudatória do prato.

 

Os terceiros são os negadores. Negam a paródia, vivem de negá-la e por isso estão dependentes dela. Se a paródia fala da novidade da morte de Deus, em vez de afirmarem a sua antiguidade, negam a sua existência. Dominados pelo protesto e pelo escândalo, não percebem que estão dependentes da paródia. Sentindo-se, mais ou menos legitimamente, assediados, defendem-se em vez de conquistarem, acoitam-se em vez de avançarem com as forças do seu passado. Compreende-se a revolta. Perceberam que a modernidade é uma paródia, e vazia, e desonesta. Mas não têm instrumentos para saírem da sua dominação. Não conhecendo nem percebendo as fontes, deixam-se escravizar pela paródia. A sua revolta é legítima, o seu clamor tem assento, só não sabem qual. Por isso, são alvo fácil da paródia. Como o demónio sempre soube, são as boas intenções os seus melhores cúmplices. Essa a tragicomédia dos anti-modernos. O de se condenarem a ser modernos.

 

Os quartos são os independentes. Uns chamam-nos de conservadores outros de reaccionários, mas as qualificações estão gastas nesta matéria como em tantas. Burke é tão conservador como Aristóteles e de Maistre tão reaccionário quanto Platão. O que fizeram foi repor selectivamente o parodiado. Não ficaram presos à paródia, seguindo-a, intensificando-a ou negando-a. Viram para além dela, perceberam a sua natureza parasita, compreenderam que era cultivada por epígonos. Esse são os que realmente não seguem a moda de hoje. São as vozes do futuro. Porque ouviram as do passado.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

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segunda-feira, 24 de maio de 2021

Existem burros no Mali?

 


 

Numa rádio pública pontifica uma senhora que faz questão de citar pessoas de outras culturas. Se a cultura estiver longe parece-lhe legítima, por alguma razão. Desta vez cita um músico do Mali que pratica um género musical cuja designação se me escapa. Diz ele, cita-o ela: este género musical é mais antigo que Bach.

 

O argumento pareceu-me definitivo e parece-me bem que o dinheiro dos meus impostos vá para menorizar a Europa. Que um género musical seja mais antigo que Bach mostra uma superioridade de alguma música do Mali sobre a música europeia. 

 

Mas retiremos daqui todas as consequências. Ramsés II é mais antigo que essa música do Mali, pelo que temos uma superioridade de Ramsés II em relação a esse género musical do Mali. Em nome de Ramsés desprezemos pois essa música do Mali. 

 

 

Pessoalmente tive vários tios bem mais altos que Napoleão, o que, se não retira toda a glória militar a Napoleão, lhe diminui algum lustre. Antecipemos que a lista de homens na Calábria com pénis maiores que o de Sócrates seja bem vasta. Anula o seu valor dialéctico? Não. Mas já podemos adivinhar que há certas situações em que Sócrates foi menos impressionante que muitos anónimos da Calábria. 

 

Pessoalmente, e embora não goste de dar o meu exemplo, e durante um certo tempo, estou um pouco mais vivo que Riemann, e confio um pouco mais nas minhas capacidades matemáticas que nas actuais dele.

 

É um argumento pertinente que quanto a mim mancha a grandeza de Bach perante a inequívoca superioridade de alguma música do Mali, de algum dos seus músicos e de uma senhora paga com o erário público.

 

Existem burros no Mali? Temo bem que sim. E noutros lugares . Burras, mesmo. Mas, havendo-os noutros lugares, que me perdoe o Mali por eu não lhe dar nisto o palmarés. 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

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sexta-feira, 7 de maio de 2021

Compreensões…

 


 

«Um chinês nunca conseguirá tocar com profundidade música europeia. Nunca irá perceber Bach, nem Mozart. Parecerá sempre uma imitação barata de um verdadeiro intérprete europeu». Já alguma dia o leitor ouviu este argumento? Está apressado a qualificá-lo de racista? Que pense bem antes de o fazer: já o ouviu sobre outra forma.

