segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Mentir à lucidez

«Vitória, vitória, acabou-se a história». Era assim que acabava a delícia das crianças quando ouviam um conto antes de dormir.
E é assim mesmo nas eleições.
Ganhar e perder está previsto nas regras do jogo que conta votos como quem soma discernimentos e não como vagas de fundo. Quem ganha e quem perde age de acordo com este código. Não pode depois invocar singularidades, razões secundárias. Ganha o maior número, como está combinado. E esta  é a mentira da nossa lucidez de democratas.
Fernão Lopes,. nas suas crónicas medievais, falava no Povo como unidade sábia que acorria uno a fazer justiça. Como se a identidade colectiva não fosse plural.
Muitos escreveram sobre as  massas que somam sabedorias. Outros, pelo contrário, garantem que a maioria é sempre medíocre, por uma qualquer impossibilidade de generalizar a elevação, salvo em situações de perigo comum.
Sobra sempre a frase do melhor dos sistemas imperfeitos.
Ou a certeza de que quem governa os nossos dias são os nossos sonhos e mão os do olimpo eleito de quatro em quatro anos. E de que quem comanda as nossas vidas é o nosso trabalho, a nossa escolha pequena, livre, íntima. O nosso arbítrio. Inteiro.

(mais)

sábado, 14 de setembro de 2013

Precisamos da democracia?

Um conjunto de selvagens reúne-se para decidir se hão-de comer um prisioneiro. A maioria vota a favor. Como há dois que se opõem veementemente são mortos. E para festejar a decisão espancam as mulheres. Este pequeno cenário mostra que estamos a falar de uma democracia, e de uma democracia directa em cúmulo. Etimologicamente é o poder do povo quem determina a vida em colectividade. Mas isto basta-nos? Não. Porquê então achamos que esta democracia é insuficiente? É que o que designamos por democracia recolhe muitas experiências históricas diversas.
Em primeiro lugar, o próprio poder do povo, mas por via do nexo de representação. Uma ideia sobretudo grega.
Em segundo lugar, a ideia de Estado de Direito, estóica e romana na origem. Esta nada tem a ver com a democracia. Mas atravessou toda a História da Europa. O poder obedece a regras, está limitado por elas. Quem pode, quando pode, como pode. E no entanto, não concebemos democracia sem Estado de Direito, mesmo que a sua origem seja bem diversa. O império, os príncipes europeus, o papado, não concebiam a vida sem a legitimação e a limitação jurídica. E nós igualmente. Este é um traço que a democracia herdou, não criou.
Em terceiro lugar, a proibição de divinização do homem. Não concebemos prostrar-nos perante ministros ou chefes de Estado, como o grego se recusava a fazer. Era bárbaro. Sempre que existem regras de prosternação na Europa elas surgem por influência oriental. O homem europeu pode fazer reverência, mas não se prosterna. Não adora o poder, os homens do poder. A democracia recebe esta ideia e não a cria igualmente.
Em quarto lugar, a dialéctica. Mas esta ideia surge do anti-democrata Platão e não com a democracia. A democracia ateniense praticou-a, mas o seu desenvolvimento teórico deve-se a anti-democratas. Mais uma coisa que a democracia herda e não criou.
Em quinto lugar, a ideia de legitimação pelo bem comum. Ideia sobretudo helenística e cristã. Mais uma vez a democracia herdeira e não criadora.
Em sexto lugar, a tradição liberal. A protecção das liberdades de acção, expressão, reunião, associação. A tradição liberal foi quase sempre antidemocrática, e no entanto só concebemos democracia de acordo com essa tradição. Herdeira, herdeira mais uma vez, não criadora a democracia.
Em sétimo lugar, a dignidade humana. Ideia cristã, muito anterior a qualquer democracia moderna. Ainda mais uma vez herdeira.
Em oitavo lugar, a igualdade da mulher, ideia sobretudo aristocrática e régia, profundamente anti-burguesa, anti-republicana (segundo o padrão do civismo republicano).
Em nono lugar, a economia de mercado, que pode ser adjuvante da democracia, mas é igualmente um enorme problema para ela, na medida em que distribui o poder de forma anti-democrática.
Em décimo lugar, uma determinada concepção da mulher, da criança, do velho, do homem adulto e das relações entre eles que se formou com a matrona romana, o cristianismo, e igualmente a senhora medieval.
A democracia constrói-se sobre muitas tradições que apenas recolheu e que em grande parte surgiram de pessoas que a ela se opuseram. Ao contrário do que se julga não foi a democracia que as criou, quando muito é a que as melhor tem garantido nas últimas décadas. Porque é de décadas que tratamos, ou seja, de um espaço cronológico muito apertado.
Todos nós somos sobretudo herdeiros de anti-democratas, e de não-democratas ou de pessoas que só não eram contra porque nem sequer concebiam a sua possibilidade. A Europa encontra a democracia como uma solução histórica para um tempo determinado que se dá o caso de ser o nosso. Mas da mesma forma que o império ou o feudalismo ou do domínio dos príncipes pareceram realidades eternas durante séculos, temos de aceitar que a democracia poderá não ser o esteio final das nossas sociedades no futuro.
A Europa sempre foi Europa, e no entanto só de há muito pouco foi democrática. Meio século para os mais velhotes, uma década para os mais recentes. Historicamente é uma camada muito fina, muito frágil e muito menos determinante que as outras. Sejamos claros. Habituados que estamos a considerar a democracia como o nec plus ultra da existência humana olhamos para os nossos antepassados com algum desdém porque eles, coitados, não viviam em democracia.
Tenhamos então algum bom senso e reponhamos as coisas nos devidos lugares. Na nossa época histórica a democracia tem sido o sistema que melhor tem garantido essa herança, esse património. Para um teórico político do século XVII o principado era o mundo natural, não obstante exemplos exóticos como os Países Baixos ou a Suíça, e em parte Veneza e a Polónia. E não era imbecil por assim achar. Tinha mais solo histórico sobre que assentar que nós quando falamos de democracia. Um pouco de humildade ficaria bem aos beatos da modernidade (com ou sem “pós” é a mesma coisa, porque quem apenas sabe conceber a sua vida como após uma anterior mostra que não a superou).
Mas isso não quer dizer que é o sistema definitivo na História. Muito do óbvio deixa de o ser. E quando queremos procurar o que pode estar em perigo, não é nos slogans dos bem pensantes que se encontra, mas no que consensualmente todos dão por certo. Sobretudo, como a democracia não é fundamento último, mas escora-se ela mesma em fundamentos que a precedem, fundamentos bem mais profundos que ela mesma, tudo querer assentar na democracia leva a uma sobrecarga da mesma.
 O fim da democracia aproxima-se na altura em que sobre esta tudo se quer assentar. Quando se quer definir a Europa pela democracia, esquecendo que esta é uma condição e não um fundamento, e daí se retira como conclusão que todo o bárbaro pode ser europeu, aliás, que quanto mais bárbaro, mais europeu pode ser (“mas porém a que cuidados?” e com que interesses?) os pilares quebram para deixar vir ao de cima o que é realmente fundamental.
Vivemos milhares de anos sem ser democratas, mas sendo europeus. Mesmo sem democracia não deixámos de ser franceses, portugueses, polacos, russos. E não produzimos por isso medíocre cultura, salvo se Goethe e Gauss devessem ser deitados ao lixo. Vivemos há milhares de anos desta confluência entre cristianismo e paganismo indo-europeu. Quando nos dizem que somos democracia, só democracia e economia de mercado, o confronto com outras culturas que de comum só têm connosco isso partirá o próprio sustento dessa democracia.
É certo que os cultores do curto prazo não se importam de assentar mais andares num prédio. E vão acrescentando mais e mais. No seu tempo de vida julgam que não pagarão preço nenhum. Mas quando o cidadão comum vir que se vai a votos para a antropofagia, ou para qualquer outro costume mais ou menos janízaro, e que no dia a dia se degolam carneiros nas escadas do seu prédio, ou que a criança, a mulher, o homem respiram muito diferente ar, veremos o que sobra. Se o húmus fértil em que nos gostamos de instalar e a que chamamos de democracia, ou se a rocha ou o magma sobre o qual assenta. Nessa altura é evidente, os sacerdotes da deusa única democracia já a estarão a incensar alhures. Aceitaram a destruição do templo para apenas manter o altar. Mas ao relento a tempestade levá-lo-á. E as suas fundações permanecem. Precisamos da democracia? Sim. Como protecção e conclusão (até haver outra) de um processo. Mas sem ilusões de que o tecto substitua as fundações.
Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

