quinta-feira, 11 de julho de 2013

O Secretário da Junta

Quem manda aqui sou eu.
Não há maioria, nem representação política organizada em partidos.
Nem erro nem correcção.
Eu não sou eu com a minha circunstância.
Eu sou eu. Que mando.

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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Morrer pelos outros


José Maria Cortes foi morto à facada quando tentava assistir um amigo no chão, vítima de dois golpes da mesma arma, dados por um desordeiro na madrugada de uma feira bem regada.
Era casado, geria uma cadeia empresarial, jogava rugby e liderava dezenas de rapazes que pegam toiros no Grupo de Forcados Amadores de Montemor-o-Novo. Era um exemplo de rectidão, de coragem e de condução de homens. Por isso atendeu a quem estava caído. Por isso morreu.
A demora dos bombeiros e das Forças de Segurança e a inactividade do Centro de Saúde de Alcácer nas primeiras duas horas de assistência devem ser objecto de inquéritos para apurar todas as responsabilidades desta tragédia. Vergonhosa foi, também, a cobertura televisiva inicial, sugerindo que a rixa da feira se travara entre grupos de forcados armados. É não conhecer quem pega toiros.
José Maria estava habituado a enfrentar de caras toiros bravos de 600 kg. Não estava preparado para homens cobardes armados nas suas costas.
Paz à sua alma. À Família, o consolo impossível.


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segunda-feira, 24 de junho de 2013

Os Estados Unidos e as relações especiais





Os ingleses salientam que têm uma relação especial com os Estados Unidos. Ainda noutro dia ouvi um deputado europeu do UKIP britânico afirmando que deveram sair da União Europeia e fazer um acordo com os Estados Unidos, porque o Reino Unido era, não apenas uma grande economia, e um país muito poderoso, como em acréscimo tinha uma relação especial com os Estados Unidos. Não se perguntou-se os Estados Unidos o queriam fazer...

Nem de propósito, poucos dias depois ouço numa televisão alemã um diplomata americano sedeado em Berlim lembrando que os Estados Unidos tinham uma relação especial com a Alemanha. Saliento: desta vez não foi um alemão a dizer que existia uma relação especial – foi o próprio americano que o disse. Não se trata de alguém que se arroga, mas de alguém que o proclama.

Lembro-me também de que nos foi vendido como ouro de lei o facto de haver uma relação especial entre o Reino Unido e os Estados Unidos e de que a prova era a que Blair fora recebido no Congresso americano, honra raramente dada a um político estrangeiro. É certo que a relação é especial: o bilhete custou-lhe biliões de libras na Guerra do Iraque e muitas vidas britânicas. Já pouco tempo depois Sarkozy é recebido no Congresso e depois ainda Merkel. E de graça. O bilhete não lhes custou nada. Relação especial, os ingleses? Sem dúvida. Paga a peso de ouro. Os franceses e alemães entram de graça.

Lembro-me igualmente de termos tido um Governo que teve de lembrar os Estados Unidos de que somos seus amigos, porque eles se tinham esquecido do facto. Realmente, nós portugueses temos uma relação especial com eles.

Mas lembro-me sobretudo do Don Giovanni de Mozart, quando o bom do Leporello, muito lucidamente diz a Dona Elvira:



Madamina, il catalogo è questo

delle belle che amò il padron mio,

un catalogo egli è che ho fatt’io,

osservate, leggete con me.



E que diz ele? Que lê nesse relato?



In Italia seicento e quaranta,

in Lamagna duecento e trent’una,

cento in Francia, in Turchia novant’una,

ma in Ispagna son già mille e tre



Pois é. Todos temos relações especiais com os Estados Unidos, que promete amor a muitas e mesmo outras a quem não prometeu amor se sentem picadas por se dizerem amadas por eles. Critiquei muito certa classe política pela sua origem servil. Pena é que não tenha vindo da seiva de um Leporello, ou que não tenha aprendido com os ouvidos de Dona Elvira. Porque assim lhe cantaria a consciência:

ma in Ispagna son già mille e tre... mille e tre... mille e tre ... mille e tre



Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 7 de junho de 2013

António Costa e a democracia


Imaginem o que seria Pedro Passos Coelho pedir a Assunção Esteves o plenário da Assembleia da República para encher as bancadas de amigos e inaugurar a sua campanha eleitoral?! Nos lugares do Bloco de Esquerda, do PCP e dos Verdes, por exemplo, sentaria a JSD, os artistas que o apoiam, os ex-dirigentes do PSD, os actuais, o Povo laranja em geral. Um sucesso.
Foi exactamente o que aconteceu ontem na Assembleia Municipal de Lisboa. António Costa tomou as instalações do parlamento local para ali sentar toda a sua claque e fazer o balanço do mandato, sem qualquer contraditório. Para cúmulo, convidou os donos da casa, os deputados municipais, aos quais os serviços de protocolo indicavam a fila de lugares reservados. No templo do contraditório - que é qualquer parlamento - os deputados não tiveram voz. Os quatro ou cinco que aceitaram o convite para irem a sua casa, ouviram e calaram. Calaram mas não consentiram.
O orador falou durante duas horas o que bem quis. Apontou erros a gestões anteriores que não puderam contrapôr. Gabou-se de vitórias cujos méritos também pertencem ao Poder Central, sem que fosse possível ajustar essa verdade. Falou também da sua obra sem que a Oposição pudesse fazer reparos à lentidão dos processos ou ao que prometeu fazer, não fez e, claro, não disse que não fez.
Na assistência, o povo de esquerda aplaudia o comício. De Maria Barroso a Ferro Rodrigues; de Correia de Campos a Carlos Carmo; de Margarida Martins à equipa de vereadores que assim tomou os lugares dos deputados. Uma balbúrdia institucional que nunca teria sido perdoada à equipa de Santana Lopes, por exemplo.
Bem sei que a Assembleia Municipal funciona numa sala de espectáculos onde podem actuar artistas e passar fitas de ficção. Foi o caso. O Presidente da Câmara teve o bom gosto de não subir ao palco e de mandar apagar os focos que só iluminavam o próprio. Na forma cumpriu. Na essência foi o único «iluminado» num mundo de confusão institucional, para não dizer, de atrevimento institucional.
Em declaração de interesses, convém dizer que sou deputada municipal de Lisboa, eleita como independente nas listas do PSD. Aceitei o convite de ontem porque pensei que, como sempre, se tratava de um espaço aberto ao debate e com respeito pelo lugar do público, dos deputados e dos vereadores. Mas basta dizer: com respeito pela sede da democracia autárquica.

