segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Avaliar a avaliação?
Processar Deus
Já agora, para aqueles que acham que o mundo do Direito não pode ser divertido aproveito para vos aconselhar a leitura deste artigo no Times sobre 20 dos mais estranhos processos jurídicos… Se conhecerem outros digam.
LIBERO NELL'ARIA
Seguindo as pistas musicais de M.S. Fonseca mas desta vez directamente do país de origem de tantos desses velhos (e novos) mitos, aqui deixo um tema de Sergio Cammariere.
Suficientemente “jazzistico” para se poder descrever como um verdadeiro Compositor, introduz no entanto na sua musica “un pizzico” de tonalidades festivaleiras e uma voz quente e redonda que fazem de Cammariere um musico muitíssimo original e um dos meus favoritos
domingo, 19 de outubro de 2008
Pentimento: "A Pianista" e a reprodução da violência
"A Pianista" é o mais célebre capítulo do austríaco Michael Haneke - tinha visto todos os seus filmes, mesmo os obscuros como "O Sétimo Continente" e "Benny's Video", excepto este - na abordagem de um tema central à melhor compreensão da natureza humana: o papel da animalidade no tecido biológico, mental e social da espécie.
O ponto de vista de Haneke é claro, e a forma como o repete, diversificando, em cada filme é tremendamente eficaz: a fronteira entre civilização e barbárie depende, apenas e só, das circunstâncias, e essas circunstâncias não são excepcionais. Pelo contrário: nas suas diversas modulações, surgem com frequência no quotidiano.
Em "A Pianista", a linha ténue rompe-se quando uma professora de piano vienense (interpretada por Isabelle Huppert na sua habitual palidez assombratória), quarenta anos atormentados por uma mãe possessiva, hiper-controladora, no limite da intromissão sexual (uma repelente e extraordinária Annie Girardot) conhece um wunderkind musical (Benoit Magimel com melenas de nazi), apaixonando-se. Num tabuleiro de desiquilíbrio entre "nature" e "nurture", a pianista é uma sado-masoquista nos intervalos das aulas, capaz de cheirar Kleenexes usados em peep-shows e auto-mutilar-se no sexo com uma lâmina de barbear.
Parece um filme de terror, e é, mas pelos sinais interiores de "normalidade", não pelos efeitos exteriores de "anormalidade": Huppert, à sua maneira, quer ser amada por Magimel, mas este não compreende (é natural...) uma mulher que vomita quando tenta fazer amor com ele no vestiário masculino de um ringue de gelo, e a resposta do amante à solicitação de violência é infligir mais violência do que mesmo o sado-masoquismo da pianista pode suportar.
Michael Haneke é desde há muito, na minha opinião, um dos raros cineastas do futuro (não os chamo de "modernos" porque estaria a acusá-los de antiguidade, e não os chamo de "pós-modernos" porque seria frivolizar a sua importância), capaz de pensar o que está por trás da cortina do nosso complexo descontentamento. Cronenberg ocupa-se da relação entre mente, corpo e tecnologia, David Lynch da luta - muitas vezes sangrenta - entre consciente e inconsciente, Chris Marker dos eternos reequilíbrios entre tempo e memória, Claire Denis da batalha ritualista entre o mundo físico e a carapaça cultural. Haneke tem passado os últimos 20 anos a construir um monumento pessimista, por vezes inclemente, à ilusão do tecido sócio-cultural como uniforme protector dos mais ferozes instintos, não apenas de sobrevivência, mas de destruição. O homem é o mais violento bicho de todos porque é o mais eficaz a dissimular essa violência, diz Haneke, numa gramática que não exclui, por vezes, uma poesia que corre riscos sérios de se tornar niilista (o que nos levaria a outro texto).
Mas há uma questão formal que Haneke sempre compreendeu, do vício apocalíptico de "O Tempo do Lobo" à psicopatia de "Funny Games", do desespero comunicacional de "Code Inconnu" à obra-prima "Caché", onde o voyeurismo ganha a urgência de todas as cicatrizes infantis: a melhor forma de reproduzir a realidade da violência é evitar o jogo rítmico e simulatório da montagem.
