segunda-feira, 21 de Julho de 2014

Tinha Jesus irmãos?


Tinha eu lido há uns tempos atrás um livro de um senhor chamado Bernheim (BERNHEIM, Pierre-Antoine, Jacques, Frère de Jésus, Albin Michel, Paris, 2003) que dava como certeza absoluta vários factos :

a)      No contexto da Palestina em língua grega o conceito de irmão era forçosamente de irmão de sangue e não em sentido figurado;

b)      Em consequência, Jesus tinha irmãos de sangue, e não irmãos de sangue apenas de São José; do lado de Maria também.

 

Até aqui não vejo problema. A tese é conhecida, já muitas vezes defendida. O problema da conclusão é que assenta numa premissa algo apressada.

 A vida tem destes acasos. Por coincidência li entretanto um livro de uns senhores chamados Roger S. Bagnall e Raffaella Cribiore, Women's Letters from Ancient Egypt, 300 BC-AD 800, (http://www.amazon.co.uk/Womens-Letters-Ancient-Egypt-BC-AD/dp/0472115065/ref=sr_1_3?s=books&ie=UTF8&qid=1399561358&sr=1-3).

 

Eis que salientam que em várias cartas entre os séculos I a.C. e III d.C. os conceitos de «irmão», e mesmo de «mãe», não significam a relação biológica forçosamente, mas de familiar, íntimo, companheiro, mesmo marido, e no caso de «mãe» pode-se tratar mesmo da escrava que serviu de ama.

Que se coloquem hipóteses históricas, bem vivo com esse facto. Tanto melhor. Venham as mais ousadas. Mas que se dê como certeza absoluta conclusão quando nem a premissa é certa já não me parece honesto.

Tenha-se em conta que:

a)      O Egipto fazia parte do mesmo espaço helenizado, fortemente helenizado, a que pertencia a Judeia.

b)      Sendo bem mais importante culturalmente que a Judeia, seria pouco plausível que os fenómenos culturais e também linguísticos que se passam na Egipto não tivessem algum reflexo na Judeia.

c)      Embora não se possa retirar uma relação necessária entre o que se passa no Egipto e o que se passa na Judeia, e embora os anteriores argumentos já sejam por si mesmo fortes, a verdade é que não se pode afirmar que «irmão» em grego na época e na região é, e sempre, irmão no sentido carnal.

d)     Ainda menos se pode afirmar que significa filho do mesmo Pai e da mesma Mãe.

Este é mais um dos casos em que vemos que, em vez de estudo, temos uma imposição. É-nos imposta a conclusão, contorcidas as fontes, relegadas a segundo plano as provas e a sua problematicidade. O autor, o tal de Bernheim, não gosta de problemas, não gosta que estes sejam colocados. Como quem cauteriza uma ferida, fecha-os, fecha-os de forma que julga definitiva. 

Venham elas a provas, venham elas a discussões. Tanto melhor. Quantas mais melhor. Mas que o sejam. Prefiro estudos a proclamações públicas afixadas nas paredes dos teatros. A ciência não se faz por edital.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 7 de Julho de 2014

A Inglaterra quer sair da União Europeia?


E lá temos mais uma vez uma birra: a Inglaterra ameaça de novo sair da União Europeia porque não gosta do novo presidente da Comissão. Porquê? Porque este seria demasiado federalista e porque a Inglaterra pretende uma reforma profunda das instituições comunitárias. Já ouvimos esse discurso muitas vezes.

Vejamos o que retirar deste discurso.

Em primeiro lugar, a Inglaterra quer uma União Europeia à sua imagem. Di-lo, pelo menos. Mas tem-na. Nunca as instituições europeias tiveram tanta influência britânica, e, por esta via, americana. A desregulação dos mercados, sobretudo os financeiros, os temas do multiculturalismo, as questões fracturantes, a língua inglesa, a discussão em sede laboral, não dos direitos sociais e económicos dos trabalhadores, mas dos direitos morais, como a protecção das minorias sexuais e étnicas. Que os trabalhadores sejam explorados no seu conjunto não é grave, são as leis do mercado, mas já que se descrimine o travesti que vai de penacho trabalhar numa funerária isso não se pode admitir.

Na perspectiva da imagem a Inglaterra nunca teve uma imagem tão forte, nunca a sua presença simbólica foi tão forte. Blair apagou Jospin, Schroeder. Os países da Europa central e do leste que entraram de novo foram endoutrinados pelo padrão anglo-americano. Os próprios ingleses tinham noção de que os anos 90 foram uma «janela de oportunidade» como agora se diz, que tinha de ser aproveitada.

Os presidentes da Comissão foram escolhidos pela Inglaterra que, desde que apareceu um Delors (anormalidade num cargo que deveria ser de um alto funcionário), que se assustaram com a possibilidade de um presidente da comissão forte, e por isso escolheram progressivamente o mais medíocre e fraco que puderam.

Mas este quadro inglês tem muitas fissuras.

Em primeiro lugar, é precisamente este conjunto de instituições europeias que mais suscitam o desprezo inglês. Nunca as instituições europeias estiveram tão próximas do modelo que pretendiam e nunca foram tão vilipendiadas. Antes não eram amadas, mas temidas. Hoje em dia, basta para isso ler os jornais ingleses, são desprezadas. É precisamente uma comissão fraca, com chefia fraca, que é objecto de desprezo pelos ingleses. O que antes os irritava suscita agora apenas condescendência.

Em segundo lugar, uma Europa à imagem da Inglaterra já existiu e foi por ela feita. Chama-se EFTA, criaram-na em 1959 e três anos depois já estavam a bater à porta da CEE, de tal forma era boa a Europa feita à sua imagem. Como Atena que deu à luz um monstro, a ideia britânica para a Europa é afinal muito pouco empírica. É uma ideia que têm na cabeça e não percebem que é ela mesmo um monstro quando concebido e saído à luz do dia. Aceitemo-lo: os países europeus não gostam da Europa à imagem da Inglaterra e nem a Inglaterra gosta da Europa cada vez mais à sua imagem.

Em terceiro lugar, o poder, junto dos países da Europa central e de leste, da Inglaterra já se enfraquece cada vez mais de dia para dia. É bom de se perceber as razões. Se a mais-valia que trazem é a relação com os Estados Unidos, estes países não precisam da mediação britânica. A Inglaterra torna-se inútil. Além disso, como a Inglaterra é muito amiga mas está preocupada antes do mais com o seu cheque e a devolução da sua contribuição, os países da Europa central e leste perceberam que dela pouco teriam a receber. Pressionaram a Suíça e a Noruega a dar mais dinheiro, e sabem que contam na hora da verdade mais com a Alemanha e a Áustria que algum dia contarão com a Inglaterra.

Em quarto lugar, o mito Blair começa a esfumaçar. A dita terceira via, que se traduzia em ter uma política apenas com uns laivos socializantes e muito discurso de preocupações sociais sem grande acção mostra-se no seu vazio filosófico como puro marketing.

Eis que as potências da Europa continental conseguem colocar no centro do conselho europeu um homem do centro e agora na comissão europeia se anuncia o mesmo. No fundo, restabelece-se um equilíbrio. É a mesma Inglaterra que tanto se vangloria da sua soberania nacional que se quer impor às outras soberanias. E começa a deixar de o conseguir fazer.

Da parte que me toca teria muito a dizer sobre esta personagem que pretendem colocar na comissão europeia. Nem tudo bom, nem tudo mau. Mas um facto não pode ser esquecido. Numa relação, quem está sempre a ameaçar que sai é infantil e malcriado. A Inglaterra merece mais, merece-se mais. Um divórcio não se ameaça: anuncia-se e executa-se. É de bom-tom, é adulto e bem-educado. Quando muito invoca-se a possibilidade para resolver de vez o problema: ou mantendo o casamento e nunca mais falar dele, ou acabando de vez com o matrimónio.

