quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

O ministro das Finanças, a educação e as obras públicas

Mário Patinha Antão às vezes pode ter razão e isso terá acontecido com o artigo que escreveu para o Público de hoje. Diz ele aí que o actual ministro das Finanças tem pouco poder para fazer frente a demandas de ministros gastadores ou com pastas altamente deficitárias, como são os da Saúde e das Obras Públicas. Há muita gente hoje em dia a dizer o mesmo: é preciso dar mais poder às Finanças para que se possam fazer orçamentos equilibrados do ponto de vista da estrutura das receitas e despesas (e do défice, claro) e planeados para cada legislatura.

Este artigo vem por baixo de um outro – um pouco ideológico – do meu amigo e colega Rui Ramos. Não resisto a notar aqui uma falha “científica” da sua argumentação. Diz ele:

“E para que serve todo este fervor e piedade [em prol da educação e das obras públicas]? Nos últimos 20 anos, os governos portugueses efectuaram o maior investimento de sempre em educação e obras públicas. Em termos europeus e em relação aos recursos disponíveis, nenhum outro país se terá esforçado mais. O resultado? A contínua descida das taxas de crescimento e o empobrecimento relativo do país desde 2000.”

Afinal não é um, mas são dois os deslizes científicos. Veja-se, em primeiro lugar, como a terceira frase é posta de forma que é sempre verdadeira, mesmo quando falsa. Depois, veja-se a associação que é feita na última frase, que implica uma relação de causa-a-efeito longe de provada e altamente redutora. A educação é um mito que tem de ser combatido e já o foi longamente na década de 1990. Aliás, hoje já ninguém diz os disparates que se diziam na altura. Mas atenção: embora a educação não seja, claro, uma condição suficiente do desenvolvimento, ela é seguramente necessária. Embora possa ser tanto consequência como causa. Assim como as obras públicas.

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Alguém disse Led Zeppelin?



Foi o Manuel que lançou este debate serôdio. O Gonçalo deitou mais umas achas para a fogueira. E eu não resisto a uma boa discussão liceal. Led Zeppelin? Francamente. Nunca lhes consegui arranjar um lugar em nenhum dos meus pessoalíssimos top ten. Nem no «Best Rock Bands ever» (edição do autor num caderno puído que é hoje uma raridade) nem - por maioria de razão - em nenhuma das subsequentes listagens temáticas com que me divirto a popular o meu ipod («Best Rock Bands 60/70's», «Psicadélica imprescindível», «Dimitri From Paris and the French dance scene», «The Duke and The Aristocats (assim mesmo)» entre muitas outras categorias absolutamente inconfessáveis).

Mas fiquemos-nos pela listagem mais abrangente. Stones à cabeça: Jagger, Richards, Watts, Wyman mas também Jones e Taylor. É dogma. Não aceito sequer discutir o tema («uma base de Blues» Manuel? Vou oferecer-lhe o «quintessential» Exile on Main Street e depois falamos). Doors logo a seguir. Pink Floyd, Velvet (& Nico), Lou Reed (que tem mais vida para além dos VU) o camaleão Bowie, o «sex machine» James Brown, o roufenho Robert Zimmerman (aka Bob Dylan). E, numa concessão pós 70, Prince (ou «the former artist known as») e os U2. Mas a lista podia continuar: Hendrix, Joplin, Van Morrisson, Neil Young, Iggy Pop...

Alguém disse Led Zeppelin?

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Escutas e Atávicos Receios

A designada questão das «Escutas», em particular no que respeita aos designados «Serviços de Informações», tem feito correr muita tinta nos últimos tempos. De súbito, parece não haver por aí um grupo de pessoas que mais terá a fazer do que divertir-se a escutar 10 milhões de portugueses para descobrir as suas fraquezas, morais sobretudo, de forma a reconduzi-los, seja por que meios for, a uma recta e sã vida moral. Será mesmo essa a questão?

Raymond de Bequelle (1968)
Não, essa não é, como é evidente, a questão _ muito embora, pelo modo como surge discutida nos meios de comunicação, quase pareça ser, seja por receios atávicos de uma qualquer nova PIDE, seja por completa incompreensão, segundo se nos afigura, do que poderá verdadeiramente estar em causa: eficácia dos Serviços de Informações; Ordenamento Jurídico e concentração de poder.

No que respeita aos Serviços de Informações, deve ser tida em atenção, antes de mais, a posição geográfica de Portugal e as consequências daí resultantes em termos de posição estratégica de entrada na Europa e interligação com terceiros continentes e respectivas vulnerabilidades daí decorrentes.

Em primeiro lugar, Portugal encontra-se, como qualquer outra nação do mundo actual, ameaçado por actos perpetrados pelos mais variados Grupos de Crime Organizado, sejam Grupos Terroristas, Grupos de Narcotráfico, Grupos de Tráfico de Seres Humanos, Grupos de Tráfico de Armas ou de Falsificação de Moeda, para nomear apenas alguns dos casos mais graves e evidentes, sem irmos mais longe.

Hoje, como é natural, as atenções tendem a concentrar-se nas ameaças terroristas e a reacção imediata é julgar não constituir Portugal, seja para que grupo terrorista for, um alvo principal. Afinal, não se encontram em Portugal nenhumas das tensões que, usualmente, são dadas como causa desses mesmos actos. Temos Comunidade Muçulmana perfeitamente integrada, não sofremos de quaisquer problemas de reivindicações separatistas regionais, mesmo as comunidades de novos imigrantes, possuindo um fundo cultural semelhante ou, pelo menos, com a mesma raiz, tampouco oferecem uma particular preocupação, embora, como é evidente, aqui e ali não deixem de surgir ou suscitar dificuldades e problemas.

