quinta-feira, 23 de junho de 2016

Fragilidades do islão I


É fácil anunciar forças e fragilidades e bem fácil dizer que fragilidades significam derrota. Da mesma forma é discurso fácil, como o de muitos políticos europeus, o de dizer que numa luta entre o islão e a Europa esta última perderia. Além do erro de análise, mostra qual o fundamento da sua suposta tolerância em relação ao islão: o medo. Partem derrotados para o debate.

A fragilidade não quer dizer derrota. A Inglaterra tinha fragilidades sem número durante a Segunda Guerra Mundial. De Gaulle tinha apenas fragilidades, ou quase, quando começou em Junho de 1940.

De novo, saliento, não anuncio uma guerra, mas apenas faço análise. As forças do islão terão de ficar para outras núpcias, mas não resultam nem da força intrínseca da religião e muito menos da força intelectual da cultura.

Assim podemos ver quais as fragilidades do islão sem daí retirar consequências indevidas. Comecemos pelas mais fáceis.

O islão está divido em correntes religiosas diversas que não se amam entre si. Xiitas, sunitas, karedjitas, sem contar com outras. Mas também divisões étnicas fortíssimas, em que árabes, persas e turcos não se amam propriamente e em que se trocam desprezos, intelectuais, culturais, políticos.

O islão está longe de ser um contínuo. Na Indonésia é uma coisa, no Afeganistão outra, na Turquia outra. A experiência da República Árabe Unida de Nasser e da Liga Árabe mostram que a solidariedade é grande em sentimentos e palavras, mas tende a ser nula em actos. A Jordânia, a mesma que acolheu tantos refugiados, matou mais palestinianos que muitos ataques israelitas, só para se livrar deles. Estas divisões geopolíticas são triviais e qualquer um as pode enunciar.

Mas existe um segundo dado que não vejo referido. É que o islão é uma cultura sobre pressão. No Oriente tem duas grandes potências que lhe servem de travão em modos diversos. Os chineses não têm nada contra o islão, desde que seja muito minoritário nas suas portas, e esteja sobretudo fora delas. E não têm qualquer problema de consciência de, caso o islão tenha intenções guerreiras contra a China, de pura e simplesmente aniquilar seja de que forma for, o islão e os islamitas. Técnica fácil, sem grandes elaborações.

Já a Índia incorpora o islão dentro das suas fronteiras, mas não pretende ser subjugado por ele. Desde que seja um islão contido, incorpora-o, caso não o seja, não tem também problemas de consciência na matéria.

A Rússia, por outro lado, sabe bem como lidar com o islão, após muitos séculos de contacto, conflito e depois domínio de muçulmanos.

Os moles são apenas os europeus, mas esse bem sabemos que é estatuto que se muda com a História.

O islão é pois, ao contrário do que se diz, uma cultura sob pressão, fortemente contida de muitos lados, e em risco de o ser cada vez do lado ocidental. A ideia de uma Europa mole é apenas uma ilusão de óptica criada nos anos 90, uma das épocas mais medíocres da História do pensamento – ou da ausência dele.

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quarta-feira, 16 de março de 2016

Pátroclo e Aquiles II


 

 

Mas há Briseide. Aquiles afinal tem apego por uma mulher, que é suficientemente importante na sua vida para largar a sua arte principal, a luta contra os troianos. Suficientemente importante para cortar a sua relação com o groso das tropas dos aqueus.

Sim, Briseide é importante na história. Mas a que título? Vemos a sua importância por três vias.

Em primeiro lugar, do que se queixa Aquiles é ter sido retirado o seu despojo de guerra, não o seu amor. A ofensa que lhe fazem é militar, uma ofensa e militar, não um desgosto de amor.

Em segundo lugar, Agamémnon tem de jurar, quando devolve (lietralmenet0 Briseide a Aquiles que não a levou para o leito. Também Agamémnon, que gosta d mulheres, não sua sexualmente do despojo de guerra forçosamente. Repare-se que Agamémnon tem de o jurar perante os deuses e perante o povo dos aqueus, a forma mais solene de juramento. Não poderia incorrer qualquer ira divina. A situação era ariscada demais para o fazer. Agamémnon diz portanto a verdade. Não foi para a cama com Briseida. Assim sendo é natural que Aquiles também não a tenha usado sensualmente. É menos certo mas não deixa de ser provável.

O terceiro elemento é Briseide chorar sobre os despojos de Pátroclo. Tem por Pátroclo uma ternura, uma exposição da sua doçura que não seria muito verosímil se partilhassem ambos o leito com Aquiles. É certo, tudo é possível, e à falta de juramentos solenes com risco da derrota total e ira dos deuses e vergonha absoluta como o de Agamémnon apenas podemos colocar hipóteses. Ménage à trois, a muitos (há outras escravas junto de Aquiles), amor entre Briseida e Aquiles e Pátroclo apenas amigo…

As hipóteses são muitas mas ficam reduzidas. Aquiles não lutou de morte pelo retorno de Briseida, queixa-se do dom de guerra, do despojo, não teve desgosto, mas despeito, ira, a boa da «menis». A «menis» é uma ira sagrada. Mas já com a morte de Pátroclo a sua ira é bem humano é o «cholkos». Nunca chorou por Briseida, apenas amua. Chora, e chora precisamente por Pátroclo.

Pátroclo não era um amante ritualizado, já o vimos. Não era o «eromenes» de Aquiles. Não o podia ser. Não era mais novo. Mas era sobretudo um guerreiro já preparado e que guerreio. Quando usa as armas de Aquiles, que guerreiro… Mata e mata e mata. Pátroclo não é morto por ser um presunçoso que decide pôr-se nos calcanhares de Aquiles. Morreu porque até os grandes guerreiros morrem. Heitor, o próprio Aquiles, embora isso nãos seja contado na Ilíada, mas seja nela muitas vezes anunciado. Pátroclo morreu porque chamou a si as atenções, a sua exibição foi a sua forma de sacrifício. Morreu porque se tornou fascinante, presa de todos os troianos, porque os deuses o decidiram, porque assim acontece com os melhores guerreiros.

Pátroclo não é um amante ritualizado, portanto. O primeiro casal da cultura europeia, o primeiro cujo amor e dificuldades, eros comuns e tragédia aperce em toda a sua glória é o que forma Pátroclo e Aquiles. São eles o paralelo de Ulisses e Penélope na odisseia.

A questão não passa por ideologias simplistas que orgulhos, de orientações, de opções sexuais. Não passa pelo discurso igualmente vácuo sobre a natureza, o valor das instituições, ou dos sacramentos. Os problemas existem, porque existe uma coisa chamada realidade. Invocar a complexidade é vácuo, enunciá-la necessário. Inútil, aceito, inútil muitas vezes numa época que se delícia com os brocardos e a chamada rápida de atenção, que não gosta do fundamento.

Mas é sobre esta obra poderosa, muitas vezes crua, outras delicada, de guerreiros que fazem sacrifícios humanos – Dólon no Canto X é morto de forma indigna porque é feio e deseja acima do seu nível – de guerreiros mortos selvaticamente despojados das suas armas, como animais a quem se retiram os cornos, ou a pele, de Aquiles levando Heitor arrastado por correntes enfiadas nos seus tendões. Os calcanhares mais uma vez. É neste mundo com uma relação directa coma violência, com o mundo que nos invade de forma dura, que assenta toda a cultura europeia. Não apenas sobre ele. Também nós somos mais complexos. Mas também e muito fundamentalmente sobre ele.

