sexta-feira, 20 de abril de 2018

O que diferencia o cristianismo das outras religiões? I




Disse que antes que:

a)      O cristianismo é a única religião nua;

b)      Apenas o cristianismo percebeu que a vítima é inocente.

Eis o que diferencia o cristianismo das outras religiões. Mas daqui seguem dois corolários:

a)      Apenas o cristianismo resolve o problema do sofrimento sem lhe retirar substância;

b)      Apenas o cristianismo permite uma ontologia.

O cristianismo é a única religião nua. Que quer isto dizer? Que é a única que não traz consigo uma etnia.

No hinduísmo a resposta é evidente: é uma religião étnica, e nem se pretende universal (apesar de ter mensagens universais como a grega). Mas se virmos, a religião romana, a egípcia, a grega ou qualquer outra, verificamos que trazem consigo uma cultura, uma etnologia.

Para se compreender bem esta asserção temos de fazer três testes:

a)      Qual a língua sagrada?

b)      Que fez Cristo com a etnia?

c)      Quer isto dizer que o cristianismo é imune à cultura em que se integra?



O que diferencia o cristianismo das outras religiões? II



Qual a língua sagrada? Comparemos com o islão. Todos os muçulmanos dirão que é o árabe. O árabe do corão, para ser mais preciso. Não apenas língua sagrada, mas língua perfeita. Ao ponto de os solecismos do corão serem chamados de «gramática divina». Entre os persas, e sabe Deus quanto os persas desprezam os árabes, a língua sagrada é o árabe, ninguém o contesta. No hinduísmo evidentemente o sânscrito, Homero o bem grego Homero, por mais dialectal que seja, entre os gregos, e assim por diante.

Já pensou o leitor qual é a língua sagrada do cristianismo? Jesus, Deus para os cristãos, portanto, não um profeta, mas Deus Ele mesmo, falou arameu, parece. Nunca o arameu foi língua sagrada. O hebreu era língua sagrada, mas ninguém o falou entre os cristãos, foi sempre língua reservada a eruditos. O grego, obviamente língua sagrada para os cristãos do Oriente grego. Mas um grego de má qualidade literária como desde sempre se reconheceu. A ideia de que a crítica do texto vem das Luzes é apenas fruto de ignorância. Richard Simon era católico do século XVII. E já muito antes, São Jerónimo e  São Paulino de Nola no século IV já se sentiam incomodados com o mau estilo literário do Novo Testamento. Era evidente que Homero literariamente era maior.

Mas a lista não termina. O latim no Ocidente europeu, o copta entre os egípcios, o sogdiano na Ásia Central, o eslavão entre os ortodoxos eslavos, o siríaco entre os assiro caldeus. Não foi preciso o Vaticano II para que as línguas vernaculares fossem línguas sagradas, como o alemão de Lutero mostra. Hoje em dia em muitas partes do mundo o francês ou o inglês são mais línguas sagradas que o latim.

Não havendo uma língua sagrada, uma única língua sagrada, torna-se bem mais difícil veicular uma cultura única.

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segunda-feira, 9 de abril de 2018

É o cristianismo uma religião como qualquer outra? III






Da próxima vez que o leitor ouça dizer alguém que o cristianismo é uma religião como as outras, pode, pois, pensar que a criatura em causa é cultora do espírito ariano e seguidor da ideologia imperial britânica (geralmente é favorável ao multiculturalismo, e também por isso se vê que tem saudade da ideia imperial britânica).

Resta saber se é verdade a asserção: o cristianismo é realmente diverso das outras religiões?

O velho Rudolf Otto dizia que o cristianismo era superior a todas as outras religiões porque estabelecia um equilíbrio entre racionalidade e irracionalidade mais perfeito, ou porque dava uma mais justa representação da necessidade de expiação. As diferenças podem-se encontrar por muitas vias. A questão é que, de uma forma de ou doutra, mesmo que sejam verdadeiras, correm sempre o risco de serem contestadas por serem mais ou menos subjectivas.

Deixemos estes trilhos, não por não serem verdadeiros (que o podem ser), mas por serem contestáveis. Da parte que me toca há dois argumentos muito sólidos que mostram que o cristianismo é muito diferente de todas as outras religiões, seja as anteriores a ele, seja as que lhe são posteriores, e nesse aspecto mais não são que retrocesso.

Estes dois aspectos são:

a)      O cristianismo é a única religião nua;

b)      Apenas o cristianismo percebeu que a vítima é inocente.

O seu a seu dono. Nenhuma das ideias é minha, apenas faço a sua síntese. A primeira ideia é dos historiadores anglo-americanos. Ser uma «naked religion» significa ser uma religião sem uma etnia. A segunda é de um dos maiores antropólogos de todos os tempos, René Girard.

Deixo isso para outras núpcias.




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quinta-feira, 5 de abril de 2018

É o cristianismo uma religião como qualquer outra? II




Temos por isso de pensar o que está por detrás desta necessidade de dizer que o cristianismo é como todas as outras religiões, e de seguida perceber se é realmente verdade que o seja.

De onde vem esta ideia de que o cristianismo é igual às outras religiões?

A verdade que é a Europa levou cerca de mil anos a cristianizar-se. Entre as costas europeias do Mediterrâneo e os países bálticos houve mil anos de cristianização da Europa. Os países bálticos só ficaram completamente cristianizados a partir do século XIV ou XV. E quanto à cristianização total do resto da Europa basta ouvir o que ainda no século XVI clérigos reportavam sobre práticas e crenças pagãs na Europa.

A verdade é que com as descobertas e a expansão europeia o cristianismo depara-se com culturas todas elas construídas com base noutras religiões. Que existissem outras religiões o europeu já sabia. O islão era mais que conhecido como a anti-Europa, como precisamente a fronteira a partir da qual a Europa deixava de existir. Mas há dois factores que são predominantes a partir sobretudo do século XV. Em primeiro lugar, a redescoberta de neopaganismo bizantino de Plethon, que gera a escola neoplatónica de Florença. De seguida, a descoberta progressiva das religiões hindus. Não são tanto religiões mais exóticas como as chinesas, são precisamente dois conjuntos de religiões indo-europeias que fazem os europeus repensarem o que significa a sua própria religião, a cristã. É significativo que a grande esperança (desiludida rapidamente) das Luzes se depositava em Zoroastro, profeta de uma terceira religião indo-europeia.

Não é tanto o exotismo de novas religiões, mas precisamente a proximidade com a sua memória histórica mais antiga que faz os europeus repensarem o estatuto do cristianismo. São religiões que em boa verdade nunca esqueceram, e que sob várias formas, seja as memórias célticas na estatuária das catedrais, ou na literatura, seja as memórias germânicas nas línguas, as greco-romanas na mitografia, que os fazem pensar (ou sentir, mesmo a contragosto) que são de origem indo-europeus.

