sexta-feira, 5 de novembro de 2021

A responsabilidade histórica

 

É o que vemos nas tabernas e na televisão. Falam-nos de responsabilidade histórica. A Europa tem responsabilidade histórica, coisa que mais ninguém tem. Invocação de privilégio aristocrático único, quem o invoca deve ser visto com particular admiração, ou suspeita. Porque julgas ter o que mais ninguém tem? O que te leva a sentir tão especial?

O problema é que a responsabilidade histórica… não é um conceito histórico. O adjectivo «histórica» está plantado como uma peruca torta numa cabeça mirrada que não a sustenta, como uma coroa feita para mais imperial cabeça. Não é tarefa histórica atribuir responsabilidades. Essa é tarefa de advogados, juízes, executores. Porque se precisa de usar o adjectivo «histórica» para fazer algo que a História não pode fazer?

Este conceito levanta mais um outro problema. É que quem fala da responsabilidade histórica dos seus antepassados mostra não conhecer bem os seus costados. Talvez não tenha sido claro para todos, mas os arranques industriais são feitos explorando em primeiro lugar os próprios provos, e só depois outros. Talvez tenha ficado algo esquecido, mas havia um proletariado inglês, alemão, francês, belga. Que significa isso? Que os primeiros explorados pela expansão capitalista são os próprios povos. Foi o que fez a Europa ao longo do século XIX, foi o que fez a China desde o fim do século XX.

A maioria das pessoas descende, não dos dominantes, mas dos dominados. Por isso, se alguém diz que tem responsabilidade históricas porque os seus antepassados exploraram outros, terá de verificar bem se não estará a violar não apenas a estatística, mas igualmente a sua história familiar. O mais provável é que seja descendente da criadagem, de proletariado, tão explorados quanto o nativo nas colónias. Posso por isso anunciar uma boa nova: não têm responsabilidade histórica. Os seus antepassados foram tão explorados quanto o indígena, são descendentes de explorados, tal como o colonizado.

A sensação desagradável que julgavam sentir pelos privilégios que tiveram os seus antepassados é apenas fruto de alguma presunção. Olhem-se ao espelho. Descendem de degradados, é de baixo coturno, tem finalmente motivo para se alegar pelo facto. Não têm responsabilidades históricas.

Resta portanto saber quem tem responsabilidade histórica. Mas é evidente: os descendentes dos dominantes. E quem são estes? A nobreza, é evidente. São os nobres quem descende de uma mais longa linhagem de exploradores, esses sim têm responsabilidades históricas.

Mas também aqui nos deparamos com um problema. É que desde há cerca de quarenta anos me dizem que não existo. Que não há nobres. E ficamos todos felizes. Os únicos com vocação para serem culpados são considerados inexistentes pela mesma ideologia que procura culpados a todo o transe.

As responsabilidades históricas são assim um conceito espúrio que apenas pode nascer em mentes muito fracas: são privilégio de europeus, e não de mais nenhum povo que teve impérios.  Os turcos e árabes podem ter impérios, mas não têm responsabilidades históricas. Pena que só atinge uma raça, estranha doença. Provoca sintomas ginecológicos em homens, até estes descobrirem que lhes é impossível apanhar a doença.

São descendentes de explorados, e ainda não perceberam que se podem reivindicar vítimas. E os únicos, os restantes, únicos culpados, de tal maleita não existem. Exclusividade, intensidade, reflectividade e inexistência. Cheira quase a criação de uma estrutura algébrica. Mas por quem não sabe fazer contas. Pode, por isso, o leitor alegrar-se sempre que vir alguém invocar responsabilidades históricas. Significa apenas que tem semblante não decorativo, e interior não funcional.

Façamos uma síntese. Quem fala de responsabilidades históricas:

1)   1) É confuso: confunde História com contabilidade e direito;

2)   2)  É racista: considera que a responsabilidade não vem do que se pratica, mas de uma raça, tem um pensamento racista (se forem outras culturas a fazer os mesmos que os europeus já acha que não têm responsabilidades; assim os turcos e os árabes, que fizeram impérios a que devemos muito);

3)  3)  É desprezante: despreza o proletariado;

4)   4)  É desprezante de si mesmo: despreza os seus antepassados;

5)   5)  É presunçoso: quando se sente responsável sente-se de origem nobre;

6)   6)  É inconsistente: o único responsável consistente que existiria, ele mesmo diz que é inexistente.

Em suma, não é muito dotado sob o ponto de vista intelectual. O que em si não é pecado. Salvo quando se demonstra que é ideias que pretende criar. Que um destituído intelectual queira fazer desporto, em nada tem de condenável. Que queira ter ideias… Apenas mostra que quem o segue com ele sente afinidades… Intelectuais.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 23 de agosto de 2021

A modernidade como paródia

 

 «Moderno» é uma palavra velha. De que me lembre, surgiu na prosa latina do século IV d. C. Com o significado de «à moda de hoje», «à maneira de hoje». Os medievais, pelo menos desde a Baixa Idade Média, não se chamavam a si mesmos de «medievais», é bom de se ver. Chamavam-se de «modernos». E muitas vezes com muito mais orgulho do que a maioria se lembra e, pior que isso, com boas razões para se orgulharem.

 

Tem por isso de ser vista com suspeita a vontade de ser moderno. Ter vontade de ser algo diagnosticado na Antiguidade Tardia e enlevado na Idade Média não é em si problemático. O problema está em ter essa vontade enquanto se nega a origem do que se quer ser.

 

A modernidade apenas podia ter nascido como paródia. Imita-se o antigo e faz-se obra que se anuncia como original. Liberdade, igualdade e fraternidade, máxima aristocrática por excelência, passa a ser democrática por extensão. Já o velho Aristóteles dizia que o problema da democracia é considerar em tudo iguais os que o são apenas em algumas coisas. Todos são iguais e livres por nascimento. Que critério aristocrático. Que suspeito. Porquê o nascimento como critério? A morte de Deus surge como grande novidade quando é tema cristão trivial. Já Santo Agostinho falava de «Deus crucifixus». A velha da comunicação dos idiomas…

 

O problema é que a modernidade é uma paródia vazia e desonesta.

 

Vazia, porque tudo pode ser a moda de hoje. Desde amar judeus como matá-los, desde ajudar o próximo como o prejudicar. 

 

Desonesta, porque nunca se anuncia como paródia. Anuncia-se como origem. Uma paródia honesta só funciona caso se reconheça a sua fonte. É citação. Quando o deixa de ser, passa a ser plágio e distorção. 

 

Perante esta paródia, há tipicamente quatro tipos de personagens, segundo a sua reacção à paródia.

 

Os primeiros são os transeuntes. São os seguidores. Seguem a modernidade como seguiriam qualquer outra coisa. São os modernos por inevitabilidade, os modernos por submissão. Seguem a moda de hoje porque vivem hoje. Seguiriam a de ontem se tivessem vivido ontem.