«Um europeu nunca conseguirá tocar música chinesa de modo profundo. Se um europeu quiser fazer pintura japonesa parece um macaco de imitação. Nunca irá compreender filosofia oriental, tanto menos conseguirá fazê-la». Já está mais descansado o leitor? Sente-se mais em casa?

Por que razão o primeiro parece tão chocante aos mirones da pequena burguesia, e o segundo tão familiar? É que há alguma assimetria que se foi impondo, sobretudo desde a Segunda Guerra Mundial, alguma assimetria que faz com que pareça natural dizer umas coisas, e chocante dizer exactamente as mesmas coisas, caso varie o objecto.

Temos aqui uma primeira hipótese de solução para resolver este enigma: os europeus são estúpidos, particularmente estúpidos, limitados, os outros povos conseguem fazer tudo o que nós fazemos, só nós somos incapazes de fazer o que eles fazem. Somos inferiores a todas as outras culturas, em suma.

E dou toda a razão. Quando vejo um europeu a dizer isto, olho para ele e digo: Tens toda a razão em dizeres que és inferior. Ao menos tens uma qualidade: és lucido.

Mas este argumento tem um insulto implícito. Como pode um chinês perder tempo a estudar uma cultura como europeia? Deve ser um chinês particularmente estúpido, nesse caso. Fora ele inteligente, estaria a tocar num conjunto de ópera chinesa, e não uma sinfonia de Beethoven. Os músicos orientais que tocam músicas europeias seriam por isso os deficientes da sua cultura, uma espécie de desamparados intelectuais que não conseguem fazer senão estudar a cultura europeia, em vez de estudarem a sua, obviamente muito mais rica e profunda. É melhor não ouvir tais mentecaptos. São as figuras menores, os limitados de entre os orientais. Nunca ouvir um oriental tocar música europeia, ou a fazer ciência europeia, portanto.

Mas como aquele argumento não se aplica a todos os europeus, e seria estranho que uma cultura tivesse nascido com o estranho privilégio de ser inferior em tudo a outras culturas, podemos aventar outras hipóteses de solução do enigma.

Se os orientais conseguem fazer o que fazemos e nós não conseguimos fazer o que eles fazem, surge um outro estranho privilégio da cultura europeia: só nós fazemos coisas imitáveis. O que os outros povos fazem é inimitável. Em suma, não é exemplo para ninguém. Ou seja, são provincianos.

Levemos esta lógica até à sua última consequência: apenas uma cultura foi capaz de criar conteúdos universais, apenas uma cultura é universal quanto ao seu conteúdo. A europeia. As restantes são apenas culturas locais, aptas para os seus nativos, culturas nativas, portanto.

Já sei que o leitor não queria dizer nada disto. Que queria dizer que era aberto as outras culturas (postura sempre confortável, evitadora de estudo), que tem uma visão equânime das outras culturas. Mesmo que para ter uma visão tão equânime tenha de menorizar sempre a europeia.

Mas nós revelamos no que dizemos bem mais do que queremos dizer. Estivera o nosso discurso dependente apenas da nossa vontade, foram as nossas palavras servas da nossa vontade, não teria havido na História, nem oráculos, nem literatura, nem a tão querida antropologia em que assenta o nosso leitor quando diz que as outras culturas não nos são transmissíveis.

O que diz, o que diz efectivamente, quem afirma que um europeu não consegue aprender as outras culturas, mas as outras conseguem aprendem a nossa, é que é a nossa a única universal, a única que criou conteúdos universais, a única que pode ser estudada por todos. Belo insulto, bela restricção, que esconde um tão belo elogio. Gente ínvia, pouco directa, que não sabe o que diz. Mas ao menos que se veja alguma justiça no que diz. Mesmo que a justiça se faça contra ela mesma.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 26 de abril de 2021

O pós-colonialismo

 

Analisemos a coisa de forma lógica. Veremos como a ideia de pós-colonialismo é completamente desconchavada.

