sábado, 1 de novembro de 2008

Uma vital inconsciência

No meio desta vaga sacrificial, de cilícios e joelhos no chão, alguém tem de ser optimista. A Guerra & Paz Editores (mas que descarada autopromoção), numa prova de vital inconsciência, continua a publicar alegremente livros como se ainda houvesse leitores para os comprar.
Relevo dois que acabam de sair:

“Porto vs Lisboa” é um livro da co-autoria de dois Antónios, o Eça de Queiroz e o Costa Santos. O primeiro defende o Porto e ataca Lisboa, o segundo defende Lisboa e ataca o Porto. Em resumo, o livro serve para cantar as mais excelsas virtudes de Lisboa e do Porto e, ao mesmo tempo, vituperar os mais torpes costumes das duas maiores (únicas?) cidades de Portugal. Podia ficar para aqui a dizer que a capa e o grafismo são muito felizes, mas prefiro dizer que os autores conseguiram transformar o que poderia ser uma ideia diletante, num livro culto, apaixonado e de valor literário.

Outro livro é o de Simon Sebag Montefiore. Chama-se “101 Heróis” e até calha bem. Bem precisamos, num tempo de pirliteiros, de descansar o olhar na majestade de algumas sequóias. De Alcíbiades a Harun al-Rachid, de Fernão de Magalhães a Winston Churchill, de Eleanora de Aquitânia a Roosevelt, o historiador escreve as biografias de grandes figuras da história mundial. Dentro do formato grande e ilustrado, capa dura, encontramos lições de coragem, tolerância e altruísmo. Página a página, ficamos com a impressão de que o mundo é melhor do que pensamos e de que o idealismo compensa.
Para semana sai o mais bonito dos livros da editora. “As Meninas”, com a pintura de Paula Rego e texto de Agustina Bessa-Luís. Vou ver as eleições americanas in loco (meto férias no Geração de 60) e daqui a pouco mais duma semana, quando voltar, falamos desta preciosidade.

(mais)

Dois pessimismos que são, afinal, um!

Equivocamente, uma certa forma de criticar o mundo contemporâneo é legendada como descrente, negativa ou até niilista. Convém esclarecer que assim não é.

Há dois modos de encarar o pessimismo: ou o atribuímos ao próprio homem ou o atribuímos às circunstâncias em que o homem se encontra. No primeiro caso, por exemplo, o ateísmo é um pessimismo porque não encontra para a natureza humana uma finalidade para além da sua morte o que é contrário a uma natureza que tendo a capacidade de pensar a transcendência fez da sua existência na terra a expressão dessa mesma transcendência pela introdução na sua vida individual e em comunidade de finalidades que não são naturais. No segundo caso, o pessimismo é circunstancial, devendo-se em exclusivo a uma situação que não tem natureza definitiva, e apresenta-se como a consciência de um erro em que se não pode persistir sob pena de permanecer nessa situação que não se deseja, que não augura nenhuma felicidade e que desvia o homem da essência em que se reconhece. O primeiro podemos dizer que é um pessimismo absoluto, o segundo podemos dizer que é relativo. Porém, o primeiro conduz inevitavelmente ao segundo, enquanto o segundo é precisamente um aviso que reconduz à eliminação do primeiro.
O pessimismo relativo não é, por isso, verdadeiramente, um pessimismo. Pelo contrário, acredita, não no que é motivo temporário de descrença ou desânimo, mas no que substancialmente recorre para a razão de haver optimismo.
O homem sempre viveu em situação. E em situação, aquilo que sobressai são os problemas, as condições e os limites. Aquilo de que, em situação, se tem consciência é que o processo humano é uma incessantemente luta de libertação dessa condição e limite precisamente pela superação dos problemas. A raiz humana é optimista porque há uma energia futurante que supera o erro e o mal. O erro e o mal não são absolutos. Como, em boa doutrina, ninguém fica refém de um pecado (com ou sem sentido religioso). A essência do homem está para além do erro circunstancial ou da maldade episódica, ou seja, não se reduz a eles. Então, outra é essa essência que liberta, que renova e que purifica. Ora, é no que for essa essência de liberdade, renovação e pureza que o homem se revê, não obstante existir em circunstâncias que o desviam da limpidez dessa contemplação.
A distinção entre o que se é e o em que se está é fundamental para compreendermos a natureza dos problemas que nos afligem, que nos deprimem e que nos derrotam. Sabendo que a essência não se reduz à existência e que a existência encontra a sua finalidade no acordo (amor?) com a essência teremos de nos interrogar que destino temos nós dado ao pensamento? Que esperanças pusemos nele? Ou a que descrença e relativismo o dotamos? O optimismo e o pessimismo dependem apenas de responder a esta interrogação: que possibilidades atribuímos nós ao pensamento?