É evidente que isto foi agravado pela descoberta de cada vez maior número de religiões primitivas. Aqui o neopaganismo que estava latente pelo menos desde o século XV (ou eventualmente antes) desenvolve-se exponencialmente na antropologia imperial britânica. Não é por acaso que Frazer começa com um mito romano, o de Arícia, e Hartland com um mito grego, o de Perseu.

Quem afirma que o cristianismo é igual a todas as outras religiões, apenas uma entre as mais, integra-se, pois, num duplo movimento: na ideologia de retorno ao arianismo primitivo e na ideologia imperial britânica.


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quarta-feira, 4 de abril de 2018

É o cristianismo uma religião como qualquer outra? I




O dito espalhou-se pela praça pública. E na praça pública não passam pensamentos, mas apenas mexericos. O cristianismo é uma religião como as outras.

Por um lado, isto pode parecer positivo: todas as religiões são religiões de paz e amor. De outro, pode aparecer sob forma negativa: todas as religiões são factor de guerra e desastres para a humanidade.

Não é verdadeiro que todas as religiões sejam de paz e amor. Dizer que todas as religiões são de paz é esquecer os deuses da guerra que pululam nas mitologias, desde Marte a Ares, passando por vários deuses védicos ou nórdicos, ou então Marduk. Quando uma religião celebra vitórias militares, como o islão, fica-se por saber qual o limite deste conceito. A lista podia seguir até ao infinito.

A paz não significa sempre a coisa maravilhosa que os burguesitos acomodados pensam que é. A pax romana implica dominação, submissão prévia, e delimitação da esfera de liberdade na qual o dominado pode actuar. O mesmo se pode dizer da pax arabica, da pax otomana, da pax mongolica, da pax colonial. Ser uma religião de paz não significa ausência de violência, mas pressupõe uma violência prévia, a da dominação e uma violência certa, a da resposta à prevaricação. Quando Jesus diz: dou-vos a minha paz, sabe que não é qualquer paz que ressuma liberdade.

Quanto a todas as religiões serem de amor, talvez seja de lembrar que se há palavra rara no vocabulário religioso é precisamente a de amor. Os gregos tinham pelo menos quatro palavras traduzíveis vagamente por amor (storge, philia, eros, agape), os romanos três (amor, diligentia, caritas). Que seja do meu conhecimento o islão em parte nenhuma refere o amor. E quanto aos gregos, quando o amor é referido, nunca na mitologia, mas apenas da época clássica, o amor está associado ao ódio. Nas «Euménides» a penúltima intervenção do coro diz qualquer coisa como: «Teremos os mesmos amores e os mesmos ódios». A comunidade é sempre uma comunidade também de ódios, de inimigos comuns.

Do lado negativo, que as religiões tenham criado guerra é esquecer que foram os homens que as criaram. É já trivial, embora muito esquecido, que os ateus, ou indiferentes não foram mais pacíficos. E poderíamos citar Napoleão, Hitler ou Estaline. Nem vale a pena perder mais tempo com a demonstração.


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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Onde está Chateaubriand?






Já ninguém fala de Chateaubriand. Entre esquerda e direita não há nenhuma diferença. Lêem os mesmos livros – americanos-, vêem os mesmos filmes – americanos -, e ouvem as mesmas músicas – americanas.

Já ninguém fala de Chateaubriand, salvo eventualmente em países francófonos e, fora deles, entre aulas de literatura, como se um homem que representa a respiração por excelência se pudesse acoitar em salas de aulas e em bibliotecas.

Chateaubriand foi sempre acusado de ser contraditório. Legitimista e liberal, fiel aos Bourbon, mas conhecendo a sua pequenez, realista, mas sabendo que os outros cultores dos reis eram frequentemente medíocres, republicano de alma, mas monárquico de fidelidade. Tanta contradicção, parece.

Erro absoluto. Não é Chateaubriand que é contraditório, são a sua época e as que se lhes seguiram que exigem o arregimentamento. Ou se está num lado, ou noutro. Homem inteiro numa época que não o é, ovelha de Igreja, mas de mais ninguém, ajoelhava-se perante Cristo e mais ninguém. Quem está disposto a ajoelhar-se perante qualquer um não lhe pode perdoar o facto.

Fidelidade e liberdade. Deveria haver uma só palavra que sintetizasse estas duas ideias. Na ideologia aristocrática dos indo-europeus talvez haja uma palavra que o faça: Arya. Uma época em que a liberdade se acomoda com a birra e o capricho e a fidelidade com a submissão e o alistamento quem pode compreender Chateaubriand?

Na sua época, havia uma pessoa talvez. Madame Récamier. A grande beleza da época, provocando paixões em príncipes, banqueiros, generais e escritores, poucas mulheres fascinaram como ela. Poucos salientaram, no entanto, o que tinha de comum com Chateaubriand. A mesma fidelidade aos humilhados, a mesma empatia com a desgraça, a mesma constância sem espírito de partido.

Uma grande nobreza e uma grande beleza tocam-se no fundo numa época de gente com o dito sentido prático, ou melhor, em que o sentido prático, o justo meio, a moderação, é apenas uma forma de compromisso e acomodamento.

Chateaubriand está longe de ser contraditório. Como na «Ilustre Casa de Ramires» de Eça de Queirós, Ramires é da antiga nobreza que nada deve ao rei. Chateaubriand nasceu nobre, nada devia aos reis de França. A sua fidelidade era uma dívida que tinha, não aos reis, mas a si mesmo. A sua liberdade era um dever que tinha, não contra os reis ou as repúblicas, mas em relação a   si mesmo. Pertencia a uma raça que se sentia grande, não dependente de concessões, de cargos pedidos ou suplicados, de posições sociais desmerecidas, tanto quanto foram fruto apenas de trabalho eventualmente, mas não de postura.

Grande de nascimento, não carecia de mais nada. Nem títulos, nem riqueza, nem súplicas. De glória, sim. Mas porque essa é a necessidade da alma grande que precisa de expansão, de ir além de si mesma. A mesma vontade de dominação de Platão, a mesma derrocada de projectos.

Chateaubriand não é um grande escritor por andar a cuidar do metro ou do efeito. É quando os descuida que se revela. Como Schiller dizia, a alma pequena, o melhor que tem a fazer é tentar ser um poeta sentimental e não ingénuo, porque tem todo o interesse em esconder a sua asquerosa natureza.

Uma alma que se despe em público o mais natural é que repugne. Apenas se pode dar a esse luxo quem tem grandeza e deslumbramentos a fornecer. É privilégio dado a poucos. Não é a esbirra do regime, o delator da situação, o sedutor do poder que pode entrar pela porta principal do mundo. Nascidos no refugo, apenas podem ambicionar mais tarde ou mais cedo uma saída pela porta dos fundos.

