Um agnóstico encontra uma judia
Bem sei. Parece o início
de uma anedota estereotipada. Mas não é.
Vi algures que Camus
disse que, se a Europa se quisesse construir, precisaria de conhecer a obra de
Simon Weil «L'Enraciment». Em suma, se se quiser uma Europa com alma.
Eis o agnóstico, eis a
judia. Judia especial à porta do catolicismo. É verdade.
Que nos interessa este
paralelo agnóstico? Observemos católicos sinceros, com prática generosa. Que
dizem? Que a Europa são os direitos do homem, a democracia e a economia de
mercado, que o centro do pensamento é a doutrina social da Igreja, que o
importante é ser boa pessoa e a Santíssima Trindade é apenas um jogo
intelectual, o importante é seguir Jesus.
Capturados pela
excelsamente inepta teoria dos valores, coxinhos da ontologia, julgam que é
impunemente que o seu estreito horizonte vital se estende à sua frente. Nas
suas impunes mentes não aparece nem dissonância nem escândalo.
Mas são os cúmplices de
uma Europa sem alma, aberta a definir-se de qualquer forma, em saldos
ontológicos, sendo qualquer coisa desde que a coisa que seja permita a todos
serem, menos nós que nada somos e se pretendermos ser é apenas sinal de
intolerância em relação aos outros, os únicos que realmente são. Há mil
maravilhosas culturas e nenhuma dela é europeia, como é evidente.
O católico bem
intencionado mas turístico não percebe porque cada vez tem menos lugar numa
Europa que é Estado de direito, democracia e direitos do homem. E não percebe
que é tão coxo ontologicamente quanto os seus vizinhos laicos. Aceita
definir-se sem alma, apenas instrumento jurídico e sentimental. O que interessa
é ser boa pessoa, o que se identifica tontamente com seguir Jesus.
Quanto à ontologia,
deixo-a para outra reflexão. O que importa agora é lembrar o que disse o
agnóstico sobre a judia. Sem alma apenas se faz uma Europa vazia onde só está
em casa quem a ela não pertence e por isso quer dela tomar posse.
Alexandre Brandão da
Veiga
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