sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Grothendieck La Clef des Songes IV

 

Referências a autores cristãos e clássicos

«Maître Eckehart (é assim que escreve, em vez de Eckhart, mas há muitas grafias admissíveis) aparece 5 vezes (pp. N21, N26, N97, N158, N286). Santa Teresa de Ávila 12 vezes (pp. N18, N21, N26, N29, N28 – estou a respeitar a sequência efectiva das páginas, ao contrário do que parece -, N96, N151, N171, N286), São João da Cruz 3 vezes (pp. N21, N57, N286). Também aparece Santo Agostinho (pp. 143, N21), não aparece uma única referência a São Tomás de Aquino, a Santo Anselmo, e nem sequer o enfant terrible da escolástica, Abelardo, é referido. Não encontro referências a Padres gregos, nem sequer, o que seria de esperar, ao Pseudo-Dionísio. Aristóteles, Homero, Ésquilo, Eurípides, Píndaro, Hesíodo, Aristófanes, não são nunca referidos, Platão é referido três vezes, uma por referência a Santo Agostinho (p. 143), outra por referência ao problema do erótico e a Freud (p. N669), e uma num sentido figurado de «platónico» (p. N684). Sófocles é citado por referência a Freud : «Dans la tragédie grecque (de Sophocle), Œdipe tue son père et épouse sa Mère, quasiment par mégarde (n'ayant pas eu le plaisir de connaitre sa mère ni son père).Sans doute Freud devait-il penser que dans le sens sous-entendu, "inconscient" de la tragédie, Œdipe n'était pas si ignorant que ça de ce qu'il faisait. Toujours est-il que Freud s'est inspiré de la légende d’Œdipe pour appeler "complexe d'Œdipe" la conjonction, sous forme permanente, de deux désirs-force ou pulsion, le plus souvent inconscients l'un et l'autre | 1°) Désir charnel pour le parent de sexe opposé. | 2º) Pulsion antagoniste de rivalité vis-à-vis du parent de même sexe, et (à la limite et pour faire bon poids) désir de le tuer. | C'est ce complexe, selon Freud, qui serait à l'origine de la plupart (voire de toutes ?) les névroses psychiques, dont les symptômes représenteraient une satisfaction symbolique très détournée, et toujours inconsciente, des désirs refoulés (de possession sexuelle d'un des parents, de trépas violent de l'autre).» (p. N686). Entre os romanos Virgílio nunca é citado, o mesmo se passa com Horácio, Juvenal, Marcial, Lucrécio, Séneca, Cícero.

Estes traços permitem-nos tirar o retrato de Grothendieck nesta área. O facto de haver autores a serem omitidos não significa que alguém os ignore. O estilo de confissão pessoal que atravessa a CDS é perfeitamente compatível com a omissão, ou a referência descontraída. A verdade é que, pelos seus conceitos, percebe-se que Grothendieck tem grandes falhas de cultura humanística. Desconhece a cultura clássica, a patrística, a escolástica. Que prefira os místicos revela a sua tendência New Age para uma religião não institucional, não percebendo que os místicos que refere estavam muito alegremente integrados na Instituição por excelência, a Igreja Católica. Que não refira um místico grego, ou em geral ortodoxo, prova que a sua visão do mundo estava limitada pelo Ocidente da sua época. Como se revela em páginas antes citadas, tentou por si mesmo ganhar uma cultura teológica que não tinha. E fez o melhor que sabia com ela. Mas os perigos para um cientista da falta de cultura humanística, já Poincaré tinha avisado para eles, e muito bem. Grothendieck é apenas mais um exemplo disso.

 

Visão teológica

Numa perspectiva teológica Grothendieck mostra não perceber que Jesus e a reencarnação são incompatíveis (pp. 57, N68, N182, N201, N536, N539, N547, N548; por exemplo «Je suis persuadé que d'ici quelques siècles ou quelques millénaires, beaucoup d'hommes seront arrivés à un état de conscience assez élevé pour avoir accès (ne serait-ce que partiellement) à la mémoire de leurs incarnations passées, comme c’était d'ailleurs le cas (selon la tradition) de Bouddha.» (p. N138)). Não há Jesus sem incarnação e sem ressurreição dos corpos. O que quer dizer que este corpo concreto que temos é o único que temos prometido, e que o ser humano não é apenas uma alma, em que o corpo seria um mero revestimento descartável. Reduzir o evento crístico a uma fase nos estados de consciência é também muito prova de que segue modas da sua época. Há, além disso, comparações que o traem «J'avoue que je suis loin d'y voir clair ! Si ce n'est que Jésus, lui (et avant lui Bouddha), a été grand par l'un et par l'autre par l'amour, et par la liberté.» (p. N153). Amor e liberdade não são conceitos budistas. É desconhecer profundamente o budismo usar estes conceitos. Por isso, se Buda é enaltecido, é por ser… um cristão. De forma menos intensa quanto fala da teoria salvadora do budismo, não é igualmente muito correcto (p. N191). Há teorias de salvação não cristãs, e muitas vezes as referi. Mas o budismo está longe de ser uma teoria salvadora, porque isso seria pressupor que há algo a salvar. Se aqui não será exclusivamente cristão, Grothendieck não sai do quadro mediterrânico que herdou… do cristianismo. Também mostra que sob o ponto de vista escatológico padece de alguma ingenuidade. «Les dispositions de Fujii Guruji à l'égard du "Monde" se recouvrent avec celles de Nichiren. Celui-ci se distançait des attitudes dominantes de son temps, o les gens avaient tendance à projeter dans un "au-delà" idyllique leur nostalgie, au sein d'une société violente et agitée, d'une vie paisible et heureuse. Il insistait que le rôle de la religion n’est nullement d’inciter les hommes à porter leurs espoirs vers un autre monde mythique, mais bien d'instaurer un état d'harmonie entre les hommes au sein de la nation, et (ultimement) entre les différentes nations elles-mêmes. Il s’agit en somme d'instaurer le "Royaume de Dieu" sur terre pour reprendre l'expression évangélique), au lieu de le rejeter au ciel. C'est surement là aussi la vision de Jésus, comme celle de Bouddha, mais avec chez l'un et l'autre un accent plus grand sur l'aspect individuel, le "Royaume de Dieu dans l'homme", plutôt que collectif (le Royaume de Dieu dans la nation). C'est l'aspect collectif de l'avènement du Royaume de Dieu qui est aussi surtout souligné dans trois parmi les quatre rêves prophétiques qui me sont venus l'hiver dernier.» (p. N194). No plano da História o cristão é duplamente enraizado, e por isso a ideia de um paraíso na Terra no tempo histórico comum é sonho de bem intencionados, mas ignorantes de História e de teologia. Também: «On y sent l'élan du désir exalté de glorifier par tout son être Dieu (ou le Bouddha, ou le Créateur, ou quelque autre nom qu'on Lui donne...), par de tels actes de dépassement de soi-même et de ce que d'ordinaire on se sent humainement capable d'accomplir en faisant don total de ce dépassement à Celui qu'on glorifie ainsi en silence. Surement, ce qui rend possible un tel acte et qui lui donne tout son sens, c'est la connaissance, chemin faisant, qu'on n'est pas seul à l'accomplir ; que de quelque mystérieuse façon, Celui-là même que nous glorifions de toute notre cœur et de tout notre être S'associe et participe à cet acte de louange et d'amour (pp. N196-N197). Nenhum destes conceitos é budista, pelo menos na sua versão original (Grothendieck, que tanto se queixa de a versão original do budismo ter sido distorcida pelos seus discípulos). É budismo com sabor cristão, adaptado ao palato cristão. E o sonho profético é um conceito de Jung, que Freud nunca admitiria. «C’est l'amour surement comme il émane d'êtres comme le Bouddha ou Jésus, et qui agit sur tous ceux autour d'eux qui ne s'y ferment.» (p. N323).