 

Os segundos são os histriónicos. Parodiam a própria paródia. São os que perceberam que a paródia lhes dá poucas hipóteses: ou segui-la, ou intensificá-la. Incapazes de verdadeira criação e pensamento, aterrorizados pelo anonimato a que a razão os condena, decidem-se pela intensificação. É a sua única forma de existir. Se a modernidade preserva a hierarquia aristocrática na literatura, se ser patriota é amar Dante, Ariosto, Camões ou Racine, basta atacá-los e dizer que são apenas uma forma de dominação arbitrária. Bach é mais recente que a música do Mali e o free jazz é mais complexo no ritmo que Bach, Cole Porter é um génio, Mozart apenas um homem com muito talento. E o facto de os matemáticos italianos do século XVI terem resolvido em 50 anos mais problemas matemáticos que os muçulmanos em oito séculos é irrelevante. A expressão histriónica por excelência é a do «sem sentido», seja ela pronunciada por Wittgenstein ou um estruturalista. O que não gostamos nem sequer é falso, apenas não tem sentido, não surge no mundo se não para abortar. É a paródia do «credo, quia ineptus» de Tertuliano. Acredito porque é infértil, porque não produz resultado. Criam à sua volta um mundo estéril, incapaz de produzir fruto, exactamente para se sentirem em casa: no deserto.

 

Lévi-Strauss, com o seu modo pontifical, explica-nos que não podemos ver a antropofagia dos índios do Brasil como algo condenável, que isso era apenas fruto do nosso aparelho moral de pequeno burgueses europeus. De pequena burguesia talvez ele possa falar melhor que eu, porque é de onde ele vem - e não eu. E não percebe que, pela sua linha de raciocínio, a dele o judeu, o grande pecado pequeno burguês cometido pelos nazis no holocausto foi o de… não terem comido os judeus. Assim fora, toda a sua prelecção lembrar-nos-ia de como estaríamos a condenar por estreiteza pequeno burguesa (de novo, melhor sabe ele disso que eu) o que seria apenas mais uma expressão de riqueza cultural. Sem as garantias do cristianismo Lévi-Strauss acabaria estufado - e autor da ementa laudatória do prato.

 

Os terceiros são os negadores. Negam a paródia, vivem de negá-la e por isso estão dependentes dela. Se a paródia fala da novidade da morte de Deus, em vez de afirmarem a sua antiguidade, negam a sua existência. Dominados pelo protesto e pelo escândalo, não percebem que estão dependentes da paródia. Sentindo-se, mais ou menos legitimamente, assediados, defendem-se em vez de conquistarem, acoitam-se em vez de avançarem com as forças do seu passado. Compreende-se a revolta. Perceberam que a modernidade é uma paródia, e vazia, e desonesta. Mas não têm instrumentos para saírem da sua dominação. Não conhecendo nem percebendo as fontes, deixam-se escravizar pela paródia. A sua revolta é legítima, o seu clamor tem assento, só não sabem qual. Por isso, são alvo fácil da paródia. Como o demónio sempre soube, são as boas intenções os seus melhores cúmplices. Essa a tragicomédia dos anti-modernos. O de se condenarem a ser modernos.

 

Os quartos são os independentes. Uns chamam-nos de conservadores outros de reaccionários, mas as qualificações estão gastas nesta matéria como em tantas. Burke é tão conservador como Aristóteles e de Maistre tão reaccionário quanto Platão. O que fizeram foi repor selectivamente o parodiado. Não ficaram presos à paródia, seguindo-a, intensificando-a ou negando-a. Viram para além dela, perceberam a sua natureza parasita, compreenderam que era cultivada por epígonos. Esse são os que realmente não seguem a moda de hoje. São as vozes do futuro. Porque ouviram as do passado.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

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segunda-feira, 24 de maio de 2021

Existem burros no Mali?

 


 

Numa rádio pública pontifica uma senhora que faz questão de citar pessoas de outras culturas. Se a cultura estiver longe parece-lhe legítima, por alguma razão. Desta vez cita um músico do Mali que pratica um género musical cuja designação se me escapa. Diz ele, cita-o ela: este género musical é mais antigo que Bach.

 

O argumento pareceu-me definitivo e parece-me bem que o dinheiro dos meus impostos vá para menorizar a Europa. Que um género musical seja mais antigo que Bach mostra uma superioridade de alguma música do Mali sobre a música europeia. 

 

Mas retiremos daqui todas as consequências. Ramsés II é mais antigo que essa música do Mali, pelo que temos uma superioridade de Ramsés II em relação a esse género musical do Mali. Em nome de Ramsés desprezemos pois essa música do Mali. 

 

 

Pessoalmente tive vários tios bem mais altos que Napoleão, o que, se não retira toda a glória militar a Napoleão, lhe diminui algum lustre. Antecipemos que a lista de homens na Calábria com pénis maiores que o de Sócrates seja bem vasta. Anula o seu valor dialéctico? Não. Mas já podemos adivinhar que há certas situações em que Sócrates foi menos impressionante que muitos anónimos da Calábria. 

 

Pessoalmente, e embora não goste de dar o meu exemplo, e durante um certo tempo, estou um pouco mais vivo que Riemann, e confio um pouco mais nas minhas capacidades matemáticas que nas actuais dele.

 

É um argumento pertinente que quanto a mim mancha a grandeza de Bach perante a inequívoca superioridade de alguma música do Mali, de algum dos seus músicos e de uma senhora paga com o erário público.

 

Existem burros no Mali? Temo bem que sim. E noutros lugares . Burras, mesmo. Mas, havendo-os noutros lugares, que me perdoe o Mali por eu não lhe dar nisto o palmarés. 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

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sexta-feira, 7 de maio de 2021

Compreensões…

 


 

«Um chinês nunca conseguirá tocar com profundidade música europeia. Nunca irá perceber Bach, nem Mozart. Parecerá sempre uma imitação barata de um verdadeiro intérprete europeu». Já alguma dia o leitor ouviu este argumento? Está apressado a qualificá-lo de racista? Que pense bem antes de o fazer: já o ouviu sobre outra forma.

«Um europeu nunca conseguirá tocar música chinesa de modo profundo. Se um europeu quiser fazer pintura japonesa parece um macaco de imitação. Nunca irá compreender filosofia oriental, tanto menos conseguirá fazê-la». Já está mais descansado o leitor? Sente-se mais em casa?

Por que razão o primeiro parece tão chocante aos mirones da pequena burguesia, e o segundo tão familiar? É que há alguma assimetria que se foi impondo, sobretudo desde a Segunda Guerra Mundial, alguma assimetria que faz com que pareça natural dizer umas coisas, e chocante dizer exactamente as mesmas coisas, caso varie o objecto.

Temos aqui uma primeira hipótese de solução para resolver este enigma: os europeus são estúpidos, particularmente estúpidos, limitados, os outros povos conseguem fazer tudo o que nós fazemos, só nós somos incapazes de fazer o que eles fazem. Somos inferiores a todas as outras culturas, em suma.

E dou toda a razão. Quando vejo um europeu a dizer isto, olho para ele e digo: Tens toda a razão em dizeres que és inferior. Ao menos tens uma qualidade: és lucido.