Assim como o grande - e subestimado - John Boorman compreendeu que a melhor forma de traçar a distância emocional entre duas personagens é separá-las fisicamente no mesmo plano (daí Boorman, de "Deliverance" a "A Floresta Esmeralda", recorrer tanto ao Cinemascope), Haneke percebeu que a forma mais justa de retratar a violência é não cortar o plano onde ela ocorre. É também o que faz, em certa medida, Cronenberg em "Uma História de Violência" e "Promessas Perigosas". Olhe-se para a cena da sauna neste último: a força - e honestidade - da sequência decorre duma utilização cuidadoamente austera da montagem. Cronenberg leva os planos-chave ao limite, entregando-nos uma percepção da violência próxima do tempo real, onde as pessoas realmente sangram, e onde esse sangue pode levá-las à morte lenta.
Claro que Hawks já o tinha percebido, mas há quem o faça, paradoxalmente, para criar efeito: Tarantino, por exemplo, fá-lo repetidamente (vejam-se as famosas cenas do corte da orelha de "Cães Danados" e da violação em "Pulp Fiction"). Haneke não: ele assume as consequências morais de não de recorrer à montagem, de não desviar o olhar, de aguentar o plano. É uma opção terrível, e aflitiva nas mãos erradas. Tem pelo menos uma vantagem: não dessensibiliza a violência aos olhos do espectador, transformando a agressividade e o sofrimento (veja-se "Armageddon" e as milhares de fita com vigilantes invencíveis) no último jogo de plataformas para a "Playstation Portable".
Para além das questões existenciais, é essa a grande importância contemporânea de realizadores como Haneke. Há quem lhe chame perigoso.
Small Town America
sábado, 18 de outubro de 2008
Era Uma Vez Uma Canção, parte 3
O meu grau de incumprimento de promessas já vai demasiado pesado para que não pague pelo menos uma, aqui e agora. Prometi lá mais abaixo, e continuei logo acima, uma série de 3 posts sobre uma canção. Falta um, omissão de que já fui simpaticamente acusado noutro lugar. Vamos lá, então, ao clímax.A única versão contemporânea de “Sway” a que me rendo sem reservas é a de Peter Cincotti. Século XXI puro, muito longe já da simplicidade do mambo original, o saudoso “Quien Será”, escrito por Pedro Beltrán Ruiz, este “Sway” de Cincotti, mesmo sendo cantado por um americano com a mesma ascendência italiana de Dean Martin (Dino Paul Crocetti era a sua graça baptismal), já não tem os ecos latinos que deambulavam pela versão dos anos 50.
O sotaque de Cincotti
Os ecos latinos de Dean Martin
O saudoso "Quien Será" de Beltrán
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
They can't censor the gleam in my eye
Gee, that's swell, honey.
Resposta a desafio lançado aqui!
O drama e abjecção do capitalismo
Eu acho o capitalismo uma coisa abjecta, dramática mesmo, essa coisa de uma economia de mercado, de haver empresas, de sítios para trabalhar, e tudo o mais.
Então, nos idos de sessenta, as pessoas saíam de Portugal aos milhares, de aldeias sem água canalizada, sem electricidade, sem esgotos, onde andavam descalças, onde passavam fome, e desembarcavam no Canadá, nos EUA, e íam viver para casas com casa de banho, com electricidade e aquecimento, onde o salário de uma mulher a fazer limpezas sustentava uma família inteira, enquanto o salário maior, o do marido, vinha incólome para Portugal?
É abjecto, porque uns foram e os outros não, não houve igualdade nenhuma. Para mais, muitos dos que foram enriqueceram, fazendo limpezas, trabalhando na construção civil, ou seja, enriqueceram com o produto do seu trabalho.
Então, mas não se está mesmo a ver que é errado? Que aquilo não servia, que é moralmente injusto? E que dizer quando hoje uma mulher nos EUA, com escassa instrução, ganha a arranjar unhas e a dar aulas de substituição, mais do que um doutor em Portugal? Eu tendo a achar dramático.
Se toda esta gente fosse um bocadinho mais politizada, teria percebido que o que era correcto era terem ido daqui para Moscovo, que era assim mais parecido com Portugal, mas ligeiramente pior e em versão gelada.
