sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Os cristãos destruíram a cultura pagã?

 


Recentemente saiu mais um livro a queixar-se dos malandros cristãos que destruíram a cultura pagã. Para fazer propaganda do livro diz-se que a autora tem uma grande erudição e que faz novas revelações. Comecemos pelo princípio. Tudo o que ela diz já era dito por alguma da erudição inglesa do século XVIII, alguma alemã do mesmo século e do seguinte. Para não ir mais longe: Gibbon no século XVIII. Este ao menos era original e bom escritor, não um trauliteiro que queria fazer negócio com as fantasias da plebe. A ironia é que, e isto os seus admiradores omitem geralmente, no fim da sua vida converteu-se... ao cristianismo.

O primeiro problema é que a plebe quer ter novidades quando é de sua natureza ser redundante. Mas surge um segundo problema. Os leitores da rapariga ficam indignados e dizem: vejam como os cristãos destruíram a cultura grega e latina. Seja. Mas esses leitores já algum dia se ocuparam do ablativo ou do aoristo? Apostemos que não. Se dão tanta importância a culturas destruídas, porque nunca as estudaram? Estão horrorizados com a morte de quem lhes é indiferente. Não diz isto algo das suas verdadeiras motivações? Não é a perda da cultura clássica que os choca, porque dela nada sabem. É o ressentimento contra o cristianismo.

Terceiro problema: os cristãos destruíram muitas obras pagãs. Sem dúvida. Quando durante mais de quinze séculos mais ninguém pode cuidar das obras pagãs senão os cristãos, o poder total da sua preservação está nas mãos de cristãos. O que sobra e o que não sobra está nas suas mãos. É uma inevitabilidade a que enunciam. A crítica plebeia basta-se pois com trivialidades.

Um quarto problema surge. O facto de alguém destruir retira-lhe automaticamente a legitimidade? É que se assim for, um dos grandes destruidores recentes de obras clássicas foram os Aliados durante a II Guerra Mundial. Deveríamos insistir sobre este aspecto, e dizer que era melhor Hitler e Mussolini governarem mais uns anos? A minha experiência é que os neopaganismos de pacotilha se anunciam de esquerda mas têm muitas afinidades com o nazismo e o fascismo. Mas é por um misto de ignorância e má-fé que não fazem esta ligação.

E eis um quinto. Grande parte das obras antigas foram perdidas antes do domínio cristão por esquecimento e desinteresse. Um dos outros motivos da perda de obras pagãs é técnico. Com a passagem do rolo para o códice nem todas as obras foram recopiadas. As obras perdem-se porque não são lidas nem reeditadas. Um país que não faz una única edição bilingue contribui para a perda de todas as obras clássicas na sua língua original. Portugal é dos países que menos ar de escândalo pode mostrar quanto a esta perda. Vide o que diz Giorgio Pasquali ou Alline. Mas os leitores de obras de divulgação nem conhecem estes nomes e vão estrebuchar muito antes de as lerem.

Podemos partir para um sexto problema. Quem preservou todas as obras pagãs que nos restam? Todas. Precisamente: essas obras que os leitores da rapariga nunca leram. Quem preservou? Monges cristãos. Gregos e latinos. Querem ler poesia erótica, obras blasfemas, obras que criticam os cristianismo, como as de juliano, Libânio, Proclo, Plotino, ou Símaco? Quem as preservou? Monges cristãos. Ao ponto de o grande filólogo clássico, von Wilamowitz-Moellendorf ter dito que não podia ser bom classicista quem não for bom medievista. Acham os leitores desta rapariga que lemos os papiros escritos por Platão? Não. Em geral o que lemos são manuscritos medievais escritos por... cristãos.

E chegamos a um sétimo. Diz o leitor de raspão, agora que se julga com ideias: seja, foram monges cristãos a preservar as obras antigas que nos chegaram. Mas isso é uma inevitabilidade. Nada há de meritório nisso. Revela aqui o leitor do povo dois problemas. O primeiro é que a inevitabilidade atravessa a sua vida. Para desmerecer o adversário tem de o achar trivial: como ele mesmo. O segundo é que nenhuma inevitabilidade existe. Da antiga civilização persa os mais antigos testemunhos literários que nos sobram não são persas, mas gregos. E quem os preservou? Os monges cristãos. O islão destruiu esse sim destruiu totalmente os monumentos literários históricos do irão pré-islâmico. Aqui está. O escândalo que o leitor de obras baratas pode sentir deve senti-lo em relação aos eruditos muçulmanos. Se acha condenáveis os destruidores absolutos eis aqui os seus verdadeiros inimigos. Ou o seu escândalo é só pretexto?