Mas este argumento tem um insulto implícito. Como pode um chinês perder tempo a estudar uma cultura como europeia? Deve ser um chinês particularmente estúpido, nesse caso. Fora ele inteligente, estaria a tocar num conjunto de ópera chinesa, e não uma sinfonia de Beethoven. Os músicos orientais que tocam músicas europeias seriam por isso os deficientes da sua cultura, uma espécie de desamparados intelectuais que não conseguem fazer senão estudar a cultura europeia, em vez de estudarem a sua, obviamente muito mais rica e profunda. É melhor não ouvir tais mentecaptos. São as figuras menores, os limitados de entre os orientais. Nunca ouvir um oriental tocar música europeia, ou a fazer ciência europeia, portanto.

Mas como aquele argumento não se aplica a todos os europeus, e seria estranho que uma cultura tivesse nascido com o estranho privilégio de ser inferior em tudo a outras culturas, podemos aventar outras hipóteses de solução do enigma.

Se os orientais conseguem fazer o que fazemos e nós não conseguimos fazer o que eles fazem, surge um outro estranho privilégio da cultura europeia: só nós fazemos coisas imitáveis. O que os outros povos fazem é inimitável. Em suma, não é exemplo para ninguém. Ou seja, são provincianos.

Levemos esta lógica até à sua última consequência: apenas uma cultura foi capaz de criar conteúdos universais, apenas uma cultura é universal quanto ao seu conteúdo. A europeia. As restantes são apenas culturas locais, aptas para os seus nativos, culturas nativas, portanto.

Já sei que o leitor não queria dizer nada disto. Que queria dizer que era aberto as outras culturas (postura sempre confortável, evitadora de estudo), que tem uma visão equânime das outras culturas. Mesmo que para ter uma visão tão equânime tenha de menorizar sempre a europeia.

Mas nós revelamos no que dizemos bem mais do que queremos dizer. Estivera o nosso discurso dependente apenas da nossa vontade, foram as nossas palavras servas da nossa vontade, não teria havido na História, nem oráculos, nem literatura, nem a tão querida antropologia em que assenta o nosso leitor quando diz que as outras culturas não nos são transmissíveis.

O que diz, o que diz efectivamente, quem afirma que um europeu não consegue aprender as outras culturas, mas as outras conseguem aprendem a nossa, é que é a nossa a única universal, a única que criou conteúdos universais, a única que pode ser estudada por todos. Belo insulto, bela restricção, que esconde um tão belo elogio. Gente ínvia, pouco directa, que não sabe o que diz. Mas ao menos que se veja alguma justiça no que diz. Mesmo que a justiça se faça contra ela mesma.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 26 de abril de 2021

O pós-colonialismo

 

Analisemos a coisa de forma lógica. Veremos como a ideia de pós-colonialismo é completamente desconchavada.

 

Em primeiro lugar, é a continuação da ideologia anti-colonialista, que se encontra em Sartre ou Lévi-Strauss. Não é herdeira de Camus em boa verdade, porque este sempre foi motivado pelo sentido de justiça. O primeiro vício é o de, numa ideologia antieuropeia, ser ela mesma uma ideologia de origem europeia. Os pós-coloniais são no fundo submissos ao pensamento europeu, precisamente quando criticam a Europa.

 

Em segundo lugar, são «pós». Quando algum movimento se define como «pós», apenas mostra o vazio das suas ideias. É incapaz de criar um conceito de síntese das suas ideias. Romantismos, futurismo, neoclassicismo são etiquetas muito elásticas que significam coisas muito diversas em épocas diversas. Mas ao menos significam alguma coisa. Quando um movimento se diz «pós», diz que o seu único mérito é vir depois de outros. Mérito curto, porque será seguido por outros. Caduca rapidamente.  O segundo vício é o de pobreza de ideias.

 

Em terceiro lugar, é seguido por pessoas que não vieram para a Europa enquanto escravos, mas de sua vontade. Para quem diz que a Europa é o monumento de horrores que afirma, seria apenas sinal de que não serão muito inteligentes. Alguém que vive numa sociedade tão horrorosa como Europa, se fosse inteligente, fugiria mal pudesse. Andar pelo inferno depois de lá ter entrado de livre vontade e não querer sair mostra algo bem pior que o pecado: mostra a estolidez. Se a Europa é tão má porque não fogem dela?

 

Em quarto lugar, muitos têm nacionalidades europeias. Se dizem que os europeus são ladrões, estão-se a chamar de ladrões, se os europeus são criminosos, são eles mesmo criminosos. O seu discurso é reflexivo, portanto. De certa forma, torna-se divertido. Cada insulto que lançam, é a si mesmos que o lançam. Ouçamos, pois,  com delícia os seus insultos.

 

Mas querem algo mais, querem que as nacionalidades europeias sejam cada vez mais alargadas, que seja fácil adquirir nacionalidades europeias. Seja, querem o horror para os outros, querem que haja outros que sejam nojentos, como os restantes europeus. Querem mais criminosos, mais objectos do seu insulto, desejam o mal aos outros. São malévolos, portanto.

 

Em quinto lugar, sobra uma salvação para o último vício, tenhamos esperança. É que haja dois tipos de europeus: os puros, vindos das colónias, e os porcos originários da Europa. Só nesse caso o insulto poderia deixar de ser auto-insulto. Mas esta solução tem um preço. É que passaria a haver europeus de primeira, os vindos do resto do mundo. Os originários seriam europeus de segunda. Ou seja, seria o retorno ao sistema colonial de cidadãos de primeira e de segunda.

 

E eis que o ciclo se fecha. Ideologia anticolonial nascida na Europa, revela-se submissa às categorias europeias, pensamento de submissos. Apenas se demarca de outras porque diz que vem depois de outras, mas não tem ideias próprias além de copiar o que os europeus pensaram. Seguida por pessoas pouco inteligentes, porque seria bem mais sensato fugir do inferno que descrevem ser a Europa. Vivem a insultar-se a si mesmos. E querem espalhar este mal a outros. Desejam o mal aos outros. E a única forma que têm de se salvar deste defeito seria a de instruir um sistema colonial. Está fechado o ciclo. São os novos colonizadores, inspirados pelos anteriores, com menos ideias, mais ódio e desejo de vingança que os anteriores. O que começa na epopeia, em cópia acaba na farsa.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Pascal Blanchard et le soi-disant islamo gauchisme

 


 

(2) Islamo-gauchisme : la polémique - C l’hebdo - 20/02/2021 - YouTube

 

Je ne le connaissais pas. Un soi-disant historien parle d’un soi-disant islamo-gauchisme. Les formules ne m’ont jamais fasciné. Les exemplaires significatifs oui. Monsieur Blanchard énonce une théorie de distinctions qui montrent que la réalité est toujours plus complexe, et il est en train de la dévoiler. Si ; on peut dévoiler la réalité, parce qu'on nous a appris que la réalité est opaque (Heidegger dixit), mais on paye à des éminents professeurs pour qu’ils nous disent toujours la même chose : que leur fonction c’est de la dévoiler, mais… qu’elle est opaque.

