segunda-feira, 23 de outubro de 2023

O grande sonho crítico

 

É bem conhecido o lugar-comum de Kant dizendo que se libertou do seu sono dogmático lendo a obra de Hume. Vejo isto repetido, e pode ser mera ladainha, ou importante premissa para um raciocínio mais escorado. Cita-se a frase, e esquece-se o seu efeito encantatório.

 

É que uma coisa é dizer que Kant se sentia num sono dogmático, e como ele passava as noites melhor ele saberia, outra coisa são as ilações que o leitor obediente desta observação retira. A primeira: os sonos apenas nascem da dogmática. A segunda: a dogmática conduz forçosamente a sonos.

 

Comecemos pela segunda, que é mais fácil de rebater. Toda a revolução científica foi feita por dogmáticos, no sentido em que foi feita por cristãos convictos e que aderiam muito conscientemente a dogmas. Galileu, Kepler e Pascal aos dogmas católicos e mesmo o anti-trinitário Newton aos dogmas de um Deus criador etc. Dogmáticos, porque o eram também na ontologia. Não eram medíocres como os pós-modernos negadores de toda ontologia.

 

A dogmática conduz a sonos? Cria o torpor? Onde? Onde Bach ou Pergolesi perderam a lucidez é algo que terão de me explicar, que se me escapa.

 

Vamos então à segunda tese, implícita, como tudo o que é nebuloso: os sonos apenas nascem da dogmática. A crítica nunca gera sonos.

 

Primeira fraqueza desta tese: a de acreditar que conseguimos ser plenamente críticos e auto-críticos sem pressupostos implícitos. Puro irrealismo e infantilidade. Ignorância da axiomática. Gente sem literacia matemática.

 

Segunda fraqueza da tese: nem tudo o que se chama a si mesmo de crítico o é. Ser crítico de tudo significa apenas não ter critério e ser destruidor. E mais uma vez esta tese mostra o seu irrealismo. É impossível fazer crítica consistente sem premissas sólidas, indemonstradas, sem as quais não há demonstração.

 

O que acha que a crítica nunca causa o sono vive ele num sono. A prova: vejam-se quantos académicos dizem que não há verdade, e em tribunal dizem que foram acusados por mentirosos, quantos dizem que a ciência europeia é ficção mas vão à urgência médica e não ao marabu.

 

Tartufos? Mentirosos? Adormecidos? Que importa? No mundo de torpor que celebram, entre a vigília e o sono não há fronteiras, como não há fronteiras, e os povos e o que são e os outros nada é. E por isso já vemos os seus argumentos dissolverem-se como uma pasta informe. Dormem? Como o saber? Não muda a sua justiça acordados ou em pesadelo. Putrefacto o seu sentido crítico, gangrenam até na sua respiração. E não digo paz à sua alma, porque afirmam não a ter. Já o tínhamos visto.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

(mais)

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Atlântida e Atenas

 

  

 

 

 

 

 

A história que vem contada as crianças é a de que um sacerdote egípcio teria dito ao ateniense Sólon que:

1)    1) Os gregos seriam sempre crianças;

2)    2) Tinha havido uma grande civilização a Atlântida.

 

Ambas são verdade. O problema são as ilações que os literatos delas retiram:

1)    1) Os gregos são bem mais recentes que os egípcios;

2)    2) A sua memória é mais curta;

3)   3)  Só fora da Grécia houve uma civilização que pôde confrontar-se com a egípcia.

 

O sorriso masoquista da maioria dos leitores aparece aqui. Veja se como a Europa é nova-rica perante as grandes civilizações orientais. Como o Ex Oriente lux faz suspirar os laicos, como se sentem em casa se a civilização vier de terras bíblicas...

 

Mas esta ideia é destinada a vários descalabros.

 

Que, falando da Grécia, se pense na Europa é acto falhado para quem acha que a Europa é bem mais recente e só começa com o cristianismo. Está a confessar que para si a Europa é bem mais antiga do que proclama. Que para lhe dar um estatuto de nova-rica tenha de ir a tempos cristãos, quando ao mesmo tempo diz que o cristianismo não é constitutivo da Europa outro seu fracasso intelectual. Cabeças cheias de contradicções.

 

Que a memória do grego seja mais curta que a egípcia resulta claro do texto. Do próprio Aristóteles há textos de que resulta que os gregos tinham noção de que, poucos séculos antes, tinham vindo de uma época turva, convalescente. Mas memória mais curta não significa História mais curta. Significa apenas que não se tem memória da sua História.

 

O que diz o sacerdote egípcio? Vocês atenienses esqueceram-se da vossa grande História, quando Atenas era poderosa e muito desenvolvida. O vosso problema não é vir de baixo, mas o de se terem esquecido que vêm de cima.

Se os gregos serão eternas crianças, não é por estarem na infância da civilização, mas por se terem esquecido que vieram do contrário.

 

A Atlântida era um grande civilização, mas Atenas também, e houve mesmo uma guerra entre elas.

 

As ilações dos literatos, salvo a da memória curta são, pois, todas falsas. O problema dos gregos não é de terem uma História inglória ou curta mas de se terem esquecido de quão antiga e gloriosa era.

 

O masoquismo europeu fica aqui embaraçado. Porque o mito popular enleva a Atlântida e não dá lugar à grande Atenas? Quer dizer talvez que os gregos actuais, ou seja, os europeus, ainda são eternas crianças e se esquecem de quão antiga e gloriosa a sua História tão ou mais antiga que a egípcia.

 

Aqui tinha razão Chateaubriand quando dizia que se os europeus vissem a sua História como europeus se veriam mais antigos que a China.

 

Aqui pode ter razão quem veja nesta História a marca da queda da civilização do Bronze no fim do século XII a.C., em que, de todas as grandes culturas, a helénica, micénica e cretense, a hitita, a mesopotâmica e a egípcia, só a última resistiu, mesmo que pagando o preço de uma forte decadência.

 

Que os gregos dos séculos V e IV a.C. tivessem memória de um descalabro e negrume histórico é inevitável. Ao contrário dos romanos, que se sabem de longa História e migrantes, os gregos julgam-se de mais curta. A aristocrática Esparta vê se descendente de migrantes dórios, a democrática Atenas vê se nascida da terra autóctone, racicamente pura. Os nazis tinham tanto interesse na democracia ateniense quanto na aristocracia espartana e com boas razões.