E desse mundo faz parte o primeiro casal que partilha destinos, a tenda o barco, a glória, a vida. Pátroclo e Aquiles. Aquiles o homem da dor, seguido de Ulisses, o odiado, nome dado pelo seu avô materno. De onde vem o amor? Procurar as origens é sempre contemplar o abismo.

 

Alexandre Brandão da Veiga.

 

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terça-feira, 15 de março de 2016

Pátroclo e Aquiles I


 

A boa da etimologia prega-nos surpresas. Pátroclo é a «glória do Pai», sendo bem possível que Pai seja Zeus. Pátroclo é nesse sentido o contrapeso de Héracles, a glória de Hera. Aquiles para uma boa etimologia é a dor (ainda hoje em dia em inglês «ache» como em headache mostra este significado) e dor do «laos», do «povo em armas». Exactamente a origem do laico, e laicismo.

Até ao momento parece estarmos a brincar com palavras. Há brincadeiras mais perigosas, é verdade. Mas a questão interessa-me noutros planos.

Desde sempre achei que o primeiro ser humano, o primeiro que sai completamente do baixo-relevo de Gilgamesh ou do alto-relevo da Ilíada, é Ulisses. Ulisses tem tudo, do bom e do mau, fada e demónio, humano em suma. As personagens de Ilíada sempre me apareceram mais planas, por vezes altos revelos, mas não se destacando do pano de fundo geral de que apreciavam. Com volume, mas não totalmente descoladas da pedra do templo sobre o qual tinham sido esculpidas.

Somos sempre injustos. Também isso é verdade.

O primeiro casal é Penélope e Ulisses. Pela primeira vez duas pessoas com pleno volume se encontram, sem paixões apressadas, com desejo de fidelidade. Penélope e Ulisses encontram-se também pelas suas semelhanças. São inteligentes. Cada um na sua forma, dentro das suas possibilidades sociais. Mas são um casal. Um casal a serio, não uma história de amor até ao encontro fatal, mas depois do encontro. É depois do encontro quês e desvela a história mais importante. Não é a história do «casaram-se e foram felizes para sempre» numa felicidade remissiva. É exactamente o oposto: «já se tinham casado e eis a felicidade que se encontra». A uma felicidade rugosa, imperfeita, marcada por uma longa separação.

Penélope e Ulisses não se amam por terem ilusões sobre um futuro comum. Amam-se porque sabem que são o presente um do outro. Neste sentido são o verdadeiro primeiro casal da História, o primeiro a ser representado na sua plenitude. Significativo o facto de tanto Odisseu, como Penélope como Telémaco serem unidos não pela deusa do lar, Héstia, ou do casamento, Hera, ou por Afrodite. É Atena quem protege os três. Não há nenhuma «agape» que unifique as relações entre as pessoas, todas as pessoas. É a inteligência, e uma inteligência guerreira que as pode unir.

De novo, pareço divagar.

Voltemos a Pátroclo e Aquiles. A erudição clássica, os filólogos, os antropólogos que se preocupam com a Grécia antiga, e aqui a escola francesa de um Gernet, de um Sergent são magistrais, mostram que havia uma tradição homossexual aristocrática, iniciática guerreira. Estes adjectivos não estão aqui por acaso. Quando se pretende usar os gregos como exemplo para liberdade de costumes é preciso ter cuidado, rever os seus brasoes, se os temos realmente, a nossa coragem, se dela somos dotados, o nosso espírito de aventura, se o possuímos. Não é para todos. Nada nas culturas antigas é para todos. Foi essa capacidade de diferenciação que lhes permitiu ser cultura.

O problema é que Pátroclo e Aquiles transcendem esse esquema. Não o põem em causa, coisa que alguns extremistas iriam logo dizer. Peritos da excepção, do contra-exemplo, gostam de invalidar toda a regra apenas porque são cultores da confusão. Mas a regra nunca impediu a flexibilidade, como gramática nos ensina, com as variantes e a excepções. Mesmo elas tem uma causa, não são prova de anomia, mas de vitalidade.

Os esquemas tradicionais desta homossexualidade ritualizada quebram-se todos com Pátroclo e Aquiles. Aquiles é socialmente dominante, manda Pátroclo preparar as acomodações, e mesmo a comida, mas Pátroclo é um pouco mais velho. Aquiles não pode ser o «eraste» nem Pátroclo o «eromenos», um o amante outro o amado, um o professor, outro o discípulo. Se o mais velho e socialmente o mais apagado isso só pode significar que o esquema tradicional seria cortado.

Mas já o velho discurso de Tétis, com a morte de Pátroclo, lembrando Aquiles de que também existe amor pelas mulheres. Outro corte com a ritualização. Depois da prova o «eromenos» deveria tornar-se adulto, ou seja, casado, ter filhos, largar o seu papel de «eromenos». Ora Aquiles nem é o amante nem o amado ritual, já o vimos. E não larga uma vida que supostamente seria transitória. Adolescente irrecuperável? Seria fácil dizê-lo. Quantas conversas teria tido com Tétis não relatadas por Homero?

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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A questão judaica II

Isto foi possível não por força judaica. É a própria sociedade cristã que tinha retirado virulência ao cristianismo, tinha-se vacinado contra ele, ou seja, tinha-se reinoculado dele em versão adormecida. Foi sobre este auto-enfraquecimento do cristianismo que puderam os judeus trabalhar.

O cristianismo foi assim transformado numa mera ética e estética, neutralizado enquanto religião, para poder ser objecto de fruição e mesmo idolatria. O problema é que a ética e estética não se sustentam por si mesmas. Quando o cristianismo deixa de ser visto como religião, e apenas é consumido pelos seus frutos, perde o seu poder protector a longo prazo. A ênfase nas catedrais, na glória de Bach, no Estado de Direito assente na dignidade da pessoa humana é apenas uma compensação para a fraqueza da fonte, quando recusada.

É o que ensina a quarta verificação. Quais os casos de maior sucesso desta integração? Em que casos a integração dos judeus ocorreu com maior força, maior brilho, maior êxito? Podíamos dar o caso francês. É verdade. Mas em França os judeus têm apesar de tudo um papel menor. A cultura em que os judeus apareceram com maior brilho, como maiores paladinos da cultura e da sociedade é a das sociedades germânicas. Precisamente, entre as duas Guerras Mundiais.

E vimos no que deu esse sucesso. A ideia de assimilação à francesa mitificando a separação entre o homem público e privado não foi tão gloriosa quanto a ideia de germanidade absoluta incarnada pelos judeus alemães e austríacos. Nenhum mais pode oferecer Mendelssohn, Einstein, Stefan Zweig e quejandos, senão o espaço alemão.

O maior caso de sucesso acaba no genocídio. O segundo maior caso, o francês, acaba em Vichy.

Que nos diz isso sobre a ideia de assimilação, de integração enfática, intensificada?

Não vou falar das sociedades multiculturais. Estas são estéreis culturalmente (salvo se o leitor me indicar um grande físico sassânida, um grande matemático turco, ou um grande sinfonista árabe). Mas de entre as modalidades de integração, a mais intensa, a mais bem sucedida, deu o resultado que se viu.

Que ensinamento retirar disto? Talvez a de que a integração jurídica, cultural, estética, ética, todas as formas de integração no seu grau enfático maior, resultam num genocídio. Foi a sua ênfase, a sua glória, que mais facilmente os tornou alvo de perseguição. Não o seu sucesso propriamente tido, mas o sucesso com que se integraram.

Vejamos o exemplo oposto. Ou melhor, dois. Um é mais anedótico. Descobri há poucos anos (não sou especialista em História de Portugal) que Lisboa no século XVI teria tido uma forte população negra. Séculos depois não há rasto dela, nem de perseguição a uma comunidade negra. Porque pura e simplesmente ela não existia. Evaporaram-se? Atrevo-me a uma hipótese. Passaram-se dois fenómenos. Misturaram-se geneticamente e converteram-se ao cristianismo.