 

Em primeiro lugar, é a continuação da ideologia anti-colonialista, que se encontra em Sartre ou Lévi-Strauss. Não é herdeira de Camus em boa verdade, porque este sempre foi motivado pelo sentido de justiça. O primeiro vício é o de, numa ideologia antieuropeia, ser ela mesma uma ideologia de origem europeia. Os pós-coloniais são no fundo submissos ao pensamento europeu, precisamente quando criticam a Europa.

 

Em segundo lugar, são «pós». Quando algum movimento se define como «pós», apenas mostra o vazio das suas ideias. É incapaz de criar um conceito de síntese das suas ideias. Romantismos, futurismo, neoclassicismo são etiquetas muito elásticas que significam coisas muito diversas em épocas diversas. Mas ao menos significam alguma coisa. Quando um movimento se diz «pós», diz que o seu único mérito é vir depois de outros. Mérito curto, porque será seguido por outros. Caduca rapidamente.  O segundo vício é o de pobreza de ideias.

 

Em terceiro lugar, é seguido por pessoas que não vieram para a Europa enquanto escravos, mas de sua vontade. Para quem diz que a Europa é o monumento de horrores que afirma, seria apenas sinal de que não serão muito inteligentes. Alguém que vive numa sociedade tão horrorosa como Europa, se fosse inteligente, fugiria mal pudesse. Andar pelo inferno depois de lá ter entrado de livre vontade e não querer sair mostra algo bem pior que o pecado: mostra a estolidez. Se a Europa é tão má porque não fogem dela?

 

Em quarto lugar, muitos têm nacionalidades europeias. Se dizem que os europeus são ladrões, estão-se a chamar de ladrões, se os europeus são criminosos, são eles mesmo criminosos. O seu discurso é reflexivo, portanto. De certa forma, torna-se divertido. Cada insulto que lançam, é a si mesmos que o lançam. Ouçamos, pois,  com delícia os seus insultos.

 

Mas querem algo mais, querem que as nacionalidades europeias sejam cada vez mais alargadas, que seja fácil adquirir nacionalidades europeias. Seja, querem o horror para os outros, querem que haja outros que sejam nojentos, como os restantes europeus. Querem mais criminosos, mais objectos do seu insulto, desejam o mal aos outros. São malévolos, portanto.

 

Em quinto lugar, sobra uma salvação para o último vício, tenhamos esperança. É que haja dois tipos de europeus: os puros, vindos das colónias, e os porcos originários da Europa. Só nesse caso o insulto poderia deixar de ser auto-insulto. Mas esta solução tem um preço. É que passaria a haver europeus de primeira, os vindos do resto do mundo. Os originários seriam europeus de segunda. Ou seja, seria o retorno ao sistema colonial de cidadãos de primeira e de segunda.

 

E eis que o ciclo se fecha. Ideologia anticolonial nascida na Europa, revela-se submissa às categorias europeias, pensamento de submissos. Apenas se demarca de outras porque diz que vem depois de outras, mas não tem ideias próprias além de copiar o que os europeus pensaram. Seguida por pessoas pouco inteligentes, porque seria bem mais sensato fugir do inferno que descrevem ser a Europa. Vivem a insultar-se a si mesmos. E querem espalhar este mal a outros. Desejam o mal aos outros. E a única forma que têm de se salvar deste defeito seria a de instruir um sistema colonial. Está fechado o ciclo. São os novos colonizadores, inspirados pelos anteriores, com menos ideias, mais ódio e desejo de vingança que os anteriores. O que começa na epopeia, em cópia acaba na farsa.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Pascal Blanchard et le soi-disant islamo gauchisme

 


 

(2) Islamo-gauchisme : la polémique - C l’hebdo - 20/02/2021 - YouTube

 

Je ne le connaissais pas. Un soi-disant historien parle d’un soi-disant islamo-gauchisme. Les formules ne m’ont jamais fasciné. Les exemplaires significatifs oui. Monsieur Blanchard énonce une théorie de distinctions qui montrent que la réalité est toujours plus complexe, et il est en train de la dévoiler. Si ; on peut dévoiler la réalité, parce qu'on nous a appris que la réalité est opaque (Heidegger dixit), mais on paye à des éminents professeurs pour qu’ils nous disent toujours la même chose : que leur fonction c’est de la dévoiler, mais… qu’elle est opaque.