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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Relações de vizinhança

O que é um vizinho? É o que está perto de nós. Quando os vizinhos são países nem nós os escolhemos nem eles a nós. Foram meras vicissitudes históricas (a História tem importância afinal) que nos fizeram ficar perto. Conheço europeus que sentem muito mais afinidades com indianos, chineses ou brasileiros. Mas a verdade é que lá estão eles, teimosamente, os nossos vizinhos. São outros. São árabes, turcos e turcófonos.

Independentemente de maiores ou menores simpatias um vizinho tem um estatuto especial. Está perto. Cola-se à nossa vida e nós à dele. Podemos ignorá-los mais ou menos, mas nunca completamente, nem eles a nós. Não se trata portanto de simpatias especiais. De entre os não europeus tenho mais simpatias pelos indianos, pelos persas e pelos árabes, porque admiro mais povos criativos que medíocres. Mas isso é questão de gosto pessoal. Irreleva portanto.

O que fazem os vizinhos? Podem ignorar-nos, mas não é o caso porque somos mais ricos, mais ricos económica e culturalmente e, esquecemo-nos desse facto, somos muito grandes. Grandes demais para ser ignorados. Podem entrar-nos dentro de casa pela emigração, ou querer ser o que nós somos por uma paixão doentia e não correspondida, como acontece com os turcos. Podem odiar-nos, invejar-nos, ter ressentimentos em relação a nós e ao mesmo tempo admirar-nos.

É evidente que cada um dos nossos vizinhos é diverso do outro. Uns são particularmente sofisticados, como os do Levante (Médio Oriente e Egipto), outros um pouco menos (como os do Maghreb) outros nem sabem bem o que são, como os turcos e turcófonos da Turquia e da Ásia Central.

Mas têm aspectos comuns. Participam de processos civilizacionais falhados, que não produzem nenhum génio desde o século XII (árabes), ou nunca produziram (turcos). E que já não são potências relevantes desde o século XVIII no melhor dos casos (Turquia).

Que relações queremos ter com os nossos vizinhos? Para quem quer a paz, prefere que sejam boas. A ideia miraculosa da Europa, típica do seu espírito cristão, é o da engenharia histórica. Queremos convertê-los em europeus. Como? Através da ajuda humanitária e da ajuda ao desenvolvimento. Achamos que se eles forem ricos como nós estarão pacificados. E como enriquecê-los? Transformando-os em economias tipicamente europeias, em sociedades europeizadas. O herdeiro do espírito da cruzadas, generoso, mas visto como agressivo pelos nossos vizinhos.

É que se esta ajuda é sinal de sensatez, de sentido de responsabilidade e de generosidade, no que concedo, esquece o facto de que os povos não se alimentam só de pão. O que diríamos nós se a nossa última glória cultural fosse Santo Anselmo? Se não houvesse, nem Bach, nem Gauss, nem Tolstoï, nem Kant, nem Heisenberg, nem Camões? Se a nossa última poesia de relevo fosse a trovadoresca, e o nosso último grande pintor fosse Giotto? Que diríamos, caso fossemos turcos, caso não tivéssemos deixado nenhum nome para a História da cultura, ou apenas o conseguíssemos se disséssemos que Rûmi, poeta persa, era turco? Seria como dizer que Portugal é um país de grandes filósofos porque Ortega Y Gassett viveu refugiado em Lisboa algum tempo.

A pacificação pela ajuda é um instrumento, mas não basta. Os povos sentem necessidade de ter orgulho na sua cultura, sentem necessidade de prestígio em suma. O Japão não se pacificou apenas pela prosperidade económica. É porque a sua cultura tem prestígio. A Arábia Saudita, país rico, vive no ressentimento porque não produz um único homem de cultura que tenha prestígio.

O problema é que não podemos ajudar os outros a ser criativos, a serem estudiosos, a serem inteligentes. Pode-se dar o caso portanto de os nossos vizinhos se desenvolverem estrondosamente, mas continuarem estéreis sob o ponto de vista cultural, folclóricos em suma.

Uma das estratégias é a de fazermos de conta que ficamos fascinados com a profundidade da sua cultura. É o que tem acontecido com o cinema turco e com certos músicos turcos que alguns países europeus tentam promover. Mas não se encontram nem Eisenstein, nem Strawinski entre eles. E quanto a matemáticos ou físicos turcos, nem se pode fingir que eles existem. A longo prazo vale o que vale, como todos os embustes. Perceberão que nada resta, porque nada havia de origem.

A outra é a de rezarmos para que eles se resignem. É pia intenção e duplamente arriscada. A longo prazo não é muito sustentável a prosperidade sem invasões guerreiras (caso turco) ou sem criatividade (como aconteceu com árabes e persas). É mesmo duvidoso que se desenvolvam sequer de forma consistente nos próximos tempos. E pode-se dar o caso que um dia acordarem lúcidos e verificarem que têm uma cultura não criativa. Pensamos dizer-lhes: “ora isso não tem tanta importância assim”?

Não é por acaso que há fundamentalismos. O problema é económico-social mas também simbólico e cultural. Aquilo a que os estamos a obrigar é a que deixem o seu paradigma de civilização ou então que retornem a fontes arcaicas. É o que têm.

Daí que a vacina não baste, é necessário o hospital. Não é dizendo que nunca vai haver doença que a evitamos. Da mesma maneira não é dizendo que nunca vai haver guerra que ela nunca se verificará. Ou deixamos o hospital a ser gerido por outros, no caso os americanos, e toda a nossa política fica dependente deles, ou pagamos o preço desse hospital.

Porque historicamente os vizinhos fizeram guerra. Evitá-la implica reconhecer a sua possibilidade. E dotar-se dos meios para a vencer. E se não a queremos, se não a queremos real e profundamente, temos de não depender de guarda-chuva dos outros. Sempre que molhar mais para o lado deles escuso de dizer quem vai ficar protegido. Por isso quando vejo um político dizer que o nosso principal aliado são os americanos, pergunto-me se ele vota para o congresso americano ou o presidente dos Estados Unidos. Não sendo o caso, entrega-se nas mãos do Espírito Santo. E como diz Jung: “que imprudência!” Sobretudo porque não é espírito, e muito menos santo.


Alexandre Brandão da Veiga



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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Nada menos do que o melhor!


Com o Papa Francisco em Roma e D. Manuel Clemente no Patriarcado de Lisboa é imensa a responsabilidade dos crentes. Em ambos temos o Bom Pastor, amigo do óptimo comunicador. Vivemos dias felizes e exigentes.