(mais)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

135 vigilantes e recepcionistas

Mereceu uma seta ascendente esta notícia de ontem no jornal Público.

O Instituto dos Museus e da Conservação, já conseguiu autorização para contratar 135 vigilantes e recepcionistas para minorar a crise de falta de pessoal nos museus. Por enquanto serão contratos precários, parece que lá para Janeiro passarão a definitivos.

Segundo o mesmo jornal, continuarão os problemas relativos à falta de pessoal nas áreas de conservação e restauro, que continuarão "(...) sem data de solução à vista. (...)".

Compreendo a alegria do jornal, sempre são 135 postos de trabalho, que em tempo de desemprego, não parece coisa pouca e compreendo a natural satisfação das pessoas que conseguirem esses postos de trabalho.

Todavia, metodologicamente, acho o procedimento completamente errado.

Em primeiro lugar, não faz sentido a administração pública insistir em contratar pessoas para desempenhar este tipo de funções. O recurso a empresas privadas de segurança, por exemplo, é já prática corrente em hospitais e universidades públicas.

Em segundo lugar, se, na administração, serviços como a segurança, limpeza e jardinagem, como manda a lei, forem executados por empresas privadas, abre-se a possibilidade de nascerem mais empresas para prestar estes serviços que, por sua vez, podem empregar mais pessoas.

Em terceiro, encaremos a realidade, quem entra para a administração, não sai. Assim, se chegar o dia em que um museu tem de fechar, teremos um maior número de pessoas com escassas habilitações, na situação de supra numerários, ou em situação de aposentação precoce.

Em quarto lugar, e mais importante, não se contratam técnicos especializados em conservação e restauro, ou seja quadros altamente qualificados.

Em suma, fez-se uma opção. Contrata-se a eito trabalhadores para exercerem funções de vigilância e recepção, mas não há dinheiro para trabalhadores qualificados, absolutamente necessários na actividade em causa.

A solução parece-me ser só uma. Publicitar a oferta a empresas do ramo que providenciem os melhores serviços ao melhor preço, obrigá-las a concorrer entre si. Consequentemente, canalizar os recursos disponíveis para os trabalhadores qualificados.

Como sempre, privilegia-se o imediatismo, o óbvio e o facilitismo, ao mesmo tempo que se persiste no emprego público de baixas qualificações.

Corremos porém um risco. Termos quem abra a porta e venda o bilhete. Resta saber se valerá a pena lá ir, é que sem cuidados técnicos, não haverá nada para ver.

(mais)

IV. Islão e cristianismo

Em quarto lugar a relação com o texto sagrado. O Islão fala árabe no alcorão. Ponto final. É evidente que houve polémicas históricas que se perguntavam se o texto do alcorão era criado ou incriado (em evidente transposição de idênticas questões tratadas em sede cristológica). Mas o corão foi escrito em árabe e a língua sagrada do Islão é o árabe. No paraíso fala-se árabe. Mais, a tese tradicional é a de que o árabe mais puro é o escrito no corão.

O paradigma cristão é bem diverso. Cristo falaria arameu. Mas não em lembro de autor que dissesse que o arameu seria a língua sagrada do paraíso. Seria mais depressa o hebreu, língua do Antigo Testamento. Mas entra uma terceira língua em jogo. O grego. O Novo Testamento é-nos dado em grego. Ora nunca ninguém aceitou sequer que a palavra literal de Cristo seria grega. Mas eis que entra uma quarta língua em jogo: o latim. O cristianismo latino vive da vulgata de São Jerónimo escrita em latim. Uma tradução sobre uma tradução. As palavras de Deus não são lidas na sua versão literal original.

Não menos grave que isto. Estando escrito em grego o novo testamento ninguém algum dia se atreveu a dizer que eram o paradigma do mais puro grego. A prosa platónica e as poesias épicas eram bem mais consideradas paradigmas do bem escrever. Bem pelo contrário, constrangeu alguns dos padres da Igreja o que sabiam ser um grego menos elegante. E depois entram outras línguas em jogo. O alemão de Lutero. O inglês do rei Jaime. O checo, o francês, e tantas outras traduções da bíblia tornam-se canónicas. Por isso quando um cristão se cola à letra, algo de estreiteza teológica e inépcia filológica se passa na sua cabeça. O fundamentalista americano cita a palavra de Deus em inglês como boa. Como se Cristo tivesse falado em inglês.

A relação do cristão com a palavra divina corre por isso menos risco de cair no fetichismo. O livro sagrado é tradução. Sempre. Seja em versão grega, por maioria de razão latina, em eslavão antigo, russo, inglês, alemão, ou checo. Ninguém pode dizer que Deus se pronunciou em aoristo grego e menos ainda que foi por essa Sua expressão que se formou o epítome da língua grega. A letra é tradução. Por isso carece da mediação do concílio.