 

Il fait des études post-coloniales. Je ne sais ce que sont les études post-coloniales. Ça vaut dire qu’elles sont faites après la fin des empires coloniaux ? Ce serait ainsi, ça voudrait dire qu’une thèse sur l’analyse infinitésimale publiée aujourd’hui est une étude postcoloniale. Est-ce qu'il y en a malgré tout a un contenu précis dans cette expression «post» ? Si c’est ainsi, le mot «post» ne dit rien sur le contenu. C’est un mot vide. Ceux qui l’utilisent ne sont pas capables d’énoncer synthétiquement le contenu de ce qu’ils proposent comme point de vue sur le monde. Un «socialiste», un «libéral», un «romantique» peut dire beaucoup de choses, même très contradictoires, les mots peuvent être mal utilisés, la plupart du temps d’ailleurs. Mais au moins il y en a un essai de dire quelque chose avec les mots qu’on utilise.

 

On le sait déjà : les post-modernes, poststructuralistes, les postchrétiens et tant d’autres «post» nous l’ont déjà montré. Ils n’ont pas d’idées sauf une : qu’ils viennent après d’autres. Ces autres qu’on doit caricaturer pour montrer qu’on est plus sophistiqué, plus critique et moins naïf que nos ancêtres. Voilà tout - le vide.

 

Mais cette expression «post» est-elle si vide ? Ou est-ce qu’à la limite, parce qu’on ne peut pas vivre des décennies en disant des phrases absolument vides, elle dit quelque chose ? Quelque chose qu’elle ne veut pas dire, mais qu’elle veut cacher. Ce mot «post» vaut dire qu’on veut cacher. Au moins nous avons découvert quelque chose que ce mot vaut dire.

 

Mais que veut cacher ce professeur ? Que veut-il professer ? Une vision critique qui n’existait pas par le passé ? Critique de quoi ? Du colonialisme ? Mais la critique du colonialisme, on la voit chez Joseph de Maître, Chateaubriand, Pareto, chez les mouvements protestants britanniques ou norvégiens, auxquelles s’oppose la très laïque Compagnie des Indes Orientales britannique, le prince Leone Caetani, Gomperz (qui critique aussi l’inégalité des femmes), même Alexandre Pope ou les jésuites …

 

 

Dit-il que le très illuministe Volney défendait le colonialisme? Ou la très anticolonialiste Birmanie défend les idées impériales japonaises ? Que des anticolonistes arabes disent que Shakespeare était arabe et son vrai nom as-Sayj Zubayr? Que le parti communiste français n’était pas anticolonialiste parce que les ouvriers de Renault apprenaient à l’école que l’Algérie était française (voir les mémoires de Paul Germain)? Qu’Étiemble fait des Lumières l’ancêtre du colonialisme?

 

Que la France soit criminelle, c’est là la découverte ? Mais si la France nous le dit dès plus de soixante-dix années. Si Sartre avait déjà dit que le colon est un chien et doit être tué comme un chien (le pauvre, il voulait imiter Nietzche dans l’insulte, mais l’art de Nietzche n’est pas donné à tous)? Que le catholicisme était persécuteur ? On vous écoute dire ça il y a plus de deux cents ans. Et les nazis l’ont dit avec vous. Vous ne choquez pas le monde. Vous l’ennuyiez. De tant nous parler de vos nouveautés, on croit à votre consistance : vos nouveautés sont toujours les mêmes. Vous ne savez plus produire du nouveau ?

 

Voilà, quelles sont les merveilleuses découvertes de ce mouvement post-coloniale? Et les «études du genre»? Voilà ce qu’il dit: «Les hommes ont raconté l’Histoire pendant vingt siècles» (15m50s du vidéo). Voilà ce qu’il fallait cacher. Avant ces vingt siècles les hommes n’avaient pas ce monopole. Avant ces vingt siècles hommes et femmes pouvant raconter l’Histoire comme des égaux.

