segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Que modelo de homem gera a urbe?

Quando as crianças aprendem algo sobre a urbanização, e se falo de crianças é porque é esse o estalão cultural do actual homem público, aprendem coisas muito simples. Antes o homem vivia no campo e depois passou a viver na cidade. Ficou mais culto, largou o campo e assim acabou a História. Como neste momento pretendo falar entre adultos, temo bem que tenhamos de pôr alguma complexidade na coisa.

O homem que faz a cidade, e não apenas o que nela vive, é sempre um homem duplamente ancorado. Na cidade e na terra. E liga-se à terra de uma dupla ou mesmo tripla forma: na cidade pelo jardim, nos seus limites pela horta limítrofe, longe dela pelo campo, seja ele o latifundium, a propriedade na Ática, o solar, o feudo ou a quinta. Este aspecto é fundamental para se perceber o que é o homem urbanizado no seu sentido nobre. É o que acrescentou algo à sua vida e não apenas substituiu. A sua vida enriqueceu-se por uma dupla experiência, não resulta de uma mera translação.

Este homem duplamente ancorado conhece os ciclos da natureza e as variações da cidade, a dureza do campo bem como as suas delícias, e a agressão da cidade bem como os seus prazeres. Tende a ser realista, maduro, curioso, capaz do confronto, da comparação. É adulto em suma. A lista é infinda destes seres duplamente ancorados. De Séneca a Montaigne, de Madame de Sévignée a Bismarck, de Churchill a de Gaulle, de Plínio a Henri IV.

O que hoje em dia constitui o homem da cidade, de onde se vão recrutar os homens públicos, é de uma espécie bem diversa. É um transmigrado. Nem criador da cidade, que apenas herdou para seu usufruto, nem ligado ao campo, porque os seus antepassados foram dele escorraçados sobretudo por razões económicas. É deste homem que decide em política hoje em dia que temos de curar.

Em primeiro lugar é um homem que vive num mundo mágico, quando se julga racional. Aliás a racionalidade é apenas mais um dos seus mitos. Quantos deles conhecem os princípios de funcionamento de um telemóvel, de um computador, de um carro? Quantos deles conhecem os mecanismos patológicos ou a teoria das áreas monetárias óptimas? Fruem de um mundo cuja complexidade não apenas ignoram mas da qual nem sequer desconfiam.

Em segundo lugar, vive numa total dependência do colectivo quando se julga individualista. Outro dos seus mitos. “Nós hoje sabemos... antes não se sabia”. Esse o seu moto. É que compensa a sua total ignorância do mundo que o rodeia com o facto de o mundo que colectivamente o rodeia já o saber. É um homem demitido, que se demite da sua função de conhecer porque alguém o faz por ele. Dependente pelo conhecimento, é-o igualmente para a sua sobrevivência. Para que possa viver em agregados cada vez maiores, imensas torres de Babel cujo funcionamento global já ninguém pode perceber, depende de estruturas sanitárias, de comunicação, de alimentação, de circulação de bens que lhe escapam totalmente. Mais uma vez o espírito mágico, primitivo entra pela sua vida. O frango aparece já preparado no supermercado, o medicamento em drageias, o serviço bancário na Internet. O mundo não é algo que lhe aparece, é algo que lhe cai em cima. Deixou de ser um caído para passar a ser alvo de quedas.

Vive no medo quando se julga feliz. Desconhecendo e sendo dependente de um colectivo, flutuando em mediações cujos mecanismos desconhece, acaba por ter medo de tudo. Do SIDA, da gripe das aves, da mudança climática, dos terrorismos. Todos esses problemas comungam de uma mesma natureza. São interrupções de uma vida permanentemente bem regulada. Deixando a vida de ser assumida como problema e como tragédia no seu todo, qualquer irrupção da vida no seu quotidiano é considerado como problema e como tragédia. O problema deixa de ser vida para ser apenas interrupção. Nisso os terroristas, que desprezam os europeus, bem perceberam sem serem teóricos, a fragilidade das sociedades europeias. E como estas não se podem no estado actual arvorar-se em paradigmas. Instilam o medo, porque sabem que o medo surge facilmente. Basta pôr em causa o quotidiano. Se bem se reparar é nessa base que trabalha o terrorismo. Na contestação do quotidiano. Andar de avião, de metro, de comboio passa a ser aventura, a poder ser tragédia. Tem medo da velhice, da morte, da decadência, de engordar, de ser infeliz no amor. Sentindo falsamente que a sobrevivência está garantida, dissipa-se no luxo, enfada-se. E enfada os outros.

É um homem infantilizado. Acha que acabar com o SIDA e apenas uma questão de pôr mais dinheiro para a investigação, porque ignora quais os mecanismos da investigação. Não estudou nada sobre investigação científica, a palavra topologia cheira-lhe a uma marca de design, mas tem tudo a dizer sobre a inutilidade de experiências sobre os animais. Olha com condescendência os seus antepassados camponeses, mas acredita na força mítica do Direito Internacional, na vontade de paz dos povos e em que, caso todos os povos tenham o seu paradigma de vida, tudo ficará bem no mundo. No fundo nem lhe passa pela cabeça que assim como é invejado pelo seu nível de vida é desprezado pela sua falta de noção de aventura, ou seja de vida.

É um idólatra do desconhecido. Sendo acima de tudo desconhecedor, é idólatra de quase tudo. Das outras culturas, porque presume conhecer a sua, o que está longe de ser verdade. Da natureza, porque foi dela desenraizado e esquece que o SIDA, as epidemias, as tempestades, os furacões, são igualmente natureza. Como todos os idólatras, julga que a melhor forma de se entregar ao ídolo é amando-o, mesmo que este lhe faça mal.

O verdadeiro homem urbano é o homem duplamente ancorado: no campo e na cidade. O actual homem urbanizado só por generosidade pode ser assim chamado. Em boa verdade não é de urbanização geral que falamos. O que caracteriza a nossa época é uma suburbanização geral. À roda do mundo não se estão a gerar grandes cidades, geradoras de acção política específica, de criação cultural profunda e de actuação sentimental inovatória. O que se está a criar no mundo é um imenso enxame de subúrbios, cidades que são em si mesmo subúrbios, mais que sem centro físico, sem centro espiritual. Do homem duplamente ancorado passamos aos poucos para o homem sem âncora. De duplamente achado, para duplamente perdido. Sem ligação ao campo e sem real ligação à cidade.

Que consequências traz este fenómeno para o espaço público? Em que interessa esta análise para a compreensão da política, e do discurso político actuais? É que o paradigma do suburbano é o comentador desportivo. A criticar tem visibilidade, não por ser marcante como pessoa, mas porque é popular o objecto sobre que se debruça, e porque os rituais consagram a sua viabilidade. É um homem ancorado apenas à sua existência visível. Dedica-se a temas cuja compreensão é elementar e deles faz aparato de arcana sabedoria. Mas o paradigma é o do comentador desportivo também porque na sua maioria discursa sobre um objecto para o qual lhe falta configuração atlética para agir. Muita da classe política hoje em dia sendo barriguda, diz-se desportista. Julgando-se homens de acção, reduzem-se a ser espectadores e a comentar, como se fosse seu papel dissertar, e como se a sua verve claudicante fosse o estalão do próprio agir.

