terça-feira, 14 de Outubro de 2014

Os estádios do amor da Europa


 

Tema triplamente arrojado. Por um lado porque num curto espaço tenho de fazer uma demonstração civilizacional. Por outro, porque parece temerário aceitar a evolução de um sentimento. Finalmente, porque parece tema que nenhuma ligação tem com o espaço público. O primeiro problema já é corrente, o último só poderá ser respondido a final, vejamos o segundo.

Falar da evolução de um sentimento ainda por cima com apoio de referências intelectuais, parece puro exercício de erudição, enfim, coisa para não levar a sério. A verdade é que a expressão dos sentimentos, e a forma como eles são pensados, influenciam o modo como eles são vividos. A maior consciência de raízes sexuais no sentimento pode mudar substancialmente a forma como ele é vivido. O que as pessoas esperam do amor, como o pretendem viver, se o associam ao casamento ou não, tudo são questões em que o pensamento marca o sentimento. Nos países onde se lapidam mulheres há quem se choque com o facto, e até mais porque mais próximos dos factos. Mas só acaba o fenómeno quando a sociedade como uma todo fala, nega em geral, afirma um princípio, ou seja, teoriza.

Na História encontramos basicamente dois fundamentos para o amor: patrimonial e sexual. Em suma, sobrevivência. Do lavrador que junta terras ao rei que junta reinos, ao pastor que junta gado, por todo o mundo encontramos esta concepção da união entre pessoas. Mais primitivamente, o desejo sexual as une. E também aqui o fenómeno é universal. Ainda hoje em dia um e outro factor actuam, de forma mais ou menos exclusiva em muitas culturas. Isso não impediu que nessas culturas se tenha sentido o que para nós europeus é o amor. Mas não encontramos teorizações e em consequência reivindicações de formas especiais de amor.

De modo grosseiro, encontro na História europeia vários estádios do amor.

Com Platão o amor assume dimensão cósmica e metafísica. Não é vivência que interesse apenas dois seres. Revela as fundações do cosmos. Esta tendência já se encontrava em certas correntes mitológicas gregas em que Eros é o primeiro deus, o primogénito.

Com o cristianismo, a segunda grande fase do amor, dá-se mais um passo, e não pequeno, e não pouco absurdo, se bem virmos. O próprio Deus é amor. Já não é só o que é, nem o Deus justo e misericordioso do islão, Deus é Pai (isso os indo-europeus já sabiam) e é amor. Na sequência disto as igrejas cristãs impõem a liberdade matrimonial, que não existe noutras culturas. É evidente que em cada época esta liberdade sofreu muitas entorses. Mas o princípio está lá. É diferente ter uma sociedade que impõe o casamento e uma religião que não impõe, do que ambas o fazerem.

A terceira grande fase abre-se com a poesia trovadoresca. A mulher passa a ser o centro do amor. É amada não por ser objecto, mas por ser superior. É ela a força motriz do amor e o homem faz-se dela seu servo. Cristianismo, herança clássica alimentam esta corrente.

A quarta fase começa com o romantismo. Pela primeira vez dois seres se escolhem um ao outro. O amor é escolha de duas pessoas, fora das convenções sociais, contra elas se necessário. Fundante do amor em geral, mesmo fora do casamento, é a escolha que o homem faz da mulher e a mulher faz do homem. E o romantismo bebe tanto do helenismo, como do cristianismo como do paganismo celta e germânico (e eslavo nos países do leste europeu).

A quinta com a psicanálise. As raízes sexuais do amor vêm ao de cima. Que elas sempre existiram não é novidade. Mas passou-se a falar disso. E teve de se ir aos gregos para o compreender.

É evidente que cada uma destas fases não se reduziu a estas características e muitas distinções se têm de instalar em cada uma e de permeio. Mas o que ficou como lastro delas foi o que me preocupou enunciar.

Nada menos natural que o amor. Se há ponto onde há construção cultural é nele. Oferecer flores, dar prendas, cortejar, tudo são formas culturais. Mas também o que se sente, o que se espera é cultural. Ainda há poucos anos amar a mulher porque era boa dona de casa não era figura de estilo. E ser ela “desmazelada” era justificação de desamor. Não se diga por isso que o amor não é cultural. Tente-se dizer a um turco que o amor atravessa fronteiras, é contra convenções sociais. Alguns europeizados, e só na medida em que o sejam, concordarão. Mas também marroquinos, chineses e assim por diante. Ou seja, só na medida em que adquiriram mestiçagem cultural, que receberam de uma cultura que não é a deles.

Poesia de amor existe-a bela em todas as culturas, uma ideologia de libertação pelo amor e do amor só encontra consistência histórica na Europa. A Europa é civilização de liberdades. O grego, o europeu desde sempre se sentiu o livre em contraste com o oriental, o árabe, o turco. Em suma, os submissos.

Que interessa o que digo para a Europa política? É que é o que subtende à política que a sustenta. A política não assenta no vazio. Gostaria que experimentassem impor à França do século XVII uma democracia parlamentar. Todos em bloco a recusariam. Tentem fazer uma constituição criando o país Portugal-Marrocos. Apenas um pedaço de papel. Sem sustento prévio nenhum projecto político funciona.