O caso romano é também significativo. Quem estudou História sabe os sentimentos ambivalentes que nos dá a História das invasões bárbaras. Somos herdeiros de Roma e sentimos o peso da queda do império. Mas somos herdeiros de bárbaros, e não os conseguimos odiar. Não queremos a derrota nem de troianos nem de gregos porque nos sabemos filhos de ambos. A Europa oscilou entre a idolatria e o desprezo do sangue bárbaro, e foi a mesma Europa que usa «bárbaro» como insulto que elogia os reis pelas suas origens francas, góticas ou dinamarquesas.

Somos ambos geneticamente, e partilhamos de ambos a religião que acabaram por ter.

Hoje em dia quem distingue o descendente de celta, do germânico, do hispano-romano, ou do arménio? Impossível. Somo-lo todos. No longo prazo um mesmo duplo fenómeno contribuiu para uma só etnia: a mistura das etnias, mistura de sangues, sexual, carnal, associada à conversão.

Esta referência pode parecer erudita e inepta sob o ponto de vista político. Mas basta pensar que em boa parte do século XIX em França se tentou impor a tese de que o povo era celta dominado por uma aristocracia germânica, tese republicana por excelência. A tese falhou. E falhou bem mais que sob o ponto de vista científico. Nunca teve apelo geral para as massas. Da mesma forma, os negros quinhentistas de Lisboa desapareceram da nossa vista pela simples razão de que se fundiram com a restante população.

O caso judaico é significativo sob o ponto de vista civilizacional. Enquanto na Europa a única minoria eram os judeus, estes tornaram-se a minoria mimada, e puderam ser testados os modelos de solução mais variados. Como experimento foi útil, ou melhor, teria sido se tivéssemos aprendido alguma coisa com ele.

Perante as minorias muçulmanas na Europa, todas as soluções supostamente modernas falham, e são frequentemente as pessoas de origem judaica em França que mais apelam para o modelo da assimilação, para o laicismo, para a separação entre espaço público e privado. Tanto mais o fazem, mais se verifica que o mais comum é terem uma especial fidelidade a Israel, o que é legítimo, mas mostra que a dupla pertença é sempre condicional. Esquecem-se, por outro lado, de dar o exemplo alemão de entre guerras como o de mais sucesso e de mais desastrosos resultados. Ainda mais intensificam, mais enfatizam a natureza meramente estética e ética do cristianismo, exigindo uma adesão a um património cultural na sua versão adulterada, liofilizada, tornado religiosamente inerte.

Vinho novo em odres velhos, antigas soluções para problema novo na sua dimensão e contornos. Se tudo falhou até ao momento não é a intensificação que dá remédio. A intensificação apenas denota o desespero de quem a propagandeia. Não é o laicismo que tem de ser intensificado, a estética e a ética enfatizadas, ao contrário do que faz o mundo moderno. Mas perceber que uma civilização é assunto sério demais para ficar por tratados e manuais, ideias ou pior ainda máximas portáteis. Uma civilização é algo que nos penetra a carne, que faz dela parte integrante. Não se admire pois quem dela quer fazer mero letreiro que não sirva de guião.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A questão judaica I

No século XIX e até à II Guerra Mundial ainda era perfeitamente respeitável falar da questão judaica. Autores insuspeitos como Marx dedicaram-se a ela. As teorias abundaram, mais ou menos bem-intencionadas, mais ou menos simplistas. É facto trivial que assim seja, e não nos pode fazer espantar.

A questão é que depois da II Guerra Mundial, ou mais precisamente na percepção do grande público, desde os anos de 1970, tornou-se impossível discutir a questão judaica sem ser acusado de defensor do sionismo ou de anti-semita.

O resultado é que os sentimentos ficam subterrâneos e, bons ou maus, revelam-se de forma ínvia. Os ditos intelectuais de origem judaica dizem que não é muito bonito matar pessoas mas que foram os palestinos quem começou (é o argumento clássico da vingança) os bem pensantes anti-semitas choram apenas pelo sofrimento dos palestinos e vêem semelhanças entre o Estado de Israel e o nazismo. Toynbee, de entre os mais prestigiados, foi dos primeiros a fazer este aparelho.

Já em tempos disse que o problema não é terem uns razão e outros não. O problema é terem todos razão. Quem se vinga tem sempre razão, o que não percebe é que entra num ciclo infinito de vinganças. Kadaré e Girard viram bem isso.

A questão judaica parece que desapareceu da Europa, mas em boa verdade trata-se de um tabu religioso. Todas as épocas criaram tabus e a nossa, que gosta de se ver como racional, é apenas por isso apenas mais cega às suas irracionalidades, salvo as oficiais. Criaram-se como campo da irracionalidade zonas especializadas como o sexo e a morte, os velhos «eros» e «tanathos» (dito em grego parece sempre mais científico), e ficamos mais descansados, porque nos restantes campos parece não existir irracionalidade.

Será assim? Não sejamos ingénuos. Não é. A nossa época lida muito mal com a (ir)racionalidade e prova disso é impor no espaço público o insulto e a indignação. Duas formas de ódio, dois prolegómenos da vingança.

A questão judaica é instrutiva para a Europa num outro sentido muito diverso. O do problema de integração. Os judeus foram as principais cobaias da integração na História recente, e dão-nos fortes ensinamentos na matéria.

Sempre que surgem populações de etnias diversas, surge o problema da sua integração. Os romanos, que não eram tontos, usaram medidas muito sábias e muito brutas na matéria. A primeira foi o morticínio. Pensa-se que na Gália foram mortos um milhão de gauleses com a conquista de César numa população total de doze milhões de pessoas. Os números estarão sempre sujeitos a cautela, mas bastam-nos para os efeitos que nos interessam.

Um dos primeiros passos para a integração é muito simples: matar. Assim de esgotam as forças do potencial inimigo.

Outro passo é o de federar. Foi o que os romanos fizeram com várias tribos bárbaras ao longo de suas fronteiras.

Mas, num e noutro caso, seguiu-se uma política não menos consciente de romanização. Ou seja, proibição de cultos considerados perigosos (a dita tolerância pagã teve sempre limites), como se viu com a perseguição aos druidas e aos sacrifícios humanos. Imposição da língua, do direito, de estruturas municipais romanas, sincretismo de deuses (a boa teocrasia, para falar eruditamente), a boa da interpretatio

 

Em suma, recebe-se, a bem ou mal, e de seguida romaniza-se. Se esquecermos a parte oriental do Império, em que o processo obedeceu a diversas categorias, são estes os passos com as culturas consideradas menos civilizadas.

Ora, foi este o processo que se operou em relação aos judeus, mostrando que na Europa estes eram considerados menos civilizados. Uns mortos, outros aceites, por vezes segregados. Mas o período de emancipação judaica, basicamente a partir de meados do século XVIII, e ao longo de todo o século XIX, é um período de europeização dos judeus. A Europa não recebe rituais judaicos, os judeus abriram-se, ou são obrigados a aprender a cultura europeia.

Primeira verificação, ao contrário do que muitas vezes se pretende, os judeus eram considerados um sub-proletariado subdesenvolvido de cultura inferior. Não foi o Talmude que se impôs na Europa, mas os judeus que tiveram de aprender a matemática, a física, a análise musical, a filosofia europeias. Até ao fim do século XVIII, se retirarmos Espinosa e folclóricas referências a Maimónides, o pensamento judeu, as empresas de judeus e políticos judeus são coisas que não têm grande relevância na Europa. É com Lessing que se começam a ver judeus ilustres na cultura.