Para além disso, dada, uma vez mais, a posição geográfico-estratégica de Portugal e a sua atitude, em geral, mais aberta, reconhecendo o seu valor como eventual base de recuo, mais razões encontram ainda aqueles que defendem a tese de improbabilidade de algo suceder em Portugal exactamente por razões estratégicas de preservação dessa mesma capacidade oferecida pelo nosso território.

Contudo, reconhecendo também as crescentes dificuldades de operação encontradas em outras paragens, não menos defensável será igualmente a tese segundo a qual, exactamente por isso, à medida que o tempo passa, mais e mais aumentam as probabilidades de algo suceder, por facilidade de operação, no território nacional.

Pessoalmente, podemos estar mais de acordo com a primeira tese mas, em termos institucionais, i.e., do ponto de vista do Estado, constituindo uma das suas primeiras e mais importantes obrigações a defesa dos cidadãos, não se afigura aceitável que, por ingenuidade, incúria ou o que for, descurada seja qualquer possibilidade, por mais remota que seja.

Nesse enquadramento, os Serviços de Informações assumem e desempenham, como é óbvio, uma tarefa determinante, decisiva, crucial. Assim, tendo em consideração a importância das Escutas (dito na gíria, capacidade COMINT, ou seja, intercepção de comunicações humanas), tendo em vista a realização, com plena eficácia, da sua missão, não se entende, compreende ou aceita como tal capacidade lhes pode ser ou estar vedada.

Todos sabemos como é suposto o Estado ou Governo ter nascido, como é classicamente referido e aceite, a partir do momento em que os cidadãos, exactamente em nome de uma desejada paz, procurando ultrapassar a fase do «homem lobo do homem», da guerra de todos contra todos, decidiram e aceitaram abdicar de alguma da sua «liberdade» individual, outorgaram ao mesmo Estado ou Governo o direito exclusivo de uso da força como forma de coacção necessária à preservação dessa mesma paz.

Poder-se-á, assim, dizer-se encontrarmo-nos num momento em que aos cidadãos é pedido nova abdicação de uma parte da sua «liberdade» em nome de um acréscimo de segurança, defesa e preservação da referida paz?

Independentemente do entendimento do conceito de «liberdade» aí expresso, não cremos ser essa a situação nem essa a questão. Haverá, por certo, quem entretanto reclame pelos «direitos, liberdades e garantias» constitucionais mas, neste ponto, encontrando-nos já em domínios de Ordenamento Jurídico, a adequada solução não deixará de ser encontrada, seja chamando um Juiz à supervisão ou autorização das referidas capacidades COMINT, seja qualquer outra, tanto mais quanto muito distinta cousa são Informações e Investigação Criminal e, como é evidente, ninguém medianamente inteligente as irá confundir, não se justificando, por consequência, atávicos receios nesse particular, como por vezes parecem surgir.

Reatará talvez uma terceira questão, menos debatida, de algum modo correlacionada com a anterior, a merecer todavia não menor atenção, qual seja a da possível ou já real concentração de poderes, ou seja, concentrar numa mesma figura, mais exactamente, numa mesma pessoa, a tutela das Polícias, Investigação Criminal e Serviços de Informações.

A terceira questão afigura-se-nos ser, de facto, aquela que poderá justificar, neste momento, alguma preocupação e, por consequência, maior debate. Contudo, estando em causa questões, sérias, profundas e graves de Segurança e Defesa nacionais, importará tudo isso discutir, sim, mas sem falsos nem atávicos preconceitos político-emocionais.

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terça-feira, 11 de dezembro de 2007

What are we all about?

Acabei de participar num colóquio sobre emprego para deficientes. A pergunta que imediatamente me ocorre, é (muito) politicamente incorrecta, em particular, para quem trabalha na minha àrea profissional: porquê descriminar positivamente os deficientes, num País com mais de 8 % de desempregados, muitos deles com encargos familiares que atingem milhares de pessoas? A resposta só pode ser ética: é um esforço que vale a pena porque queremos viver numa sociedade solidária e que cuida dos seus elementos mais vulneráveis. Ética e ideológica. Mas como lutar por essa sociedade, quando a preocupação se centra nos líderes e não nas ideias? nas pessoas e não nos modelos? e também quando se confunde os meios com os fins: o equilibrio da balança de pagamentos surge como objectivo ultimo, sem discussão de como distribuir ou utilizar a riqueza que se produz, ou o ganho económico que no futuro daí virá. E finalmente, como lutar por uma sociedade ética em competição num mundo global, onde os próximos competidores como a Índia ou a China, não se preocupam com essas "miudezas"? A resposta, creio, vem de que uma sociedade baseada em princípios éticos e nos valores democráticos será uma sociedade de liberdade e creatividade, e em última análise capaz pela inovação, competência e justiça, de estar sempre mais à frente.

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Led Zeppelin Reunion

Agora mesmo, se calhar a fechar o concerto, em Londres, no 02 Arena, os Led Zeppelin devem estar a tocar “Stairway to Heaven”.
Não me venham cá com conversas de heavy metal, os Led Zeppelin eram - whole lotta love - puro rock ‘n roll. Com uma base de blues, de vez em quando a deixarem-se embalar por um som acústico.
Concedo que se quisermos aplicar com um mínimo de propriedade o termo “amplificação” e, vá lá, a ideia de “distorção”, é aos Led Zeppelin que ambos assentam bem. Ou seja, afinal talvez se possa dizer que foram eles o momento em que o heavy metal esteve mais próximo da eternidade.
Hoje, em Londres, os Led Zeppelin ressuscitaram. Numa nostálgica “reunion”. Quem me dera lá estar! E se calhar não. Jimmy Page tem já 63 anos. O tempo não é circular e há reencontros a que devemos poupar-nos. Prefiro guardar a imprecisa memória da flagelada voz que cantava:
"There´s a lady who’s sure all that
Glitters is gold.
And she’s buying a stairway to heaven
."