 

Il fait des études post-coloniales. Je ne sais ce que sont les études post-coloniales. Ça vaut dire qu’elles sont faites après la fin des empires coloniaux ? Ce serait ainsi, ça voudrait dire qu’une thèse sur l’analyse infinitésimale publiée aujourd’hui est une étude postcoloniale. Est-ce qu'il y en a malgré tout a un contenu précis dans cette expression «post» ? Si c’est ainsi, le mot «post» ne dit rien sur le contenu. C’est un mot vide. Ceux qui l’utilisent ne sont pas capables d’énoncer synthétiquement le contenu de ce qu’ils proposent comme point de vue sur le monde. Un «socialiste», un «libéral», un «romantique» peut dire beaucoup de choses, même très contradictoires, les mots peuvent être mal utilisés, la plupart du temps d’ailleurs. Mais au moins il y en a un essai de dire quelque chose avec les mots qu’on utilise.

 

On le sait déjà : les post-modernes, poststructuralistes, les postchrétiens et tant d’autres «post» nous l’ont déjà montré. Ils n’ont pas d’idées sauf une : qu’ils viennent après d’autres. Ces autres qu’on doit caricaturer pour montrer qu’on est plus sophistiqué, plus critique et moins naïf que nos ancêtres. Voilà tout - le vide.

 

Mais cette expression «post» est-elle si vide ? Ou est-ce qu’à la limite, parce qu’on ne peut pas vivre des décennies en disant des phrases absolument vides, elle dit quelque chose ? Quelque chose qu’elle ne veut pas dire, mais qu’elle veut cacher. Ce mot «post» vaut dire qu’on veut cacher. Au moins nous avons découvert quelque chose que ce mot vaut dire.

 

Mais que veut cacher ce professeur ? Que veut-il professer ? Une vision critique qui n’existait pas par le passé ? Critique de quoi ? Du colonialisme ? Mais la critique du colonialisme, on la voit chez Joseph de Maître, Chateaubriand, Pareto, chez les mouvements protestants britanniques ou norvégiens, auxquelles s’oppose la très laïque Compagnie des Indes Orientales britannique, le prince Leone Caetani, Gomperz (qui critique aussi l’inégalité des femmes), même Alexandre Pope ou les jésuites …

 

 

Dit-il que le très illuministe Volney défendait le colonialisme? Ou la très anticolonialiste Birmanie défend les idées impériales japonaises ? Que des anticolonistes arabes disent que Shakespeare était arabe et son vrai nom as-Sayj Zubayr? Que le parti communiste français n’était pas anticolonialiste parce que les ouvriers de Renault apprenaient à l’école que l’Algérie était française (voir les mémoires de Paul Germain)? Qu’Étiemble fait des Lumières l’ancêtre du colonialisme?

 

Que la France soit criminelle, c’est là la découverte ? Mais si la France nous le dit dès plus de soixante-dix années. Si Sartre avait déjà dit que le colon est un chien et doit être tué comme un chien (le pauvre, il voulait imiter Nietzche dans l’insulte, mais l’art de Nietzche n’est pas donné à tous)? Que le catholicisme était persécuteur ? On vous écoute dire ça il y a plus de deux cents ans. Et les nazis l’ont dit avec vous. Vous ne choquez pas le monde. Vous l’ennuyiez. De tant nous parler de vos nouveautés, on croit à votre consistance : vos nouveautés sont toujours les mêmes. Vous ne savez plus produire du nouveau ?

 

Voilà, quelles sont les merveilleuses découvertes de ce mouvement post-coloniale? Et les «études du genre»? Voilà ce qu’il dit: «Les hommes ont raconté l’Histoire pendant vingt siècles» (15m50s du vidéo). Voilà ce qu’il fallait cacher. Avant ces vingt siècles les hommes n’avaient pas ce monopole. Avant ces vingt siècles hommes et femmes pouvant raconter l’Histoire comme des égaux.

 

Qu’est-ce que s’est passée entre-temps ? Quelle sénatus-consulte du temps de Tibère, quelle loi des Parthes, quel décret d’un rajah quelque part en Inde a tout changé sur le sort des femmes ? Qu’est-ce que s’est passé il y a deux mil ans ?

 

Hypothèse hardie, peut-être, mais je vais l’énoncer. Le christianisme. Ce qu’il voulait voiler l’est venu quand il a voulu simplifier. Voilà l’ennemi. C’était plus fort que lui. Quand monsieur veut augmenter la complexité il ne fait que voiler, de nous envelopper de feux d’artifice conceptuels. Quand il devient simpliste, il devient sincère.

 

Qu’est-ce qu’a changé le statut de la femme dans le christianisme ? La question de la «homoousia» ? La double nature du Christ ? Mais non, que les femmes dans de gynécée à Athènes ou en Perse, ou les femmes dans les harem à Bagdad sachent qu’elles sont bien plus libres que les chrétiennes. Huit reines de droit propre en Angleterre, trois en Espagne, deux au Portugal, des dizaines de souveraines de droit propre en Europe chrétienne, quel retard par rapport au statut de la femme chez les Azéris.

 

Le problème c’est que c’est facile, c’est trivial, c’est déjà vu. Le problème c’est que la discussion intellectuelle en France a vu diminuer sa qualité rhétorique, philosophique et sapientielle dès la fin de la Deuxième Guerre Mondiale.

 

Beaucoup d’ exemples pourraient démontrer ceci. Chaque fois qu’on écoute l’expression préférée de Hitler et Himmler de «judéo-chrétien», l’oppression par le christianisme, la plus grande «tolérance» des autres religions (le nazisme a laissé sa marque en France, on le voit)… Ou chaque fois qu’on écoute cet argument «la Bible est violente», sans faire une distinction, connue du reste du monde, entre Ancien Testament et Nouveau, que les Pères de l’Eglise maniaient déjà très profondément du point de vue théologique (fonction prophétique de l ‘Ancien, bourré de mauvais exemples moraux, par exemple) … On pense qu’une belle culture est en décadence et ne s’en rend pas compte.

 

Que les soi-disant intellectuelles défendent tout ce qui reste de plus avilissant pour l’être humain, toute sorte de régimes totalitaires, c’est quelque chose qui ne choque pas les Français, apparemment. Ce qu’on doit faire c’est tout simplement de substituer l’object de notre idolâtrie. Staline passe le témoin a Mao, à Kadhafi, au monde ouvert à tous, et aux victimes des empires coloniaux, musulmans de préférence, même s’ils sont Turcs et n’ont pas été victimes d’empires mais auteurs.

 

Voilà l’ennemi commun, tout se comprend. Les vingt-siècles où un obscur édit de Tibère a tout changé. La femme, qui a été libre pendant des millénaires, a été subjuguée par cet obscur édit. Tout est bon si on a de bons sentiments. Il y en aurait tant de choses à dire… Mais de la part de quelqu’un qui aime la culture française, celle de Pascal, de Cauchy, de Poincaré, de Racine et Molière ou Pasteur, c’est triste de voir jusqu’à quel point elle se laisse devenir la risée du monde. Et, avec l’histoire intellectuelle des dernières décennies, à pire encore : à ne plus compter, tout simplement parce qu’on veut avoir de bons sentiments, de meilleur «sens critique»… Mais on ne fait que voiler et se voiler. C’est un requiem que je ne voudrais pas faire. Ce serait trop triste pour moi. Il faudrait que la France m’en enlève la raison de ceci.

