quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Jouissez Sans Entraves

A foto é de Cartier Bresson. Maio de 68. O post é uma vénia ao Manifesto de Sofia.

Um velho olha, perplexo, para um slogan utópico e inalcançável. Há quem diga que é um velho de direita, escandalizado. Talvez seja um pouco mais do que isso. O incrédulo estupor deste homem é o mesmo que Philip Larkin cantou sofregamente em “High Windows”:

When I see a couple of kids
And guess he's fucking her and she's
Taking pills or wearing a diaphragm,
I know this is paradise

Everyone old has dreamed of all their lives--
Bonds and gestures pushed to one side
Like an outdated combine harvester,
And everyone young going down the long slide

To happiness, endlessly. I wonder if
Anyone looked at me, forty years back,
And thought, That'll be the life;
No God any more, or sweating in the dark

About hell and that, or having to hide
What you think of the priest. He
And his lot will all go down the long slide
Like free bloody birds. And immediately

Rather than words comes the thought of high windows:
The sun-comprehending glass,
And beyond it, the deep blue air, that shows
Nothing, and is nowhere, and is endless.

Consola-me pensar que também o burguês da foto de Bresson rejeita a morte, imaginando “o fundo ar azul, que nada mostra, inefável, e sem fim”.

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terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Sem comentários

Almerindo corta mordomias na Estradas de Portugal

A Estradas de Portugal tem uma frota de cerca de 800 veículos, num total de 1.800 funcionários (quase um automóvel por cada dois funcionários). As oito centenas dispõem de cartão de combustível sem "plafond". E a nova administração da empresa já deu ordens para acabar com o que entende ser despesismo.

Poucas semanas depois de ter tomado posse como presidente da Estradas de Portugal, Almerindo Marques está assim a atacar as rubricas de custos: os 800 veículos e outros tantos cartões de gasolina representam um custo anual que ronda os seis milhões de euros.

in Jornal de Negócios de hoje

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Liberdade condicionada

As vastas restrições às liberdades que tanto apoquentam hoje as pessoas mais conscientes dos riscos inerentes ao controle estatal da vida dos cidadãos ainda não encontrou o destinatário das suas críticas nem o culpado das suas suspeitas. Como em todas as cadeias de comando cada elemento cumpre uma função para um resultado em que não é o único actor.

Por muito que nos apeteça identificar num governante a sede de controle e de limitação e condicionamento das liberdades individuais teremos de escavar mais fundo para perceber o fenómeno e, aí sim, mais do que com medo, ficarmos aterrorizados.
Vejamos o seguinte: quando um primeiro ministro reforça a vigilância do Estado sobre os cidadãos (e sobre as oposições) ele está a promover serviços e instrumentos que uma vez saindo do poder sabe que seráo entregues de bandeja aos seus opositores. Ora se tal acontece é por que haverá uma conivência e um acordo na classe política, que é quem verdadeiramente detém os poderes do Estado, para reforçar a tal vigilância. Ou seja, há um interesse comum da classe política nessa vigilância.
Verificamos, depois, não ser uma originalidade nacional. Acontece da mesma forma nos restantes países das nossas relações mais imediatas e tradicionais. Países com características semelhantes: democracias reduzidas a dois partidos hegemónicos, próximos do centro, com políticas tão semelhantes entre si que verdadeiramente se torna difícil distingui-las. A constante é, não este partido ou o outro que é quase seu gémeo, mas o conjunto da classe política que beneficiará desse controlo dos cidadãos. Uma classe política que, através de organizações poderosas que são os partidos políticos, ocupou a democracia e a usa a seu bel-prazer.
Os poderes nacionais são patrocinados pela família internacional. Basta ver as famílias políticas dos partidos da UE concentrados, também, num Bloco Central. A escala é internacional, porque é nesse plano que se jogam os verdadeiros poderes. A nossa classe política não é independente da classe política internacional. O poder verdadeiro é internacional e está nas classes políticas que nos governam ou de quem através delas governa.
António Barreto insurgiu-se e indignou-se ontem no Público com a versão local da limitação da liberdade de expressão e do reforço da vigilância pelo Estado. E bem. Não me parece é que seja um fenómeno meramente local.
Esta redução dos povos a massas e dos indivíduos a peões de fila, é a destruição da própria ideia de ideal. Decorre do facto da vida dos povos ser condicionada por uma classe política organicamente desligada das suas realidades e das suas identidades. Porém, mesmo no momento mais negro é nossa obrigação lembrar que a erva reverdeja entre os escombros das ruínas.

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Manifesto


No Público de ontem, António Barreto, a propósito da liberdade, de Sócrates e da medida em que este constitui séria ameaça à dita liberdade, diz o essencial:

“Temos de reconhecer: tão inquietante quanto esta tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder é a falta de reacção dos cidadãos. A passividade de tanta gente. Será anestesia? Resignação? Acordo? Só se for medo…”

É, certamente, medo. Mas não apenas. É uma ancestral menoridade cívica. É a incipiente consciência política. É a ignorância dos direitos e do imenso poder que o seu exercício pode encerrar. Conformismo sufocante, que tolhe, seca e mata.
Não há quem resista?! Quem incomode? Quem agite?... Não há um grito de alma que prometa futuro???

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domingo, 6 de janeiro de 2008

O Ódio ao Estado

Respondendo rapidamente ao repto do João Luís Ferreira. O ódio ao Estado tem três origens: 1) ex-marxistas que viam todas as soluções no Estado e que agora o vêem como o anti-Cristo; 2) legitimas opções ideológicas que eu não sou capaz de discutir por ser fraco em filosofia política; e 3) a ideia de que estamos mal economicamente por causa do Estado. Esta última é a ideia mais importante das três e a mais "popular" e a que os analistas mais populares mais desenvolvem. Mas é errada. Os nossos problemas económicos são bem mais graves. E não chegamos a eles se deitarmos as culpas para o Estado. Parafraseando livremente Kennedy: não penses em que é que o Estado tem a culpa da actual situação, mas sim em que é que tu a tens. Isto não significa dizer que o Estado não precisa de reformas, pois delas carece grandemente.