No fundo. é mais um dos casos da modernidade, de homens bem intencionados (Tolstoï é um bom exemplo), que acabam num arianismo prático sem perceberem como isso contradiz a mensagem de Jesus. Se Jesus é apenas um homem perfeito, é um mentiroso. É o único silogismo válido. Porque teria de mentir sempre que se referia à Sua relação com o Pai, e à Sua própria natureza. Um homem perfeito mentiroso é de uma contradicção gritante. Mas Grothendieck não percebe o que Tolstoï não percebeu. Que a sua fome de absoluto não pode ser saciada com ervinhas apanhadas nos campos. Não há receitas, mas há métodos.

Já vi mais de uma conferência (há poucas obras que estudem Grothendieck propriamente dito) onde é comparado a Pascal. Seria um grande matemático, e um grande escritor e pensador. Com o maior respeito que tenho por Grothendieck (se não o tivesse, não o diria por mero pro forma) não é verdade. Grothendieck tem verve. Pascal tem estilo. Uma mostra do estilo de Grothendieck: «Mais à la caserne c'est foutu, tout comme à l'église et au temple ou c'est aussi foutu. Chez nous comme chez les autres, Occident ou Orient c'est tout comme : le moral martial tout comme la religion, c'est foutu, foutu, foutu ! Gnôle du soldat, ou opium du fidèle tout s'use, s’évente, faisande, se décompose, les belles ferveurs patriotardes comme les pieuses euphories à l'eau de rose.» (p. N522). Pascal dizia coisas bem mais percutantes sem perder o domínio soberano da língua. Podia passear-se descontraidamente na paisagem sem precisar de deixar um cheiro de grosseria. E Pascal tinha um profundo conhecimento de teologia e filosofia. Ora, é precisamente o que falta a Grothendieck, um homem com uma fome de absoluto, irritado à mínima manifestação de tartuferia, venha ela do cristianismo ou dos orientais. Não teve a tempo a cultura humanística que lhe permitisse enfrentar as questões com que se debate. Não sabia nem latim, em grego, não tinha cultura clássica nem teológica. E, apesar de tudo, para falar de Deus, é preciso conhecer o discurso sobre Deus. A teologia. O que tem de limitado tem de comovente. Eu sou o primeiro a perceber o desespero de alguém que tenta ultrapassar barreiras. Mas também os seus limites.

O problema de Grothendieck não é o da sua sede de absoluto. É o de a sua sede ser moral e desembocar na moral, sem sequer vislumbrar a possibilidade de ser um problema ontológico com uma solução ontológica. É mais uma variante da nossa época, da procura de assentar o mundo na moral para depois viver na frustração de que assenta em pouca coisa. Em Grothendieck não há um único momento de saciedade, nem uma luz que a ela se dirija, vive numa perpétua irritação, por boas razões, a de ter exigência, e por más, por não conhecer nenhum caminho por onde chegar a algum lado. Por isso, bem mais que ser um Pascal, é o seu inverso. Pascal tinha sólida cultura clássica e cristã, actuava com facilidade e profundeza num mundo a que pertencia. Grothendieck é mais um sintoma que um autor. Sintoma de uma cultura amputada, separando as humanidades e as ciências, de um mundo com mais possibilidades de vida que as europeias, cristãs, mas sem instrumentos para as compreender. Um mundo coxo e fragmentado, em que mesmo os maiores génios actuam tropegamente, porque no fundo lidam de forma infantil com os problemas, quando a vida lhes exige perante eles o olhar de criança, mas o estômago de um adulto.

Se a religião é pessoal e intransmissível não se percebe porque escreve sobre ela, ou porque lê sobre as experiências dos outros. Não percebeu que os textos sagrados que leu, pode fazê-lo porque estes textos foram transmitidos por uma tradição, através de instituições. Se tudo mais não fosse que experiências pessoais incomunicáveis, ou apenas comunicáveis pessoalmente, não poderia saber de experiências mais antigas que um século, porque o que sobra de forma consistente, que não se deva a mero acaso, mantém-se graças a instituições. Se estas não existissem, estaria dependente de se ter cruzado com um dos raros, ou mesmo o único sótão, em que sobrariam os Evangelhos, e para sua sorte estariam em grego, uma língua que ele não sabia ler. Grothendieck não pensou nisso, porque, muito 68, não pensou que os instrumentos que lhe permitem contestar a tradição, vêm eles mesmos de uma tradição, salvo se ele se entendesse o criador da língua francesa e de todos os seus conceitos. A sua teologia é irrealista, porque os instrumentos com que vê o mundo o são. A teologia mais uma vez revela o homem, sobretudo o que não se quer revelar a si mesmo.