As perguntas a colocar são simples para os leitores destituídos de livros indigentes. Mas fiquemo-nos por uma simples: quantos autores clássicos leu? Quantas vezes se perdeu no humor melancólico de Menandro ou nas tríades de Proclo? Se a resposta for: nem sei do que falas já ficámos a saber que não são os supostos crimes dos cristãos que o chocam, não é a justiça que o motiva, mas vontade de acusar os cristãos de seja o que for. Lembre-se, no entanto, que o seu argumento o vincula. Se lhe causam indignação os selvagens que destroem obras de cultura superior será um dia advertido: olha estes selvagens que destroem igrejas, pinturas e preferem a música dos selvagens a Bach. O seu embaraço só porá a nu que a única coisa que o choca não é a destruição da grandeza, mas a vitalidade da única religião que o chamou de gente e lhe deu dignidade: o cristianismo.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

Veja-se o efeito desastroso que teve a II Guerra Mundial para os arquivos em Itália (BELLI, Carolina, «Storia e Feudi. Rileggere le Fonti», in BRANCACCIO, Giovanni (cur.), Il Feudalesimo nel Mezzogiorno Moderno. Gli Abruzzi e il Molise (Secoli XV-XVIII), Biblion Edizioni, Milano, 2011, p. 367). A II Guerra Mundial provoca destruição de arquivos também em Milão. 55 mil tomos foram destruídos na Biblioteca Ambrosiana (PAGLIUGHI, Paolo, Il Cardinal Federico Borromeo, Marietti 1820, Genova-Milano, 2010, p. 263). Destruição de manuscritos alemães pela RAF durante a II Guerra Mundial (TILLIETTE, Xavier, Vita di Schelling, Bompiani, Milano, 2012, p. 530, p. 886). A II Guerra Mundial como grande destruidora de documentos (DUNNINGTON, G. Waldo, Gauss, Titan of Science, The Mathematical Association of America, New York, 2004, p. x). En 1944 um manuscrito destruído em Chartres (RICHÉ, Pierre, Gerbert d’Aurillac. Le Pape de l’An Mil, Fayard, Paris, 2006, p. 236). Na II Guerra Mundial o papiro de Iena sofreu grandes danos (ROUSSEAU, A., «Introduction. Le Papyrus d’Iéna», in IRÉNÉE DE LYON, Contre les Hérésies, Livre V, Tome I, Éditions du Cerf, Paris, 1969, p. 122). Em 15 de Setembro de 1945, um soldado americano mata Anton Werbern, porque este se tornou visível ao fumar um cigarro (CHANTRE, Benoît, Le Clocher de Tübingen, Grasset, Paris, 2019, p. 48), cumprindo assim ironicamente um ensejo de Hitler, de aniquilar artistas degenerados, e repetindo o destino de Arquimedes, morto pelo soldado romano.

 

A destruição de manuscritos durante as invasões francesas dos anos 90 do século XVIII na Alemanha (BOYLE, Nicholas, Goethe. The Poet and the Age, Volume II, Revolution and Renunciation, Clarendon Press, Oxford, 2003, p. 158). É durante as invasões francesas de Itália que um revolucionário destrói o famoso Terêncio de Bembo (DAIN, Alphonse, Les Manuscrits, Les Belles Lettres, Paris, 2014, p. 190). Em 1870 o bombardeamento de Estrasburgo destruiu manuscritos preciosos (PASQUALI, Giorgio, Storia della Tradizione e Critica del Testo, Casa Editrice Le Lettere, Firenze, 2015, p. 44). Em 1792 o bombardeamento da biblioteca de Mainz destrói manuscritos (p. 51). Comte dizia que todos os maus livros deveriam ser destruídos, assim como as poesias medíocres, e extirpados todos os animais e plantas sem utilidade (GOMPERZ, Theodor, Pensatori Greci. Storia della Filosofia Antica dalle Origini ad Aristotele e alla sua Scuola, Bompiani, Milano, 2013, p. 1551). A Capella Ovetari agli Eremitani destruída por um bombardeamento de 11 de Março de 1944 (VASARI, Giorgi, Le Vite de’ più Eccellenti Architetti, Pittori, et Scultori Italiani, da Cimabue, insino a’ Tempi Nostri, Volume Primo, Einaudi Tascabili, Torino, 1991, p. 495). Obras sobre homossexualidade foram destruídas por Hitler ou durante bombardeamentos aliados (TAMAGNE, Florence, A History of Homosexuality in Europe. Berlin, London, Paris. 1919-1939, Volume I, Algora Publishing, New York, 2004, p. 10). Isto mostra como obras escritas podem desaparecer por efeito de dois movimentos opostos.