sábado, 10 de agosto de 2013

Dogma e liberdade II


Os movimentos contemporâneos, não é contra o mundo medieval, ou antigo, que se dirigem, mas ao próprio mundo burguês que os fez nascer. São revoltas edipianas contra a sua paternidade e a sua origem. O ímpeto revolucionário destruidor dos seus pais virou-se agora contra eles, o que é simultaneamente poético e justo, e feito de uma ironia rotineira da História.

 

O resultado no caso concreto é que o bom do Polikoff, para compreender a mística de Rilke vai procurar a sua fonte no sufismo, esquecendo que o sufismo é herdeiro do cristianismo e do platonismo e não o inverso (lembro que São Gregório de Nissa viveu mais de dois séculos antes de Maomé, e Santo António do Deserto quase três séculos antes, para os mais exigentes). E que Rilke notória, gritante, expressamente influenciado pela mística russa, que, como toda a mística ortodoxa, é bem mais publicitada e visível entre os ortodoxos que a ocidental o é entre os ocidentais, seria bem mais compreensível pela mística ortodoxa que por uma putativa e nunca demonstrada influência da mística maometana.

 

Tique curioso e significativo: esvazia-se o passado da Europa e por isso tem de se ir ao exótico procurar referências. Quem o faz esquece-se que não é o vazio alheio que explica essa necessidade, mas o próprio. Polikoff não é médico, mas sintoma.

 

Depois de ver a situação na perspectiva negativa, que sobra então desta ideia de que Rilke se opunha ao catolicismo e construiu uma religião pessoal? O dogma impede a liberdade? É a pergunta a fazer, em suma.

 

Quando vemos os abismos que separam São Francisco de Santa Teresa de Ávila, Santo Agostinho de São Tomás de Aquino, Mozart de Joachim des Prés, Rubens de Giotto, Cervantes e Dante temos de nos perguntar se de alguma forma o cristianismo, e mais especificamente a ortodoxia dogmatizada, impediu a liberdade e a criação. Quando permitiu uma Alienor de Aquitânia e um Carlos Magno, bem como um Fernando Magno ou um Ivan o Terrível, não se pode dizer que as personalidades tenham ficado estereotipadas por causa do dogma. Verdade simples e difícil de compreender para a pouca oxigenação da época: todo o cristianismo é pessoal, e pressupõe uma relação pessoal com Deus.

 

O dogma é como um ponto de fuga num quadro que usa a perspectiva. É um ponto ideal sem o qual o resto do quadro cai em colapso. Não é apenas um desiderato, algo de residual, saliento. É o ponto de fuga para onde deve tender a nossa vida. O dogma neste sentido é sempre escatológico. Mas que toda a nossa vida seja determinada pelo dogma, ou que este tenha essa pretensão, já me parece temerário afirmar.

 

Vamos então ao bom do Jung, o verdadeiro, e não o digerido por molesta pança. Ele salientou bastante que a psicologia não pode falar de Deus mas apenas da «imago Dei». É verdade o que diz Tertuliano, em certo sentido: «anima naturaliter christiana», a alma é naturalmente cristã. Admita-se. Mas talvez se devesse dizer que «anima naturaliter haeretica» ou mesmo «gnostica». Por isso, o dogma tem essa função de ponto de fuga no quadro. Em suma, de ligação ao Espirito.

 

Santo Agostinho dizia que «graças a Deus não sou responsável pelos meus sonhos». Agostinho concubino e maniqueísta, geralmente pensa-se, em sonhos provocados pelo primeiro estatuto e não pelo segundo. Os sonhos de que fala Agostinho talvez sejam mais heréticos que eróticos. Os nossos sonhos não obedecem ao dogma. Nenhuma vida é absolutamente ortodoxa. Fora assim não haveria nenhuma luta.

 

A ideia de um tempo em que o dogma tudo uniformizava, tempo esse de que nos teríamos libertado, é apenas mais uma fantasia do servo da gleba que precisa de inventar uma gleba para não se sentir mais servo. A sua liberdade nasce de uma libertação de prisões imaginárias, para não sentir o peso das grilhetas reais que o afligem e que foram feitas por si. Nascido de migração, estranho no seu próprio mundo, não peregrino, mas transeunte, calcorreia os passeios da vida sem saber para onde ir e acabando por não querer que mais ninguém vá para alguma parte.

 

Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Dogma e liberdade I


Assim como sou um fervoroso admirador de Jung, não acho particularmente comestível a maioria dos seus seguidores. O próprio Jung dizia que não era junguiano. E tirando talvez o caso de Marie-Louise von Franz, que teve obra original e simultaneamente profundamente entendida no pensamento de Jung, os esbirros de Jung parecem-me muitas vezes tão confrangedoramente destituídos de bom senso, quando o seu patrono era dele dotado.

 

Uma das lengalengas da nossa época é a de que o dogma limita a liberdade. Renasceu este meu agastamento ao ler um livro de um tal Pollikoff sobre a obra de Rilke. Ora é significativo que este tal de Polikoff, rapaz bem comportado formado em academias longínquas, em vez de citar Jung, cita um seguidor de segundo nível chamado Hillman, que parece ser um rapaz inteligente, mas sem mais, talvez algures na sua cidade glória local, muito merecida, deduzo, mas constrangedoramente trivial e bem comportado nas suas ideias.

 

Explico em que sentido.

 

Como é usual, a obra dos poetas, pensadores, artísticas, científicas da Idade Contemporânea ou não é confrontada com o cristianismo, ou, quando tal é inevitável, desesperadamente inevitável, compara-se com o cristianismo.

 

Quando é tal inevitável? Quando o próprio autor declara, expressa, proclama a sua ligação ao cristianismo. Nos outros casos, omite-se pura e simplesmente a problemática cristã das suas obras. O que é pena. Muito haveria a dizer sobre a marca cristã em Poincaré e Maxwell, por exemplo.

 

Critério curioso. Seria a mesma coisa que só falar de organitos caso a célula nos falasse deles, ou só referir o electromagnetismo se o próprio campo electromagnético se declarasse com essa qualidade. A falta de profundidade, de perspicácia, dos críticos literários e historiadores na nossa época é em geral muito confrangedora. Vivem apenas do valor facial quando este lhes interessa, e procuram desesperadamente o reverso quando o facial os assusta.