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Graves problemas financeiros

1. Hoje de manhã comprei o Público e deparei-me com uma notícia estranha sobre o valor das reservas em ouro do Banco de Portugal. Li com atenção o que vinha na primeira página e no interior e achei a notícia algo estranha. Depois fui ler outra vez a primeira página para perceber o que era a notícia propriamente dita e reparei que se tratava do envio de informação do Banco de Portugal para o FMI, em Novembro, sobre o valor das ditas reservas. Isto é notícia? Não se trata apenas do cumprimento de uma obrigação regular de um banco central de um pais membro daquele importante organismo internacional?

O Público pega nessa informação para nos dizer que há um debate internacional sobre o que os países devem fazer às reservas de ouro. Confesso que não conheço esse debate. Depois é-nos dito que em Portugal há quem tenha uma ideia sobre o que fazer e faz-se referência a Miguel Cadilhe que defende que parte do ouro seja vendido para que o governo financiasse o despedimento de funcionários. O centro da notícia parecia afinal ser essa ideia do ex-ministro das Finanças. Qual a razão disso? Não percebo.

Essa ideia, convém repetir aqui, é estranha quer do ponto de vista macro-económico, quer do ponto de vista político. As reservas de ouro dos bancos centrais servem para administrar os saldos da balança de pagamentos. Para além disso, elas são propriedade do Banco Central – ou do Estado – e não dos governos. Os governos não podem usar esse dinheiro. Acresce que as reservas têm um elevado valor porque o preço do ouro subiu e não porque o banco central tenha acumulado reservas em “excesso”. É por estas razões que, obviamente, os governos não podem dispor das mesmas reservas, como aliás também lembra a notícia em causa.


2. Devo confessar que estou muito preocupado com o que se está a passar com os bancos e o mercado financeiro. Ao princípio da solução da crise do BCP pareceu-me que estava a haver juízo e que a necessária intervenção do Banco de Portugal e do Governo estava a ser compreendida. Azar que quem está no governo é o PS e não o PSD, mas parecia-me que os do PSD estavam a recuar e deixar o governo governar. Mas não. Voltou tudo atrás com a intervenção de Cadilhe que apareceu como defensor do mercado e da iniciativa privada, e não como um protagonista do PSD, apoiado por interesses privados (legítimos, claro – sou daqueles que acha que deve haver interesses e que eles se devem manifestar) convergentes.

Eu não posso fazer um processo de intenções aos jornais e aos seus jornalistas, muitos deles de excelente qualidade. Mas tenho de confessar que me parece claro que o Público e o Expresso exageram ao apresentar Miguel Cadilhe como um arauto do mercado livre, esquecendo-se que ele defende também os interesses dos interesses que giram em torno do PSD. E não os interesses do “mercado”.

Se fosse o único a pensar assim, acharia que estava a ficar maluco. Mas não, felizmente Vasco Pulido Valente resolveu falar disto e, no mesmo Público, dá-nos uma lição do que se está a passar. Não posso estar mais de acordo.

Com esta enorme confusão, começo a pensar que é de facto melhor que o Estado saia da PT, da EDP, da GALP e da CGD, algo que economicamente não é necessariamente bom para o País, mas que se está a tornar crucial para clarificar as águas políticas. Mas atenção, gente do PSD: se isso acontecer, alguém do PS também terá de aceder aos cargos de topo. É que o PS já não é o partido dos sindicalistas barbudos e agora tem bons gestores. Não se trata de partilhas mas sim de se percebar que o poder pode também calhar a "gente de fora".

Seria excelente que os outros grandes analistas que ainda temos se deixassem de preocupar com os problemas de lana caprina e fizessem uns telefonemas, usando os seus excelentes contactos, para depois melhor no explicar o que se está verdadeiramente a passar.

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O dilema de Ulrich


Através dos jornais, consta que a CMVM analisa – à lupa (sic.) – o acordo de voto celebrado entre os accionistas que apoiam a lista de Santos Ferreira. A fazer fé nos mesmos jornais, tudo está em saber se o dito acordo se esgota na eleição dos corpos sociais do BCP para o próximo triénio ou se vai mais longe. Designadamente, se abrange a compra do controlo do BCP, ou a inviabilização da mudança de domínio, ou um exercício concertado de influência sobre o banco. Porque, se assim for, como é bom de ver, haverá imputação de direitos de voto equivalente ao somatório dos direitos de todos os subscritores, para os pretendidos efeitos.
É pois decisivo conhecer o alcance do referido acordo. Para percebermos as evoluções. E, desde logo, para que possamos antecipar os alinhamentos finais e, muito em particular, a posição a assumir pelo BPI.
Na verdade, se estiver em causa a mera eleição, não é de estranhar que Fernando Ulrich se mantenha fiel aos princípios assumidos desde que Paulo Teixeira Pinto lançou a OPA hostil e, em homenagem à coerência, venha ainda a apoiar a candidatura de Miguel Cadilhe. Mas se o acordo visar um novo equilíbrio de participações e poderes, é muito provável que Ulrich não possa escapar à lógica desses rearranjos e, pragmaticamente, ceda à inevitabilidade de Santos Ferreira.
Com 8% dos votos, o dilema está longe de ser irrelevante. Para bom entendedor, Fernando Ulrich já remeteu a decisão final para os seus accionistas.