A segunda verificação a que somos forçados é que esta emancipação não decorreu de um movimento de revolta dos judeus na Europa, que teriam lutado pelos seus direitos. Os judeus eram numericamente irrelevantes, sem poder económico, cultural ou político. A emancipação dos judeus decorre de iniciativa cristã, decorre da generosidade dos cristãos. Não é bonito dizê-lo hoje em dia, mas tenhamos coragem de ver os factos. Nada obrigava o pensamento das Luzes a pensar numa emancipação judaica. Os judeus não tinham força para a impor. Foi um acto de generosidade.

A terceira verificação é bem mais dura. Como se passou esta «romanização» dos judeus? A verdade é que a sociedade com que se depararam era cristã. No século XIX não havia dúvidas sobre a natureza cristã da civilização europeia. Nem Bauer nem Marx a põem em causa. Como se aculturar numa civilização cristã quando não se é cristão, quando nos definimos precisamente por não ser cristãos?

A verdade é que encontramos entre as pessoas de origem judaica os maiores entusiastas pelo gótico, pela música sacra europeia, por Bach e… lembremo-lo sem medo, por Wagner. Os maiores apaixonados da cultura alemã e francesa encontramo-los muitas vezes entre judeus. Mas o paradoxo é evidente. Como nos podemos apaixonar por uma cultura cristã, ser os seus maiores arautos, e ao mesmo tempo recusar a religião? A solução foi simples e dupla ao mesmo tempo. A metamorfose e a ênfase.

O cristianismo é transformado em fenómeno meramente ético e estético. Se é o Estado cristão, em nome de princípios cristãos (como o Estado prussiano e outros tantos alemães directamente), mesmo que em sucedâneo na forma de princípios liberais, que nos dá liberdade e igualdade, o Estado e a sociedade cristãos são válidos enquanto ética. Da mesma forma, se o cristianismo fez tais obas de cultura, é acolhido enquanto estética.

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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O referendo inglês II

Perante esta possibilidade poderíamos concluir que o cenário oposto seria consolador: a Inglaterra fica na União Europeia. Será assim? Lamento afirmar que não.

 

Há três possibilidades: a Inglaterra obtém excepções substanciais, obtém vantagens meramente formais ou não obtém vantagens nenhumas com a negociação que pretende fazer com a União Europeia. Os cenários são diversos mas têm um elemento comum. Seja qual ele for, a Inglaterra não ficará satisfeita.

 

Em 1975 já houve um referendo inglês sobre o mercado comum. Nessa altura até a senhora Thatcher foi a favor da manutenção da Inglaterra na então CEE. O povo inglês disse sim… e não ficou mais satisfeito. Por isso, seja em que caso for, caso a Inglaterra se mantenha, apenas adiamos um problema. Os ingleses ficarão insatisfeitos. Thatcher votou a favor, Cameron fará o mesmo… e depois mostrará a sua insatisfação, como a sua predecessora.

A diferença entre as possibilidades não se centra portanto no facto de os ingleses nada terem do que querem, só terem migalhas ou terem efectivos ganhos. Na perspectiva da Europa, fazer concessões será relativamente indiferente quantos aos efeitos e será uma perda de autoridade. A mudança dos tratados para acomodá-los a um membro já antes pleno, exigirá os custos normais da modificação de tratados… e para ficarem piores.

A diferença estará eventualmente na postura da Inglaterra caso consiga vantagens substantivas. A que mais se refere neste momento é a da restricção da liberdade de pessoas. Não deixa de ser curioso que quem defende uma Europa democrática queira restringir a liberdade das pessoas. Não quer uma Europa mais próxima dos cidadãos, mas mais longe… para poder dizer que não é democrática. Na política externa haveria uma mudança evidente. A Inglaterra que em tempos foi paladina da adesão turca voltará a sê-lo. Durante anos tinha esperança que os turcos fossem para a Alemanha ou para a Bélgica e por isso era entusiasta. Bastou ver romenos e polacos entrar em grande número em Inglaterra para esfriar o seu entusiasmo. Estando liberta da livre circulação. Far-se-á de novo paladina da adesão turca. A Inglaterra adora os turcos… lá.

Vantagens substantivas dadas aos ingleses teriam outro efeito pernicioso. Outro país que queira modelar a Europa à sua imagem deixará de pensar duas vezes antes de o fazer. Mas também mostraria que há países de segunda e de primeira. A Inglaterra, porque é grande, poderia ter um regime especial, países pequenos não poderiam negociar. A humilhação dos pequenos países não seria pequena. Mais uma vez por força do Reino Unido.

 

Concessões substantivas seriam uma desautorização do projecto europeu. Vantagens formais seriam uma farsa que não enganam ninguém. Vantagem nenhuma humilharia os ingleses (embora de seu exclusivo feito) e reforça a autoridade da União Europeia.

Avento apenas uma hipótese para reflexão. E se desde logo ficasse claro que não há qualquer renegociação? Que quem celebrou o contrato, se quer estar que esteja, se quer sair que saia?

Como vimos, a manutenção da Inglaterra trará sempre insatisfação britânica. Que perde realmente a Europa caso a Inglaterra saia? Não será de pensar que perdem bem mais os ingleses saindo que nós perdendo a sua participação?

Lembro de novo, a hipótese não é agradável, mas a hipótese de ficarem também se anuncia infernal.

Admito. Pode-se dar o caso de eu ter fundamentos caracteriais para colocar esta hipótese. Parece-me muito malcriado estar sempre a ameaçar divórcio. A lassitude instala-se no casamento. Se não estás feliz, por favor sai para que o possas ser. Para onde podes sair? Melhor o saberás. Se para o meio do Atlântico, se para as Bermudas.

O cenário parece complexo, mas afinal simplifica-se. O que quer a Inglaterra não é uma excepção num avanço pretendido, mas pretende um recuo dos dados elementares da União Europeia desde a sua origem, nomeadamente os da livre circulação de pessoas. Já em tempos no parlamento inglês se ameaçou que se sairia da Convenção Europeia dos Direitos do Homem porque o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem estatuiu que os presos tinham direito de voto nas eleições, ao contrário do que certa legislação britânica impunha.

Aceitar um recuo seria admitir que países fascistas poderiam fazer parte da União Europeia, porque uns não queriam a Convenção Europeia dos Direitos do Homem, ou afinal já não queriam os princípios democráticos, ou pretendiam recuar nesse sentido. Alguns países dos Balcãs ou da Europa Central poderiam sentir essa tentação. A Grécia já tem um partido fascista na coligação governamental e vive-se bem com isso. A Hungria tenta-se, e vamos deixando tentar-se. Outros acabariam de vez com a livre circulação de pessoas, outros quereriam fraccionar o «acquis communautaire». Haveria para todos os gostos.

As excepções até ao momento, os chamados «opting out», ocorreram sempre em relação a avanços na integração. Admitir renegociações com a Inglaterra, por mais irrelevantes que fossem os temas renegociados, seria desautorizar toda a construção europeia.

 

Mas, e já o vimos, seja qual for o resultado, a consequência na Inglaterra seria sempre a mesma: caso ganhe o «sim» a estada na União Europeia, a Inglaterra manifestará a sua insatisfação. E precisamente da parte dos que votaram «sim» e dos que fizeram propaganda por ele. Isto simplifica-nos a vida. Se conceder não gera nenhum ganho, há todo o ganho em nada conceder. Não concedamos nada, pois. Deixemos à Inglaterra a liberdade das suas decisões, e a liberdade das suas consequências. Quer sair? Que saia? Digo isto sem acrimónia nenhuma. É de seu direito, é de seu destino. A sua coerência exonera-nos. Sempre insatisfeita, dá-nos o direito de nos ser indiferente a sua insatisfação. Ao menos que não estrague o que não fez.