 

Mas quando se compara com o cristianismo, com que cristianismo se confronta o autor? É evidente: com o cristianismo em versão popular, de preferência caricaturado e em veste burguesa.

 

É o que faz o bom do Polikoff. Impressionado com a repressão católica dos costumes do século XIX, constrói a obra e o pensamento de Rilke com base numa ideia de afastamento dos dogmas católicos.

 

Qual é o problema? É que não se trata de dogmática católica, mas de um catolicismo austríaco do século XIX, um dos séculos mais pobres para a criação católica, malgrado ser uma época de fecundação de movimentos que vieram mais tarde a produzir os seus frutos, como o do estudo da patrística. Mais pobres, mas atenção: Bruckner, Chateaubriand e Duhem não são medíocres. O mundo circundante, antes de ser dominado por hábitos católicos, era-o por costumes burgueses, herdeiros da revolução industrial e da revolução francesa.

 

A claustrofobia que o burguês tem em relação a essa época é antes do mais a claustrofobia que o burguês tem em relação ao mundo que ele próprio criou. O burguês, mal instalou o mundo, o seu, vive o horror da sua construção. A crítica dos artistas, dos revolucionários e dos pensadores, a maioria de origem burguesa, diz tudo sobre a honestidade e a inépcia desta classe. Todos os movimentos de revolta até à nossa época são, não uma revolta conta o cristianismo enquanto tal, e a sociedade aristocrática que o deixou florescer, mas revoltas edipianas contra as suas origens burguesas.

 

O pós-modernismo no fundo ataca bem mais o positivismo que é seu pai que o cristianismo que insulta. As correntes de pintura desde a segunda metade do século XIX não é tanto contra Da Vinci que se assanham, mas contra a pintura burguesa, industrial do século XIX. Heidegger ataca a teoria dos valores, que é uma pequena reclamação, mas no fundo submissão, ao positivismo.

 

(mais)

terça-feira, 30 de julho de 2013

Não gostei



Admirável força evangélica na simplicidade dos modos, na ausência do medo, no desejo de transparência, na exigência de Justiça, na sã frontalidade e no regresso aos primeiros valores e à pureza da palavra Esperança.
Falo da visita do Papa Francisco que também convoca os portugueses descendentes dos criadores do maior País do mundo católico. Foi impressionante ver três milhões de pessoas em Copacabana. Apenas João Paulo II tinha ultrapassado esta fasquia em Manila, na missa com quatro milhões de filipinos.
Mas não gostei de ouvir o Papa dizer que a ordenação das mulheres era um dossier fechado por causa de João Paulo II. Sugeriu que estava cativo de uma má herança. Saberá, como todos nós, que nenhum Papa desautoriza o anterior. Também João Paulo II ficou vinculado à Encíclica de Paulo VI na polémica questão do preservativo. E não se queixou. Gostava de estar enganada. Se estiver, ajudem-me a pensar melhor.

(mais)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Temos de ser abertos e flexíveis?

Ouçamos com ouvido atento, mesmo que ferido por tão dissonantes melopeias, o que diz o transeunte. Como os homens públicos são hoje em dia os filhos das compoteiras, transeuntes relapsos, ouçamos o que nos dizem mais uma vez. “Temos de ser abertos, temos de ser flexíveis”. São duas versões de uma mesma cantiga, a primeira mais de uso na cultura, a segunda mais na gestão pública e privada, ambas na política.
 
A primeira pergunta que se nos oferece é a seguinte: quem disse isso? Quem se atreveu a impor tal imperativo moral? Quem lançou tal boato?
 
A segunda questão que se nos deve colocar é a do paradigma que subjaz a estas ideias. A ideia de abertura, por mais que custe a quem me ouve, tem o seu assento na metafísica, a da flexibilidade na biologia. Mais uma prova de que o homem público recolhe vindo não sabe de onde conceitos que na sua boca mais não são que rumores, porque rumor é tudo de onde não se sabe a origem.
 
Existe um ditame que afirma que perante uma garrafa uns dizem que está meio cheia, outros meio vazia. Imagem impressiva, mas em última análise grosseira, porque se esquece que a melhor visão é a de que vê que metade terá dado prazer e a outra metade ainda poderá dar satisfação. São os cultores da abertura quem mais o cita, o que mostra a rigidez da sua visão.
 
A abertura ganha relevância intelectual sobretudo com Heidegger. Antes dele ninguém se atreveria a dizer com ar solene que temos de ser abertos, sob pena de os interlocutores acharem que o autor de tais palavras pretendia ser objecto de cirurgia ou teria desejos mais ou menos inconfessáveis. Não querendo comparar os medíocres imitadores com o genial persuasor, a verdade é que no pensamento actual a abertura recolhe todas as pudicícias do pensamento de Heidegger. Ao ver a existência como abertura, na mesma esteira em que dizia que nunca poderemos atingir o centro da clareira (pois não, é uma inevitabilidade estarmos nele), o católico Heidegger, católico arrependido, pudibundo em relação à sua matriz, lançou uma semente de infantilismo que o mundo seguiu com alegria.
 
Aberto por excelência é o recém-nascido. Mais nenhuma idade da vida tem tantas possibilidades abertas. Porque a abertura é flutuar nas possibilidades, e não persistir nas realizações. Um recém-nascido pode ser das coisas mais ternurentas do mundo, mas é um incapaz, tenhamos a coragem de o reconhecer. Não se pode contar com ele para nos proteger, para nos sustentar, para ser um esteio da nossa vida. É evidente que seria demais exigir tal coisa de um recém-nascido. Mas quando adultos vivem só na abertura, abertos para o mundo, atiram-se a possibilidades apenas como forma de não terem de responder pelas suas realizações. Basta-lhes dizer que são abertos para se sentirem imediatamente no direito de serem absolvidos pela falta de qualquer obra.
 
Em termos militares é o que se chama uma diversão. Desvia-se a atenção dos outros para a nossa nulidade presente e passada mostrando o infinito de possibilidades que está à nossa frente.
 
A prova da imensa má fé deste tipo de atitude é que realmente acabam por ser abertos. Mas, destituídos, ainda e sempre de critério, acabam por estar abertos para o que de mais medíocre, indigno, trivial, tem a existência humana. Como o excelente carece de escolha dura, é-lhe mais fácil manter uma atitude de abertura. Sem mais. Mas quem está nesta atitude está parado, não deixa lastro, é mero destinatário da sua própria inércia.
 
Abertos sempre a outras culturas para as quais esperam que ninguém tenha competência para os julgar, abertos para outros modos de vida que não se dão ao trabalho de estudar. O homem pura e simplesmente aberto é o herdeiro tonto do cristianismo. Não recebe os publicanos e as prostitutas porque recusa uma pureza meramente ritual, ou como acto de amor. Recebe geralmente só publicanos e prostitutas porque em boa parte sabe que eles não o podem julgar, porque isso lhe dá um sentimento de superioridade.
 
Porque o adulto é sempre alguém que fechou possibilidades. Escolheu uma profissão e não outra, um parceiro e não outro, uma aprendizagem e não outra. Se for equilibrado, e sobretudo se for completo, manterá sempre o maior grau de abertura compatível com a realização de obra. Mas quem faz uma casa não pode ao mesmo tempo estar a jogar xadrez.
 
A flexibilidade tem o seu paradigma na biologia. No entanto, os animais superiores são-no exactamente porque têm zonas de flexibilidade e outras de dureza. Se os ossos fossem apenas flexíveis não nos moveríamos: arrastávamo-nos, ou melhor, esparramávamo-nos.
 