Penso que teria valido a pena alguém lhes explicar que aquilo parecia pior do que era, porque o pensamento de Marx estava todo lá, algo adulterado, mas estava lá, o que era moralmente muito reconfortante.
Mas não, desataram todos a emigrar para países profundamente capitalistas, por consequência, valorizam a iniciativa privada, a capacidade de trabalho e a possibilidade de sustentar uma família, deve ser por isso que nunca conheci um emigrante português comunista.
E para conforto moral, parece-me que lhes chega uns dias de Agosto em Portugal.
Contra factos, espero argumentos
Lisboa merece que abram espaços verdes ao público como os 43 ha da Quinta das Conchas e dos Lilases no Lumiar e no Arco do Cego (onde estava um terminal rodoviário); Lisboa precisa de reabilitar o edificado, como na Rua da Madalena e em São Bento, exemplos da inversão da tendência um pouco por toda a cidade - da nova contrução para a recuperação do edificado antigo; Lisboa pede bairros históricos fechados ao trânsito como Bairro Alto, Alfama, Santa Catarina e Bica; os nossos monumentos ganham em ser restaurados como as igrejas de Santa Catarina, Menino de Deus, Mártires, São Nicolau, Encarnação e Conceição ou a Sinagoga do Rato; Lisboa requer parques de estacionamento para os moradores no centro como Santos, Calçada do Combro, Portas do Sol, São Bento, Praça de Londres etc; Monsanto é entregue às famílias como um espaço seguro e equipado para desporto e recreio; os grandes arquitectos internacionais, como Norman Foster, Jean Nouvel e Frank Ghery, podem assinar obras em Lisboa atraindo à Capital o cosmopolitismo para que está vocacionada; os ciganos do gueto do Vale do Forno também têm direito a casas; o Tribunal de Contas recocnhece a recuperação das contas da CML (entre 2002-05)apesar na Lei das Finanças Locais de 2002 impedir novos empréstimos, apesar dos imperativos que excluem Lisboa e Vale do Tejo de benefícios europeus e, ainda, apesar do rombo deixado pela governação socialista na dívida da CML à Expo; Lisboa deve conduzir a união das cidades capitais que falam português com obras significativas que construam no terreno um novo universalismo lusófono; Lisboa pode receber com competência eventos internacionais como o Paris Dakar, o Rock in Rio, o Euro 2004, a Experimenta Design etc; Lisboa é obrigada a desenvolver uma vida de bairro com carrinhas LX-porta-a-porta para os que menos podem andar, com sete novas piscinas municipais e quatro mercados integralmente recuperados; Lisboa precisa de ver desenhados com qualidade os espaços imensos de Alcântara e do aterro da Belavista.
Marx voltou a estar na moda
O meu último post, a propósito da crise, acabava assim: «Já ninguém deve ter ilusões: o século XXI será de novo um século de crises, de história e de ideologias. Para o bem e para o mal. Ora, o mal já aí está (nomeadamente a associação totalitária entre políticos e capitalistas). Cabe-nos agora preparar o bem.»
Pois ontem atiraram-me para dentro do carro um jornal, onde, a páginas tantas (Global, 16 de Outubro de 2008, pág. 15), podia ler-se um artigo intitulado: «Karl Marx voltou a estar na moda».
Reza assim: «As vendas de “O Capital”, a obra maior de Karl Marx, estão “claramente a aumentar”, disse Jörn Schütrumpf, da editora Karl-Dietz-Verlag, informou a AFP. “Marx está de novo na moda e a procura das suas obras em alta”, explicou Schütrumpf ao jornal Neue Ruhr Neue Rheinzeitung. Segundo a editora, o primeiro tomo de “O Capital” já vendeu este ano 1500 exemplares, contra 500 em 2005, e as vendas vão continuar a aumentar, assegurou o editor. Os leitores pertencem a “uma nova geração de eruditos que reconheceu que as promessas neo-liberais não se realizaram”, sublinhou. O próprio ministro alemão das Finanças, Peer Steinbrück, fez uma referência a Marx: “Certas partes da teoria não são assim tão falsas”, como a que se refere à autodestruição do capitalismo por causa da sua avidez, disse ao Der Spiegel.»