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Sabor a Lula

2007 foi o ano de mais sólido crescimento da economia brasileira, desde há 30 anos. A Bolsa de São Paulo cresceu 40% no ano. Para ser mais rigoroso, o índice Ibovespa, da dita Bolsa, cresceu 460% nos últimos 5 anos (se querem enriquecer...).
Inflação controlada, juros a baixar, subidas no consumo e no investimento foram os ingredientes que trouxeram ao Brasil um “sabor de capitalismo”. Para Carlos Langoni, ex-director do Banco Central e director do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas, esse quadro de bom desempenho macro-económico é tanto mais meritório quanto surge conjugado com a redução da desigualdade e da miséria absoluta (os rendimentos dos 10% mais pobres da população estão a crescer, desde 2001 a uma taxa superior à do crescimento dos 10% mais ricos).
Vem tudo no último número de 2007 da insuspeita “Veja” que aprecia tanto o governo Lula, como eu gosto de azedas (no meu caso é preconceito, nunca provei).
Com aquela gracinha que só mesmo brasileiro tem, já há quem diga que tudo se deve ao facto de Lula, na sua política económica, se ter limitado a plagiar Fernando Henriques Cardoso. Meia-verdade, meia-mentira. Basta o facto de ele ter resistido às tentações de uma política económica populista à la Chavez, para lhe fazer a devida vénia.
Nada desculpa a malfeitoria que foi (ou é) o mensalão, mas para os mais cínicos há sempre o risonho recurso ao velho bordão: “Rouba, mas faz”.

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Difícil convívio

Decidi também aterrar em 2008, sem querer entrar na discussão sobre o Liberalismo e o Socialismo que, despoletado pela crise do BCP, o Manuel S. Fonseca e o Gonçalo M. Colaço têm mantido. Nem vou antecipar nenhuma polémica com o Pedro Lains que já foi dizendo que um dia destes nos viria explicar as razões pelas quais o Estado é tão detestado, nem discutir se é por haver regras que há respeito pelas liberdades .

Nos debates que se assistem hoje em dia, e de que o nosso G60 parece ás vezes ser um espelho, há posições de princípio definidas pelos oponentes, que inviabilizam o objectivo de qualquer conversa reduzindo-a, apenas, ao plano estéril da polémica. Há um evidente excesso de informações, formações, imagens, memórias, crenças, proselitismos escondidos ou evidentes, que tornam o convívio impossível nesta Babel de liberdades ilusórias.
Ao seguir muitos debates, confrontos, discussões, diálogos, monólogos, manifestos, frente-a-frentes fica-se com a sensação de que todos eles começam num ponto demasiado adiantado que necessitava previamente de uma longa e demorada reflexão sobre os pressupostos que estão na origem de cada um dos conceitos e imagens que os diversos interlocutores vão exprimir. Ainda assim, seria difícil porque estando ausente um objectivo comum não há finalidade nem conclusão possíveis.
Uma das razões para essa divergência insolúvel é a irresponsabilidade com que contemporaneamente se debate. Ou seja, a liberdade de opinião não inibe os ignorantes de se exprimirem com a mesma convicção, ou até com mais, que aqueles que longa e detidamente reflectiram sobre o que afirmam. É uma frescura que a sociedade actual promove e defende para induzir a ideia de que somos todos iguais e que somos todos igualmente irresponsáveis, só que, também por isso, igualmente manipuláveis e postos na ordem e no respeitinho das regras porque quem manda é que manda. E, para dar um certo colorido, as frescuras são graças e levezas divertidas, dão a sensação de que se é aberto, jovial e sensível, porque não? Pensamentos complexos e maçadores, para quê? Se cada um tiver casa, carro, férias, mulher ou marido e um ou dois filhos, possa ir às compras, tenha uns amigos para conviver, puder ir ver umas exposições e uns filmes para ter opinião e uma certa perspectiva de melhoria ou promoção financeira, que mais pode querer da vida? Já está bem e não precisa de complicações de pensamentos pesados e complexos que perderia um tempo infinito para os perceber e depois, caso os percebesse, não lhe iam servir para nada porque não tinham aplicação na vida prática. A vidinha é que importa, mais o sossego e a autocompaixão.
Deveria, agora, concluir que certos assuntos são para aqueles que por eles se interessam e que para os compreender e reconhecer necessários tiveram uma certa iniciação. Não é para todos. Simplesmente, apesar de assim ser, o que domina nos quadros sociais contemporâneos é a valorização da opinião comum para com ela se anular e extinguir o saber dos que sabem e assim escravizar as populações num misto de animação cultural e alimentação da vidinha para que nada lhes falte e estejam quietinhos. A destruição do pensamento é no fim o que está verdadeiramente em riscos nas sociedades contemporâneas. E está em risco porque o pensamento é individual e não colectivo como a opinião, porque o pensamento gera diferenças e o mundo actual só reconhece igualdades, porque o pensamento exige uma categorização e o pensamento comum só exige sentimentos (quanto mais vazios melhor). O pensamento é um perigo para o mundo actual. Pensar é perigoso. Cuidado não penses muito!
Muitos estão convencidos que pensam. Presumem que pensar é inerente à sua superioridade umas vezes familiar, outras vezes académica, outras vezes adquirida pelo círculo de amigos, outras vezes pelo capital de queixa que lhes engrossa as veias, enfim, muitos estão convencidos que pensam por inerência e não pensam. Ter opinião sobre a proibição de fumar em lugares públicos fechados não é pensar.
Mas podiam pensar, se um rebate de consciência os fizesse mergulhar no fundo de si e daí partissem para um reconhecimento de si próprios e do mundo, não a partir do ilusório real que dança na sua frente, mas a partir da voz interior que os fizesse não ter pressa de concluir, que não lhes excitasse a vaidade, que não lhes ateasse a soberba, mas que os deixasse ficar na contemplação do que se revela sem o hábito de tudo reduzir a uma expressão extrínseca e sem vida. É que por mais voltas que demos o pensamento não nasce da natureza e tudo o que da natureza retiramos para sustentar o pensamento não é da natureza que tiramos mas e sempre do próprio pensamento. Chega a ser difícil perceber o que seja, isso que em nós nos é mais presente que nós próprio. E, por isso, o que distingue o filósofo do homem comum é a capacidade de se distanciar de si mesmo para se ver reflectido e assim ter a noção de si que potencia o saber. É o pensamento que forma os conceitos que legendam a nossa imago mundi. O mundo natural não tem a reflexão de si, tem apenas o fluxo. Pensar é para compreender e ao contrário da ilusão da opinião que todos professam e têm licença de emitir, pensar para compreender leva tempo. Demora. É uma vida. Mas a opinião, tão eficiente quanto vazia, não é vida, é morte.
O que está em causa, em muitas das polémicas, são visões diferentes do que é a filosofia que nos é inerente e de quais são as suas finalidades. Podemos fazer exposições mais ou menos doutrinadas, mas fica sempre a sensação de que há uma diferença de perspectiva, ou uma diferença de ponto de partida, que por vezes torna inviável, não digo uma concordância, mas pelo menos uma atenção à razão de ser do que cada outro afirma.
Há um certo vício dialéctico que produz diálogos eruditos, mas desnecessários, porque são fruto de uma incapacidade de ouvir o outro sem o catalogar num posicionamento genérico, de admitir que o que pensa tem com certeza uma escola, ou uma formação por trás, mas é também, quando se afirma, uma nova perspectiva que não se reduz ao pensado e ao catalogável.
Importa que venhamos a terreiro sem manuais nem dicionários às costas e discutirmos os conceitos e as imagens a partir da proposta que cada um trouxer. Ou então, corremos o risco de ficarmos contaminados inexoravelmente pelo vício dos políticos que, sobre qualquer posição de qualquer outro que não seja do seu partido, estão contra, desconfiam, produzem juízos de intenção, ripostam como quem denuncia, acusam como quem desmonta uma “cabala”, ou seja, não acreditam no outro.
Se entendermos que a sabedoria é o que está nos dicionários e que o homem é uma inutilidade num mundo feito, então, pouco podemos fazer para chegar a algum ponto que a todos convenha. Se pelo contrário entendermos que somos no nosso tempo, não apenas os intérpretes do que foi escrito e feito mas, sobretudo, os responsáveis pelo mundo que se está a fazer, ainda que com um pequeno contributo dado a partir da nossa minúscula dimensão, então o saber terá que sair das estantes e viver na dúvida do presente e na esperança do futuro.