Esse sustento é simbólico, afectivo, e – imagine-se – também teórico.

Mais uma vez vimos que a Europa é a fusão do paganismo indo-europeu e do cristianismo. Cada uma das fases tem marcas ou de um ou de outro, ou de ambos. Cada uma delas se acumulou formando estratos que ainda hoje se encontram de uma forma ou de outra. Quem considerar que o que digo é no fundo dispensável, arbitrário ou mera elaboração teórica, que tente defender em público que a relação entre um homem e uma mulher é apenas agarrar os cabelos da mulher e arrastá-la para uma gruta ou então que serve apenas para juntar patrimónios. E que faça esta defesa com convicção. Verá a reacção. Sobretudo, se for convicto nesta visão de mundo, verá como é vazia a sua vida.

Muitos sentimentos apenas têm valor porque nos lembramos deles. Se esquecemos completamente a dor de uma perda ela actua menos na nossa vida pelo menos aparentemente. E a vida é muito diferente quando podemos deles falar ou deles falamos de uma ou de outra forma. A tragédia de sentimentos oprimidos é uma constante em todas as culturas.

E quem quiser fazer projectos políticos esquecendo que o homem é mais que mera técnica, que ninguém acorda feliz por ser democrata, por viver numa economia de mercado ou ter “acquis communautaire”, apenas por isso, deixa para os outros como herança o governo de pulsões sem enquadramento, sem sustento, sem base. Não o preocupa. Em geral é destituído de amor. Ou pelo menos daquele que a Europa criou. Talvez porque não seja amado.


Alexandre Brandão da Veiga
 

 

 

 

 

 

 

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quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Os políticos italianos


Já o sabemos. A cultura não evita o pior do ser humano. Poucas regiões e épocas foram tão cultas quanto a Alemanha da rRpública de Weimar e isso não a isentou das falhas da humanidade. É verdade: é ingénuo pensar que a cultura evita a falha humana.

No entanto, e no entanto... Com cultura temos outro mundo. A política italiana não se isenta de humanidade, nem sequer do grotesco da humanidade, da farsa, do ridículo. Mas quando comparamos com outros países (deixo ao leitor o gosto de pensar quais) vemos que existe um nível bem diverso, uma cultura bem mais profunda.

Para simplificar uso a wikipedia. Facilita o acesso e para os efeitos, que não são científicos é por demais bastante.

 

Dando os exemplos (excluo outras que são publicações sobre política, direito e economia) e nem me pronunciando sobre qualidade das obras:

Matteo Renzi, Stil Novo. La rivoluzione della bellezza tra Dante e Twitter, Milano, Rizzoli, 2012 http://it.wikipedia.org/wiki/Matteo_Renzi#Libri

 


  • Avvenimento cristiano e fenomeno rivoluzionario. Lezioni sul marxismo. Testi del seminario condotto presso l'Universita Cattolica di Milano, 22-25 febbraio 1972, Milano, Comunione e liberazione, 1972.
  • I cattolici e la crisi della società italiana, con Augusto Del Noce, s.l., s.n., 1977.
  • Dialettica e nostalgia, Milano, Jaca Book, 1978.
  • La crisi dell'economia marxista. Gli inizi della Scuola di Francoforte, Roma, Studium, 1979.
  • Il pensiero di Karol Wojtyla, Milano, Jaca Book, 1982.
  • L'uomo e il lavoro. Riflessioni sull'enciclica "Laborem Exercens", Bologna, CSEO biblioteca, 1982.
  • Metafisica della conoscenza e politica in S. Tommaso d'Aquino, Bologna, CSEO, 1985.
  • Nuova evangelizzazione e dottrina sociale, Milano, Scuola di dottrina sociale, 1988.
  • Cattolici e politica, con Augusto Del Noce, Milano, Scuola di dottrina sociale, 1988.
  • La famiglia, un soggetto di azione sociale, testo di una lezione tenuta il 7 maggio 1987, in Luigi Giussani, Luigi Negri, Rocco Buttiglione, La famiglia, Milano, Quaderni di Litterae Communionis, n.3 1988
  • Traduzione italiana e saggio introduttivo a Josef Seifert: Essere e persona, Milano, Vita e Pensiero, 1989
  • Augusto Del Noce. Biografia di un pensiero, Casale Monferrato, Piemme, 1991. ISBN 88-384-1582-X
  • La crisi della morale, Roma, Dino, 1991.
  • L'uomo e la famiglia, Roma, Dino, 1991.
  • Il problema politico dei cattolici. Dottrina sociale e modernità, Casale Monferrato, Piemme, 1993. ISBN 88-384-1979-5
  • Giustizia e politica tra prima e seconda Repubblica, con Mario Luzi, Formello, SEAM, 1998. ISBN 88-8179-076-9
  • Il pensiero dell'uomo che divenne Giovanni Paolo II, Milano, Mondadori, 1998. ISBN 88-04-45382-6
  • Meridione. La grande occasione, a cura di e con Giuseppe Nistico e Antonio Marzano, Soveria Mannelli, Rubbettino, 2001. ISBN 88-498-0132-7
  • I cattolici liberali nell'attuale contesto politico, Soveria Mannelli, Rubbettino, 2007. ISBN 978-88-4982-018-8
  • Lo stato della democrazia nel mondo, con Gianfranco Fini e Carlo Galli, Roma, Armando, 2011. ISBN 97888-6081-812-6
  • La sfida. Far politica al tempo della crisi, Soveria Mannelli, Rubbettino, 2012. EAN 9788849833720