Não concordo com esta interpretação supostamente transmitida pelo ministro das Finanças alemão, como com muitas outras que certamente se vão seguir. A releitura de Marx, também por isso, será hoje muito importante. Sem ela não se poderá distinguir o trigo do joio na doutrina marxista, crítica que o século XX nos deixou para fazer. É, assim, uma das primeiras boas notícias que decorre da actual crise: não a queda final do capitalismo, como alguns imprudentemente quererão sustentar, mas o regresso da diferença ideológica ao pensamento e à prática política, indispensável, no nosso mundo, para a existência da democracia.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Elogio dos blogues
O Dr.Pinto Balsemão fez hoje um elogio público aos blogues - foi na conferência da ERC sobre Regulação na Gulbenkian, nas barbas do Dr. Azeredo Lopes.
Pela parte que me toca, muito obrigada.
Xavi, o anti-Ronaldo
…
“Não estou muito preocupado (com ser candidato ao troféu de melhor jogador do mundo). Para mim é um privilégio estar entre estes nomes de grandes jogadores, mas sempre defendi que o futebol é um jogo colectivo e este tipo de prémios são secundários”.
O autor destas palavras é Xavi, médio do Barcelona e da selecção espanhola, que no último europeu foi justamente considerado o melhor jogador. Um europeu no qual, recorde-se, também a Espanha foi uma justíssima vencedora.
O mesmo Xavi diz ainda que o mais importante este ano é fazer “uma grande época no Barcelona e que a selecção se qualifique para o campeonato do mundo. A partir daí os prémios individuais vão aparecendo. Não estávamos a falar de espanhóis (vários deles candidatos ao titulo de melhor do mundo) se não tivéssemos conquistado o título europeu”.
É interessante ver como Xavi parte da importância prioritária do sucesso colectivo para chegar aos títulos individuais (que considera secundários). Interessante e elucidativo, especialmente quando comparado com o nosso Cristiano.
Para o CR7 ser o nomeado Bola de Ouro parece ser o objectivo número 1 e a glória que verdadeiramente prossegue.
Enquanto Ronaldo quer ser eleito o melhor do mundo, Xavi quer ser campeão do mundo. “It’s a world apart” e uma forma totalmente oposta de viver o desporto (e a vida).
Um trabalha para ser um one man show; o outro para integrar um dream team. Um desenvolve a técnica individual como forma de se exibir e maravilhar (sempre em nome próprio), o outro trabalha a táctica como forma de melhor servir o colectivo (e elevar o nome do seu país).
Não percebo a braçadeira de capitão no braço de Cristiano.
Da Visão: o sacrifício de Lisboa
Who wants you?No meio da crise financeira que abala o Mundo o mais provável é que a anunciada candidatura de Santana Lopes à Câmara Municipal de Lisboa, não comova nem o menino Jesus. E convenhamos que há, de facto, assuntos mais urgentes para nos ocupar a todos. Não obstante, vale a pena tirar deste facto algumas ilações sobre o estado do PSD.
Primeira ilação: o PSD aposta na falta de memória do eleitorado de Lisboa. Recordemos os factos: num gesto bem elucidativo da sua dedicação à cidade, Pedro Santana Lopes abandonou a Câmara em 2004 para dirigir, senão o pior, seguramente um dos piores governos que os portugueses conheceram no pós-25 de Abril. «Dispensado» pelas razões que se conhecem, recusou-se a encarar a realidade e foi esmagado nas urnas nas eleições legislativas, voltando a ocupar fugazmente o cargo de Presidente da Câmara numa penosa demonstração de apego ao poder que só muito dificilmente alguém poderá ter esquecido.
Não há mortes em política e Pedro Santana Lopes tem todo o direito a querer renascer das cinzas. Mas o facto do PSD o propor para «atacar» a Câmara de Lisboa não pode ter duas interpretações: o partido passou um atestado de menoridade aos cidadãos de Lisboa. Esperemos pela volta do correio.