 

Voulez-vous, monsieur, que nous, qui ne sommes pas des Français, étudions une culture d'un pays que vous dîtes être raciste, criminel, coupable? Ça vaut dire que vous nous conseillez de ne pas en étudier la culture. Soit. Beaucoup de gens vous croiront. Et vous laisseront à vous seuls les Français la tache de vous démêler d'une culture que vous qualifiez d'aussi déméritante. Vous voulez une France fermée sur elle-même, engourdie dans sa saleté. On vous donnera raison, comme une raison pour vous oublier. Sachez, monsieur, que cette auto-suffisance c'est toujours le premier pas vers l'isolation. Vous voulez une France provinciale. Il y aura des étrangers heureux de vous donner raison. Permettez-moi, monsieur, que tel ne soit pas mon cas. Si je dois choisir de vous condamner à vous ou à votre pays souffrez que je ne sacrifie votre pays. Il est déjà sacré pour moi. Vous pouvez deviner votre sort. Pour votre consolation, il ne m'est pas imputable, parce que je ne suis pas le destin. Si le miroir vous dit que le monde est laid, ce n'est que le miroir soit menteur, c'est que ce n'est pas le monde ce que vous y voyez.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Nazis, arianos e anti-semitas

 

 

O lugar comum é o de que os nazis eram anti-semitas e a ideia de arianismo é tipicamente nazi. Quanto a canalha se satisfaz com ideias simples é bom sinal, porque seria pouco útil à sua paz deixá-la na confusão. Como entre nós podemos usar de alguma intimidade, podemos dar-nos ao luxo de abrir algumas distinções.

A oposição entre arianismo e semitismo não é nazi. Vem da História e da indo-europeística do século XIX.

A ideia não é de direita, mas é partilhada pela direita e pela esquerda. Renan usa-a com naturalidade. E é prova disso também o actual anti-semitismo de esquerda, sempre com a desculpa do povo palestiniano e do sofrimento dos árabes (árabes que nunca se interessaram verdadeiramente pelo destino dos palestinianos na sua maioria).

A ideia não é estranha aos judeus. Os judeus até aos anos de 1930 usavam esta oposição com naturalidade, como se vê pela correspondência de Freud.

Os estudos indo-europeus não são apanágio dos arianos. Um judeu como Benveniste foi um dos seus maiores cultores.

Indo por negação já começamos a limpar o nosso caminho da sujeira da turba. Podemos entrar então na ideologia nazi. E também aqui temos de ver negações.

O pensamento nazi não era em sentido técnico anti-semita. O pensamento nazi não era plenamente favorável ao arianismo nem aos indo-europeus.

Vejamos a primeira negação. Os nazis gostavam muito da maioria dos povos semitas ou semitizados: os árabes.

Como é típico do Maio de 68, herdeiro no nazismo, o nazismo gostava muito de uma religião semita por excelência, o islão. Nas S.S. não eram admitidos capelães, mas houve duas brigadas S.S. muçulmanas e nelas eram admitidos capelões islâmicos. O grande Mufti de Jerusalém foi recebido por Hitler e apoiou o genocídio dos judeus. O mufti de Jerusalém Hadj Amin al-Husayni em 1941 entrega declaração aos alemães e italianos em que propõe que estes proclamem que é reconhecido aos árabes tratarem a questão judaica nos mesmos termos que os nazis e os fascistas. E ministros de Nasser diziam que o maior político era Hitler ainda nos anos de 1950. O Dr. Noureddine Tarraf ministro da saúde de Nasser diz : «Hitler é o homem da minha vida».

O nazismo era anti-judeu. Profundamente anti-judeu. Mas talvez não totalmente anti-judeu. Não apenas houve judeus nazis como Bronnen (ou Bronner) ou o historiador Karo, como suscitava discussão se os judeus holandeses de origem portuguesa eram verdadeiros judeus, ou deviam ser devolvidos a Portugal. Discussão que não foi meramente teórica, porque fez com que alguns deles sobrevivessem à II Guerra Mundial. O nazismo não era inequivocamente anti-sefardita. Era inequivocamente anti-askhenazy.

O nazismo não era totalmente pró-ariano.

A sua relação com o Irão era equívoca, umas vezes por oposição aos semitas dados como exemplo, outras por influência das fontes gregas (afinal as mais antigas fontes literárias sobre a Pérsia antiga são nossas, são gregas) vistos como o inimigo.

Povos misturados como os gregos, assumidos como mistura de helenos e povos autóctones, ou os romanos, que se viam a si mesmos como mistura de povos, eram idolatrados por Hitler, que desprezava as cabanas germânicas em comparação com os belos monumentos romanos.

Puros povos arianos, como os eslavos, eram considerados raças inferiores. E, quando raças germânicas puras como aos holandeses e nórdicos não aceitavam a colaboração com o nazismo, eram vistos como degenerados.

Por isso, recusar o conceito de ariano porque os nazis gostavam dele é multiplamente tonto: não eram os únicos a gostar dele, e não gostavam tanto dele quanto se diz. E só porque os nazis gostavam de respirar não é critério para eu querer deixar de o fazer.

A recusa do conceito de «ariano» apenas mostra que, ao contrário do que muitos imaginam, a Europa não se universaliza, apenas se provincializa, como tanto quiseram muitos europeus, e muitos antigos colonizados. A Pérsia quer-se chamar de Irão, porque se quer a terra dos arianos, e os hindus com muito orgulho chamam-se de descendentes dos Aryas (esqueço agora a polémica das discutidas invasões indo-europeias na Índia).

Para além de questões de justiça, há questões de fecundidade intelectual que me levam a dizer isto. O maior monumento ao espírito humano nas ciências humanas foi a construção indo-europeística. Foi esta que permitiu a formação da linguística geral, que por sua vez permitiu a linguística computacional que os nossos correctores automáticos usam no dia a dia, que ajudou a arqueologia, a genética das populações humanas, sobretudo uma construção intelectual de uma grande beleza formal. Algo que raramente se pode afirmar nas ciências humanas. Que nos queiram provincianos, limitados e sem possibilidade de investigar e expandir, percebo. Que haja europeus obedientes o bastante para nem pensarem noutra coisa senão aceitar estes ditames, diz muito sobre o seu servilismo zangado, mas também sobre a sua pobreza intelectual. Eu, que estou mais próximo dos nossos primos indianos, não me irei coibir de usar os conceitos certos, proibidos apenas para quem aprendeu História em séries de televisão.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Contestando os bons sentimentos

 

Circulando pelo espaço público encontramos a mesma ladainha, a mesma música, o mesmo enfado repetitivo: «tenho tão bons sentimentos», «os meus sentimentos são melhores que os teus». As pessoas estão um concurso de amor em relação à humanidade, em que pretendem sentir mais amor pelo humano, pelo humano na sua abstracção, no seu conjunto, na sua totalidade, bem mais que amor pelos vizinhos.