 


·         Grandi illusioni. Ragionando di storia d'Italia (con Andrea Graziosi), Bologna, Società editrice il Mulino, 2013

 


·         Piccola storia di Roma. Da Romolo al giubileo del 2000, Milano, Mondadori, 2000. ISBN 88-04-47796-2. vincitore del Premio Cimitile

·         Sotto il segno di Pio IX, Milano, Rizzoli, 2000. ISBN 88-17-86362-9.

·         Un gesuita in Cina, 1552-1610. Matteo Ricci dall'Italia a Pechino, Milano, Rizzoli, 2001. ISBN 88-17-86940-6.

·         La fuga di Pio IX e l'ospitalità dei Borbone, Roma, Benincasa, 2003. ISBN 88-86418-12-4

 

 


·         Un dissidente del Risorgimento. Giuseppe Montanelli, Firenze, Le Monnier, 1962.

·         Carducci e Croce, a cura di, Bologna, Poligrafici il resto del carlino, 1966

·         Il mondo di Giolitti, Firenze, Le Monnier, 1969

·         Il venti settembre nella storia d'Italia, Roma, Nuova Antologia, 1970

·         L'Italia dei laici. Lotta politica e cultura dal 1925 al 1980, Firenze, Le Monnier, 19

·         Fra Carducci e Garibaldi, Firenze, Le Monnier, 1981.

·         Tradizione garibaldina e storia d'Italia, Firenze, Le Monnier, 1982. ISBN 88-00-85594-6

 

 


·         Francesco Cossiga (a cura di), Sir Thomas More, santo e martire. Patrono dei governanti e dei politici. Raccolta documentale, Roma, Colombo, 2001

 

Esta não é análise científica e muitos mais exemplos poderiam ser dados. Mas deixa-nos a reflectir. Não faço a comparação expressa com a classe política portuguesa em qualquer época. Ex silentio já está feita.

 

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quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

Virtude


De entre as ciências mais elásticas que a Terra já viu encontra-se a da etimologia. Desde o extremo da mais aberrante fantasia (a “pantera” chama-se assim porque é amiga de todos os animais, diziam etimologistas medievais), até ao hipercriticismo germânico do século XIX (grande construtor de sólidos mas secos edifícios), de todos os extremos provou esta actividade.

Seja como for, em que grau se queira usar desta ciência, e com que rigor, sempre tendo algumas cautelas, muito se pode aprender com ela. As palavras que usamos não são inocentes. Para um jurista “fé pública” tem um significado técnico, que não se confunde com as peregrinações de Fátima, e “placebo” para um médico não se trata de uma entrega do seu corpo aos prazeres do doente como o significado latino poderia dar a entender. Só conseguimos falar com as palavras que temos. E qualquer crítica destrutiva da etimologia deveria ter isso em conta quando a desdenha.

Uma das palavras que se encontra cada vez mais relegada para sedimentos mais recuados na nossa linguagem é a virtude. Ainda se manifesta em jargão económico nos “círculos virtuosos”, ainda é admitida na física nas partículas virtuais, mas sempre desventrada do seu conteúdo central. Época pudica que fala sempre ao lado do principal, preocupada com a pureza ritual, a nossa era é lesta em enterrar o essencial, em evitar o decisivo.

Vejamos as etimologias. Virtude parece ter parentesco com “uir”, varão, e “uis”, força. Falo em parentescos porque por vezes não há apenas filiações semânticas, mas igualmente casamentos, associações, contactos. As palavras são seres sociais, adquirem tiques dos vizinhos ou dos seus amantes. A virtude é a qualidade de quem é varonil, de quem tem força. Maquiavel restaurou este uso indo-europeu. O renascimento foi tanto antiquário como renovação. Tenho mesmo dúvidas que se possa ser uma coisa sem a outra.

Em grego “aretê”, palavra tão complexa na sua História que não posso nem sequer enunciar os seus mais simples desenvolvimentos. Consta que etimologicamente terá origem no indo-europeu em palavra que significa o homem livre por excelência, o nobre, o “arya”. O herói também. Tem virtude quem tem força, poder, quem é livre, quem é nobre no fim de contas. Sem poder não há liberdade, é esse o estado do nobre.