O que a Inglaterra não percebe é que de tanto ameaçar que se vai embora as pessoas vão-se habituando à ideia. Não a executando, perde credibilidade. Executando-o, perde impacto. Parcimónia, como tão bem lembrou um pensador inglês tão esquecido dos ingleses, Ockham. Parcimónia é sinal de bom gosto, e bom senso.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

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sexta-feira, 20 de Junho de 2014

Precisamos da democracia?


 

Um conjunto de selvagens reúne-se para decidir se hão-de comer um prisioneiro. A maioria vota a favor. Como há dois que se opõem veementemente são mortos. E para festejar a decisão espancam as mulheres.

Este pequeno cenário mostra que estamos a falar de uma democracia, e de uma democracia directa em cúmulo. Etimologicamente é o poder do povo quem determina a vida em colectividade.

Mas isto basta-nos? Não. Porquê então achamos que esta democracia é insuficiente?

É que o que designamos por democracia recolhe muitas experiências históricas diversas.

Em primeiro lugar, o próprio poder do povo, mas por via do nexo de representação. Uma ideia sobretudo grega.

Em segundo lugar, a ideia de Estado de Direito, estóica e romana na origem. Esta nada tem a ver com a democracia. Mas atravessou toda a História da Europa. O poder obedece a regras, está limitado por elas. Quem pode, quando pode, como pode. E no entanto, não concebemos democracia sem Estado de Direito, mesmo que a sua origem seja bem diversa. O império, os príncipes europeus, o papado, não concebiam a vida sem a legitimação e a limitação jurídica. E nós igualmente. Este é um traço que a democracia herdou, não criou.

Em terceiro lugar, a proibição de divinização do homem. Não concebemos prostrar-nos perante ministros ou chefes de Estado, como o grego se recusava a fazer. Era bárbaro. Sempre que existem regras de prosternação na Europa elas surgem por influência oriental. O homem europeu pode fazer reverência, mas não se prosterna. Não adora o poder, os homens do poder. A democracia recebe esta ideia e não a cria igualmente.

Em quarto lugar, a dialéctica. Mas esta ideia surge do anti-democrata Platão e não com a democracia. A democracia ateniense praticou-a, mas o seu desenvolvimento teórico deve-se a anti-democratas. Mais uma coisa que a democracia herda e não criou.

Em quinto lugar, a ideia de legitimação pelo bem comum. Ideia sobretudo helenística e cristã. Mais uma vez a democracia herdeira e não criadora.

Em sexto lugar, a tradição liberal. A protecção das liberdades de acção, expressão, reunião, associação. A tradição liberal foi quase sempre antidemocrática, e no entanto só concebemos democracia de acordo com essa tradição. Herdeira, herdeira mais uma vez, não criadora a democracia.

Em sétimo lugar, a dignidade humana. Ideia cristã, muito anterior a qualquer democracia moderna. Ainda mais uma vez herdeira.

Em oitavo lugar, a igualdade da mulher, ideia sobretudo aristocrática e régia, profundamente anti-burguesa, anti-republicana (segundo o padrão do civismo republicano).

Em nono lugar, a economia de mercado, que pode ser adjuvante da democracia, mas é igualmente um enorme problema para ela, na medida em que distribui o poder de forma anti-democrática.

Em décimo lugar, uma determinada concepção da mulher, da criança, do velho, do homem adulto e das relações entre eles que se formou com a matrona romana, o cristianismo, e igualmente a senhora medieval.

A democracia constrói-se sobre muitas tradições que apenas recolheu e que em grande parte surgiram de pessoas que a ela se opuseram. Ao contrário do que se julga não foi a democracia que as criou, quando muito é a que a melhor tem garantido nas últimas décadas.

Porque é de décadas que tratamos, ou seja, de um espaço cronológico muito apertado.

Todos nós somos sobretudo herdeiros de anti-democratas, e de não-democratas ou de pessoas que só não eram contra porque nem sequer concebiam a sua possibilidade. A Europa encontra a democracia como uma solução histórica para um tempo determinado que se dá o caso de ser o nosso. Mas da mesma forma que o império ou o feudalismo ou do domínio dos príncipes pareceram realidades eternas durante séculos, temos de aceitar que a democracia poderá não ser o esteio final das nossas sociedades no futuro.

A Europa sempre foi Europa, e no entanto só de há muito pouco foi democrática. Meio século para os mais velhotes, uma década para os mais recentes. Historicamente é uma camada muito fina, muito frágil e muito menos determinante que as outras.

Sejamos claros. Habituados que estamos a considerar a democracia como o nec plus ultra da existência humana olhamos para os nossos antepassados com algum desdém porque eles, coitados, não viviam em democracia. Tenhamos então algum bom senso e reponhamos as coisas nos devidos lugares.

Na nossa época histórica a democracia tem sido o sistema que melhor tem garantido essa herança, esse património. Para um teórico político do século XVII o principado era o mundo natural, não obstante exemplos exóticos como os Países Baixos ou a Suíça, e em parte Veneza e a Polónia. E não era imbecil por assim achar. Tinha mais solo histórico sobre que assentar que nós quando falamos de democracia. Um pouco de humildade ficaria bem aos beatos da modernidade (com ou sem “pós” é a mesma coisa, porque quem apenas sabe conceber a sua vida como após uma anterior mostra que não a superou).

Mas isso não quer dizer que é o sistema definitivo na História. Muito do óbvio deixa de o ser. E quando queremos procurar o que pode estar em perigo, não é nos slogans dos bem pensantes que se encontra, mas no que consensualmente todos dão por certo.

Sobretudo, como a democracia não é fundamento último, mas escora-se ela mesma em fundamentos que a precedem, fundamentos bem mais profundos que ela mesma, tudo querer assentar na democracia leva a uma sobrecarga da mesma. O fim da democracia aproxima-se na altura em que sobre esta tudo se quer assentar.

Quando se quer definir a Europa pela democracia, esquecendo que esta é uma condição e não um fundamento, e daí se retira como conclusão que todo o bárbaro pode ser europeu, aliás, que quanto mais bárbaro, mais europeu pode ser (“mas porém a que cuidados?” e com que interesses?) os pilares quebram para deixar vir ao de cima o que é realmente fundamental.

Vivemos milhares de anos sem ser democratas, mas sendo europeus. Mesmo sem democracia não deixámos de ser franceses, portugueses, polacos, russos. E não produzimos por isso medíocre cultura, salvo se Goethe e Gauss devessem ser deitados ao lixo. Vivemos há milhares de anos desta confluência entre cristianismo e paganismo indo-europeu. Quando nos dizem que somos democracia, só democracia e economia de mercado, o confronto com outras culturas que de comum só têm connosco isso partirá o próprio sustento dessa democracia.

É certo que os cultores do curto prazo não se importam de assentar mais andares num prédio. E vão acrescentando mais e mais. No seu tempo de vida julgam que não pagarão preço nenhum. Mas quando o cidadão comum vir que se vai a votos para a antropofagia, ou para qualquer outro costume mais ou menos janízaro, e que no dia a dia se degolam carneiros nas escadas do seu prédio, ou que a criança, a mulher, o homem respiram muito diferente ar, veremos o que sobra. Se o húmus fértil em que nos gostamos de instalar e a que chamamos de democracia, ou se a rocha ou o magma sobre o qual assenta. Nessa altura é evidente, os sacerdotes da deusa única democracia já a estarão a incensar alhures. Aceitaram a destruição do templo para apenas manter o altar. Mas ao relento a tempestade levá-lo-á. E as suas fundações permanecem. Precisamos da democracia? Sim. Como protecção e conclusão (até haver outra) de um processo. Mas sem ilusões de que o tecto substitua as fundações.
 