O que é triste é ver um génio que o é banhar em tanta trivialidade. Membro banal da geração de 60, não gosta, ou ao menos não se sente em casa no que é, sem saber o que é, e não percebendo que a origem de todos os seus desconfortos reside precisamente no facto de não saber o que é. Inelutavelmente cristão, e tão inelutavelmente quanto se julga dele ser autónomo, julga-se capaz de ser equidistante, quando não sabe medir as distâncias, porque não sabe onde está, e não sabe onde os outros estão. Como a geração de 60, que levou ao extremo o discurso de ódio à pequena burguesia, ódio de si, porque não eram aristocratas mas precisamente pequenos burgueses, tem muitos julgamentos a fazer que são reflexivos. E que só são certeiros com o preço de ele ser deles vítima.

É conhecida a observação de Grothendieck perante Serres. Serres demostraria um teorema como quem dá um muro numa noz e lhe parte a casca, revelando-lhe o núcleo, Grothendieck demonstra envolvendo a questão num mar de abstracções até dissolver o problema. Eis que Grothendieck recebe o próprio remédio. Grothendieck dá murros no cristianismo e falha no alvo, assim como dá murros nas tradições orientais e de novo falha. Em vez de o atacar directamente (não tenho nenhuma razão para isso, a minha admiração é grande) fui envolvendo Grothendieck num mar de abstracções onde é ele quem acaba por ser dissolvido.


ABV

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quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Grothendieck La Clef des Songes III

 