 

Lido o texto directamente (Timeu 21E-26E), sem as glosas das glosas que satisfazem os literatos, revela-nos uma História bem diferente. E uma História que choca o transeunte da cultura. Mas se esse europeu se sente confortável em ser chamado de novo-rico, vindo de baixa cultura e sempre inferior a outros, talvez esteja a ser justo. Mas consigo mesmo. Não com os seus parceiros de civilização que gostaria de consigo arrastar na lama.

 

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

 

 

 

Atlântida e Atenas

 

A história que vem contada as crianças é a de que um sacerdote egípcio teria dito ao ateniense Sólon que:

1)    Os gregos seriam sempre crianças;

2)    Tinha havido uma grande civilização a Atlântida.

 

Ambas são verdade. O problema são as ilações que os literatos delas retiram:

1)    Os gregos são bem mais recentes que os egípcios;

2)    A sua memória é mais curta;

3)    Só fora da Grécia houve uma civilização que pôde confrontar-se com a egípcia.

 

O sorriso masoquista da maioria dos leitores aparece aqui. Veja se como a Europa é nova-rica perante as grandes civilizações orientais. Como o Ex Oriente lux faz suspirar os laicos, como se sentem em casa se a civilização vier de terras bíblicas...

 

Mas esta ideia é destinada a vários descalabros.

 

Que, falando da Grécia, se pense na Europa é acto falhado para quem acha que a Europa é bem mais recente e só começa com o cristianismo. Está a confessar que para si a Europa é bem mais antiga do que proclama. Que para lhe dar um estatuto de nova-rica tenha de ir a tempos cristãos, quando ao mesmo tempo diz que o cristianismo não é constitutivo da Europa outro seu fracasso intelectual. Cabeças cheias de contradicções.

 

Que a memória do grego seja mais curta que a egípcia resulta claro do texto. Do próprio Aristóteles há textos de que resulta que os gregos tinham noção de que, poucos séculos antes, tinham vindo de uma época turva, convalescente. Mas memória mais curta não significa História mais curta. Significa apenas que não se tem memória da sua História.

 

O que diz o sacerdote egípcio? Vocês atenienses esqueceram-se da vossa grande História, quando Atenas era poderosa e muito desenvolvida. O vosso problema não é vir de baixo, mas o de se terem esquecido que vêm de cima.

Se os gregos serão eternas crianças, não é por estarem na infância da civilização, mas por se terem esquecido que vieram do contrário.

 

A Atlântida era um grande civilização, mas Atenas também, e houve mesmo uma guerra entre elas.

 

As ilações dos literatos, salvo a da memória curta são, pois, todas falsas. O problema dos gregos não é de terem uma História inglória ou curta mas de se terem esquecido de quão antiga e gloriosa era.

 

O masoquismo europeu fica aqui embaraçado. Porque o mito popular enleva a Atlântida e não dá lugar à grande Atenas? Quer dizer talvez que os gregos actuais, ou seja, os europeus, ainda são eternas crianças e se esquecem de quão antiga e gloriosa a sua História tão ou mais antiga que a egípcia.

 

Aqui tinha razão Chateaubriand quando dizia que se os europeus vissem a sua História como europeus se veriam mais antigos que a China.

 

Aqui pode ter razão quem veja nesta História a marca da queda da civilização do Bronze no fim do século XII a.C., em que, de todas as grandes culturas, a helénica, micénica e cretense, a hitita, a mesopotâmica e a egípcia, só a última resistiu, mesmo que pagando o preço de uma forte decadência.

 

Que os gregos dos séculos V e IV a.C. tivessem memória de um descalabro e negrume histórico é inevitável. Ao contrário dos romanos, que se sabem de longa História e migrantes, os gregos julgam-se de mais curta. A aristocrática Esparta vê se descendente de migrantes dórios, a democrática Atenas vê se nascida da terra autóctone, racicamente pura. Os nazis tinham tanto interesse na democracia ateniense quanto na aristocracia espartana e com boas razões.

 

Lido o texto directamente (Timeu 21E-26E), sem as glosas das glosas que satisfazem os literatos, revela-nos uma História bem diferente. E uma História que choca o transeunte da cultura. Mas se esse europeu se sente confortável em ser chamado de novo-rico, vindo de baixa cultura e sempre inferior a outros, talvez esteja a ser justo. Mas consigo mesmo. Não com os seus parceiros de civilização que gostaria de consigo arrastar na lama.

 

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

(mais)

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Os cristãos destruíram a cultura pagã?

 


Recentemente saiu mais um livro a queixar-se dos malandros cristãos que destruíram a cultura pagã. Para fazer propaganda do livro diz-se que a autora tem uma grande erudição e que faz novas revelações. Comecemos pelo princípio. Tudo o que ela diz já era dito por alguma da erudição inglesa do século XVIII, alguma alemã do mesmo século e do seguinte. Para não ir mais longe: Gibbon no século XVIII. Este ao menos era original e bom escritor, não um trauliteiro que queria fazer negócio com as fantasias da plebe. A ironia é que, e isto os seus admiradores omitem geralmente, no fim da sua vida converteu-se... ao cristianismo.

O primeiro problema é que a plebe quer ter novidades quando é de sua natureza ser redundante. Mas surge um segundo problema. Os leitores da rapariga ficam indignados e dizem: vejam como os cristãos destruíram a cultura grega e latina. Seja. Mas esses leitores já algum dia se ocuparam do ablativo ou do aoristo? Apostemos que não. Se dão tanta importância a culturas destruídas, porque nunca as estudaram? Estão horrorizados com a morte de quem lhes é indiferente. Não diz isto algo das suas verdadeiras motivações? Não é a perda da cultura clássica que os choca, porque dela nada sabem. É o ressentimento contra o cristianismo.

Terceiro problema: os cristãos destruíram muitas obras pagãs. Sem dúvida. Quando durante mais de quinze séculos mais ninguém pode cuidar das obras pagãs senão os cristãos, o poder total da sua preservação está nas mãos de cristãos. O que sobra e o que não sobra está nas suas mãos. É uma inevitabilidade a que enunciam. A crítica plebeia basta-se pois com trivialidades.