Concluamos: sendo sempre o resultado o mesmo, ficamos livres de decidir. A sua insatisfação liberta-nos. Que seja crescida e faça o que quiser. Nós faremos por nossa vez o que queremos. Que não nos seja concedido, nem pela forma. Que não concedamos, nem pela forma. Ambos ficaremos assim satisfeitos, finalmente. Porque ambos queremos ser livres na nossa vontade.

Dando-se o caso, que fiquemos calados. Que os políticos europeus apenas digam, «que se respeite a vontade do povo britânico». À volta que se estenda o silêncio. O respeito e a indiferença podem em alguns casos conjugar-se. Em vez de coro que tenhamos meditação. Da minha parte falo agora para melhor estar a vontade para me calar depois. Quando a matilha se puder a ladrar já podermos estar instalados nos nossos cavalos.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O referendo inglês I

Anuncia-se portanto o referendo inglês. Compreendem-se as necessidades de curto prazo de natureza eleitoral do governo inglês ao fazer essa promessa – afinal queria ganhar as eleições. «Paris vale uma missa». Seja. Mas qual vai ser o cenário que se segue?

Dizem boas ou más-línguas que o senhor primeiro-ministro britânico vai apoiar o «sim» à permanência na União Europeia, e que em suma apenas faz o referendo para que o povo britânico se possa pronunciar. Seja, igualmente.

Mas como velho aprendiz de feiticeiro do nosso Goethe, talvez esteja a mexer em fenómenos que o ultrapassam. O custo de uma vista curta pode ser um problema longo.

Vejamos então os cenários possíveis: ou ganha o «não», ou ganha o «sim». Em suma, ou a Inglaterra sai da União Europeia, ou não sai.

Se a Inglaterra sair, e então? Não é bom para a União Europeia, é certo. Perde dimensão, fica uma ferida mais a juntar ao problema grego. Nada na vida é só bom ou só mau. Seria ridículo dizer que a saída da Inglaterra seria inócua para a União Europeia. Tem tido um papel muto importante na maior integração europa, nem que seja por contraste. Os países mais eurocépticos, perante o exagero britânico, tendem a afastar-se desse rumo e ficam mais eurófilos. Mas a verdade é que a União Europeia não perde a sua capacidade de expansão. Há ainda países dos Balcãs e eventualmente pode centrar as relações com a Rússia. A vida coloca problemas, mas dá soluções. E o peso que tem a Inglaterra na União Europeia não é comparável com o peso que a União Europeia tem no Reino Unido.

Mas que custo teria o Reino Unido? Em termos internacionais, a aliança privilegiada com os Estados Unidos poderia ficar efectivamente incólume (com todos os seus malentendidos e ressentimentos, é certo), mas um dado duro, frio, objectivo, impor-se-ia: o Reino Unido sozinho não teria peso bastante para ser parceiro significativo dos Estados Unidos. Manter-se-ia como aliado, mas a União Europeia em proporção seria um aliado bem maior, mais estratégico, mais relevante. A vida é dura e cada um tem o tamanho que pode. As relações com a Europa não terminariam, mas o Reino Unido perderia direito de voto na regulação europeia e, sendo muito mais pequeno que a Europa, acabaria por ficar bem mais dependente do que outros decidissem que se estivesse dentro a União Europeia. Para um país que, não entrando no euro, queria ter lugar marcado no directório do euro caso entrasse, seria rude golpe.

Lançando-se numa expansão mais livre na aparência, apenas somaria a uma maior irrelevância do lado esquerdo a uma maior submissão do lado direito.

Internamente tal saída não sairia de graça para o Reino Unido. Os escoceses deixaram bem claro que se querem manter na União Europeia. Tendo a Inglaterra dado o exemplo, um futuro referendo escocês não seria tão certo a favor a manutenção da União britânica, desde que a Europa não colocasse entraves à adesão da Escócia, como antes fez. O País de Gales, mais pobre e mais explorado (não são nunca os mais fracos quem reclama, já o sabemos), poderia começar a ver-se tentado pela solução escocesa. E a longo prazo teríamos uma Inglaterra reduzida ao que é: Inglaterra. O que não é nada mau, mas é pouco no mundo actual.

Mas nas zonas que não fariam secessão o mal-estar aumentaria. O Norte de Inglaterra, mais pobre, poderia começar a levantar problemas, e a insatisfação social e as divisões regionais poderiam acentuar-se.

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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Cédric Villani – Théorème Vivant / Cédric Villani – Teorema Vivo


 

 

Gauss ne montrait pas ses travaux préparatoires. Poincaré en a avoué quelque chose, Hadamard en a un peu théorisé. Villani montre les preuves et les documents de la naissance d’une théorie scientifique. Présentés souvent en cru, ils peuvent épouvanter les non experts. Pourtant, l’essentiel ce n’est pas de  comprendre, en toutes ses dimensions techniques, chacun d’entre eux. Pour comprendre la beauté de la croissance  d’une plante on n’est pas tenu d’être spécialiste en physiologie végétale et chimie organique. Les essais, les paris éduqués, les espoirs, les erreurs, les hésitations, la vie familiale, les relations d’amitié et sociales, les goûts littéraires et artistiques, les préoccupations professionnels, tout ça fait partie de la création scientifique.

Tout ça montre aussi la continuité et la fécondité de la science. On fait entendre souvent que la physique classique, tant «dépassée», est simple limite de nouvelles théories plus robustes et plus étranges. Pourtant, elle continue à nous présenter  des surprises. L’équation de la dynamique des fluides d’Euler, et, surtout centrale dans le parcours de Villani, l’équation de Boltzmann sont encore objet d’étude, elles n’ont pas révélé tous ces secrets, et sont encore fécondes soit du point de vue théorique, soit pratique. Elles aussi révèlent un monde qui est en somme aussi ordonné et aussi étrange que celui de la physique contemporaine.

L’étrangeté, le «contre-intuitif» est finalement un concept historique. Poincaré étonne ses collègues en montrant l’instabilité du système solaire, contre leurs «intuitions». Kolmogorov dans les années de 1950, en face des «intuitions» contraires de ses collègues, démontre que le système solaire est probablement stable. Et dans les années de 1980 Jacques Laskar démontre le contraire. L’amortissement Landau lui aussi est un inattendu phénomène de stabilisation dans un monde qui se croyait instable.

Dans ce livre on montre aussi la fécondité de Boltzmann, un physicien du XIXe siècle, qui montre encore toute son actualité. Pour les littérateurs Duino est le lieu des Elégies de Rilke, pour quelques scientifiques c’est celui où Boltzmann s’est suicidé. Ils ont les deux autant de rigueur que d’artiste. La création  mathématique ne se distingue point des autres créations humaines en son essence. Elle aussi participe de la vie humaine, de ses problèmes, de ses peurs et de son imagination. Ce livre prétend en être témoin. 

Gauss não mostrava os seus trabalhos preparatórios, Poincaré confessou alguma coisa, Hadamard teorizou um pouco sobre isso. Villani mostra as provas e os documentos do nascimento de uma teoria científica. Apresentados muitas vezes a cru, podem assustar os não especialistas. No entanto, o essencial não é perceber, em todas as suas dimensões técnicas, cada um deles. Para se perceber a beleza do crescimento de uma planta não tem de se ser especialista em fisiologia vegetal e química orgânica. As tentativas, os palpites educados, as esperanças, os erros, as hesitações, a vida familiar, as relações de amizade e sociais, os gostos literários e artísticos, as preocupações profissionais, tudo isto faz parte da criação científica.