Segunda ilação: o PSD «borrifa-se» na cidade de Lisboa. Ninguém de bom senso acreditará que a Dr.ª Ferreira Leite acordou subitamente para os méritos governativos de Pedro Santana Lopes. Ninguém acreditará que, generosa, esqueceu a sua passagem desastrosa pelo governo e a sua liderança errática da Câmara de Lisboa. Muito menos alguém acreditará que a Dr.ª Ferreira Leite está verdadeiramente convencida de que, para Santana Lopes, a Câmara é um fim em si mesmo, por oposição a um trampolim para mais e maiores voos políticos.
Não há anjinhos em política. E a Dr.ª Ferreira Leite tem todo o direito de decidir sacrificar Lisboa para tirar o incómodo Dr. Lopes do seu caminho. Mas mais uma vez não há aqui duas leituras possíveis: para o PSD a corrida por Lisboa é um instrumento de política interna. Esperemos, repito, pela volta do correio.
Terceira e última ilação: no PSD, por muito que se tente, não se vislumbra a sombra de uma verdadeira liderança. Pode até fazer-se, como sugeri acima, uma leitura perversa do processo de escolha do candidato do partido à Câmara Municipal de Lisboa. É bem possível que a direcção do partido veja em Santana Lopes uma opção que reputa de duplamente cómoda: se ganhar Lisboa, ganha o PSD; se perder Lisboa, perde Santana. Mas por muito sofisticadas que sejam as leituras, por muito maquiavélicas que sejam as jogadas, não vale a pena tapar o sol com uma peneira: a candidatura de Santana é uma tremenda cedência de Ferreira Leite à sua oposição interna. De tal forma tremenda, de tal forma estrondosa que, mais uma vez, não abre espaço a interpretações diversas: quem não consegue pôr ordem em sua própria casa não pode esperar que nela confiem para pôr ordem no país.
PS: escrevo ainda antes da reunião da Comissão Política do PSD que supostamente confirmará a candidatura de Santana Lopes. Pode portanto ainda acontecer que o bom senso prevaleça. Se tal suceder, é com gosto que engolirei as minhas próprias palavras.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Amor ao Liberalismo
Há duas formas de mandar um filho estudar na Universidade, quando a Universidade fica a 130 km de casa.
Uma, é, em 1990, chamar uma filha, com 18 anos, que nunca viveu fora de casa e perguntar-lhe: " - Quanto é que queres por mês?"
" - Casa X, alimentação Y, livros, deslocações, passe,60 contos".
" - Muito bem, serão 60 contos. Não me interessa se vives num palácio, ou debaixo da ponte, se gastas tudo numa semana ou num mês."
Quando se dá uma mensalidade a um jovem, para gerir com total liberdade, e em troca se pede uma licenciatura tirada com brio, muitas coisas podem suceder.
Para começar, o mais certo é fazer umas quantas asneiras. Gastar o dinheiro todo na primeira metade do mês, por exemplo. Em consequência, andar de trólei sem pagar, sem picar bilhete. Estragar cabines telefónicas a empurrar os cartões que já não têm crédito. Levantar a janela do quarto e entrar furtivamente na arrumação do restaurante do r/c para roubar umas garrafas de Grão Vasco que ficavam mesmo bem com a panela de feijoada para a malta.
Com o tempo, arte e engenho, também pode dar-se o caso de começarmos a pensar que já que a mesada não vai mesmo aumentar e que aconteça o que acontecer vai permanecer a mesma, sempre poderíamos pensar na melhor maneira de poupar uns tostões. Primeira medida, escolher uma casa mais barata. Vender livros usados, vender apontamentos, dar explicações, andar a pé, dividir contas até ao tostão, comprar roupa nos saldos da Zara. No final do mês ainda pode ser que sobre algum dinheiro para uma extravagância, ou para guardar para uma viagem.
A outra modalidade é diferente: espartilham-se as despesas. Casa, tanto. Alimentação, outro tanto, transportes, o mesmo, e outro tanto ainda para os livros. " - Oh pai, a casa está mais cara. É mês de livros, agora foi o passe que aumentou. "
Pois foi, pois é. E vai ser sempre.