Um quarto problema surge. O facto de alguém destruir retira-lhe automaticamente a legitimidade? É que se assim for, um dos grandes destruidores recentes de obras clássicas foram os Aliados durante a II Guerra Mundial. Deveríamos insistir sobre este aspecto, e dizer que era melhor Hitler e Mussolini governarem mais uns anos? A minha experiência é que os neopaganismos de pacotilha se anunciam de esquerda mas têm muitas afinidades com o nazismo e o fascismo. Mas é por um misto de ignorância e má-fé que não fazem esta ligação.

E eis um quinto. Grande parte das obras antigas foram perdidas antes do domínio cristão por esquecimento e desinteresse. Um dos outros motivos da perda de obras pagãs é técnico. Com a passagem do rolo para o códice nem todas as obras foram recopiadas. As obras perdem-se porque não são lidas nem reeditadas. Um país que não faz una única edição bilingue contribui para a perda de todas as obras clássicas na sua língua original. Portugal é dos países que menos ar de escândalo pode mostrar quanto a esta perda. Vide o que diz Giorgio Pasquali ou Alline. Mas os leitores de obras de divulgação nem conhecem estes nomes e vão estrebuchar muito antes de as lerem.

Podemos partir para um sexto problema. Quem preservou todas as obras pagãs que nos restam? Todas. Precisamente: essas obras que os leitores da rapariga nunca leram. Quem preservou? Monges cristãos. Gregos e latinos. Querem ler poesia erótica, obras blasfemas, obras que criticam os cristianismo, como as de juliano, Libânio, Proclo, Plotino, ou Símaco? Quem as preservou? Monges cristãos. Ao ponto de o grande filólogo clássico, von Wilamowitz-Moellendorf ter dito que não podia ser bom classicista quem não for bom medievista. Acham os leitores desta rapariga que lemos os papiros escritos por Platão? Não. Em geral o que lemos são manuscritos medievais escritos por... cristãos.

E chegamos a um sétimo. Diz o leitor de raspão, agora que se julga com ideias: seja, foram monges cristãos a preservar as obras antigas que nos chegaram. Mas isso é uma inevitabilidade. Nada há de meritório nisso. Revela aqui o leitor do povo dois problemas. O primeiro é que a inevitabilidade atravessa a sua vida. Para desmerecer o adversário tem de o achar trivial: como ele mesmo. O segundo é que nenhuma inevitabilidade existe. Da antiga civilização persa os mais antigos testemunhos literários que nos sobram não são persas, mas gregos. E quem os preservou? Os monges cristãos. O islão destruiu esse sim destruiu totalmente os monumentos literários históricos do irão pré-islâmico. Aqui está. O escândalo que o leitor de obras baratas pode sentir deve senti-lo em relação aos eruditos muçulmanos. Se acha condenáveis os destruidores absolutos eis aqui os seus verdadeiros inimigos. Ou o seu escândalo é só pretexto?

As perguntas a colocar são simples para os leitores destituídos de livros indigentes. Mas fiquemo-nos por uma simples: quantos autores clássicos leu? Quantas vezes se perdeu no humor melancólico de Menandro ou nas tríades de Proclo? Se a resposta for: nem sei do que falas já ficámos a saber que não são os supostos crimes dos cristãos que o chocam, não é a justiça que o motiva, mas vontade de acusar os cristãos de seja o que for. Lembre-se, no entanto, que o seu argumento o vincula. Se lhe causam indignação os selvagens que destroem obras de cultura superior será um dia advertido: olha estes selvagens que destroem igrejas, pinturas e preferem a música dos selvagens a Bach. O seu embaraço só porá a nu que a única coisa que o choca não é a destruição da grandeza, mas a vitalidade da única religião que o chamou de gente e lhe deu dignidade: o cristianismo.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

Veja-se o efeito desastroso que teve a II Guerra Mundial para os arquivos em Itália (BELLI, Carolina, «Storia e Feudi. Rileggere le Fonti», in BRANCACCIO, Giovanni (cur.), Il Feudalesimo nel Mezzogiorno Moderno. Gli Abruzzi e il Molise (Secoli XV-XVIII), Biblion Edizioni, Milano, 2011, p. 367). A II Guerra Mundial provoca destruição de arquivos também em Milão. 55 mil tomos foram destruídos na Biblioteca Ambrosiana (PAGLIUGHI, Paolo, Il Cardinal Federico Borromeo, Marietti 1820, Genova-Milano, 2010, p. 263). Destruição de manuscritos alemães pela RAF durante a II Guerra Mundial (TILLIETTE, Xavier, Vita di Schelling, Bompiani, Milano, 2012, p. 530, p. 886). A II Guerra Mundial como grande destruidora de documentos (DUNNINGTON, G. Waldo, Gauss, Titan of Science, The Mathematical Association of America, New York, 2004, p. x). En 1944 um manuscrito destruído em Chartres (RICHÉ, Pierre, Gerbert d’Aurillac. Le Pape de l’An Mil, Fayard, Paris, 2006, p. 236). Na II Guerra Mundial o papiro de Iena sofreu grandes danos (ROUSSEAU, A., «Introduction. Le Papyrus d’Iéna», in IRÉNÉE DE LYON, Contre les Hérésies, Livre V, Tome I, Éditions du Cerf, Paris, 1969, p. 122). Em 15 de Setembro de 1945, um soldado americano mata Anton Werbern, porque este se tornou visível ao fumar um cigarro (CHANTRE, Benoît, Le Clocher de Tübingen, Grasset, Paris, 2019, p. 48), cumprindo assim ironicamente um ensejo de Hitler, de aniquilar artistas degenerados, e repetindo o destino de Arquimedes, morto pelo soldado romano.