Freud e Jung

A primeira referência a Freud, mas implícita, é a do seu título. A CDS não refere nunca Artemidoro de Dáldis, o autor da original «Clef des Songes», que já algumas vezes referi ao longo deste estudo sobre a Europa. E, no entanto, o título não é casual. Não sendo uma pessoa de sólida cultura clássica, Grothendieck deve ter ido buscar a expressão a algum lado. E é provável que o tenha ido buscar a Freud. Na «Interpretação dos Sonhos» Freud refere a obra de Artemidoro. Freud aparece 334 vezes na CDS. Jung aparece apenas 19 vezes, e sempre em posição muito inferior à de Freud. «La même réalité, surement, que Freud avait sentie il y a longtemps - et que C.G. Jung, venu dans le sillage immédiat du maitre, a préféré éluder » (p. 30). «Je devais bien avoir entendu parler un peu de C.G. Jung, à ce sujet ; que c'était désormais chose classée, qu'il y avait que ce fameux Inconscient. Et voilà même que je tombe, par le plus grand des hasards c'est le cas de le dire, sur l'Autobiographie de ce même Jung (**). Pour être intéressant c'était intéressant, et Dieu sait s'il en était question d'Inconscient, et tout entouré de vibrations "numineuses" c'est là, en grec ou en latin, le terme séant (*) qui remplace désormais des expressions désuètes et d'une naïveté charmante commune “sacré”, “religieux” ou “divin”. Cet Inconscient-là, ai-je compris alors, il avait maintenant remplacé le bon Dieu des bons vieux jours. C’est vrai que de nos jours et entre distingués savants et humanistes, ce pauvre bon Dieu n'est tout simplement plus sortable. Même - pour un bon chrétien et quand on est quelqu’un, ça fait vraiment plus sérieux d'en parler (ou alors en grec ou en latin, ou mieux encore en sanscrit, chinois ou japonais…)» (pp. 61-62). «Je n'ai pas trouvé encore l'occasion pour prendre connaissance de la vie de Freud, comme j'aimerais le faire. Le peu que j'en sais provient presque exclusivement de ce que C.G. Jung dit dans son auto biographie au sujet de Freud, dont l'œuvre et la pensée furent le tremplin pour la sienne. Ma très haute opinion de Freud en tant qu'homme, alors que je ne le connaissais encore que par ses principales idées, provient de la lecture attentive d'un témoignage qui s'efforce (sous des airs de supériorité paterne) de le débiner. Voir à ce sujet la note "Témoignage à charge ou le maitre mal aimé". Ce "témoignage à charge" centre le maitre aimant et mal aimé, quand on ne se laisse mener par le bout du nez et qu'on se donne la peine de lire dans les lignes et entre les lignes, se retourne en un témoignage assez accablant centre le témoin lui-même, élève mal-aimant et ingrat d'un maitre probe qu’il s'efforce d’évincer (tout en jouant les papes d'une "spiritualité” hautement savante et garantie "scientifique"...)» (p. 257). «On aura simplement (suivant l'exemple donné par C.G. Jung) remplacé le bon vieux bon Dieu d'antan par "l'Inconscient". Décidément, on n'arrête pas le progrès !» (p. N12). «(*) Cela a été le cas notamment chez moi de façon quasiment habituelle, pendant les années 1971 à 1976, mais a (je crois) complètement disparu avec l'entrée dans ma vie de la méditation, en octobre 1976. J'ai retrouvé le même genre de vantardise puérile, faisant étalage d'une "humilité" hautement savante et distinguée, dans certains passages de l'autobiographie de C.G. Jung, écrite dans les toutes dernières années de sa vie. A en juger d'après les échos de divers lecteurs qui m'en sont revenus, il semblerait bien que je sois le seul à m'être aperçu de quelque chose, tant ce genre de pose est considéré comme de bon ton et comme chose allant de soi parmi les usagers de la "spiritualité" d'érudition qui tient le haut du pavé, sous la double bannière de l'Humanisme et de la Science...» (p. N181). «Il me faudra revenir de façon circonstanciée sur cette "autre histoire": sur certaines limitations inhérentes à l'attitude psychanalytique" telle qu'elle est généralement pratiquée. (Attitude que Jung, s'il avait été fidèle à la mission historique qui l'attendait, aurait sans doute dépassé, mais à laquelle il a emboité le pas tout aussi aveuglement que tout le monde.) On sent que chez tous, le rôle du "jargon" psychanalytique, à grand renfort de noms en latin et en grec, c'est d'évacuer dans l'observateur d'Eros (promu "psychanalyste") toute trace de mouvement érotique, faire de lui un pur Cerveau, et d'Eros (voire même [sic], du patient qui se confie entre ses mains) un objet l'objet d'une science objective, impassible, souveraine. Mais ce qu'on croit saisir et sur quoi on discourt ainsi est aussi peu ''Eros", que le cadavre d'un homme qu'on dissèque dans l'amphithéâtre n 'est cet homme l'homme vivant qu'il fut.» (p. N276). Está a descrever mais Freud, com a sua necessidade de uma credibilidade positiva que Jung. «Ni même ce correctif indispensable à la pratique psychanalytique: le regard attentif et scrutateur sur soi-même l'"auto-analyse" comme l'appelait Freud), qui joua un rôle crucial dans le développement de la pensée de Freud et de sa connaissance de la psyché. Il est le garant d'une probité et la vraie d'une profondeur qui firent la grandeur de Freud (et auxquelles un Jung tourna le dos)» (p. N277). «En écrivant cette ligne, la comparaison s'est imposée à moi avec le "paquet jungien" (de C.G. Jung), moins radical et moins percutant, moins profond, plus "raisonnable", mais aussi pas aussi fortement défiguré sous l'emprise d'une vanité envahissante.» (p. N569). «Ce serait une tâche aussi délicate qu'intéressante de cerner le sens d'une telle impression de "similarité". Pour quelques éléments de réflexion à ce sujet, voir dans Récoltes et Semailles la section "Abstraction et sens ou le miracle de la communication", dans "Les Portes sur l'Univers" (appendice à ReS III, nº 231 Jung évoquerait sans doute des ''expériences archétypes", auxquelles les expériences les plus marquantes de l'existence humaine pourraient être ramenées...» (p. N584). «Une lecture attentive de l'autobiographie de C.G. Jung, ou celui-ci, mine de rien, s'efforce systématiquement de débiner Freud, avait déjà eu sur moi l'effet inverse de l'effet recherché : ces manœuvres puériles m'ont laissé entrevoir pour la première fois, pour ainsi dire en négatif, la stature exceptionnelle de l'homme que Jung, qui s'est beaucoup inspiré de lui à dire le moins, s'efforce de ravaler avec des airs de condescendance paterne. Cette lecture, et la réflexion poursuivie dans des notes de lecture pendant un mais (du 16 janvier au 15 février 1985), avaient constitué un intermède imprévu dans l'écriture de Récoltes et Semailles. J'espère bien un jour mener à bonne fin cette réflexion commencée, et la publier sous forme d'une cinquième partie de Récoltes et Semailles. Voir aussi la note ultérieure (s'insérant» dans le chapitre IX, du mois de mai de l’an dernier) un Témoignage a charge ou le maître mal-aimé" (pp. N663-N664). «Je pense ici tout particulièrement à C.G. Jung, qui aujourd'hui plus que jamais joue le rôle d'une sorte de pape d'une "spiritualité" hautement érudite et scientifique, et inodore à souhait...» (p. N676). «"Fuite" est le terme introduit par Krishnamurti, et qui dit bien ce qu'il doit dire. Ici et dans la suite, il est entendu que par «Inconscient» j'entends l'Inconscient découvert par Freud, ou l'Inconscient superficiel (ou «subconscient») et mayen, à l'exclusion des couches profondes de la psyché (ou « Inconscient profond»). C’est la prise de connaissance en soi de cet Inconscient-là, du grand Merdier, qui est le tout premier pas, le pas décisif, dans l'aventure de la découverte de soi, c'est lui qui met en jeu tout l'arsenal des résistances dont il va être question. Il n'y a rien de commun entre un discours même théoriquement parfait sur l'Inconscient, et l'acte décisif que constitue ce pas-là. Visiblement la plupart des psychanalystes (Jung en tête...) ne l'a jamais franchi» (p. N680). «Cependant, s'en autoriser (comme le fait C.G. Jung) pour escamoter purement et simplement la réalité psychologique concrète de la pulsion incestueuse, pour en faire une sorte d'abstraction mi-métaphysique mi-folklorique, est une tricherie.» (p. N691).

A sentença é sem equívocos. Freud está acima de Jung para Grothendieck. Isto será tanto mais estranho quanto Freud tem em geral mais prestígio entre os cientistas das ciências humanas que entre matemáticos e físicos. Mas, quando tentamos analisar o conteúdo das críticas, existe uma parte em que tem razão e outra em que a perde.

Tem razão pela tendência a dar ar científico e erudito à religião. Jung padeceu disto, no sentido não tanto tentar fazer um estudo científico da religião, mas antes de tentar mostrar cientificamente a relevância da mesma religião. Mas Freud fez isto, e bem mais. Tentou fechar a religião no plano de uma racionalidade tal como ele a entendia. A religião em si não tem importância, senão enquanto fenómeno histórico e patológico. Ora Grothendieck não acha que a religião seja um fenómeno meramente histórico e patológico, vê-a como uma questão pessoal, e nesse sentido está mais próximo de Jung.

Por outro lado, usa conceitos junguianos talvez sem o saber. O conceito de «grand rêve» usa-o 30 vezes (pp. 9, 12, 13, 19, 20, 22, 24, 29, 33, 34, 39, 43, 206, 216, 247?, 253, 254, N18, N95, N129, N468, N684). Qual é o problema? É que o conceito de «grande sonho» não é freudiano, é junguiano. E um grande sonho que foi essencial, não apenas para a sua vida, como para o seu trabalho intelectual, é Jung, nunca foi Freud. A importância da experiência mística pessoal também nada tem de Freud, é junguiana. Deus é um problema central no pensamento de Grothendieck, Deus realmente, não um signo «Deus» que seria o argumento de uma função. E isso é junguiano, não freudiano.