Chateaubriand é um imenso escritor porque a literatura sai-lhe naturalmente, sem discussão literária. A gramática tem com ele tal intimidade que lhe permite encontrões. São amantes e ela deixa. Sabe que ele até isso sabe fazer com elegância. As mulheres, como a gramática, aceitam a força a alguns. Muito poucos. Os que elas sabem que, até forçando, sabem respeitar. Não tente o comum o que cabe apenas a poucos.

Imenso escritor, porque imenso ser humano. Uma incarnação. Do aristocrata, que mesmo na miséria em Londres, ou no despojamento na selva do Novo Mundo, se distingue. Comovente como apenas o sabe ser quem não mendiga a empatia. Exacto como apenas o é quem o sabe ser com displicência.

Um familiar, a muitos títulos. Como se dizia antigamente: um primo. Tanto melhor. Para quem pode. Procura, porque tem a única boa razão para procurar: sabe que existe a verdade. Inteiro e incompleto, porque sabe que o segundo estado é uma inevitabilidade da sua condição humana e o primeiro um elevado dever perante si mesmo. Grande porque esse é um dom divino dado a poucos. Humano, porque sabe que esse é um estado necessário para se ambicionar a perfeição.

Já ninguém fala de Chateaubriand? Porquê? A resposta é fácil. Os espécimes ambulantes que ocupam o espaço público não gostam de ser confrontados com a grandeza. A comparação ofusca-os, ofende-os, obriga-os a revistar a sua pequenez, apaga-lhes as ilusões da ribalta. Deixemo-los, pois, falar. Além-túmulo, a sua voz apagar-se-á. Enquanto a de Chateaubriand apenas se levanta com mais força. A arte do epitáfio era cultivada pelos gregos e romanos e foi cultivada pelos nossos antepassados medievais com arte. Dirigia-se muitas vezes aos transeuntes. As suas «Memórias de Além-Túmulo» não são uma epopeia, nem um romance. São o cume da arte do epitáfio. O que não espera pelos passantes, mas se lança pelo mundo como um espectro, assombrando os medíocres e consolando os que sabem que a grandeza é possível.



Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

III. A superioridade do islão


 
 
Tudo isto esquece factos curiosos. A exemplar Casa da Sabedoria em Bagdad era dirigida por cristãos, os seus professores eram cristãos, sobretudo nestorianos, alguns melkitas. As traduções do grego para árabes são feitas por cristãos. Que seja do meu conhecimento existe apenas um tradutor não cristão, ibn Qurra. Problema: não era muçulmano, seria pagão.
Quanto aos números árabes já sabemos que não são árabes mas indianos, e em boa verdade poderão ter origem grega tardia (ver Lucio Russo). Teriam vindo por via de Gerbert d’Aurillac o futuro papa Silvestre II (já se pode dizer bem de um papa quando traz a sabedoria dos árabes). Também aqui temos problemas:
a)      A ideia de que teriam vindo através de Gerbert d’Aurillac é apenas uma hipótese. Tão válida como a que afirma que vieram por via bizantina através nomeadamente de Máximo Planudes.
b)      Gerbert nunca terá estado na Espanha muçulmana, mas apenas na Catalunha (é o que afirma Riché), que é terra cristã.
c)      Ninguém disse que alguma vez contactou muçulmanos para o efeito. O mais provável é que tenha contactado monges cristãos.
O transeunte da nossa época transforma hipóteses em dogmas com facilidade.
Mas o grande papel na transmissão da cultura clássica dos muçulmanos? Também isto me levaria muito tempo. Saliento apenas que nem uma única obra latina nos veio por mãos árabes, que a imensa maioria das obras gregas que lemos vem por via bizantina ou pela Itália do Sul, que sempre teve presença grega.
Também na suposta tolerância, qualidade agastante se a há, há testemunhos de grande tolerância nos reinos cristãos da Península e do Levante. Dozy ou Lewis são exemplo disto. Mas é evidente que também nesse aspecto o islão seria superior, com Saladino a impor marcas distintivas aos cristãos, em antecipação ao, bem sabemos, tolerante Hitler.
Tudo isto me levaria muito tempo. Mas a que se deve esta certeza de que a Europa do século XII era interior ao levante islâmico da mesma altura? Recusa do pensamento lógico, mas sobretudo submissão, a cartilhas, a preitos de inferioridade. Bela palavra: submissão. É uma boa propedêutica. Em árabe sabemos como se declina a palavra: islão.
 
Alexandre Brandão da Veiga.
 
 

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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

II. A superioridade do islão



 

A demonstração da falsidade da suposta superioridade do islão em relação à cristandade no século XII levar-me-ia muito tempo a fazer. Por isso mostro apenas alguns elementos.

A Idade Média sob o ponto de vista tecnológico foi época de grande desenvolvimento (o velho Taton o demonstra). Basta pensar que o império otomano em pela Idade Moderna tinha menos moinhos de vento que a Europa de séculos antes. Os óculos europeus (francos, diz o persa) eram usados na Pérsia. O império árabe importava de Bizâncio, não matérias-primas mas produtos manufacturados e engenheiros agrónomos e hidráulicos.

Um simples teste: alguém pensou que o que importávamos do Oriente não eram altas tecnologias mas… especiarias? E as sedas que vinham da China eram produtos semi-manufacturados. Basta ver a pintura da época: o design era europeu, mesmo se a seda era chinesa.

Segundo elemento: precisamente a hidráulica. Em programas de História vejo historiadores locais mostrem a maravilha dos canais de irrigação árabes na Península Ibérica. Nunca dizem que estes já existiam no tempo dos visigodos (esse bárbaros, é evidente), e dos romanos e talvez sejam mesmo anteriores. Mas como se faz uma História provinciana, não saindo na Península Ibérica, não se tem em conta que os maravilhosos canais da mesopotâmia começam a entrar em decadência depois da queda dos sassânidas e durante o domínio árabe. Precisamente esses grandes engenheiros hidráulicos que importavam conhecimento de Bizāncio e que seriam tão proficientes na Península Ibérica.

Há também o argumento da extraordinária ciência árabe. Invocado obviamente por quem nunca teve curiosidade na História da ciência, que nunca perdeu mais que dois minutos da sua vida a estudar um teorema. Mas são os mesmos que invocam as imensas criações científicas islâmicas. Seja. Resta colocar uma questão: quais? Nessa altura o nosso interlocutor nunca sabe responder. Apenas afirma que são extraordinárias. Melhores mesmo que as europeias. Quais são as europeias? Quais são as islâmicas? A essa pergunta não sabe responder, mas tem a certeza que as europeias são piores. Não suscita isto no leitor alguma suspeição?

