A universidade para agir ou para pensar
Excelente a entrevista de de Sérgio Rodrigues a Mariano Gago. É tão difícil fazer os portugueses compreender ideias simples sobre educação.
A minha vida universitária foi muito rica de contactos e experiências, mas o que dela resta são apenas ideias simples. A primeira é de que a educação se baseia em três pilares: 1) Na existência de "role-models" que sirvam de émulo e estímulo 2) Que o mérito seja recompensado 3) Que a incúria, o desleixo e a incompetência sejam punidos na mesma medida em que o mérito é recompensado. Parágrafo ùnico destas regras:a) Que os cargos vitalícios sejam excepcionais, (curiosa a expressão portuguesa de "ocupar um lugar"...). b) Que haja direito a uma segunda oportunidade para quem falha.
Isto quanto à Educação. Quanto ao Ensino, partilho o aforismo de Bernard Shaw: "Quem sabe faz, quem não sabe ensina". Ninguém aprende a conduzir sentado ao lado do condutor, ninguém aprende a andar de bicicleta lendo o manual de instruções. Para se aprender é necessário reflectir sobre os problemas e encontrar sózinho uma solução ou caminho, e dar os trambolhões necessários, ainda que o instrutor ampare a queda e se assegure que terceiros não irão ser afectados. Compete ao professor mostrar alternativas, com a humildade do reitor de Harvard, que dizia na alocução de final do ano:"metade do que vos ensinámos é falso, só não sei qual é essa metade". No fundo, ideias simples.
A ideia de fundir o PSD com o CDS/PP é uma enormidade no plano ideológico e um verdadeiro «tiro no pé» no plano táctico. Dispenso-me de comentar a questão ideológica. Não é preciso ter-se grande cultura política para se perceber que, no plano dos princípios, existe um abismo entre um partido de pendor reformista que se reclama herdeiro da social-democracia e um partido democrata-cristão e profundamente conservador como é o CDS. Arrisco-me a dizer que, nesse mesmo plano dos princípios, mais sentido faria fundir o PSD com um PS rendido à «terceira via», como é hoje indubitavelmente o PS de Sócrates.
No plano táctico a fusão seria absolutamente suicidária. Desde logo porque um PSD com vocação de poder só tem a ganhar com um posicionamento «ao centro» que só pode ser-lhe garantido pela existência de um projecto político à sua direita. Depois porque, não tenhamos medo das palavras, o CDS representa muito daquilo que a direita portuguesa tem de pior: um conservadorismo a roçar o reaccionário, um populismo «virtuoso» absolutamente exaltado e uma indisfarçável falta de apego pelos valores liberais.
Bem vistas as coisas a fusão só pode ter um beneficiário: um Paulo Portas cuja ambição é obviamente incompatível com a dimensão do táxi que dirige. Porquê alimentar esta quimera?
E tudo nesta vida tem um lado sombrio. As Luzes não são excepção a isso. O espírito crítico pode tornar-se num instinto, num tique, numa obrigação, numa compulsão. Perde assim toda a sua racionalidade. A Festa da Razão durante a Revolução Francesa foi apenas mais um dos exemplos de como quem tem a palavra razão na boca muitas vezes é apenas lá que a tem.