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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Em nome da liberdade


A BBC World Service comemora 75 anos. Para marcar a data, publica um conjunto de artigos sobre a liberdade de expressão. Também, claro, sobre a liberdade de informação e a liberdade de imprensa.

Vale a pena. Serão, tal como anunciado, top European thinkers... Para já, Jeffrey Sachs, director do Columbia University's Earth Institute, Onora O'Neill, filósofa, Wole Soyinka, poeta e dramaturgo.

Visões diferentes para uma mesma convicção: o imperativo da liberdade. Do testemunho directo e prático à proposta mais teórica e estruturada, tudo se confronta: fundamentos, disciplina e limites. Da liberdade, pela liberdade.

Passados 75 anos, a BBC lembra ainda e sempre o essencial. Bem como o que lhe subjaz de rigor, escrúpulo, exigência e respeito.

A nós, à distância, sabe-nos bem. Ou, pelo menos, a alguns de nós.

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Incompatibilidades?

Primeiro foi o ex-director do Jornal de Negócios que assumiu funções na Fundação EDP. Agora é o ex-director do Diário Económico que é convidado para um cargo de grande responsabilidade no universo Sonae. Se lhes juntarmos as dezenas de jornalistas que «enxameiam» os gabinetes de marketing e comunicação de boa parte das grandes empresas do país ficamos com uma boa ideia da realidade que constituem as relações perigosas entre o jornalismo e o poder económico.
Provavelmente os exemplos citados não se explicam por outra coisa que não seja a competência dos jornalistas em causa. Mas à mulher de César....
Não terá chegado a hora de os jornalistas estabelecerem, em sede de código deontológico ou de qualquer outro instrumento de auto-regulação, algumas incompatibilidades ou períodos de nojo que evitem que se alastre a toda classe um clima de suspeição que não é saudável nem para o jornalismo nem para a democracia? Ou será que as incompatibilidades só ficam bem aos outros?

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Roberte-Nessa-Noite

Há um romance em que, pelas leis de hospitalidade, o marido, invocando a essência do anfitrião, oferece aos convidados os favores da sua mulher. Tudo acontece em 94 páginas que oscilam entre a teologia e a pornografia.
Roberte-Nessa-Noite”, esse romance, foi escrito por Pierre Klossowski, em 1954. Entra naquela categoria de livros que, pelo seu anacronismo intrínseco, e pela perda de prestígio da cultura francesa, “hoje ninguém se dá ao trabalho de ler” e que só por bizarria recomendo. Li-o tarde, nos anos 80, e continua, cinco lustros depois, a fazer parte dos meus livros de culto, como “A Idade de Homem”, de Michel Leiris, de que falei aqui, ou os “Cantos de Maldoror”, de Lautréamont, de que talvez venha a falar.
A biografia de Klossowski compete com o “amontoado de desejos carnais e espirituais” que atravessa “Roberte”, o romance em apreço. Parisiense, filho de pais de origem polaca e irmão do pintor Balthus, teve como mentores o poeta Rilke, que terá sido amante de sua mãe, e o escritor André Gide, de cujas mãos saíu, para se recolher durante alguns anos no seio de um mosteiro dominicano, na firme disposição de tomar ordens.
Em 1947, depois da Guerra, a vocação sofre um sobressalto e Klossowski abandona a vida monástica, casando-se com Denise Marie Roberte Morin-Sinclair, jovem viúva de guerra. É ela a heroína de “Roberte-Nessa-Noite”, o primeiro romance de uma trilogia erótica, com o título genérico “As Leis da Hospitalidade”. A Roberte do romance, membro do Comité de Censura do Parlamento, é tão inspirada na sua mulher, quanto Octave, o protagonista, escritor de livros obscenos, é o alter-ego do próprio autor.
O que é singular no romance é a fraternidade entre o deboche sexual (“Com uma joelhada violenta entre as nádegas, ele obriga-a a abrir amplamente as coxas; os dedos de Roberte deixam soltar todas as volutas do seu utrumsit à cara do corcunda...”) e o debate teológico (“Querendo colocar a vida do espírito ao abrigo da morte espiritual, o nosso autor criou a dupla substância na qual o espírito se torna solidário de um lugar obscuro, esta carne, imagem do segredo que toda a vontade criada partilha com ele”).
Essência e existência, corpos e puros espíritos, heresias gnósticas e Santo Agostinho, a vida da carne e os caminhos de Deus cruzam-se, em “Roberte”, com experiências sexuais limite que aproximam Klossowski da leitura que ele mesmo fez do divino e perverso marquês, no seu ensaio “Sade, Meu Próximo”.
O romance de Klossowski é um romance de risco, de uma exposição pessoal que busca a transgressão e o escândalo, formas pelas quais o autor queria aceder à comunhão com o sagrado. Tudo servido pela sintaxe clássica soberba de quem traduzira do alemão Nietzsche e Heidegger e do Latim Suetónio ou Virgilio.
Para evitar a censura francesa, “Roberte” foi publicado em edição de luxo com ilustrações do próprio Klossowski (não gostou das que Balthus, o irmão, lhe propôs), e foi vendido por subscrição. Em Portugal o livro saíu na “Livros do Brasil”, com magnífica tradução de José Carlos Gonzalez.
Klossowski morreu em Agosto de 2001 tendo, para além da literatura, deixado vasta obra pictórica, como é o caso desta que integra a colecção Berardo.

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sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

V. Proclo, Teologia Platonica. Testo greco a fronte, Bompiani, 2004 (Post-scriptum)

Deixo para post-scriptum o passeio turístico pela obra. Como a Internet é useira e vezeira no plágio, e na pretensão culta, parece-me importante mostrar que o que afirmo em texto não decorre de umas ideias que me passaram pela cabeça ao folhear o livro.