 
Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

 

 

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terça-feira, 3 de Junho de 2014

Pensar fora da caixa

 
O partido Comunista era conhecido por ter a célebre «cassete». De tanto ser criticado por isso, hoje em dia aprendeu, e é dos partidos com menos «cassete». A questão é que há outros muito menos sindicados no seu discurso. Um dos exemplos é o dos gestores. Os seus lugares comuns, os seus tiques, surgem impunes no espaço público.
Dedico-me hoje a um: temos de pensar «fora da caixa», «out of the box», de acordo com a expressão americana original. Cacemos mais este lugar-comum, sobre o qual apenas há três coisas a dizer.
Em primeiro lugar, não deixa de ser curioso que mais uma vez esta, que se diz uma ciência, careça de um enunciado normativo. Devemos pensar fora da caixa. Devemos? Em nome de quem? Que lógica modal no-lo impõe? Que ciência é esta da qual não saem asserções escoradas, mas apenas preceitos?
Em segundo lugar, todos temos de pensar fora da caixa. Todos? Que vontade de uniformização, que espírito de manada... Todos, todos sem excepções temos de pensar fora da dita, ou pelo menos de achar que essa é a forma de pensar por excelência.
Em terceiro lugar, que metáfora é esta a de pensar fora da caixa? Que visão do homem carreia? Vejamos: quem diz que é preciso pensar fora da caixa é porque vive nela. Para ele, pensar fora da caixa é exercício titânico, contradição com a sua própria natureza. Colocado em bicos dos pés, espreita por fora da caixa e sente nisso acto heróico. No fundo, no fundo, admitamo-lo: É que vive na caixa, sempre viveu nela.
Fruto de uma ciência que o não é, regida pela tradução literal, uniformizadora da vida humana e destinada a pessoas que se vêem presas a uma jaula, o preceito é simpático, por vezes mesmo bem-intencionado. Quem vive numa caixa que o cumpra.
 
Alexandre Brandão da Veiga
 
 

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terça-feira, 20 de Maio de 2014

Józef Maria Bocheński


 
Na História da lógica que me lembre tive dois conjuntos de mestres: o casal Kneale e Bocheński. Confesso que sempre achei misterioso o que leva apesar de tudo tanta gente a estudar lógica. Poucas actividades dão tão pouco prestígio, realizações práticas imediatas ou visões mais ou menos directas do mundo. Um físico, mal ou bem, pode aspirar a um grau de notoriedade muito maior, maior respeito público, e pode arrogar-se de descrever mais ou menos bem a realidade.

Um lógico hoje em dia está destituído da ideia de que estabelece as leis do pensamento (a própria lógica reusou a tarefa e as neurociências ocupam-se dela com gosto), o que descreve parece ser coisa nenhuma, e ao mesmo tempo passa pelo exemplo máximo do inútil. É evidente que bem sabemos que não é assim. Se posso estar a escrever à frente de um computador é graças à formalização de linguagens que começou na lógica. Mais útil não pode ser.

Mas como o argumento da utilidade só é essencial numa época de caixeiros-viajantes que não conhece mais nada, não me parece, nem o mais importante, nem o mais decisivo. A lógica é uma actividade de uma imensa beleza, em que se atingem algumas das mais potentes capacidades de concentração e pensamento humanos. Para quem não tem preconceitos contra a metafisica, como é o meu caso, é importante salientar que não tem igualmente preconceitos contra a lógica. Uma não vive sem a outra e vice-versa.


Entre as duas Guerras havia dois lugares onde estar para quem queria fazer lógica. Ou a Áustria, ou a Polónia. Na Áustria Carnap, Schlick, Gödel, Neurath. Na Polonia Kazimierz Twardowski, Tadeusz Kotarbiński, Kazimierz Ajdukiewicz, Jan Łukasiewicz e o não menos relevante Alfred Tarski a quem se deve grande parte dos estudos americanos na lógica, por ter formado a escola de Berkeley. Se os Estados Unidos têm estudos de lógica, isso deve-se a estas duas nacionalidades, expulsas pelo suicídio europeu da II Guerra.

Dois países aparentemente pequenos, mas que podem ser os mais adiantados do mundo, não no que hoje em dia se chama nicho de mercado, mas antes ninho fecundante de toda a cultura, ciência e tecnologia dos anos futuros.

Por isso é um prazer ouvir Bocheński. Além de me trazer memórias da juventude, é das raras pessoas que deixa adivinhar a sua (por vezes trágica) experiência, que filtra com uma alegre racionalidade. Uma sólida razão que sorri. Que variante em relação a mal dispostos, profissionais da indignação como sucedânea das ideias.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

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quinta-feira, 8 de Maio de 2014

O «editing»


Está agora na moda uma figura bárbara entre os editores: o «editing». O simples facto de não haver uma palavra portuguesa que se lhe adeqúe diz mais do que parece. A sua tradução poderia ser «melhoramento» (em nome de que critérios?), ou «censura prévia».

O «editing» é de origem anglo-americana e não lhe fica mal que o seja. O problema é que mais uma vez em Portugal se importa por metade. Como nos livros de gestão são lidos os capítulos em que se pretende aumentar a eficiência e a produtividade dos trabalhadores, esquecendo-se a parte em que estes têm de ser efectivamente motivados, respeitados, da mesma forma se importou esta prática esquecendo o contexto em que faz sentido.

Nos seus países de origem, o «editing» tem a ver com a concepção do mercado livreiro como um mercado - nem mais nem menos - e o livro como um produto. É em muitos aspectos empobrecedor, mas ao menos tem uma coerência sistemática. É que, ao lado do «editing», está uma perspectiva clara de mercado, e verdadeiros mecanismos de promoção dos autores. Ao lado do «editor» existe um «agent», alguém que representa o autor e o faz comunicar com os centros de produção e distribuição livreiros.

O livro como produto é pensado de montante a jusante como um bem a escoar num mercado. Em parte triste visão, mas ao menos coerente. Mas, quando vemos a ineficácia da edição portuguesa na escolha de livros, autores e traduções, e as tentativas por vezes bem intencionadas, mas raramente eficientes elas mesmas, de os divulgar, percebemos que o «editing» em Portugal tem uma função bem diversa. Não é o «aperfeiçoamento» de um produto realizado na cadeia que vai do autor passando pelo agente, o «editor» e o «publisher», mas algo inorgânico, metido no meio da engrenagem, sem função bem definida.

O «editing» fica pois reduzido a ser um mero exercício de poder. O autor, já esmagado pelo pagamento de percentagens autorais ridículas (sendo o único autor da obra seria de esperar que a maioria do preço do livro lhe fosse dirigido, mas na prática é absorvido pela distribuição), vê-se assim nas mãos de uma criatura que corta, manda acrescentar, modificar, polir.

Perguntemo-nos: com que autoridade? Um «editor», se sabe tanto como fazer livros, porque não os faz ele mesmo? Especialista do mercado, podemos admitir, só se legitimará caso seja um eficiente profissional de mercado, que consegue fazer chegar o livro ao mesmo. Mas, ainda assim, há que perguntar: Se o livro for tratado como um mero produto comercial, no fim de contas ganharemos todos?

Não sejamos lamechas. Grande parte dos livros serão na melhor das hipóteses produtos comerciais. O melhor que podem almejar é vender bem. Nada mais. E não é pecaminoso. Nos países do continente europeu existe por vezes uma pudibundice exagerada em relação à sacralidade do livro e da leitura que se manifesta como mais um aspecto de uma religião sucedânea. A sacralidade da cultura esconde frequentemente uma mera desculpa para se esquecer de pensar o sagrado. Que haja livros que sejam bons produtos comerciais não me parece de escandalizar. É positivo que assim seja. Dão prazer às pessoas. E antes um livro que dê prazer às pessoas que o que apenas as enjoa sem lhes dar nada em troca.

Da mesma forma a sacralização da leitura, tendo em conta que a maioria são maus livros, esquece que a leitura tende a estragar o bom senso a quem não tem capacidade de a digerir. São demasiadas as vezes que vemos pessoas com o juízo fragmentado por informação que não são capazes de processar, e atirando-se como náufragos a conceitos que se lhes escapam das mãos. Da mesma forma, respeitar um livro só porque o é apenas mostra que não se tem critério.

