quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Devemos desprezar Mandela?

 

 A resposta é obviamente positiva e não sou eu a dizê-lo, é a nossa época em coro unânime.

 

Dizer que a África do Sul se transformou num país corrupto e violento, ou que perdeu importância relativa na economia africana não é argumento. Muitos homens grandes deixaram bem menores depois da sua morte. Não são os chefes menores da Academia que diminuem a grandeza de Platão. A questão é bem diversa.

 

A nossa época diz-nos que devemos desprezar Mandela, Gandhi e Martin Luther King. Di-lo, mas não sabe que o diz.

 

A resistência pacífica é algo de precioso? Não, diz-se hoje em dia. Não foi Gandhi o criador da resistência pacífica, mas antes os mártires de Córdova do século IX. Cristãos sob o domínio muçulmano revoltaram-se contra ele. Com armas? Não. Saindo à rua e dizendo que eram cristãos. Como os trata a historiografia liberal? Como provocadores que no fundo mereceram ter sido mortos pela espada, e outros crucificados.

 

Alguém os invoca hoje em dia? Não. A resistência pacífica não interessa ninguém hoje em dia. O importante é ter lutado contra os impérios europeus. Os argelinos que castraram e mataram europeus são vistos como heróis, tanto quanto Gandhi. A invocação da resistência pacífica é apenas um pretexto. Com ou sem violência, alguém é bom apenas se se tiver oposto aos europeus. A originalidade de Gandhi é assim nula, como mostrei, e irrelevante, como a nossa época pensa, mas não diz.

 

Sim. A admiração por Gandhi destruída pela nossa época. Mas Mandela, e Martin Luther King? A nossa época não os admira? A resposta é negativa. Apenas lhes dá uma caução provisória, até arranjar outros que os substituam.

 

Como posso afirmar isto? Como não percebo a admiração tão sincera e tão proclamada em relação a eles?

 

Também aqui a demonstração é simples. Quando era criança lembro-me bem de quem eram os heróis do humanitarismo. Florence Nightingale e Albert Schweitzer. Eram sempre dados como exemplos máximos dele. E agora? Quem cita Mandela, King e Gandhi nunca refere os primeiros. Porquê? É que se admira o humanitarismo deveria não esquecer os grandes humanitários. E, no entanto...

 

A época quer mortos frescos, prontos a admirar. A substância do que alguém fez, o seu mérito não tem importância. A sua admiração tem um prazo de validade. É pela mesma razão que é indiferente aos mártires de Córdova, a Florence Nightingale e a Albert Schweitzer que a sua aparente admiração por novos heróis se mostra oca.

 

No século XXII irão admirar a Kakaká e o Lelelé e se alguém lhes falar em Mandela vão mostrar a total indiferença que sentem por Mandela. A sua admiração é de consumo, como um iogurte: caduca.

 

Nesse século XXII será o meu equivalente que lhes vai lembrar Mandela e os mártires de Córdova. E lhes vai lembrar que, nada admirando de perene, deixam a nu o vazio da sua admiração. E nessa altura quem falar de Mandela vai ser desprezado. Precisamente: pelos defensores do humanitarismo.

 

Eis como esta época me ensinou que Mandela, King e Gandhi são desprezíveis. Porque só os admira sob a condição de os poder livremente substituir na sua memória. 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

 

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