Em suma, Grothendieck tem uma grande admiração por Freud e uma grande antipatia por Jung. Como um português pode ter uma grande admiração pelos ingleses e detestar portugueses, e não deixa por isso de ser português. Grothendieck é junguiano sem o saber. E não gostaria de o saber.

 

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terça-feira, 4 de outubro de 2022

Grothendieck La Clef des Songes II

 Análise de conteúdos

Buda é tratado com respeito. «A présent, je doute qu'il y ait, ou qu'il y ait eu homme au monde (fut-il Bouddha en personne) chez qui il en soit différemment - chez qui l'état et l'activité des couches profond es de la psyché soit accessible directement à la connaissance consciente.” (p. 2). «Je rappelle à ce propos que Bouddha lui-même ne "croyait pas en Dieu". Quant aux bouddhistes, visiblement ils ''croient en Dieu" et ils l'appellent du nom Je "Bouddha", sans trop se casser la tête” (p. N44). Também a propósito da oração (pp. N183, N184, N 204, N207, N529).

Buda aparece tratado muitas vezes no mesmo plano que Cristo. «Et même parmi les gens que je connais tant soit peu par leurs œuvres seulement ou par leur réputation, et mis à part seulement le Christ, Bouddha, Lao-Tseu, je n'en vais aucun qui m'ait fait cette même impression.” (p. 92). «Chose que les "Novateurs spirituels" comme Bouddha, Lao-Tseu, Jésus ne pouvaient manquer de savoir d'instinct» (p. 178). «Il est permis de penser que ce stade ultime fut atteint dans l'existence terrestre qui nous est connue de Bouddha, de Lao-Tseu, de Jésus.» (p. N68). «La tendance idolâtrique dans l'homme n'est nullement limitée aux chrétiens, mais semble universellement répandue. Ainsi, dans le bouddhisme il est bien entendu, "officiellement", que Bouddha n'est pas plus "Dieu" que ne 1’est Jésus dit "le Christ" - ce qui n'empêche qu'à toutes fins pratiques il se substitue à Dieu pour le croyant bouddhiste, et est revêtu par lui des mêmes attributs. (…) D'ailleurs la Sutra de la Fleur de Lotus (Sutra apocryphe à la base du courant nichérenite dans le Bouddhisme japonais) donne pratiquement un statut officiel à cette divinisation de Bouddha, tout comme les apôtres ont institué un dogme "officiel" de la divinité de Jésus.» (p. N75). «A vrai dire, plus que des "Fondateurs de religion", je serais porté à m'inspirer des hommes qu'on peut appeler les grands "Novateurs spirituels" de l'humanité : Gautama Bouddha, Lao-Tseu, Jésus. (J'ignore s'il y en a d'autres qui méritent ce nom.) (…) Quant à Lao-Tseu et Jésus, il est assez clair que leur génie propre ne les prédisposait aucunement à être fondateurs d'une religion, au sens sociologique du terme, impliquant une structure hiérarchique au sein d'une Institution religieuse, se réclamant d'une doctrine intangible et immuable. Je suis persuadé d'ailleurs que le maintien d'une telle doctrine immuable est entièrement étranger à l'esprit de Bouddha. S'il a prédit en chiffres ronds que la Sangha vivrait pendant mille ans et pas plus (**), c'est sans doute qu'il voyait clairement l'immense inertie inhérente à la psyché humaine, et la sclérose qui guette toute institution. Mais la tradition (on s'en doute !) ne nous rapporte aucune précision que Bouddha aurait donnée dans ce sens.” (p. N102) (significativo que omita aqui Maomé). Com um aceno a que Jesus teria vindo reenviar a mensagem de Buda (p. N 102). «Il est important de se rappeler que ni Gautama Bouddha ni Jésus n'ont laissé de message écrit», ao contrário de Lao-Tsé (p. N103). De novo os três são comparados (p. N106). «Il n’y a pas à s'étonner que les enseignements du Bouddha, tout comme ceux de Jésus, aient rencontré de son vivant et dans les siècles qui 1’ont suivi une hostilité véhémente de la part des pouvoirs établis, et ceci en dépit du fait que l'hindouisme a tendance à être beaucoup plus tolérant vis-à-vis de déviations doctrinales, que ne l'a été le judaïsme.” (p. N203). De novo, o lugar comum apressado de que o paganismo é mais tolerante que os monoteísmos. «Ce que des hommes au regard prophétique et profond, tels le Bouddha, Jésus et Nichiren ont entrevu à l'horizon du temps» (p. N204). «Celui de la "faillibilité" foncière de tous les hommes, y compris les plus grands et ceux-là mêmes (tels Jésus le Christ ou Gautama le Bouddha) que l'atavisme idolâtrique d'une tradition religieuse millénaire a déifiés» (p. N240). «Je me garderais bien de prendre comme «modèle» aucun d'eux ni même le Bouddha en personne ou Jésus dit le Christ, et n'encouragerais personne à le faire (*); mais plutôt, à faire usage de tout cœur de toutes nos lumières, pour essayer de discerner en chacun ce qu'il apporte de meilleur afin de nous en nourrir, et de le séparer avec soin du poids mort de l'emballage.» (p. N502).