Dito isto, também não faz sentido cair no extremo oposto. A produção e distribuição livreira escondem várias realidades, da mesma forma que um restaurante pode ser uma mera cadeia industrial ou centro de genuína criação gastronómica. Do mesmo modo, tratar o livro apenas como um produto comercial, sempre e apenas, tem como efeito pernicioso serem escolhidos os medianos, os nem tão maus que sejam expulsos, nem os tão bons que sejam incompreendidos.

Sob a palavra «mercado» escondem-se muitas realidades diversas, é certo. Os mecanismos do luxo são bem diversos do mercado do pão para os pobres. Mas, de uma forma ou de outra, as suas regras comuns exigem alguma uniformização para que o produto seja facilmente compreendido pelos potenciais clientes.

Da mesma forma, haver uma criatura supostamente especialista do mercado, que «conhece» o que o mercado «quer» pressupõe que o que o mercado «quer» é bem conhecido, e que o mercado pode querer além do que conhece ou pode congeminar.

Mas estes são vícios gerais da figura do «editing» nos mercados onde ao menos tem coerência e se integra numa efectiva cadeia de produção. Já seriam vícios bastantes. Bem mais grave são as suas desvantagens quando se aplicam num contexto em que esse mercado não é tão evidente. Nesse caso, o «editing» torna-se um mero exercício de poder, um apagamento de autoria. Apenas nos dá vontade de dizer: «queres melhorar? Faz tu o livro se fores capaz». Nem legitimado como o crítico competente, nem dotado como o autor, o «editor» vive de imperar sobre obra alheia e, não tendo o poder de fazer própria, fazer da sua impotência lugar do seu poder. Parasita da obra alheia resta-lhe apenas um poder nu, a capacidade de meter a mão em seara alheia, que o faz sentir criador, precisamente – de segunda mão. A mão invisível do mercado revela mais uma vez que o seu segredo é de pouca monta. De adjuvante passa a carteirista da obra alheia.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Que modelo de homem gera a urbe?

Quando as crianças aprendem algo sobre a urbanização, e se falo de crianças é porque é esse o estalão cultural do actual homem público, aprendem coisas muito simples. Antes o homem vivia no campo e depois passou a viver na cidade. Ficou mais culto, largou o campo e assim acabou a História. Como neste momento pretendo falar entre adultos, temo bem que tenhamos de pôr alguma complexidade na coisa.

O homem que faz a cidade, e não apenas o que nela vive, é sempre um homem duplamente ancorado. Na cidade e na terra. E liga-se à terra de uma dupla ou mesmo tripla forma: na cidade pelo jardim, nos seus limites pela horta limítrofe, longe dela pelo campo, seja ele o latifundium, a propriedade na Ática, o solar, o feudo ou a quinta. Este aspecto é fundamental para se perceber o que é o homem urbanizado no seu sentido nobre. É o que acrescentou algo à sua vida e não apenas substituiu. A sua vida enriqueceu-se por uma dupla experiência, não resulta de uma mera translação.

Este homem duplamente ancorado conhece os ciclos da natureza e as variações da cidade, a dureza do campo bem como as suas delícias, e a agressão da cidade bem como os seus prazeres. Tende a ser realista, maduro, curioso, capaz do confronto, da comparação. É adulto em suma. A lista é infinda destes seres duplamente ancorados. De Séneca a Montaigne, de Madame de Sévignée a Bismarck, de Churchill a de Gaulle, de Plínio a Henri IV.

O que hoje em dia constitui o homem da cidade, de onde se vão recrutar os homens públicos, é de uma espécie bem diversa. É um transmigrado. Nem criador da cidade, que apenas herdou para seu usufruto, nem ligado ao campo, porque os seus antepassados foram dele escorraçados sobretudo por razões económicas. É deste homem que decide em política hoje em dia que temos de curar.

Em primeiro lugar é um homem que vive num mundo mágico, quando se julga racional. Aliás a racionalidade é apenas mais um dos seus mitos. Quantos deles conhecem os princípios de funcionamento de um telemóvel, de um computador, de um carro? Quantos deles conhecem os mecanismos patológicos ou a teoria das áreas monetárias óptimas? Fruem de um mundo cuja complexidade não apenas ignoram mas da qual nem sequer desconfiam.

Em segundo lugar, vive numa total dependência do colectivo quando se julga individualista. Outro dos seus mitos. “Nós hoje sabemos... antes não se sabia”. Esse o seu moto. É que compensa a sua total ignorância do mundo que o rodeia com o facto de o mundo que colectivamente o rodeia já o saber. É um homem demitido, que se demite da sua função de conhecer porque alguém o faz por ele. Dependente pelo conhecimento, é-o igualmente para a sua sobrevivência. Para que possa viver em agregados cada vez maiores, imensas torres de Babel cujo funcionamento global já ninguém pode perceber, depende de estruturas sanitárias, de comunicação, de alimentação, de circulação de bens que lhe escapam totalmente. Mais uma vez o espírito mágico, primitivo entra pela sua vida. O frango aparece já preparado no supermercado, o medicamento em drageias, o serviço bancário na Internet. O mundo não é algo que lhe aparece, é algo que lhe cai em cima. Deixou de ser um caído para passar a ser alvo de quedas.

Vive no medo quando se julga feliz. Desconhecendo e sendo dependente de um colectivo, flutuando em mediações cujos mecanismos desconhece, acaba por ter medo de tudo. Do SIDA, da gripe das aves, da mudança climática, dos terrorismos. Todos esses problemas comungam de uma mesma natureza. São interrupções de uma vida permanentemente bem regulada. Deixando a vida de ser assumida como problema e como tragédia no seu todo, qualquer irrupção da vida no seu quotidiano é considerado como problema e como tragédia. O problema deixa de ser vida para ser apenas interrupção. Nisso os terroristas, que desprezam os europeus, bem perceberam sem serem teóricos, a fragilidade das sociedades europeias. E como estas não se podem no estado actual arvorar-se em paradigmas. Instilam o medo, porque sabem que o medo surge facilmente. Basta pôr em causa o quotidiano. Se bem se reparar é nessa base que trabalha o terrorismo. Na contestação do quotidiano. Andar de avião, de metro, de comboio passa a ser aventura, a poder ser tragédia. Tem medo da velhice, da morte, da decadência, de engordar, de ser infeliz no amor. Sentindo falsamente que a sobrevivência está garantida, dissipa-se no luxo, enfada-se. E enfada os outros.

É um homem infantilizado. Acha que acabar com o SIDA e apenas uma questão de pôr mais dinheiro para a investigação, porque ignora quais os mecanismos da investigação. Não estudou nada sobre investigação científica, a palavra topologia cheira-lhe a uma marca de design, mas tem tudo a dizer sobre a inutilidade de experiências sobre os animais. Olha com condescendência os seus antepassados camponeses, mas acredita na força mítica do Direito Internacional, na vontade de paz dos povos e em que, caso todos os povos tenham o seu paradigma de vida, tudo ficará bem no mundo. No fundo nem lhe passa pela cabeça que assim como é invejado pelo seu nível de vida é desprezado pela sua falta de noção de aventura, ou seja de vida.

É um idólatra do desconhecido. Sendo acima de tudo desconhecedor, é idólatra de quase tudo. Das outras culturas, porque presume conhecer a sua, o que está longe de ser verdade. Da natureza, porque foi dela desenraizado e esquece que o SIDA, as epidemias, as tempestades, os furacões, são igualmente natureza. Como todos os idólatras, julga que a melhor forma de se entregar ao ídolo é amando-o, mesmo que este lhe faça mal.