O homem da suburbe não possui conhecendo mas comprando. Compra bilhetes de avião, mesmo que não tenha ouvido falar de Bernoulli. Porque voa o avião irreleva-lhes, quando deveria saber que a pergunta sobre as causas é o que lhe permite andar de avião. Sendo a sua forma de posse a mera compra, em pura magia de contacto, acha que atirar dinheiro resolve os problemas do mundo. Julga que pode comprar a paz. O bárbaro não tem de ser disciplinado, mas apenas comprado. O seu instrumento é o contrato e não a ordem, mesmo que o contrato tenha de ser indigno e a negociação aviltante.

A decisão política fica assim vertida em mero comentário de banalidades. O político faz de conta que declara, quando deveria ser sua função determinar. Abre-se ao diálogo e pede desculpa por decidir. A decisão é amolecida por uma retórica de doçura, de tolerância, que é apenas defesa para a sua falta de escoramento. Quem não tem de onde venha não tem para onde ir. O homem urbano tem mais de um ponto de vista. O suburbano na política, está apenas de passagem. Não tem pontos de vista: apenas vê de relance.


Alexandre Brandão da Veiga
 

 

 

 

 

 

 

 

 

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segunda-feira, 7 de Abril de 2014

Kagame e a França

Declaração de interesses: como muita gente, tenho antipatia natural pelos franceses. Sentem-se os melhores do mundo e, no entanto, a arte é mais requintada em Itália, a comida ainda melhor na Bélgica, a música e a filosofia, na Alemanha e a história imperial mais grandiosa em Portugal, em Espanha ou em Inglaterra. A alegria sente-se melhor em Itália ou em Espanha e o humor é mais refinado no outro lado da Mancha. A religião é complexada ou levrevriana. O laicismo tricolor e a Lei da Separação do início do século XX assim a condicionam. Para arrematar, só os franceses muito civilizados serão civilizados. A França sempre teve pretensões que não alcançou. As suas ideias ganharam prática no terror de oitocentos. E a grandeza territorial foi contrariada na Europa de novecentos como em Vichy, na Indochina ou em África onde chegou com apetência tardia. Importa lembrar a cultura enorme, a língua bela, o requinte da moda do urbanismo ou a paisagem organizada.
Digo tudo isto porque considero infames as acusações do Presidente Kagame (que nome) sobre «o envolvimente directo» da França no genocídio do Ruanda, há 20 anos.  

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terça-feira, 1 de Abril de 2014

Adolfo Suarez

Adolfo Suarez conseguiu ter visão estratégica e coragem tática. Foi capaz de servir Espanha na continuidade de Franco e na ruptura democrática. Soube integrar a Falange e autorizar o Partido Comunista. Manteve-se direito no lugar de deputado sob as armas e os gritos dos golpistas de 1981: «Al suelo! Todo el mundo al suelo!». Respeitou o Rei em funções e quando demitido do Governo. Era bonito e não parecia vaidoso. Foi Duque por mérito. Podia sê-lo por natureza. Pertence ao melhor no imaginário da política e à melhor realidade do século XX, na Península Ibérica.


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sábado, 29 de Março de 2014

Sol na eira e chuva no nabal


A frase que marca a entrevista de ontem Durão Barroso é «quando se fizer a história desse período», a propósito das ajudas silenciosas que o Presidente da Comissão Europeia terá dado a Portugal nos últimos dez anos. E adiantou que os Primeiros-Ministros José Sócrates e Passos Coelho e o Presidente da República «estão muito reconhecidos» com essa prestação.

A necessidade de Durão Barroso se mostrar generoso com o seu País é um imperativo que outros portugueses não têm. A decisão de abandonar o País num momento de fragilidade política do Governo (decidiu no exacto dia em que perdeu estrondosamente as Europeias 13/06/04) por um projecto pessoal desafiante; e a possibilidade de se manter politicamente vivo no seu País, levam-no a um exercício continuado de «refazer a história desse período».

Uma vez mais, deixa-se guiar pelo ego tripp. Não censuro quem tenha uma visão carreirista da vida. Como escreveu Filomena Mónica, num estudo de 1994, sobre a situação social em Portugal, «desde os anos 60 que a ambição deixou de ser um pecado». Mas a roupagem patriótica dos argumentos de Barroso representa «o manto diáfano da fantasia» sobre a «nudez crua da verdade».

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sexta-feira, 21 de Março de 2014

Ucrânia, Rússia e Crimeia III


Mas revela outro aspecto de muito mais longo fôlego. No fundo, a Europa nunca ultrapassou a divisão de Bizâncio. Enquanto a Rússia insistentemente desde Gorbatchev fala da Casa Comum Europeia, e mesmo Putin originariamente tentou aproximações à Europa, os bem pensantes de esquerda e de direita, liberais, alternativos e quejandos (comem todos da mesma gamela, as suas categorias são as mesmas, alimentados por uma superficial cultura americana da esquerda à direita) continuam a opor-se a um Bizâncio que não sabem ver como tal. São apenas reaccionários sem o saber, ignorantes sem o admitir. Repetem as mesmas alergias de séculos. Quem não sabe História está condenado a repeti-la, dizia o velho Santayana, completamente intranscendente em metafísica, mas sensato em algumas coisas que disse em História. E pior ainda, a viver no enfado e gerá-lo nos outros.

No fundo, o dito Ocidente padece do preconceito típico do pós-modernismo: eu tenho sempre razão, precisamente porque nego a natureza absoluta da razão. A Rússia não a tem toda, mas o dito Ocidente ainda menos. A crise é bem mais grave do que parece, mas não pela vontade de a levar às últimas consequências. A Europa e os Estados Unidos precisam da Rússia tanto quanto esta precisa da Europa (um pouco menos dos Estados Unidos). Em questões como as do Irão, da Coreia do Norte, da Síria, mas também, muito menos falados, da Ásia Central e das relações com a China, a Rússia é insubstituível. O espectáculo da indignação ficta, tão característico dos pequeno-burgueses, vai continuar. Vamos todos fazer o papel que estamos muito indignados, mas depois a Rússia vai levar a sua melhor. A questão é que entretanto já a ofendemos mais uma vez, já a destratámos, já a afastámos mais um pouco.

Qual o maior pecado da Rússia? O de que querer ser independente, efectivamente independente dos Estados Unidos, e da ordem mole que estes pretendem impor. Não vejo santos de um lado nem do outro. Mas tenho muita vergonha de viver numa época em que a Europa, sem grande dignidade, acata docilmente a instrução americana e se esquece do seu maior parceiro, daquele que é o maior país europeu. Mais uma vez, e em nome da modernidade, um tique velho de mais de mil anos persegue a Europa. Perseguir Bizâncio sem perceber que sem este ela é incompleta.

 

Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 20 de Março de 2014

Ucrânia, Rússia e Crimeia II


Vamos pois à Rússia. Como é o mundo visto pela Rússia? Coloquemo-nos na sua posição. Imagine-se o que seria um Portugal em que todos os países até França ficaram sob domínio russo. E agora há movimentos para que Espanha esteja também sob domínio russo. Sentir-se-iam confortáveis os portugueses? Guardadas as devidas proporções (a Rússia tem fronteiras e possibilidades de encontro bem mais vastos que Portugal) é essa a posição da Rússia. As suas zonas de influência uma por uma foram absorvidas pela pata americana. Não interessa agora saber quem são os bons ou os maus, mas visto da Rússia, há um estreitamento, e mesmo um estrangulamento, das suas fronteiras que é perigoso e que têm toda a razão de sentir como uma ameaça.