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sábado, 5 de janeiro de 2008

Infelicidades



Ferro Rodrigues parou no tempo, refém de um passado que deixou marca. Vê a realidade com olhos magoados. Ressente o país. Ressente a história. Ressente as instituições. Ressente os amigos. Vitimiza-se. Está ferido e frustrado. Incompreendido. Exilado.
Tem contas para ajustar, mas não tem mais nada. Pior: desesperadamente, no meio da mais diáfana fantasia, pretende fundar no dito passado uma auto-estima exangue.

“(…) com muito orgulho, fiz parte de um Governo que fez com que Portugal entrasse no Euro, que lançou o rendimento mínimo e permitiu a milhões de portugueses ascender à classe média.” (Visão, 3 de Janeiro de 2008, p. 28)

Será delírio?, alucinação?, mitomania?! Ferro Rodrigues terá feito o saldo do Euro?! Conhecerá as contas?! E as demais equações em torno de equipamentos desaproveitados, custos de oportunidade e interesse público?! Terá acompanhado as vicissitudes práticas do rendimento mínimo?! Conhecerá a medida da fraude e da injustiça?! Reconhecerá as dificuldades reais dos sucessivos ajustes e correcções?! Ter-se-á apercebido das implicações em matéria de emprego, produtividade e empreendedorismo?! E saberá o nível do salário médio?! O estado do endividamento das famílias?! Achará mesmo que temos uma classe média consolidada??? De milhões?! À custa da irresponsável venda de sonhos e facilidades do tempo guterrista?!...

“Este texto [o Tratado de Lisboa] é uma emenda a vários tratados e não é legível por mais de… vá lá, 20 portugueses, sendo optimista.” (idem, p. 29)

Portanto, o referendo não faz sentido. Espantoso. Ainda bem que se proclama democrata. E, sobretudo, ainda bem que o sabemos socialista. De contrário, reconhecê-lo-íamos apenas como um arrogante. Descarado e acintoso, como é próprio dos casos sem remissão. Um autocrata. Um homem de casta. Um indefectível da igualdade musculada – apenas para alguns, apenas em certas circunstâncias. Por uma participação eugénica! Referendos, só para letrados…

“Não tenho saudades do sistema político-partidário e jurídico-mediático português”. (ibidem)

Mas não retirou benefícios da promiscuidade que agora verbera?! Não depôs em tribunal, recentemente, confessando que se soube objecto da investigação no Processo Casa Pia a partir das (in)confidências de um seu amigo, professor de Direito e, mais relevantemente, marido de uma conhecida procuradora?! Não assumia, ao tempo, que se estava ‘a cagar para o segredo de justiça’?! Não admitiu ter falado com tudo e com todos tentando inteirar-se do que seria o fundo da investigação? Não reconhece, afinal, que foi forçado a desistir quando não conseguiu ir mais longe, quando percebeu que não era ouvido, quando se sentiu impotente e ignorado?!