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A cobardia como forma de luta


Que respeito pode merecer-me um professor que prejudica os alunos para defender a sua pele? Que professor pode usar um aluno como escudo numa qualquer batalha? Que gente é esta que faz das nossas crianças objectos de arremesso numa guerra com o Ministério da Educação?
Nem discuto os seus motivos. Porque todos perecem perante esta iniciativa de greve durante os exames dos menores.Haja decoro.

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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Racionais e científicos


Tendo eu dedicado algum tempo e paciência ao estudo de espécies de insuficientes, gostava de apresentar mais um que vegeta na praça pública. Descreve-se este pela frase “eu sou um homem racional, com espírito científico”. E nada mais diz a criatura. Não fundamenta nem desenvolve.

Façamos uma pausa e vejamos que enormidade está a ser dita. É que o pobre coitado julga que está a dizer coisa coerente, mas esquece-se de que a razão e a ciência não vivem sem duros conflitos entre si. A banalidade faz da fé a grande adversária da razão, ou pelo menos com quem mais se confronta. Mas a ciência não tem menos problemas com a razão.

Em primeiro lugar abandona qualquer hipótese de uma razão total. O sentimento de quem tem razão, as vivências que se instalam em simbiose com a razão e a alimentam são expurgados do seu horizonte. A razão da ciência pressupõe uma despedida e uma pobreza. Em segundo lugar é uma razão não imperante, antimonárquica. Essa mesma razão tem de ser sindicada pela experiência, pelos sentidos, mesmo que mediatamente. É uma razão dominada, obediente. É finalmente uma razão que abdica de tratar pelo menos directamente (ou seja, nunca) das coisas últimas, das últimas causas e dos últimos fins. É uma razão de renúncia, em boa verdade, casta.

A razão da ciência é assim uma razão que nasce de uma despedida, de uma dominação e de uma renúncia. Pobreza, obediência e castidade são os seus motes.

Os grandes filósofos medievais (cada vez mais percebo que este adjectivo diz muito pouco) conviviam alegremente com o infinito, traziam-se eles todos com a razão, e deixavam-na imperar. Nada desta glória é reservada à ciência moderna. A partir do momento que se abandona este primado da razão o espírito científico vive obcecado com a certeza e mais tarde obcecado com a sua destruição, como se de um bezerro de ouro fosse. Mas bezerro criado pelos primórdios da própria ciência e não por um mítico obscurantismo medieval.

Se bem virmos o que mais se aproxima do movimento científico não é o sacerdote de Ísis castrado, nunca o poderia dizer tendo em conta a sua fecundidade, mas o movimento monástico. Tanto os votos que a razão tem de fazer para se tornar científica são semelhantes, assim são semelhantes as manifestações de um e outro movimento. Ambos formam um modo de vida, as suas congregações. E entre os orgulhos de cada mosteiro, outras vezes orgulhos nacionais, a pertença à república das ciências traz ar de beneditina postura.

Como se vê, a razão da ciência não é uma soberana e folgazona que se atrevesse a cavalgar no seu império. A riqueza da sua vida faz-se da clausura, a extensão da sua vida mede-se na medida inversa dos seus constrangimentos. Como se vê, quem afirma ser racional e simultaneamente ter espírito científico sem mais fundamentar ou delimitar arroga-se ser rei e monge de um só golpe. Sem ter consciência da contradição.

Mas continuemos. Vejamos em que mais esta frase esquece os dados fundamentais do que deveria dizer.

De que razão se fala, de que ciência? Cada uma delas tem assentos bem diversos, modelos bem díspares entre si. O modelo mecânico imperou sobretudo nas ciências físicas, por vezes na química. O modelo morfológico nas ciências humanas e nas da vida. Um e outro atravessam a matemática e a química. Trata-se de modos de viver a razão bem diversos, sendo ela a mesma não obstante. É evidente que existem paralelos entre o filólogo, o linguista, o mineralogista, o biólogo e mesmo o especialista da álgebra abstracta, sobretudo na escola de Bourbaki e seus descendentes. E que existem semelhantes entre o especialista em análise, o físico, o teórico da informação. E mesmo assim apenas falo de tendências. Nenhuma ciência foi imune à morfologia ou à mecânica. Freud é mecânico e Jung morfologista, Spengler é mais mecânico e Ortega, Toynbee e Kantarowicz mais morfologistas. De que razão se arroga pois este espécime que se afirma racional e científico? De que espírito científico? Afirma que a sua razão obedece a um paradigma mecânico ou morfológico? Ou ambos? E como os concilia?

O espécime em causa, que pulula no espaço público, não vive apenas nesta podridão. É que esquece que o movimento científico tem origens algo obscuras, nasceu na obscuridade, mas nasce igualmente todos os dias da obscuridade. Vejamos alguns exemplos. A atracção e repulsão de Newton são conceito bebido na teosofia, na cabalística, na tradição hermética. Todas as crianças cantarolam hoje em dia a canção de Einstein, mas não foram “idealistas” alemães como Mach, ou um homem não muito enquadrável como Maxwell a dar foro de nobreza científica ao conceito de energia, esse conceito tão ressumando espiritismo, e ocultismos, seria palavra bem ridícula hoje em dia face à comunidade dos cientistas. Quando o padre Lemaître descobre que um dos corolários da teoria da relatividade generalizada seria o Big Bang é acusado de criacionismo. Quando se fala em múltiplos universos tem-se conversa que assusta o nosso espécime. Não deve ser a essa razão que se depara com o infinito que o move.

Vejamos mais um pouco o bicho. A dissecação prova ser divertida.

De novo em termos simplistas a ciência fez-se de dois movimentos contraditórios. Um primeiro assente no platonismo (ou melhor, num neopitagorismo), que dá origem à física do século XVII. O segundo nasce com o aristotelismo e o tomismo, e que faz nascer as ciências da vida, a mineralogia e a química. Mas igualmente a filologia, e as ciências humanas em geral. Seguem-se obviamente várias miscigenações entre estes movimentos e uma ideologia sobre a ciência que quer como paradigma a física (neopitagórica) mas em boa verdade tem prática aristotélica, passando pelo filão helenístico.

E isto sem esquecer que estes dois grandes movimentos se entrecruzam com os outros e entre si. O movimento é monástico, no seu paradigma, mecânico ou morfológico no seu símbolo, platónico ou aristotélico, na sua origem antiga. De fundo cristão e pagão indo-europeu muitas correntes contribuem para a conformação de cada ciência e de cada momento específico desta, e de cada escola que nela se forma.