O verdadeiro homem urbano é o homem duplamente ancorado: no campo e na cidade. O actual homem urbanizado só por generosidade pode ser assim chamado. Em boa verdade não é de urbanização geral que falamos. O que caracteriza a nossa época é uma suburbanização geral. À roda do mundo não se estão a gerar grandes cidades, geradoras de acção política específica, de criação cultural profunda e de actuação sentimental inovatória. O que se está a criar no mundo é um imenso enxame de subúrbios, cidades que são em si mesmo subúrbios, mais que sem centro físico, sem centro espiritual. Do homem duplamente ancorado passamos aos poucos para o homem sem âncora. De duplamente achado, para duplamente perdido. Sem ligação ao campo e sem real ligação à cidade.

Que consequências traz este fenómeno para o espaço público? Em que interessa esta análise para a compreensão da política, e do discurso político actuais? É que o paradigma do suburbano é o comentador desportivo. A criticar tem visibilidade, não por ser marcante como pessoa, mas porque é popular o objecto sobre que se debruça, e porque os rituais consagram a sua viabilidade. É um homem ancorado apenas à sua existência visível. Dedica-se a temas cuja compreensão é elementar e deles faz aparato de arcana sabedoria. Mas o paradigma é o do comentador desportivo também porque na sua maioria discursa sobre um objecto para o qual lhe falta configuração atlética para agir. Muita da classe política hoje em dia sendo barriguda, diz-se desportista. Julgando-se homens de acção, reduzem-se a ser espectadores e a comentar, como se fosse seu papel dissertar, e como se a sua verve claudicante fosse o estalão do próprio agir.

O homem da suburbe não possui conhecendo mas comprando. Compra bilhetes de avião, mesmo que não tenha ouvido falar de Bernoulli. Porque voa o avião irreleva-lhes, quando deveria saber que a pergunta sobre as causas é o que lhe permite andar de avião. Sendo a sua forma de posse a mera compra, em pura magia de contacto, acha que atirar dinheiro resolve os problemas do mundo. Julga que pode comprar a paz. O bárbaro não tem de ser disciplinado, mas apenas comprado. O seu instrumento é o contrato e não a ordem, mesmo que o contrato tenha de ser indigno e a negociação aviltante.

A decisão política fica assim vertida em mero comentário de banalidades. O político faz de conta que declara, quando deveria ser sua função determinar. Abre-se ao diálogo e pede desculpa por decidir. A decisão é amolecida por uma retórica de doçura, de tolerância, que é apenas defesa para a sua falta de escoramento. Quem não tem de onde venha não tem para onde ir. O homem urbano tem mais de um ponto de vista. O suburbano na política, está apenas de passagem. Não tem pontos de vista: apenas vê de relance.


Alexandre Brandão da Veiga
 

 

 

 

 

 

 

 

 

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segunda-feira, 7 de Abril de 2014

Kagame e a França

Declaração de interesses: como muita gente, tenho antipatia natural pelos franceses. Sentem-se os melhores do mundo e, no entanto, a arte é mais requintada em Itália, a comida ainda melhor na Bélgica, a música e a filosofia, na Alemanha e a história imperial mais grandiosa em Portugal, em Espanha ou em Inglaterra. A alegria sente-se melhor em Itália ou em Espanha e o humor é mais refinado no outro lado da Mancha. A religião é complexada ou levrevriana. O laicismo tricolor e a Lei da Separação do início do século XX assim a condicionam. Para arrematar, só os franceses muito civilizados serão civilizados. A França sempre teve pretensões que não alcançou. As suas ideias ganharam prática no terror de oitocentos. E a grandeza territorial foi contrariada na Europa de novecentos como em Vichy, na Indochina ou em África onde chegou com apetência tardia. Importa lembrar a cultura enorme, a língua bela, o requinte da moda do urbanismo ou a paisagem organizada.
Digo tudo isto porque considero infames as acusações do Presidente Kagame (que nome) sobre «o envolvimente directo» da França no genocídio do Ruanda, há 20 anos.  

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terça-feira, 1 de Abril de 2014

Adolfo Suarez

Adolfo Suarez conseguiu ter visão estratégica e coragem tática. Foi capaz de servir Espanha na continuidade de Franco e na ruptura democrática. Soube integrar a Falange e autorizar o Partido Comunista. Manteve-se direito no lugar de deputado sob as armas e os gritos dos golpistas de 1981: «Al suelo! Todo el mundo al suelo!». Respeitou o Rei em funções e quando demitido do Governo. Era bonito e não parecia vaidoso. Foi Duque por mérito. Podia sê-lo por natureza. Pertence ao melhor no imaginário da política e à melhor realidade do século XX, na Península Ibérica.


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sábado, 29 de Março de 2014

Sol na eira e chuva no nabal


A frase que marca a entrevista de ontem Durão Barroso é «quando se fizer a história desse período», a propósito das ajudas silenciosas que o Presidente da Comissão Europeia terá dado a Portugal nos últimos dez anos. E adiantou que os Primeiros-Ministros José Sócrates e Passos Coelho e o Presidente da República «estão muito reconhecidos» com essa prestação.

A necessidade de Durão Barroso se mostrar generoso com o seu País é um imperativo que outros portugueses não têm. A decisão de abandonar o País num momento de fragilidade política do Governo (decidiu no exacto dia em que perdeu estrondosamente as Europeias 13/06/04) por um projecto pessoal desafiante; e a possibilidade de se manter politicamente vivo no seu País, levam-no a um exercício continuado de «refazer a história desse período».

Uma vez mais, deixa-se guiar pelo ego tripp. Não censuro quem tenha uma visão carreirista da vida. Como escreveu Filomena Mónica, num estudo de 1994, sobre a situação social em Portugal, «desde os anos 60 que a ambição deixou de ser um pecado». Mas a roupagem patriótica dos argumentos de Barroso representa «o manto diáfano da fantasia» sobre a «nudez crua da verdade».

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sexta-feira, 21 de Março de 2014

Ucrânia, Rússia e Crimeia III


Mas revela outro aspecto de muito mais longo fôlego. No fundo, a Europa nunca ultrapassou a divisão de Bizâncio. Enquanto a Rússia insistentemente desde Gorbatchev fala da Casa Comum Europeia, e mesmo Putin originariamente tentou aproximações à Europa, os bem pensantes de esquerda e de direita, liberais, alternativos e quejandos (comem todos da mesma gamela, as suas categorias são as mesmas, alimentados por uma superficial cultura americana da esquerda à direita) continuam a opor-se a um Bizâncio que não sabem ver como tal. São apenas reaccionários sem o saber, ignorantes sem o admitir. Repetem as mesmas alergias de séculos. Quem não sabe História está condenado a repeti-la, dizia o velho Santayana, completamente intranscendente em metafísica, mas sensato em algumas coisas que disse em História. E pior ainda, a viver no enfado e gerá-lo nos outros.

No fundo, o dito Ocidente padece do preconceito típico do pós-modernismo: eu tenho sempre razão, precisamente porque nego a natureza absoluta da razão. A Rússia não a tem toda, mas o dito Ocidente ainda menos. A crise é bem mais grave do que parece, mas não pela vontade de a levar às últimas consequências. A Europa e os Estados Unidos precisam da Rússia tanto quanto esta precisa da Europa (um pouco menos dos Estados Unidos). Em questões como as do Irão, da Coreia do Norte, da Síria, mas também, muito menos falados, da Ásia Central e das relações com a China, a Rússia é insubstituível. O espectáculo da indignação ficta, tão característico dos pequeno-burgueses, vai continuar. Vamos todos fazer o papel que estamos muito indignados, mas depois a Rússia vai levar a sua melhor. A questão é que entretanto já a ofendemos mais uma vez, já a destratámos, já a afastámos mais um pouco.

Qual o maior pecado da Rússia? O de que querer ser independente, efectivamente independente dos Estados Unidos, e da ordem mole que estes pretendem impor. Não vejo santos de um lado nem do outro. Mas tenho muita vergonha de viver numa época em que a Europa, sem grande dignidade, acata docilmente a instrução americana e se esquece do seu maior parceiro, daquele que é o maior país europeu. Mais uma vez, e em nome da modernidade, um tique velho de mais de mil anos persegue a Europa. Perseguir Bizâncio sem perceber que sem este ela é incompleta.