 

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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

I. A superioridade do islão

 

Mostrando a uma amiga minha um vídeo onde se demonstrava que o islão durante o tempo das cruzadas não era mais desenvolvido que a cristandade a resposta dela foi a de que era mera publicidade enganosa. A pergunta que me coloquei foi de natureza meramente lógica: para se afirmar a superioridade de uma cultura em relação a outra está-se a fazer um juízo comparativo. É preciso ter estudado a Europa do século XII e o Levante islâmico do mesmo século.

Será que as pessoas estudaram ambas as civilizações dessa época? Que coisa as leva a ter certeza de que no século XII a cultura europeia era inferior à islâmica?

Em primeiro lugar, a deficiência racional da nossa época. Os argumentos lógicos não comovem as pessoas. Dizer que para se fazer um juízo comparativo se exige conhecimento de dois comparandos não comove ninguém. A Idade Média era bem mais racional que a época moderna, como alguém insuspeito como Whitehead mostrou.

Em segundo lugar, a submissão a uma cartilha. No liceu as pessoas aprenderam que na Idade Média a Europa estava atrasada, e por isso nada mais reconfortante que achar que a cultura islâmica lhe era superior.

Em terceiro lugar, o facto de a Europa se comprazer em sentir a sua inferioridade em relação a outras culturas.

A ignorância é consoladora, bem como a supressão da racionalidade, a submissão a hábitos de pensamento e o desejo inatural de se sentir uma porcaria.

A questão é que eu próprio aprendi algo de semelhante durante a minha formação escolar. Mas a verdade é que nunca gostei de cartilhas, venham elas de onde vierem. Ainda recentemente assisti a uma conferência em que os mestres Landau e Lifchitz (mestres russos que estabeleceram a ortodoxia nos estudos da física nas últimas décadas) eram postos em causa. Para eles, o coeficiente de Poisson era evidentemente positivo, sempre foi. O conferencista mostra no entanto que pode ser negativo (em síntese que uma compressão não gera uma expansão sempre, mas pode haver compressões que geram compressões e expansões que geram expansões). Podia-se ir mais longe e pensar que esse coeficiente seria complexo.

Seja. Voltemos ao ponto.

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sexta-feira, 26 de maio de 2017

A crise e o símbolo chinês

Entre os gestores, líderes de opinião e pensadores avulsos da nossa época existe uma teoria que é a de que o símbolo chinês para a crise representa a fusão das ideias de risco e de oportunidade. Os sinólogos dizem-me que isso não é assim tão claro. Como não sou sinólogo, acredito mais nos sinólogos que nos gestores no que respeita à filologia.

A necessidade de ir buscar à cultura chinesa significado para as palavras que dizemos é tanto mais suspeita quanto as palavras que dizemos não são de origem chinesa. O paralelo, além de enganador sob o ponto de vista filológico, peca por nos enganar sobre aquilo que dizemos.

«Crise» vem do corpo hipocrático. É termo usado na medicina como «momento decisivo». Trata-se de um momento na evolução de uma doença em que se tem de tomar uma decisão. Mais planamente, é uma decisão. Sófocles, numa obra perdida, teria precisamente usado o título de «crise», ou seja, decisão. Tratava-se de um drama satírico, e em que portanto se faria chacota de alguém.

O mais importante numa crise não é o facto de haver riscos e oportunidades. Isso ou é trivial – assim é toda a vida – ou relega para fora de nós a questão. São coisas externas o risco e oportunidade. A tradição helénica, que nos serviu de muito em tudo, mostra pelo contrário o que de verdadeiramente importante se passa numa crise: temos de tomar uma decisão. Ou tomamos a boa, a tempo, ou corremos o risco de perder o doente, ou confiar na sorte.

Quem vai ao símbolo chinês para procurar o significado da crise volta no fundo a um pensamento animista. Julga que o essencial da crise está fora de nós, quando o que deve ser centro da nossa atenção somos nós mesmos. Que uma cultura como chinesa, que nunca concebeu a ideia de pessoa humana, pudesse viver bem com tais conceitos, aceitemo-lo como verdade, ou como mero passeio exótico. Não interessa.

Mas falar de crise significa antes do mais falar de nós mesmos, de nos responsabilizar. O doente está nas nossas mãos, somos nós quem tem de o tratar. É um apelo a pessoas. Se isso é bom ou mau, pouco importa. O mais importante numa crise é quem está perante ela. Para tomar uma decisão.

Deixemos os gestores gerir, os líderes de opinião passeá-las pela trela, e os pensadores avulsos serem levados pela sua natureza extranumerária. No que nos respeita, pensemos em nós numa crise: o que nos cabe fazer? O resto são exercícios de fonação. E deixemos aos filólogos de praça emprestada apenas a nossa chacota. Não se trata de risco e de oportunidade, mas de termos oportunidade para o riso.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

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terça-feira, 14 de março de 2017

A muçulmana e a escola


 

É um facto trivial hoje em dia. Uma muçulmana aparece na televisão coberta dos trapos tribais e confessa-se, em geral num bom francês, inglês ou alemão, cultora da tradição dos seus antepassados, orgulhosa por ser muçulmana, da imensa cultura muçulmana e como é conciliável o seu feminismo, o seu trapo e o islão.

Geralmente recebida pelo jornalista com um sorriso aberto, prova de que a culturas se dão entre si como dois gatinhos saltitantes a correr num prado em conto infantil – o jornalista revela assim as suas fontes culturais que não homéricas – tudo parece correr no melhor dos mundos.

Ness altura lembro-me de um historiador, Moffett, que estudou a situação dos cristãos na Ásia. Tendo missões cristãs criado escolas para mulheres na Pérsia do fim do século XIX, o governador muçulmano da província visita a escola e pergunta: que fazem mulheres com livros na mão? Nunca tal se havia visto.

Na Índia em 1891, em 100.000 muçulmanas apenas 3 eram alfabetizadas. Entre 100.000 mulheres hindus 400 eram alfabetizadas. Entre 100.000 cristãs 17.000 eram alfabetizadas. As hindus eram 133 vezes mais alfabetizadas que as muçulmanas. As cristãs eram 5666 vezes mais alfabetizadas que as muçulmanas.

Só com as missões e os impérios coloniais europeus as mulheres começam a ir à escola nos países muçulmanos, nem turcas nem árabes, nem persas nem indianas iam à escola.

Por isso, quando vejo as doces raparigas enroladas em trapos, que sorridentes falam em boa língua europeia sobre a sua felicidade em serem muçulmanas, apenas sinto ensejo de perguntar: menina, porque foste à escola?

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

É a China imperialista?



 

Uma deliciosa criatura, mostrada como ressumando intelectualidade, é apresentada num programa de rádio. Português vivendo na China, ilumina-nos com a sua infusa sapiência que reduz a uma frase: «O que é espantoso é que, se bem virmos, a China nunca foi expansionista nem imperialista».