De quem se reivindica este espécime que diz ser científico e racional? Que cruzamento faz entre este movimento, estes símbolos e estas origens? Qual o seu paradigma, qual a sua metáfora? Disto nada nos sabe dizer o espécime. O espécime é só isso. Um exemplar de uma espécie. Não uma pessoa, mas uma mera ocorrência. Não bebe de um paradigma, mas apenas se subsume a uma categoria lógica. Não acede à metáfora quem não tem substância. Não vale a pena inquiri-lo. Ele não sabe dar resposta porque não sabe o que é uma pergunta. Apenas afirma, porque essa é a sua única forma de afirmação.

De que razão fala ele então? Porque se arroga espírito científico? Convenhamos: a sua razão é caseira, é a razão de açafata ou mais correctamente de criada grave. A sua razão está para a que é magna como a economia doméstica está para a ciência económica. Tem o seu lugar, mas apenas na copa. O seu lugar natural não é a antecâmara do infinito, mas tão simplesmente a antecâmara. E porque considera ele que tem espírito científico? Porque usa telemóvel e anda de avião. O espírito científico é algo que se usa e se legitima pelo uso. Cultor da usucapião, é apenas isso: detentor de terra não por a ter conquistado ou comprado a esforço, mas porque a ter usado desde tempo bastante para a ela se acomodar. Cultor do uso vê nele e apenas nele a legitimação. Que diga disparates não nos deve espantar, portanto. Assim apenas revela, não a sua opinião, mas a sua natureza.

Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 29 de abril de 2013

É a República, Senhores!

Tarde pio sobre o discurso de Cavaco Silva no dia 25 de Abril de 2013. Segui as críticas a quente, depois arrefecidas, sobre as suas palavras. E espanta-me a indignação de tantos republicanos.
Então não combinaram que quem representa o Estado é escolhido, ciclicamente, por uma parte dos cidadãos. Que esse personagem não tem poder nenhum a não ser o da bomba atómica, isto é, a possibilidade de, por livre arbítrio, dissolver a Assembleia da República mesmo que haja uma maioria estável e coesa?
Então não será menos grave o Chefe de Estado poder dizer o que lhe apetece nesse órgão de soberania que está à sua mercê? Não será menos grave Cavaco Silva serenar Seguro na véspera do Congresso, a dois anos de eleições, e depois da promessa de sombra semanal de José Sócrates? Não será menos grave suportar e apoiar o Governo da Nação, seja ele de que cor for, nestes tempos de difícil travessia?
Com um Rei não teríamos estas dúvidas de facção ou de competências. As suas palavras não obedecem a um ciclo nem a qualquer partido e a sua existência depende da confirmação das Cortes.
Não é mais claro? Mesmo não sendo eleito, não resultará mais respeitador dos representantes do Povo? Não será melhor garante da estabilidade governativa?

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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Revolucionários improváveis


Somos contemporâneos da revolução europeia do final do século XX e conhecemos os seus revolucionários. Um deles usava pérolas, laca e meias de vidro.
A filha do merceeiro aguentou o snobismo dos pares; o braço de ferro dos mineiros; a greve de fome de Bobby Sands; a invasão das Malvinas; o sucesso do Papa na ordem das Nações; o estatuto de observadora na Guerra das Estrelas; a ascensão de Gorbachev; o reforço do eixo Paris-Bona, depois Paris-Berlim; o estrondo de uma bomba e a entrada de Diana Spencer na Família Real.
A tudo resistiu, favorecendo o aliado Reagan. Dobrou a esquina do pós-Guerra inglês e deu-se bem até ao cansaço dos seus. Só por dentro poderia perecer.
Nestes dias, para além deste percurso, registo três minudências. A contrariedade que Paulo Portas terá sentido ao apanhar o avião para a Colômbia, faltando ao enterro de um dos seus modelos políticos; a falta do XV Governo Constitucional ao negar honras de Estado à ex-PM Maria de Lourdes Pintasilgo (salvaguardadas as diferenças de um Verão para uma década de serviço ao País); e a insuficiência do relato histórico da fita sobre Margareth Thatcher, apesar da esplêndida interpretação de Meryl Streep.

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terça-feira, 9 de abril de 2013

O silêncio dos indo-europeus

Pelo menos desde o século XVII, segundo alguns ainda muito antes, o ideal da língua adâmica, a língua original, começou a ceder o lugar a uma construção mais empírica, mais rigorosa, do que seriam as famílias de línguas. Para além do extraordinário Leibniz, muitos outros se começaram a aperceber das afinidades que existiam entre quase todas a línguas europeias. Morfológicas, vocabulares, sintácticas. O colonialismo e as missões cristãs no Oriente, sobretudo na Índia, permitiram que certos tipos de paralelos entre línguas orientais e línguas europeias, o grego e o sânscrito nomeadamente, se tornassem evidentes. Mais um feito positivo que tanto os “malditos” colonialismo e missionação tiveram na ciência e na compreensão do ser humano.

Com esses estudos começa-se por estabelecer afinidades linguísticas, mais tarde culturais, de mentalidade. Com maiores ou menores dificuldades, nomeadamente na procura de uma religião comum (os nomes de deuses variam tanto que Dumèzil e Eliade assentam a teoria do trifuncionalismo, mas Terra e Muller, talvez com mais suporte, admitem a hipótese de um Deus-Pai do Céu), não se podem negar nem uma língua, nem vivências, nem visões do mundo comuns entre os povos indo-europeus.

É evidente que é sempre temerário ver linhas rígidas em comum entre povos que vivem em espaços tão afastados, contactando com culturas tão diversas. Mas também seria despropositado não reconhecer o que existe de perene, de persistente que nos alimenta em comum. A perenidade de certas palavras e seus derivados (“atma” e alma ou “atmen” em alemão, “spek” e espelho ou espectáculo, “dois” e “dwa” só para dar alguns exemplos quase anedóticos), a perenidade de certos valores de hierarquia social ligada ao sangue, a importância dada à liberdade enquanto símbolo de nobreza. Todos estes são traços que mostram um parentesco comum. Mesmo países que se converteram ao Islão como a Pérsia mantêm uma destrinça forte em relação aos árabes e turcos, e dão ênfases tipicamente indo-europeias à relação íntima com Deus (a teoria da solidão de Deus do sufismo cresce particularmente no Irão).