 

Qu’est-ce que s’est passée entre-temps ? Quelle sénatus-consulte du temps de Tibère, quelle loi des Parthes, quel décret d’un rajah quelque part en Inde a tout changé sur le sort des femmes ? Qu’est-ce que s’est passé il y a deux mil ans ?

 

Hypothèse hardie, peut-être, mais je vais l’énoncer. Le christianisme. Ce qu’il voulait voiler l’est venu quand il a voulu simplifier. Voilà l’ennemi. C’était plus fort que lui. Quand monsieur veut augmenter la complexité il ne fait que voiler, de nous envelopper de feux d’artifice conceptuels. Quand il devient simpliste, il devient sincère.

 

Qu’est-ce qu’a changé le statut de la femme dans le christianisme ? La question de la «homoousia» ? La double nature du Christ ? Mais non, que les femmes dans de gynécée à Athènes ou en Perse, ou les femmes dans les harem à Bagdad sachent qu’elles sont bien plus libres que les chrétiennes. Huit reines de droit propre en Angleterre, trois en Espagne, deux au Portugal, des dizaines de souveraines de droit propre en Europe chrétienne, quel retard par rapport au statut de la femme chez les Azéris.

 

Le problème c’est que c’est facile, c’est trivial, c’est déjà vu. Le problème c’est que la discussion intellectuelle en France a vu diminuer sa qualité rhétorique, philosophique et sapientielle dès la fin de la Deuxième Guerre Mondiale.

 

Beaucoup d’ exemples pourraient démontrer ceci. Chaque fois qu’on écoute l’expression préférée de Hitler et Himmler de «judéo-chrétien», l’oppression par le christianisme, la plus grande «tolérance» des autres religions (le nazisme a laissé sa marque en France, on le voit)… Ou chaque fois qu’on écoute cet argument «la Bible est violente», sans faire une distinction, connue du reste du monde, entre Ancien Testament et Nouveau, que les Pères de l’Eglise maniaient déjà très profondément du point de vue théologique (fonction prophétique de l ‘Ancien, bourré de mauvais exemples moraux, par exemple) … On pense qu’une belle culture est en décadence et ne s’en rend pas compte.

 

Que les soi-disant intellectuelles défendent tout ce qui reste de plus avilissant pour l’être humain, toute sorte de régimes totalitaires, c’est quelque chose qui ne choque pas les Français, apparemment. Ce qu’on doit faire c’est tout simplement de substituer l’object de notre idolâtrie. Staline passe le témoin a Mao, à Kadhafi, au monde ouvert à tous, et aux victimes des empires coloniaux, musulmans de préférence, même s’ils sont Turcs et n’ont pas été victimes d’empires mais auteurs.

 

Voilà l’ennemi commun, tout se comprend. Les vingt-siècles où un obscur édit de Tibère a tout changé. La femme, qui a été libre pendant des millénaires, a été subjuguée par cet obscur édit. Tout est bon si on a de bons sentiments. Il y en aurait tant de choses à dire… Mais de la part de quelqu’un qui aime la culture française, celle de Pascal, de Cauchy, de Poincaré, de Racine et Molière ou Pasteur, c’est triste de voir jusqu’à quel point elle se laisse devenir la risée du monde. Et, avec l’histoire intellectuelle des dernières décennies, à pire encore : à ne plus compter, tout simplement parce qu’on veut avoir de bons sentiments, de meilleur «sens critique»… Mais on ne fait que voiler et se voiler. C’est un requiem que je ne voudrais pas faire. Ce serait trop triste pour moi. Il faudrait que la France m’en enlève la raison de ceci.