Junte-se a isto uma política militar agressiva que começa com Clinton e continua com Bush filho. A diferença entre um e outro é muito menor do que se julga. Acrescente-se um país que vive humilhado pelo facto de o seu sucesso se basear sobretudo em matérias-primas, quando se trata de uma imensa cultura, rica, profunda e sofisticada.

Acrescente-se a esta receita o facto de a Rússia não ter passado pela versão triste da modernidade que é o pós-modernismo. A Rússia vive ainda os primeiros modernismos, ou seja, sem arrependimento permanente, sem pedidos de desculpa, sem a aceitação de toda e qualquer aldrabice só porque existe. Na Rússia ainda se sabe pintar, não se toca música apenas de ouvido, as matemáticas tem de ser efectivamente estudadas. Não é pós-moderna porque, apesar de a obsessão de poder americana não ser inferior à Rússia, os russos não estão preocupados com o embrulho dourado feito de direitos do homem, liberdade e quejandos. A Rússia em acréscimo despreza a Europa, e com as suas razões, porque esta é submissa aos Estados Unidos ao ponto de aceitar como país europeu o que mais não é que um país asiático, a Turquia. Ri-se com gosto e não sem malicia do grau de sujeição em que estão os europeus, sem vontade, sem necessidade de espaço próprio de actuação.

A Rússia não tem vergonha de ter poder, e precisa de poder. É uma imensa barreira contra a Ásia (nisto estou bem acompanhado, Eça de Queiroz achava o mesmo). os seus vizinhos não são brincadeira. Entre os turco-mongóis e os chineses está rodeada de povos pouco sensíveis (é o mínimo que se pode dizer) aos direitos do homem e ao delicodoce convívio civilizado à europeia. Os asiáticos usam o poder e a crueldade sem pejo, nem problemas de consciência, e nem no segredo dos seus quartos têm de rezar a um Deus que lhes pede contas dos seus sucessos. Apenas dos seus fracassos. A Rússia presta-nos o serviço sujo do guarda, para que os ditos ocidentais possam dormir descansados nas suas consciências.

 E como não se bastara, há a maior falha da política europeia dos últimos 25 anos. O muro de Berlim caiu para os dois lados, não me canso de o dizer. E a Europa, em vez de perceber que o seu maior desafio era do a integração da Rússia, em vez de fazer um plano Marshall para a Rússia, deixou-a embebedar-se, apodrecer, decair durante os anos 90. Humilhar um povo é injusto, humilhar um grande povo é além do mais perigoso.

O que temos como resultado é um grande festival de sanções pelos países ocidentais, mas mais de fachada que outra coisa. A Rússia gerando 18 milhões de turistas por ano para a Europa, sendo um forte de mercado de importação de produtos europeus, e de exportação de energia, sendo estrategicamente central para a estabilização da Ásia Central e do Cáucaso e barragem natural da Europa contra a Ásia, não vai ser fortemente hostilizada. Sanções de fachada e pouco mais.

O problema é que esta fachada gera mais e mais feridas na relação entre a Rússia e a Europa. A Rússia é o maior país europeu, para a Europa é central, para os Estados Unidos não.

O problema é o que todo este processo revela da mentalidade europeia. Da Rússia diz-se sempre que o copo está meio vazio, da Turquia meio cheio. Cada pequenina conquista democrática na Turquia é vista com imensa alegria, os recuos são entendidos como percalços naturais num percurso complexo. Porquê? Porque, no fundo, todos sabem que não é um país europeu, e se não exige tanto deles. Quanto à Rússia a exigência é a que se tem em relação a qualquer país europeu e por isso a crítica é bem mais forte. A mentira tem perna curta, e quanto mais se critica a Rússia mais se tem de reconhecer que não se tem outro remédio senão confessar que é um país europeu.

 

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quarta-feira, 19 de Março de 2014

Ucrânia, Rússia e Crimeia I


E eis que a Europa se depara com uma nova crise da Crimeia cento e cinquenta anos depois da que deu fama a Florence Nightingale (não sem ironia de Disraeli) e à Cruz Vermelha, se não estou enganado.

Comecemos pela Crimeia. Sempre foi território russo e um ditador ofereceu-o como prenda à Ucrânia. O que pretende a Europa? Fazer respeitar a vontade caprichosa de um Nikita Krutschov. Creio que em 1991 Ieltsin teve a hipótese de ficar com a Crimeia, que lhe foi oferecida de mão beijada pelo presidente ucraniano da altura, mas Ieltsin com a sua visão de longo prazo, ou melhor de fundo de garrafa, não deu muita importância à coisa. Teria sido bem mais simples para todos nós caso Ieltsin tivesse tido sentido estratégico. Não é obra do acaso que não seja respeitado nem por russos nem pelo ditos ocidentais, e apenas tenha despertado alguma simpatia nestes últimos por algum desprezo.

O que pretendem os ocidentais ao exigir que a Crimeia permaneça ucraniana? Em primeiro lugar, sem dúvida, uma preocupação com um princípio de inércia das fronteiras. Embora tenham sido os mesmos ocidentais a apoiar entusiasticamente referendos (no Kosovo, no Sudão do Sul) neste caso a vontade popular já tem menos importância. Mas, bem além disto, comprazem-se no enfraquecimento da Rússia. Desde os anos 90 a falta de respeito pela Rússia tem-se manifestado pelo apoio americano à Turquia para esta se tornar numa influência junto da Ásia Central (tentativa largamente falhada, porque a Turquia nada tinha a oferecer à Ásia Central, salvo imãs e reconstrução de mesquitas) e separar a Ásia Central da esfera de influência russa. Benemerência? Não. Porque os americanos não queriam mais autonomia para a Ásia Central. Apenas queriam substituir a influência russa... pela americana. E tudo isto sob o discurso de que se convidou generosamente a Rússia a ser uma espécie de mega Suíça da Eurásia.

No meio disto, fica o problema ucraniano. Ao contrário dos propagandistas sobre a modernidade, os problemas têm sempre raízes bem fundas e a religião tem um papel definidor ainda hoje em dia. A Ucrânia foi desde há muitos séculos zona de fronteira entre o catolicismo e a ortodoxia. No século XV, no concílio de Ferrara-Florença há união com Roma por parte do arcebispo de Kiev, Nikon (refiro estes factos de cor, são forçosamente aproximativos) e no século XVI com o trabalho do polaco Piotr Skarga volta a haver união com Roma.

O facto de haver mais de uma união com Roma mostra até que ponto esta sempre foi relativamente frágil. Conquistando a Rússia a pequena Rússia, os uniatas tiveram sempre uma vida pouco fácil. Mas a verdade é que a Ucrânia foi sempre região de fronteira dentro da Europa, como o era a Jugoslávia.