No entanto, como o que me interessa são os europeus e não turcos ou persas é em relação a estes que temos de ver como esta herança indo-europeia age e como é vista, dois pólos bem diversos e bem opostos.

O modo como é vista foi envenenada pelo nazismo. Vemos cruzes suásticas nos vasos gregos e nos templos indianos, símbolos indo-europeus por excelência, e não nos chocamos. Mas afastámos de vez esse símbolo do nosso espaço. Concedamos. A memória pode precisar de freios de segurança por vezes. O problema é que tudo o que lembra o nosso passado indo-europeu passou a ser visto com desconfiança, ficando nas elucubrações académicas ou na propaganda neonazi mais ou menos visível ou sub-reptícia.

É evidente que não se pode apagar o facto indo-europeu. Não é uma mera hipótese como a da protolíngua nostrática, na qual o indo-europeu estaria integrada, nem como tentativas de integrar em mais vastos conjuntos as línguas de todo o mundo, ainda muito lassas e de resultados por vezes duvidosos. Os laços linguísticos são fortes demais, impõem-se por si mesmos. Os traços de mentalidade, sociedade, e cultura em geral, incluindo da religião, sofreram múltiplos embates que tornam a coisa mais difusa, mas são ainda suficientemente fortes para não poderem ser descurados. Por isso ao contrário do conceito de raça, que foi recusado pela ciência, a herança indo-europeia não pode ser negada.

Mais ainda. A ironia, pouco visível aos olhos da maioria, é que muitos dos estudos relativos aos indo-europeus se situaram na antiga União Soviética. Por um lado, por razões meramente ocorrenciais. As pátrias primitivas conjecturadas para os indo-europeus encontravam-se em território soviético. Mas sobretudo porque na União Soviética não havia o horror ao nazismo na sua vertente religiosa ao contrário do que se passava na Europa ocidental.

Mas o apagamento do passado indo-europeu tem factores políticos mais actuais. Com a imigração na Europa, que não representa tanto quanto se diz, populações não europeias vivem onde em dia na Europa. Turcos, árabes, paquistaneses. De igual forma população de miscisgenação como americanos ou africanos, de cultura mais europeizada. A teoria do multiculturalismo como de costume obnubila o essencial. E por isso não se poderia, dizem, falar do tronco indo-europeu da nossa cultura.

Devem-se enunciar fontes em molho, ao desbarato, como todas tivessem a mesma importância. Diz-se agora que a cultura europeia é de origem grega, romana, árabe, que o cristianismo, judaísmo e Islão estão no mesmo plano da História europeia. Curiosamente os celtas, eslavos, germanos, ilírios, albaneses, ciganos são esquecidos. E as origens indo-europeias nunca são referidas em textos oficiais. O discurso é político e portanto não tem de ser verdadeiro. Questão é a de saber se a mentira, a omissão, é boa política. Ao pretender apaziguar sub-proletariados externos que se acomodam à Europa, em minorias ainda pequenas sob o ponto de vista demográfico, ainda menos relevantes sob o ponto de vista económico, pouco significativas em geral sob o ponto de vista político, e nulas sob o ponto de vista cultural, apaga-se o essencial. A não ser que consideremos que restaurantes chineses e turcos são pontos altos da cultura (e admito que para certas criaturas sejam os pontos mais altos da cultura que atingem), não me consigo lembrar de um filósofo ou cientista na Europa com origem turca ou magrebina. São políticas que contam com a passividade das imensas maiorias da população, com os resultados bem conhecidos que a História nos ensinou.

Sob o ponto de vista político e mais uma vez, esta questão que parece “meramente” teórica tem efeitos no nosso dia a dia. Não se pode ter orgulho de um passado que nunca nos foi contado. E temos muito boas razões para ter orgulho no nosso passado indo-europeu. As culturas mais ricas e diversas que o mundo viu são indo-europeias, a europeia, a grega e a indiana. As religiões mais humanas ou saíram do espaço indo-europeu (o budismo) ou nele ganharam toda a sua amplitude (o cristianismo). A ciência mais complexa e profunda saiu deste espaço. Um mundo dominado por turcos e chineses faria bocejar pela sua platitude.

Porque o silêncio não é inacção. E bem pelo contrário, certas plantas crescem mais poderosas no silêncio. Quando se fala, pode-se tentar conter. Quando se omite, o animal cresce em subterrâneo, sem estatística, sem mensuração. O espírito guerreiro, o ideal de heroísmo, a perseguição da transcendência crescem de forma mais anárquica no quintal que no jardim. Deixados a si mesmos, podem criar mais o risco de criar erva daninha que planta alimentícia. Obnubile-se o facto e teremos o facto e mais a sua obnubilação. Não o apagaremos. Uma classe política que ignora o subterrâneo apenas é desprovida de freios contra terramotos. Tapando os olhos apenas não os vê.

Mais e mais uma vez à ignorância se junta a intenção. Ignorando o seu glorioso passado, de infinita riqueza, não podem os europeus orgulhar-se (legitimamente) do que deram ao mundo, de que testemunho são portadores. A intenção, de americanos, turcos e alguns europeus, é a de que esta ignorância se mantenha. A mediocridade consola-os, não querem sofrer com a confrontação. Esquecem-se é que a mediocridade é auto-destrutiva. Fazem vítimas, mas eles mesmo não fugirão às suas consequências. E como não têm qualquer noção de futuro, não percebem que forças trabalham em subterrâneo para os destronar. Pena é que não possam vir mais cedo à superfície. Pena é. Porque surgirão com ainda mais força como a História nos ensina. E sempre que a Europa desperta, o mundo tem tremido.





Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 1 de abril de 2013

A palavra e a honra


Sei o que é servir um ex-Primeiro Ministro maldito, sem garantias de contraditório. Essa injustiça revolta-me, seja com quem for. Até ao dia em que o injustiçado tenta usar o mesmo embuste para se defender. Há verdade em algumas respostas de Sócrates na entrevista. Mas sabemos que não existe maior mentira do que a que tem 90% de verdade.
Por estimável que seja ver um Pai de dois filhos defender a sua honra, José Sócrates deveria ter cuidado que esse objectivo se manteria durante a entrevista, a par de todos os outros fins que justificaram este meio. O PM anterior a Sócrates escreveu em livro a sua «narrativa». Mas sustentou cada frase com dados objectivos que, preto no branco, podem ser provados ou questionados. Curiosamente, não foram desmentidos.

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segunda-feira, 25 de março de 2013

Falai! Quero saber.