Se se trata de amor, e que problema está por detrás deste amor industrializado, é questão para outras discussões. Neste momento apenas vou referir três aspectos que me levam a sentir repulsa pela expressão de bons sentimentos em público.

Existe, em primeiro lugar, uma dimensão social. Mostrar sentimentos em público é sempre sintoma de má educação. Mostrar bons sentimentos em público é, em acréscimo, sintoma de baixíssima origem social. Por isso, quando alguém demonstra em público bons sentimentos, não está forçosamente a falar dos seus sentimentos reais. Está apenas a demonstrar, para além de qualquer dúvida razoável, que não teve educação, tem mau gosto, e vem de muito baixa extracção social. O que, convenhamos, não era necessário dizer de outra forma, a sua imagem gráfica há o teria denunciado. Mas como vive num mundo de redundâncias mais esta não o assusta, apenas nos enfastia.

Em segundo lugar, há uma dimensão psicológica. Jung dizia qualquer coisa como: quanto maior a luz, maior a sombra. Apenas expunha uma verdade psicológica conhecida do fundo dos tempos. Quando alguém quer mostrar os seus bons sentimentos, perguntamo-nos legitimamente por onde andam os restantes. Onde estão os seus maus sentimentos? Porque os cala? Porque não fala deles? Que negrume pretende esconder? Que ódios? Com que intensidade? Em relação a quem? A quê? São perguntas que ele não se faz, senão no escuro do seu quarto, onde relega a sua sujeira. Mas quando de modo afectado pretende mostrar apenas a sua parte luminosa, não percebe que se trai, junto de quem tem alguma lucidez, e se percebe que é o nojo que o impulsiona. É a sua natureza nojenta que pretende esconder com tanta luz. E espera que haja gente tão inepta quanto ele para acreditar na sua farsa.

Em terceiro lugar, há uma dimensão teológica. O actual humanista, muitas vezes frequentador de uma missa cujo significado ignora, desconhece teologia. O que é a muitos títulos significativo. Pensemos um pouco: porque exprime ele bons sentimentos, em total contradicção com o que sempre foi uso entre os santos? Porque falam os santos dos seus maus sentimentos, dos seus pecados? Dos seus pecados pessoais, não os colectivos, forma fácil de dissolver a responsabilidade? Não os da Europa, do Ocidente, dos países ricos, mas sua, sua, muito sua? Porque Santo Agostinho mostrava ao mundo as suas falhas e São João da Cruz a longa noite da fé? Porque mostravam ao mundo os seus maus sentimentos? Como se dá o caso de que, ao contrário dos santos, o escorregadio humanista apenas faz exactamente o contrário? Expressa os seus bons sentimentos. Porque não segue ele o percurso da santidade? Talvez porque é o demónio que ele quer esconder. Alguém dizia que Lúcifer é a mais bela das criaturas. É sob a capa da bondade que quer esconder que mais não é que um esbirro do demónio.

As três dimensões estão mais ligadas do que se julga. Cerca de dois mil anos de fusão entre a tradição aristocrática e a cristã levaram a não se falar de sentimentos em público, e a ver como de muito baixo coturno mostrar os bons. Em boa aprendizagem da psicologia, se sabe desde as origens da humanidade, que a luz exposta é vista com desconfiança, as boas intenções vistas com cepticismo. A tradição teológica vai no mesmo sentido: fala dos teus pecados pessoais ao mundo, dos teus méritos Deus saberá. Baixa origem. Não só na sociedade, mas também escatologicamente. Vem algures dos infernos a sua atitude, cheira a céu de plástico o seu discurso. E só acredita no seu lodaçal quem começa a ser enfeitiçado pelo mesmo esterco. Como os companheiros de Ulisses, já começa a transformar em porcos a sua audiência. E os membros desta, quando julgam que batem palmas, estão apenas a grunhir.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Lévi-Strauss o ambíguo


 

Lévi-Strauss o ambíguo

Lévi-Strauss é uma personagem muito ambígua. Tem aspectos positivos quando procura invariantes, universais, nas práticas sociais, e encontra nestas a proibição do incesto (DOSSE, François, Histoire du Structuralisme, Tome I, Le Champ du Signe, 1945-1966, Éditions la Découverte, Paris, 2012, p. 35).

 

Já quanto à recusa de recurso ao sujeito falante (pp. 38-39) é mais equívoco. Por um lado, é uma premissa saudável, de simplificação do modelo. Mas o problema é que ele comete o erro epistemológico mais elementar: coisifica o modelo. Quando recusa o sujeito sem mais, não por induzir complexidade no modelo, mas como um dogma, comete o pecado basilar de reificação. A prevalência da sincronia de Saussure em si mesma também não é pecado (p. 39, embora de forma mais extrema a p. 67). O problema é a sua recusa da História (p. 39; Lacan dizia que detestava a História pelas melhores razões a p. 146, e a obra de Vladimir Propp porque tinha dimensão histórica, foi esquecida em França nos anos 60 e só publicada nos anos 80 a p. 375; Paul Ricoeur diz que o custo do estruturalismo é afastar a História e a palavra no sentido de Saussure, e tenta receber a palavra, mas a verdade é que se esquece da História a p. 379; mas o próprio Barthes não consegue evitar a História como modelo explicativo a p. 382).

 

Uma História total teria sempre um produto igual a zero, afirma (p. 278), atacando o cristianismo sem o visar. A Incarnação não serviu de nada, vivemos todos num magma de eventos, bem vindos ao mundo arcaico. O problema é sempre o mesmo. O que pode começar por ser uma saudável simplificação do modelo, acaba por ser fetiche, barreira inultrapassável. A questão é a de saber porque coisifica ele o modelo. Com efeito, o que começa por ser modelo em Saussure naquele passa a ser evacuação do significado e privilégio do significante (p. 46). A sua ideia da irredutível diferença entre as culturas (p. 155), impede em última análise qualquer fusão, ao contrário do testemunho da História (mas a prova empírica não era a preocupação de Lévi-Strauss, já o sabemos). Ataca os fundamentos do europeicentrismo (p. 155). O «outro» pode ensinar-nos sobre nós mesmos (p. 156), diz. Mas isto mais não é que o que fizeram os jesuítas séculos antes dele, o que habilidosamente omite. Fala do encerramento ocidental-centrado e quando aparentemente está a fazer um discurso sobre a igualdade das culturas, lembra apenas os aspectos em que culturas não ocidentais são superiores à nossa, os beduínos e esquimós na capacidade de adaptação a climas duros, os orientais na espiritualidade (p. 156). Também aqui passa uma visão meramente turística da realidade. Lévi-Strauss nunca referiu a mística cristã, seja ocidental, seja ortodoxa. Faz, por isso, um juízo comparativo presumindo que a Europa não tem espiritualidade ou a tem menor, logo é fácil encontrar qual seja maior que ela. Não há aqui nenhuma preocupação de conhecimento, mas apenas impor um dogma.

