segunda-feira, 30 de março de 2026

Os paradoxos do progressismo

 


Os ditos actuais progressistas não são muito dados à lógica e por isso vivem bem com contradicções evidentes.

 

Em primeiro lugar, dizem-se ao mesmo tempo progressistas e relativistas sem verem como tal é impossível. Adoptar um progresso é dizer que algo é objectivamente melhor que outra coisa. Se tudo tem um valor relativo não há melhor nem pior, logo não pode haver progresso.

 

O meu argumento não é só lógico - e já tal bastaria - . É empírico. Ser progressista significou historicamente dominar raças inferiores como a ciência teria provado, seria ser a favor do colonialismo como forma de civilização, ser contra o voto das mulheres porque a ciência teria provado que são intelectualmente inferiores e estão por isso dominadas pelos padres, ser a favor da perseguição dos homossexuais porque a ciência provou que é uma perversão.

 

Seja o que for que um progressista dê como progresso, por mais tonto que tenha sido, foi ao menos coerente no passado e hoje em dia deixou de o ser.

 

A segunda contradicção dos progressistas actuais é a de dizerem que são progressistas e por isso não lhes interessa o passado. Ora o problema é que o progressismo só existe caso se preencham duas condições: haja um juízo comparativo, e que esta comparação seja feita em relação ao passado. Se um progressista diz que não lhe interessa o passado quer um progresso em relação a quê?

 

O progressista não é bom em lógica e deixa escorregar a tamanca nos terrenos da ontologia. Quem o quiser por companheiro que se deixe levar como ele por um mundo sem lógica, sem essência, e em suma sem possibilidade de elevação.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

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segunda-feira, 9 de março de 2026

Arquitectura beleza e ornamentação

 

Um amigo meu esteve em Barcelona há muitos anos. Mostrou-me uma fotografia de um edifício. Perguntou-me se eu conseguia adivinhar quem fosse. Por instinto disse: parece Bauhaus, diria Mies van der Rohe. Saiu-me. Ele disse que eu tinha razão. Como eu tinha adivinhado? Não gosto de adivinhas. Não costumo responder a elas. E nunca me passaria pela cabeça relacionar Mies van der Rohe e Barcelona.

 

Schiller dizia na sua «Poesia Ingénua e Sentimental» que a maioria das pessoas deveria cobrir com os véus da arte a sua natureza asquerosa. Sim, o mesmo Schiller do «Hino à Alegria». «Todos os homens são irmãos...»

 

Qual a relação entre Mies van der Rohe e Schiller? Se reconheci a obra do arquitecto foi pela sua pureza e perfeição. Mas a imensa maioria das pessoas não é capaz dessa perfeição. O ornamento disfarça a banalidade e a falta de ideias. É realista. Também Goethe lembrava a importância do ornamento. Era realista. 

 

Quem discorda de mim deixe de usar maquilhagem e condene o seu uso. Se as pessoas usam maquilhagem é precisamente para disfarçar. O quê? A banalidade e a imperfeição. Não usar ornamento é anunciar-se perfeito. Pronto para a admiração dos outros.

 

Sim. A aparente simplicidade é apenas uma forma de presunção. E sendo os arquitectos treinados para se apresentarem perfeitos deixam de aprender o essencial para quem não sabe exprimir o essencial: o ornamento.

 

Ao pé do meu trabalho está a ser feito um edifício de betão e vidro. Por cima encheram-no de um ornamento que parece um glacé. Branco como um bolo de noiva sobre uma armadura de Panzer. Nem perfeição nem bom ornamento.

 

Le Corbusier detestava Roma. Fez belas vivendas de ricos. E bairros sociais de uma fealdade sem nome. Parte deve-se não a teorias mas a um limite da modernidade. A dificuldade na composição. Nem catedrais. nem basílicas. nem urbanismo. Apenas pequenas casas de ricos as fazem belas, belíssimas.

 

Mas parte deve-se a uma teoria que não sabe ensinar a grande composição e esquece ao mesmo tempo a arte do ornamento. Deixam de ser génios e não sabem ser artesãos. E os primeiros só aparecem num mundo rico dos segundos.


Alexandre Brandão da Veiga

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