O cristianismo veio a dar, como estoicismo, uma coloração bem diversa a esta virtude. Ser livre, o verdadeiro poder, decorre de uma luta consigo mesmo, para atingir a serenidade, a paz, o amor, consoante os casos. Todo o novo vocabulário positivo recebe de uma linguagem aristocrática, viril, guerreira. O herói das virtudes e as virtudes heróicas, o poder sobre as paixões, a luta da alma. A nobreza de carácter, o espírito livre, os livres-pensadores.

Mais uma vez encontramos aqui a fusão entre o cristianismo e o paganismo indo-europeu. É aliás difícil destrinçar nos textos, mesmo de entre os mais fervorosos crentes das épocas mais crentes, o que é realmente cristão e o que é pagão indo-europeu. A mulher deve ter orgulho na sua virtude (pecado de orgulho?), a resignação heróica é muito mais estóica que cristã por vezes (as cartas de Heloísa a Abelardo, por exemplo).

Como prometi que analisaria o que subtende à política preciso por isso de tentar dar uma explicação deste escondimento da virtude. Já sabemos para onde foi. Para o vocabulário técnico, encapotada, mascarada, asseptizada. Como é hábito de uma época de pudibundice como a nossa. Mas porque se esconde a virtude do espaço público? Porque é ridículo hoje em dia um ministro, um jornalista, um empresário, dizer que é virtuoso ou virtuosa?

A primeira razão já foi enunciada. A época é pudibunda. Como é costume, as épocas não reconhecem nunca os seus pontos de pudibundice ou pudor. Mas eles notam-se sempre por um teste simples: se fazem corar. Uns por real pudor, outros por pudibundice. O pudor enriquece, a pudibundice rigidifica. Ora o horror à virtude e à palavra que a representa apenas gera rigidez. Faz corar por rigidez.

Por outro lado, sejamos generosos e concordemos com eles. Não são virtuosos, são destituídos de virtude. As pessoas têm direito de ver satisfeitas as suas reivindicações. Não afirmam terem, em grande medida porque realmente não têm.

Mas porquê este horror à virtude? Porque esta dimensão do ser humano e não outra?

Bom, para começar há que ser justo. A virtude não está sozinha. Igualmente a nobreza, o pudor e outras palavras são afastadas do espaço público. Corresponde a um processo de massa de expulsão de tudo o que respeita ao mais íntimo do ser humano do espaço público. Funcionaliza-o, torna-o de confiança, previsível, como uma máquina. Daí a necessidade de se exigirem – maquinais – manifestações de bons sentimentos pelos homens públicos.

Exige-se que os homens públicos sejam destituídos de intimidade, surjam despidos dela. Isto nada tem a ver com pudor ou contenção. Exige-se que os sentimentos sejam também eles previsíveis e catalogáveis. Não se admite que o homem público tenha maus sentimentos (elitismo, vingança, por exemplo) e os que manifesta têm de pertencer a um catálogo de bons sentimentos. A virtude é coisa demasiado íntima para existir no espaço público, e demasiado ridícula para se admitir no privado.

Mas tem de se reconhecer igualmente que todo o sistema de educação, seja formal, seja familiar, social ou outros, varreu a palavra virtude do seu campo de actuação. Não se instila virtude nas crianças mas apenas comportamentos adequados. Uma conformação exterior, que fez de conta que o interior não tem impulsos negativos. O pensamento meramente funcional, bem mais antigo do que o julgam os modernos, alastrou-se como um cancro para todos os níveis do comportamento, e mais importante, dos sentimentos, na sociedade.

Que políticas gera ou pode gerar o homem sem virtude? Desde logo uma política toda ela virada para o comportamento, para o exterior, para a aparência. O que esteja fora do escrutínio público é apenas alvo do seu capricho. O que modera as suas acções é apenas o efeito público e não o intrínseco desvalor da conduta. Como sabe que apenas o que é publicamente sindicável lhe limita o caminho tentará esconder o mais que pode. É certo que em todas as épocas houve quem tentasse esconder. Mas quem é educado no valor absoluto da virtude, sabe que pode ser julgado por instâncias secretas que perscrutam as suas mais íntimas intenções ou seus mais secretos actos. Demitindo-se este juiz interior o espaço não publicitado é pura arbitrariedade.

Na política, a sua técnica é a do facto consumado. Aceita-se a Turquia como candidata sem informar previamente o público e muito menos sem lhes pedir a opinião e ainda menos a decisão. Decide-se seguir para a guerra do Iraque sem curar se os soberanos (os cidadãos numa democracia parece-me) estão de acordo ou não.

Na ideia da projecção histórica o seu paradigma é a dos tesouros afundados. Fica por isso no esquecimento da História, porque se alguma substância teria, este homem público deixa-a toda submergida.

Mas sobretudo, sendo destituído de virtude, é destituído de real força interior. A sua vida é uma perpétua obsessão com a protecção da sua fraqueza. A defensiva anima-o, só ela o motiva. Defende-se da grandeza, e tenta espezinhá-la. Por inveja, mas por sensato instinto de inteligência. Sabe que o espaço que ocupa teria sempre muita gente mais qualificada para o preencher. A sua vida é sempre um conjunto de “por exclusão de partes”. Só está onde está, não por ter sido escolhido, mas por os outros terem sido afastados. O deserto, Átila, os seus heróis. Daí que apoie a entrada dos turcos na União Europeia. Gosta de termos de comparação que não o envergonhem.