Sob o ponto de vista simbólico a Ucrânia tem ainda um significado especial, tanto para a Rússia como para a Polónia Lituânia. Kiev foi o centro de nascimento da Rússia, onde reinaram os Rurikides. O célebre Ivan, o Terrível, era descendente desta dinastia, que tinha sido, antes de ser senhora de Moscovo, soberana de Kiev. (Para quem ache que Portugal nada tem a ver com isto lembro que o D. Afonso Henriques era primo em 10º grau do seu contemporâneo grão duque de Kiev Vsevolod III, antepassado de Ivan, o Terrível, por via do sangue Mamikonian, imperadores de Bizâncio – na Idade dita Média eram mais conhecedores dos laços que ligavam os vários países europeus que hoje em dia) É de Kiev que vem a «Rhos» obra de escandinavos nas planícies russas. Mas igualmente simbólica para a Polónia-Lituânia que governou a Ucrânia até ao século XVI, salvo erro. Não podemos olhar para a Europa como se fosse apenas a Europa ocidental e dentro desta apenas duzentos anos da sua História. Os Europeus de Leste têm mais vívida a sua História, porque ela os invadiu até muito recentemente. As fronteiras são novas e sempre semoventes.

 

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terça-feira, 18 de Março de 2014

Medeiros Ferreira


Morreu o meu amigo mais improvável. José Medeiros Ferreira era de outra geração, de outro lugar político, de um tempo em que o poder que não se confundia com o jornalismo. Não tinhamos rigorosamente ninguém em comum. Até a sua Mulher, Maria Emília, conheci por outros motivos.
Almoçávamos e conversávamos sobre Portugal. Acho que não o faço com mais ninguém. Isto para dizer que José Medeiros Ferreira percorria caminhos inesperados. Açoreano de S. Miguel, impôs-se contra o anterior Regime. Irmão de militares, formou-se em História, em Genéve longe do controlo da «longa noite». Foi Ministro logo que o 1º Governo livre foi também Constitucional. Portugal deve-lhe o pedido de adesão à CEE numa época em que o PS se exibia com punho fechado, defendia o marxismo e a estatização da economia. Um ano depois, José Medeiros Ferreira formava com António Barreto e Sousa Tavares o grupo dos Reformadores juntando-se a Sá Carneiro na AD.
Tinha coragem para romper, sendo coerente. Conseguia ser aberto e firme; falar com profundidade e ter sentido de humor; ser elaborado na argumentação e linear no verbo. O gosto pela História e a sua perspicácia faziam-no ver para além do tempo e do barulho. O PS diz agora que José Medeiros Ferreira era uma personalidade ímpar e luminosa. Tem uma razão tardia. Depois de 1978, nunca mais o aproveitou nos 16 anos que esteve no Governo. José Medeiros Ferreira faz falta a Portugal. Faz-me falta. 

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sexta-feira, 14 de Março de 2014

Exijo declaração de consciências

Acaba de ser recusada a coadopção por homosexuais. Esta questão civilizacional não estava prevista nos programas da maioria. No entanto, foi admitida para votação com liberdade de voto. O que constitui uma forma apurada de tirania, engano e de falta de virtude democrática. Nenhuma consciência representa a minha, a não ser que esteja mandatada para tal. Se é para cada um decidir por si sobre as questões de consciência não inscritas nos programas eleitorais, antes das eleições, isso obriga os deputados a fazerem uma declaração de interesses para que não estejamos a eleger um programa escondido. Na próxima campanha às Legislativas exigirei conhecer as consciências de quem estou a eleger.

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quinta-feira, 13 de Março de 2014

O Bispo e eu

Fiz uma descoberta tardia deste Bispo de Lisboa com quem tantas vezes falei. Parecia apenas racional, inteligente, institucional. Diria que a sua evangelização passava só pelo cérebro. Entrevistei-o várias vezes. Uma delas, longamente, no dia em que o Cardeal Ribeiro morreu. Estava normalíssimo. Mostrava a frieza do pastor que herda um rebanho que conhece, com a naturalidade dos que ficam mais tempo vivos, antes do encontro na Eternidade. Olhava-o como Bispo mas creio que nunca me viu como crente. Não tinha uma interacção pessoal comigo. Nos jornais ou na Câmara de Lisboa, trocámos apenas assuntos, o que, para mim, representava um desencontro. Em absoluto contraste, tinha sentido de humor, fumava, falava sem rodeios, com simplicidade e profundidade.
Procurei o pastor nos seus textos e nas homilias que D. José escrevia primorosamente. Era outra pessoa. Calorosa. Transmissora do Amor de Deus. Conhecedora das fragilidades humanas. Esperançada na resposta de cada um ao desafio da Vida, em Cristo. A última homilia que lhe ouvi, há semanas, na igreja do Colégio do Bom Sucesso, foi um sinal partilhado da intimidade de Deus. Comovente. Senti-me inábil por não o ter descoberto mais cedo. Mas Ele sempre esteve lá. E revelou-Se em tempo útil.       

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terça-feira, 11 de Março de 2014

O seu a seu dono

Sempre me disseram que o terreno entre a sede da Polícia Judíciária e o Liceu Camões, em Lisboa, foi doado pela Rainha D. Amélia para a construção de uma Escola Superior de Medicina Veterinária, que o País carecia. Essa escola existiu, formou múltiplas gerações até que alguém, quem?, decidiu demoli-la para ali ampliar as instalações da PJ, hoje inauguradas com pompa.
Não discuto as necessidades logísticas do combate ao crime. Nem vejo como indispensável que se estudem os animais no centro da cidade. Mas o objectivo da doação foi alterado e, pelo contrato, o terreno deve voltar aos seus proprietários.

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segunda-feira, 10 de Março de 2014

Grandes Guerras




A morte de um príncipe afectou o orgulho da potência de Viena perante o terrorismo ultranacionalista sérvio. Rússia apoiou o seu satélite, como hoje. A Alemanha veio em ajuda ao aliado austríaco chamando a França a cumprir o Tratado com a Rússia e, por sua vez, a Inglaterra a honrar o compromisso de auxílio ao Governo de Paris. Há 100 anos, como hoje, amontoam-se as cartas. Basta um sopro para fazer cair o castelo da paz europeia.

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terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

O vegetarianismo


Não me lembro da primeira vez que tive contacto com o vegetarianismo. Vagas recordações de infância, algumas referências esparsas. Talvez o primeiro contacto tenha sido com o irmão mais velho de um amigo meu, que se tinha convertido ao vegetarismo. Conversão era a palavra certa, porque pretendia mudar toda a sua vida, embora não tenha mudado alguma da sua agressividade natural. Talvez fosse mais paliativo que tendência.

Já via argumentos agastados de um lado e de outro da discussão. Talvez por isso seja melhor salientar alguns aspectos. Como em todas as áreas, mais importante que a convicção que cada um tem, é o de saber se é honesta, profunda, se é efectivamente própria, e não algo postiço que se tem para mostrar aos outros. Ao longo da minha vida alguns vegetarianos provocavam a minha repulsa porque eram presunçosos, achavam-se superiores aos outros, proselitistas assanhados. O problema não era o de serem vegetarianos, mas o de tudo o resto que eram. De igual forma, respeito profundamente a coerência dos vegetarianos que, não suportando ver o sofrimento animal, não se alimentam deles. Uma artista francesa há uns tempos atrás dizia com alguma graça que não comia nada «que possa olhar para mim».

Sejamos mais precisos. Nunca fui capaz de caçar, apesar de ter família que caça. Da mesma forma nunca condenei a caça. Nunca tive grande paixão por touradas, mas isso não me impediu de respeitar quem delas gosta. Tolerância não é tolerar o que se gosta, mas o que não se gosta. Respeitar o facto de os outros serem efectivamente diferentes e serem legítimos na vivência dessa diversidade. Em boa verdade respeitei particularmente os forcados, por se atirem mãos nuas a um touro... Mas não desenvolvo esse tema, que mereceria por si mesmo outra atenção.