A indignação tomou conta do sentir colectivo. O meu mail enche-se de pedidos para assinar petições ou para fazer boicotes à RTP. Os comentadores desdobram-se na análise epidérmica das consequências do regresso de José Sócrates ao comentário político. Parece que o Mundo se travestiu de Deus e decide quem vai para o Céu e quem deve ficar num Purgatório de irresponsabilidade e de ausência de cidadania. 
Como se atrevem a calar quem quer que seja? Os mesmos - muitos - que se silenciaram cinco ou seis anos a fio, enquanto a bonança optimista de Sócrates engordou as suas despensas e nos comprometeu a todos, os que nunca votaram no seu verbo nem agora se abespinham pelo seu silêncio.
Sim, quero ouvir Sócrates. Porque acredito na regeneração; porque respiro a liberdade e a vontade de conhecer, para lá do meu horizonte; e porque exijo explicações sobre o que correu mal e pode ter ficado contido no «segredo de Estado» de Sócrates, enquanto Chefe do Governo.

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sexta-feira, 22 de março de 2013

Respeito e admiração

Há duas vivências que sempre me foram importantes: o respeito e a admiração. Que sejam centrais numa vida pode dizer muito sobre essa vida, mas não diz o que sejam.

Sempre tive a noção dos riscos das etimologias, e bem sabemos como os antigos – não apenas os medievais, ao contrário do que se afirma – eram temerários na matéria. Platão quando pretende fazer etimologias é pura e simplesmente fantasista, bem sabemos. O controlo fonético e o juízo comparatístico passam-lhe ao lado. As suas servem para outras coisas e servem muito bem. Da mesma forma, quando Isidoro de Sevilha as faz, nem sempre o podemos ler com condescendência.

É sempre tarefa arriscada, e por vezes pura e simplesmente estéril. No entanto, quando devidamente entendida, mesmo que sempre arriscada, uma etimologia pode-nos dizer de que matéria é feito um conceito.

O que damos por evidente, disponível, facilmente utilizável, muitas vezes resulta de séculos de maturação, pensamento e experiências. Basta ver os dispositivos tecnológicos que usamos todos os dias para percebermos a imensidão de teorias e tentativas que estão por detrás de uma simples televisão ou um telemóvel.

A diferença é que as palavras vão beber a um magma de significados possíveis, onde uns se destacam de uma forma, outros de outra. E esse magma no fundo acaba sempre por nos lembrar que os significados mais complexos são no fundo muito primitivos. As diferenciações, por mais legítimas que sejam, vão sempre beber, e nunca deixam de o fazer, a um depósito de possibilidades humanas a que chamamos de significado.

Por isso quando dizemos que respeitamos ou admiramos alguém ou algo, a coisa parece-nos tão óbvia que não merece explicação. Se atribuímos valor a essas vivências, e que valor atribuímos efectivamente, pode depender de cada pessoa. Mas parece que nos entendemos todos ao evocar e ao convocar o conceito, e por isso quedamo-nos satisfeitos com a coisa. Seja. Mas não basta.

Não basta porque não se sabe o que é a coisa. A etimologia mostra que as coisas são bem mais primitivas e simples do que julgamos.

Admirar é mais simples de perceber. Admirar é ad-mirar. É ir na direcção (ad) para contemplar com espanto, valer a pena o esforço de sair de onde se está, cansar a perna, gastar o nosso tempo precioso de vida (cada um fale por si), correr o risco de não compreender plenamente, e tudo isto para se ir ter com, para atingir um fim: espantar-nos, ficarmos fascinados.

A admiração implica uma actividade esforçada de quem a pratica e um amor inveterado ao resultado que se almeja: o espanto. Significa acreditar que no mundo há coisas que nos provocam espanto, e que esse espanto nos enche a alma. Muitos gregos sabiam (não apenas Aristóteles) que a filosofia começa com a admiração, com o espanto. Uma pessoa incapaz de admirar é apenas um inepto filosófico. Mas mostra igualmente a sua pequenez, porque não acha que nada valha o esforço da sua deslocação. Fica-se por ali, porque “ali” é sempre o seu lugar natural. Sempre alhures, mas um alhures para onde nunca se vai nem se pretende ir.

A criatura que não admira, ou não vai a lado nenhum, ou vai para onde lhe pode agradar, mas onde não há espanto, nada há de admirável. Guia-se apenas pela sua preguiça e pelo seu prazer, e são ambos o escolho do seu mundo. Um mundo preguiçoso, meio aflito, esperando no máximo algum momento de alívio ou prazer. Nada mais.

O respeito já exige um pouco mais de subtileza linguística. Mas como sou um explorador indecente do meu velho Ernout-Meillet, consegui desembrulhar-me de uma situação de impasse que me seria algo embaraçante, mesmo que com isso confesse a minha muleta, mas não menos o meu trabalho.

Respeitar é olhar para trás, mas olhar para trás virando o peito (res-pectum). Quem respeita não olha para trás apenas por curiosidade. Está disposto a virar o seu corpo, a inverter a marcha, a parar o seu caminho, por causa de algo de ou de alguém. Algo ou alguém merece que paremos o nosso caminho, que invertamos a marcha se for o caso.

Curiosa relação a que existe entre respeito e admiração. A segunda faz-nos andar para a frente, o primeiro faz-nos voltar para trás. Que relação existe entre eles? Muito mais simples do que parece. A imagem do ser humano que subjaz a um mundo que gosta de respeitar e admirar é a de um mundo livre, onde se está disposto a ir para a frente ou ir para trás consoante nos imponham necessidades vitais maiores. Um mundo sem um ou outro é um que não vai para a frente mesmo que ande, que não arrepia caminho, mesmo que recue. Um mundo de partículas que actuam apenas por choque noutras partículas e onde o ser humano não é centro vital do mundo, mas apenas ponto de embate.

Para quem o respeito e admiração são aspectos centrais da vida, não acrescentei nada à sua. Eram-lhe importantes, no que faz muito bem. Se de novo alguma coisa trato não é pregar para convencidos, mas mostrar o que são as pessoas que desvalorizam o respeito e a admiração. Pessoas que andam para a frente e para trás, se for o caso, mas sem rumo nem motivo. Como insectos envenenados girovagam, passeiam-se, circumambulam. Mas, se o seu movimento não tem sentido, a razão é simples: perderam-lhe o sentido.



Alexandre Brandão da Veiga



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Clima de véspera do Atlântico aos Urais


O Chipre a cair, pede amarra à EU. Que, prussianamente, decreta uma queda maior. A Rússia, já em cena, passa de coveira a redentora. Durão conversa com Medvedev. Mostra mais serviço do que resultados. A Rússia faz-se cara. Joga-se duro na diplomacia. E lembro-me da regra profética de Klausevich: «A guerra é a continuação da diplomacia por outros meios». 