É este espectáculo que nos é reservado. Pessoas sem virtude, sem força interna, sem nobreza. Foi essa a sua condição de subida, precisam de a manter para sobreviverem. Mas estes pobres coitados são apenas herdeiros das bermas de onde vieram, e onde em boa verdade ainda estão. Culpados, reais culpados, são todos aqueles a quem foi dado o poder de soberania de os pôr onde estão. Numa democracia, sem lugar para dúvidas, todos nós.
 
Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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segunda-feira, 21 de Julho de 2014

Tinha Jesus irmãos?


Tinha eu lido há uns tempos atrás um livro de um senhor chamado Bernheim (BERNHEIM, Pierre-Antoine, Jacques, Frère de Jésus, Albin Michel, Paris, 2003) que dava como certeza absoluta vários factos :

a)      No contexto da Palestina em língua grega o conceito de irmão era forçosamente de irmão de sangue e não em sentido figurado;

b)      Em consequência, Jesus tinha irmãos de sangue, e não irmãos de sangue apenas de São José; do lado de Maria também.

 

Até aqui não vejo problema. A tese é conhecida, já muitas vezes defendida. O problema da conclusão é que assenta numa premissa algo apressada.

 A vida tem destes acasos. Por coincidência li entretanto um livro de uns senhores chamados Roger S. Bagnall e Raffaella Cribiore, Women's Letters from Ancient Egypt, 300 BC-AD 800, (http://www.amazon.co.uk/Womens-Letters-Ancient-Egypt-BC-AD/dp/0472115065/ref=sr_1_3?s=books&ie=UTF8&qid=1399561358&sr=1-3).

 

Eis que salientam que em várias cartas entre os séculos I a.C. e III d.C. os conceitos de «irmão», e mesmo de «mãe», não significam a relação biológica forçosamente, mas de familiar, íntimo, companheiro, mesmo marido, e no caso de «mãe» pode-se tratar mesmo da escrava que serviu de ama.

Que se coloquem hipóteses históricas, bem vivo com esse facto. Tanto melhor. Venham as mais ousadas. Mas que se dê como certeza absoluta conclusão quando nem a premissa é certa já não me parece honesto.

Tenha-se em conta que:

a)      O Egipto fazia parte do mesmo espaço helenizado, fortemente helenizado, a que pertencia a Judeia.

b)      Sendo bem mais importante culturalmente que a Judeia, seria pouco plausível que os fenómenos culturais e também linguísticos que se passam na Egipto não tivessem algum reflexo na Judeia.

c)      Embora não se possa retirar uma relação necessária entre o que se passa no Egipto e o que se passa na Judeia, e embora os anteriores argumentos já sejam por si mesmo fortes, a verdade é que não se pode afirmar que «irmão» em grego na época e na região é, e sempre, irmão no sentido carnal.

d)     Ainda menos se pode afirmar que significa filho do mesmo Pai e da mesma Mãe.

Este é mais um dos casos em que vemos que, em vez de estudo, temos uma imposição. É-nos imposta a conclusão, contorcidas as fontes, relegadas a segundo plano as provas e a sua problematicidade. O autor, o tal de Bernheim, não gosta de problemas, não gosta que estes sejam colocados. Como quem cauteriza uma ferida, fecha-os, fecha-os de forma que julga definitiva. 

Venham elas a provas, venham elas a discussões. Tanto melhor. Quantas mais melhor. Mas que o sejam. Prefiro estudos a proclamações públicas afixadas nas paredes dos teatros. A ciência não se faz por edital.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 7 de Julho de 2014

A Inglaterra quer sair da União Europeia?


E lá temos mais uma vez uma birra: a Inglaterra ameaça de novo sair da União Europeia porque não gosta do novo presidente da Comissão. Porquê? Porque este seria demasiado federalista e porque a Inglaterra pretende uma reforma profunda das instituições comunitárias. Já ouvimos esse discurso muitas vezes.

Vejamos o que retirar deste discurso.

Em primeiro lugar, a Inglaterra quer uma União Europeia à sua imagem. Di-lo, pelo menos. Mas tem-na. Nunca as instituições europeias tiveram tanta influência britânica, e, por esta via, americana. A desregulação dos mercados, sobretudo os financeiros, os temas do multiculturalismo, as questões fracturantes, a língua inglesa, a discussão em sede laboral, não dos direitos sociais e económicos dos trabalhadores, mas dos direitos morais, como a protecção das minorias sexuais e étnicas. Que os trabalhadores sejam explorados no seu conjunto não é grave, são as leis do mercado, mas já que se descrimine o travesti que vai de penacho trabalhar numa funerária isso não se pode admitir.