É realmente espantoso. Não o que se espanta diz mas que não se espante com o que diz.

Nem vale a pena falar das tentativas de expansão da China para a Ásia Central. Ainda hoje em dia há turco-mongóis no Ocidente da China. Seria útil perceber como os chineses dominam turco-mongóis. Nem vale a pena falar do que acham historicamente os coreanos da ausência de espirito expansionista dos chineses.

Também nem vou falar da expansão chinesa junto dos países europeus mais fracos, como forma de entrada em sectores estratégicos da Europa. Portos, bancos, energia, indústria de luxo italiana e francesa. Poderiam ser dados muitos exemplos.

Basta pensar no que hoje em dia se passa. E passa-se de forma tão evidente que merece apenas referência. Vejamos quatro situações:

1)      Taiwan. Foi colonizado no século XVII pelos chineses. Só depois dos portugueses e dos holandeses. A pretensão chinesa a Taiwan é bem mais fraca que a pretensão portuguesa a Angola. Qual a diferença? Os chineses usaram a técnica que usaram mais tarde no Tibete. Invadiram a ilha com a sua população, tornaram irrelevante a originária população austronésia, e transformaram-se na maioria demográfica. Caso houvesse cinquenta milhões de portugueses a invadir Angola, Portugal teria maior pretensão a deter Angola que a China a deter Taiwan. A Europa é colonialista, mas a China sofre muito por o seu território ter sido dividido por um mero acaso histórico. Que sentido de justiça.

2)      Tibete. A doce criatura não reparou que o Tibete é fruto de conquista? Como fizeram com Taiwan, invadiram o território fazendo com que a maioria da população fosse chinesa, Han.

3)      China ocidental. O mesmo tratamento está a ser feito em relação à China ocidental em que os Uigures, turco-mongóis, estão aos poucos a tornar-se em minoria no seu próprio território.

4)      Mar da China. O Mar da China chama-se assim, não por ser chinês, mas porque os europeus por simplicidade chamaram-no assim. As exigências da China, da tão pouco expansionista China, no Mar dito da China preocupam profundamente as Filipinas, a Coreia, a Birmânia, e o Japão. Decidiram que, dado que os europeus o chamaram «da China», deveria ser chinês. E fazem avançar barcos militares impedindo as pescas e a possessão de terras ancestrais por parte dos outros povos.

É evidente, há sempre bons argumentos. A China tem uma grande população. Coitadinhos, precisam de sítio onde a colocar. Já vimos argumentos compulsivos como este na História. A teoria do Lebensraum é um bom exemplo.

Mas se compararmos com a Índia, verificamos que não é a população que o impõe. A Índia tem 1,2 mil milhões de pessoas, com uma densidade populacional de cerca de 326 pessoas por km quadrado num território de 3,2 milhões de quilómetros quadrados. Quais são os valores da China? 9,6 milhões de km quadrados de território. 1,3 mil milhões de pessoas. Qual a densidade populacional? 139 pessoas por km quadrado. Se este fosse um argumento legítimo, teríamos de deixar a Índia conquistar cerca de seis milhões de quilómetros quadrados. Talvez destruindo o Paquistão, e conquistando uma boa parte da Asia Central.

A questão não é a de dizer bem ou mal dos chineses. Este caso dá-nos duas lições:

1)      Os chineses não são melhores nem piores que os outros povos. Quando têm poder usam-no e querem-no aumentar. São tão expansionistas quanto os outros povos são.

2)      Com a ideologia do ódio de si, os europeus sentem as pretensões da China ou legítimas (Taiwan, China ocidental), ou aceitáveis (Tibete) ou apenas desconfortáveis (Mar da China).

No que respeita ao cachopo que vive na China, já o sabemos: padece do mal europeu, de achar que os outros povos vivem sem pecado, fora da História, e acha que só o europeu padece do pecado original. Deglutiu o cristianismo pelo orifício errado, e por isso é natural que nos presenteie com consistente resultado.
 
Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

As fragilidades do laicismo III


Qual é o pano de fundo do laicismo, então? A de que a Europa não tem uma cultura e História, só a dos museus e monumentos turísticos. A Europa não foi moldada por milhares de anos de História, mas História propriamente dita só a tem desde há cerca de duzentos anos. O resto são mortos sem relevância. É o espaço de memória dos laicistas, e não se sentem perder grande coisa, é evidente. História apenas a entregue por jornalistas, epopeia de pacotilha devolvida em prestações mensais de folhetim barato, fácil de assimilar. O laicismo abespinha-se porque traz uma cultura cristã atrás de si a que não se pode referir, e, vendo outras culturas, não as consegue integrar no seu mito. Carece de uma Igreja cristã para se poder opor, a sua actividade natural, e ficciona que as outras religiões são como cristãs para poder existir. Etnocêntrico sem o saber, rege que o mundo seja sempre medido pela mesma bitola: a cristã.

A Europa só é laica se esconder a sua História ou se a mostrar apenas sob a forma de museu, ou seja de múmia, património que tem de ser ao mesmo tempo preservado, mas segregado da vida comum. Nascendo de um mito de separação, o laicista separa tudo, separa a Europa da sua História. O nome latino que traduz a ideia de separação, como vem na Lei das Doze Tábuas, é o de «sacer». «Sacer esto», diz a Lei sobre o homicida. «Que seja separado». A História da Europa torna-se assim sagrada de forma triste, entre o museificado, como se fosse raiz morta, presença apenas mumificada, mantendo as suas formas por generosidade de uma cultura nova que não se importa de a cinzelar, desde que morta.

O laicista não pode defender a sua própria cultura, porque não existe. A sua cultura oficial vem apenas em livros de propaganda escolar, um mundo que nasceu há duzentos anos. Por isso, quando quer defender a cultura católica, que no fundo nunca deixou de ser a sua, tem de invocar os direitos dos homens, a segurança pública, os direitos das mulheres. Vai buscar ao seu fundo conceitos que não têm fundo. Entendamo-nos: o que por vezes quer o laicismo é bem legítimo. São os seus fundamentos que são espúrios. A sua fragilidade não decorre de alguns dos seus conteúdos (que são cristãos), mas da mentira dos seus fundamentos. O laicista não diz que é cristão, que é incapaz de ter uma visão do mundo além do cristianismo, é nele que assenta a sua visão, mas precisa de acreditar que assenta num morto. Mal percebe que assim repete o dito canónico: «morreu por nós».

O laicista tem de mentir em relação à sua origem, em relação à sua História, parasitar a ciência, reprimir as revoltas, e as Antígonas, dissimular o seu conteúdo e mumificar o seu passado. «Laos» é o povo em armas na Ilíada. O laicismo, para gerar entusiamo, tem de ser guerreiro. Não tendo guerras para fazer, ou inventa inimigos, ou pretende um mundo dormente à sua volta. Mas mesmo aqui repete um dos grandes mitos europeus, o de Camelot derrotado em que o rei Artur jaz adormecido para um reino futuro. Torna-se ele mesmo arcaísmo, revelando assim finalmente a sua última natureza. A de um mundo que saiu do nada e para ele esvanece.