 

A destruição de manuscritos durante as invasões francesas dos anos 90 do século XVIII na Alemanha (BOYLE, Nicholas, Goethe. The Poet and the Age, Volume II, Revolution and Renunciation, Clarendon Press, Oxford, 2003, p. 158). É durante as invasões francesas de Itália que um revolucionário destrói o famoso Terêncio de Bembo (DAIN, Alphonse, Les Manuscrits, Les Belles Lettres, Paris, 2014, p. 190). Em 1870 o bombardeamento de Estrasburgo destruiu manuscritos preciosos (PASQUALI, Giorgio, Storia della Tradizione e Critica del Testo, Casa Editrice Le Lettere, Firenze, 2015, p. 44). Em 1792 o bombardeamento da biblioteca de Mainz destrói manuscritos (p. 51). Comte dizia que todos os maus livros deveriam ser destruídos, assim como as poesias medíocres, e extirpados todos os animais e plantas sem utilidade (GOMPERZ, Theodor, Pensatori Greci. Storia della Filosofia Antica dalle Origini ad Aristotele e alla sua Scuola, Bompiani, Milano, 2013, p. 1551). A Capella Ovetari agli Eremitani destruída por um bombardeamento de 11 de Março de 1944 (VASARI, Giorgi, Le Vite de’ più Eccellenti Architetti, Pittori, et Scultori Italiani, da Cimabue, insino a’ Tempi Nostri, Volume Primo, Einaudi Tascabili, Torino, 1991, p. 495). Obras sobre homossexualidade foram destruídas por Hitler ou durante bombardeamentos aliados (TAMAGNE, Florence, A History of Homosexuality in Europe. Berlin, London, Paris. 1919-1939, Volume I, Algora Publishing, New York, 2004, p. 10). Isto mostra como obras escritas podem desaparecer por efeito de dois movimentos opostos.

 

 

A hostilidade da Igreja contra o helenismo teve alguma responsabilidade na perda de manuscritos, mas de igual forma foram eclesiásticos que salvaram o património, como Fócio, Aretas e Planudes; a falta de interesse e compreensão teve maior papel na perda do património (MAAS, Paul, «Sorti della Letteratura Antica a Bizanzio», in PASQUALI, Giorgio, Storia della Tradizione e Critica del Testo, Casa Editrice Le Lettere, Firenze, 2015, p. 487). A maioria das destruições do manuscrito Arquimedes não foi feita por um monge ignorante da Idade Média mas depois de 1932 (NETZ, Reviel; NOEL, William, O Codex Arquimedes, Edições 70, Lisboa, 2007, p. 189). Em muitos sentidos a nossa época é mais de trevas que outras, nomeadamente pela cobiça. Os autores dizem-se envergonhados por terem acusado os monges do Metochion, porque «o Palimpsesto foi criação da religião, não uma sua vítima» (p. 201). Foi graças à Igreja que sobreviveram muitos manuscritos (p. 310), foi a Igreja Grega que protegeu o manuscrito durante um milénio e foram proprietários privados durante o século XX que quase o destruíram (p. 311). ROUSSEAU, Adelin, «Avant-Propos», in IRÉNÉE DE LYON, Contre les Hérésies, Livre II, Tome I, Éditions du Cerf, Paris, 2013, p. 12, fala da incúria dos escribas em relação ao texto de Irineu. Repare-se. Em relação a um texto cristão, não pagão.

 

Foram os soldados de César que queimaram pela primeira vez a biblioteca de Alexandria em 48 a.C. (DAIN, Alphonse, Les Manuscrits, Les Belles Lettres, Paris, 2014, p. 112). A destruição da biblioteca de Alexandria em 47 a.C. (STRICKLAND, Joseph, La Questione Omerica, Carlo Clausen, Torino-Palermo, 1893, p. 36). Os exemplares de Platão pertencentes à biblioteca de Aristóteles foram queimados no incêndio da biblioteca de Alexandria de 47 a.C. (ALLINE, Henri, Histoire du Texte de Platon, Librairie Ancienne Honoré Champion, Paris, 1915, p. 58). Canfora defende que a grande destruição da biblioteca de Alexandria teria ocorrido na luta entre dois pagãos, Aureliano e Zenóbia (CANFORA, Luciano, La Biblioteca Scomparsa, Sellerio Editore, Palermo, 2017, p. 201), e houve grande destruição do bairro onde ela se situava durante o saque por Diocleciano (p. 96); não é claro quando à destruição pelo califa Omar (p. 108), mas afirma que de certeza não foi César quem a destruiu, o que arderam foram livros em armazém no porto de Alexandria e não a biblioteca (pp. 78, 102, 143), nem sequer os cristãos, que atacaram o Serápion e não a biblioteca propriamente dita. O propósito do iluminista Gibbon era apologético, queria atribuir a ruína da biblioteca de Alexandria aos cristãos (p. 120). Teodósio I, imperador que tem fama de intolerante, quando monges queimam uma sinagoga, o que era episódio raro, manda o bispo pagar a reconstrução da mesma (MAGNANI, Alberto, Serena. L’Ultima Romana, Jaca Book, Milano, 2002, p. 36). Em 399, da mesma forma que se proibiam os sacrifícios às divindades pagãs na Hispânia, impunha-se o respeito em relação aos templos pagãos (p. 53). O mesmo Teodósio I escolhe como mestre de Serena o pagão Temístio (pp. 18-19).

Os incêndios de Roma sob Nero, Tito e Cómodo destruíram muitos manuscritos antigos (TIMPANARO, Sebastiano, Per la Storia della Filologia Virgiliana Antica, Salerno Editrice, Roma, 2002, pp. 36, 37). Arete, filha de Aristipo, é filósofa, no início do século IV a.C., e mestre do seu filho Aristipo o jovem (GOMPERZ, Theodor, Pensatori Greci. Storia della Filosofia Antica dalle Origini ad Aristotele e alla sua Scuola, Bompiani, Milano, 2013, p. 1083). Um concílio de Elvira no fim do século III recusou o título de mártir a quem foi punido por ter destruído altares pagãos (MOFFETT, Samuel Hugh, A History of Christianity in Asia, Volume I, Beginnings to 1500, Orbis Books, New York, 2009, p. 166).