Na perspectiva da imagem a Inglaterra nunca teve uma imagem tão forte, nunca a sua presença simbólica foi tão forte. Blair apagou Jospin, Schroeder. Os países da Europa central e do leste que entraram de novo foram endoutrinados pelo padrão anglo-americano. Os próprios ingleses tinham noção de que os anos 90 foram uma «janela de oportunidade» como agora se diz, que tinha de ser aproveitada.

Os presidentes da Comissão foram escolhidos pela Inglaterra que, desde que apareceu um Delors (anormalidade num cargo que deveria ser de um alto funcionário), que se assustaram com a possibilidade de um presidente da comissão forte, e por isso escolheram progressivamente o mais medíocre e fraco que puderam.

Mas este quadro inglês tem muitas fissuras.

Em primeiro lugar, é precisamente este conjunto de instituições europeias que mais suscitam o desprezo inglês. Nunca as instituições europeias estiveram tão próximas do modelo que pretendiam e nunca foram tão vilipendiadas. Antes não eram amadas, mas temidas. Hoje em dia, basta para isso ler os jornais ingleses, são desprezadas. É precisamente uma comissão fraca, com chefia fraca, que é objecto de desprezo pelos ingleses. O que antes os irritava suscita agora apenas condescendência.

Em segundo lugar, uma Europa à imagem da Inglaterra já existiu e foi por ela feita. Chama-se EFTA, criaram-na em 1959 e três anos depois já estavam a bater à porta da CEE, de tal forma era boa a Europa feita à sua imagem. Como Atena que deu à luz um monstro, a ideia britânica para a Europa é afinal muito pouco empírica. É uma ideia que têm na cabeça e não percebem que é ela mesmo um monstro quando concebido e saído à luz do dia. Aceitemo-lo: os países europeus não gostam da Europa à imagem da Inglaterra e nem a Inglaterra gosta da Europa cada vez mais à sua imagem.

Em terceiro lugar, o poder, junto dos países da Europa central e de leste, da Inglaterra já se enfraquece cada vez mais de dia para dia. É bom de se perceber as razões. Se a mais-valia que trazem é a relação com os Estados Unidos, estes países não precisam da mediação britânica. A Inglaterra torna-se inútil. Além disso, como a Inglaterra é muito amiga mas está preocupada antes do mais com o seu cheque e a devolução da sua contribuição, os países da Europa central e leste perceberam que dela pouco teriam a receber. Pressionaram a Suíça e a Noruega a dar mais dinheiro, e sabem que contam na hora da verdade mais com a Alemanha e a Áustria que algum dia contarão com a Inglaterra.

Em quarto lugar, o mito Blair começa a esfumaçar. A dita terceira via, que se traduzia em ter uma política apenas com uns laivos socializantes e muito discurso de preocupações sociais sem grande acção mostra-se no seu vazio filosófico como puro marketing.

Eis que as potências da Europa continental conseguem colocar no centro do conselho europeu um homem do centro e agora na comissão europeia se anuncia o mesmo. No fundo, restabelece-se um equilíbrio. É a mesma Inglaterra que tanto se vangloria da sua soberania nacional que se quer impor às outras soberanias. E começa a deixar de o conseguir fazer.

Da parte que me toca teria muito a dizer sobre esta personagem que pretendem colocar na comissão europeia. Nem tudo bom, nem tudo mau. Mas um facto não pode ser esquecido. Numa relação, quem está sempre a ameaçar que sai é infantil e malcriado. A Inglaterra merece mais, merece-se mais. Um divórcio não se ameaça: anuncia-se e executa-se. É de bom-tom, é adulto e bem-educado. Quando muito invoca-se a possibilidade para resolver de vez o problema: ou mantendo o casamento e nunca mais falar dele, ou acabando de vez com o matrimónio.

O que a Inglaterra não percebe é que de tanto ameaçar que se vai embora as pessoas vão-se habituando à ideia. Não a executando, perde credibilidade. Executando-o, perde impacto. Parcimónia, como tão bem lembrou um pensador inglês tão esquecido dos ingleses, Ockham. Parcimónia é sinal de bom gosto, e bom senso.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

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sexta-feira, 20 de Junho de 2014

Precisamos da democracia?


 

Um conjunto de selvagens reúne-se para decidir se hão-de comer um prisioneiro. A maioria vota a favor. Como há dois que se opõem veementemente são mortos. E para festejar a decisão espancam as mulheres.

Este pequeno cenário mostra que estamos a falar de uma democracia, e de uma democracia directa em cúmulo. Etimologicamente é o poder do povo quem determina a vida em colectividade.

Mas isto basta-nos? Não. Porquê então achamos que esta democracia é insuficiente?

É que o que designamos por democracia recolhe muitas experiências históricas diversas.

Em primeiro lugar, o próprio poder do povo, mas por via do nexo de representação. Uma ideia sobretudo grega.

Em segundo lugar, a ideia de Estado de Direito, estóica e romana na origem. Esta nada tem a ver com a democracia. Mas atravessou toda a História da Europa. O poder obedece a regras, está limitado por elas. Quem pode, quando pode, como pode. E no entanto, não concebemos democracia sem Estado de Direito, mesmo que a sua origem seja bem diversa. O império, os príncipes europeus, o papado, não concebiam a vida sem a legitimação e a limitação jurídica. E nós igualmente. Este é um traço que a democracia herdou, não criou.