 

 

A hostilidade da Igreja contra o helenismo teve alguma responsabilidade na perda de manuscritos, mas de igual forma foram eclesiásticos que salvaram o património, como Fócio, Aretas e Planudes; a falta de interesse e compreensão teve maior papel na perda do património (MAAS, Paul, «Sorti della Letteratura Antica a Bizanzio», in PASQUALI, Giorgio, Storia della Tradizione e Critica del Testo, Casa Editrice Le Lettere, Firenze, 2015, p. 487). A maioria das destruições do manuscrito Arquimedes não foi feita por um monge ignorante da Idade Média mas depois de 1932 (NETZ, Reviel; NOEL, William, O Codex Arquimedes, Edições 70, Lisboa, 2007, p. 189). Em muitos sentidos a nossa época é mais de trevas que outras, nomeadamente pela cobiça. Os autores dizem-se envergonhados por terem acusado os monges do Metochion, porque «o Palimpsesto foi criação da religião, não uma sua vítima» (p. 201). Foi graças à Igreja que sobreviveram muitos manuscritos (p. 310), foi a Igreja Grega que protegeu o manuscrito durante um milénio e foram proprietários privados durante o século XX que quase o destruíram (p. 311). ROUSSEAU, Adelin, «Avant-Propos», in IRÉNÉE DE LYON, Contre les Hérésies, Livre II, Tome I, Éditions du Cerf, Paris, 2013, p. 12, fala da incúria dos escribas em relação ao texto de Irineu. Repare-se. Em relação a um texto cristão, não pagão.

 

Foram os soldados de César que queimaram pela primeira vez a biblioteca de Alexandria em 48 a.C. (DAIN, Alphonse, Les Manuscrits, Les Belles Lettres, Paris, 2014, p. 112). A destruição da biblioteca de Alexandria em 47 a.C. (STRICKLAND, Joseph, La Questione Omerica, Carlo Clausen, Torino-Palermo, 1893, p. 36). Os exemplares de Platão pertencentes à biblioteca de Aristóteles foram queimados no incêndio da biblioteca de Alexandria de 47 a.C. (ALLINE, Henri, Histoire du Texte de Platon, Librairie Ancienne Honoré Champion, Paris, 1915, p. 58). Canfora defende que a grande destruição da biblioteca de Alexandria teria ocorrido na luta entre dois pagãos, Aureliano e Zenóbia (CANFORA, Luciano, La Biblioteca Scomparsa, Sellerio Editore, Palermo, 2017, p. 201), e houve grande destruição do bairro onde ela se situava durante o saque por Diocleciano (p. 96); não é claro quando à destruição pelo califa Omar (p. 108), mas afirma que de certeza não foi César quem a destruiu, o que arderam foram livros em armazém no porto de Alexandria e não a biblioteca (pp. 78, 102, 143), nem sequer os cristãos, que atacaram o Serápion e não a biblioteca propriamente dita. O propósito do iluminista Gibbon era apologético, queria atribuir a ruína da biblioteca de Alexandria aos cristãos (p. 120). Teodósio I, imperador que tem fama de intolerante, quando monges queimam uma sinagoga, o que era episódio raro, manda o bispo pagar a reconstrução da mesma (MAGNANI, Alberto, Serena. L’Ultima Romana, Jaca Book, Milano, 2002, p. 36). Em 399, da mesma forma que se proibiam os sacrifícios às divindades pagãs na Hispânia, impunha-se o respeito em relação aos templos pagãos (p. 53). O mesmo Teodósio I escolhe como mestre de Serena o pagão Temístio (pp. 18-19).

Os incêndios de Roma sob Nero, Tito e Cómodo destruíram muitos manuscritos antigos (TIMPANARO, Sebastiano, Per la Storia della Filologia Virgiliana Antica, Salerno Editrice, Roma, 2002, pp. 36, 37). Arete, filha de Aristipo, é filósofa, no início do século IV a.C., e mestre do seu filho Aristipo o jovem (GOMPERZ, Theodor, Pensatori Greci. Storia della Filosofia Antica dalle Origini ad Aristotele e alla sua Scuola, Bompiani, Milano, 2013, p. 1083). Um concílio de Elvira no fim do século III recusou o título de mártir a quem foi punido por ter destruído altares pagãos (MOFFETT, Samuel Hugh, A History of Christianity in Asia, Volume I, Beginnings to 1500, Orbis Books, New York, 2009, p. 166).

