segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Manifesto


No Público de ontem, António Barreto, a propósito da liberdade, de Sócrates e da medida em que este constitui séria ameaça à dita liberdade, diz o essencial:

“Temos de reconhecer: tão inquietante quanto esta tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder é a falta de reacção dos cidadãos. A passividade de tanta gente. Será anestesia? Resignação? Acordo? Só se for medo…”

É, certamente, medo. Mas não apenas. É uma ancestral menoridade cívica. É a incipiente consciência política. É a ignorância dos direitos e do imenso poder que o seu exercício pode encerrar. Conformismo sufocante, que tolhe, seca e mata.
Não há quem resista?! Quem incomode? Quem agite?... Não há um grito de alma que prometa futuro???

15 comentários:

Madalena Lello disse...

gostei imenso da imagem que ilustra o texto

Sofia Galvão disse...

Vindo de quem vem, agradeço. E espero que concorde que vai bem com o texto.
Como é óbvio, são vestígios de uma outra geração de sessenta. Se quiser, amanhã posso mandar-lhe a fonte (não a tenho aqui...).
A propósito, como é que esta Geração de 60 pode falar com a autora do sais-de-prata-e-pixels?

Pedro Lains disse...

Cara Sofia.
Se calhar não há razão para ser tão pessimista. A minha liberdade aumentou: agora já posso ir ao café do bairro com as minhas filhas sem me preocupar com o fumo do tabaco que elas levavam em cima. Acho que o número de pessoas nas minhas condições é superior ao dos "outros". Na soma geral, a liberdade aumentou com a Lei do Tabaco. E nos países mais "avançados" as sondagens mostram que até os fumadores gostam destas leis proibicionistas. Estas são algumas das razões porque este governo - populista - fez a lei: ela não faz perder votos. E leu o artigo do Pedro Magalhães hoje no Público? Ele lá explica de forma erudita aquilo que só consigo exprimir de forma rudimentar, insurgindo-se contra o "liberalismo de pacotilha".

Sofia Galvão disse...

Pedro, contra os ismos de pacotilha, assino por baixo. Contra outros ismos, sem ser de pacotilha, assino também. Mas quanto ao liberalismo, no que ele tem de nuclear, como afirmação política do primado da Liberdade e do Direito, estarei sempre do lado da defesa mais intransigente.
Quanto ao seu estado de espírito, e sem deixar de invejar a paz alcançada, temo que estejamos mesmo nos antípodas. Entregues a essa mesma serenidade, sociedades civilizadas foram historicamente surpreendidas por experiências totalitárias que aboliram os direitos e as liberdades mais básicos. E a política portuguesa vai num plano inclinado - há muitos anos, evidentemente -, criando clivagens profundas entre quadros de valores e referências práticas de ontem e de hoje. O exemplo mais impressivo da evolução é, porventura, a comparação entre Mário Soares e Sócrates (tão eloquente que julgo me dispensa de maior aprofundamento). Será perigoso que os brandos costumes nos toldem a lucidez e não permitam ver o alcance de uma degradação que tudo marca e tudo ameaça.
Finalmente, achei curiosa essa sua percepção aritmética da liberdade. Ou a recondução da questão para o domínio da opinião, aferida em sondagens... Também disto estou longíssimo. E também disto tenho medo.
Post Scriptum - Agradeço a sugestão do Pedro Magalhães. Eu já tinha lido, mas pode ser que os nossos amigos aproveitem.

Pedro Lains disse...

A sua ideia é que as pessoas não se revoltam porque estão amorfas. Mas como é que sabemos que as pessoas se querem revoltar? A opinião de 1, 2, 3, ou 4 analistas vale mais do que uma sondagem? Também posso acrecentar que eu "sei" que as pessoas gostam desta lei. E que ela nada tem a ver com anti-liberalismo. Lembra-se das polémicas sobre o sinto de segurança? Fomos parar ao Estado totalitário depois? Para mim é claro que hoje estamos muito melhor no debate e nas liberdades do que há 20 anos. Até por razões tecnológicas, como é exemplo esta nossa troca electrónica de opiniões. Se calhar sou um optimista.

Sofia Galvão disse...

Acho que é. Mas ainda bem. O optimismo faz falta.
Post Scriptum - de novo me afasto de si: não vejo a menor relação entre a controvérisa relativa à entrada em vigor do novo regime do fumo em lugares públicos e aquela que se gerou em torno da obrigatoriedade do uso do cinto de segurança (não por acaso, já que a questão de fundo é completamente diversa - conceito e limites da liberdade..., lembra-se do velho "(...) pouvoir faire tout ce que ne nuit pas à autrui"? é esse o cerne da diferença entre os dois casos. Aliás, sublinho que a 'nuance' tem o maior relevo para a defesa da perspectiva que perfilha...).