O passeio que fiz foi rápido e sumário. Mas cada espaço na Europa nos lembra (ou lembra quem não é cego) da infinitamente maior riqueza da cultura cristã. Não há um Beethoven Persa, um Bach marroquino, um Miguel Ângelo cairota, um Dante turco, um Gauss líbio, um Leibniz argelino. Não há nem nunca houve. O Islão foi sobretudo cultura de transmissão, mais que de criação infinita. O que já não é mau, mas é bem diverso da Europa.

Em época em que o discurso amansador da fera externa (porque é quem tem discurso amansador que vê o estrangeiro como fera, não o vendo eu dessa maneira não careço dele) nos manda dizer maravilhas de tudo o que existe só porque anda postado na praça, convém lembrar aos europeus a infinita riqueza da sua cultura, maior que alguma vez na História se viu. E que fonte dessa riqueza é o cristianismo por vias tão estranhas e ao mesmo tempo tão simples e evidentes, que escapam à maioria.

Toda a cultura tem base religiosa. Só o anestesista e a assepsia podem achar o contrário. Lembrar quais são as diferenças é a primeira base para o diálogo, diz-se. Mas não sou cultor da conversa desdentada, e diálogo é algo que se deve ter, senão entre iguais pelo menos entre comparáveis. Gostaria de lembrar que a primeira regra do diálogo é a de se perceberem as diferenças. De tanto se fictarem semelhanças acabamos por ter em comum apenas respirar e defecar. O que em si não é mau, mas cheira-me a pouco... e mal.







Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

The Brave Lovejoy


Em “O Meu Diário com Sofia” o Manuel (Fonseca) declara ser capaz de “oferecer o peito às balas” na defesa de uma Geração de 60 assente no princípio original da liberdade lúdica.

Esta posição, que não me espanta no Manuel, bem entendido, fez-me lembrar um ensaio sobre o heroísmo do (Ralph Waldo) Emerson no qual este escreve:

“It is but the other day that the brave Lovejoy gave his breast to the bullets of the mob, for the rights of free speech and opinion, and chose to die when it was better not to live”.

Este Lovejoy (não confundir com o herói de uma série inglesa com o mesmo nome, protagonizado pelo excelente Ian McShane), Elijah Parish Lovejoy mais precisamente, foi um pastor (no sentido clerical do termo), jornalista e editor de jornais (St. Louis Observer, Alton Observer) assassinado por uma turba desbragada, no Estado do Illinois, devido à sua intransigente defesa de uma política abolicionista.

As forças que se lhe opunham procuraram calá-lo, por três vezes, através da destruição das gráficas nas quais imprimia os seus jornais. Mas sem qualquer efeito. Os ataques não lhe faziam tremer a mão na altura de escrever, nem lhe roubavam a voz com que falava ao seu rebanho.

No entanto, a verdade é que num desses ataques, a 7 de Novembro de 1837, precisamente há 171 anos atrás, e enquanto um grupo de amigos procurava salvar uma impressora recentemente oferecida pela Sociedade Anti-Esclavagista do Ohio, o nosso herói foi baleado. No peito.

Pela sua coragem Elijah Lovejoy é considerado o primeiro jornalista mártir da América e o defensor original da liberdade de imprensa nesse país.

Mais tarde, já em 1952, foi estabelecido um galardão atribuído anualmente a um representante dos media que se considere ser um digno herdeiro desta nobre tradição de defesa da coragem e da liberdade de informação.

Finalmente, e a despropósito, confesso que sempre achei interessante que um homem da Igreja se chamasse Love Joy.

(mais)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

III. Islão e cristianismo

Em terceiro lugar, a Incarnação. As implicações da Incarnação vão muito além das teológicas. Já essas bastariam. Mas as restantes são bem mais ignoradas e por isso têm de ser salientadas agora.

Para simplificar, são quatro: a sacralidade da história, Deus como Amor, a ciência experimental, o paradigma da inércia.

Todos os povos têm histórias sagradas. A questão é que estas em geral se recolhem em certos momentos históricos, em que o profeta, o deus Saturno ou outra entidade de fundo mais ou menos religioso viveu na Terra. Mas a Incarnação é algo mais que um avatar como Krishna. Deus fez-se carne e ascende em carne aos céus. O espaço divino é habitado por um homem-Deus. E o espaço terreno não é profano, porque a condição de homem foi plenamente partilhada por Deus enquanto se fez homem. Não há uma distância infinita entre Deus e o homem não transposta. O Deus dos cristãos é um Deus que transpôs esse espaço.