Pontuada por pérolas destas, a entrevista perde-se. O que é pena. Por um lado, porque nos permite uma óbvia satisfação face à garantida distância a que o entrevistado viverá os próximos anos – e tal sentimento não é simpático. Mas, por outro lado, porque afirmações deste género contaminam toda uma conversa, retirando credibilidade e alcance ao mais que possa ter sido dito.
Lamenta-se, por isso, que, no meio do ruído, se percam alguns alertas deixados por Ferro Rodrigues. Nomeadamente, aquele que lembra que “o Estado de Direito deve levar muito a sério a lição de que bastam duas pessoas, organizadas ou conluiadas, para lançar denúncias caluniosas sobre alguém. É preciso um antídoto para este vírus da calúnia. Senão, a democracia portuguesa torna-se permeável.” (idem, p. 26). Isto sim é fundamental. Tem Ferro Rodrigues toda a razão. Até porque, desde 2003/2004 até hoje, nada melhorou neste aspecto. Muito pelo contrário.

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Duas Jovens Mulheres

São duas jovens mulheres. Nenhuma tem a harpa de sombra da invocação do poeta de “O Amor em Visita”. São duas jovens mulheres de Vermeer. Pintou-as com uma diferença de dois anos. Entre a que despreocupada dorme no quadro de 1656 e a que, inquieta e no desassossego de 1657/59, vem ler à janela, mais do que o tempo parece ter passado uma sombria canção de experiência. Talvez, esse invisible worm da “Sick Rose” de Blake. Arbusto de sangue?

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Out of Africa

Por causa do “É Dreda Ser Angolano” e passando, a despropósito ou talvez não, da música aos motores, o cancelamento do Lisboa-Dakar parece-me catastrófico. Não pela competição, mas por África. O assassinato dos quatro franceses na Mauritânia, o medo (com toda a probabilidade justificado) que agora esta decisão revela, empurram África para fora duma relação convivial e entre iguais com a Europa. Não poderia, nesse sentido, haver mais cruel desmentido para a recente cimeira de Lisboa.
A África fica mais longe (cada vez mais longe?). Parece quase fatal a hipótese de violência súbita e arbitrária, de que o Quénia é, agora, outro desolador exemplo. A África fica só e mais isolada. Para os europeus é ir e vir, entre política e negócios. Para os africanos fica reservada a amargura paroquial das guerras étnicas (ou serão racistas, como a dos Luo contra Kikuyus ?), e do infindável cortejo de misérias a que a corrupção ou inépcia dos seus governantes os condenam.

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É dreda ser angolano

Surpresa. Há em Angola uma música anti-poder. Mão amiga, bem informada, e sobretudo mão com muito bom ouvido, ofereceu-me no Natal o cd “É Dreda Ser Angolano”. Olhei, e sem ouvir pensei que, das duas uma, ou me saía viagem nostálgica ou incursão exótica. Quando ouvi, ouvi. E resumo: é bom, a caminhar para o muito bom. Não propriamente por ser anti-poder, o que também não é coisa pouca, vindo donde vem, mas por ser um rap personalizado, crítico, com um terrível sentido de humor que nasce, antes de mais, de uma fina observação daquele real “não sei se chore, não sei se ria” que é a marca registada da vida em Luanda. Há ali, no “Dreda”, uma Angola nova. Temos conversa.


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sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

II. Newman, Apologia pro uita sua, Dover

Mas Newman está relativamente à parte neste cenário; é hoje em dia muito difícil perceber até que ponto esta conversão produziu escândalo e espanto não apenas em Inglaterra, mas em toda a Europa.

Newman é o represente arquetípico do que é o inglês. Gentleman, rico, oxoniano, teólogo, High Church, cultor do anglo-catolicismo. Pertence por isso à fina-flor, ao patamar máximo do que é ser inglês. Que um dos máximos símbolos dessa história de sucesso tenha saído do centro da mesma para se colocar no seu modelo oposto é algo que chocou a Europa inteira, para o bem e para o mal.

Mas ser inglês é igualmente isso. Ao contrário dos paradigmas de má imitação que o Thatcherismo nos deu, Newman não apenas não é imitação, mas constitui-se mesmo como epítome.

O seu estilo é simples e elegante, a sua expressão honesta e natural. Nunca deixou de ser inglês até à medula, ao ponto de reconhecer aceitar alguns dos símbolos católicos apenas porque são católicos, apesar de isso lhe ferir a sensibilidade britânica. Nunca conseguiu aderir ao espírito de sistema barroco que historicamente permeava o catolicismo da época e nunca teve medo de o dizer. É de certa forma um dos antecessores do ecumenismo pela sua investigação sobre a patrística, contemporâneo de estudos germânicos na matéria e antecipando obras como as de Lubac e Daniélou.

O exemplo de Newman pode parecer irrelevante ou “meramente” histórico. Desconheço o que seja “meramente” histórico. Mas para além de outros elementos que pudessem aqui ser relevantes um é para mim essencial. A imagem de Inglaterra que se tem formado nas últimas décadas é obra de uma low middle class que tentou imitar uma Inglaterra aristocrática que nunca conheceu senão de fora, como voyeur. O inglês é o liberal sob o ponto de vista económico, feito de rituais aprendidos de cor e sem alma, segundo dizem. Uma low middle class que é no fundo antimonárquica e anti-anglicana, mas que apoia formalmente estes símbolos porque é a única forma de se diferenciar.

Se houvera de haver um epítome do gentleman, do inglês por excelência seria Newman, não as suas más imitações serôdias. E este, como aliás muitos outros, Waugh, T. S. Eliot, Chesterton, bem sabia que a Inglaterra não se resumia a uma ideologia económica ou a rituais meramente exteriores. Há um fundo, uma alma, ingleses, cheios de grandeza, que têm vindo a ser esmagados exactamente pelos que hoje em dia a dizem melhor representar.