 

O triunfo do códice de pergaminho leva no século IV à transcrição de todas as obras antigas (ALLINE, Henri, Histoire du Texte de Platon, Librairie Ancienne Honoré Champion, Paris, 1915, p. 149). YOUNG, Frances et al. (ed.), The Cambridge History of Early Christian Literature, Cambridge University Press, Cambridge, 2008, p. 176: a perda de autores antigos tem menos a ver com destruição que com falta de interesse, o que os levou a deixarem de ser copiados. A perda de obras deve-se, muito mais que à destruição dos homens e do tempo, à falta de cópias (DAIN, Alphonse, Les Manuscrits, Les Belles Lettres, Paris, 2014, p. 123). Cícero já se queixa do desaparecimento de texto de Cúrio no seu tempo (Brutus, xxxii, 122) (CICERO, «Brutus», in CICERO, Brutus. Orator, Harvard University Press, Cambridge, 2004, pp. 108-109). A perda de manuscritos antigos deve-se também à passagem do rolo para o códice, e pelo desinteresse em transcrever obras consideradas menos importantes (WARD, J. O., «Alexandria and its Medieval Legacy: The Book, the Monk and the Rose», in MACLEOD, Roy (Ed.), The Library of Alexandria, Centre of Learning in the Ancient World, I. B. Tauris, London, 2010, p. 166). Mesmo na época dos Antoninos já havia muitos manuscritos perdidos (p. 167). No incêndio de Roma do tempo de Nero foram perdidos muitos documentos de homens de génio (presume-se, gregos) (Ann. XV, XLI) (TACITO, Annali, BUR Rizzoli, Milano, 2018, pp. 726-727). Já OLLERIS, Alexandre, Cassiodore, Conservateur des Livres de l’Antiquité Latine, Imprimerie de Mme Ve Dondey-Dupré, Paris, 1841, p. 7, sabia que os autores romanos se queixavam da negligência dos copistas ao transcrever os seus livros. A perda de manuscritos antigos deve-se pelo menos em parte à passagem do rolo para o códice segundo NUTTON, Vivian, La Medicine Antique, Les Belles Lettres, Paris, 2018, p. 7.

Os tratados teóricos sobre retórica anteriores ao século I a.C. desapareceram quase todos, eclipsados pelos sucessores que os usaram e afinal os substituíram (PERNOT, Laurent, La Rhétorique dans l’Antiquité, Libraire Générale Française, Paris, 2019, p. 83). Eis mais um mecanismo de perda de textos antigos: o seu sucesso. É, aliás, muitas vezes o sucesso de uma obra que leva a que seja copiada, transformada reutilizada até ao ponto de se afundar no seu próprio êxito (p. 209).

António, o avô do triúnviro, já teria dito no início do século I a.C. que sobram poucas obras de autores romanos sobre retórica e que alguns autores gregos eram apenas nomes já para a sua geração (De Or. II xxii, 92-93) (CICERO, On the Orator. Books I-II, Harvard University Press, Cambridge, 2001, pp. 266-267). Em meados do século XIX acreditava-se que a maioria das corrupções dos textos antigos vinha da Idade Média, quando se percebeu que a maioria das corrupções graves dos textos eram muito antigas (ALLINE, Henri, Histoire du Texte de Platon, Librairie Ancienne Honoré Champion, Paris, 1915, pp. 174, 183). No caso dos textos platónicos devem ter vindo do século que se seguiu à sua publicação (p. 180). Os monges que transcreviam os manuscritos não merecem a censura que lhes foi feita. A maioria dos textos gregos foram mais correctamente transcritos que os latinos (pp. 180-181). A nossa tradição manuscrita é excelente, no seu conjunto superior à que consta dos papiros e citações (p. 188). O arquétipo das obras de Platão depende de neoplatónicos e de clérigos (p. 196). Já na Antiguidade tinha começado o processo de contaminação dos manuscritos (PASQUALI, Giorgio, Storia della Tradizione e Critica del Testo, Casa Editrice Le Lettere, Firenze, 2015, p. XVIII). Boa parte das variantes que aparecem nos códigos medievais foram transmitidas já pela Antiguidade (p. 123). Uma grande parte das lições inferiores da nossa tradição medieval começa já nos últimos séculos da Antiguidade (p. 193). As corruptelas são antigas (p. 255). Corruptelas no texto de Platão vêm já do século II d.C. (p. 257), são da Antiguidade, não dos textos medievais (pp 260-261). Da mesma forma, no texto de Demóstenes (pp. 277, 289). No texto de Heródoto vêm já do século I d.C. (p. 310), em Tucídides as corruptelas mais profundas são antiquíssimas (p. 325). As corruptelas do texto de Varrão e Festo são igualmente antigas (p. 349). As «variantes de autor» são a ultima ratio da crítica textual, não obstante (p. 419). Duas recensões de Terêncio vêem de edições antigas (p. 428). GREGORIO DE NISSA, «Contro Eunomio», in GREGORIO DE NISSA, Opere Dogmatiche, Bompiani, Milano, 2014, pp. 1170-1171, é dado como uma das provas da pronúncia velar do «c» latino, que ainda existia no tempo de Gregório de Nissa.