Que Deus seja Amor é algo que não faz muito sentido para um muçulmano. Pode mesmo ser blasfémia para um islamita, porque é pretensão de limitar Deus. Aliás a santíssima trindade é igualmente uma das manifestações desse facto. As três pessoas divinas que se amam eternamente de um amor absoluto e sem fim são a garantia (algo estranha numa perspectiva de bom senso) de que Deus é amor. A Incarnação é a prova do amor infinito de Deus pelo homem. O homem cristão sabe-se infinitamente amado por Deus até ao sacrifício último, o Deus sem associados do Islão manda profetas. Já não é mau, mas dá uma muito menor dignidade ao homem. O cristão é o que se sabe amado, ou aprende a sabê-lo. Amado infinitamente. As consequências psicológicas são múltiplas. E nesse aspecto os ortodoxos orientais têm-nas mais conscientes que os outros ao salientarem a divinização do homem. Tudo ideias improváveis, improbabilidade que é sempre a marca do génio, senão de algo maior.

Que vem fazer a ciência experimental quando se fala de Incarnação? Muito simplesmente. Para um grego era inconcebível uma ciência do perecível. Ou mais justamente, porque havia ciência sobre o perecível (a geração e corrupção, o movimento em geral), uma ciência que se instalasse no perecível. Não é por acaso que só os cristãos criaram ciência experimental. O espaço do perecível é espaço que faz parte da economia da salvação. Cristo fez parte desse espaço. O argumento pode parecer algo exagerado. Seja. Mas a criação científica depende de obstáculos psicológicos que levam séculos a perceber. A dificuldade de aceitar o zero, e os números imaginários ou alternativas ao postulado das paralelas mostram como a ciência é feita por cientistas, ou seja, seres humanos integrados numa cultura.

Se o grego não criou ciência experimental, embora tenha feito experimentos, se o muçulmano não criou essa ciência, se foram padres franciscanos de Paris, ou um Bacon a lançar esse movimento, também não é por acaso. A ordem mais carnal de todas, em que o santo fundador teve comunhão carnal com Cristo pelos estigmas, era a mais habilitada a começar esse impulso. Mas em geral o cristão vê mais facilmente o mundo carnal como signo da eternidade, porque Cristo comungou plenamente desse mundo. E poude fazê-lo reconhecendo aquilo que Leibniz chamava da certeza moral da ciência. Ou seja, sabendo que a ciência não daria nunca certezas necessárias. Foi preciso o movimento de descristianização para que surgissem determinismos, e são hoje em dia os filhos dessas descristianização que lutam em edipiano extremo contra esse determinismo. Mas uns e outros apenas se afligem com ou contra a certeza porque uns e outros sofrem de um mal que o cientista cristão nunca conheceu: o de procurar que a ciência nos dê certezas existenciais. Hoje em dia, em que por várias vias se tenta usar a ciência para legitimar religiões, e nisso o budismo e a Islão são peritos, a maioria das pessoas esquece um facto muito simples: a grande ciência – foi criação da Europa cristã. Não há realmente coincidência.

O paradigma da inércia resulta do fim do “falsus circulus”, que tanto atacava Santo Agostinho. É um Hapax. Há um antes e um depois da Incarnação. Os nossos computadores quando indicam a data em todo o mundo indicam esse facto, por mais convencional que seja esse número. Um grego, e por maior de razão um muçulmano, que foi sempre menos criativo que os helenos, não seria capaz de conceber o movimento rectilíneo como o “natural”. Se o princípio da inércia surge na Europa sobre a forma rectilínea (geometricamente a coisa tem posteriormente outros desenvolvimentos, que não interessa aqui desenvolver) é por causa do cristianismo. Lembro que o cristianismo não é uma teoria da História, e por isso ainda menos uma teoria do progresso. A ideia de progresso é uma caricatura do Hapax cristão. Mas a verdade é que a capacidade de afirmar que existe um antes e um depois substantivamente diferentes, que existe um novelo que se pode desfiar (desenvolver, literalmente) é cristã.

(mais)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

II. Islão e cristianismo

Segunda diferença inelutável, a complexidade. O profeta insistiu sobre o facto de Deus não ter associados. Essa insistência só se compreende perante a doutrina cristã. É evidente que nisto o Islão não inovou. Toda a espécie de heresias do arianismo extremo à sua versão moderada da “homoiousia” já o tinham dito. A verdade é que desde muito cedo (um mistério não só da economia da salvação mas também histórico) tanto a santíssima trindade como a dupla natureza de Cristo foram enunciadas de modo mais ou menos expresso pelo cristianismo.