 

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

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terça-feira, 30 de agosto de 2016

As fragilidades do laicismo II


Em segundo lugar o laicismo mitifica a sua relação com a ciência. No mito laico, o laicismo surge no século XVIII é aplicado pela primeira vez no século XIX, e eis que a ciência explode nessa altura. Liga ambos os movimentos e considera pelo menos de forma implícita que a ciência é filha do espirito laico. Crasso erro. A revolução científica foi feita em terras cristãs, por cristãos e isto até a nossa época. Muitos dos nomes da ciências são de clérigos, nomeadamente a escola franciscana de física de Paris no século XIV, Newton reconhece que a sua maior influência na óptica é o arcebispo de Spalato Antonius de Dominis, a teoria atómica é reintroduza pelo clérigo Gassendi, o padre Mersenne é outro exemplo, a diplomática é criação de Mabillon, mas ainda no século XX o padre Breuil é o grande revolucionário do estudo da pré-História e o padre Lemaître o primeiro teorizador do Big Bang, objecto de admiração de Einstein. Uma ciência sem os cristianíssimos Newton, Galileu, Maxwell, Cantor, Planck seria algo menos ciência.

A capacidade de reelaboração da História por parte do laicismo dissolve a sua autoridade, dependendo assim de uma permanente actividade catequética, bem como da manutenção mais ou menos intencional na ignorância por parte das massas. Dando um exemplo. A geração espontânea. Como geralmente se conta a história? A tese que prevalecia «antes» (não é necessário definir o «antes») era a de que a vida era espontaneamente gerada a partir do inorgânico. Esta teoria era escolástica e, está bem de ser ver, logo, católica, aristotélica, enfim reaccionária. Veio Pasteur e destrui esta teoria obscurantista. História bem contada? Não. O grande defensor da teoria da geração espontânea era um laicista extremo, um senhor chamado Pouchet. Pasteur, que destruiu a teoria da geração espontânea, era católico. Pouchet como tantos laicos gostava da teoria da geração espontânea porque retirava o mistério da vida. Aparecer o orgânico do inorgânico deveria ser facto trivial. A vida perdia mistério. Exorcismo calmante para o laico, parece.

O laicismo junta-se assim ao islão e ao budismo enquanto parasita da ciência e da sua autoridade. Pensamento parasitário, exige confusão de géneros em todos os níveis. Precisa de estar do lado das outras religiões para encontrar o seu lugar natural. Católico de origem, o laicismo acaba por se juntar às outras religiões para se sentir coerente. Vindo de uma religião sem etnia quer como toda a religião criar uma etnia própria, o povo dos laicos.

Mas uma terceira fragilidade do laicismo é política, no seu sentido mais nobre. Se a lei civil prevalece sempre e em qualquer circunstância sobre a religiosa, Antígona já não é possível. Entendamo-nos: ao contrário do que letreiros apressados pensam, Antígona é importante, não por ser revolucionária, mas por ser reaccionária. Creonte, o seu tio, representa o direito revolucionário do Estado de fazer tabua rasa das tradições. Antígona representa o direito tradicional familiar de dar honras fúnebres aos mortos. A ideia não é minha, mas de Jouanna, e é bem vista.

O laicismo torna-se rapidamente uma teoria conservadora, e a França, país idólatra do laicismo acima de qualquer outro, mostra a sua natureza profundamente conversadora. A França da III República na versão laica radical mostrou-se paternalista, machista e retrógrada nos costumes, bem mais que a França do Antigo Regime.

A regra da prevalência absoluta da lei civil teria impedido os monges, freiras e padres e mesmo laicos católicos que, em nome do cristianismo, violaram a lei civil para proteger judeus perseguidos. A lei nazi ou comunista prevaleceria sempre e em qualquer caso. O laicismo é assim apanhado na sua própria armadilha. Se a lei civil prevalece sempre, a lei fascista e cruel deve prevalecer sobre a lei humana. Mas se a lei humana deve prevalecer? Onde a encontra o laicismo essa dita lei humana?

E aqui se percebe a quarta fragilidade do laicismo. O laicismo mente quanto ao seu conteúdo. O seu conteúdo de humanidade herda-o do cristianismo. Mais uma vez, não é acaso que o dito laicismo nasça em terras cristãs. A imagem de humanidade herdou-a do cristianismo. A História da secularização em França mostra como desde os girondinos até a III República radical, passando por Hugo, se foi criando uma religião da humanidade que tem por base o cristianismo, de início não obnubilado, e com o tempo cada vez mais recalcado e escondido. O laicismo em si mesmo esgota-se no seu sucesso. Separando a Igreja do Estado, tendo a Igreja interiorizado essa separação, perde a razão de ser do seu programa. Mas, se aparece outra religião sem Igreja, não sabe o que fazer. Diz-se universal, mas erigiu-se contra o cristianismo, ou mais precisamente contra o catolicismo. O protestantismo já estava capturado pelos Estados, eram os Estados a não ter interesse na separação. Sem o cristianismo sente-se sem pé. Não há Igreja a que se opor. Perante o budismo, o islão ou outras religiões estranhas à Europa fica sem termos, sem discurso, sem tópicos argumentativos. Precisa para isso de inventar uma espécie de hierarquia, uma espécie de Igreja católica, foi com base ela que se construiu. O laicismo cristianiza todas as religiões, acha-as separáveis do Estado, porque religião verdadeira para ele é o cristianismo. O resto é etnologia. O laicismo quer religiões que não sejam étnicas, que não estejam ligadas a etnias ou que no fundo pertençam à sua etnia. Mas só uma preenche esses requisitos. O cristianismo. O laicista é um recalcado. Não pode falar da sua intimidade porque é cristã, tem por isso de fingir que não a tem.

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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

As fragilidades do laicismo I


 

 

Sejamos justos. Depois de analisar as fragilidades do islão temos de nos confrontar com o instrumento que se usa na Europa, sobretudo nos países latinos, contra o islão: o laicismo. Instrumento sobretudo na Europa do Sul, porque a do Norte não confunde liberdade de religião com laicismo e nunca precisou dele para instaurar a primeira.

O laicismo é brandido pelos franceses, mas também portugueses espanhóis e italianos para enfrentar o islão. Será o instrumento mais adequado? Não me parece, porque, quanto mais se brande o argumento, mais se vêem as suas fragilidades. Vejamo-las.