Não deixa de ser curioso que as pessoas que mais invocam este argumento sejam pessoas sem grande coluna, sem grande postura moral. Invocam como imperativo categórico o que nelas é uma inevitabilidade, o que mais não podem ser. Dão-se o mérito de uma naturalidade de invertebrados, quando essa naturalidade é apenas sinal de impossibilidade de escolha de melhor.
 
Desçamos um pouco à terra, ou melhor, falemos agora na linguagem chã do homem público para que ele perceba alguma coisa.
 
Quando se fala de uma Europa aberta, de uma Europa que deve ser aberta, sou o primeiro a concordar. Mas na medida em que seja aberta mas concentrada nas suas realizações, ou seja, fechada igualmente. Adulta, portanto. Uma Europa aberta não significa abrir-se ao ponto de receber os países deserdados da História só porque o são, só porque conseguiram o ódio ou o desprezo dos vizinhos como único legado histórico e quando muito a piedade da Europa. Quando se diz que temos de receber toda a miséria do mundo quando os Estados Unidos, a Austrália e o Canadá escolhem criteriosamente quem para eles emigra. Quando temos de estar abertos a qualquer indignidade desde que coberta por tradições mais ou menos vetustas, que o são apenas por falta de imaginação dos povos que as consagraram. Quando ao mesmo tempo estes que se dizem abertos, abrem-se ao sofrimento dos animais e a outras culturas que lhes provocam o sofrimento e vivem assim nessa abstrusa contradicção. Quando se diz que temos de ser flexíveis e aceitar entorses às leis, desvios em relação a planos equitativos e bem planeados, apenas porque nos temos de adaptar à realidade. Como se a realidade não fosse também qualquer coisa que tivéssemos o poder de adaptar às nossas exigências.
 
Quando se diz tudo isto em nome da abertura e da flexibilidade, e no espaço público vemos invocar tamanhos dislates, podemos perceber qual a alma e a anatomia dos defensores de tais despautérios. Infantilizados mimando recém-nascidos, merecendo-nos a mesma confiança que temos nos bebés, e menor ternura, esparramados na sua própria inércia, os flexíveis e abertos são apenas criaturas que fogem às suas responsabilidades, que traficam com influências porque para eles a vida é apenas tráfico. Entre os grandes não vemos nem essa abertura nem essa flexibilidade. Vemos antes teimosos, obstinados. Carlos Magno, Alexandre, César, Henrique IV, De Gaulle, Churchill negociaram com a realidade, adaptaram-se a ela, mas antes do mais forçaram-na, recusaram ser abertos ou flexíveis. Perante inércias ou iniquidades, jogos de interesses instalados e livres expressões de outras culturas, impuseram um paradigma, porque o julgaram, porque o sabiam melhor. Serôdios herdeiros de um cristianismo mal digerido, instalado em almas pouco preparadas para criticar a sua má aplicação, os abertos e flexíveis apenas sabem construir obra à sua imagem: mole, irrelevante, fugaz. O seu paradigma é Pasqualis que se opôs a Carlos Magno. Quem se lembra dele? Apenas os mesmos que se lembrarão de Carlos Magno em estudo minucioso. Por comparação entre o grande que exista ou venha a surgir, o mero contraponto da mediocridade sorridente.
 
Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Trovas antigas


Um pouco por todo o lado, deu-se a revolta contra Paulo Portas perante a atitude da passada semana. Compreende-se. Entre todos, destacaram-se os adversários adormecidos que, pensando Portas morto politicamente, vieram a terreiro dizer finalmente o que pensavam. Luís Nobre Guedes, Pedro Santana Lopes, Manuel Monteiro, José Ribeiro e Castro e Durão Barroso falaram. Faltava Cavaco Silva. Parece que as questões pessoais tardam mas não falham. A que preço.

(mais)

O Secretário da Junta

Quem manda aqui sou eu.
Não há maioria, nem representação política organizada em partidos.
Nem erro nem correcção.
Eu não sou eu com a minha circunstância.
Eu sou eu. Que mando.

(mais)

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Morrer pelos outros


José Maria Cortes foi morto à facada quando tentava assistir um amigo no chão, vítima de dois golpes da mesma arma, dados por um desordeiro na madrugada de uma feira bem regada.
Era casado, geria uma cadeia empresarial, jogava rugby e liderava dezenas de rapazes que pegam toiros no Grupo de Forcados Amadores de Montemor-o-Novo. Era um exemplo de rectidão, de coragem e de condução de homens. Por isso atendeu a quem estava caído. Por isso morreu.
A demora dos bombeiros e das Forças de Segurança e a inactividade do Centro de Saúde de Alcácer nas primeiras duas horas de assistência devem ser objecto de inquéritos para apurar todas as responsabilidades desta tragédia. Vergonhosa foi, também, a cobertura televisiva inicial, sugerindo que a rixa da feira se travara entre grupos de forcados armados. É não conhecer quem pega toiros.
José Maria estava habituado a enfrentar de caras toiros bravos de 600 kg. Não estava preparado para homens cobardes armados nas suas costas.
Paz à sua alma. À Família, o consolo impossível.


(mais)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Os Estados Unidos e as relações especiais





Os ingleses salientam que têm uma relação especial com os Estados Unidos. Ainda noutro dia ouvi um deputado europeu do UKIP britânico afirmando que deveram sair da União Europeia e fazer um acordo com os Estados Unidos, porque o Reino Unido era, não apenas uma grande economia, e um país muito poderoso, como em acréscimo tinha uma relação especial com os Estados Unidos. Não se perguntou-se os Estados Unidos o queriam fazer...

Nem de propósito, poucos dias depois ouço numa televisão alemã um diplomata americano sedeado em Berlim lembrando que os Estados Unidos tinham uma relação especial com a Alemanha. Saliento: desta vez não foi um alemão a dizer que existia uma relação especial – foi o próprio americano que o disse. Não se trata de alguém que se arroga, mas de alguém que o proclama.

Lembro-me também de que nos foi vendido como ouro de lei o facto de haver uma relação especial entre o Reino Unido e os Estados Unidos e de que a prova era a que Blair fora recebido no Congresso americano, honra raramente dada a um político estrangeiro. É certo que a relação é especial: o bilhete custou-lhe biliões de libras na Guerra do Iraque e muitas vidas britânicas. Já pouco tempo depois Sarkozy é recebido no Congresso e depois ainda Merkel. E de graça. O bilhete não lhes custou nada. Relação especial, os ingleses? Sem dúvida. Paga a peso de ouro. Os franceses e alemães entram de graça.

Lembro-me igualmente de termos tido um Governo que teve de lembrar os Estados Unidos de que somos seus amigos, porque eles se tinham esquecido do facto. Realmente, nós portugueses temos uma relação especial com eles.

Mas lembro-me sobretudo do Don Giovanni de Mozart, quando o bom do Leporello, muito lucidamente diz a Dona Elvira:



Madamina, il catalogo è questo

delle belle che amò il padron mio,

un catalogo egli è che ho fatt’io,

osservate, leggete con me.



E que diz ele? Que lê nesse relato?