 

Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 20 de Março de 2014

Ucrânia, Rússia e Crimeia II


Vamos pois à Rússia. Como é o mundo visto pela Rússia? Coloquemo-nos na sua posição. Imagine-se o que seria um Portugal em que todos os países até França ficaram sob domínio russo. E agora há movimentos para que Espanha esteja também sob domínio russo. Sentir-se-iam confortáveis os portugueses? Guardadas as devidas proporções (a Rússia tem fronteiras e possibilidades de encontro bem mais vastos que Portugal) é essa a posição da Rússia. As suas zonas de influência uma por uma foram absorvidas pela pata americana. Não interessa agora saber quem são os bons ou os maus, mas visto da Rússia, há um estreitamento, e mesmo um estrangulamento, das suas fronteiras que é perigoso e que têm toda a razão de sentir como uma ameaça.

Junte-se a isto uma política militar agressiva que começa com Clinton e continua com Bush filho. A diferença entre um e outro é muito menor do que se julga. Acrescente-se um país que vive humilhado pelo facto de o seu sucesso se basear sobretudo em matérias-primas, quando se trata de uma imensa cultura, rica, profunda e sofisticada.

Acrescente-se a esta receita o facto de a Rússia não ter passado pela versão triste da modernidade que é o pós-modernismo. A Rússia vive ainda os primeiros modernismos, ou seja, sem arrependimento permanente, sem pedidos de desculpa, sem a aceitação de toda e qualquer aldrabice só porque existe. Na Rússia ainda se sabe pintar, não se toca música apenas de ouvido, as matemáticas tem de ser efectivamente estudadas. Não é pós-moderna porque, apesar de a obsessão de poder americana não ser inferior à Rússia, os russos não estão preocupados com o embrulho dourado feito de direitos do homem, liberdade e quejandos. A Rússia em acréscimo despreza a Europa, e com as suas razões, porque esta é submissa aos Estados Unidos ao ponto de aceitar como país europeu o que mais não é que um país asiático, a Turquia. Ri-se com gosto e não sem malicia do grau de sujeição em que estão os europeus, sem vontade, sem necessidade de espaço próprio de actuação.

A Rússia não tem vergonha de ter poder, e precisa de poder. É uma imensa barreira contra a Ásia (nisto estou bem acompanhado, Eça de Queiroz achava o mesmo). os seus vizinhos não são brincadeira. Entre os turco-mongóis e os chineses está rodeada de povos pouco sensíveis (é o mínimo que se pode dizer) aos direitos do homem e ao delicodoce convívio civilizado à europeia. Os asiáticos usam o poder e a crueldade sem pejo, nem problemas de consciência, e nem no segredo dos seus quartos têm de rezar a um Deus que lhes pede contas dos seus sucessos. Apenas dos seus fracassos. A Rússia presta-nos o serviço sujo do guarda, para que os ditos ocidentais possam dormir descansados nas suas consciências.

 E como não se bastara, há a maior falha da política europeia dos últimos 25 anos. O muro de Berlim caiu para os dois lados, não me canso de o dizer. E a Europa, em vez de perceber que o seu maior desafio era do a integração da Rússia, em vez de fazer um plano Marshall para a Rússia, deixou-a embebedar-se, apodrecer, decair durante os anos 90. Humilhar um povo é injusto, humilhar um grande povo é além do mais perigoso.

O que temos como resultado é um grande festival de sanções pelos países ocidentais, mas mais de fachada que outra coisa. A Rússia gerando 18 milhões de turistas por ano para a Europa, sendo um forte de mercado de importação de produtos europeus, e de exportação de energia, sendo estrategicamente central para a estabilização da Ásia Central e do Cáucaso e barragem natural da Europa contra a Ásia, não vai ser fortemente hostilizada. Sanções de fachada e pouco mais.

O problema é que esta fachada gera mais e mais feridas na relação entre a Rússia e a Europa. A Rússia é o maior país europeu, para a Europa é central, para os Estados Unidos não.

O problema é o que todo este processo revela da mentalidade europeia. Da Rússia diz-se sempre que o copo está meio vazio, da Turquia meio cheio. Cada pequenina conquista democrática na Turquia é vista com imensa alegria, os recuos são entendidos como percalços naturais num percurso complexo. Porquê? Porque, no fundo, todos sabem que não é um país europeu, e se não exige tanto deles. Quanto à Rússia a exigência é a que se tem em relação a qualquer país europeu e por isso a crítica é bem mais forte. A mentira tem perna curta, e quanto mais se critica a Rússia mais se tem de reconhecer que não se tem outro remédio senão confessar que é um país europeu.

 

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quarta-feira, 19 de Março de 2014

Ucrânia, Rússia e Crimeia I


E eis que a Europa se depara com uma nova crise da Crimeia cento e cinquenta anos depois da que deu fama a Florence Nightingale (não sem ironia de Disraeli) e à Cruz Vermelha, se não estou enganado.

Comecemos pela Crimeia. Sempre foi território russo e um ditador ofereceu-o como prenda à Ucrânia. O que pretende a Europa? Fazer respeitar a vontade caprichosa de um Nikita Krutschov. Creio que em 1991 Ieltsin teve a hipótese de ficar com a Crimeia, que lhe foi oferecida de mão beijada pelo presidente ucraniano da altura, mas Ieltsin com a sua visão de longo prazo, ou melhor de fundo de garrafa, não deu muita importância à coisa. Teria sido bem mais simples para todos nós caso Ieltsin tivesse tido sentido estratégico. Não é obra do acaso que não seja respeitado nem por russos nem pelo ditos ocidentais, e apenas tenha despertado alguma simpatia nestes últimos por algum desprezo.

O que pretendem os ocidentais ao exigir que a Crimeia permaneça ucraniana? Em primeiro lugar, sem dúvida, uma preocupação com um princípio de inércia das fronteiras. Embora tenham sido os mesmos ocidentais a apoiar entusiasticamente referendos (no Kosovo, no Sudão do Sul) neste caso a vontade popular já tem menos importância. Mas, bem além disto, comprazem-se no enfraquecimento da Rússia. Desde os anos 90 a falta de respeito pela Rússia tem-se manifestado pelo apoio americano à Turquia para esta se tornar numa influência junto da Ásia Central (tentativa largamente falhada, porque a Turquia nada tinha a oferecer à Ásia Central, salvo imãs e reconstrução de mesquitas) e separar a Ásia Central da esfera de influência russa. Benemerência? Não. Porque os americanos não queriam mais autonomia para a Ásia Central. Apenas queriam substituir a influência russa... pela americana. E tudo isto sob o discurso de que se convidou generosamente a Rússia a ser uma espécie de mega Suíça da Eurásia.

No meio disto, fica o problema ucraniano. Ao contrário dos propagandistas sobre a modernidade, os problemas têm sempre raízes bem fundas e a religião tem um papel definidor ainda hoje em dia. A Ucrânia foi desde há muitos séculos zona de fronteira entre o catolicismo e a ortodoxia. No século XV, no concílio de Ferrara-Florença há união com Roma por parte do arcebispo de Kiev, Nikon (refiro estes factos de cor, são forçosamente aproximativos) e no século XVI com o trabalho do polaco Piotr Skarga volta a haver união com Roma.

O facto de haver mais de uma união com Roma mostra até que ponto esta sempre foi relativamente frágil. Conquistando a Rússia a pequena Rússia, os uniatas tiveram sempre uma vida pouco fácil. Mas a verdade é que a Ucrânia foi sempre região de fronteira dentro da Europa, como o era a Jugoslávia.