Por outro lado, não deixa de ser divertido correr uma por uma as fontes europeias e verificar o que de uma forma ou de outra caracterizou a civilização europeia desde há muito.

Este percurso tem-me confirmado a ideia de que todas as inépcias que se dizem sobre a identidade europeia não são mais que isso: locuções de ineptos. A Europa ser democracia, direitos do homem, construção meramente voluntária, anti-histórica, a Europa ser uma mera encruzilhada de civilizações cai pela base sempre que nos defrontamos com as suas fontes. Nelas nunca encontro turcos, raramente encontro árabes (e sempre com um papel bem diverso do que a propaganda gosta de afirmar).

Proclo é importante a vários títulos. Como mestre do Pseudo-Dionísio o Areopagita marcou a teologia e em geral a filosofia e a alta cultura (é quase psicólogo do inconsciente, para dar um exemplo - 651) durante a Alta Idade Média e a Renascença.

É evidente que se pode dizer que a grande maioria dos europeus ignoram as causas do que os caracteriza. Não são por isso menos importantes, bem pelo contrário. Quem ignora a lei de gravidade não deixa de levar com o pedregulho na cabeça. Conhecer a dita lei é bem capaz de permitir evitar os seus feitos perniciosos.

Proclo é o primeiro autor em que vejo a referência à distinção entre ter e ser (“é mais importante o ser que o ter” etc., etc.) . Esta irritante distinção aparece pela primeira vez na História neste texto, que seja do meu conhecimento. Ignora-se de quem seja a sua autoria. Mas provavelmente começa aqui a irritante tradição de se dizer que o ter é menos importante que o ser, tradição enfadonha, pirosa e que se reduz a dizer muito pouco (335).

Sob o ponto de vista ontológico a imagem do prado (515) (em termos simples, paraíso, ou ponto onde a realidade é mais intensa) aparece igualmente, embora referido de modo lateral. Figura bem mais relevante na formação da simbólica europeia, deveria ter sido objecto de bem mais vasta atenção pelo discurso actual.

Tem o mérito de ter uma heurística explícita, coisa que não é muito comum nos filósofos: pelo facto de ter intelecção de si mesmo, todo o intelecto tem intelecção de todas a entidades que o precedem (base da heurística em Proclo 653); o inteligível está para o uno como a vida em relação à potência e o intelecto para o ser (827).

Proclo oferece-nos os lugares comuns que levam à prevalência do Uno e à sua caracterização:
1) A impossibilidade de o Ser ser o princípio unificador (213), o uno não é idêntico a si 287, gerar entidades segundas é diminuição de princípio causal, logo o uno não o pode fazer 303, o uno ilumina a essência 317, o uno transcende qualquer determinação 399, o primeiríssimo número é incognoscível 597, na relação entre o uno e o ser 581, a ligação entre uno e ser é incognoscível 615
2) No entanto, o uno produz 311, o uno como causa inefável de todas as coisas – (é causa afinal?, pode ser objecto desta determinação? O “inefável” é cláusula escapatória bastante ou apenas risco assumido no campo do indizível? 421).

Bom “henologista”, não deixa de ter uma ontologia como é evidente:
1) sem horror ao ilimitado, dado que este é sinal do divino 343
2) o misto, entre ilimitado e limitado, o ser, é mónade 351 - o que faz pensar em Leibniz como o último neoplatónico, a mónade, fonte dos números 569: Leibniz diria o mesmo, a mónade é continente universal 595, os números são anteriores às formas 577 Jung gostaria de ter percebido isto mais cedo na vida
3) a eternidade princípio causal do ser 381
4) a presença 519
5) não existe igualdade entre duas entidades ilimitadas 589
6) o desprezo da sucessão temporal típico de muito discurso filosófico 997


Em bom neoplatónico tem igualmente uma teoria da consistência do mundo algo particular:
1) o primado do bem - o afastamento do demónio enganador em Descartes parte da mesma premissa 107, em consequência, está contra os maniqueístas 127
2) a amor como explicação da dádiva do uno 151 mas que depois não desenvolve, o amor como cimento da ligação (mas fala do Eros grego, não do “agape” ou da “filia”) 161, mas amor em segundo grau 165
3) a obsessão do “circulus” 133, a ressurreição 175, a geração relativa das almas, não geradas no tempo em Timeu de Platão 177, o modo cíclico na geração dos entes (223) mas e princípio filosófico, não crença geral
4) espantam as apenas as esparsas referências a Plotino e Porfírio (231, etc.) como se houvesse a preocupação de se demonstrar puramente platónico, de ir à fonte original
5) a ligação entre a cópia e o modelo baseia-se na semelhança 863, 867, 873 947 no entanto o que permanece misterioso é o fundamento da medida da diferença com o modelo, a cadeia 873 imagem semelhante á da escada de Jacob que tanto esteve presente na Idade Média.


Uma cosmologia e uma física
1) O instante como limite em Aristóteles, antecipando a teoria matemática da vizinhança 385; já o sabíamos, Aristóteles antecipou muita coisa: nomeadamente os efeitos terríficos de se deixar imperar o vulgo
2) O cosmos é unigénito 749. Ora tendo em conta a eternidade do cosmo 437 a obsessão do Uno parece retirar a possibilidade da multiplicidade, e menos ainda, da infinitude de mundos. Se se imputa o neoplatonismo a Giordano Bruno, pelos vistos a ideia de infinitude de mundos não é obrigatória no neoplatonismo.
3) O movimento recto e circular 903, destrinça essencial para se compreender a História da inércia. No entanto, já no mundo sublunar se encontram os movimentos em linha recta 615, ficando sem se perceber se sequer concebia a possibilidade de uma movimento “natural” recto. Parece ir contra esta possibilidade o facto do movimento circular do idêntico 909, o facto de demiurgo dominar os períodos cíclicos 719. Até nova ordem, a inércia pensada como movimento rectilíneo parece-me conquista cristã, começando sob o ponto de vista intelectual em Santo Agostinho.
4) O geocentrismo 985 parece que não é afinal doença medieval e cristã, mas vem já do mundo antigo.