Em primeiro lugar, o laicismo mente quanto à sua origem. O laicismo é filho do cristianismo. O velho «dar a César…». Os laicos nunca se perguntam por que razão o laicismo nunca foi criado em terras do islão, ou de budismo. Aceitam o mundo tal qual está e inventam origens míticas. É filho do cristianismo também pelo valor que supostamente dá ao homem. A dignidade da pessoa humana é conceito cristão. Assenta no cristianismo porque colado a ideias eclesiásticas como a de soberania popular (Marsílio de Pádua no século XIII), ou a votação pelo povo dos impostos que o oneram (Ockham no século XIV). Herdeiro das chancelarias reais e imperiais, desde sempre dirigidas por clérigos. Movimento de origem eclesiástica, quer limpar da sua História todos os traços das suas origens.

Mas mente igualmente quanto à sua História. A separação entre o Estado e a Igreja historicamente é em primeiro lugar separação da Igreja em relação ao Estado. O cristianismo, de religião tolerada, torna-se religião do império. É o imperador que convoca os concílios, que regula o estatuto da Igreja. Com a queda do Império Romano a Igreja pode-se finalmente libertar da tutela imperial no Ocidente. Ao longo de toda História da Europa a luta da Igreja é contra um Estado que pretende intervir na Igreja nomeando dos bispos (a célebre questão das investiduras), definindo os privilégios eclesiásticos, por exemplo. Não falo de História longínqua. É nos anos de 1980, em pleno século XX, que o Estado português renuncia ao seu direito de veto na escolha dos papas. Se a Igreja criou uma ideologia teocrática em algumas épocas, a ideologia regalista, galicana e outras foram igualmente criadas por clérigos contra a Igreja. Os chanceleres imperiais que defendiam o império contra a teocracia eram bispos, o galicanismo foi também criado por bispos franceses. Nos países protestantes a máxima autoridade eclesiástica pertence aos príncipes, Pedro o Grande na Rússia acaba com o patriarcado russo. A ideia de que o torno e o altar se uniram resulta de uma solução tridentina em que o altar teve de fazer muitas concessões ao trono com Filipe II e o seu descendente Luís XIV.

O laicismo mente quanto à sua História intolerante e persecutória. A França revolucionária, a da III República, Portugal da I República, o México, os regimes nazi e comunista foram tudo menos de verdadeira liberdade religiosa. Laicismo e liberdade religiosa opõe-se. Os regimes laicistas na sua maioria foram ditatoriais ou autoritários. Laicismo e democracia convivem muito mal. E tenderam sempre para o cesaropapismo, ou seja, o domínio da Igreja pelo Estado. O laicismo esconde assim a sua História violenta, intolerante, dominadora e sufocadora da liberdade religiosa e do pensamento. O laicista julga que já superou esta doença infantil da sua benquista ideologia. Mas é doença de origem, é genética, e corre a todo o momento o risco de ter surtos.

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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Quem quer o multiculturalismo?


 

A pergunta é de simples resposta, pensando numa perspectiva politica e não na choradeira:

a)      Residualmente os defensores da ideologia colonial;

b)      A esquerda alternativa;

c)      O capitalismo internacional;

d)     Os idiotas úteis;

e)      Os futuros déspotas.

Não sobram muitos, mas entre povos imperiais ainda há uma réstia desta ideologia, e foi ela que tornou tolerável durante décadas o multiculturalismo. O modelo do «Raj» britânico sobre a Índia é muito simples: para hindu e muçulmano basta aquela cultura retrógrada. Desde que não haja mortos na rua e se mantenha a segurança do comércio, eles que se entendam. São culturas inferiores, já viram a sua hora de glória, não se pode esperar mais delas. Mas, se não há muitos cultores conscientes desta ideologia, pelo menos oficialmente, ela é fundamental porque traduz uma linha de força de muito longo prazo. Os ingleses beberam a inspiração dos modelos romanos que mantiveram a autonomia dos municípios e algumas estruturas regionais, tetrarquias, régulos, principados. E mostra o fundamento último, o modelo de base, de todo o pensamento multicultural. Este é sempre imperialista na sua inspiração.

A esquerda alternativa defendeu sempre o multiculturalismo. O fundamento não é humanista, mas o ressentimento contra a base cristã de uma civilização em que nunca deteria superioridade de qualquer natureza, nem de beleza, nem de nascimento, nem de grandeza intelectual. O ressentimento leva a pegar em tudo que vá contra o seu centro vital, e o seu centro vital é, apesar dos seus protestos, a civilização cristã que lhe deu direito à vida. Os alternativos favorecem o multiculturalismo porque tudo vale mais que a Europa, essa Europa que pela sua exigência lhes desvela a natureza vil. Se tiverem de escolher, aceitam mesmo o abaixamento das mulheres, o aviltamento de crianças, a falta de liberdade geral. Tudo, desde que não seja a Europa.

O capitalismo esfrega as mãos. Não é por acaso que os tradicionais partidos marxistas ortodoxos nunca viram com muitos bons olhos a vinda de muitos imigrantes. Sabem bem que se trata de um exército de reserva proletário que abaixa o poder negocial dos trabalhadores. «Não queres? Há sempre um tunisino que está disposto a ganhar metade». O capitalismo esfrega as mãos ao ver estas deliciosas condições de trabalho em que pode escolher o menos bom, mas por muito menos preço.

Restam os idiotas úteis. Estes são usados por todos: uns usam os seus sentimentos cristãos, outros, sabendo que o público não se diz (ou sabe) cristão, apelam para os direitos do homem, a civilização, a democracia, que espantalho melhor sirva para os seus fins. O bom do Lenine conhecia bem a importância dos idiotas úteis. O idiota útil sente-se útil, mas é-o apenas porque…é idiota.

Restam? Ainda no fundo do túnel aparece uma figura bem mais sinistra, mas que é a conclusão lógica deste movimento. Os futuros tiranos. A história grega mostra que os tiranos tiveram duas políticas em comum. A criação de exércitos profissionais, de mercenários, e a indução forçada de heterogeneidade das populações para as tornar mais dóceis. Quando a população se torna heterogénea cria tensões entre si, e isso justifica a existência do tirano para manter a paz. Quando se torna heterógena é bem mais difícil actuar como uma só contra o tirano. As populações que vieram de fora vêem o horror que é a vida heterógena e aceitam melhor os seus regimes. Tornam-se mais submissas. Os futuros tiranos vão agradecer o multiculturalismo. Abriu-lhes o campo para o seu futuro reino.

Ideologia de índole imperial, apoiada pelo ressentimento e pela cupidez, e sufragada pela idiotia prepara na sua conclusão o que é a sua origem: a tirania.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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quarta-feira, 13 de julho de 2016

O Reino Unido vai sair de Schengen?


 

 

Que pergunta tonta. O Reino Unido não está em Schengen como se pode sequer colocar a questão de saber se vai sair dele?