A questão é que existem muitas motivações para se ser vegetariano. Sejam higiénicas seja éticas. Como disse, respeito-lhes a coerência, mas esta apenas nasce ao custo de novas fragilidades e incoerências.

Em primeiro lugar, somos todos omnívoros. Em todas as culturas e civilizações os homens são omnívoros. Comendo mais carne numa ou mais vegetais noutras, variando a dieta consoante a classe social, não existe cultura em que o ser humano não seja omnívoro. Talvez isso diga algo sobre a nossa condição animal. Não se pode aqui culpar a civilização judaico-cristã, as religiões do livro ou outros lugares comuns dos jornalistas.

Em segundo lugar, é inevitável matar animais. Quando andamos na rua pisamos animais pequenos. Mesmo o simples facto de respirarmos, ou por outra forma atirarmos para dentro do nosso corpo, tem um efeito. O nosso corpo tem este hábito de os matar, eliminar, maltratar. Somos mesmo um microbiotipo onde usamos bactérias para nos ajudar... Muitas vezes matando outras. Pagamos assassinos a soldo igualmente, é um facto. O vegetariano tem de se haver portanto com uma de duas possibilidades: ou assume essa contradição, ou então despreza os animais minúsculos e reinstaura uma nova forma de hierarquia. Os animais macroscópicos são objecto do seu respeito, mas não os microscópicos.

Em terceiro lugar, alguma coisa tem de comer. Vegetais, entendamo-nos. Plantas e fungos, mais tibiamente. Mas isso significa que apenas estabelece um outro nível censitário, uma outra forma de aristocracia. Em vez de a linha terminar no homem, como cume da criação, a linha termina entre os animais e as plantas. Os animais, todos eles, fazem parte da aristocracia da natureza, e já as pobres plantas podem ser comidas, usadas para nosso benefício. Ora dá-se o caso de cada vez mais se perceber que as plantas têm vida social, certas sementes reconhecem as suas irmãs, porque o seu comportamento concorrencial é inibido por esse facto, as árvores mães na floresta manterão comunicações com as suas filhas através de filamentos de fungos.

A Universidade de Nantes descobriu que era possível fazer diagnóstico precoce da doença de Parkinson (e pensa-se estender esta metodologia a outras doenças que afectam o sistema nervoso) – fazendo uma biopsia ao aparelho digestivo do doente. Não ao cérebro, mas ao sistema neurovegetativo. Precisamente: neuro... vegetativo. Fechner, o grande criador da psicologia experimental, acreditava que havia uma vida espiritual das plantas. A vida vegetativa, mesmo a mais elementar, talvez não seja tão destituída de propósito próprio quanto se diz, e ainda menos de relevância. As intuições de Teilhard de Chardin, que vê o início da noosfera desde a origem da matéria (a oposição espírito e matéria é das mais temerárias que existe) são apenas mais um elo numa cadeia de intuições, estudos, conclusões, hipóteses, teorias ou verificações seguras que apontam de alguma forma nesse sentido. Nada há de estranho nisto. Toda a biologia nasceu de pressupostos metafísicos, e materialistas como Haeckel e Darwin não escaparam a eles. Nada mais poético que presumir o acaso, tanto quanto presumir a correspondência. Os animismos apenas são pobres porque exclusivos ou apressados.

O vegetarianismo não é a imposição da igualdade na natureza, da igual dignidade de todos os seres vivos. É apenas um alargamento da base censitária da nossa alimentação. Alarga-se a aristocracia, mas existem ainda seres que podemos comer. Mesmo os vegans, que supostamente apenas podem comer plantas já caídas pelo solo, aceitam comer mortos de plantas, mas não animais naturalmente mortos ou a carcaça do seu colega de trabalho recentemente falecido. A tanatofagia estabelece novas hierarquias, de uma forma ou de outra, mesmo que se alimente de inevitáveis mortes.

Não há maior coerência entre os vegetarianos, é verdade. Mas resta ainda um quarto aspecto. E esse sob o ponto de vista civilizacional é preocupante. Talvez o mais deslumbrante teórico da abstinência seja Porfírio, um filósofo do fim do séc. III, início do séc. IV d.C., um pensador com uma influência maior, mas pouco conhecido. Basta dizer que marcou profundamente Santo Agostinho, toda a filosofia medieval assenta em grande medida nele, a ele devemos a edição das obras de Plotino, e foi o único grande pensador anticristão de grande substância. Porfírio tem mesmo um tratado dedicado em especial à abstinência, onde trata da abstinência da carne dos animais.

O vegetarianismo desenvolve-se em épocas de recusa do corpo, como os medioplatónicos e neoplatonismo mostram. Porfírio, na sua grandeza, é um bom exemplo disso. E as épocas de recusa do corpo são menos saudáveis, menos vitais, menos viçosas que as outras. Não fora o cristianismo imperar a partir do século IV d.C., poderíamos ter um percurso do pensamento antigo a caminhar para o desastre da absoluta descorporização. Há um desgosto pela condição natural da vida, pelo sofrimento que implica necessariamente, pelo facto da vida se alimentar inevitavelmente de mortes, seja de animais, seja de plantas. Excluindo os vegetais, tudo o resto para se manter vivo tem de provocar a morte.

A vida tem aspectos muito desagradáveis, reconheço. Mas querer recusá-los é querer fazer recusar a vida. A decisão nesta matéria não é indiferente moralmente. Seria muito estóico falar aqui de indiferentes. Mas a escolha por ou contra o vegetarianismo não dá razão moral a quem escolhe um lado ou outro. E criar restrições na vida não é em si mesmo empobrecedor. Toda a mística, a vida consagrada e a vida contemplativa estão por aí a mostrar-nos isso. Mas também a Mãe que abdica pelo filho, o herói pelo seu povo. Toda a vida é feita de restrições, tudo está em saber o que escolher. Umas escolhas são boas para uns e apenas postiças para outros. Mais uma lição a retirar: não tenhamos orgulho por ter feito uma escolha ou a contrária. Pensemos apenas se ela é autêntica e deixemos os outros em paz nas suas escolhas e tentames. Somos seres destinados ao erro. Não o cumulemos com a presunção.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2014

Educação para o Mar

Em boa hora Nuno Crato resolveu distribuir, por todas as escolas do País, mapas de Portugal com o Mar da futura Zona Económica Exclusiva. Educar com escala, missão e novos horizontes é obrigação estrita de Pais e governantes com a tutela do ensino.  

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quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2014

Países Baixos

1.       Foi instituída a eutanásia para crianças na Bélgica. As crianças não podem decidir sobre a hora de dormir, o que comer, que hábitos ter. Mas sabem o que querem da vida. É claro que a Lei, para ser civilizada, vai dispor de alíneas prudenciais que decretem as condições do apuramento da certeza absoluta de que a criança quer morrer. Talvez copiem a exigência na Lei do Aborto.