Oferece-nos igualmente uma teoria do destino:
1) ciclos da alma 345
2) lei de Adrasteia "Esta é a lei de Adrasteia: toda a alma que viu alguma das entidades verdadeiras está imune ao penar" (525, 527, 669, 753, 993) também as almas particulares podem elevar-se acima do “fatum”, que mostra a semelhança com o budismo
3) uma boa resposta ao problema do determinismo - 757 diz em suma que o que eleva as almas é regido pela providência e o que desce para a natureza é governado pelo destino.

E uma teologia em sentido estricto:
1) teologia dos Pais - expressão que comunga com a patrística cristã 341
2) o vivente em si como unigénito - temática em comum aos cristãos embora depois diga que o vivente em si é transcendente ao demiurgo 375, a tríade unigénita 387
3) só a partir do livro V, 3 começam a aparecer as divindades do panteão clássico 641
4) as mutilações divinas 643
5) v.g. 915 a impressão que dá é a de que Proclo pretende dar uma imagem de uniformidade á teologia grega semelhante á que a cristã tem. nunca referindo o cristianismo é sempre com ele que se está a confrontar
6) tipologia de divindades 965.

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The key to reserva



Imagine que Scorcese encontrava um guião perdido de Hitchcock e que se propunha filmá-lo. «A la Hitchcock». Pois bem, alguém teve a ideia genial de trasnformar em realidade esta ficção cinéfila e o resultado é... ficção fabulosa. 9 minutos do melhor Scorcese. Ou será Hitchkock?
O site do patrocinador está aqui.
ps: esta pérola chegou-me pela mão do João Marchante. Não há bons filmes sem bons créditos.

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

IV. Proclo, Teologia Platonica. Testo greco a fronte, Bompiani, 2004

Os neoplatónicos, e Proclo não escapa a essa regra, mostram alguma da ironia da nossa época. As pessoas andam buscando filosofias ditas orientais, que supostamente conciliam as necessidades espirituais com um discurso mais racional. Paradoxo a múltiplos títulos, porque são em geral pessoas muito pouco racionais (e apenas desejando curar a tensão quotidiana) que se colam a essas filosofias. A busca do budismo é um dos exemplos desta moda. Devo salientar que é exactamente por respeitar profundamente o budismo que me fazem impressão (a mim e aos budistas) as tontices de quem o procura turisticamente. Proclo, quando enuncia a lei de Adrasteia, mostra que a tradição europeia nunca perdeu (para quem a conhece, obviamente) a noção de espiritualidade associada ao racional, numa formulação próxima do budismo. A lei (em causa “thésmos” e não “nómos”, ou seja lei mais que divina e inquebrantável, ao contrário da mera regra) de Adrasteia, a herança de Platão do Fedro, reza: "Esta é a lei de Adrasteia: toda a alma que viu alguma das entidades verdadeiras está imune ao penar" (p. 525). Não é possível em tão poucas palavras definir tão bem o budismo. E afinal trata-se de uma veia também europeia. O que só prova que quem em geral procura o budismo apenas carece de folclore e não tem imaginação suficiente que se active sem farpela de monge colorida que a excite.

Imagino a objecção, mais que gasta. Em que o que eu digo pode relevar para a discussão da Europa? Já várias vezes avisei que não me fico pelo espírito burocrático que domina a classe política, os jornalistas, os politólogos, os comentadores políticos. Prefiro falar na Europa, não em questão laterais. Mexo directamente na massa da questão. Se parece estranho o que faço é porque a Europa é estranha para a imensa maioria dos seus habitantes na perspectiva da profundidade, maldição banal de todas as culturas superiores. Que não falo da Europa? Mas se é dela que sempre falo. Do que falam outros não sei. Apenas me consola que eles também não.

O problema de Proclo foi o de ter sido lógico, no sentido forte a que os gregos lhe dão. Sob este ponto de vista lógico é bem mais universal que o cristianismo. Mas que tem ele para oferecer? Um Uno que é indeterminável, incognoscível, sob pena de se desgraduar e que é incomensurável com os restantes passos da processão dos entes. Deuses gregos que são descarnados ao ponto de não terem história, isentos de qualquer narrativa ou de oscilação. Uma distância infinita entre o Uno e qualquer das suas manifestações.

Já o cristianismo tinha para oferecer um conjunto de ousadas presenças, quase obscena sob o ponto de vista lógico. Deus está carregado de determinação, Deus compreende-se pelo Ser. Deus é amor, Deus é Vida, Deus é Logos, Deus é Pai, Deus é Filho, Deus é Bom, Deus é Espírito Santo. Deus faz-se homem e conversa connosco. Deus entra na História e padece dela. Deus partilha plenamente da nossa natureza quando feito Cristo. Deus fala-nos. Deus actualiza-se em Presença Real na hóstia (embora a formulação final do dogma da transubstanciação seja mais tardia, esta encontra-se bastamente enunciada pelo Padres da Igreja).

O cristianismo, embora tenha sofrido a influência intelectual de Platão, influência de que nunca se separou nem negou, acaba por ser aliado natural de Aristóteles. A primazia do Ser não é inócua de efeitos. O Deus que os cristãos anunciam ao mundo é um Deus que vem ao nosso encontro, que é feito de presença permanente e intensa, que se faz nosso irmão, sendo nosso Pai. Que participa da mesma carne e do mesmo mundo que é o nosso.
A tragédia de Proclo não é tanto a de ter sido um epílogo, mas o de apenas nos ter para oferecer uma poética e sublime despedida. O Deus dos cristãos oferece uma nova vida, e uma permanente presença. É natural que a Europa o tomasse por companheiro e por Senhor. Só Ele poderia ser motivo de novas aventuras.