 

O triunfo do códice de pergaminho leva no século IV à transcrição de todas as obras antigas (ALLINE, Henri, Histoire du Texte de Platon, Librairie Ancienne Honoré Champion, Paris, 1915, p. 149). YOUNG, Frances et al. (ed.), The Cambridge History of Early Christian Literature, Cambridge University Press, Cambridge, 2008, p. 176: a perda de autores antigos tem menos a ver com destruição que com falta de interesse, o que os levou a deixarem de ser copiados. A perda de obras deve-se, muito mais que à destruição dos homens e do tempo, à falta de cópias (DAIN, Alphonse, Les Manuscrits, Les Belles Lettres, Paris, 2014, p. 123). Cícero já se queixa do desaparecimento de texto de Cúrio no seu tempo (Brutus, xxxii, 122) (CICERO, «Brutus», in CICERO, Brutus. Orator, Harvard University Press, Cambridge, 2004, pp. 108-109). A perda de manuscritos antigos deve-se também à passagem do rolo para o códice, e pelo desinteresse em transcrever obras consideradas menos importantes (WARD, J. O., «Alexandria and its Medieval Legacy: The Book, the Monk and the Rose», in MACLEOD, Roy (Ed.), The Library of Alexandria, Centre of Learning in the Ancient World, I. B. Tauris, London, 2010, p. 166). Mesmo na época dos Antoninos já havia muitos manuscritos perdidos (p. 167). No incêndio de Roma do tempo de Nero foram perdidos muitos documentos de homens de génio (presume-se, gregos) (Ann. XV, XLI) (TACITO, Annali, BUR Rizzoli, Milano, 2018, pp. 726-727). Já OLLERIS, Alexandre, Cassiodore, Conservateur des Livres de l’Antiquité Latine, Imprimerie de Mme Ve Dondey-Dupré, Paris, 1841, p. 7, sabia que os autores romanos se queixavam da negligência dos copistas ao transcrever os seus livros. A perda de manuscritos antigos deve-se pelo menos em parte à passagem do rolo para o códice segundo NUTTON, Vivian, La Medicine Antique, Les Belles Lettres, Paris, 2018, p. 7.

Os tratados teóricos sobre retórica anteriores ao século I a.C. desapareceram quase todos, eclipsados pelos sucessores que os usaram e afinal os substituíram (PERNOT, Laurent, La Rhétorique dans l’Antiquité, Libraire Générale Française, Paris, 2019, p. 83). Eis mais um mecanismo de perda de textos antigos: o seu sucesso. É, aliás, muitas vezes o sucesso de uma obra que leva a que seja copiada, transformada reutilizada até ao ponto de se afundar no seu próprio êxito (p. 209).

António, o avô do triúnviro, já teria dito no início do século I a.C. que sobram poucas obras de autores romanos sobre retórica e que alguns autores gregos eram apenas nomes já para a sua geração (De Or. II xxii, 92-93) (CICERO, On the Orator. Books I-II, Harvard University Press, Cambridge, 2001, pp. 266-267). Em meados do século XIX acreditava-se que a maioria das corrupções dos textos antigos vinha da Idade Média, quando se percebeu que a maioria das corrupções graves dos textos eram muito antigas (ALLINE, Henri, Histoire du Texte de Platon, Librairie Ancienne Honoré Champion, Paris, 1915, pp. 174, 183). No caso dos textos platónicos devem ter vindo do século que se seguiu à sua publicação (p. 180). Os monges que transcreviam os manuscritos não merecem a censura que lhes foi feita. A maioria dos textos gregos foram mais correctamente transcritos que os latinos (pp. 180-181). A nossa tradição manuscrita é excelente, no seu conjunto superior à que consta dos papiros e citações (p. 188). O arquétipo das obras de Platão depende de neoplatónicos e de clérigos (p. 196). Já na Antiguidade tinha começado o processo de contaminação dos manuscritos (PASQUALI, Giorgio, Storia della Tradizione e Critica del Testo, Casa Editrice Le Lettere, Firenze, 2015, p. XVIII). Boa parte das variantes que aparecem nos códigos medievais foram transmitidas já pela Antiguidade (p. 123). Uma grande parte das lições inferiores da nossa tradição medieval começa já nos últimos séculos da Antiguidade (p. 193). As corruptelas são antigas (p. 255). Corruptelas no texto de Platão vêm já do século II d.C. (p. 257), são da Antiguidade, não dos textos medievais (pp 260-261). Da mesma forma, no texto de Demóstenes (pp. 277, 289). No texto de Heródoto vêm já do século I d.C. (p. 310), em Tucídides as corruptelas mais profundas são antiquíssimas (p. 325). As corruptelas do texto de Varrão e Festo são igualmente antigas (p. 349). As «variantes de autor» são a ultima ratio da crítica textual, não obstante (p. 419). Duas recensões de Terêncio vêem de edições antigas (p. 428). GREGORIO DE NISSA, «Contro Eunomio», in GREGORIO DE NISSA, Opere Dogmatiche, Bompiani, Milano, 2014, pp. 1170-1171, é dado como uma das provas da pronúncia velar do «c» latino, que ainda existia no tempo de Gregório de Nissa.

 

 

 

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sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Quem pode invocar o nazismo?

 

 

 

 

A colecta de grandes espíritos do nosso tempo gosta de acabar a sua argumentação com um finale estrebuchante: lembrem-se do nazismo. Como tudo é racismo e os nazis eram racistas aquilo que condenam está próximo do nazismo. Sentem que fizeram uma brilhante demonstração e não são contraditados. Uns porque os acham uns doidos furiosos outros porque se deixam convencer com argumentos tíbios.

 

Para sabermos quem pode invocar o nazismo temos de ver quem exploraram os nazis, quem eles perseguiram, em suma a quem eles provocaram sofrimento. Não quem eles desprezaram. Se fosse este o critério então os negros, mas também os portugueses e os espanhóis teriam razões para invocar o nazismo. Mas também os antigos germanos, cuja cultura nunca impressionou Hitler, apaixonado pela civilização grega e romana e não pelos vestígios arqueológicos germânicos.

 

Deixemos, pois, os desprezados e vejamos quem não sofreu com o nazismo.

 

Os africanos para começar. Os nazis desprezavam-nos, mas não os exploraram. Os ingleses com a sua generosidade habitual estavam dispostos a devolver-lhes a África alemã basicamente o Togo Land, mas também Angola, que já tinham oferecido aos alemães antes da I Guerra Mundial e voltaram a oferecer antes da II Guerra Mundial. Os nazis não queriam explorar os africanos. Os negros podem ficar descansados, não podem invocar o nazismo.

 

Os muçulmanos também não podem invocar o nazismo. Tanto turcos como árabes foram sempre bem recebidos pelos nazis. Nas SS não havia capelães militares, porque a ideologia nazi odiava o cristianismo. Mas havia duas divisões SS muçulmanas, a Scanderberg e Handschar. E nestas por excepção havia imãs como capelães militares. Os nacionalistas árabes eram conhecidos por adorar Hitler como um dos seus ídolos e na Turquia o «Mein Kampf» desde sempre foi sucesso de vendas. Os muçulmanos, seja árabes seja turcos, não podem invocar o nazismo, nomeadamente quando se dedicam alegremente a discursos anti-semitas.