J. Urbano disse...

Esta deriva de muitos que nos dizem que deslizamos para uma qualquer forma de estado autoritário ou mesmo totalitário é completamente delirante. Já agora diga-me como se pode reformar um país como o nosso sem que isso não leve a uma verdadeira crise psicológica até, naqueles, a maioria, que trabalhava mal e porcamente, e os motivos são muitos, ancestrais até. O sr. Barreto é um espírito ressentido e envelhecido. E Mário Soares, só se fosse para chorar. Ou pensa que as coisas vão lá através do velho porreirismo Soarista...

Pedro Lains disse...

Sinto de segurança? Acabou de nascer um novo conceito.

Sofia Galvão disse...

Para cumprir a promessa que ficou lá mais para trás: http://increvablesanarchistes.org/album_photo/phot1968/phot68_murs.htm.

Madalena Lello disse...

Sofia, só depois de ler o seu comentário é que percebi que a imagem me enganou, ela é tão boa, que se sobrepôs ao texto, pois consegue ser ambas as coisas, o texto e a imagem. Fica então aqui a correcção “gostei imenso da imagem que ilustra tão bem o texto”. Obrigado por me dizer onde a encontrou.
Em relação à última questão vou tentar entrar em contacto.

Anónimo disse...

Se a liberdade depender da possibilidade de fumar num recinto fechado incomodando quem lá está, e prejudicando seriamente a saúde de quem lá trabalha...então estamos metidos numa ditadura fascistas, nós, e os alemães, italianos, franceses, espanhóis, ingleses, suecos, irlandeses, belgas....americanos, canadianos ! Enfim, a liberdade deve estar nos locais onde se fuma em espaços fechados, por exemplo no Irão !

Manuel S. Fonseca disse...

Agora, que a Sofia revelou o site de imagens onde se inspirou, percebo melhor a veemência e a exaltação revolucionária do seu Manifesto.
Discordando da substância (onde andarão os meus 20 anos de anarquista e os meus 40 de chefe de bombeiros...), revejo-me na poética do grito e na (ténue) esperança de futuro.
Sinto-me autorizado a roubar-lhe uma imagem: vou a correr postar uma que me tocou sobremaneira.

Anónimo disse...

Não podia estar mais de acordo com o Prof. Pedro Lains. Não há, na realidade como a possibilidade de entrarmos hoje num qualquer café de bairro livre de fumo, podendo assim, sem risco, acompanhados sermos pela nossa família mais querida e chegada. Infelizmente, porém, nem tudo são rosas. Como rezam os jornais, já se verifica um acentuado aumento da aquisição dos chamados supercalorifos de exterior, o que terá as seguintes consequências: 1) para entrarmos num café continuaremos a ter de atravessar eventuais nuvens de repugnante e perigoso fumo; 2) expondo-se os fumadores ao calor excessivo dos supercalorifos, ficarão também muito mais expostos, pelas abruptas diferenças de temperatura, a contraírem constipações, entre outras eventuais doenças; 3) esses senhores fumadores não deixarão de continuar a entrar nos cafés, espilrando a torto e a direito, sabendo todos nós como um simples espilro é um terrível disseminador de bactérias, vírus, etc., causando grave atentado à saúde pública; para além disso, mesmo não espilrando, haverá sempre o perigo de outros contágios, seja através de chávenas, talheres, etc. Ou seja, resumindo, como é que o Prof. Pedro Lains vê ser possível ultrapassarmos estas desagradáveis ameaças? Devemos, consequentemente, proibir os espilros nos Cafés? Devemos outorgar mais vastos poderes à ASAE para monitorar também o estado de saúde dos frequentadores dos mesmos?
Por certo, estas graves questões não só preocupa a ambos como a todos e importa, e exigem, com certeza, urgente resposta.

Pedro Lains disse...

Eu acho que sim, que os espilros são um problema. Mas a verdade é que sempre gostei dessa palavra e por isso acho que deviam ser alvo de protecção. Quanto ao resto, não se preocupe, que daqui a uns anos já está habituado. Ou ainda não se habituou a que as pessoas sejam enterradas nos cemitérios? – Na altura em que o Estado totalitário a isso obrigou, houve até uma revolta, da Maria da Fonte. Mas nessa altura nós éramos muito mais livres e por isso nos revoltámos e deitámos o governo abaixo. Agora só nos resta o humor. Uma desgraça!

Andreu Vallès disse...

A comparação com os cintos de segurança é errada: a lei do tabaco, mal ou bem, ainda se pode arrogar de proteger a liberdade dos que não querem fumar (mas começa a entrar por caminhos perigosos quando não posso abrir uma empresa fechada ao público e fumar lá dentro). A lei do cinto de segurança impede que a pessoa escolha algo que, em última análise, só a si prejudicará ou não.
Já agora: perigo perigo será o dia em que proibam comida pouco saudável. Porque a linha entre proteger a saúde dos não fumadores e proteger a saúde de todos é uma linha muito importante. Acreditem.