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terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014

Filhos de Roma e Grécia

Tenho por muitas vezes atacado os avatares da modernidade, uma modernidade algo requentada, é certo, transformada em pós-modernidade, em repetição de si mesma, reactivação de si mesma, mas sempre versão cansada de um movimento que já nasceu do desprezo de si mesmo. Fenómeno estranho na História, a modernidade nasceu pela mão de pessoas que foram os primeiros a desprezá-la, é fruto de desprezo de si mesma. A explicação é mais simples do que parece. Renascida tentativa de ser um novo começo, partir do zero, reactivação do Hapax, imitação em modo menor do cristianismo, a modernidade apenas poderia trabalhar em modo menor, acabando por se esquecer mesmo do que são as suas grandezas.

É verdade. Mas também não queria perder o sentido de justiça. De entre quem não se reclama da modernidade ou pelo menos apenas dela, há muita gente a dizer tontices. Ainda recentemente um eminente catedrático, segundo parece, afirma que: bem sabemos que somos todos filhos do direito romano e da racionalidade grega.

Haveria muito que dizer a propósito, e já o disse bastamente onde melhor cabia. O esquecimento de outros povos indo-europeus que fizeram a Europa, como os germanos e os celtas, que tanto influenciaram a Península Ibérica, como dos eslavos, que marcaram metade da Europa, diz muito sobre a menos que sofrível capacidade de elaboração teórica da academias.

Mas fico-me apenas pela ladainha do direito romano e a racionalidade grega.

Filhos do direito romano? A única coisa que os romanos fizeram teria sido o direito? Quando conquistaram a Península ibérica inundaram Tartesso, os lusitanos e quejandos povos de pareceres jurídicos? Teria sido uma coorte de jurisconsultos que se atirou furiosamente às populações com as suas sentenças? Talvez tenham sido madeiros com a Lei das Doze Tábuas a ser arremessadas sobre as fortificações peninsulares.

Ou então, porque termos de colocar todas as hipóteses, talvez a coisa se tenha passado da seguinte forma. Chegaram os romanos e mostram aos povos peninsulares um arrebatador parecer jurídico. Ao que estes disseram: «ah têm toda a razão, façam favor de entrar e conquistar-nos. Brilhante demonstração jurídica». E entraram os romanos e dominaram...

O direito romano? Será que em Suetónio quando Messalina abre as pernas a metade de Roma criou as situações potestativas? Ou Lucrécia em Tito Lívio quando as fecha cria os bens de mão morta? Não teria sido bem mais a ética romana a ter maior influência sobre nós que o seu direito? Não seria Heloísa bem mais estóica que cristã em muitos dos seus movimentos e não teria sido a moral das elites europeias mais marcada pelos exemplos dos heróis da República romana que pelos ditos de Triboniano ou Paulo?

E a organização política romana, tanta dela prévia ao direito, não nos teria influenciado. Será que Gaio e as suas instituições marcaram mais a Europa que Augusto ou Constantino? Conheço a expressão «augusta presença», «gaia presença» não me parece que tenha acorrido à pena de nenhum escritor.

E será que os romanos não fizeram literatura que influenciou toda a Europa latina até ao Reino Unido? A noção de estilo, da fórmula, da eficácia discursiva, do impacto retórico, do sentido de humor alusivo, com tudo o que tem de bom ou mau, não cobre mais as nossas vidas que a usucapião ou a manumissão?

E quanto à tanto referida racionalidade grega? Cleante faz o lírico hino a Zeus por pura racionalidade? Empédocles filosofa em poesia também com este simples assento? Toda a filosofia grega vive o terror do infinito. Ao contrário do que durante séculos se disse os gregos eram capazes de o conceber. E que que maneira. Ao ponto de os aterrorizar. De Aristóteles, a Plotino, passando pelos atomistas, todos enfrentam o infinito, tentando contê-lo, evitá-lo domesticá-lo, negar o seu valor, ou entregando-se a ele como vencidos resignados. Que tem isso de racionalidade nua?

E não fizeram os gregos arte? A cara de Alexandre em mosaico que nos resta ou a de Lacoonte revela apenas racionalidade?

E a literatura? Não seremos herdeiros dela, bem como da mitologia? Quanto Édipo fura os seus olhos estará a ser puramente racional? Quando Medeia mata os seus filhos, ou Dejanira leva Hércules a vestir peles envenenadas que o levam à morte e o conduzem a deixar-se imolar pelo fogo estarão eles a fazer exercício de racionalidade? E as ménades e os ritos mistéricos? Não é só Jâmblico, mas igualmente Platão que estão bem longe de serem apenas, só, sem mais, exemplos de racionalidade.

O «apolíneo» Apolo lança a peste em Tebas, e é qualificado de «o empalador». Sacrifícios humanos são feitos em Atenas até ao início da Idade Clássica. Racionalidade? Sem mais? Herdámos um produto depurado, pasteurizado, estéril? Ou somos herdeiros da cultura grega, de toda ela, em todas as suas perspectivas?

Estes comentários mostram que, mesmo quando com boas intenções, o fôlego retórico falha, a expressão justa claudica, o conhecimento é escasso. Lamento que no espaço público ainda possam ser ditas tais trivialidades portadoras de injustiça. Injustiça em relação a nós e em relação aos gregos e romanos. Não somos apenas herdeiros, nem principalmente herdeiros do direito romano e da racionalidade grega. Se esses povos apenas nos tivessem deixado tal legado agradeceria muito, mas deixaria o direito para os tribunais e a racionalidade para os mercados. Se não trouxessem consigo coisas bem mais importantes, um fogo criativo, uma imensidade vital, modos de ver o mundo conflituantes entre si, mas por isso mesmo enriquecedores, passaria quitação da herança e passaria a outras aventuras. Graças aos céus a História é bem mais rica que quem nela vive.

Mas vamos mais fundo. Qual é o solo em que assenta este tipo de frases? É evidente que é mera repetição de uma rotina escolar, escoras cómodas e simplistas, que permitem que um pensamento não muito vigoroso descanse. Percursos académicos em que, de tanto se ter de prestar provas do que se sabe, se esquece de saber. É evidente. Mas há algo mais. Esse algo mais é muito simples. Herdámos do passado apenas cascas, estruturas vazias, realidades externas à vida. Os que nos antecederam não tinham linfa, ou pelo menos não nos é possível herdar-lhes a vitalidade. Nomes, na melhor das hipóteses conceitos, é tudo o que podemos herdar. Por detrás destas fórmulas vazias está uma concepção do mundo em que falta algo. O seu nome? Intimidade. Precisamente isso: intimidade. Os antigos não a tinham, não somos capazes de a herdar. Um mundo feito de mortos que nunca viveram, e que nunca foram capazes de nos transmitir a vida.

Habituados à separação entre espaço público e privado, entre racionalidade e irracionalidade, como se o ser humano não fosse uno, entre ciências e letras, entre afectos e pensamento, é um homem amputado que é ensinado nas academias, cortado às fatias, pleno de compartimentos estanques. Nem um homem máquina à moda dos materialistas do século XVIII, mas mais pobre ainda, um homem cómoda, cheia de gavetas.