Sob o ponto de vista simbólico a Ucrânia tem ainda um significado especial, tanto para a Rússia como para a Polónia Lituânia. Kiev foi o centro de nascimento da Rússia, onde reinaram os Rurikides. O célebre Ivan, o Terrível, era descendente desta dinastia, que tinha sido, antes de ser senhora de Moscovo, soberana de Kiev. (Para quem ache que Portugal nada tem a ver com isto lembro que o D. Afonso Henriques era primo em 10º grau do seu contemporâneo grão duque de Kiev Vsevolod III, antepassado de Ivan, o Terrível, por via do sangue Mamikonian, imperadores de Bizâncio – na Idade dita Média eram mais conhecedores dos laços que ligavam os vários países europeus que hoje em dia) É de Kiev que vem a «Rhos» obra de escandinavos nas planícies russas. Mas igualmente simbólica para a Polónia-Lituânia que governou a Ucrânia até ao século XVI, salvo erro. Não podemos olhar para a Europa como se fosse apenas a Europa ocidental e dentro desta apenas duzentos anos da sua História. Os Europeus de Leste têm mais vívida a sua História, porque ela os invadiu até muito recentemente. As fronteiras são novas e sempre semoventes.

 

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terça-feira, 18 de Março de 2014

Medeiros Ferreira


Morreu o meu amigo mais improvável. José Medeiros Ferreira era de outra geração, de outro lugar político, de um tempo em que o poder que não se confundia com o jornalismo. Não tinhamos rigorosamente ninguém em comum. Até a sua Mulher, Maria Emília, conheci por outros motivos.
Almoçávamos e conversávamos sobre Portugal. Acho que não o faço com mais ninguém. Isto para dizer que José Medeiros Ferreira percorria caminhos inesperados. Açoreano de S. Miguel, impôs-se contra o anterior Regime. Irmão de militares, formou-se em História, em Genéve longe do controlo da «longa noite». Foi Ministro logo que o 1º Governo livre foi também Constitucional. Portugal deve-lhe o pedido de adesão à CEE numa época em que o PS se exibia com punho fechado, defendia o marxismo e a estatização da economia. Um ano depois, José Medeiros Ferreira formava com António Barreto e Sousa Tavares o grupo dos Reformadores juntando-se a Sá Carneiro na AD.
Tinha coragem para romper, sendo coerente. Conseguia ser aberto e firme; falar com profundidade e ter sentido de humor; ser elaborado na argumentação e linear no verbo. O gosto pela História e a sua perspicácia faziam-no ver para além do tempo e do barulho. O PS diz agora que José Medeiros Ferreira era uma personalidade ímpar e luminosa. Tem uma razão tardia. Depois de 1978, nunca mais o aproveitou nos 16 anos que esteve no Governo. José Medeiros Ferreira faz falta a Portugal. Faz-me falta. 

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sexta-feira, 14 de Março de 2014

Exijo declaração de consciências

Acaba de ser recusada a coadopção por homosexuais. Esta questão civilizacional não estava prevista nos programas da maioria. No entanto, foi admitida para votação com liberdade de voto. O que constitui uma forma apurada de tirania, engano e de falta de virtude democrática. Nenhuma consciência representa a minha, a não ser que esteja mandatada para tal. Se é para cada um decidir por si sobre as questões de consciência não inscritas nos programas eleitorais, antes das eleições, isso obriga os deputados a fazerem uma declaração de interesses para que não estejamos a eleger um programa escondido. Na próxima campanha às Legislativas exigirei conhecer as consciências de quem estou a eleger.

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quinta-feira, 13 de Março de 2014

O Bispo e eu

Fiz uma descoberta tardia deste Bispo de Lisboa com quem tantas vezes falei. Parecia apenas racional, inteligente, institucional. Diria que a sua evangelização passava só pelo cérebro. Entrevistei-o várias vezes. Uma delas, longamente, no dia em que o Cardeal Ribeiro morreu. Estava normalíssimo. Mostrava a frieza do pastor que herda um rebanho que conhece, com a naturalidade dos que ficam mais tempo vivos, antes do encontro na Eternidade. Olhava-o como Bispo mas creio que nunca me viu como crente. Não tinha uma interacção pessoal comigo. Nos jornais ou na Câmara de Lisboa, trocámos apenas assuntos, o que, para mim, representava um desencontro. Em absoluto contraste, tinha sentido de humor, fumava, falava sem rodeios, com simplicidade e profundidade.
Procurei o pastor nos seus textos e nas homilias que D. José escrevia primorosamente. Era outra pessoa. Calorosa. Transmissora do Amor de Deus. Conhecedora das fragilidades humanas. Esperançada na resposta de cada um ao desafio da Vida, em Cristo. A última homilia que lhe ouvi, há semanas, na igreja do Colégio do Bom Sucesso, foi um sinal partilhado da intimidade de Deus. Comovente. Senti-me inábil por não o ter descoberto mais cedo. Mas Ele sempre esteve lá. E revelou-Se em tempo útil.       

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terça-feira, 11 de Março de 2014

O seu a seu dono

Sempre me disseram que o terreno entre a sede da Polícia Judíciária e o Liceu Camões, em Lisboa, foi doado pela Rainha D. Amélia para a construção de uma Escola Superior de Medicina Veterinária, que o País carecia. Essa escola existiu, formou múltiplas gerações até que alguém, quem?, decidiu demoli-la para ali ampliar as instalações da PJ, hoje inauguradas com pompa.
Não discuto as necessidades logísticas do combate ao crime. Nem vejo como indispensável que se estudem os animais no centro da cidade. Mas o objectivo da doação foi alterado e, pelo contrato, o terreno deve voltar aos seus proprietários.

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segunda-feira, 10 de Março de 2014

Grandes Guerras




A morte de um príncipe afectou o orgulho da potência de Viena perante o terrorismo ultranacionalista sérvio. Rússia apoiou o seu satélite, como hoje. A Alemanha veio em ajuda ao aliado austríaco chamando a França a cumprir o Tratado com a Rússia e, por sua vez, a Inglaterra a honrar o compromisso de auxílio ao Governo de Paris. Há 100 anos, como hoje, amontoam-se as cartas. Basta um sopro para fazer cair o castelo da paz europeia.

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terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

O vegetarianismo


Não me lembro da primeira vez que tive contacto com o vegetarianismo. Vagas recordações de infância, algumas referências esparsas. Talvez o primeiro contacto tenha sido com o irmão mais velho de um amigo meu, que se tinha convertido ao vegetarismo. Conversão era a palavra certa, porque pretendia mudar toda a sua vida, embora não tenha mudado alguma da sua agressividade natural. Talvez fosse mais paliativo que tendência.

Já via argumentos agastados de um lado e de outro da discussão. Talvez por isso seja melhor salientar alguns aspectos. Como em todas as áreas, mais importante que a convicção que cada um tem, é o de saber se é honesta, profunda, se é efectivamente própria, e não algo postiço que se tem para mostrar aos outros. Ao longo da minha vida alguns vegetarianos provocavam a minha repulsa porque eram presunçosos, achavam-se superiores aos outros, proselitistas assanhados. O problema não era o de serem vegetarianos, mas o de tudo o resto que eram. De igual forma, respeito profundamente a coerência dos vegetarianos que, não suportando ver o sofrimento animal, não se alimentam deles. Uma artista francesa há uns tempos atrás dizia com alguma graça que não comia nada «que possa olhar para mim».

Sejamos mais precisos. Nunca fui capaz de caçar, apesar de ter família que caça. Da mesma forma nunca condenei a caça. Nunca tive grande paixão por touradas, mas isso não me impediu de respeitar quem delas gosta. Tolerância não é tolerar o que se gosta, mas o que não se gosta. Respeitar o facto de os outros serem efectivamente diferentes e serem legítimos na vivência dessa diversidade. Em boa verdade respeitei particularmente os forcados, por se atirem mãos nuas a um touro... Mas não desenvolvo esse tema, que mereceria por si mesmo outra atenção.