A santíssima trindade e a dupla natureza de Cristo levantam problemas de toda a espécie: lógicos, matemáticos, metafísicos, retóricos. Falar num Deus único sem associados é no fim de contas reduzir à sua forma mais simples o problema da existência. O problema do Uno foi desenvolvido até à exaustão sobretudo pelo neoplatonismo, de que o cristianismo é herdeiro. Mas o cristão tem outros problemas com que lidar. A complexidade do dois e do três na divindade permitiu uma elaboração não apenas filosófica, mas igualmente teológica, matemática e lógica infinitamente complexas. Ao longo de toda a história do pensamento cristão se vê uma importância do ternário que não se encontra no Islão. Hegel é o exemplo popularmente mais conhecido, mas São Boaventura seria outro bom exemplo (no Oriente Gregório Palamas, mas esse fica para outras núpcias).

O cristão defronta-se com um problema: a identidade do Um, do Dois e do Três. Não é por acaso que a matemática europeia é infinitamente mais complexa e rica que a islâmica desde há cerca de mil anos. É que o problema do uno não é a sua enunciação, mas a sua relação com o múltiplo. Enunciar o uno sem mais é exercício de rotina depois de Platão.

Embora o desconforto dos números imaginários e complexos tenha sido sentido por força do paradigma clássico dos números naturais e pitagóricos, embora matemáticos árabes e persas se tenham defrontado com passagens de cálculo com números que hoje em dia chamamos de complexos, não é por acaso que são europeus que transcendem estes problemas, que acolhem estes números. Não é por acaso que é o católico Cauchy que desenvolve a teoria das funções complexas, que é um cristão Cantor que desenvolve a teoria dos transfinitos. O seu espaço mental foi elaborado durante séculos para os preparar para uma complexidade, também numérica, que um Deus sem associados nunca obrigou a pensar.

(mais)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

I. Islão e cristianismo

Há muitas e imensas diferenças entre o islão e o cristianismo. As mais visíveis são importantes, relevam dados históricos e civilizacionais profundos de diferenciação. É certo que a invasão paulatina de sub-proletariado na Europa torna muito de moda um discurso paliativo, mole, desdentado. São diferenças de valores, de culturas, substantivos e muito importantes. A capacidade de gerar democracia, a situação da mulher, a criação científica, artística são apenas alguns destes motes. Todos eles importantes, saliento. Todos eles diferenças irrevogáveis eventualmente.

Algumas não serão irrevogáveis, mas são tendências fortes. Por exemplo, a arte representativa, rara salvo no Islão turcófono ou em certa arte médio-oriental paleo-islâmica, e mesmo nele menos desenvolvida, tem paralelo na iconoclastia cristã, embora de modo mais fraco (dizem que os palácios bizantinos durante a iconoclastia estavam pintados de luxuriantes cenas de caça).

Mas não é essa a perspectiva que agora me preocupa. O que me interessa neste momento é ver o que é inequivocamente irrevogável no que respeita à diferença entre estas duas civilizações, estas duas religiões. Sintetizam-se em quatro aspectos: antiguidade, complexidade incarnação e relação com o texto sagrado.

Antiguidade em primeiro lugar. O cristianismo é mais antigo que o Islão. Nada poderá mudar isso. Os europeus que em classe média se fascinam com a antiguidade desse mítico Oriente, de que são mais legítimos herdeiros do que julgam e menos usurpadores do que pensam, costumam olhar para esses países de antiga civilização como se fossem de cultura mais antiga que a deles. O problema é que quando olhamos à volta da Europa encontramos um mundo marcado por uma herança bem mais recente que a europeia. Esse mundo começou seis séculos depois do cristianismo, o mundo do Islão. O Egipto que hoje é conhecido é-o por obra de europeus. Foi Heródoto e sobretudo Champollion quem nos deram esse mundo. Para o “felah” que atravessava os campos apenas se postavam pedras à sua volta. O xeque árabe elogia o arqueólogo alemão que no século XIX descobre sob a areia a civilização da mesopotâmia dizendo: durante gerações os nossos homens passaram por aqui e só viram areia e eis que chega o europeu e diz: é aqui. E desenterra um passado de que nunca suspeitáramos.

Quando surge o Islão o mundo cristão já é antigo e rico. Tivera acabado o cristianismo em 625 já haveria trabalho a dar a muitos historiadores durante séculos. Tertuliano e Santo Agostinho, Orígenes, o Pseudo-Dionísio o Areopagita Gregório Magno Leão Magno, Boécio, Ausónio, Cassiodoro já tinham existido. As belezas de Ravena, Roma e Constantinopla já estavam construídas. O Código de Justiniano já estava há muito publicado. Duas grandes culturas eram cristas, no ocidente e no oriente, a Arménia, a Geórgia já eram cristãs. Em três continentes o cristianismo já existia e já produzia grandes obras de arte, literárias, filosóficas, uma administração, formas de governo.