Alexandre Brandão da Veiga


http://www.newmanreader.org/works/apologia65/index.html

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quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Ano novo, política velha


O discurso do Presidente da República e tudo o que sobre o mesmo se disse evidenciam o essencial: na política portuguesa, e no que dependa de Belém e São Bento, nada mudará em 2008.
O registo contido do discurso não justifica estranheza. É óbvio que a Mensagem de Ano Novo não é o meio próprio para o Presidente da República – este ou outro – ser mais directo ou contundente. Nesse sentido, Cavaco Silva geriu bem o equilíbrio devido e possível.
Portanto, o problema foi outro. É que, apesar de apontar o dedo a alguns sectores importantes da governação e de apelar à necessidade de mais em 2008, Cavaco Silva não revelou a mínima convicção. Não tanto na crítica, em que porventura perpassaram razões para ir mais longe, mas na esperança que pretendeu fundar. O Presidente da República pontuou o seu discurso, do início ao fim, na urgência da esperança. Mas, do início ao fim, percebeu-se que não acredita na sua possibilidade.
As reacções à mensagem presidencial tornam patente a inevitabilidade da manutenção do ‘status quo’. O Governo e o Partido Socialista apressaram-se a sublinhar a absoluta sintonia de tom e de perspectivas. Aproveitando certeiramente a abertura deixada, aqui e ali, pelo Presidente da República, reduziram algumas eventuais dificuldades a disfunções ou insuficiências de comunicação, tornando o núcleo das políticas incólume a qualquer hipótese de reparo. As oposições deixaram uma tónica geral de apoio, embora variando nos argumentos e no grau, mas não revelaram centelha, nem – o que é pior – deixaram base para qualquer caminho ou horizonte.
No rescaldo de discurso e reacções, não sobrou exigência. E, por isso, não há esperança de uma vida nova.
Não faço ideia do que acontecerá nos próximos encontros semanais, entre Presidente da República e Primeiro-Ministro. Mas temo o pior. Em nome da boa cooperação institucional, e à luz de grandes desígnios estratégicos, teremos, é quase certo, mais do mesmo.
Ora, a nossa esperança dependeria de Cavaco Silva ser – em privado, como sempre seria adequado – implacável na sindicância dos temas que lançou no seu discurso. A economia, a educação, a justiça e a saúde jamais deveriam deixar de ser objecto de exame fino e tenaz. Até que houvesse resultados, até que houvesse mudança. Como as políticas de natalidade, de prevenção rodoviária ou de solidariedade social teriam de ser compromissos de primeira prioridade. Mais a gestão do novo QREN. Ou a evolução do emprego. Tudo intransigentemente acompanhado, semana após semana, impondo metas, fixando calendários, fazendo balanços.
Em paralelo, o Presidente da República deveria explicitar em privado o que não explicitou em público e ser particularmente firme na focagem da agenda política. A necessidade de concentração no essencial, a que instou sem esclarecer, teria de converter-se, agora, num escrutínio cerrado das diversas iniciativas governamentais com o claro sentido de impedir o mero fogacho político ou o recorrente circo mediático, que redundam no mais absoluto vazio e, por decorrência, numa tão fatal quanto inaceitável inconsequência.
Mas Cavaco Silva não pareceu disposto a tanto. Porque não acredita. Não sei se radica a sua desesperança no Governo ou se em todos nós, mas o facto é que o seu olhar não brilhou e a sua voz não mobilizou. O Presidente da República não gerou entusiasmo, nem foi capaz de induzir confiança no futuro. No fundo, não nos deu um vislumbre de vida nova. E era disso, disso mesmo, que nós precisávamos. Para podermos acreditar.

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O Inimigo do Povo

Eu não tenho de defender ou atacar ninguém mas não posso deixar de notar que a cavalheiresca intervenção de Miguel Cadilhe fez cair o valor das acções do BCP. E é interessante notar que o ex-ministro aparece como defensor da causa privada, um homem que é conhecido acima de tudo pelo seu curriculum público. Noto ainda que é um homem que tem ideias estranhas do ponto de vista económico, como foi aquela de vender o ouro do Banco de Portugal para financiar despedimentos na função pública.

Mas o que ressalta dos recentes episódios é que há neste país uma raiva contra o Estado. Desde os votantes do Jornal de Negócios que preferem em 89% Cadilhe a Santos Ferreira para Presidente do BCP, a António Barreto que acha que a ASEA é “uma espécie de balão de testes para outros endurecimentos sobre a vida das pessoas”, numa interpretação de quem vê pouco o que se passa no resto da Europa, onde se pode reparar que os países com mais regras de convivência são precisamente - e obviamente - aqueles em que há mais respeito pelas liberdades individuais.

Enfim, essa raiva nacional contra o Estado tem explicações e delas tentarei tratar mais tarde.

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I. Newman, Apologia pro uita sua, Dover


Escândalo. Rule Britannia. Nos anos de 1840 via-se um fenómeno que se repetiu poucas vezes na História. Excluindo algumas bolsas no norte de França, na Bélgica e nos Países Baixos holandeses, uma parte de uma ilha estava a anos-luz do restante mundo, tanto sob o ponto de vista tecnológico, como do ponto de vista de poder colonial. Que tenha pago esse sucesso com a atrofia do sistema de Estado é coisa que não preocupava ninguém.

O sistema anglicano era parte desse sucesso. Compromisso político mais que realidade religiosa, embora não se possa pôr em causa a sinceridade religiosa de muitos dos seus adeptos, a destrinça entre High Church e Low Church fazia conviver numa só eclesiologia ortodoxos ocidentais e protestantes. A High Church representava no entanto o que de mais britânico existe, o símbolo deste sucesso.

Em termos simplistas Oxford é o centro da filosofia, da teologia, das ciências humanas, Cambridge das ciências naturais. Oxford aristocrática, Cambridge mais burguesa. Oxford é por isso o centro ideológico directo desta História de sucesso.