A questão é que existem muitas motivações para se ser vegetariano. Sejam higiénicas seja éticas. Como disse, respeito-lhes a coerência, mas esta apenas nasce ao custo de novas fragilidades e incoerências.

Em primeiro lugar, somos todos omnívoros. Em todas as culturas e civilizações os homens são omnívoros. Comendo mais carne numa ou mais vegetais noutras, variando a dieta consoante a classe social, não existe cultura em que o ser humano não seja omnívoro. Talvez isso diga algo sobre a nossa condição animal. Não se pode aqui culpar a civilização judaico-cristã, as religiões do livro ou outros lugares comuns dos jornalistas.

Em segundo lugar, é inevitável matar animais. Quando andamos na rua pisamos animais pequenos. Mesmo o simples facto de respirarmos, ou por outra forma atirarmos para dentro do nosso corpo, tem um efeito. O nosso corpo tem este hábito de os matar, eliminar, maltratar. Somos mesmo um microbiotipo onde usamos bactérias para nos ajudar... Muitas vezes matando outras. Pagamos assassinos a soldo igualmente, é um facto. O vegetariano tem de se haver portanto com uma de duas possibilidades: ou assume essa contradição, ou então despreza os animais minúsculos e reinstaura uma nova forma de hierarquia. Os animais macroscópicos são objecto do seu respeito, mas não os microscópicos.

Em terceiro lugar, alguma coisa tem de comer. Vegetais, entendamo-nos. Plantas e fungos, mais tibiamente. Mas isso significa que apenas estabelece um outro nível censitário, uma outra forma de aristocracia. Em vez de a linha terminar no homem, como cume da criação, a linha termina entre os animais e as plantas. Os animais, todos eles, fazem parte da aristocracia da natureza, e já as pobres plantas podem ser comidas, usadas para nosso benefício. Ora dá-se o caso de cada vez mais se perceber que as plantas têm vida social, certas sementes reconhecem as suas irmãs, porque o seu comportamento concorrencial é inibido por esse facto, as árvores mães na floresta manterão comunicações com as suas filhas através de filamentos de fungos.

A Universidade de Nantes descobriu que era possível fazer diagnóstico precoce da doença de Parkinson (e pensa-se estender esta metodologia a outras doenças que afectam o sistema nervoso) – fazendo uma biopsia ao aparelho digestivo do doente. Não ao cérebro, mas ao sistema neurovegetativo. Precisamente: neuro... vegetativo. Fechner, o grande criador da psicologia experimental, acreditava que havia uma vida espiritual das plantas. A vida vegetativa, mesmo a mais elementar, talvez não seja tão destituída de propósito próprio quanto se diz, e ainda menos de relevância. As intuições de Teilhard de Chardin, que vê o início da noosfera desde a origem da matéria (a oposição espírito e matéria é das mais temerárias que existe) são apenas mais um elo numa cadeia de intuições, estudos, conclusões, hipóteses, teorias ou verificações seguras que apontam de alguma forma nesse sentido. Nada há de estranho nisto. Toda a biologia nasceu de pressupostos metafísicos, e materialistas como Haeckel e Darwin não escaparam a eles. Nada mais poético que presumir o acaso, tanto quanto presumir a correspondência. Os animismos apenas são pobres porque exclusivos ou apressados.

O vegetarianismo não é a imposição da igualdade na natureza, da igual dignidade de todos os seres vivos. É apenas um alargamento da base censitária da nossa alimentação. Alarga-se a aristocracia, mas existem ainda seres que podemos comer. Mesmo os vegans, que supostamente apenas podem comer plantas já caídas pelo solo, aceitam comer mortos de plantas, mas não animais naturalmente mortos ou a carcaça do seu colega de trabalho recentemente falecido. A tanatofagia estabelece novas hierarquias, de uma forma ou de outra, mesmo que se alimente de inevitáveis mortes.

Não há maior coerência entre os vegetarianos, é verdade. Mas resta ainda um quarto aspecto. E esse sob o ponto de vista civilizacional é preocupante. Talvez o mais deslumbrante teórico da abstinência seja Porfírio, um filósofo do fim do séc. III, início do séc. IV d.C., um pensador com uma influência maior, mas pouco conhecido. Basta dizer que marcou profundamente Santo Agostinho, toda a filosofia medieval assenta em grande medida nele, a ele devemos a edição das obras de Plotino, e foi o único grande pensador anticristão de grande substância. Porfírio tem mesmo um tratado dedicado em especial à abstinência, onde trata da abstinência da carne dos animais.

O vegetarianismo desenvolve-se em épocas de recusa do corpo, como os medioplatónicos e neoplatonismo mostram. Porfírio, na sua grandeza, é um bom exemplo disso. E as épocas de recusa do corpo são menos saudáveis, menos vitais, menos viçosas que as outras. Não fora o cristianismo imperar a partir do século IV d.C., poderíamos ter um percurso do pensamento antigo a caminhar para o desastre da absoluta descorporização. Há um desgosto pela condição natural da vida, pelo sofrimento que implica necessariamente, pelo facto da vida se alimentar inevitavelmente de mortes, seja de animais, seja de plantas. Excluindo os vegetais, tudo o resto para se manter vivo tem de provocar a morte.

A vida tem aspectos muito desagradáveis, reconheço. Mas querer recusá-los é querer fazer recusar a vida. A decisão nesta matéria não é indiferente moralmente. Seria muito estóico falar aqui de indiferentes. Mas a escolha por ou contra o vegetarianismo não dá razão moral a quem escolhe um lado ou outro. E criar restrições na vida não é em si mesmo empobrecedor. Toda a mística, a vida consagrada e a vida contemplativa estão por aí a mostrar-nos isso. Mas também a Mãe que abdica pelo filho, o herói pelo seu povo. Toda a vida é feita de restrições, tudo está em saber o que escolher. Umas escolhas são boas para uns e apenas postiças para outros. Mais uma lição a retirar: não tenhamos orgulho por ter feito uma escolha ou a contrária. Pensemos apenas se ela é autêntica e deixemos os outros em paz nas suas escolhas e tentames. Somos seres destinados ao erro. Não o cumulemos com a presunção.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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Editorial

As democracias liberais em que vivemos não impõem objectivos sociais, nem quaisquer concepções normativas de bem. Estão ancoradas na ideia de direitos e liberdades individuais, recusando a imposição de valores absolutos ou de concepções pré-definidas de um bem comum. Sem negar a existência de uma Verdade última (isto é, sem negar a existência de um bem último ou comum), e nesse sentido afastando-se do puro niilismo, as nossas actuais democracias, assumindo a sua matriz liberal, negam ao Estado o direito de impor dogmaticamente uma concepção específica de bem. Ao invés, assentam no pressuposto de que o indivíduo pode, por si próprio e através de um processo racional de confronto de ideias, encontrar o caminho para a Verdade.

A pedra angular de todo este edifício demo-liberal, a condição mesma da sua existência, é um espaço público em que, de modo livre e incondicionado, sem preconceitos, sem dogmas e com uma atitude assumidamente tentativa, se confrontam teorias e concepções distintas, ideias e visões opostas, das quais, em última análise, acabarão por brotar valores que nos implicam com tudo o que tem a ver com a vida contemporânea, da filosofia ao sexo, da arte à política, da história à moral, da liberdade a Deus.

Como tal, este ‘marketplace of ideas’, à maneira de Stuart Mill, constitui uma das mais preciosas e poderosas garantias do respeito pela nossa liberdade individual. A sua construção e alimentação quotidianas são um direito, mas sobretudo uma responsabilidade de cada um de nós – que não pode ser inteiramente delegada nem em partidos políticos, nem em corporações, nem tão pouco no chamado sistema mediático.

Neste contexto, o «Geração de 60», enquanto espaço plural de debate que se deseja imodestamente sério e inteligente, é uma contribuição egoísta para a defesa da nossa própria liberdade.