 

Voulez-vous, monsieur, que nous, qui ne sommes pas des Français, étudions une culture d'un pays que vous dîtes être raciste, criminel, coupable? Ça vaut dire que vous nous conseillez de ne pas en étudier la culture. Soit. Beaucoup de gens vous croiront. Et vous laisseront à vous seuls les Français la tache de vous démêler d'une culture que vous qualifiez d'aussi déméritante. Vous voulez une France fermée sur elle-même, engourdie dans sa saleté. On vous donnera raison, comme une raison pour vous oublier. Sachez, monsieur, que cette auto-suffisance c'est toujours le premier pas vers l'isolation. Vous voulez une France provinciale. Il y aura des étrangers heureux de vous donner raison. Permettez-moi, monsieur, que tel ne soit pas mon cas. Si je dois choisir de vous condamner à vous ou à votre pays souffrez que je ne sacrifie votre pays. Il est déjà sacré pour moi. Vous pouvez deviner votre sort. Pour votre consolation, il ne m'est pas imputable, parce que je ne suis pas le destin. Si le miroir vous dit que le monde est laid, ce n'est que le miroir soit menteur, c'est que ce n'est pas le monde ce que vous y voyez.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Nazis, arianos e anti-semitas

 

 

O lugar comum é o de que os nazis eram anti-semitas e a ideia de arianismo é tipicamente nazi. Quanto a canalha se satisfaz com ideias simples é bom sinal, porque seria pouco útil à sua paz deixá-la na confusão. Como entre nós podemos usar de alguma intimidade, podemos dar-nos ao luxo de abrir algumas distinções.

A oposição entre arianismo e semitismo não é nazi. Vem da História e da indo-europeística do século XIX.

A ideia não é de direita, mas é partilhada pela direita e pela esquerda. Renan usa-a com naturalidade. E é prova disso também o actual anti-semitismo de esquerda, sempre com a desculpa do povo palestiniano e do sofrimento dos árabes (árabes que nunca se interessaram verdadeiramente pelo destino dos palestinianos na sua maioria).

A ideia não é estranha aos judeus. Os judeus até aos anos de 1930 usavam esta oposição com naturalidade, como se vê pela correspondência de Freud.

Os estudos indo-europeus não são apanágio dos arianos. Um judeu como Benveniste foi um dos seus maiores cultores.

Indo por negação já começamos a limpar o nosso caminho da sujeira da turba. Podemos entrar então na ideologia nazi. E também aqui temos de ver negações.

O pensamento nazi não era em sentido técnico anti-semita. O pensamento nazi não era plenamente favorável ao arianismo nem aos indo-europeus.

Vejamos a primeira negação. Os nazis gostavam muito da maioria dos povos semitas ou semitizados: os árabes.

Como é típico do Maio de 68, herdeiro no nazismo, o nazismo gostava muito de uma religião semita por excelência, o islão. Nas S.S. não eram admitidos capelães, mas houve duas brigadas S.S. muçulmanas e nelas eram admitidos capelões islâmicos. O grande Mufti de Jerusalém foi recebido por Hitler e apoiou o genocídio dos judeus. O mufti de Jerusalém Hadj Amin al-Husayni em 1941 entrega declaração aos alemães e italianos em que propõe que estes proclamem que é reconhecido aos árabes tratarem a questão judaica nos mesmos termos que os nazis e os fascistas. E ministros de Nasser diziam que o maior político era Hitler ainda nos anos de 1950. O Dr. Noureddine Tarraf ministro da saúde de Nasser diz : «Hitler é o homem da minha vida».

O nazismo era anti-judeu. Profundamente anti-judeu. Mas talvez não totalmente anti-judeu. Não apenas houve judeus nazis como Bronnen (ou Bronner) ou o historiador Karo, como suscitava discussão se os judeus holandeses de origem portuguesa eram verdadeiros judeus, ou deviam ser devolvidos a Portugal. Discussão que não foi meramente teórica, porque fez com que alguns deles sobrevivessem à II Guerra Mundial. O nazismo não era inequivocamente anti-sefardita. Era inequivocamente anti-askhenazy.

O nazismo não era totalmente pró-ariano.

A sua relação com o Irão era equívoca, umas vezes por oposição aos semitas dados como exemplo, outras por influência das fontes gregas (afinal as mais antigas fontes literárias sobre a Pérsia antiga são nossas, são gregas) vistos como o inimigo.