O Islão é herdeiro do cristianismo e não o contrário. Isso deve-se não apenas a uma relação da antiguidade, mas cede perante ela. Issa (Jesus) a Virgem Maria são personagens do corão, Maomé não o é do evangelho.

Quando se discutem por isso dívidas, se as houver, temos de começar pelas dívidas que tem o Islão em relação ao cristianismo e não o contrário. A noção de “Umma”, da comunidade dos fiéis, escora-se na de Ecclesia, fortemente elaborada pelo cristianismo. Niceia-Constantinopla já estava elaborada plenamente quando surgiu o islão. Tanto sob o ponto de vista religioso, como institucional e civilizacional o cristianismo já era cultura bem antiga quando surgiu o Islão. Foi às suas estruturas (e em parte às persas) que o islão foi buscar os seus conceitos teóricos, as suas formas de governo, as suas escoras civilizacionais.

Nada poderá mudar isso. O muçulmano, quando olha o cristão, apenas pode ver quem o ensinou a fazer do Islão a possibilidade de uma cultura.

(mais)

domingo, 26 de outubro de 2008

O nosso problema

O debate entre a Sofia e o Manuel deixa-nos num impasse. Como poderão ambos ter razão se entre eles parece estabelecer-se uma oposição ainda que metodológica? A Sofia expôs uma tese: a de que o governo actual manipula e condiciona a televisão pública. O Manuel relativiza a tese afirmando com exemplos e interrogações afirmativas que se trata de disputa política e que a denúncia sempre surge de quem está na oposição. A Sofia tem razão. O Manuel também. É aí que surge o nosso problema. Agirmos dentro do quadro e das regras políticas actuais é corrermos o risco de, mesmo sendo justos a criticar, sermos unilaterais ou, não criticando porque não queremos ser unilaterais tornarmo-nos coniventes e acomodados ao status quo. Porém, hoje só há status quo. Então, o que é que nos resta?

O nosso problema é este: a mentalidade do nosso tempo não corresponde já ao modelo político que se pratica. Vivemos num estilo político do passado, com as suas jogadas e truques, esquemas e montagens, mas verdadeiramente já ninguém, que pense com autenticidade, está nesse registo. A classe política e a cidadania começam a ser de órbitas diferentes e desfasadas. E a ética começa a superar a simples legalidade.

A ética, que se opõe à moral no sentido em que a consciência dos indivíduos não pode esconder-se indefinida e indistintamente em regras estáticas ou sem progresso mental, é a expressão da superioridade do género humano e a garantia do seu aperfeiçoamento. A ética, ou educação, supera o que está, em nome do que há-de vir e afirma-se com coragem e determinação sobre a massa informe e retrógrada das morais inertes, imóveis e anquilosadas.

O que fazem os políticos?, agarram-se à lei ou à moral e reduzem-na à sua expressão mais literal para justificarem os seus actos e, com isso, condicionam a vida dos indivíduos e garantem a sua perpetuação no poder. O que fazem as pessoas livres?, denunciam os políticos e os seus esquemas e insurgem-se contra a evidente ausência de ética nas diversas práticas seja no governo seja na oposição.

A armadilha dos políticos é a autolegitimação que se funda através de uma aparente e pretensa pluralidade social representada por partidos políticos. O que estamos sempre a criticar, ora de um lado, ora do outro, é aquilo que nos tiraniza e é só uma coisa: a classe política. A classe política é uma organização de pessoas e grupos com interesses cruzados e que se baseia numa espécie de alternâncias e alianças que garantem a sua perpetuação.

Os que pensam livremente têm dificuldade em entrar e pulverizar esta selva complexa. Os meios de que dispõem são poucos e frágeis frente aos meios de que a classe política dispõe e valida. Mas é da consciência das pessoas que pensam livremente que sempre surge a necessidade de introduzir novos valores, ou novas formas de compreender os valores, porque se apercebem do paradoxo que é a situação das sociedades em que uma classe política autista comanda uma sociedade que já não se revê nela.

A Sofia e o Manuel, à sua maneira, representam essa superação ética da moral politiqueira. Seja na indignação pelas suas manipulações, seja pela verificação de que uns e outros são o mesmo e não vale a pena estar de um dos lados se os dois lados são iguais ou parecidos, ou, pelo menos aceitam as regras de um mesmo jogo. Verificamos, assim, estarmos perante um mundo exaurido, cansado e infecundo que aguarda um novo alento que os indivíduos mais capazes possam trazer à consciência geral a partir das suas consciências individuais, quer dizer, da ética, ou educação. O resto cairá por si mesmo.