Mostra igualmente a continuidade e a fecundidade na ciência. Muitas vezes dá-se a entender que a física clássica, tão «ultrapassada», é mero limite de novas teorias mais robustas e mais estranhas. No entanto, afinal ainda continua a revelar surpresas. A equação da dinâmica dos fluidos de Euler, e sobretudo central no percurso de Villani, a equação de Boltzmann, ainda são objecto de estudo, ainda não revelaram todos os seus segredos, e ainda são fecundas seja sob o ponto de vista teórico, seja prático. Também elas revelam um mundo que é em suma tão ordenado e tão estranho quanto o da física contemporânea.

A estranheza, o «contra-intuitivo» é afinal um conceito histórico. Poincaré espanta os seus colegas ao mostrar a instabilidade do sistema solar, contra as suas «intuições». Kolmogorov nos anos de 1950, perante as «intuições» contrárias dos seus colegas, demonstra que o sistema solar é provavelmente estável. E nos anos de 1980 Jacques Laskar demonstra o contrário. Também o amortecimento de Landau é um inesperado fenómeno de estabilização num mundo que se julgava instável.

Neste livro mostra-se também a fecundidade de Boltzmann, um físico do século XIX, que ainda mostra toda a sua actualidade. Para os literatos Duino é a terra das Elegias de Rilke, para alguns cientistas, é o local onde Boltzmann se suicidou. Têm ambos de rigor e ambos de artista. A criação matemática não se distingue da restante criação humana no seu essencial. Também ela participa da vida humana, dos seus problemas, dos seus medos e da sua imaginação. Este livro pretende ser testemunho disso.
 
Alexandre Brandão da Veiga

 

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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A Síria não é árabe


 

E eis que as grandes migrações começam. Bem sei que não vêm apenas da Síria, mas do Iraque, Afeganistão, Eritreia, da África sub-sahariana.

 

Mas a Síria é significativa em múltiplos sentidos. É um pais árabe, dizem-nos, muçulmano, na maioria, sunita, em maioria relativa. Seria pois de esperar que se dirigissem para um país árabe por excelência, muçulmano por natureza e sunita centralmente. Nada mais, nada menos… que a Arábia Saudita.

 

E eis que nenhum eles pretende ir para a Arábia Saudita.

 

Os célebres e ditos países árabes não o são. São arabizados. Os árabes, os verdadeiros, os da Península Arábica, nunca sentiram os outros como árabes na verdadeira acepção, mas apenas arabizados. Da Síria a Marrocos os que se anunciam como países árabes deveriam reflectir sobre a nula solidariedade da Arábia Saudita. Largam dinheiro a salafitas, financiam terroristas, despejam fortunas em propaganda, mas não acolhem, e muito menos patrocinam o acolhimento de supostos árabes.

 

Os verdadeiros árabes, os da Península Arábica, nunca consideraram os outros como verdadeiros árabes, mas meras imitações. No que respeita à Síria e ao Líbano e ao Egipto, os três países mais cultos de entre os muçulmanos, os árabes verdadeiros desprezam-nos por serem pobres e mera imitação, invejam-lhes uma História muito mais antiga e mais profunda cultura.

 

Podemos perceber que os sírios não queiram ir para o Egipto ou para Marrocos. Não são países ricos. Mas porque não a Arábia Saudita? É rica, bem o sabemos.

 

É pelo clima árido que nem pensam emigrar para lá? E quem desconhece a dureza do Inverno alemão e sueco?

 

Os sírios muçulmanos preferem a Alemanha à Arábia Saudita. Quando dobram a espinha inclinam a cabeça para Meca, mas quando pretendem viver como homens viram-lhe o traseiro. Praticam a apostasia com os seus pés, abjuram com a sua decisão. Dizem: Só os cristãos sabem fazer sociedades onde os homens podem viver como homens. O islão não é capaz de o fazer. Apostasiam com os pés e não com o coração. Esse o seu problema e futuramente o nosso.

 

Mas a vida tem ainda mais paradoxos. O suposto moderno, aberto, rico de ideias, generoso governo grego mostra-se indiferente à sorte dos migrantes. Afinal, é fresco ter um governo com um partido protofascista, como o da independência grega. E os dois símbolos de acolhimento e abertura nesta crise são os símbolos retrógrados por excelência: Merkel e o Papa.

 

A Alemanha é rica, precisa de migrantes, tem um problema demográfico? Mas não é isso que dizem de toda a Europa? E, no entanto, nem todos os países têm manifestações à chegada dos comboios a receber os migrantes e a dizer que são amados. Tanto Merkel como o Papa invocam os valores cristãos do acolhimento. E vemos os bem pensantes bramir discursos, mas fazer bem pouca coisa.

 

A comédia humana continua, sempre com máscara da tragédia. A Europa não quer muçulmanos que apostasiaram com os pés sem o saber, os países árabes por excelência mostram aos arabizados que não o são, mas mera imitações, os arabizados não percebem o desprezo dos países da Península Arábica, são as figuras da reacção a promover o acolhimento em nome dos valores cristãos.

 

Delicioso Outono do humor, prenúncio de novas tragédias. Os fracos conceitos teóricos da ciência política comum esfarelam-se sobre os nossos olhos e ninguém os tenta reformar. Qualquer ciência humana que não dê lugar à tragédia e à comédia não é escolar, seria elogio no caso. É apenas pobre, pobre, pobre. Que não se deixe de olhar para o mundo quando se olha para os livros. Que os arabizados reflictam porque pensam ir para a Europa para se sentir humanos e não para Medina. E que os europeus pensem se lhes basta a civilização para serem humanos quando a palavra de acolhimento recorre sempre à mesma Pessoa.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O caso grego III


Falemos então de eficácia.

 

E também nesta matéria vejo alguns argumentos que me deixam perplexo.

«Vê-se que esta política não funciona, veja-se o estado da Grécia». Admito. Mas como argumento é incompleto e pouco rigoroso. Existe uma coisa em economia chamada mecanismos de transmissão. Quais são e quanto tempo duram a actuar no caso grego? Com que medida teriam de ser complementados caso fossem as medidas adequadas? Não posso dizer sem mais: este doente, desde que está fazer quimioterapia, está cada vez pior, sente-se cada vez mais mal disposto, logo, a quimioterapia não está a funcionar. Seria tão fácil dizer que sim, quanto é fácil dizer que não. Fundamentar é sempre mais difícil que aderir ou recusar.

Outro argumento é o do suposto keynesianismo. Pobre Keynes, para o que é usado. O problema é que este suposto keynesianismo viola os dois postulados keynesianos: o défice não é cíclico, compensado por superávites, mas o défice é constante; e desconheço como pode haver multiplicador numa economia aberta. Numa economia aberta apenas há dissipação. Que me lembre, o próprio Keynes terminou mercantilista, favorecendo a preferência imperial. Como todos, teve de fazer uma escolha. Para manter o multiplicador teve de sacrificar o livre comércio, como Einstein para preservar as belíssimas equações de Maxwell teve de sacrificar os referenciais absolutos no espaço-tempo. Nenhum dos dois era tonto e ambos sabiam que sempre que queremos preservar algo temos de fazer sacrifícios. Que majestoso «a contrario»…

Entendamo-nos. A situação da Grécia leva-a a carecer de ajuda europeia. A ajuda externa não se nega à partida, mas não se concede incondicionalmente. Mas se estivermos a falar entre adultos teremos de ver o que é essencial sob o ponto de vista de eficácia. E condição necessária, seja qual for o cenário (Aristóteles era grego afinal) é que os gregos façam por eles o que os outros não podem fazer.