Triste, triste forma de pensamento, requebrado em alguma rocha exposta aos ventos e sonhando com uma vida que nunca teve. Por isso, este tipo de sínteses me parece inoperante, vazia, sem seiva. Não somos herdeiros do direito romano e da racionalidade grega, porque, caso fossemos apenas disso, sê-lo-íamos de bem pouca coisa, de meras cinzas. Somos herdeiros de toda a vida dessas duas culturas, dessas pessoas que as cultivaram, além de muitas outras. Mas, sobretudo, somos herdeiros de vidas que nos enriqueceram. De gregos e romanos sim, mas não de tão pouco vindo deles.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 20 de Janeiro de 2014

As polémicas de Dawkins


O conhecido biólogo Richard Dawkins tem-se especializado na polémica nos últimos anos. Escusado será dizer que lhe assiste alguma parte de razão. Depara-se com fundamentalistas cristãos folclóricos que fazem os dinossauros conviver com os humanos, que defendem e forma acrítica a ideia de desígnio inteligente, que procuram na Bíblia ou no Corão a verdade científica. A sua irritação é compreensível em muitos aspectos, porque as insuficiências filosóficas dos seus oponentes são evidentes.

Aquilo de que não se apercebe o próprio Dawkins é que as suas insuficiências filosóficas não são menores. Em vez de clarificar conceitos enlameia-se em equívocos e insuficiências críticas. De um lado e do outro, o debate é pouco original, enfadonho, e repete a mais de um século de distância o que já se tinha visto no século XIX. Que um lado e outro repitam a polémica apenas mostra que a arrogância em relação aos nossos antepassados, que nos leva a ter a presunção de que os ultrapassámos deixa muito a desejar.

Vejamos cada uma destas limitações de Dawkins por sua vez.

O seu ateísmo militante. Que uma pessoa seja ateia militante é de seu direito, não o vou negar. Mas o ateísmo sofre de uma insuficiência lógica de que nem ateus nem crentes nem agnósticos se apercebem. O que diz um ateu? Deus não existe. Para que esta asserção seja verdadeira é necessário que se esteja a dizer «eu vi toda a realidade e não estava lá Deus». Logicamente. Admitir que se viu toda a realidade futura e presente e fora do tempo se a houver, saber precisamente o que não existe, é no mínimo temerário. Um ateu entende que pode ignorar a existência de um verme, mas a existência de Deus não ignora. Sabe tudo sobre ela. Que não existe.

O agnosticismo pode ser uma espécie de snobismo e não com mais base lógica, é certo. Vittorio Messori lembrava que na sua juventude a moda em Itália era a de se ser agnóstico, e ser ateu era visto com maus olhos, como uma forma de intranscendência ingénua. Neste caso, embora o agnosticismo não padeça do vício lógico do ateísmo, tem ainda menos fundamento, porque é pura pretensão social.

Dawkins tem ao menos a frescura de, numa época que faz renascer espiritualidades desencontradas ter um projecto, um evangelho cheio de certezas: Deus não existe, a ciência é a base do diálogo humano.

Ora é precisamente por misturar estas duas ideias que Dawkins mostra mais uma inconsistência lógica. A ausência de Deus e a ciência não se implicam mutuamente. E mais outra: que a ciência seja a base do diálogo humano é inverter a ordem das prioridades. 

Vejamos mais uma vez como Dawkins mistura conceitos. A ciência nada diz sobre Deus. Os seus ensinamentos tanto podem ser usados a seu favor como a seu desfavor. O mecanismo é simples. Em desfavor os que se quedam pelo que a ciência diz. É evidente que não fala directamente de Deus, senão não seria ciência. Seria difícil pensar que Deus é inversamente proporcional ao quadrado de seja o que for. Em favor, os que salientam para onde a ciência parece apontar, para as suas últimas motivações.

Entra aqui outro vício de Dawkins. Não apenas se deixa absorver pela simples polémica, sempre com o mesmo inimigo, o fundamentalismo religioso – o que pode ser sensato em certas épocas, nem digo se na nossa, mas é sempre limitado – como mostra ignorância filosófica e falta de sentido crítico.

Luta contra o desígnio inteligente como cavalo de batalha do fundamentalismo religioso. O problema (dele e dos fundamentalistas) é que esta tese é pagã e não cristã. Está a atacar o que julga ser cristão quando não o é, e outros a definir o que julgam ser cristão e não o é também. O desígnio inteligente encontra-se em Aristóteles e Galeno, bem antes de ser teorizado pelos cristãos. Nesse sentido, Dawkins está no mesmo plano crítico que os fundamentalistas. Ambos acreditam na mesma premissa... falsa.

O desígnio inteligente, ou melhor a ideia de finalidade, não é por outro lado, exclusivo de crentes ou pagãos. Mach reconhecia nem que fosse um resíduo de teleologia na biologia. Da mesma forma o princípio da acção mínima na física configura um pressuposto finalístico. Dawkins socorre-se de uma certa forma de ver a biologia, e não a única, nem de ver a biologia e muito menos a ciência.

Por outro lado, de tanto se sentir na necessidade de defender Darwin caba por se transformar num exegeta de uma nova Bíblia, «A Origem das Espécies». É bem sabido que a obsessão com o inimigo nos torna similares a ele e Dawkins começa a tornar-se uma espécie de tele-evangelista do Middwest americano no seu tipo de argumentação (embora com mais bela pronúncia).

Outro vício em que cai é do é o de que, por ser detentor de uma ciência, se julgar detentor da ciência como um todo. O conceito de biologia é romântico, o impulso da teoria da evolução é em grande medida cristão, como resultante do Hapax, e romântico (como Gusdorf mostrou) e Dawkins, como desconhece a origem da própria ciência que cultiva, esquece-se disso. Como Bergson repetia os românticos sem o saber, também Dawkins o faz. Mas, ignorando outras ciências como a física e a matemática, não se apercebe até que ponto nestas últimas os problemas teológicos se encontram na fronteira dos próprios problemas científicos. Cantor e Heisenberg são bons exemplos deste encontro. Dawkins julga falar em nome da ciência, mas fala apenas em nome de uma ciência. A biologia. Das outras pouco mostra saber, e por isso não percebe que o seu argumento é limitado.

Em acréscimo, esquece-se que a necessidade positivista surge sobretudo em ciências recentes e mais inseguras. Houve grandes biólogos e químicos positivistas, mas não se podem encontrar muitos exemplares de grandes matemáticos e físicos positivistas. Kronecker e Kelvin poderiam ser dados como exemplos talvez, mas se foram competentes, e esse mérito ninguém lhos retira, estão longe de ser os maiores representantes nas respectivas ciências. Kronecker teria atirado a teoria dos conjuntos e a álgebra dos transfinitos ao lixo, Kelvin decretou como menores as origens da teoria da relatividade e a física quântica. Dawkins fala como biólogo, como um sociólogo, ou certas escolas históricas ou antropológicas o poderiam fazer. Não como um matemático ou físico falaria.

Na sequência aparece outro vício de Dawkins. Julgando que a ciência instaura vidas (a atitude mais anticientífica que possa existir) resvala em todos os vícios associados a esta falácia. Espero bem que não tenha feito cientificamente amor com a respectiva mulher, porque duvido que ela daí tenha retirado algum prazer. Mas, mais importante para nós, que não fazemos amor com ele, mostra uma ingenuidade histórica confrangedora quando afirma que é por via da atitude científica e da ciência que se chegam a soluções razoáveis na sociedade. São duas coisas diversas. Que a segunda, a ciência e os seus conteúdos tenham permitido uma regulação mais razoável da sociedade, o século XX desmente rotundamente. Mas será que o método científico, usado na sociedade, gera mais razoabilidade, senão mesmo justiça social? De novo Dawkins está limitado pelos seus parcos conhecimentos de outras ciências. Se a biologia teve momentos de grande polémica, como a História, a posição proba, razoável, sensata, é sempre vista com melhores olhos num biólogo, como num historiador. Mas já um matemático ou físico não tem de ser sensato. A lista de físicos bem mais sensatos que Dirac é imensa, e todavia ele supera-os como físico. Da mesma forma, muito superior à sensatez que Galois tinha não é difícil encontrar, mas nem todos lhes chegam aos calcanhares como matemático. Não sei se a sanha persecutória de Newton faria com que Dawkins deixasse de o considerar bom cientista, mas estaria errado se o fizesse. As invejas, os conflitos, as mesquinhezes existem no meio científico tanto quanto nos outros.