 

Os judeus podem invocar o nazismo? Os askhenazis os judeus da Europa Central e Oriental, sem dúvida. De forma gritante. Quanto aos sefaradis , os que têm origem no Sul da Europa, a matéria já é mais turva. Houve vários judeus holandeses que tiveram a condenação suspensa porque os nazis hesitavam entre considerá-los judeus... ou portugueses. E devolvê-los a Portugal.

 

Os ciganos sem dúvida. De forma gritante.

 

Os católicos e muitos aristocratas também, porque foram perseguidos por serem o que eram. Uma das acusações contra as ordens religiosa era a de que favoreciam a homossexualidade e a pedofilia. Os nazis têm muitos herdeiros na nossa época.

 

Quem mais pode invocar o nazismo? Quem exploraram os nazis, quem queriam ter como mão de obra escrava que territórios queriam colonizar, que povos queriam ver reduzidos em reservas tribais e de preferência ir extinguindo aos poucos? As escolas não ensinam e os jornalistas não percebem. Mas do que não percebem os jornalistas é um vasto campo, como dizia Fontane.

 

Quem? Povos louros de olhos azuis, arianos de raça e de língua. Os eslavos. Os projectos de colonização não se dirigiram contra a África, a Ásia, seja a Turquia seja a Índia ou a China. Mas contra a Europa de Leste, até à Rússia incluída. Quem pode invocar o nazismo são os muito louros e arianos eslavos.

 

Deixemos, pois, repousar os que invocam o nazismo quando não o podem. Alguns seguem mesmo ideias nazis sem o saberem. Deixemo-los descansar em paz porque o seu cérebro já se nos antecipou no ensejo. E quando os virmos invocar o nazismo em conjunto com o racismo fiquemos consolados em perceber que estes não são os piores males do mundo, mas antes a estupidez.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Contra o pequeno burguês VIII

 


No mundo em que nasci o pequeno burguês era visto como inferior e via-se como inferior. Foi o momento de glória da sua coerência. Hoje em dia diz que não há verdades e não tem identidade, o que quer dizer que só admite as falsas ou que vê como tais. O mundo em que eu nasci revoltava-me pela sua injustiça. Esse foi o meu erro. O mundo em que eles nasceram foi o da sua humilhação. Esse foi a origem das suas ilusões. Uma classe que passa a dominante por inadvertência, que descobre que a sua verdade é a de não a ter, e de ontologia apenas ter uma coxa antes suscitava-me a comiseração e algum constrangimento. Depois de ter conhecido o mundo à sua imagem percebi que dele fui expulso para ninguém em compensação entrar. É um mundo do vazio, que se compraz em anunciar o seu vazio e absurdo, agora não como uma fatalidade, mas como uma pena para quem dele não participa.

A finalidade era a de integrar todos e eu fui excluído. E a vontade de integrar aplica-se apenas a um estranho tipificado, a um exótico definido por guias turísticos. Seja. Porém, o resultado é um mundo em que o primeiro que se sente estranho é o pequeno burguês. Faz mesmo propaganda disto nas universidades de que se apossou. Ninguém está na sua terra. Os antigos senhores que já não existem, os exóticos que existem apenas na sua imaginação e os próprios pequenos burgueses que se sentem sem substância, sem essência, sem existir. No mundo que construíram só há estranhos, não há esperança e apenas ilusão. É o que o pequeno burguês ensina nas faculdades sobre o mundo. Apenas se esquece de dizer que fala do mundo sim, mas do que criou. Sem grandeza, sem verdade, sem ambição.

Podem julgar que insulto gratuitamente o pequeno burguês. Mas bem pelo contrário. Apenas faço compilação. Mera suma. Do que ele diz sobre o mundo, ou seja, sobre si mesmo. A artimanha do pequeno burguês é praticar o insulto e partir do princípio de que não percebemos que só pode ser a ele que se refere. Como em massa se dirige a pequenos burgueses, a estratégia funciona e deixa todos felizes, na medida que o possam ser. Sintetizá-lo, algo que o assusta. Fazer-lhe justiça, o que para ele é inesperado. Mostrar na sua nudez a sua essência, o que ele não deseja. Mas façamos-lhe jus. Ou seja, oponhamo-nos e insultemos. Mostremos-lhe que o mundo que nos apresenta é apenas um espelho, e até nisso é trivial.

Gostava de me despedir do pequeno burguês. Sem ressentimento. Mas em boa verdade já sem comiseração. E sem interesse. Mas não tem morada, nem identidade, nem mesmo face. Acha que depois de morrer vai ser apenas um saco de flatulência e num resto de piedade tendo a dar-lhe razão. Os seus vários esfíncteres são indistinguíveis. O seu mundo não acaba no Juízo Final, nem num crepúsculo dos deuses ou num acorde final. O seu mundo começa e acaba da mesma forma. Num flato. Bendito seja, que me fez perder tempo. Leve, pois, os seus bons sentimentos e os seus direitos do homem para onde lhe der mais utilidade. O seu mundo sem grandeza tem o defeito de não ser microscópico. E já com ele gastei mais poesia do que era de seu merecimento.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

 

 

 

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quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Contra o pequeno burguês VII

 


 

O pequeno burguês é sempre «pós» qualquer coisa. Pós-moderno, pós-crítico, pós-estruturalista, pós-cristão. Com «pós» significa que vem depois de um mundo com uma identidade que não sabe definir - não acredita em essências afinal - e para justificar o mundo em que vive tem de mostrar como era má essa identidade. Não percebe - mas o que percebe ele? - que a designação de «pós» é a confissão de um beco sem saída. Depois do «pós» o que poderá vir? O «pós-pós»? Esta concepção do futuro mostra que não vê futuro, que é o burguês sem esperança. Chama-se de «pós» na ânsia de não haver um «pós» que após ele o negue. Tudo nele é confissão contrariada. Diz-se vindo do nada, apenas aceita um mundo feito do instante sem substância, e cria teorias cuja condição é não ter futuro. Por isso abdica do tempo, da realidade e da carnalidade. Prefere os direitos humanos e a tolerância, embora negue as essências e portanto também a humana e já não sabe o que mais há-de tolerar.