A reforma das instituições é necessária. Em boa verdade, dizem outros, é preciso nuns casos reconstruir, noutros mesmo construir pela base as instituições. Concordo plenamente. Instituições públicas, mas também privadas, mudar leis, reconstruir organismos. Sem dúvida.

Mudar instituições é também mudar os casos clássicos de privilégios fiscais. Sem dúvida. Embora aqui tenhamos de pensar duas vezes. Os privilégios dos armadores, se forem na íntegra destruídos, podem levar a deslocalização da actividade económica. Uma taxa liberatória ou um sistema semelhante poderia ser pensado. Quanto aos privilégios da igreja ortodoxa temos de perceber que a História grega não é igual à do resto da Europa. No século XVI a Europa do Norte, no início do século XIX a Europa católica, destruíram o poder temporal da igreja, reduziram o seu património. A Áustria pós napoleónica poude ser mais josefina que José II. Napoleão deu-lhe essa possibilidade. Já a igreja ortodoxa grega tem um significado bem diverso para os gregos. Em quatrocentos anos de dominação turca foi a única instituição que tratou os gregos como seres humanos. Os gregos têm todas as razões para se sentirem gratos em relação a ela. E isso só mostra a sua dignidade. Mas têm de ser consequentes. Acho nobre que não queiram a fazer a igreja pagar. Mas então que paguem eles. Tiradas de nobreza com facturas mandadas a terceiros perdem algum do seu brilho, convenhamos. É uma escolha grega, em suma, não uma obrigação. Quando às forças armadas, haverá que distinguir o que são privilégios dos militares, do que é substancial esforço de defesa da Europa, apesar de tudo.

Mas a maior reforma a fazer na Grécia é de mentalidade. Séculos de falta de independência e de maus exemplos de governação (turca, mais uma vez) não deram à Grécia bons modelos de governação.

Resumamos tudo a uma só palavra. Complacência. Esse o pecado grego e o do Sul da Europa. Mais especificamente as cinco complacências mortais:

a)       Complacência em relação à corrupção;

b)      Complacência em relação à evasão fiscal;

c)      Complacência em relação ao tráfego de influências;

d)     Complacência em relação à mentira contabilística e organizacional;

e)      Complacência em relação à má qualidade de gestão, pública e privada.

O problema grego, como em geral o do Sul da Europa, é o da falta de exigência. Para consigo e para com outros. Não acuso todos os gregos, nem todos os europeus do sul disto. Sou do sul e não me considero culpado disto. Mas colectivamente os povos do sul, em graus diversos, vivem bem com estas pestes, estas maleitas públicas.

Tendo os povos do sul resolvido esta peste da complacência, muito mudaria nas suas condições económicas. Mas este é em primeiro lugar trabalho deles. Carecem de ajuda? Sem dúvida. Mereceram-na, será útil? Talvez nem tanto, enquanto não houver a certeza de que farão o trabalho de casa.

Significativo, sobretudo para quem tem o olhar de etólogo que vê os animais a comportar-se em conjunto, é a distância entre o discurso e a realidade. O discurso é tribunício, dos que choram com a humilhação de Grécia e a tratam como mera vítima. Vítima do mundo, das finanças, das elites, dos seus governos democraticamente eleitos, dos governos democraticamente eleitos de terceiros povos, dos turcos. O discurso de indignação é um discurso de ódio, já dizia a velha retórica clássica. Por isso bem se percebe que para quem discursa sobre a Grécia, a Grécia é um mero pretexto. Não é a Grécia que os preocupa, mas antes a demonização de terceiros. Os que dizem defender a Grécia usam-na apenas. Agradecem que esteja mal, que não resolva os seus problemas. Preferem aliás que não os resolva. O seu sofrimento serve-lhes de tópico argumentativo, não de preocupação. É odiar que os ocupa, a Grécia apenas rastilho desse ódio. Os que antes acusavam os gregos de serem contra os turcos, de terem uma igreja presente demais na sua vida política e social, de serem seguidores submissos da União Europeia, pretendem atirá-la como cão raivoso e ingrato aos seus vizinhos. Lacrimejam pelo que sempre desprezaram, invocando o que de mais falso existe quando exposto: os bons sentimentos. É o ódio que celebram, do ódio vivem. Se com isso a Grécia se queimar, não há para eles problema.

Significativo igualmente para quem se reclama de Nietzsche, sempre que quer ter brasões de pensamento, não perceber que representa o pensamento do escravo, do criado. A invocação do estatuto de vítima é tudo o que Nietzsche desprezava, e com alguma razão. Desprezou as vítimas, sempre. É a voz da copa que se ergue, entre os argumentos das capelistas e as empregadas de tabacaria que se pretendem deputadas. Em linguagem mais popular: sejam homenzinhos e não façam birra como crianças. Entre adultos ajudamo-nos. Perante a birra da criança, ignoramo-la.

A nossa época exige que se termine com uma declaração de simpatia. Não cumpro a exigência, apenas lembro alguma verdade. Os que se lembram de simpatizar agora com a Grécia, que estudem os Cídon, os Cabasilas, os Calecas, os Gregórios Palamas, os Andrónico Paleólogo, o Digenes Akritis, Miguel Psellos e tantos outros, como de há muitos anos faço. Que tenham tido alegria com a libertação grega, como a Alemanha do início do XIX fez, entre as jogadas estratégicas da Áustria, da Inglaterra e da França. Só depois se façam amigos dos gregos. Úteis como armas de arremesso, não é dos gregos que cuidam. Querem carne para canhão, e mais uma vez usam os gregos para essa tarefa. A diferença é que hoje em dia mudou o sítio que faz uso dos gregos como peão estratégico. Antes eram chancelarias, hoje são copas.

 
Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 4 de agosto de 2015

O caso grego II


A mais usual é a instância da legitimidade. A maior discussão centra-se na legitimidade que têm os gregos para exigiram novos perdões, são vítimas da finança internacional, das humilhações alemãs. Enfim, uma longa História de martírio e vitimização.

 

Que a discussão se centre na legitimidade explica-se por razões antropológicas. Se bem repararmos, a fauna que discute está banhada pela modernidade presente (há muitas modernidades). E esta modernidade caracteriza-se pela imensamente pobre teoria dos valores, pelo excesso de direito e pelo paradigma do adolescente vítima. Tudo é vítima, até os povos e os governos democraticamente eleitos.

A questão é que os gregos não têm qualquer legitimidade.

Em primeiro lugar, que me lembre, a dívida que fizeram foi criada por governos democraticamente eleitos. Não me lembro do dia em que os gregos, como aliás os restantes povos do Sul da Europa, tivessem recebido uma ameaça para fazerem mais dívida. Admitir que a sua dívida é ilegítima é afirmar que governos democraticamente eleitos são ilegítimos.

Em segundo lugar, o argumento é o de que os gregos foram vítimas da finança internacional, dos malandros dos bancos e das suas maldosas propostas de créditos. Este argumento em relação a simples particulares já merece algumas subtis distinções. Mas quando estamos a falar de Estados, que têm profissionais especializados a negociar dívida pública, parece-me que caem pela base. Se os bancos engaram os pobres funcionários gregos isso apenas quer dizer que mesmo as instituições de elite gregas são formadas por incompetentes que se deixam enganar na área da sua especialidade, a finança. Esse argumento apenas implicaria que o Estado grego precisaria de uma limpeza fortíssima. Se mesmo as suas elites são constituídas por incompetentes, carece de um saneamento enérgico. É o velho mito de que o soberano, no caso o povo, foi vítima de maus conselheiros. Mito da gleba, é bom de se ver.