 

 

 

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sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Quem pode invocar o nazismo?

 

 

 

 

A colecta de grandes espíritos do nosso tempo gosta de acabar a sua argumentação com um finale estrebuchante: lembrem-se do nazismo. Como tudo é racismo e os nazis eram racistas aquilo que condenam está próximo do nazismo. Sentem que fizeram uma brilhante demonstração e não são contraditados. Uns porque os acham uns doidos furiosos outros porque se deixam convencer com argumentos tíbios.

 

Para sabermos quem pode invocar o nazismo temos de ver quem exploraram os nazis, quem eles perseguiram, em suma a quem eles provocaram sofrimento. Não quem eles desprezaram. Se fosse este o critério então os negros, mas também os portugueses e os espanhóis teriam razões para invocar o nazismo. Mas também os antigos germanos, cuja cultura nunca impressionou Hitler, apaixonado pela civilização grega e romana e não pelos vestígios arqueológicos germânicos.

 

Deixemos, pois, os desprezados e vejamos quem não sofreu com o nazismo.

 

Os africanos para começar. Os nazis desprezavam-nos, mas não os exploraram. Os ingleses com a sua generosidade habitual estavam dispostos a devolver-lhes a África alemã basicamente o Togo Land, mas também Angola, que já tinham oferecido aos alemães antes da I Guerra Mundial e voltaram a oferecer antes da II Guerra Mundial. Os nazis não queriam explorar os africanos. Os negros podem ficar descansados, não podem invocar o nazismo.

 

Os muçulmanos também não podem invocar o nazismo. Tanto turcos como árabes foram sempre bem recebidos pelos nazis. Nas SS não havia capelães militares, porque a ideologia nazi odiava o cristianismo. Mas havia duas divisões SS muçulmanas, a Scanderberg e Handschar. E nestas por excepção havia imãs como capelães militares. Os nacionalistas árabes eram conhecidos por adorar Hitler como um dos seus ídolos e na Turquia o «Mein Kampf» desde sempre foi sucesso de vendas. Os muçulmanos, seja árabes seja turcos, não podem invocar o nazismo, nomeadamente quando se dedicam alegremente a discursos anti-semitas.

 

Os judeus podem invocar o nazismo? Os askhenazis os judeus da Europa Central e Oriental, sem dúvida. De forma gritante. Quanto aos sefaradis , os que têm origem no Sul da Europa, a matéria já é mais turva. Houve vários judeus holandeses que tiveram a condenação suspensa porque os nazis hesitavam entre considerá-los judeus... ou portugueses. E devolvê-los a Portugal.

 

Os ciganos sem dúvida. De forma gritante.

 

Os católicos e muitos aristocratas também, porque foram perseguidos por serem o que eram. Uma das acusações contra as ordens religiosa era a de que favoreciam a homossexualidade e a pedofilia. Os nazis têm muitos herdeiros na nossa época.

 

Quem mais pode invocar o nazismo? Quem exploraram os nazis, quem queriam ter como mão de obra escrava que territórios queriam colonizar, que povos queriam ver reduzidos em reservas tribais e de preferência ir extinguindo aos poucos? As escolas não ensinam e os jornalistas não percebem. Mas do que não percebem os jornalistas é um vasto campo, como dizia Fontane.

 

Quem? Povos louros de olhos azuis, arianos de raça e de língua. Os eslavos. Os projectos de colonização não se dirigiram contra a África, a Ásia, seja a Turquia seja a Índia ou a China. Mas contra a Europa de Leste, até à Rússia incluída. Quem pode invocar o nazismo são os muito louros e arianos eslavos.

 

Deixemos, pois, repousar os que invocam o nazismo quando não o podem. Alguns seguem mesmo ideias nazis sem o saberem. Deixemo-los descansar em paz porque o seu cérebro já se nos antecipou no ensejo. E quando os virmos invocar o nazismo em conjunto com o racismo fiquemos consolados em perceber que estes não são os piores males do mundo, mas antes a estupidez.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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