Está habituado ao escárnio. Do nobre pelo seu reles nascimento, do burguês pelos seus fracos feitos, do proletário pela presunção de se elevar acima de si. Esse escárnio antigo é-lhe insuportável, porque substantivo. Mas, eterno saudoso do escárnio, prefere ser gozado pelo miserável do terceiro mundo que não respeita as ordens de expulsão que os Estados pequeno burgueses emitem, lhe come os subsídios. O que é lixo para os Estados subdesenvolvidos e corruptos é para ele uma oportunidade de futuro. O mesmo em que não acredita. O futuro, desde que seja dos outros, é prometedor. O escárnio, desde que seja de nova fonte, é refrescante. Ele, que não acredita em identidade salvo a dos outros está condenado pela sua natureza em nada a mudar. De chacota da sua raça torna-se chacota das outras. E assim se sente em casa.

Espantam-se uns que nesta época haja tanto livro hermético, com uma linguagem arrevesada, definições contra o costume, línguas novas criadas para iniciados. Nenhum espanto pode haver. O pensamento sempre foi opaco para o pequeno burguês, por isso para ele produzir pensamento não é desvelar, tornar claro e evidente. É bem pelo contrário tornar opaco. Só a opacidade lhe cheira a pensamento. Por isso, se é pretensioso na sua linguagem, ao mesmo tempo está a ser sincero, a seguir a sua natureza, mais uma vez. Se ele percebesse, se ele fizesse perceber, não seria para ele pensamento. O seu estilo barroco e cheio de pretensões é apenas sinal da sua essência. É novo-rico. Ou peca por sobreabundância ou por escassez. Ninguém em casa lhe ensinou o sentido das proporções, e vai para a escola aprender com outros novos-ricos que proporções é coisa que não existe.



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terça-feira, 22 de agosto de 2023

Contra o pequeno burguês VI

 Para o pequeno burguês subir ao poder foi a oportunidade de desprezar livremente o pequeno burguês. E pode fazê-lo em boa consciência porque lhe faltam duas: a de que subiu ao poder, e a de que é a si que está desprezando. Sente que é de justiça ter nojo do que é, porque não percebe que começa a ser nojo exactamente por ser tão pouco e por isso impor ao mundo claudicante ontologia. Dilui o ser, e a partir desse momento pode dizer tudo e o seu contrário, rindo da moral enquanto apenas sabe moralizar. Quando se vem de um mundo latrinário toda a origem parece porca. E não compreende que não são porcas as origens por definição, mas apenas a sua.

Como burguês, é puritano. Não pode ter ao mesmo tempo Deus e sexo. Mas a pureza para o grande burguês está associada a uma disciplina. Ou o percurso kantiano, ou o livro de etiqueta e bons modos que supre a deficiente educação que teve em casa, ou o ordinário da missa. O pequeno, como é sem esperança, perde a noção de prudência. A pureza acaba por ser entendida literalmente como «pur», fogo. Tudo tem de acabar numa pira, no limite funerária, em geral de auto da fé, em que são destruídos livros, apagados autores, destruídas tradições. Apenas sobram as culturas exóticas, porque só elas podem ter substância. Não as percebe, e isso salva-as. O mundo de origem do pequeno burguês, o instituído pela nobreza cristã, tem de desaparecer porque o insulta, e é o único em que vê substância, é o único em que acredita. Diz-lhe: vens de baixo e nunca sairás do baixo. Queimando esse mundo aparece-lhe um outro que também o irá condenar como branco, de origem cristã e reles. Mas as condenações pretéritas têm mais peso para o pequeno burguês. Homem sem esperança está preso ao passado. E tudo é melhor que o inferno de ser quem é. O seu delírio de pirómano vai-o levar a ser queimado por outras culturas. Mas esse é o seu futuro. E do futuro o pequeno burguês nada tem e nada percebe. Não se sente perdedor de grande coisa, porque o futuro nunca lhe pertenceu. Por isso, e sem passado, come desesperadamente o presente.

Os tiranos da época contemporânea eram pequenos burgueses. A sua base de apoio pequeno burguesa. Não me interessa saber se as ditaduras são de esquerda ou direita. A grosseria, a crueldade, a falta de liberdade vêm da mesma cloaca. O Mussolini socialista não foi substituído por um aristocrático fascista. A origem, o aspecto, os modos são os mesmos. O seu nojo da liberdade revela-se nas suas teorias, que dizem que somos dominados pela linguagem, pelo contexto social ou sexual, vítimas tanto quanto destituídos de autonomia. No fundo, as subtis destrinças entre as várias teorias são de somenos importância. O pano de fundo é a escravidão em relação a algo. Se a União Soviética, o mercado, a China, o islão é irrelevante. O pequeno burguês só está em casa numa prisão. Qual é, só folclore. E se ele se apega ao folclore diz apenas de onde vem. Quando doutorado perora, vemos-lhe a anca a descair para um vira ou um corridinho.

 

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segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Contra o pequeno burguês V

 

Um mundo escasso ontologicamente apenas podia produzir um efeito: um mundo de moralidade. O pequeno burguês vê tudo na perspectiva da moral porque não tem substância. A própria natureza é para ele moral. Moralmente perfeita e atacada pelo ser humano, que mais não é que um piolhoso. Lembra-se assim sempre dos seus antepassados quando quer caracterizar o humano. Não há uma essência humana, mas direitos do homem. Diz-se para além de bem e mal, mas a sua linguagem trai o seu pensamento exclusivamente moral: «é indecente», devemos ser solidários (conceito repelente se o há), temos dívidas em relação às outras culturas.

Uma parte de si sente-se excitada por usar uma linguagem heróica, mas acaba sempre no discurso da moral e dos bons costumes. Dar o seu sangue como os heróis? Nem pensar. Byron dá o seu sangue, os filósofos de salão dizem que devem ser os filhos dos outros a dar o seu. Porque não quer dar o seu sangue? Porque é cobarde, mas também porque é lúcido. Sabe que iria dar algo sem valor, mas é o único tesouro que tem. Como pequeno burguês tem um pé-de-meia: é o que vale a sua vida.