Porém, para que caia de podre, é preciso que as vozes se façam ouvir e um novo paradigma seja proposto. Não podemos ficar só na interminável denúncia e na interminável análise dos problemas. Para superar é preciso fazer. As sociedades contemporâneas ocidentais criaram pelo pensamento, pela arte, pela religião e pela ciência um modelo de convívio que se baseia na liberdade dos indivíduos. É essa a fonte da sua prosperidade (mesmo em tempos de crises financeiras). Uma teoria da inveja, minou nos últimos dois séculos as raízes desse modelo de prosperidade civilizacional que não prosperidade simplesmente económica. A cruzada da igualdade económica precaveu-se na fundamentação errónea e funesta da igualdade dos indivíduos. Essa inversão fez da igualdade dos indivíduos a antecâmara de uma pretensa nova ordem de prosperidade económica que não de liberdade.

Porém, a prosperidade civilizacional é também política, filosófica e artística. Diz respeito ao saber e à evolução espiritual dos homens. A teoria da inveja, que tem como característica principal reduzir os homens (as massas) a um igualitarismo informe e dócil ás mãos de uma qualquer tirania que se lhe queira impor, tem sido responsável pelas maiores guerras que eclodiram no mundo ocidental quando já nada o faria supor. Foram guerras sobretudo contra o individualismo perpetradas por ignóbeis instintos totalitários de matriz socialista. Perdidas as guerras, os mesmos autores perceberam que a forma de prolongar essas guerras era tomando conta da cultura e das universidades, o totalitarismo político foi então substituído pelo totalitarismo do pensamento único, ou politicamente correcto, como agora se diz. Depois do totalitarismo do internacionalismo comunista, veio o totalitarismo nacional-socialista e por fim o totalitarismo do pensamento único que nos chegou por via da cultura e da universidade.

Mesmo assim, a ideia de liberdade foi perdurando como valor essencial do mundo ocidental: é o seu motor. E, por isso, foi também sobrevivendo às atrocidades que o socialismo nas suas diversas formas e transmutações foi assumindo. Actualmente, o pensamento único é de certa forma a causa do nosso problema. O pensamento único torna-se numa moral, é ensinado em todas as escolas e em toda as universidades e vai formatando sucessivas gerações até reduzir a humanidade à unanimidade e em que qualquer oposição exige a igualdade dos opostos!...

Ora é este cenário de pensamento único que torna a política tão opressivamente monótona e desencorajante. Monótona, porque não há verdadeiramente alternativas vindas de dentro; desencorajante, porque a dimensão planetária do pensamento único vai pulverizando e relativizando toda e qualquer manifestação, organização ou simples tomada de posição. O nosso problema é esse mesmo: intervindo, não temos capacidade, por agora, de mudar nada. Instala-se, por isso, a descrença, parece não valer a pena lutar e os que permanecem na luta serão, mais tarde ou mais cedo, condicionados e integrados no sistema.

Mas, como acontece a tudo o que se torna insuportável, um momento virá em que a ruptura se há-de dar. Quem a fará, quando a fará e como a fará não sabemos dizer. Será de onde menos se espera, porque a história não se faz de previsões mas de choques. O desinteresse dos jovens pela política pode ser um bom sinal. Quando forem chamados a intervir, quando for a sua vez, talvez tragam uma nova visão e uma nova prática. Aos que, por enquanto, não têm nem meios nem disponibilidade para arriscar tudo, que produzam ao menos a literatura que outros irão por em acto. Não terá sido sempre assim?

(mais)