In Italia seicento e quaranta,

in Lamagna duecento e trent’una,

cento in Francia, in Turchia novant’una,

ma in Ispagna son già mille e tre



Pois é. Todos temos relações especiais com os Estados Unidos, que promete amor a muitas e mesmo outras a quem não prometeu amor se sentem picadas por se dizerem amadas por eles. Critiquei muito certa classe política pela sua origem servil. Pena é que não tenha vindo da seiva de um Leporello, ou que não tenha aprendido com os ouvidos de Dona Elvira. Porque assim lhe cantaria a consciência:

ma in Ispagna son già mille e tre... mille e tre... mille e tre ... mille e tre



Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

sexta-feira, 7 de junho de 2013

António Costa e a democracia


Imaginem o que seria Pedro Passos Coelho pedir a Assunção Esteves o plenário da Assembleia da República para encher as bancadas de amigos e inaugurar a sua campanha eleitoral?! Nos lugares do Bloco de Esquerda, do PCP e dos Verdes, por exemplo, sentaria a JSD, os artistas que o apoiam, os ex-dirigentes do PSD, os actuais, o Povo laranja em geral. Um sucesso.
Foi exactamente o que aconteceu ontem na Assembleia Municipal de Lisboa. António Costa tomou as instalações do parlamento local para ali sentar toda a sua claque e fazer o balanço do mandato, sem qualquer contraditório. Para cúmulo, convidou os donos da casa, os deputados municipais, aos quais os serviços de protocolo indicavam a fila de lugares reservados. No templo do contraditório - que é qualquer parlamento - os deputados não tiveram voz. Os quatro ou cinco que aceitaram o convite para irem a sua casa, ouviram e calaram. Calaram mas não consentiram.
O orador falou durante duas horas o que bem quis. Apontou erros a gestões anteriores que não puderam contrapôr. Gabou-se de vitórias cujos méritos também pertencem ao Poder Central, sem que fosse possível ajustar essa verdade. Falou também da sua obra sem que a Oposição pudesse fazer reparos à lentidão dos processos ou ao que prometeu fazer, não fez e, claro, não disse que não fez.
Na assistência, o povo de esquerda aplaudia o comício. De Maria Barroso a Ferro Rodrigues; de Correia de Campos a Carlos Carmo; de Margarida Martins à equipa de vereadores que assim tomou os lugares dos deputados. Uma balbúrdia institucional que nunca teria sido perdoada à equipa de Santana Lopes, por exemplo.
Bem sei que a Assembleia Municipal funciona numa sala de espectáculos onde podem actuar artistas e passar fitas de ficção. Foi o caso. O Presidente da Câmara teve o bom gosto de não subir ao palco e de mandar apagar os focos que só iluminavam o próprio. Na forma cumpriu. Na essência foi o único «iluminado» num mundo de confusão institucional, para não dizer, de atrevimento institucional.
Em declaração de interesses, convém dizer que sou deputada municipal de Lisboa, eleita como independente nas listas do PSD. Aceitei o convite de ontem porque pensei que, como sempre, se tratava de um espaço aberto ao debate e com respeito pelo lugar do público, dos deputados e dos vereadores. Mas basta dizer: com respeito pela sede da democracia autárquica.

(mais)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Relações de vizinhança

O que é um vizinho? É o que está perto de nós. Quando os vizinhos são países nem nós os escolhemos nem eles a nós. Foram meras vicissitudes históricas (a História tem importância afinal) que nos fizeram ficar perto. Conheço europeus que sentem muito mais afinidades com indianos, chineses ou brasileiros. Mas a verdade é que lá estão eles, teimosamente, os nossos vizinhos. São outros. São árabes, turcos e turcófonos.

Independentemente de maiores ou menores simpatias um vizinho tem um estatuto especial. Está perto. Cola-se à nossa vida e nós à dele. Podemos ignorá-los mais ou menos, mas nunca completamente, nem eles a nós. Não se trata portanto de simpatias especiais. De entre os não europeus tenho mais simpatias pelos indianos, pelos persas e pelos árabes, porque admiro mais povos criativos que medíocres. Mas isso é questão de gosto pessoal. Irreleva portanto.

O que fazem os vizinhos? Podem ignorar-nos, mas não é o caso porque somos mais ricos, mais ricos económica e culturalmente e, esquecemo-nos desse facto, somos muito grandes. Grandes demais para ser ignorados. Podem entrar-nos dentro de casa pela emigração, ou querer ser o que nós somos por uma paixão doentia e não correspondida, como acontece com os turcos. Podem odiar-nos, invejar-nos, ter ressentimentos em relação a nós e ao mesmo tempo admirar-nos.

É evidente que cada um dos nossos vizinhos é diverso do outro. Uns são particularmente sofisticados, como os do Levante (Médio Oriente e Egipto), outros um pouco menos (como os do Maghreb) outros nem sabem bem o que são, como os turcos e turcófonos da Turquia e da Ásia Central.

Mas têm aspectos comuns. Participam de processos civilizacionais falhados, que não produzem nenhum génio desde o século XII (árabes), ou nunca produziram (turcos). E que já não são potências relevantes desde o século XVIII no melhor dos casos (Turquia).

Que relações queremos ter com os nossos vizinhos? Para quem quer a paz, prefere que sejam boas. A ideia miraculosa da Europa, típica do seu espírito cristão, é o da engenharia histórica. Queremos convertê-los em europeus. Como? Através da ajuda humanitária e da ajuda ao desenvolvimento. Achamos que se eles forem ricos como nós estarão pacificados. E como enriquecê-los? Transformando-os em economias tipicamente europeias, em sociedades europeizadas. O herdeiro do espírito da cruzadas, generoso, mas visto como agressivo pelos nossos vizinhos.

É que se esta ajuda é sinal de sensatez, de sentido de responsabilidade e de generosidade, no que concedo, esquece o facto de que os povos não se alimentam só de pão. O que diríamos nós se a nossa última glória cultural fosse Santo Anselmo? Se não houvesse, nem Bach, nem Gauss, nem Tolstoï, nem Kant, nem Heisenberg, nem Camões? Se a nossa última poesia de relevo fosse a trovadoresca, e o nosso último grande pintor fosse Giotto? Que diríamos, caso fossemos turcos, caso não tivéssemos deixado nenhum nome para a História da cultura, ou apenas o conseguíssemos se disséssemos que Rûmi, poeta persa, era turco? Seria como dizer que Portugal é um país de grandes filósofos porque Ortega Y Gassett viveu refugiado em Lisboa algum tempo.

A pacificação pela ajuda é um instrumento, mas não basta. Os povos sentem necessidade de ter orgulho na sua cultura, sentem necessidade de prestígio em suma. O Japão não se pacificou apenas pela prosperidade económica. É porque a sua cultura tem prestígio. A Arábia Saudita, país rico, vive no ressentimento porque não produz um único homem de cultura que tenha prestígio.

O problema é que não podemos ajudar os outros a ser criativos, a serem estudiosos, a serem inteligentes. Pode-se dar o caso portanto de os nossos vizinhos se desenvolverem estrondosamente, mas continuarem estéreis sob o ponto de vista cultural, folclóricos em suma.

Uma das estratégias é a de fazermos de conta que ficamos fascinados com a profundidade da sua cultura. É o que tem acontecido com o cinema turco e com certos músicos turcos que alguns países europeus tentam promover. Mas não se encontram nem Eisenstein, nem Strawinski entre eles. E quanto a matemáticos ou físicos turcos, nem se pode fingir que eles existem. A longo prazo vale o que vale, como todos os embustes. Perceberão que nada resta, porque nada havia de origem.