Povos misturados como os gregos, assumidos como mistura de helenos e povos autóctones, ou os romanos, que se viam a si mesmos como mistura de povos, eram idolatrados por Hitler, que desprezava as cabanas germânicas em comparação com os belos monumentos romanos.

Puros povos arianos, como os eslavos, eram considerados raças inferiores. E, quando raças germânicas puras como aos holandeses e nórdicos não aceitavam a colaboração com o nazismo, eram vistos como degenerados.

Por isso, recusar o conceito de ariano porque os nazis gostavam dele é multiplamente tonto: não eram os únicos a gostar dele, e não gostavam tanto dele quanto se diz. E só porque os nazis gostavam de respirar não é critério para eu querer deixar de o fazer.

A recusa do conceito de «ariano» apenas mostra que, ao contrário do que muitos imaginam, a Europa não se universaliza, apenas se provincializa, como tanto quiseram muitos europeus, e muitos antigos colonizados. A Pérsia quer-se chamar de Irão, porque se quer a terra dos arianos, e os hindus com muito orgulho chamam-se de descendentes dos Aryas (esqueço agora a polémica das discutidas invasões indo-europeias na Índia).

Para além de questões de justiça, há questões de fecundidade intelectual que me levam a dizer isto. O maior monumento ao espírito humano nas ciências humanas foi a construção indo-europeística. Foi esta que permitiu a formação da linguística geral, que por sua vez permitiu a linguística computacional que os nossos correctores automáticos usam no dia a dia, que ajudou a arqueologia, a genética das populações humanas, sobretudo uma construção intelectual de uma grande beleza formal. Algo que raramente se pode afirmar nas ciências humanas. Que nos queiram provincianos, limitados e sem possibilidade de investigar e expandir, percebo. Que haja europeus obedientes o bastante para nem pensarem noutra coisa senão aceitar estes ditames, diz muito sobre o seu servilismo zangado, mas também sobre a sua pobreza intelectual. Eu, que estou mais próximo dos nossos primos indianos, não me irei coibir de usar os conceitos certos, proibidos apenas para quem aprendeu História em séries de televisão.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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Editorial

As democracias liberais em que vivemos não impõem objectivos sociais, nem quaisquer concepções normativas de bem. Estão ancoradas na ideia de direitos e liberdades individuais, recusando a imposição de valores absolutos ou de concepções pré-definidas de um bem comum. Sem negar a existência de uma Verdade última (isto é, sem negar a existência de um bem último ou comum), e nesse sentido afastando-se do puro niilismo, as nossas actuais democracias, assumindo a sua matriz liberal, negam ao Estado o direito de impor dogmaticamente uma concepção específica de bem. Ao invés, assentam no pressuposto de que o indivíduo pode, por si próprio e através de um processo racional de confronto de ideias, encontrar o caminho para a Verdade.

A pedra angular de todo este edifício demo-liberal, a condição mesma da sua existência, é um espaço público em que, de modo livre e incondicionado, sem preconceitos, sem dogmas e com uma atitude assumidamente tentativa, se confrontam teorias e concepções distintas, ideias e visões opostas, das quais, em última análise, acabarão por brotar valores que nos implicam com tudo o que tem a ver com a vida contemporânea, da filosofia ao sexo, da arte à política, da história à moral, da liberdade a Deus.

Como tal, este ‘marketplace of ideas’, à maneira de Stuart Mill, constitui uma das mais preciosas e poderosas garantias do respeito pela nossa liberdade individual. A sua construção e alimentação quotidianas são um direito, mas sobretudo uma responsabilidade de cada um de nós – que não pode ser inteiramente delegada nem em partidos políticos, nem em corporações, nem tão pouco no chamado sistema mediático.

Neste contexto, o «Geração de 60», enquanto espaço plural de debate que se deseja imodestamente sério e inteligente, é uma contribuição egoísta para a defesa da nossa própria liberdade.