 

Afirma que o pensamento mítico é tão estruturado quanto o pensamento científico (p. 298), o que é ideia autobiográfica, como tudo o que não é muito inteligente. O seu pensamento pode não ser mais estruturado que o mítico. Mas talvez fosse altura de ele se confrontar com o pensamento de Riemann, por exemplo, para verificar, se o tivesse conseguido, que existe uma hierarquia entre esses pensamentos. Outro exemplo ocorre quando diz que os australianos são superiores nas formas de organização parental (p. 156). Em parte nenhuma se mostra em que termos estudou as genealogias europeias e os mecanismos familiares na aristocracia europeia. Instalado no seu mundo plebeu, compara-o com o resto do mundo, como se o seu assento burguês fosse o da Europa. Começa por falar em prosa e celebra a poesia alheia. Roger Caillois, mostra o evidente, que só a Europa pela sua curiosidade criou a etnografia, mas a este argumento apenas sabe responder com a paródia (pp. 158-159). Declara que o seu mestre é Rousseau ao qual muito devemos e em relação ao qual temos sido ingratos (p. 162). Não referiu a alegria da guilhotina, como uma das suas implicações ideológicas, não obstante. Maxime Rodinson responde a este relativismo integral dizendo que, perante as suas teorias, nada permite afirmar que seja mais importante conhecer o princípio de Arquimedes que a nossa genealogia (p. 165). O que é só parcialmente um bom argumento. Porque se Lévi-Strauss não parece compreender o princípio de Arquimedes, de certeza ignora a sua genealogia, e quer por isso que a dos outros seja irrelevante. A sua é a procura de desviar as costas ao Ocidente, à nossa História, a que nos produziu (p. 168). Porquê? Precisamente por essa História não o glorifica a ele, e impõe-lhe limites à sua grandeza. Nunca fará parte dos kaloi kai agathoi, por isso diz que é o próprio kalos kai agathos que é irrelevante, condenável, desprezível. A única estratégia que tem para afastar os obstáculos da sua subida à glória. O ressentimento do plebeu, em suma, e mais uma vez.

 

Sublinha a enorme complexidade das línguas primitivas, e refere as trezentas e cinquenta plantas recenseadas pelos índios Hopi e os índios Navaro mais de quinhentas (p. 275), sem nunca se ter apercebido que c camponês europeu sabia muitas mais em frequentes casos. Lévi-Strauss diz (repare-se, não escreve) que é um materialista (p. 214), mas que fala das leis do espírito humano (p. 276). Quando Jean Duvignand em 1958 opõe à postura estruturalista uma visão pluralista da sociedade, Lévi-Strauss diz que a questão da liberdade não tem sentido nenhum, porque a estuda como cientista (p. 215). A afirmação parece ser nobre e sensata. É por demais legítimo ter uma visão estrutural do homem, ou melhor, uma visão formalista das relações humanas. Todas as relações por definição são formalizáveis. Isso em si não é pecado, mais uma vez. A questão mais uma vez é de ter transformado o que é mero princípio de contenção dentro de um modelo em fonte de máximas da existência. Coisifica e expande o omitido para o resto da vida. Porque bem sabe que quando diz que a liberdade é irrelevante, não vai ser entendido «neste modelo que construi não existe uma variável liberdade», mas no sentido em que «não existe de todo a liberdade, ou não tem importância nenhuma». É também significativo que o seu conceito de formalização implique alguma linguística, algum marxismo e algum freudismo (p. 281), mas nenhuma matemática. Como nesta matéria é ignorante e não quer cair nas asneiras de alguns dos seus correligionários que brandem conceitos matemáticos a despropósito, fica-se por uma formalização «homemade», de amador. Quando diz que o sistema de parentesco cria uma linguagem (p. 216), esquece-se de dizer quão complexa é a linguagem dos sistemas de parentescos europeus, e quanto mais ricas são as suas genealogias, que são entendidas como irrelevâncias.

 

A relação com a linguística é confusa, inábil, cheia de arrependimentos, em suma, não era tema que Lévi-Strauss dominasse bem ou usasse com lisura, usa a gíria linguística como uma forma de propulsão para outras análises (p. 216). Aqui Dosse pretende defender Lévi-Strauss por ter usado a equivocidade como forma de fazer ciência. Mas a equivocidade não é a marca de um cientista, é antes a marca de alguém que pretende obter poder. E mais uma vez se vê onde quer chegar Lévi-Strauss. Mais discreto, menos histriónico que os seus seguidores, teve o cuidado de deixar queimar os outros, e preservar-se a si. Mas esta estratégia nada tem a ver com a procura da verdade, mas de poder.

 

O próprio reconhece que se em 1960 a História e a antropologia se tinham aproximado, ambas procuravam capturar a atenção do público (p. 223). O projecto de poder encontra-se igualmente na sua tentativa de agregar si os sociólogos (p. 270), e os antropólogos africanistas (p. 313), mas também quando expulsa a equipa de semióticos de Greimas do Collège de France, porque não admitia concorrência (p. 373).

 

As contradicções não terminam por aqui. Pretende afastar o biológico da análise antropológica mas ao mesmo tempo diz que a emergência da cultura é um mistério do homem enquanto não conseguir determinar as mudanças biológicas da estrutura e funcionamento do cérebro (p. 222), e diz que é na fronteira entre a natureza e a cultura que prospera o estruturalismo (p. 276), e coloca o problema do cozido como ponto de encontro entre a cultura e a natureza (p. 299). Encontra a ordem num caos de mitos onde ninguém a tinha visto (p. 277), mas significativamente depois dele os pós-modernos recusam qualquer ordem; de tanto ter fustigado as ordens europeias, não podia espantar-se que viessem outros que quisessem acabar o seu trabalho de destruição. Ele julgava que seria soberano o suficiente para impor limites, mas não era de modo nenhum soberano. A sua visão pequeno burguesa nota-se na oposição que faz entre dois tipos de éticas: a ocidental, que respeita as medidas de segurança para se proteger enquanto indivíduo, e a das sociedades ditas primitivas, em que se respeitam as medidas de higiene para que os outros não sejam vítimas da nossa impureza (p. 303). Vê-se facilmente que nunca aprendeu uma ética aristocrática, está a usar o pequeno burguês como símbolo do ocidental.

 

O rol de disparates e enviesamentos não acaba por aqui. Rosseau é dado como mestre do pensamento científico (p. 305). O paralelo entre a tetralogia das «Mitologias» de Lévi-Strauss e a de Wagner é significativa (p. 305), mostrando como o judeu assimilado procura assimilar-se ao gigante Wagner. Preocupado em desvalorizar tudo o que pode fundar a Europa, diz que o milagre grego nada mais é que uma simples ocorrência histórica, que nada mais significa que o facto de se ter produzido onde se produziu (p. 309); é significativo que diga isto e ao mesmo tempo estabeleça proibições: não se deve falar sobre as origens. É neste esquecimento imposto que se funda o pensamento contemporâneo. Proibição de referir as origens equívoca e suspeita, é evidente. Esquecer as origens violentas das sociedades, incluindo as primevas, ou esquecer as origens imperialistas da própria antropologia (ver p. 440)?