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segunda-feira, 18 de março de 2013

A credibilidade conhece resultados que as previsões desconhecem



Victor Gaspar não é astrólogo, como diz Marcelo Rebelo de Sousa. Por isso, não pode «adivinhar as previsões». Como ninguém pode. Ontem mesmo Jorge Jesus dizia depois da vitória do Benfica: «Sou Jesus mas não sou bruxo!».
O vício está nesta ideia, que veio das empresas para a política, de governar para objectivos quantificáveis. O que é difícil, mas possível, numa unidade fabril ou numa nota de encomendas não se verifica num País, integrado numa União Política e Monetária que, por sua vez, opera num mundo global.
Victor Gaspar é um excelente técnico e um político ímpar porque consegue estabelecer um rumo e ter a coragem de o prosseguir, dando sentido aos sacrifícios dos que percorrem esse caminho. Consegue assim - não imediatamente os índices e percentagens que todos desejariam - mas uma realidade igualmente tangível, embora menos visível, que é a credibilidade.
Com ela se baixam as taxas de juro. Com ela se alcançam novos prazos para empréstimos. Com ela se concluem negociações (ao contrário do que acontece na Grécia).
Conclusão: a credibilidade dá mais resultados do que as previsões.



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Entre os bem-amados


Estou feliz com a eleição do Papa Francisco mas incomoda-me o contraste que se procura estabelecer quando o elogiam. Parece que, finalmente, vamos ter um Papa simples, amigo dos pobres, despojado das mordomia terrenas. A mesma alegria com a inovação se fez sentir quando João Paulo II foi eleito, em 1978. Bento XVI fica, assim, numa espécie de sandwish de Papas extraordinários na humildade e contacto com os outros.
Seria Ratzinguer menos simples? Menos líder espiritual? Menos digno de ser o novo Pedro? Não creio.
A sua postura nunca indiciou qualquer sentimento de superioridade, apesar de todos o considerarem muitíssimo inteligente e culto. A sua liderança foi livre e firme, como a do antecessor e como a que promete ser a do sucessor. Atacou os males da Igreja de frente e aprofundou o diálogo inter-religioso de forma consequente. Ainda ontem, um líder muçulmano do Irão fazia juz à batalha de Bento XVI pelos mais oprimidos numa entrevista a Nuno Rogeiro, na Sociedade das Nações (SIC-Notícias). E quanto ao despojamento de mordomias, a única coisa que quis levar consigo para os aposentos papais foi um piano e alguns livros, certamente importantes para as mensagens que nos transmitiu.
Sinto-me privilegiada e responsabilizada por me ter sido dado viver um tempo com Papas desta categoria.

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quinta-feira, 14 de março de 2013

Francisco, o companheiro de Jesus



Nasceu argentino, mas tem sangue italiano, como convém ao bispo de Roma.
É Jesuíta e sabe falar as línguas do mundo, sem nunca deixar de falar a sua;
Quis ser Francisco, simples como o de Assis em pleno fausto e missionário, como o apóstolo em horizontes nunca dantes conhecidos.
Reza o Pai Nosso como Ele nos ensinou. Sem se esquecer de Maria.
Viva o Papa!

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terça-feira, 12 de março de 2013

O inefável Vasco




Ele aí está, resgatando a pureza da esquerda que há em nós, o Manifesto pela Reconstrução de um Regime Democrático. Um conjunto de personalidades assina o referido tigre de papel «para um Executivo que governa sem grandeza, sem ética e sem sentido de Estado, dificultando a participação democrática dos cidadãos e impedindo que o sistema político permita o aparecimento de verdadeiras alternativas".
Os autores, para além de homens livres, são assalariados do Estado, o mesmo que terá perdido «o sentido» no dia em que pingou menos para o bico de cada queixoso deste ninho. E, tal como junto das crias famintas, o barulho promete ser ensurdecedor.

Inefável, do latim ineffabillis, adjectivo
1. Que não se pode exprimir por palavras = indescritível, indizível.
2. [Figurado] Encantador, delicioso, inebriante.







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terça-feira, 5 de março de 2013

O que é a tolerância?

O espírito impositivo, normativo e dictatorial dos bem-pensantes tende a cortar o mundo em metades. De um lado há a tolerância e do outro há tudo o resto. O que seja a tolerância está definido por esses benfeitores da humanidade de singelo pensamento e não pode ser objecto de discussão. A sua concepção do ser humano é hirta, inamovível, pétrea. Por sorte o ser humano é infinitamente mais rico do que querem os ditadores da moda. É que não se pode dizer que de um lado há a tolerância e do outro a intolerância. Há muitas formas e muitos motivos para se tolerar e para não se tolerar. Existem mesmo coisas que são intoleráveis. Veja-se por exemplo a intolerância dos tolerantes oficiais.

Acresce que a tolerância é vista como uma forma de superioridade moral, e por isso tem de ser também analisada segundo esse crivo.

“Tula” em sânscrito é balança, esta palavra é prima de”tollo”, suportar. A tolerância é sempre o reconhecimento de um peso. Os outros pesam-nos, as coisas podem-nos pesar, as ideias de outrem pesam-nos. Christophe de Voogd na sua “História dos Países Baixos”, o país com mais experiência na tolerância, lembra que o neerlandês tem três palavras para a tolerância: Verdaagzaamheid, a verdadeira aceitação do outro, Onverschilligheid, a indiferença e Gedogen, o deixar andar, que vai do sentimento de impotência ao interesse económico.

A complexidade da tolerância, que no caso europeu em acréscimo assume teorização imensa durante e depois das guerras de religião (desde Erasmo pelo menos), exige que tenhamos alguma ordem, por forma a ver que coisa é esta que parece dar tanta superioridade moral e civilização a outras culturas que não a europeia.

Para isso temos de distinguir quem tolera, o que tolera, como tolera e porque tolera.

Quem tolera? Só se é tolerante se se tem um referencial absoluto. Referencial através do qual o que está fora dele é mau, ou pelo menos não tão bom. Um relativista puro não pode ser tolerante. Cabe-lhe melhor a indiferença. Quem defende o relativismo das civilizações não defende nenhuma tolerância, mas apenas a indiferença, ou escondido sob o olhar tartufo, o ódio à sua. Por isso quando alguém afirma que é relativista e tolerante ao mesmo tempo, apenas está a praticar desporto de empilhamento de auto-elogios, mas nada fez em coerência de discurso.