Em terceiro lugar, a proibição de divinização do homem. Não concebemos prostrar-nos perante ministros ou chefes de Estado, como o grego se recusava a fazer. Era bárbaro. Sempre que existem regras de prosternação na Europa elas surgem por influência oriental. O homem europeu pode fazer reverência, mas não se prosterna. Não adora o poder, os homens do poder. A democracia recebe esta ideia e não a cria igualmente.

Em quarto lugar, a dialéctica. Mas esta ideia surge do anti-democrata Platão e não com a democracia. A democracia ateniense praticou-a, mas o seu desenvolvimento teórico deve-se a anti-democratas. Mais uma coisa que a democracia herda e não criou.

Em quinto lugar, a ideia de legitimação pelo bem comum. Ideia sobretudo helenística e cristã. Mais uma vez a democracia herdeira e não criadora.

Em sexto lugar, a tradição liberal. A protecção das liberdades de acção, expressão, reunião, associação. A tradição liberal foi quase sempre antidemocrática, e no entanto só concebemos democracia de acordo com essa tradição. Herdeira, herdeira mais uma vez, não criadora a democracia.

Em sétimo lugar, a dignidade humana. Ideia cristã, muito anterior a qualquer democracia moderna. Ainda mais uma vez herdeira.

Em oitavo lugar, a igualdade da mulher, ideia sobretudo aristocrática e régia, profundamente anti-burguesa, anti-republicana (segundo o padrão do civismo republicano).

Em nono lugar, a economia de mercado, que pode ser adjuvante da democracia, mas é igualmente um enorme problema para ela, na medida em que distribui o poder de forma anti-democrática.

Em décimo lugar, uma determinada concepção da mulher, da criança, do velho, do homem adulto e das relações entre eles que se formou com a matrona romana, o cristianismo, e igualmente a senhora medieval.

A democracia constrói-se sobre muitas tradições que apenas recolheu e que em grande parte surgiram de pessoas que a ela se opuseram. Ao contrário do que se julga não foi a democracia que as criou, quando muito é a que a melhor tem garantido nas últimas décadas.

Porque é de décadas que tratamos, ou seja, de um espaço cronológico muito apertado.

Todos nós somos sobretudo herdeiros de anti-democratas, e de não-democratas ou de pessoas que só não eram contra porque nem sequer concebiam a sua possibilidade. A Europa encontra a democracia como uma solução histórica para um tempo determinado que se dá o caso de ser o nosso. Mas da mesma forma que o império ou o feudalismo ou do domínio dos príncipes pareceram realidades eternas durante séculos, temos de aceitar que a democracia poderá não ser o esteio final das nossas sociedades no futuro.

A Europa sempre foi Europa, e no entanto só de há muito pouco foi democrática. Meio século para os mais velhotes, uma década para os mais recentes. Historicamente é uma camada muito fina, muito frágil e muito menos determinante que as outras.

Sejamos claros. Habituados que estamos a considerar a democracia como o nec plus ultra da existência humana olhamos para os nossos antepassados com algum desdém porque eles, coitados, não viviam em democracia. Tenhamos então algum bom senso e reponhamos as coisas nos devidos lugares.

Na nossa época histórica a democracia tem sido o sistema que melhor tem garantido essa herança, esse património. Para um teórico político do século XVII o principado era o mundo natural, não obstante exemplos exóticos como os Países Baixos ou a Suíça, e em parte Veneza e a Polónia. E não era imbecil por assim achar. Tinha mais solo histórico sobre que assentar que nós quando falamos de democracia. Um pouco de humildade ficaria bem aos beatos da modernidade (com ou sem “pós” é a mesma coisa, porque quem apenas sabe conceber a sua vida como após uma anterior mostra que não a superou).

Mas isso não quer dizer que é o sistema definitivo na História. Muito do óbvio deixa de o ser. E quando queremos procurar o que pode estar em perigo, não é nos slogans dos bem pensantes que se encontra, mas no que consensualmente todos dão por certo.

Sobretudo, como a democracia não é fundamento último, mas escora-se ela mesma em fundamentos que a precedem, fundamentos bem mais profundos que ela mesma, tudo querer assentar na democracia leva a uma sobrecarga da mesma. O fim da democracia aproxima-se na altura em que sobre esta tudo se quer assentar.

Quando se quer definir a Europa pela democracia, esquecendo que esta é uma condição e não um fundamento, e daí se retira como conclusão que todo o bárbaro pode ser europeu, aliás, que quanto mais bárbaro, mais europeu pode ser (“mas porém a que cuidados?” e com que interesses?) os pilares quebram para deixar vir ao de cima o que é realmente fundamental.