De todos os movimentos de legitimação deste sistema, os tractarianos, o chamado Movimento de Oxford, é um dos que mais brado faz em Inglaterra. Uma das vertentes da High Church desenvolve o anglo-catolicismo como demonstração de que a igreja anglicana faz parte da igreja universal; tem não apenas sucessão apostólica, mas é igualmente o verdadeiro desenvolvimento da igreja primitiva.

Pequeno óbice: este movimento foi por muitos levado às suas últimas consequências: muitos dos seus simpatizantes converteram-se ao catolicismo, o que era o inverso do propósito dos anglo-católicos. Alguns anos mais tarde os anglo-católicos tinham grandes expoentes ainda como T. S. Eliot.

Que o Movimento desse brado em Inglaterra seria de esperar. Mas que a análise das fontes cristãs, mais precisamente dos Padres da Igreja e dos primeiros concílios, tivesse como consequência a conversão ao catolicismo era algo de novo em Inglaterra. A História das conversões ao catolicismo, que começa já nos fins do século XVIII, ainda antes da Revolução Francesa, mas continua até meados do século XIX, ainda está por fazer. Que elementos da alta aristocracia da Alemanha até à Rússia, da alta intelectualidade por todo o espaço europeu se tenham convertido ao catolicismo, não se explica por vagas referências ao romantismo e ao espírito anti-revolucionário. Seria simples demais.

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Passe-partout

Li o post incisivo do Gonçalo e agradeço-lhe a lição. Sem ponta de ironia. Seja como for continuo a inclinar-me para o Dicionário. No caso o “Dictionary of Political Thought”, do Scruton (juro que leio outros autores, mas dá-me jeito ter à mão um “rosto” familiar e insuspeito, no seu conservadorismo, de qualquer simpatia pela “Causa”).
Ainda assim, concedo que deitando fora um século de violentas batalhas, algumas das quais sangrentas, talvez possamos, com muito boa vontade, aceitar que o Capitalismo não se opõe ao Socialismo, se com isso quisermos dizer que, hoje, partidos socialistas e sociais-democratas se apresentam como bons gestores de economias de mercado. Temos, logo a a seguir, de dizer que a essência da economia de mercado – o mercado livre – é um postulado central do liberalismo. Ou seja, nenhuma teoria política justificou de forma tão substancial a economia capitalista como a filosofia política liberal: só há liberdade individual onde haja o direito à propriedade privada e onde exista a livre troca, ou seja, no capitalismo, cujo desenvolvimento é, por sua vez, a verdadeira causa, ou o o verdadeiro potenciador do “governo limitado” (esse menos Estado que o Gonçalo defende).
Quer isto dizer, e para finalizar pela minha parte este nosso debate, que entre o que o Gonçalo deseja e o que a história das ideias políticas nos dita, fico nas mãos com um Capitalismo passe-partout, um capitalismo que pode ser bem gerido por socialistas que abdicaram do Socialismo, e um capitalismo cuja fundamentação primordial decorre dos postulados do liberalismo. Será nessa plasticidade que reside a sua maior força?
Posto isto, onde é que andam os outros bloggers da Geração de 60, que ainda nenhum deles aterrou em 2008?!

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Do Socialismo Capitalista


«O Estado é aquela grande ficção social através da qual cada um tenta viver à custa de todos os outros»
Frédéric Bastiat


Thomas Weinberger - «Zona 30», Munique, 2004


Ao Manuel S. Fonseca o conceito de Socialismo Capitalista pareceu-lhe, ou parece-lhe, demasiado abstruso e paradoxal para o poder aceitar sem mais. Ajudado não tendo sido pelos dicionários, ocorreu-lhe até a terrível ideia de regressar a Derrida, imagine-se!, na busca de mais luz. Talvez desse um bom «post», talvez até com um sugestivo e muito cinéfilo título de «Desconstruindo o Gonçalo» mas, em boa verdade, duvido que a maçada valesse a pena. Não o «post», por certo imaginoso e, como sempre, em tão singular quanto superior estilo, mas a releitura de Derrida, essa seria pena demasiado pesada que, neste particular, nada parece justificar.

Em vez do pobre Derrida, prefiro evocar o velho Frédéric Bastiat, uma das poucas verdadeiras almas intrinsecamente liberais vindas à face da terra, sobretudo nos últimos 250 anos. Uma figura que os Economistas de hoje, como em geral toda a actual Academia, menosprezam e desprezam quando, pura e simplesmente, apenas não ignoram, tanto pelo seu estreme liberalismo como pelo facto de não ser, como os de hoje, um simples economista quantitativo mas, acima de tudo, conceptual, i.e., alguém que soube pensar a economia como a economia deve ser pensada.

Assim, parafraseando Bastiat, poderemos afirmar, numa primeira tentativa de definição de Socialismo Capitalista, constituir-se este exactamente como aquele sistema económico em que cada um procura viver o melhor possível à custa de todos os outros, em activa conivência com o Estado.

Para o Manuel S. Fonseca, a dificuldade de aceitar uma expressão como a de «Socialismo Capitalista» decorre, em primeira instância, do que entendo como constituindo o seu carácter paradoxal, embora, em boa verdade, o paradoxo não seja senão aparente, como tentaremos, em breves traços, explicitar.

Em boa verdade, Socialismo e Capitalismo, ao contrário do que vulgarmente se julga, não são termos contraditórios mas, quase se diria, complementares. O Capitalismo não se opõe ao Socialismo, o que se opõe ao Socialismo, enquanto doutrina política, é o Liberalismo.