Há críticas que faz tanto à tradição cristã como à oriental. «Beaucoup de spirituels, tant parmi les chrétiens que parmi ceux issus de traditions religieuses orientales, manifestent vis-à-vis de la pulsion érotique une attitude de méfiance viscérale, quand ce n'est celle d'un véritable antagonisme, d'une répression sans merci» (p. 146). «Guruji cite avec insistance ce précepte du Bouddha, qui lui sert également à illustrer que le bouddhisme est, par excellence, une "religion de paix'', et même (selon lui) la religion destinée à rallier tous les peuples de la terre et à instaurer la paix dans le monde. Il oublie que les peuples ayant embrassé le bouddhisme, à commencer par le Japon lui-même (dont il aime surtout à voir la mission religieuse et pacificatrice dans le monde), n'ont pas été moins enclins aux folies guerrières que les autres. Il oublie également que bien des siècles avant le Bouddha, ce même précepte "Tu ne tueras point" était enseigné dans la Loi judaïque, sans d'ailleurs être plus respecté par le peuple juif que par les peuples bouddhistes auxquels s'identifie Guruji. Non seulement Guruji fait mine d'ignorer cette circonstance historique, mais il n'hésite pas à s'en prendre au "Dieu de la Bible" quasiment comme à un ennemi peu recommandable, en épluchant quelques passages de la Genèse dans Áun [sic], esprit visiblement polémique.» (p. N232). «Mais ces diatribes justifiées contre l'impérialisme américain gagneraient en poids et en profondeur s'il s'y ajoutait la conscience que dans cette folie suicidaire culminant (provisoirement) dans Hiroshima, la victime elle-même, le Japon, n'est nullement innocente. Oui, que lui-même, Guruji, l'apôtre infatigable de la "religion de paix" du Bouddha, n'y a pas été lui non plus entièrement étranger ; qu'il y porte une part de responsabilité personnelle d'autant plus conséquente que son format spirituel est grand et son ascendant considérable. Car il n'y aurait pas eu Hiroshima s'il n'y avait pas eu la folie impérialiste japonaise. A cette folie-là, lui-même Guruji avait donné son acquiescement tacite jusqu'à l'âge de ses soixante ans, et même (vers la fin de ceux-ci) une totale caution, en remettant entre les mains des principaux responsables militaires ces reliques précieuses entre toutes, miraculeusement confiées entre ses mains.» (p. N233). «Chez l’intrépide Nichidatsu Fujii (espérant disséminer le message du Bouddha à la pointe des baïonnettes japonaises» (p. N527). Com uma ironia mordaz : «Dans le panthéon théosophe, Maitreya se trouve immédiatement en dessous de Bouddha (qui est au sommet), et passablement au-dessus de Jésus-Christ. Ce n'est surement pas sans rapport avec le fait que par la suite Krishnamurti regardera Jésus avec condescendance, alors qu'il sera par centre poursuivi par l'idée (qui m'a parue proche de l'obsession), d'égaler (voire même [sic], de dépasser et d‘évincer ?) le Bouddha le seul Être dane [sic] qui, selon les règles du jeu théosophe, était d'un grade plus élevé encore que lui, Krishnamurti­le-nouveau-Messie.» (p. N547). «(NB. Mis à part un ou deux passages ou les noms de Bouddha et de Jésus sont évoqués au détour d'une phrase et en une même haleine, dans aucun des nombreux livres de Krishnamurti que j'ai lus il ne réfère à une tierce personne, nommément ou non, sauf à celles qui figurent dans des récits de scènes vécues, et elles restent alors toujours non nommées.) Qu'il allait jusqu'à nier l'existence d'un Inconscient, je ne l'ai appris que dernièrement (avec stupeur, j'avoue), en lisant le deuxième volume de sa biographie par Mary Lutyens.» (p. N560). Neste aspecto está muito acima dos músicos pop e dos jornalistas que apenas conseguem ver o que tem de felpuda a tradição oriental (mas enfim, não é difícil ser intelectualmente superior a um músico pop ou a jornalista, e seria ofensivo comparar Grothendieck a estes espécimes).