Vivemos milhares de anos sem ser democratas, mas sendo europeus. Mesmo sem democracia não deixámos de ser franceses, portugueses, polacos, russos. E não produzimos por isso medíocre cultura, salvo se Goethe e Gauss devessem ser deitados ao lixo. Vivemos há milhares de anos desta confluência entre cristianismo e paganismo indo-europeu. Quando nos dizem que somos democracia, só democracia e economia de mercado, o confronto com outras culturas que de comum só têm connosco isso partirá o próprio sustento dessa democracia.

É certo que os cultores do curto prazo não se importam de assentar mais andares num prédio. E vão acrescentando mais e mais. No seu tempo de vida julgam que não pagarão preço nenhum. Mas quando o cidadão comum vir que se vai a votos para a antropofagia, ou para qualquer outro costume mais ou menos janízaro, e que no dia a dia se degolam carneiros nas escadas do seu prédio, ou que a criança, a mulher, o homem respiram muito diferente ar, veremos o que sobra. Se o húmus fértil em que nos gostamos de instalar e a que chamamos de democracia, ou se a rocha ou o magma sobre o qual assenta. Nessa altura é evidente, os sacerdotes da deusa única democracia já a estarão a incensar alhures. Aceitaram a destruição do templo para apenas manter o altar. Mas ao relento a tempestade levá-lo-á. E as suas fundações permanecem. Precisamos da democracia? Sim. Como protecção e conclusão (até haver outra) de um processo. Mas sem ilusões de que o tecto substitua as fundações.
 
 
Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

 

 

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terça-feira, 3 de Junho de 2014

Pensar fora da caixa

 
O partido Comunista era conhecido por ter a célebre «cassete». De tanto ser criticado por isso, hoje em dia aprendeu, e é dos partidos com menos «cassete». A questão é que há outros muito menos sindicados no seu discurso. Um dos exemplos é o dos gestores. Os seus lugares comuns, os seus tiques, surgem impunes no espaço público.
Dedico-me hoje a um: temos de pensar «fora da caixa», «out of the box», de acordo com a expressão americana original. Cacemos mais este lugar-comum, sobre o qual apenas há três coisas a dizer.
Em primeiro lugar, não deixa de ser curioso que mais uma vez esta, que se diz uma ciência, careça de um enunciado normativo. Devemos pensar fora da caixa. Devemos? Em nome de quem? Que lógica modal no-lo impõe? Que ciência é esta da qual não saem asserções escoradas, mas apenas preceitos?
Em segundo lugar, todos temos de pensar fora da caixa. Todos? Que vontade de uniformização, que espírito de manada... Todos, todos sem excepções temos de pensar fora da dita, ou pelo menos de achar que essa é a forma de pensar por excelência.
Em terceiro lugar, que metáfora é esta a de pensar fora da caixa? Que visão do homem carreia? Vejamos: quem diz que é preciso pensar fora da caixa é porque vive nela. Para ele, pensar fora da caixa é exercício titânico, contradição com a sua própria natureza. Colocado em bicos dos pés, espreita por fora da caixa e sente nisso acto heróico. No fundo, no fundo, admitamo-lo: É que vive na caixa, sempre viveu nela.
Fruto de uma ciência que o não é, regida pela tradução literal, uniformizadora da vida humana e destinada a pessoas que se vêem presas a uma jaula, o preceito é simpático, por vezes mesmo bem-intencionado. Quem vive numa caixa que o cumpra.
 
Alexandre Brandão da Veiga
 
 

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Editorial

As democracias liberais em que vivemos não impõem objectivos sociais, nem quaisquer concepções normativas de bem. Estão ancoradas na ideia de direitos e liberdades individuais, recusando a imposição de valores absolutos ou de concepções pré-definidas de um bem comum. Sem negar a existência de uma Verdade última (isto é, sem negar a existência de um bem último ou comum), e nesse sentido afastando-se do puro niilismo, as nossas actuais democracias, assumindo a sua matriz liberal, negam ao Estado o direito de impor dogmaticamente uma concepção específica de bem. Ao invés, assentam no pressuposto de que o indivíduo pode, por si próprio e através de um processo racional de confronto de ideias, encontrar o caminho para a Verdade.

A pedra angular de todo este edifício demo-liberal, a condição mesma da sua existência, é um espaço público em que, de modo livre e incondicionado, sem preconceitos, sem dogmas e com uma atitude assumidamente tentativa, se confrontam teorias e concepções distintas, ideias e visões opostas, das quais, em última análise, acabarão por brotar valores que nos implicam com tudo o que tem a ver com a vida contemporânea, da filosofia ao sexo, da arte à política, da história à moral, da liberdade a Deus.

Como tal, este ‘marketplace of ideas’, à maneira de Stuart Mill, constitui uma das mais preciosas e poderosas garantias do respeito pela nossa liberdade individual. A sua construção e alimentação quotidianas são um direito, mas sobretudo uma responsabilidade de cada um de nós – que não pode ser inteiramente delegada nem em partidos políticos, nem em corporações, nem tão pouco no chamado sistema mediático.

Neste contexto, o «Geração de 60», enquanto espaço plural de debate que se deseja imodestamente sério e inteligente, é uma contribuição egoísta para a defesa da nossa própria liberdade.