Alexandre Brandão da Veiga

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Os Gurkas

Dizem que os Gurkas, uma unidade do exército de Sua Majestade Britânica formada por soldados nepaleses, constituem o melhor corpo de soldados do mundo. São altamente disciplinados, as mais fantásticas máquinas de matar do planeta. Move-os a eficácia, não a vaidade.

Os Gurkas integram o Exército Britânico desde o século XIX e são assustadoramente lendárias as suas acções militares na II Grande Guerra ou, mais recentemente, nas Malvinas.

Usam um punhal, uma arma ancestral dos nepaleses, o kukri. A arma, de origem grega, foi uma (ou talvez a única) herança de Alexandre, o Grande. Hoje, o kukri é uma extensão do braço de um Gurka. De osso, marfim ou metal no cabo. Aço da mais alta qualidade na lâmina. Sem uma dimensão exacta, o kukri tem em geral 28 a 30 centímetros sedentos de sangue. Um Gurka nunca exibe o seu kukri em vão. Uma vez desembainhado o punhal, a lâmina tem de verter sangue, só depois podendo regressar ao escuro descanso da bainha.

Como “el puñal” do argentino Borges, e como alguns dos seus compatriotas agonicamente aprenderam, a fria lâmina do punhal de um Gurka, “quiere matar, quiere derramar brusca sangre”.

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

III. Proclo, Teologia Platonica. Testo greco a fronte, Bompiani, 2004

Proclo, como todo o bom neoplatónico antigo, deu primado ao uno. Convenhamos: sob o ponto de vista lógico (no sentido grego, forte) é bem mais consistente. Se a ambição é unificar a realidade toda, o uno pode atravessar mais facilmente as fronteiras. Não é uma construção matemática, mas a sua universalidade assenta na mesma razão da (relativa) universalidade cultural da matemática. Escolher o Uno como elemento unificador da realidade não é escolher. É aceitar. É reconhecer que a formulação do problema já traz a resposta. Neste sentido qualquer pessoa, em qualquer cultura, desde que coloque o problema filosófico fundamental, já tem pela enunciação o caminho da resposta. E reconhecendo todas as línguas a unidade, sob pelo menos algumas das suas formas, a filosofia do Uno é muito mais universal. Não é capricho de filósofos decadentes.

Por isso quando vejo pessoas fascinadas com um exotismo que mais não é que turístico e se espantam com as filosofias ditas orientais vejo-me forçado a concluir que nada sabem do pensamento, da mística e da filosofia europeias. O misto de misticismos, filosofia, razão, e sentido prático que muitas vezes procuram encontra-se igualmente na cultura europeia. Em graus diversos em Erckhart, Santa Teresa de Ávila, Plotino e também Proclo .

Porque ter por centro o Uno não é isento de efeitos. Sempre que se pretende determinar o Uno apenas se obtêm a sua deslocação, apenas se o descaracteriza. Assim sendo, é mais tarde ou mais cedo inevitável que este tipo de filosofia desemboque numa mística. Foi assim com os neoplatónicos antigos, foi assim na Renascença.

A filosofia do Uno não morreu e encontramo-la em cada passo da História europeia. Os nominalismos (sob a capa de formalismos ou não), as correntes místicas e o empirismo são os seus herdeiros. Os primeiros na sua forma articulada, as segundas na forma exaltada, sendo que o empirismo é a forma melancólica da doutrina do Uno. Ainda hoje em dia quando alguém se põe a ler o DSM IV-TR está a espreitar uma modalidade melancólica da filosofia do Uno. Que misticismos e empirismos sejam afins, por mais estranho que isso possa parecer aos menos avisados, mostra-o a Renascença que foi simultaneamente adepta de ambos (e cultora consciente dos neoplatónicos – Nicolau de Cusa lia Proclo, por exemplo), ou a cultura inglesa que oscila entre o misticismo de Blake e Byron e os empirismos. São apenas duas faces da mesma moeda. Ironia da História, Shakespeare, que é o menos inglês dos escritores o mais tomista de todos, o mais cultor do ser, é tomado por fetiche britânico. Não é de espantar. Camões representa um espírito sistemático que nada tem de português e, de novo, foi escolhido como fetiche. No fundo, ambos representam o que falta no dia a dia de cada povo que os assume como ícone.

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terça-feira, 4 de dezembro de 2007

As Horas do Lobo

O regresso de António Sérgio à rádio — Radar, 97.8MHz — com Viriato 25, foi como que um regresso a um passado que foi sempre feito de futuro. António Sérgio retomou ontem às 23H (programa de 2 horas) a sua presença regular no éter, e que regresso! Grave, certo e solene, António Sérgio é daqueles autores que faz com que a música que passa seja ainda melhor do que é. Não sei se é do silêncio da noite, ou se é da confiança que temos nas suas escolhas e no seu critério. Com ele antecipa-se o futuro como há trinta anos no Rotação ou no Rolls Rock se antecipou. Com ele a música é uma constante revelação. Uma revelação dita como um segredo. Um segredo para quem o souber ouvir.

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II. Proclo, Teologia Platonica. Testo greco a fronte, Bompiani, 2004

Voltamos aos limites. Último. Temerária expressão. Mas se se tivesse de referir o último dos filósofos pagãos o lugar teria de ir para Proclo.

É de bom-tom dizer que foi neoplatónico e é igualmente justo, embora esta designação esconda realidades tão diversas quanto a “filosofia tardo-antiga” ou “pensadores renascentistas”.

Mais importante que esta qualificação é perceber o que traz à cultura europeia. O nosso padrão filosófico médio (estou generoso) é o de centrar o problema filosófico na questão do ser, seja para o afirmar, seja para o negar. Esta corrente, que de uma forma ou de outra impera no discurso expresso (se consciente ou consequente, essa é outra questão) não é neutra sob o ponto de vista da visão que se tem do mundo.