Todos concordam, todos os ingleses dizem que estão fora, os meios de comunicação social sabem com certeza absoluta que Schengen não inclui o Reino Unido.

A questão é a de saber que por mais esta via estamos numa comédia de enganos.

 


 

Foi o Reino Unido forçado a isto? Não. Fê-lo por sua única e exclusiva iniciativa.

 

Entendamo-nos. Faz parte de Schengen no que respeita aos poderes do Estado, mas não no que respeita aos direitos dos cidadãos. Absurda argumentação.

Os ingleses estiveram sempre orgulhoso por não terem os direitos dos outros europeus, quando estavam sujeitos às mesmas sujeições. Feliz sujeição que se orgulha da falta de direitos.

Comédia de enganos. E dizemos nós que vivemos uma sociedade cada vez mais transparente. Goebbels tinha razão, uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade. Este o seu Reino. Os vencedores encontram-se sempre em cantos insuspeitos. Quando os actores têm baixo coturno na melhor das hipóteses temos comedia. Mais baixo ainda, apenas farsa.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga.

 

 

 

 

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quinta-feira, 7 de julho de 2016

Fragilidades do islão V

 

Em sétimo lugar o islão foi fragilizado pela ideologia multicultural que imperou na Europa desde os anos 90 por influência britânica e americana. Precisamente o inverso do que queriam os cultores do multiculturalismo.

O primeiro passo desta ideologia foi o de marcar a alteridade absoluta, o de exigir o direito à diferença, à radical diferença. Hoje em dia, os mesmos que exigiam a radical diferença ao islão apresentam-se com um discurso mitigado, a típica estratégia do «sim, mas…». Sim, há crianças de nove anos casadas com homens maduros entre os refugiados na Noruega, mas…. temos de perceber as circunstâncias. Sim, é feio bater nas mulheres, mas… temos de perceber outras culturas. Sim, é feio lapidar pessoas, mas… temos de dar tempo ao tempo. O lobo colocou a pele de cordeiro para nos obrigar a compreender o inaceitável. A diferença radical passou a ser excepção a valores que se admitem comuns.

A questão é que esta nova estratégia deixou de ser credível. Perdeu-se o efeito de surpresa, a contradicção com o passado fica notória.

O filo-islamismo decorre de muitos factores. Tudo na vida decorre sempre de muitos factores já o sabemos. Interesses políticos eleitorais dos trabalhistas ingleses, socialistas franceses e verdes alemães, interessados em substituir eleitorado popular que se vira para direita, ignorância das culturas alheias, religiões irénicas de substituição, herança da ideologia colonial em que os nativos se mantêm nas suas culturas desde que a segurança não esteja em causa. Há de tudo. Mas em última análise o filo-islamismo na Europa resulta de uma visão uniforme do ser humano, em que as diferenças são irrelevantes, em que o homem é um produto industrial padronizado. A diferença é apenas uma marca comercial, que no fundo em nada afecta o produto. Comungando todos da mesma natureza, nunca podemos desenvolver diferenciações substantivas.

Ora foi precisamente esta ideologia multicultural de origem colonialista britânica que mais prejudicou a possibilidade da convivência pacífica do islão com a Europa, e dificultou um seu verdadeiro reforço. Tanto mais abespinhado quanto mais frágil, o islão faz a sua força na exacerbação… e a sua fraqueza. Se o menino faz birra é sinal de que tem razão. Até lha deixarem de dar de todo. A injustiça nesse caso começa a ficar do lado contrário, também ele agastado. Mas neste caso já é tarde demais.

Em suma, muitas as fragilidades do islão: divisões religiosas e étnicas e geográficas. Cultura sobre pressão no Oriente e em grau cada vez maior no Ocidente. Cristianizada internamente de modo inelutável no seu modo de pensar. Sem prestígio cultural. Confrontado com uma religião que sempre praticou a autocrítica como o cristianismo e sem ter armas próprias para responder ao ataque crítico. Escorregando cada vez mais para a alegoria, sempre sinal de religião em fenecimento progressivo. Vítima de conversões ao cristianismo religioso, prático ou ao ateísmo de base cristã. Fragilizado e desautorizado pelo multiculturalismo que lhe deu visibilidade pela primeira vez na Europa. Visibilidade que lhe mostra as fracturas.

Há uns simplistas que dizem que islão está a morrer. Por dentro, demograficamente, por a religião que mais cresce no mundo ser o cristianismo, sobretudo na sua versão evangélica. Desconfio de estatísticas apressadas. Mas se o islão nasceu também por ensinamento cristão mal assimilado está agora a forçar-se à mudança sem conseguir de novo assimilar a aprendizagem do cristianismo. Dilema trágico: ou o assimila dissolvendo-se, ou o recusa fragilizando-se ainda mais. O seu destino político, apenas político (desafio algum leitor a que em diga ter lido algum manual de teologia islâmica que o tenha esmagado pela sua grandeza cultural) é uma manifestação da sua fragilidade intrínseca. Sem a vitória política condena-se aparecer nu perante o espírito europeu. Aparece o que sempre foi. Deixo a valoração para o leitor.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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Editorial

As democracias liberais em que vivemos não impõem objectivos sociais, nem quaisquer concepções normativas de bem. Estão ancoradas na ideia de direitos e liberdades individuais, recusando a imposição de valores absolutos ou de concepções pré-definidas de um bem comum. Sem negar a existência de uma Verdade última (isto é, sem negar a existência de um bem último ou comum), e nesse sentido afastando-se do puro niilismo, as nossas actuais democracias, assumindo a sua matriz liberal, negam ao Estado o direito de impor dogmaticamente uma concepção específica de bem. Ao invés, assentam no pressuposto de que o indivíduo pode, por si próprio e através de um processo racional de confronto de ideias, encontrar o caminho para a Verdade.

A pedra angular de todo este edifício demo-liberal, a condição mesma da sua existência, é um espaço público em que, de modo livre e incondicionado, sem preconceitos, sem dogmas e com uma atitude assumidamente tentativa, se confrontam teorias e concepções distintas, ideias e visões opostas, das quais, em última análise, acabarão por brotar valores que nos implicam com tudo o que tem a ver com a vida contemporânea, da filosofia ao sexo, da arte à política, da história à moral, da liberdade a Deus.

Como tal, este ‘marketplace of ideas’, à maneira de Stuart Mill, constitui uma das mais preciosas e poderosas garantias do respeito pela nossa liberdade individual. A sua construção e alimentação quotidianas são um direito, mas sobretudo uma responsabilidade de cada um de nós – que não pode ser inteiramente delegada nem em partidos políticos, nem em corporações, nem tão pouco no chamado sistema mediático.

Neste contexto, o «Geração de 60», enquanto espaço plural de debate que se deseja imodestamente sério e inteligente, é uma contribuição egoísta para a defesa da nossa própria liberdade.