Mas a limitação de Dawkins é igualmente filosófica, como se vê. A sua visão monolítica da ciência, limitada a sua perspectiva temporal da mesma, leva-o a defender como ciência, a única ciência, o que está longe de o ser, e a dar um papel à ciência que não lhe cabe se se quiser que ela permaneça ciência e não evangelho.

Entendamo-nos: Dawkins tem um papel muito positivo na nossa época em que franjas muito largas da população entre os americanos, mas e em menor medida entre os europeus, e em maior grau ainda entre os muçulmanos são absolutamente surdas à ciência e às suas implicações. Luta contra estupidez, e nisso há mérito. Apenas não luta com os argumentos mais inteligentes. Se tivesse de escolher entre os múltiplos fundamentalistas e Dawkins sentava-me ao lado de Dawkins, não teria qualquer dúvida em o fazer. Mas depois de vencidos os fundamentalistas, seria a Dawkins que me dirigiria.

Para lhe dizer várias coisas. Que o seu ateísmo se funda numa insuficiência lógica, que usa a ciência para negar Deus quando ela não O afirma nem O desmente, que luta contra moinhos de vento tão grandes quanto os seus oponentes quando ataca o desígnio inteligente, que pretende substituir um evangelho mal lido por um outro mal usado, que não pode falar em nome de toda a ciência, porque a desconhece no seu todo, que por isso pretende que ela instaure vidas, quando isso é impossível e não é sua função. E que, no fim de contas, embora útil, é apenas mais um reflexo da incultura da nossa época, em que se pode ser cientista numa área estreita sem se ter cuidado de estudar as outras. Dawkins mais que remédio é sintoma. Nisso a sua parca relevância.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

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quinta-feira, 16 de Janeiro de 2014

Conflito de fidelidades

É com sentimentos contraditórios que assisto à homenagem de Durão Barroso em Cáceres. Congratulo-me, sendo o reconhecimento internacional a um Português por funções prestadas a tantos Povos europeus. Mas não esqueço que o preço dessa função foi o abandono da condução dos destinos do Governo português, na condição de não haver eleições que legitimassem o seu sucessor. Resultado: mandato e meio de deriva socialista  sob uma liderança que não evitou o restage financeiro depois da crise de 2008. Também não me agrada o nome do prémio - Carlos V - dado a um Português. Sabemos que este Imperador, casado com Isabel de Portugal, preparou cautelosamente a anexação do nosso Império ao seu, onde o sol nunca se punha. Hoje, tal como há quase cinco séculos, devemos saber se esta contribuição nacional para a Europa prejudicou ou beneficiou Portugal.

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quinta-feira, 9 de Janeiro de 2014

Acredito em Sócrates

Acredito na descrição de José Sócrates sobre o jogo de Portugal com a Coreia em 1966, agora alvo de chacota em todo o País. Foi num Sábado, sim, e em Julho, durante as férias grandes. E então? Os meus cinco irmãos sempre foram para os campos de futebol e para a mata do colégio dos Maristas ao fim de semana e durante as férias para jogarem à bola e brincarem na pequena floresta que ali estava disponível, maior do que o quarto dos brinquedos. Não havia televisão lá em casa e o ar puro era melhor do que uma casa sem jardim. Ironicamente, as crianças tinham mais liberdade nessa época e não estranho, de maneira nenhuma, que José Sócrates, em plena Covilhã, continuasse a encontrar-se com os amigos no recreio da escola em vez de ficar fechado em casa. Era Julho, sim. Mas, provavelmente, os seus Pais tirariam férias em Agosto e, até lá, havia que matar o tempo numa cidade sem os pavilhões gimnodesportivos e os campos de férias de hoje. A memória de um miúdo de oito ou nove anos sobre o jogo da Coreia não engana. E os que de nós duvidamos, falamos mais de nós do que disso.

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terça-feira, 7 de Janeiro de 2014

Simbolismo confuso

O site da CML descreve como uma «cerimónia, simples, carregada de simbolismo» a «homenagem de uma cidade» a Eusébio da Silva Ferreira. O carro parou à porta da CML, foi aberta a bagageira, assim ficou numa confusão de vereadores e bombeiros perfilados a par das pantufadas de assessoras aos fotógrafos que faziam o seu trabalho. O caixão ali estava, nem dentro nem fora do carro, porta aberta, nem dentro nem fora da Câmara. Durante longos minutos embaraçosos, sem decoro protocolar nem simplicidade, batiam-se palmas, paravam, voltavam a bater até que a trapalhice se tornou incómoda. Ninguém percebia o guião. A voz off da TV queimava os minutos daquele vazio chamado «cerimónia carregada de simbolismo». Fechada a mala, o carro seguiu, finalmente entregue à cidade.
Lembrei-me da bandeira nacional mal hasteada no dia 5 de Outubro.
Para quando uma «reforma litúrgica» na CML?

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Editorial

As democracias liberais em que vivemos não impõem objectivos sociais, nem quaisquer concepções normativas de bem. Estão ancoradas na ideia de direitos e liberdades individuais, recusando a imposição de valores absolutos ou de concepções pré-definidas de um bem comum. Sem negar a existência de uma Verdade última (isto é, sem negar a existência de um bem último ou comum), e nesse sentido afastando-se do puro niilismo, as nossas actuais democracias, assumindo a sua matriz liberal, negam ao Estado o direito de impor dogmaticamente uma concepção específica de bem. Ao invés, assentam no pressuposto de que o indivíduo pode, por si próprio e através de um processo racional de confronto de ideias, encontrar o caminho para a Verdade.

A pedra angular de todo este edifício demo-liberal, a condição mesma da sua existência, é um espaço público em que, de modo livre e incondicionado, sem preconceitos, sem dogmas e com uma atitude assumidamente tentativa, se confrontam teorias e concepções distintas, ideias e visões opostas, das quais, em última análise, acabarão por brotar valores que nos implicam com tudo o que tem a ver com a vida contemporânea, da filosofia ao sexo, da arte à política, da história à moral, da liberdade a Deus.

Como tal, este ‘marketplace of ideas’, à maneira de Stuart Mill, constitui uma das mais preciosas e poderosas garantias do respeito pela nossa liberdade individual. A sua construção e alimentação quotidianas são um direito, mas sobretudo uma responsabilidade de cada um de nós – que não pode ser inteiramente delegada nem em partidos políticos, nem em corporações, nem tão pouco no chamado sistema mediático.

Neste contexto, o «Geração de 60», enquanto espaço plural de debate que se deseja imodestamente sério e inteligente, é uma contribuição egoísta para a defesa da nossa própria liberdade.