Em terceiro lugar, teriam sido as elites as culpadas e não o povo grego. Mais uma vez, o que se pretende afirmar é que o povo grego votava, mas o poder político era uma brincadeira. A verdade é que o povo grego – e mais uma vez saliento, como a maioria dos povos do sul da Europa -, sufragou promessas eleitorais demagógicas, irrealistas, lesivas dos seus interesse de logo prazo. Um povo numa democracia é soberano, não é vítima.

De seguida vem um rol de inépcias da parte dos anti-europeístas, que de repente se lembram da grandeza e do sofrimento da Grécia. Cada um destes argumentos centrados na legitimidade cai pela sua inépcia.

Devemos aos gregos a democracia, uma imensa cultura… este argumento apresenta tantos vícios que se torna difícil desfiar todos eles. Estamos a falar dos mesmos gregos que os de há 2500 anos? Mesmo que estejamos, por que razão para os povos continua a valer um princípio aristocrático que foi recusado para as pessoas singulares? Que pensamento pervertido é este que recusa que eu lembre a grandeza dos meus antepassados por isso ser considerado presunção, mas já considera perfeitamente legítimo que um povo fale dos seus «egrégios avós», quando é duvidoso que a maioria dos avós o sejam? Não percebem as pessoas que a comparação com os meus antepassados reais apenas mostraria a decadência a que cheguei, porque tenho de trabalhar para viver, assim como comparação entre a Afrodite lavadeira e a deusa apenas sublinha que nada vai a favor da primeira. E quanto ao que devemos aos antigos gregos, lembremos que o aprendemos em senhores como Voss, von Willamowitz-Moellendorf, Polhenz, Jaeger, Erwin Rohde, Usener… alguém mais atento há-de reparar que refiro nomes alemães.

Também se lembra agora alguma fauna do imenso sofrimento que tiveram os gregos durante a dominação turca. Não deixa de ser curioso que os mesmos que lutaram pela adesão turca porque querem uma Europa em desagregação, e que por isso sempre insistiram na maravilha europeia da cultura turca, agora se lembrem que a Turquia humilhou e explorou de forma cruel durante 400 anos os gregos. Para esquecer este argumento da próxima vez que defenderem adesão turca…

 

Mas as eleições foram democráticas, e por isso os gregos têm o direito de exigir a renegociação da dívida. Bom argumento este. Na minha casa com a minha família decido democraticamente, aliás por unanimidade, que o meu vizinho nos tem de sustentar. Anunciamos-lho com amorosa alegria e celebração democrática que decidimos que ele nos sustentasse. E não e que o fascista do vizinho não quer respeitar a vontade democrática da minha família e não me quer sustentar? Admita-lo: os vizinhos podem ser por vezes muito desrespeitadores da vontade e da desgraça dos outros.

 

Mas o argumento de legitimidade mostra que este só é possível numa época pouco exigente intelectualmente. Vejamos: quem são os culpados? Não o povo grego, mas as suas elites, os ricos e os políticos. Mas estes foram por suas vezes vítimas. De quem? Das finanças internacionais e dos credores. Mas quem faz parte destes credores? Países democráticos em que os povos se identificam com os seus governantes, como os países nórdicos, e do centro e leste europeus. Ou seja, um povo que diz que foi enganado pelos seus políticos, em quem não confia, culpa em último grau governos que são objecto da confiança do povo. O pecado alemão no fim de contas é o de ter um povo colaboracionista, em acordo com o seu governo, por não se sentir traído por ele, mas por ele representado. Não era suposto ser isto a democracia? De todo. Na imagem do mundo que subjaz aos que defendem as veleidades gregas, democrata é o «maquisard», o salteador de estrada que rouba os ricos, mesmo que não eleito. Se tirarmos a pele de cordeiro destes novos democratas, percebemos afinal a sua genealogia: revolucionário que não arrisca o sangue, a sua concepção de democracia nada tem a ver com eleições, mas com emboscadas.

 

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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O caso grego I


 
Muitos berros, muitas paixões. Era bom de se ver que o caso grego haveria de as suscitar. Mas como diz o velho adágio, é sempre melhor dividir os problemas para não os confundir. E neste caso temo bem que estejamos a confundir três níveis bem diversos da discussão: o poder, a legitimidade e a eficácia.

 

Na perspectiva do poder, a história que se conta é a da Alemanha estar contra a Grécia. Bem vistas as coisas, gritaria pouco credível. Se bem notarmos, é a Grécia contra todos, não contra a Alemanha. Ouvíssemos mais atentamente os finlandeses, os holandeses, os letões, os eslovacos, veríamos que não existe muita afinidade com a atitude grega. Há boas razões para isso. Quando os países da Europa Central e de Leste entraram na União Europeia, os gregos não foram muito solidários com eles, não querendo abdicar de muitos dos seus benefícios. Daí que muitos deles tivessem tentado obter junto da Noruega e da Suíça o que não podiam obter na União Europeia, porque a Grécia carecia de subsídios.

Na perspectiva do poder, a aposta da dita esquerda pós revolucionária criou-lhe um imenso risco. Quando Haider tentou fazer parte do governo na Áustria, mesmo com minoria, todos se levantaram contra o facto. Agora é precisamente a mais extrema-esquerda que não vê problema num partido protofascista no governo de coligação grego. Abriu um cheque para o futuro. Foi a esquerda europeia que deu legitimidade à participação, pelo menos de partidos como o Front Nacional francês. O partido da independência grego é contra o multiculturalismo, contra a imigração e a favor do papel da igreja ortodoxa na vida grega. A esquerda abriu a porta a Pegida, Vlamsbelang, a todos os partidos de extrema-direita na Europa. Não abriu a caixa de Pandora. Já estava aberta. Mas quebrou de vez as suas chaves; é a esquerda europeia que validou a extrema-direita, que a legitimou de vez.

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Editorial

As democracias liberais em que vivemos não impõem objectivos sociais, nem quaisquer concepções normativas de bem. Estão ancoradas na ideia de direitos e liberdades individuais, recusando a imposição de valores absolutos ou de concepções pré-definidas de um bem comum. Sem negar a existência de uma Verdade última (isto é, sem negar a existência de um bem último ou comum), e nesse sentido afastando-se do puro niilismo, as nossas actuais democracias, assumindo a sua matriz liberal, negam ao Estado o direito de impor dogmaticamente uma concepção específica de bem. Ao invés, assentam no pressuposto de que o indivíduo pode, por si próprio e através de um processo racional de confronto de ideias, encontrar o caminho para a Verdade.

A pedra angular de todo este edifício demo-liberal, a condição mesma da sua existência, é um espaço público em que, de modo livre e incondicionado, sem preconceitos, sem dogmas e com uma atitude assumidamente tentativa, se confrontam teorias e concepções distintas, ideias e visões opostas, das quais, em última análise, acabarão por brotar valores que nos implicam com tudo o que tem a ver com a vida contemporânea, da filosofia ao sexo, da arte à política, da história à moral, da liberdade a Deus.

Como tal, este ‘marketplace of ideas’, à maneira de Stuart Mill, constitui uma das mais preciosas e poderosas garantias do respeito pela nossa liberdade individual. A sua construção e alimentação quotidianas são um direito, mas sobretudo uma responsabilidade de cada um de nós – que não pode ser inteiramente delegada nem em partidos políticos, nem em corporações, nem tão pouco no chamado sistema mediático.

Neste contexto, o «Geração de 60», enquanto espaço plural de debate que se deseja imodestamente sério e inteligente, é uma contribuição egoísta para a defesa da nossa própria liberdade.