O seu sucesso é secreto. E de novo não há cabala. Com a vitória da democracia governa o povo. O pequeno burguês sabe-se povo. Tudo faz sentido. Mas desse povo em sentido jurídico também faz parte o proletariado, o grande burguês... e o nobre. Isso ele esquece. Tornando-se a maioria do povo, por a maioria ser pequeno burguesa, assume um poder sem disso ter consciência. Como Monsieur Jourdain, fala em prosa e não o sabia. Passou a ser soberano e julga que é uma abstracção chamada povo que o é. O mundo passa a ser moldado pela sua pequenez e nem se apercebe. Reina por descuido, decide sem saber.

O pequeno burguês é obediente. Aceita qualquer submissão desde que velada. Porque é velada a sua vida. Escondida, coberta, por isso sem mistério. É aliado dos Estados Unidos. Aliado, ou seja, obediente. Há bases americanas na Europa, não há bases europeias nos Estados Unidos. A assimetria não o alerta. Vive obediente desde que mudem as palavras. Submisso em relação à China que merece ser mais poderosa que a Europa. Porquê? Porque teria um privilégio aristocrático: a de ter sido potência antes da Europa. É tudo falso nisto, mas mais uma vez está disposto a aceitar todas as aristocracias, salvo a única que acha verdadeira, a dos nobres que o dominaram.

Desde a II Guerra Mundial começámos a ouvir uma intensificação da crítica ao pequeno burguês. Crítica? Sejamos francos. Desprezo, declaração de nojo. Da parte de quem? Sartre, Kerouac, Lacan, Barthes, Foucault, depois Derrida, Deleuze. Mudam os nomes dos movimentos, existencialista, beatnik, estruturalista, pós-moderno. De comum uma coisa, e já é muito. O desprezo do pequeno burguês. Mas eram porventura aristocratas, proletários? Nem de propósito: são todos pequeno burgueses. Como o apogeu do burguês coincide com o cume do seu desprezo, o pequeno burguês sobe ao poder sem disso ter consciência e não sob um banho de flores, mas de tomates podres.

 

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quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Contra o pequeno burguês IV

 


 

Que pode fazer o pequeno burguês? Sem o passado do nobre, sem a glória presente do burguês, sem as promessas de futuro do proletário, que se pode dar a si mesmo? Tem de se construir um mundo de passado sem valor, um presente que é mera promessa, e um futuro que será sempre equívoco. O seu mundo, fá-lo à sua imagem e semelhança. E enche as escolas, as universidades, os jornais dos seus representantes. É vencedor pelo número e pelas regras democráticas, falta-lhe construir o seu triunfo.

Não o vejo referido. Mas toda a ontologia nasce de uma antropologia. Nos diálogos platónicos o «prepon», o conveniente, é usado como critério, na metafísica aristotélica os critérios homéricos são usados para desembocar no princípio da parcimónia: é melhor que seja um só a governar... O mundo do pequeno burguês é sem ontologia ou com fraca ontologia. Não tem materiais para a construir e por isso nega que seja possível a construção. O Maio de 68, o pós-modernismo e pós-estruturalismo estão cheios dessa ontologia oca, sifilítica, pronta a colapsar ou já em escombros. Não um relativismo, porque essa é uma atitude aristocrática, mas uma fúria perfuradora, uma vontade de destruição.

«Destruktion» dá desconstrução. Dosse bem o mostrou: o conceito de desconstrução vem do muito nazi Heidegger. Não se quer alargar horizontes, quer-se abater as torres que os permitem amplos. Um mundo à imagem do pequeno burguês não tem essência porque esta assenta numa antropologia aristocrática. Se virmos todos de baixo ficamos todos iguais. Não há quem tenha o privilégio da hierarquia.

O pequeno burguês é o burguês que perdeu a esperança da grandeza. O burguês pode não ter o sangue nobre das epopeias, mas pode ao menos aspirar à superioridade filológica da sua análise. O proletário pode sonhar ser o próximo herói. Com um custo: só colectivo. Nenhum pode ser Aquiles, mas há a ambição que todos o sejam. Tendo perdido a esperança da grandeza, a sua grande inimiga é a hierarquia. Corrijo: não todas as hierarquias, apenas as que o condenam nativamente.

Que haja hierarquias que condenem sobretudo a nobreza, a única que no fundo tem por verdadeira e por isso quer apagar, é algo que lhe agrada. O ritual do chá japonês é profundo, o europeu vácuo. A personagem dravídica sente-se igual aos europeus mesmo se baixa os olhos perante o brâmane. Que um muçulmano espanque a mulher faz parte de uma intimidade que não podemos violar, que um príncipe europeu traia a mulher, sinal da sua menoridade. Não são todas as hierarquias que condena, mas apenas as que o condenam.

Não são outras culturas que respeita. E está mesmo disposto a ser por elas desprezado. Porque no fundo não dá importância ao seu juízo. Quando lhe dizem que a Europa é nova-rica perante o antiquíssimo Oriente aceita a ideia com alegria, não por humildade, mas por ressentimento. O importante é que a nobreza que sempre o desprezou seja ela mesma chamada de nova-rica. Quanto a si sabe que não tem redenção, ninguém irá incensar o seu ilustre nascimento. Que possa dizer que a nobreza que o dominou é ela mesma de fresca data, baixo preço a pagar pelo desprezo que suscita noutras culturas. Ao desprezo está habituado. Prefere o de criaturas a que não dá importância ao dos seus antigos senhores.

A sua relação doentia com as hierarquias torna o pequeno burguês arredio a toda autoridade ou submisso a qualquer uma. É o mesmo que dotado de espírito democrático aceita o fascismo ou Mao ou diz que é proibido proibir. Foi-lhe dada a soberania pelas constituições e não pelo nascimento e está pronto à submissão porque ser soberano significa hierarquia. É contra a clara separação entre os direitos dos nacionais e dos estrangeiros porque não se acha merecedor de tratamento especial e está pronto a manter a tradição da sua família: a de obedecer a outros. Só deseja que os outros não sejam os mesmos. Ou seja, a antiga nobreza que o senhoriou ou a grande burguesia que o explorou. Se os outros forem antigos escravos dos seus antigos senhores está disposto, não a confraternizar, mas a obedecer. É de sua natureza estar submetido, é esse o seu estado natural.

 

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