O Liberalismo tendo como princípio a Liberdade, como Primado o Individualismo, consubstancializando-se na Propriedade e afirmando-se pelo Mercado, segundo a Lei da Procura e da Oferta, opõe-se, de facto, ao Socialismo que tem como princípio a Justiça, como primado o Colectivismo, consubtancializando-no numa mítica igualdade e afirmando-se de acordo com um Planeamento Global Centralizado.

O Capitalismo, por seu turno, não chega a constituir-se como uma doutrina política mas tão só como uma praxis económica. Aqui valerá inclusive a pena lembrar o quanto o termo deve a Marx e à sua obra «O Capital», transformando a primeira linha do Balanço, a Cabeça do Balanço, onde se inscrevem os meios e bens patrimoniais disponíveis à realização de um determinado empreendimento, no ponto crucial de um Sistema Económico.

Entretanto, fosse pelo prestígio alcançado pelo marxismo, sobretudo após 1917, prestígio que ainda hoje perdura em formas mais subtis e nem sempre conscientes, mas obcecante, ficou e persiste o mito de uma suposta oposição radical entre marxismo ou, mais genericamente, Socialismo e Capitalismo que, todavia, mais não é senão uma mera ilusão e um grave erro de perspectiva.

Na verdade, tanto o marxismo como genericamente o Socialismo e o Capitalismo, têm um fundo comum que a todos irmana como filhos dilectos do industrialismo então nascente. Apenas os separou o entendimento sobre a posse dos meios de produção, propugnando os primeiros pela posse colectiva, em nome do Estado, admitindo e defendendo os segundos a sua manutenção em mãos particulares. No mais, porém, uma perfeita harmonia de conceitos e interesses, ou seja:

1) uma mesma negação do indivíduo em detrimento do colectivo (a «massa», em termos marxistas), englobando todos os seres humanos num mesmo todo abstracto, apto a receber todas as formas adequadas à plena realização das potencialidades de contínuo acréscimo de produtividade e riqueza, supostas na nascente indústria.

2) um mesmo conceito de liberdade, limitado e reduzido à posse de riqueza que, conjugado com a anterior visão das possibilidades da nascente indústria libertar o Homem do reino da necessidade, conduziu igualmente à formulação de um mesmo preceito de legítima redistribuição dessa mesma riqueza de modo a todos libertar do ciclo infernal da necessidade e a todos conceder um mesmo abstracto grau de felicidade;

3) pelo anteriormente exposto, fácil é agora compreender também como o marxismo, Socialismo e Capitalismo, se juntam ainda numa mesma completa e absoluta negação da Propriedade, reduzindo-a a um mero acto de posse (para bem compreender o que verdadeiramente se deve entender pelo conceito de Propriedade, importa, com certeza, ler a notável exposição de Orlando Vitorino na «Exaltação da Filosofia Derrotada»);

4) por fim e consequentemente, a marxistas, socialistas e capitalistas, tanto repugna o Mercado quanto valorizado é o Planeamento Centralizado e o Monopólio.

Neste enquadramento, melhor se compreende já o actual e muito feliz conúbio actual entre o actual Estado de cariz Socialista e a actual Plutocracia. Falida a via estreme do Comunismo, também dito Capitalismo de Estado, i.e., a fase das nacionalizações e da posse integral de todos «os meios de produção pelo Estado, a via intermédia é esta, a Plutocracia ou o dito Capitalismo servindo o Estado e o Estado, de inegável cariz Socialista, servindo a Plutocracia, irmanados ambos numa mesma consideração ou desconsideração de todos, dos cidadãos, entendidos apenas como meio para obtenção de uma mesma finalidade, ou seja, de um contínuo acréscimo riqueza que, uma vez redistribuída por todos, de acordo com os preceitos estatuídos pelo próprio Estado, todos fará igualmente livres e felizes. E perante tal alto desígnio, nunca o Estado fará demais. Pelo contrário, sempre se dirá que não faz o suficiente.

Entretanto, claro, múltiplas outras consequências decorrem desta visão, a começar pelo Direito que, deixando de ter como finalidade a realização da liberdade, passa a servir instrumento de legitimação de uma crescente e insuportável servidão. Basta ver, para tanto, o desprezo a que é votada a Filosofia do Direito nos actuais curricula das nossas ditas Universidades. Será mero acaso ou terá funda justificação?

E é neste exacto ponto em que nos encontramos.

Apostila: No mais, creio ter escapado ao Manuel uma subtileza que era também uma piada, ou seja, a referência a «intervenção preemptiva». Mas, seja como for, não me parece que o caso BCP mereça mais comentário. Pela minha parte, pelo menos, já disse quanto tinha a dizer e mais não digo. Claro, ainda aí virá o caso Cadilhe mas será que fará alguma diferença em relação ao discutido? Não creio.

De qualquer modo, para terminar como começado, talvez valha a pena ficarmos ainda com uma citação mais de Frédéric Bastiat, para meditação: «Le gouvernement n’agit que par l’intervention de la force, donc son action n’est legitime que lá oú l’intervention de la force est elle-même legitime».

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La diseuse de bonne aventure

Temos um inteiro ano desconhecido e em aberto à nossa frente. É o momento patético e inocente em que ninguém resiste a tentar adivinhar um futuro menos punitivo. No tarot, nos búzios, no mais simples horóscopo. Somos como o cavaleiro que Georges de La Tour pintou nesta cena diurna e realista, nos antípodas da mínima luz das velas com que, noutros quadros, iluminou as mais negras noites. Também nós, como o jovem nobre de La Tour, nos entregamos, confiantes, à “diseuse de la bonne aventure”. Tudo, no quadro, parece tão claro. E nada poderia ser mais obscuro. Basta passar do geral ao particular.

Há olhos que vigiam.

Há mãos engenhosas que trabalham.

Poderá um quadro de 1632 continuar a ser a parabóla feroz de 2008?

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