«Croisade» aparece sempre em sentido figurado e algo irónico (pp. 204, 265, N56, N571). O mesmo com «inquisition» em que não sai do lugar comum (pp. 204, 208, N24). Curiosamente «mission» aparece 479 vezes. A presença de Jesus é bem mais rica, e só posso dar alguns exemplos. «L'appel de Dieu, que ce soit par le ministère de Jésus ou de toute autre façon, vient sans nous avertir et nous prend au dépourvu, dans la vérité de ce que nous sommes et notre réponse nous révèle, comme rien d'autre ne pourrait le faire.» (p. 127). No budismo não há nenhuma chamada de Deus, nem vem sem nos avisar, há um acto de consciência bem desperta. «Il y avait bien de quoi. Ça faisait deux mois ou trois que ma pensée avait commencé à tourner autour de la question des desseins de Dieu se faisant jour à travers l'histoire des religions. Parmi celles-ci, je sentais bien que le christianisme jouait un rôle bien à part, non pas tant par ses caractères propres en tant que religion parmi d'autres, mais à cause de la figure de Jésus et de son extraordinaire destin.» (p. 138). «J'en doutais et en doute d’autant moins que roes [sic - «mes propres»?] rêves prophétiques déjà me faisaient pressentir un mouvement dans le sens d'une telle convergence, un mouvement qui serait appelé à se manifester et à prendre forme ct8s [?] les décennies qui viennent, sous l'impact d'une initiative divine d'une amplitude et d'une force sans précédent dans l'histoire de la Création. Sûrement d'ailleurs Légaut ni personne (sauf Jésus il y a deux mille ans... (*)) n'ont rien rêvé de tel, et il était pour le moins douteux qu'il prendrait ces prophéties comme argent comptant, à supposer qu'il soit encore en vie...» (p. 141). «3) L’histoire des religions et des croyances depuis les origines jusqu'à nos jours, et ce qui nous est connu des grands Novateurs spirituels de l'humanité. Parmi ceux-Ci, Jésus me semble prendre une place entièrement à part, et ceci plus encore par sa vie et par sa mort, que par ce qui nous est parvenu de son message.» (p. 156). «Les livres de Marcel Légaut, et tout particulièrement son livre sur l'Intelligence du christianisme, viennent de m'apporter providentiellement (*) une clef irremplaçable pour la compréhension qui me faisait défaut. Tant par le témoignage d'une vie authentiquement religieuse, vécue dans la fidélité à soi-même et à sa mission, que par sa pensée vigoureuse et profonde, s'inspirant de l'extraordinaire œuvre spirituelle de Jésus lui-même au-delà de ce en quoi deux millénaires de tradition doctrinale l'ont figée, son œuvre m'apparait comme un appel d'une qualité de présence et d'une portée uniques dans notre temps.» (p. 157) (atente-se na desencarnação do discurso : Jesus tem uma obra espiritual, e nada se diz sobre o que sofreu na carne). «A ma connaissance, Légaut est le premier penseur chrétien qui ait eu la profondeur et l'autonomie spirituelle pour discerner dans toute sa dimension cette exigence de liberté, et le courage de la dire publiquement et de la vivre (***). Par là-même, il est sans doute le premier aussi à avoir compris pleinement la vraie nature du message et de la mission de Jésus, dans toute sa portée et dans ce qui le rend réellement universel.» (p. N50). «Je ne suis pas moi-même "croyant chrétien", et ne puis ici que me faire l'écho de l'expérience d'un autre, en harmonie avec la mienne mais différente. Pour Légaut, comme sans doute pour tous les chrétiens au plein sens du terme, Jésus est le chemin qui mène à Dieu qui 1es mène à Dieu. Ma propre relation à Dieu ne passe pas par l'intermédiaire d'une filiation spirituelle. Je n'ai jamais eu expérience d'une relation de filiation ou de paternité spirituelle, et avais tendance à regarder une telle relation d'un œil très critique. Le témoignage de Légaut, qui revient sur cette relation dans différents contextes et avec beaucoup de pénétration, me convainc qu'une telle relation au plein sens du terme est bel et bien possible. Une telle relation se noue et se développe sans établir de dépendance mutuelle entre l'ainé spirituel et celui qui s'inspire de lui sans pour autant renoncer à ses possibilités d'autonomie spirituelle, mais au contraire y trouve une vraie vers celle-ci. | Dans aucun des nombreux cas ou Dieu s'est manifesté à moi, et notamment par la vraie du rêve, il n'a été question directement de Jésus, ou du christianisme. Par centre, j'ai fait d'assez nombreux rêves ou il est question du Saint-Esprit. Mais alors que le terme même fait partie du vocabulaire chrétien, la chose qu'il désigne n'est surement pas plus restreinte à la réalité religieuse chrétienne, que ne l'est Dieu.» (p. N51). «Pourtant la vie et la mort de Jésus témoignent avec éloquence que sa mission parmi nous ne visait ni l'établissement de structure ni celui de doctrines, mais était d'un ordre entièrement différent. Nul mieux que lui n'a su qu'un moule de la vie spirituelle en est aussi la mort.» (p. N52). Mais uma vez aqui se vê se se deixa levar por um lugar comum da nossa época. Basta pensar na tradição. Santo Ireneu de Lyon, que estava muito mais próximo de Jesus que Grothendieck achava que havia uma doutrina e uma incorporação no cristianismo, através da Igreja visível. «Jésus avait clairement conscience du caractère universel de sa mission. Dans Saint Matthieu on lit : "Et cet Evangile du Royaume sera proclamé dans le monde entier, en témoignage pour toutes les nations" (Matthieu 24, 14) et "Allez ! De toute les nations faites des disciples, les baptisant au nom du Père, du Fils et du Saint-Esprit, leur enseignant à garder tout ce que je vous ai commandé" (Matthieu 28, 19) ; et dans Saint Marc : "Et il faut d'abord qu'à toutes les nations soit proclamé l'Evangile" (Marc 13, 10) et "Allez dans le monde entier, proclamez l'Evangile à toute la création (Marc 16, 15)» (p. N52).

Basta. Este não é um ensaio dedicado em exclusivo ao pensamento de Grothendieck. Temos já alguns elementos que nos podem alimentar a reflexão. Grothendieck ao mesmo tempo declara-se não crente, e coteja o cristianismo com o budismo (e em parte Lao-Tsé). Reconhece o papel universal do cristianismo (como tudo indica que também o admite em relação aos outros dois fundadores de religiões). Acha que a religião é uma questão meramente pessoal, o que é muito New Age (e consequentemente herança de uma versão vulgata do pensamento… de Jung). Não percebe que uma religião se pode constituir como doutrina e corporizar-se em instituições. Como se a poesia nunca pudesse ser escrita e as universidades de todo o mundo fossem inúteis para a ensinar. Ou o mesmo, que se poderia dizer na matemática. A ideia de uma religião como mera experiência pessoal, não transmissível, não socializável, sem carne, é muito resultado de lugares comuns da nossa época, que tem horror a uma História incarnada. Que partem de uma visão moral, em suma. Mas, como diz, reserva um lugar à parte para o cristianismo. Sabe ele porquê? Não o sabe dizer. Não tem instrumentos para o dizer. O facto de o budismo ser a única religião sem violência (precisamente na sua doutrina, não na sua História, como ele bem reconhece), além do cristianismo, atrai-o. Mas não percebe que o budismo só o consegue com um custo: com a negação da substância do sofrimento. Que amor em Buda seria este, de que Buda aliás nunca falou, caso o sofrimento não tivesse substância? Não tem sentido dar importância ao que não tem importância, e muito menos amar o que não a tem. Podemos dar mais uns passos, e poderemos assim ver ainda melhor quais os limites de Grothendieck.

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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Grothendieck La Clef des Songes ou Dialogue avec le Bon Dieu I

 

 

Na comunidade científica francesa, quando se fala de Grothendieck, há sempre um lugar comum: ele teria sentido uma atracção pela meditação budista em certa altura da sua vida. Em conferências, ninguém se refere à sua relação com o cristianismo, sendo certo que é filho de um judeu, e de uma cristã, e tendo vivido anos da sua infância junto de uma família fervorosamente cristã. Esta ligação entre meditação e budismo é infelizmente o resultado de uma crassa ignorância. A separação entre humanidades e ciências tem custos para ambas as partes. Que a ideia de meditação da morte, por exemplo, se encontre em Anaxágoras e Séneca, e que haja meditação cristã, na mística oriental e ortodoxa, é algo que escapa à apreciação destes comentadores.