 

Com toda a alegria Domenach diz que Lévi-Strauss participa da destruição (p. 310). E diz-se que é exemplo do pessimismo mais profundo (p. 418). Sabe que vem do nada e está apenas a preparar o nada. É pessimista? Tem toda a razão de o ser: quanto a si mesmo. Melhor saberá porque acha o mundo feio. Num fase posterior Lévi-Strauss defende aparentemente tudo o contrário , mas continua a usar o termo de estruturalista. Entendamo-nos: mudar de opinião em si não é problema. O problema está quando a etiqueta não muda, como se houvesse uma continuidade de projecto e se defende tudo o contrário do que se defendeu até então. Ele que pretendia um modelo cultural livre da biologia, afinal parece participar da era da suspeição (?) que pretende sair da dicotomia tradicional entre cultura e natureza (DOSSE, François, Histoire du Structuralisme, Tome II, Le Chant du Cygne, 1967 à nos Jours, Éditions la Découverte, Paris, 2012, p. 43), e encontra uma reconciliação entre a natureza a cultura (p. 257).

Vejamos as invariantes do seu pensamento. Não são o estruturalismo porque notoriamente usa este nome para dizer uma coisa e o seu contrário. Mas são outras matérias: o materialismo, a vontade de poder, e o ressentimento em relação à Europa. São estes os três traços comuns do seu pensamento. Em 1967 vê-se a sua vontade de poder, querendo marginalizar os filósofos em relação aos antropólogos (p. 256). A antropologia foi uma forma de dar escoamento ao funcionários tornados caducos pelo fim do colonialismo (p. 258). Os seus combates anti-colonialistas (p. 412) são uma forma de dar ocupação, objectivamente e independentemente das intenções, aos antigos funcionários coloniais (pergunta-se aliás a que titulo Lévi-Strauss tem legitimidade para fazer parte de movimentos anticolonialistas, mistura de géneros entre cientista e cidadão que só gera equívocos no seu caso.).

 

Quando Dan Sperber diz que Lévi-Strauss reuniu a antropologia enquanto ciência geral e etnologia (descritiva) (p. 27), tem só em parte razão. Esquece Mauss e a escola alemã e britânica da antropologia (o conceito de «savage thought» é inglês como Hartland mostra). Mas esquece-se igualmente que a reunião permite a concentração de poder igualmente, independentemente do que tenha sido a sua intenção. O seu anti-humanismo teórico mantém-se como constante na sua vida até ao fim, mas agora parece que privilegia as diferenças em vez do universal, e o único universalismo que aceita é o da identidade biopsicológica da espécie humana (p. 466). O seu projecto de poder do domínio da linguística desde que nas mãos dos antropólogos (pp. 227-228). Participava de uma ilusão cientista (p. 233). Embora o seu modelo de parentesco funcione de modo pertinente (p. 233, mal-grado não ser referida a importância de André Weil para a construção deste modelo).

 

Um dos seus elementos de continuidade entre o primeiro e o segundo Lévi-Strauss é a sua fidelidade a um anti-humanismo (p. 465). Mas quando se diz que faz prevalecer o enraizamento em vez da universalidade (p. 466). Nisto ficou aquém da sua análise. O enraizamento que admite é só o dos outros, e o dos primitivos, e tentou impor um formalismo que pretendeu ser universal. A ideia de estruturalismo sofre um deslize porque passa de uma forma de dar sentido para estar ínsita na própria natureza na segunda fase do pensamento de Lévi-Strauss (p. 463). Para ele a chave do problema são os neurologistas (p. 463). O sujeito volta, mas sob a forma de cérebro. Tudo o que pode fazer para salvar o suposto estruturalismo revela apenas o que para ele é o essencial. Um materialismo como mera negação de um património anterior, a recusa de uma hierarquia, salvo a que eleve as culturas não europeias. Até o sujeito admite, o sujeito no que tem de mais básico, na sua neurologia, desde que o homem europeu não seja, não tenha valor, seja só motivo de fruição para si (o «si» aqui é Lévi-Strauss, que pode ouvir Bach, não os europeus em geral, que não são merecedores disso), mas não como paradigma para os outros; postula um isomorfismo entre os processos físico-químicos e os do espírito (p. 463), em parentesco não assumido com o psicoide de Jung.

 

Um mérito tem de se lhe reconhecer. É um mestre do glissando: deixa os seus esbirros berrarem e queimarem-se, enquanto ele passa delicadamente pela tormenta, incólume, como se fosse o único que desde a origem tivesse tido razão e não, como era, a origem da irrazão. Olímpico para as classes populares, é-o só para elas. Talleyrand de baixo coturno, tendo aprendido a elegância em livros e não em família, quis-se árbitro dos gostos . Mestre do glissando, deixa os berros aos seus esbirros, que se queimam enquanto ele vive num Olimpo de papel por lhe faltar o feito de carne, sangue e linhagem. Lévi-Strauss precisou dos seus Fouché como utilidades dispensáveis. Mas nunca lhe coube ser o vício apoiado no crime, não lhe tinha o nascimento, não vinha de alturas para ser decadente. Foi apenas o embuste apoiado na farsa.

 

ABV

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Editorial

As democracias liberais em que vivemos não impõem objectivos sociais, nem quaisquer concepções normativas de bem. Estão ancoradas na ideia de direitos e liberdades individuais, recusando a imposição de valores absolutos ou de concepções pré-definidas de um bem comum. Sem negar a existência de uma Verdade última (isto é, sem negar a existência de um bem último ou comum), e nesse sentido afastando-se do puro niilismo, as nossas actuais democracias, assumindo a sua matriz liberal, negam ao Estado o direito de impor dogmaticamente uma concepção específica de bem. Ao invés, assentam no pressuposto de que o indivíduo pode, por si próprio e através de um processo racional de confronto de ideias, encontrar o caminho para a Verdade.

A pedra angular de todo este edifício demo-liberal, a condição mesma da sua existência, é um espaço público em que, de modo livre e incondicionado, sem preconceitos, sem dogmas e com uma atitude assumidamente tentativa, se confrontam teorias e concepções distintas, ideias e visões opostas, das quais, em última análise, acabarão por brotar valores que nos implicam com tudo o que tem a ver com a vida contemporânea, da filosofia ao sexo, da arte à política, da história à moral, da liberdade a Deus.

Como tal, este ‘marketplace of ideas’, à maneira de Stuart Mill, constitui uma das mais preciosas e poderosas garantias do respeito pela nossa liberdade individual. A sua construção e alimentação quotidianas são um direito, mas sobretudo uma responsabilidade de cada um de nós – que não pode ser inteiramente delegada nem em partidos políticos, nem em corporações, nem tão pouco no chamado sistema mediático.

Neste contexto, o «Geração de 60», enquanto espaço plural de debate que se deseja imodestamente sério e inteligente, é uma contribuição egoísta para a defesa da nossa própria liberdade.