Para povos não europeus e sem línguas indo-europeias a questão não se coloca nos mesmos termos. Nas línguas indo-europeias o verbo “ser” tem uma presença e uma importância que não tem noutras línguas. É por isso natural que assuma funções e tenha uma intensidade que não pode assumir noutros horizontes culturais.

É evidente que a linguagem não é exclusivamente determinante. A filosofia indiana, estruturada em línguas indo-europeias, não dá um papel tão central ao ser quanto as europeias. Atma e Bhrama assumem entre outros papel mais relevante, embora o problema do ser não esteja ausente dela.

A problemática do ser é uma problemática indo-europeia que forma a Europa, mas apenas numa das suas vertente, a helénica.

Mas mesmo na cultura grega o ser não venceu, nem foi isento de resistências. Se bem virmos e simplificando algo a coisa, a grande luta sobre a cidadela central da filosofia opôs a henologia à ontologia. Uns centram-se no Uno, outros no Ser. Em Platão a luta não está decidida e parece que nem era essa sua intenção. Aristóteles dá primado ao ser, os platónicos, sobretudo os neoplatónicos desde Plotino dão primado ao Uno.

A coisa parece mera questão de palavras e já adivinho o ar de enfado de algumas pessoas. No entanto, tanto sob o ponto de vista da compreensão da realidade como da vivência que se lhe segue como ainda das práticas de linguagem uma e outra solução não são inócuas na nossa vida.

Convenhamos: o mundo é múltiplo. Como lidar com essa multiplicidade? É evidente que uns podem fazer como Antístenes e dizer que só se pode afirmar a tautologia: A é A. Nada mais. Visão lógica por excelência, e no entanto, nada diz sobre o mundo, desde que seja visão exclusiva sobre ele. Fica tudo fragmentado, apenas valendo a auto-referência. Esta armadilha já foi denunciada por Platão. Podemos então, se quisermos unificar esse múltiplo, seguir em abstracto três caminhos: ou abdicamos de dizer algo sobre ele, ou unificamos dizendo que tudo termina no Uno, ou seja, por um processo de absorção, ou aceitamos uma via impositiva e afirmamos algo sobre o todo, essa a via do ser.

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

I. Proclo, Teologia Platonica. Testo greco a fronte, Bompiani, 2004


Há sempre algo de convencional em se falar de limites. O maior, o primeiro, o último são sempre qualificações algo temerárias, e apenas impressivas. Quando se diz que Einstein criou a teoria da relatividade, que foi o primeiro a pensar tal coisa, não nos podemos esquecer de Kaufmann, Minkowski, Lorentz e o imenso Poincaré. Já não contando com muitos outros antecessores, como Mach, Leibniz, Montucla, onde se queira ir....

Mas não é pecado afirmar limites quando se tem consciência que estes são apenas guias. Para os efeitos que agora me interessam valem eles para fustigar mais um dos lugares comuns de que a menoridade do homem público tanto gosta. Influenciado pela má disposição de Gibbon, de que nunca ouviu falar, algumas reminiscências de Renan e Feuerbach, um tempero mal digerido de Nietzsche e sobretudo muito ensinamento liceal mal assimilado, vem-nos dizer que o cristianismo (esse tal que não seria fundamento da Europa, porque a Europa é laica, logo, é apenas um sistema político e não uma civilização) fez cair um projecto de homem feliz, pujante e no fundo mais (ou menos consoante os gostos) humano.

O homem antigo seria afinal o epítome da humanidade, e todos nós sabemos que andava ele pelos jogos olímpicos, pelos bacanais, discutia filosofia. Era em suma mais livre e mais feliz. A estreiteza de vista que equipara um grego a um romano, e a época de Sólon à de Zenóbia, apenas mostra que nada sabem do que falam.

Por isso é importante observar os últimos sinais desta vida da antiguidade, ou melhor os seus últimos representantes mais ou menos puros.

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Olha, calou-se!

De vez em quando, acontecem coisas que nos fazem pensar que há no concerto do mundo e dos homens alguma justiça poética. Os venezuelanos acabam de dizer não, nas urnas, ao referendo que o generalíssimo Hugo Chávez lhe submeteu.

Apesar do controle, apesar dos sinais de intimidação, a maioria recusou apoiar o referendo que o presidente propunha: “¿Está de acuerdo en aprobar el proyecto de reforma constitucional preparado por la Asamblea Nacional con la participación del pueblo y basado en la iniciativa del presidente Chávez?”. É a primeira vez, desde 1998, desde que Chávez se deixou possuir por um putativo espírito bolivariano, que os eleitores lhe dizem "basta ya". Abortou-se o golpe de estado constitucional com o qual Chávez se propunha instaurar na Venezuela o “socialismo do século XXI”, ou seja, e em bom portinhol, uma rematada ditadura caudillista (poderia candidatar-se um número ilimitado de vezes, teria o direito a censurar a imprensa em situações de crise, bem como o direito a controlar a banca).

A vitória da oposição, nas condições em que foi obtida, é menos pírrica do que Chávez veio dizer e tem até uma dimensão transnacional que pode iluminar os caminhos da democracia noutros países da América Latina. Que esta pequena consolação não nos faça esquecer os séculos de injustiça e desigualdade que criaram e criam terreno fértil para o aparecimento destas figuras de camuflado e bota pesada.

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sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Vitorino Magalhães Godinho e a Europa

Acabei de ler a entrevista do professor Vitorino Magalhães Godinho no Jornal de Negócios Caderno Week End desta sexta feira. Realmente uma coisa é ser historiador, ter conhecimento, outra é ser comentador político de faits divers.