Para que não haja análises apressadas da questão, é preciso dividir o tema em varias partes:

a)      Vou reduzir a análise à CDS (GROTHENDIECK, Alexandre, La Clef des Songes ou Dialogue avec le Bon Dieu, s.ed., s.l., s.d.).

b)      Tentarei ver quantas referências há a Cristo e cristianismo, Buda e budismo, judeus e judaísmo, Maomé e islão.

c)      De seguida tentarei ver quais os conteúdos, o que diz sobre cada um destes temas.

d)      A comparação entre Freud e Jung pode também permitir alguns resultados.

e)      A análise das obras de alguns autores cristãos (ou clássicos) como os de Mestre Erckhart pode dar também alguns indícios.

f)       E, falando nós de religião, analisarei a sua obra numa perspectiva teológica.

Já sabemos que nunca há análises completas. Mas sempre é melhor que as haja com algum cuidado que apressadas.

 

Redução à CDS

Reduzir a análise à CDS tem uma razão muito prática. Não é a minha função estudar toda a obra de Grothendieck. Cabe a outros fazê-lo. Escolhi aquela que será a última ou das últimas obras de Grothendieck, e que poderá dar algumas luzes sobre o problema. Tenho de salientar desde já que qualquer análise e citação desta obra levanta um problema de edição. Não está editada, tem gralhas, e por isso qualquer análise e citação do texto é em parte a sua edição. Deixo os puristas ficarem chocados com este trabalho. Saliento que os sublinhados são meus e não do Autor.

Quando se refere a CDS, todos se esquecem de referir o título completo, que tem a expressão «Dialogue avec le Bon Dieu”. A expressão é cristã, melhor, católica, e muito latina. Antes de analisarmos o conteúdo da obra não podemos excluir que haja intentos irónicos. Mas o tema está evidente. É um tema religioso. E em conceitos católicos.

 

Referências a religiões

 

 

Nº de vezes que aparece

Percentagens

Jésus

235

37,01%

Christ (sem Jésus)

46

7,24%

Christianisme

22

3,46%

Chrétien

169

26,61%

Total Cristianismo

472

74,33%

Moïse

0

0,00%

Judaïsme

0

0,00%

Abraham

0

0,00%

Juif

17

2,68%

Juive

9

1,42%

Hébreu

0

0,00%

Judaïque

4

0,63%

Total Judaísmo

30

4,72%

Bouddha

95

14,96%

Bouddhisme

31

4,88%

Bodhisattva

2

0,31%

Total Budismo

128

20,16%

Mahomet

0

0,00%

Islam

3

0,47%

Islamique

0

0,00%

Musulman

2

0,31%

Total islão

5

0,79%

Total religiões supra

635

100,00%

 

Pode-se dizer que esta escolha de palavras é arbitrária. Que deveria procurar também «samsara» ou «karma» ou «dharma» que são também conceitos budistas. A problema é que estes conceitos de origem são hindus. Como distinguir o uso hindu do budista de forma cursiva? Da mesma maneira teria de procurar «pessoa», «substância» ou «amor» que são conceitos cristãos e nunca um budista usaria senão para demonstrar a sua falta de pertinência. Para colocar «bonzo» teria de procurar também «padre», «bispo». E quando surgisse «monge» ou «mestre» teria de distinguir o monge cristão do budista e o católico Mestre Erckhart teria de ser distinguido do mestre «zen». «Christ (sem Jésus)» dá 72-22-4=46. Das 72 vezes em que aparece «Christ», retirei «Jesus le Christ» (2 vezes,) Jésus-Christ (2 vezes) e as 22 vezes em que aparece «christianisme». Abraham aparece apenas na «Lettre à Karl Abraham» na p. N534.

Alguns resultados são curiosos. Um autor que morre em 2014, com uma França já largamente islamizada, em que os jornalistas (mesmo que se arroguem outros títulos) referem a fundamental importância do islão para cultura europeia e francesa, dá uma importância ao islão que corresponde apenas a menos de 1% da sua atenção. Quem procura ideias pela sua qualidade e não está fascinado com o poder puro e simples, afinal não dá importância nenhuma ao islão. Um autor filho de pai judeu, embora descrente, dá ao judaísmo um papel inferior a 5% da sua atenção. Um homem tão fascinado pelo budismo, dá afinal um papel 3,7 vezes inferior na sua atenção ao budismo que o que dá ao cristianismo. Quase três quartos das suas referências são feitas ao cristianismo.

(mais)

Editorial

As democracias liberais em que vivemos não impõem objectivos sociais, nem quaisquer concepções normativas de bem. Estão ancoradas na ideia de direitos e liberdades individuais, recusando a imposição de valores absolutos ou de concepções pré-definidas de um bem comum. Sem negar a existência de uma Verdade última (isto é, sem negar a existência de um bem último ou comum), e nesse sentido afastando-se do puro niilismo, as nossas actuais democracias, assumindo a sua matriz liberal, negam ao Estado o direito de impor dogmaticamente uma concepção específica de bem. Ao invés, assentam no pressuposto de que o indivíduo pode, por si próprio e através de um processo racional de confronto de ideias, encontrar o caminho para a Verdade.

A pedra angular de todo este edifício demo-liberal, a condição mesma da sua existência, é um espaço público em que, de modo livre e incondicionado, sem preconceitos, sem dogmas e com uma atitude assumidamente tentativa, se confrontam teorias e concepções distintas, ideias e visões opostas, das quais, em última análise, acabarão por brotar valores que nos implicam com tudo o que tem a ver com a vida contemporânea, da filosofia ao sexo, da arte à política, da história à moral, da liberdade a Deus.

Como tal, este ‘marketplace of ideas’, à maneira de Stuart Mill, constitui uma das mais preciosas e poderosas garantias do respeito pela nossa liberdade individual. A sua construção e alimentação quotidianas são um direito, mas sobretudo uma responsabilidade de cada um de nós – que não pode ser inteiramente delegada nem em partidos políticos, nem em corporações, nem tão pouco no chamado sistema mediático.

Neste contexto, o «Geração de 60», enquanto espaço plural de debate que se deseja imodestamente sério e inteligente, é uma contribuição egoísta para a defesa da nossa própria liberdade.