A outra é a de rezarmos para que eles se resignem. É pia intenção e duplamente arriscada. A longo prazo não é muito sustentável a prosperidade sem invasões guerreiras (caso turco) ou sem criatividade (como aconteceu com árabes e persas). É mesmo duvidoso que se desenvolvam sequer de forma consistente nos próximos tempos. E pode-se dar o caso que um dia acordarem lúcidos e verificarem que têm uma cultura não criativa. Pensamos dizer-lhes: “ora isso não tem tanta importância assim”?

Não é por acaso que há fundamentalismos. O problema é económico-social mas também simbólico e cultural. Aquilo a que os estamos a obrigar é a que deixem o seu paradigma de civilização ou então que retornem a fontes arcaicas. É o que têm.

Daí que a vacina não baste, é necessário o hospital. Não é dizendo que nunca vai haver doença que a evitamos. Da mesma maneira não é dizendo que nunca vai haver guerra que ela nunca se verificará. Ou deixamos o hospital a ser gerido por outros, no caso os americanos, e toda a nossa política fica dependente deles, ou pagamos o preço desse hospital.

Porque historicamente os vizinhos fizeram guerra. Evitá-la implica reconhecer a sua possibilidade. E dotar-se dos meios para a vencer. E se não a queremos, se não a queremos real e profundamente, temos de não depender de guarda-chuva dos outros. Sempre que molhar mais para o lado deles escuso de dizer quem vai ficar protegido. Por isso quando vejo um político dizer que o nosso principal aliado são os americanos, pergunto-me se ele vota para o congresso americano ou o presidente dos Estados Unidos. Não sendo o caso, entrega-se nas mãos do Espírito Santo. E como diz Jung: “que imprudência!” Sobretudo porque não é espírito, e muito menos santo.


Alexandre Brandão da Veiga



(mais)

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Nada menos do que o melhor!


Com o Papa Francisco em Roma e D. Manuel Clemente no Patriarcado de Lisboa é imensa a responsabilidade dos crentes. Em ambos temos o Bom Pastor, amigo do óptimo comunicador. Vivemos dias felizes e exigentes.

(mais)

A cobardia como forma de luta


Que respeito pode merecer-me um professor que prejudica os alunos para defender a sua pele? Que professor pode usar um aluno como escudo numa qualquer batalha? Que gente é esta que faz das nossas crianças objectos de arremesso numa guerra com o Ministério da Educação?
Nem discuto os seus motivos. Porque todos perecem perante esta iniciativa de greve durante os exames dos menores.Haja decoro.

(mais)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Racionais e científicos


Tendo eu dedicado algum tempo e paciência ao estudo de espécies de insuficientes, gostava de apresentar mais um que vegeta na praça pública. Descreve-se este pela frase “eu sou um homem racional, com espírito científico”. E nada mais diz a criatura. Não fundamenta nem desenvolve.

Façamos uma pausa e vejamos que enormidade está a ser dita. É que o pobre coitado julga que está a dizer coisa coerente, mas esquece-se de que a razão e a ciência não vivem sem duros conflitos entre si. A banalidade faz da fé a grande adversária da razão, ou pelo menos com quem mais se confronta. Mas a ciência não tem menos problemas com a razão.

Em primeiro lugar abandona qualquer hipótese de uma razão total. O sentimento de quem tem razão, as vivências que se instalam em simbiose com a razão e a alimentam são expurgados do seu horizonte. A razão da ciência pressupõe uma despedida e uma pobreza. Em segundo lugar é uma razão não imperante, antimonárquica. Essa mesma razão tem de ser sindicada pela experiência, pelos sentidos, mesmo que mediatamente. É uma razão dominada, obediente. É finalmente uma razão que abdica de tratar pelo menos directamente (ou seja, nunca) das coisas últimas, das últimas causas e dos últimos fins. É uma razão de renúncia, em boa verdade, casta.

A razão da ciência é assim uma razão que nasce de uma despedida, de uma dominação e de uma renúncia. Pobreza, obediência e castidade são os seus motes.

Os grandes filósofos medievais (cada vez mais percebo que este adjectivo diz muito pouco) conviviam alegremente com o infinito, traziam-se eles todos com a razão, e deixavam-na imperar. Nada desta glória é reservada à ciência moderna. A partir do momento que se abandona este primado da razão o espírito científico vive obcecado com a certeza e mais tarde obcecado com a sua destruição, como se de um bezerro de ouro fosse. Mas bezerro criado pelos primórdios da própria ciência e não por um mítico obscurantismo medieval.

Se bem virmos o que mais se aproxima do movimento científico não é o sacerdote de Ísis castrado, nunca o poderia dizer tendo em conta a sua fecundidade, mas o movimento monástico. Tanto os votos que a razão tem de fazer para se tornar científica são semelhantes, assim são semelhantes as manifestações de um e outro movimento. Ambos formam um modo de vida, as suas congregações. E entre os orgulhos de cada mosteiro, outras vezes orgulhos nacionais, a pertença à república das ciências traz ar de beneditina postura.

Como se vê, a razão da ciência não é uma soberana e folgazona que se atrevesse a cavalgar no seu império. A riqueza da sua vida faz-se da clausura, a extensão da sua vida mede-se na medida inversa dos seus constrangimentos. Como se vê, quem afirma ser racional e simultaneamente ter espírito científico sem mais fundamentar ou delimitar arroga-se ser rei e monge de um só golpe. Sem ter consciência da contradição.

Mas continuemos. Vejamos em que mais esta frase esquece os dados fundamentais do que deveria dizer.

De que razão se fala, de que ciência? Cada uma delas tem assentos bem diversos, modelos bem díspares entre si. O modelo mecânico imperou sobretudo nas ciências físicas, por vezes na química. O modelo morfológico nas ciências humanas e nas da vida. Um e outro atravessam a matemática e a química. Trata-se de modos de viver a razão bem diversos, sendo ela a mesma não obstante. É evidente que existem paralelos entre o filólogo, o linguista, o mineralogista, o biólogo e mesmo o especialista da álgebra abstracta, sobretudo na escola de Bourbaki e seus descendentes. E que existem semelhantes entre o especialista em análise, o físico, o teórico da informação. E mesmo assim apenas falo de tendências. Nenhuma ciência foi imune à morfologia ou à mecânica. Freud é mecânico e Jung morfologista, Spengler é mais mecânico e Ortega, Toynbee e Kantarowicz mais morfologistas. De que razão se arroga pois este espécime que se afirma racional e científico? De que espírito científico? Afirma que a sua razão obedece a um paradigma mecânico ou morfológico? Ou ambos? E como os concilia?

O espécime em causa, que pulula no espaço público, não vive apenas nesta podridão. É que esquece que o movimento científico tem origens algo obscuras, nasceu na obscuridade, mas nasce igualmente todos os dias da obscuridade. Vejamos alguns exemplos. A atracção e repulsão de Newton são conceito bebido na teosofia, na cabalística, na tradição hermética. Todas as crianças cantarolam hoje em dia a canção de Einstein, mas não foram “idealistas” alemães como Mach, ou um homem não muito enquadrável como Maxwell a dar foro de nobreza científica ao conceito de energia, esse conceito tão ressumando espiritismo, e ocultismos, seria palavra bem ridícula hoje em dia face à comunidade dos cientistas. Quando o padre Lemaître descobre que um dos corolários da teoria da relatividade generalizada seria o Big Bang é acusado de criacionismo. Quando se fala em múltiplos universos tem-se conversa que assusta o nosso espécime. Não deve ser a essa razão que se depara com o infinito que o move.