Posso não concordar com tudo o que ele diz (embora concorde com a substância). Mas é ao menos consolador ver alguém que sabe lidar com a massa histórica falar do que sabe e não do que ouviu dizer. E que fala de acordo com fundamentos e não de acordo com interesses.

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quinta-feira, 29 de novembro de 2007

II. Nostalgia. Tarkovski

O louco da aldeia. Obcecado por uma ideia. Atravessar uma piscina de água sulfurada com uma vela acesa. A forma de salvar o mundo. É francamente a personagem mais antipática. Tende a ser demasiado enfática para o meu gosto, tem demasiado a marca de Tonino Guerra. Nada tenho com a artificialidade da arte, mas uma arte que se apresenta como uma dialéctica em que a artificialidade se pretende natural a cada momento, telúrica, simplista, não me convence. Se serve para alguma coisa é apenas como anunciador. Já não é pouco. Com ele começa-se a perceber que o filme não passa por contar uma história, mas é a antes o retrato de um sentimento. A dor pela morte da Mãe. Perder a Mãe não é uma tragédia, é mais que isso. É uma dissolução. Se o poeta russo é essa dor, o louco da aldeia fala dessa dor.

Falando torna-se inútil. Ou pelo menos impertinente. O que fez não tem saída, e acaba morrendo num sacrifício inútil, pomposo, desproporcionado, mal gerido, assíncrono. Imolado pelo fogo em espectáculo quase cómico, sem solenidade, desafinado. Uma caricatura da imolação do Cordeiro. O louco da aldeia anuncia soluções, mas afinal é parte do problema, da imensa fragmentação em que cai uma certa cultura sempre que quer ser sincera.

O poeta russo é a mais verdadeira das personagens. Embora caia por vezes na presunção da ignorância afirmando desconhecer respostas, o que é sempre pretensioso quando se toma a iniciativa de começar o diálogo, não vale pelo que diz, mas pelo que faz.

Teoricamente estaria a fazer a biografia de um compositor russo do século XVIII, servo de um senhor italiano, que ama uma serva russa que deixou no seu país. Mais uma história de fidelidade, é certo. Mas também de fragmentação. Tudo o que é sério, em suma religioso, está condenado à fragmentação neste filme.

O poeta russo tem uma tarefa. Fazer o que o louco não conseguiu. Atravessar a piscina. Vai fazê-lo. Com a água já em baixo; no entanto, com grande dificuldade. A vela acesa não está garantida. Hesita e volta para trás. E quando consegue fazê-lo ganha a sua redenção. Onde? Numa igreja de que sobra apenas o esqueleto, sem tecto, sem vidros. Tem o mérito de ter feito ao menos alguma coisa, e de ter ido ao essencial, mesmo se o vê descarnado.

Nostalgia não é apenas de um ente querido, é de um centro de sentido numa Rússia que é oficialmente ainda ateia. É já bem sabido que Tarkovski é um realizador religioso. Como se pode ser de forma tão intensa num país em que a religião foi tão reprimida. De certa maneira menos que na Europa ocidental, porque a violência é menos eficaz que o riso e a menorização.

Filme religioso, retrato de um sentimento, enunciado de fragmentações. O que Tarkovski não percebeu na íntegra, é que a criação pessoal de rituais deixa de lado a experiência secular da humanidade. É dar a cada um o papel de criador do início da humanidade. Nulla salus sine ecclesia. É pois exigir que cada um reconstrua o templo em três dias, o que só em engenharia seria obra fácil. Nostalgia é antes do mais por isso o filme que mostra a necessidade do ritual instituído. Apenas as mulheres que veneram a Virgem no início estão presente plenamente em espaço cheio, por mais que isso choque a nossa sensibilidade dita moderna. Mas se choca isso apenas quer dizer que somos puritanos. Que a carnalidade nos assusta, salvo se empacotada em formato industrial. E que é esse puritanismo que nos fragmenta. Tolda-nos a vista, rebaixa-nos o espírito e por isso não nos faz carne.






http://www.acs.ucalgary.ca/~tstronds/nostalghia.com/

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http://www.domizianagiordano.com/credits/bio.html

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A diabolização do outro

No artigo de ontem no Público, Rui Ramos explicava a diferença de protagonismo entre Chávez e Mugabe pela escolha dos alvos dos seus exorcismos. Chávez elegeu os Estados Unidos da América. Mugabe elegeu a Inglaterra.

Mugabe elegeu um inimigo directo que está consigo no mesmo terreno e que, não justificando nada, tem por base um conflito real e enraizado. Ou seja, se tem protagonismo, Mugabe tem-no porque atacou cidadãos ingleses. No caso de Chávez os Estados Unidos são um alvo distante, útil e com mais eco para se fazer a si mesmo ouvir e divulgar. Ou seja, engendrou um inimigo para propagandear o socialismo do século XXI e, em torno de si, com a bênção de Fidel Castro, assumir o protagonismo e empunhar a bandeira de uma luta internacional. Poderíamos dizer que há uma certa razão ou justificação interna de assim ser, para Mugabe, e que há uma ficção política construída com outros fins que não uma efectiva confrontação entre a Venezuela e os Estados Unidos para Chávez.
Este método de criar um adversário, compor-lhe a figura e retocá-lo, e depois apontar-lhe o dedo como sendo a origem exclusiva de todos os males que nos afectam e de todos os que não nos afectando podemos imaginar que nos afectem ou que virão a afectar, é um dos métodos há muito utilizados na política/propaganda, na política/televisão, na política/espectáculo: a diabolização do outro. Não que os monstros, muitas vezes, não sejam monstros. O que se procura nessa encenação, em rigor, não é denunciar o monstro, o que se pretende é esconder, disfarçar ou relativizar o monstro que se é ou que se defende. E, para criar um monstro onde ele exista ou onde ele não exista, nada melhor que ter um espelho que vá até ao fundo da própria alma.

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