O que se tolera? Só se pode ser tolerante com o que não se gosta. Quem se converte ao nazismo não é tolerante com é ele. É simplesmente nazi. Quem admira o Islão não é tolerante, gosta dele. O politeísmo não é tolerante: é apenas absorvente. Quando o romano fala dos deuses celtas dando-lhe nomes romanos faz apenas obra de transposição. Não é tolerante. Quando Alexandre Severo coloca Cristo no seu santuário junto de outros deuses não é tolerante, é apenas sincrético. Quando o muçulmano diz que venera Jesus e Maria porque o alcorão lhe diz para o fazer não está a ser tolerante, mas apenas a obedecer a um comando da sua religião. O espaço possível da tolerância é tanto maior quanto menos gostamos das coisas ou das pessoas. Por isso quando mais se diz que uma cultura tolera muito, mais significa que é vasto o campo de coisas de que não gosta. Quem muito tolera, muito detesta. Se tem razão nisso é outra questão. Mas deve-nos suscitar alguma reserva tanta tolerância.

Como se tolera? O como é sempre um abaixamento do nível de violência possível, na medida em que haja tolerância. Mas não o fim da violência. O como da tolerância exige sempre uma medida e uma comparação – com o que existe noutras culturas ou noutras épocas. A estrela de David amarela imposta aos judeus, criação muçulmana, é considerado símbolo de tolerância quando se passa no mundo islâmico do séc. X, mas de intolerância na Inglaterra medieval do século XII e símbolo máximo de intolerância no século XX. Mesmo que os critérios sejam pouco honestos, a verdade é que o princípio está correcto. O fuzilamento é símbolo de maior tolerância que a morte por empalamento ou pela roda. O problema é que menor violência é conceito relativo. É muito difícil medir até que ponto uma humilhação permanente é menos dolorosa que a tortura física pontual. O indígena africano cujo animismo era tolerado pode ter sido mais humilhado que o que foi morto em combate. Da mesma forma quando a república turca dita laica impõe impostos especiais aos não muçulmanos nos anos 40 do século XX estará a ser mais tolerante que na época do genocídio dos arménios e assírios. A verdade é que a tolerância é sempre uma medida de violência. Por isso é sempre expressão de agressividade, mesmo que minorada.

Porque razão se tolera? Aqui os paradigmas podem ser múltiplos e misturados entre si. Pode haver interesses económicos nisso. Pode-se pura a simplesmente ganhar dinheiro com a tolerância. A praça de Londres recebe católicos e mais tarde muçulmanos apenas por dar dinheiro. Ou então tolera-se o insignificante. Os mazdeístas são tolerados no fundamentalista Irão porque são poucos. Porque se considera insignificante do que não se gosta. Reduzidos a 50 mil os cristãos da Turquia são considerados inofensivos, apesar de ainda estarem longe de serem realmente tolerados. Como se em Portugal houvesse 7200 muçulmanos ou em França 40 mil muçulmanos em vez de cerca de 5 milhões. Nem se daria por eles. Pode tolerar igualmente porque se quer pacificação social. Exactamente pela razão inversa da anterior. Porque geraria conflito não tolerar. A Turquia mal ou bem tolera uma minoria alevi porque corresponde a 25% da sua população. Da mesma forma a maioria hindu tolera a minoria muçulmana porque corresponde a mais de 10% da sua população.

Pode-se tolerar igualmente por necessidade estratégica. Na Arábia Saudita é proibido entrar com um crucifixo ao peito, mesmo que escondido. No entanto, nas bases americanas há capelas. Do que não se gosta é evidente, porque se não goste também, a motivação por que se tolera está longe de ser nobre. Pode-se tolerar por esperança de conversão. A região europeia de mais longa e constante tolerância do judaísmo é Roma, em grande parte porque o papado tinha esperança de conversão dos judeus. Mas hoje em dia muitos toleram o Islão dentro de Europa porque esperam a sua conversão à democracia, à economia de mercado, ao irenismo mole e outras constelações religiosas mais ou menos superficiais em que se baseiam.

Porque se respeita o ser humano apesar de se odiar as suas ideias. Ou porque se admite que a verdade tem uma dimensão dialéctica. É difícil destrinçar a motivações. Pode-se tolerar por fundamentos dialécticos. Se a motivação é dialéctica pode ser de mero jogo, sem nenhuma seriedade, a paisagem humana é mero espectáculo lúdico. Os outros seres humanos são meros instrumentos do seu prazer. Se a motivação é o ódio a certas ideias, mas o profundo respeito pelos seres humanos, talvez a tolerância seja um belo conceito, mas talvez só aqui.

Em suma, a tolerância nasce sempre de um amor ferido, sustentado por um absoluto que aceita viver com o que não gosta diminuindo a sua violência contra ele pelas mais diversas razões. É o vazio da admiração e raras vezes convive com a simpatia e o respeito e apenas abunda onde o relativismo está ausente.

Michael Soubbotnik, um estudioso do pensamento político da Europa Central em arguta observação lembra as profundas afinidades que existe entre a tolerância e a resistência à tirania, porque em ambos os casos as ideias nasceram do apelo à consciência individual perante Deus. Um regime que não admite o direito de rebelião contra si é intolerante por definição. É o que acontece com o actual modelo de democracia que se quer impor na Europa. Entre guerras tolerámos ideologias que queriam destruir a própria democracia, como o comunismo. Hoje em dia contestar uma Europa baseada apenas em critérios moles e meramente técnicos como a democracia, economia de mercado direitos do homem e instrumentalidades quejandas é visto como blasfémia. O príncipe da Idade Média e Moderna admitia a teorização contra o tirano. O actual príncipe suporta-a muito menos. Sinal de aumento da intolerância, e de que apenas o intolerável começa a ter direito de cidade.

Entre a grandeza de um São Bernardo de Clairvaux ou de Santo Ambrósio e a tolerância mole e desistente de alguns dos monges seus vizinhos que não deixaram nada para a História a escolha é simples de fazer. Tolerar o huno às nossas portas muitas vezes mais não é mais que sinal de desistência ou mesmo traição. Não tolerar o indigno, como fez Antígona pode ser sinal da maior coragem. Não tolerar a submissão como fez o príncipe Eugénio de Sabóia pode ser sinal de maior humanidade. Denunciar, recusar o intolerável não é afinal passagem para a irrelevância histórica.


Alexandre Brandão da Veiga



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