O ismaelismo como experiência de civilização IV
O
islão nas suas várias formas não separa religião e Estado:
1)
O
califado é a liderança política e religiosa da comunidade (p. 36). Os
muçulmanos iniciais não distinguiam Estado de religião ao contrário da
modernidade, é um Estado teocrático (p. 37, embora o autor se esqueça de
referir a muito maior separação entre os cristãos). No próprio xiismo Ali é
simultaneamente líder religioso e político (p. 40). Entre os fatímidas não há
distinção entre teologia e direito (p. 168). O imã é simultaneamente líder
político e religioso (p. 83). Durante o califado fatímida o ismaelismo passa a
ser religião de Estado (p. 213). Ainda no século XX, entre os ismaelitas na
Índia, é defendida a submissão política e religiosa ao mesmo líder (p. 289). No
século XVI Yousuf instituiu no seu Estado na Índia o xiismo como religião de
Estado (p. 453). O imã é ainda no século XX o chefe religioso e administrativo
da comunidade (p. 488). Na Constituição de 1986 determina-se que é infracção
disciplinar ridicularizar o corão, o profeta, a pessoa do imã, a nova
constituição e as praticas e literatura religiosa ismaelita (p. 501). Mesmo as
constituições ismaelitas do século XX assumem o imã como chefe religioso e
administrativo da comunidade (p. 487).
2)
A
separação entre poderes nos ismaelitas começa a preparar-se quando perderam o
poder califal, o imamato e o califado são separados (p. 81).
A dissimulação
e a reserva mental imperam:
3)
A
dissimulação como forma de se proteger de perseguições (p. 87) é um princípio
dos xiitas em geral (pp. 82, 129). A necessidade de dissimulação («taqiyya»)
aparece entre os Nizaris o século XIII (p. 4), a dissimulação é recorrente e só
levantada quando estão em segurança quando assumem o poder (p. 119). Mesmo sob
domínio ismaelita é teorizada (p. 167). Durante o governo fatímida do Egipto
diz-se que o «zahir» e o «batin» têm o mesmo valor (p. 221). Quando os Nizaris
voltam a estar em ambiente que consideram hostil voltam a reinstaurar a
«taqiyya» (p. 376). E mostra-se aceitar a identificação entre «sharia» e a
«taqiyya» (p. 380). Ou seja, para um ismaelita aceitar o direito instituído é
uma forma de dissimulação. Podemos perguntar-nos se a longo prazo não será esse
o caso com a sua aceitação das ordens jurídicas ocidentais. Fazer-se de sunita
era uma forma de dissimulação pelos ismaelitas (pp. 378, 448). Um autor diz-se
ismaelita junto dos Nizaris e depois diz que era apenas cativo dos Nizaris
junto do novo senhor mongol (p. 379). Os Nizaris são obrigados a dissimular-se
enquanto sunitas, xiitas e hindus para evitar a hostilidade ambiente (p. 404),
o que mostra que nem os hindus geram uma percepção de hospitalidade. Os
Ismaelitas usam o sufismo como uma forma de disfarçar as suas ideias (pp. 406,
433). O sufismo e a forma poética são usados como formas de esconder a
identidade ismaelita em ambiente persa (pp. 412, 422). Numa Pérsia
maioritariamente sunita do século XVI e XVII os Nizaris foram obrigados a dissimular-se
(p. 425). A dissimulação ocorre mesmo em tempo de alívio da opressão (p. 431) e
mesmo perante os sunitas da India (p. 444). Quando em 1501 os Shafawids
proclamam o xiismo duodecimano como religião de Estado, prometem maior
tolerância, e assim os Nizaris aliviaram as práticas de dissimulação durante
uns tempos, mas acabaram por usar o sufismo como disfarce perante as
perseguições dos xiitas (p. 435). Durante o domínio fatímida os ismaelitas
podiam abandonar a dissimulação enquanto a seguiam fora deste domínio (p. 137).
Os Nizaris dissimulam-se em duodecimanos ou sufis (p. 454). Também na India os
Khojas tiveram de se disfarçar de sunitas ou duodecimanos (p. 474). Quando o
imperador Mogol permite o culto pelos ismaelitas Tayyibis, estes deixam de precisar
da dissimulação (p. 280). Só por volta de 1910 Agha Khan determina que os
ismaelitas deixem de se dissimular em duodecimanos na Pérsia (p. 492), como era
tradição (p. 494). Quando um sunita é tolerante com os ismaelitas, os outros
sunitas desconfiam de que é ismaelita dissimulado (p. 340). São sociedades de
conformidade e desconfiança.
4)
As
proximidades entre o ismaelismo e o sufismo são reconhecidas (pp. 366, 382,
444).
5)
Muitos
dos aspectos do ismaelismo continuam envoltos em obscuridade (p. 87).
6)
Há
necessidade de segredo por causa da opressão pelo meio ambiente. Muitos dos
textos se mantiveram secretos, incessíveis aos não ismaelitas até à I Guerra
Mundial (MADELUNG, Wilferd, «Forward», in DAFTARY, Farhad, The Ismāʽīlīs.
Their History and Doctrines, Cambridge University Press, Cambridge, 2007,
p. xiii).