Vejamos mais um pouco o bicho. A dissecação prova ser divertida.

De novo em termos simplistas a ciência fez-se de dois movimentos contraditórios. Um primeiro assente no platonismo (ou melhor, num neopitagorismo), que dá origem à física do século XVII. O segundo nasce com o aristotelismo e o tomismo, e que faz nascer as ciências da vida, a mineralogia e a química. Mas igualmente a filologia, e as ciências humanas em geral. Seguem-se obviamente várias miscigenações entre estes movimentos e uma ideologia sobre a ciência que quer como paradigma a física (neopitagórica) mas em boa verdade tem prática aristotélica, passando pelo filão helenístico.

E isto sem esquecer que estes dois grandes movimentos se entrecruzam com os outros e entre si. O movimento é monástico, no seu paradigma, mecânico ou morfológico no seu símbolo, platónico ou aristotélico, na sua origem antiga. De fundo cristão e pagão indo-europeu muitas correntes contribuem para a conformação de cada ciência e de cada momento específico desta, e de cada escola que nela se forma.

De quem se reivindica este espécime que diz ser científico e racional? Que cruzamento faz entre este movimento, estes símbolos e estas origens? Qual o seu paradigma, qual a sua metáfora? Disto nada nos sabe dizer o espécime. O espécime é só isso. Um exemplar de uma espécie. Não uma pessoa, mas uma mera ocorrência. Não bebe de um paradigma, mas apenas se subsume a uma categoria lógica. Não acede à metáfora quem não tem substância. Não vale a pena inquiri-lo. Ele não sabe dar resposta porque não sabe o que é uma pergunta. Apenas afirma, porque essa é a sua única forma de afirmação.

De que razão fala ele então? Porque se arroga espírito científico? Convenhamos: a sua razão é caseira, é a razão de açafata ou mais correctamente de criada grave. A sua razão está para a que é magna como a economia doméstica está para a ciência económica. Tem o seu lugar, mas apenas na copa. O seu lugar natural não é a antecâmara do infinito, mas tão simplesmente a antecâmara. E porque considera ele que tem espírito científico? Porque usa telemóvel e anda de avião. O espírito científico é algo que se usa e se legitima pelo uso. Cultor da usucapião, é apenas isso: detentor de terra não por a ter conquistado ou comprado a esforço, mas porque a ter usado desde tempo bastante para a ela se acomodar. Cultor do uso vê nele e apenas nele a legitimação. Que diga disparates não nos deve espantar, portanto. Assim apenas revela, não a sua opinião, mas a sua natureza.

Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

segunda-feira, 29 de abril de 2013

É a República, Senhores!

Tarde pio sobre o discurso de Cavaco Silva no dia 25 de Abril de 2013. Segui as críticas a quente, depois arrefecidas, sobre as suas palavras. E espanta-me a indignação de tantos republicanos.
Então não combinaram que quem representa o Estado é escolhido, ciclicamente, por uma parte dos cidadãos. Que esse personagem não tem poder nenhum a não ser o da bomba atómica, isto é, a possibilidade de, por livre arbítrio, dissolver a Assembleia da República mesmo que haja uma maioria estável e coesa?
Então não será menos grave o Chefe de Estado poder dizer o que lhe apetece nesse órgão de soberania que está à sua mercê? Não será menos grave Cavaco Silva serenar Seguro na véspera do Congresso, a dois anos de eleições, e depois da promessa de sombra semanal de José Sócrates? Não será menos grave suportar e apoiar o Governo da Nação, seja ele de que cor for, nestes tempos de difícil travessia?
Com um Rei não teríamos estas dúvidas de facção ou de competências. As suas palavras não obedecem a um ciclo nem a qualquer partido e a sua existência depende da confirmação das Cortes.
Não é mais claro? Mesmo não sendo eleito, não resultará mais respeitador dos representantes do Povo? Não será melhor garante da estabilidade governativa?

(mais)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Revolucionários improváveis


Somos contemporâneos da revolução europeia do final do século XX e conhecemos os seus revolucionários. Um deles usava pérolas, laca e meias de vidro.
A filha do merceeiro aguentou o snobismo dos pares; o braço de ferro dos mineiros; a greve de fome de Bobby Sands; a invasão das Malvinas; o sucesso do Papa na ordem das Nações; o estatuto de observadora na Guerra das Estrelas; a ascensão de Gorbachev; o reforço do eixo Paris-Bona, depois Paris-Berlim; o estrondo de uma bomba e a entrada de Diana Spencer na Família Real.
A tudo resistiu, favorecendo o aliado Reagan. Dobrou a esquina do pós-Guerra inglês e deu-se bem até ao cansaço dos seus. Só por dentro poderia perecer.
Nestes dias, para além deste percurso, registo três minudências. A contrariedade que Paulo Portas terá sentido ao apanhar o avião para a Colômbia, faltando ao enterro de um dos seus modelos políticos; a falta do XV Governo Constitucional ao negar honras de Estado à ex-PM Maria de Lourdes Pintasilgo (salvaguardadas as diferenças de um Verão para uma década de serviço ao País); e a insuficiência do relato histórico da fita sobre Margareth Thatcher, apesar da esplêndida interpretação de Meryl Streep.

(mais)

terça-feira, 9 de abril de 2013

O silêncio dos indo-europeus

Pelo menos desde o século XVII, segundo alguns ainda muito antes, o ideal da língua adâmica, a língua original, começou a ceder o lugar a uma construção mais empírica, mais rigorosa, do que seriam as famílias de línguas. Para além do extraordinário Leibniz, muitos outros se começaram a aperceber das afinidades que existiam entre quase todas a línguas europeias. Morfológicas, vocabulares, sintácticas. O colonialismo e as missões cristãs no Oriente, sobretudo na Índia, permitiram que certos tipos de paralelos entre línguas orientais e línguas europeias, o grego e o sânscrito nomeadamente, se tornassem evidentes. Mais um feito positivo que tanto os “malditos” colonialismo e missionação tiveram na ciência e na compreensão do ser humano.

Com esses estudos começa-se por estabelecer afinidades linguísticas, mais tarde culturais, de mentalidade. Com maiores ou menores dificuldades, nomeadamente na procura de uma religião comum (os nomes de deuses variam tanto que Dumèzil e Eliade assentam a teoria do trifuncionalismo, mas Terra e Muller, talvez com mais suporte, admitem a hipótese de um Deus-Pai do Céu), não se podem negar nem uma língua, nem vivências, nem visões do mundo comuns entre os povos indo-europeus.

É evidente que é sempre temerário ver linhas rígidas em comum entre povos que vivem em espaços tão afastados, contactando com culturas tão diversas. Mas também seria despropositado não reconhecer o que existe de perene, de persistente que nos alimenta em comum. A perenidade de certas palavras e seus derivados (“atma” e alma ou “atmen” em alemão, “spek” e espelho ou espectáculo, “dois” e “dwa” só para dar alguns exemplos quase anedóticos), a perenidade de certos valores de hierarquia social ligada ao sangue, a importância dada à liberdade enquanto símbolo de nobreza. Todos estes são traços que mostram um parentesco comum. Mesmo países que se converteram ao Islão como a Pérsia mantêm uma destrinça forte em relação aos árabes e turcos, e dão ênfases tipicamente indo-europeias à relação íntima com Deus (a teoria da solidão de Deus do sufismo cresce particularmente no Irão).