Acredito em bom rigor que nesta modalidade, mais controlada e supervisionada, não se chegue ao extremo de tanta imprudência e asneira, ilícitos até, da primeira modalidade. Nem há necessidade disso, porque tudo está pensado, previsto e devidamente acautelado. Presumo, pelo muito que vi, que estas pessoas achem que os pais tinham a obrigação de lhes dar aquilo tudo, achando simplesmente que tinham esse direito.
Parece-me até que vão passar o resto da vida a fazer exigências, sem perceber que o tempo da faculdade já passou. E quando as coisas lhes correrem mal, até clamarão, por tudo e por nada, pelo sacrossanto princípio da igualdade.
Por mim, só concebo a vida de uma forma: a maior liberdade, com a maior responsabilidade. Ser livre de actuar e ser severamente responsabilizado, julgado e punido pelos meus actos, se for o caso.
Seja como for, espero que o dono do restaurante "Safari", na Rua dos Combatentes em Coimbra, não leia blogs. Mas se ler, sim senhor fomos mesmo nós, as quatro estudantes daquele T1, quarto e sala com 50 m2.
Santana Lopes
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
O Ódio ao Liberalismo
O Liberalismo não é um sistema económico apenas. Deverá até começar pelo reconhecimento na Constituição de que o destino dos homens responsáveis é serem livres. Deve ter o seu desenvolvimento no Direito e na Educação e, por fim, terá o seu enquadramento na Economia. Na Constituição estão os seus princípios, no Direito a procura da Justiça, na Educação iniciação na Ética e na Economia a gestão dos interesses. Um Liberalismo que não recorra para esta organização do Estado, não é Liberalismo.
Os que do lado socialista atacam a Liberdade fazem-no dizendo que a defendem, mas em rigor não a defendem porque a Liberdade não é uma fórmula empacotada e embrulhada na moral socialista para quem todos os homens são iguais, para quem lucro é sinonimo de ganância e para quem o homem entregue a si próprio é mau. Noutras matérias, os socialistas entendem que as liberdades devem ser ilimitadas e na sociedade não devem conhecer fronteiras se essa for a incontrariável vontade dos homens.
Os que do lado capitalista atacam a Liberdade fazem-no sem dizerem que o fazem, mas em rigor desenvolvem-se numa lógica que conduz ao mesmo unanimismo dos socialistas. Para eles, o homem em vez de ser um trabalhador (ou um escravo) é um consumidor que para saciar a incessante produção do industrialismo capitalista dá o que tem e o que não tem até ficar reduzido não já ao salário mas ás dívidas que o capitalismo, ou os plutocratas lhe há-de cobrar para o resto das suas vidas.
E o que é impressionante é a desfaçatez com que se digladiam socialistas e capitalistas reduzindo à sua dicotomia as únicas formas possíveis de organização da sociedade. Como é evidente, a crise é a crise do intervencionismo do intervencionismo arbitrário. O intervencionismo é a política baseada na interferência na acção dos homens, com a finalidade de a condicionar e subjugar a interesses que nada têm com a simples actividade dos homens em liberdade. Falam uns e outros como se nada mais houvesse. Para eles talvez até nem exista, mas a agressividade e sofreguidão com que fazem sair as veias nos seus pescoços revela uma incomodidade quase infantil e que custa presumir que não é intencional nem manipuladora.
Não há regimes liberais no mundo actual. Como podemos então estar perante uma crise do Liberalismo? É que pouco importa que o Estado ou as Corporações, enfim, os monopólios, dêem mais ou menos fio às marionetas. O que importa é que não possam dar mais ou menos fio. Não há liberdade condicionada. Se não acreditam nas pessoas, nem nas leis, e por isso as querem controlar as primeiras e mudar à discrição as segundas, porque é que acreditam naqueles que vão exercer o controlo, quando esse controlo é sempre exercido por um Estado, discricionário, burocrático e poderoso?
O que, por outro lado, é patético é que diagnósticos e vaticínios não têm faltado, mas ninguém deve saber o que diz porque tudo acontece ao contrário do que se espera, por razões subitamente diferentes, e ninguém consegue sequer apontar um caminho de saída. Mas no final Estado e Plutocratas não terão saído a perder. Os activos tóxicos ainda vão dar muita saúde às reservas federais americanas e ás reservas dos bancos centrais europeus.