No entanto, como o que me interessa são os europeus e não turcos ou persas é em relação a estes que temos de ver como esta herança indo-europeia age e como é vista, dois pólos bem diversos e bem opostos.

O modo como é vista foi envenenada pelo nazismo. Vemos cruzes suásticas nos vasos gregos e nos templos indianos, símbolos indo-europeus por excelência, e não nos chocamos. Mas afastámos de vez esse símbolo do nosso espaço. Concedamos. A memória pode precisar de freios de segurança por vezes. O problema é que tudo o que lembra o nosso passado indo-europeu passou a ser visto com desconfiança, ficando nas elucubrações académicas ou na propaganda neonazi mais ou menos visível ou sub-reptícia.

É evidente que não se pode apagar o facto indo-europeu. Não é uma mera hipótese como a da protolíngua nostrática, na qual o indo-europeu estaria integrada, nem como tentativas de integrar em mais vastos conjuntos as línguas de todo o mundo, ainda muito lassas e de resultados por vezes duvidosos. Os laços linguísticos são fortes demais, impõem-se por si mesmos. Os traços de mentalidade, sociedade, e cultura em geral, incluindo da religião, sofreram múltiplos embates que tornam a coisa mais difusa, mas são ainda suficientemente fortes para não poderem ser descurados. Por isso ao contrário do conceito de raça, que foi recusado pela ciência, a herança indo-europeia não pode ser negada.

Mais ainda. A ironia, pouco visível aos olhos da maioria, é que muitos dos estudos relativos aos indo-europeus se situaram na antiga União Soviética. Por um lado, por razões meramente ocorrenciais. As pátrias primitivas conjecturadas para os indo-europeus encontravam-se em território soviético. Mas sobretudo porque na União Soviética não havia o horror ao nazismo na sua vertente religiosa ao contrário do que se passava na Europa ocidental.

Mas o apagamento do passado indo-europeu tem factores políticos mais actuais. Com a imigração na Europa, que não representa tanto quanto se diz, populações não europeias vivem onde em dia na Europa. Turcos, árabes, paquistaneses. De igual forma população de miscisgenação como americanos ou africanos, de cultura mais europeizada. A teoria do multiculturalismo como de costume obnubila o essencial. E por isso não se poderia, dizem, falar do tronco indo-europeu da nossa cultura.

Devem-se enunciar fontes em molho, ao desbarato, como todas tivessem a mesma importância. Diz-se agora que a cultura europeia é de origem grega, romana, árabe, que o cristianismo, judaísmo e Islão estão no mesmo plano da História europeia. Curiosamente os celtas, eslavos, germanos, ilírios, albaneses, ciganos são esquecidos. E as origens indo-europeias nunca são referidas em textos oficiais. O discurso é político e portanto não tem de ser verdadeiro. Questão é a de saber se a mentira, a omissão, é boa política. Ao pretender apaziguar sub-proletariados externos que se acomodam à Europa, em minorias ainda pequenas sob o ponto de vista demográfico, ainda menos relevantes sob o ponto de vista económico, pouco significativas em geral sob o ponto de vista político, e nulas sob o ponto de vista cultural, apaga-se o essencial. A não ser que consideremos que restaurantes chineses e turcos são pontos altos da cultura (e admito que para certas criaturas sejam os pontos mais altos da cultura que atingem), não me consigo lembrar de um filósofo ou cientista na Europa com origem turca ou magrebina. São políticas que contam com a passividade das imensas maiorias da população, com os resultados bem conhecidos que a História nos ensinou.

Sob o ponto de vista político e mais uma vez, esta questão que parece “meramente” teórica tem efeitos no nosso dia a dia. Não se pode ter orgulho de um passado que nunca nos foi contado. E temos muito boas razões para ter orgulho no nosso passado indo-europeu. As culturas mais ricas e diversas que o mundo viu são indo-europeias, a europeia, a grega e a indiana. As religiões mais humanas ou saíram do espaço indo-europeu (o budismo) ou nele ganharam toda a sua amplitude (o cristianismo). A ciência mais complexa e profunda saiu deste espaço. Um mundo dominado por turcos e chineses faria bocejar pela sua platitude.

Porque o silêncio não é inacção. E bem pelo contrário, certas plantas crescem mais poderosas no silêncio. Quando se fala, pode-se tentar conter. Quando se omite, o animal cresce em subterrâneo, sem estatística, sem mensuração. O espírito guerreiro, o ideal de heroísmo, a perseguição da transcendência crescem de forma mais anárquica no quintal que no jardim. Deixados a si mesmos, podem criar mais o risco de criar erva daninha que planta alimentícia. Obnubile-se o facto e teremos o facto e mais a sua obnubilação. Não o apagaremos. Uma classe política que ignora o subterrâneo apenas é desprovida de freios contra terramotos. Tapando os olhos apenas não os vê.

Mais e mais uma vez à ignorância se junta a intenção. Ignorando o seu glorioso passado, de infinita riqueza, não podem os europeus orgulhar-se (legitimamente) do que deram ao mundo, de que testemunho são portadores. A intenção, de americanos, turcos e alguns europeus, é a de que esta ignorância se mantenha. A mediocridade consola-os, não querem sofrer com a confrontação. Esquecem-se é que a mediocridade é auto-destrutiva. Fazem vítimas, mas eles mesmo não fugirão às suas consequências. E como não têm qualquer noção de futuro, não percebem que forças trabalham em subterrâneo para os destronar. Pena é que não possam vir mais cedo à superfície. Pena é. Porque surgirão com ainda mais força como a História nos ensina. E sempre que a Europa desperta, o mundo tem tremido.





Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A palavra e a honra


Sei o que é servir um ex-Primeiro Ministro maldito, sem garantias de contraditório. Essa injustiça revolta-me, seja com quem for. Até ao dia em que o injustiçado tenta usar o mesmo embuste para se defender. Há verdade em algumas respostas de Sócrates na entrevista. Mas sabemos que não existe maior mentira do que a que tem 90% de verdade.
Por estimável que seja ver um Pai de dois filhos defender a sua honra, José Sócrates deveria ter cuidado que esse objectivo se manteria durante a entrevista, a par de todos os outros fins que justificaram este meio. O PM anterior a Sócrates escreveu em livro a sua «narrativa». Mas sustentou cada frase com dados objectivos que, preto no branco, podem ser provados ou questionados. Curiosamente, não foram desmentidos.

(mais)

segunda-feira, 25 de março de 2013

Falai! Quero saber.


A indignação tomou conta do sentir colectivo. O meu mail enche-se de pedidos para assinar petições ou para fazer boicotes à RTP. Os comentadores desdobram-se na análise epidérmica das consequências do regresso de José Sócrates ao comentário político. Parece que o Mundo se travestiu de Deus e decide quem vai para o Céu e quem deve ficar num Purgatório de irresponsabilidade e de ausência de cidadania. 
Como se atrevem a calar quem quer que seja? Os mesmos - muitos - que se silenciaram cinco ou seis anos a fio, enquanto a bonança optimista de Sócrates engordou as suas despensas e nos comprometeu a todos, os que nunca votaram no seu verbo nem agora se abespinham pelo seu silêncio.
Sim, quero ouvir Sócrates. Porque acredito na regeneração; porque respiro a liberdade e a vontade de conhecer, para lá do meu horizonte; e porque exijo explicações sobre o que correu mal e pode ter ficado contido no «segredo de Estado» de Sócrates, enquanto Chefe do Governo.

(mais)