O refeitório

De manhã, quando mulheres e homens entravam no refeitório, eles já lá estavam.
O refeitório era um rectângulo baixo, alimentado por uma luz crua, que chamava as moscas.
Das janelas do refeitório, viradas a sul, via-se a rede e o arame farpado, os grandes portões por onde circulavam os camiões e os mastros das bandeiras:do país, da comunidade, do grupo.
De manhã, enquanto se fazia uma fila única para o café, ou pequeno-almoço, de administrativos, quadros, comerciais, muitos já sentavam nas mesas do fundo.
Vestidos de calças e blusão acolchoados e impermeabilizados verdes, grossos muito grossos, de forma a permitir trabalhar nas câmaras frigoríficas suportando as temperaturas negativas, almoçavam às 9.00 da manhã.
Às 9.00, comiam, bebiam cerveja, riam, soltavam impropérios, risadas soltas olhando de frente as mulheres que, ao contrário deles, sabiam de computadores. Falavam em mau português, conversas regadas de palavrões e de frases feitas ouvidas na tv e do futebol visto no café da aldeia, aceleradas em cantilena ribatejana, enquanto se batiam as cartas em jogos violentos de pobres.
Misturados na fila única, eram observados de soslaio. Precocemente envelhecidos todos. As mulheres de 20, pareciam ter 40. A pele grossa e baça. Buracos onde antes haviam estado dentes. Olhos raiados de sangue, da insónia e do alcool. Mãos desfeitas de empacotar, embalar, preparar.
Eram os preparadores, a base, daquela imensa cadeia humana e comercial.
Ali já havia famílias inteiras, pais que levavam filhos. Aqueles mais submissos do que estes. Os filhos regateavam as horas extraordinárias, as únicas capazes de consertar o ordenado mínimo nacional que todos recebiam, diziam que em Paços de Ferreira é que era, que lá o sindicato não deixava barato tanto abuso.
Por vezes um deles desaparecia. Nesses dias, a notícia corria célere, procurava as máquinas de café, os sítios onde se fumava e abatia-se à boca pequena no refeitório. Calavam-se os impropérios, negavam-se as cartas e os únicos olhares percebidos eram de ódio. Um deles, um preparardor, tinha sido despedido.
Nesses dias de peçonha ouviam-se as moscas a fritar num delírio de azul.
Eram os únicos dias em que um ou outro chefe por lá aparecia. Era gente de acrescida responsabilidade. Os destinos do grupo repousavam sobre os seus ombros, a vida e o trabalho de milhares de trabalhadores dependiam da sua capacidade. Entravam como reis, majestáticos e firmes, possantes, derramando a autoridade que um ordenado de 50.000 euros mês permite, e que anualmente, com prémios e louvores chega, por cabeça, ao milhão de euros.
Nesse dia, chegava solícito o advogado, que cumpriria os trâmites legais de despedir o trabalhador. Numa sala dos fundos chamariam o larápio e juntos, explicar-lhe-íam da gravidade e ilegalidade daquilo tudo. Que não se furta, que a sanção para o furto é o despedimento, com efeitos imediatissimos. Assim obriga a moderna gestão de recursos humanos.
Nos blusões grandes daqueles homens aninhavam-se por vezes, um cacho de bananas, ou noutro caso quatro yougurtes fora de prazo, ou ainda um pacote de dodots.

Diz o povo que tantas vezes vai um cântaro à fonte que ás vezes parte-se a asa. Ou dispara-se um revólver pela calada da noite, digo eu.

(mais)

sábado, 25 de outubro de 2008

O meu diário com Sofia

Lancei uma provocação à Sofia Galvão e o resultado foi catastrófico. Para mim, claro. Saio ferido e triturado, com sessões de fisioterapia já marcadas no precário e duvidoso serviço nacional de saúde.
Para ser prático comento por pontos o essencial desta veemente, e tão bem argumentada, declaração da Sofia, Não sem um preâmbulo cavalheiresco: se, para que a Sofia pudesse falar livremente, eu tivesse que me calar, fâ-lo-ia. Seria, aliás, uma “win-win situation”: todos ficaríamos a ganhar. A sua voz, Sofia, para além de ser musical, é de participação e idealismo, a minha é a de um aflautado auto-denegrimento, que desemboca na nulidade.
Vamos, então, aos pontos:
1. Regista a Sofia, com agrado, que eu mudei de opinião em 24 horas. De dia dizia que “os elefantes corriam livres na pradaria”, à noite já eu anunciava “que o país está péssimo e as liberdades estremecem, arrepiadas”. Reconheço agora que a mediocridade de estilo não autoriza que se perceba a ironia de ambas as declarações. A partir de agora é pão, pão, queijo, queijo, por que quem não tem competência não se estabelece. Quando eu disser que o pecado cobre o mundo como um manto de opróbio e que sucumbiremos a ferro e enxofre, quero que me levem a sério.
2. Diz a Sofia que já toda a gente percebeu os nossos respectivos argumentos. Reitero só um ponto técnico inultrapassável: não se pode (ou não se deve) construir uma argumentação com premissas erradas. Insisto, para ver se levo a bicicleta: é o caso dos dois casos de que ab ovo surgiu a nossa “metodológica” discórdia.
3. A Sofia defende com exuberância a individualidade dos seus pontos de vista. Mas a verdade é que falamos sempre de algum lugar e “somos” também esse lugar. O meu lugar, por exemplo, é o de um cidadão desconfiado dos aparelhos partidários e descrente, por traumatismos vários, dos méritos da intervenção política. Absurdo e demissionista, mas é o meu lugar. O seu lugar, Sofia, é bem mais construtivo, participante e cívico. Acho legítimo, nada ofensivo e muito menos ainda condicionante que, atendendo ao tema, eu me dirija à integralidade da sua “fala”. Quem sou eu para fraccionar o “eu” público e soberano da minha opositora? O que a Sofia viu como uma tentativa de silenciamento é apenas o reflexo das altas expectativas que tenho no seu discurso, esperando que nunca se reduza à rotina dos “jogos de linguagem” políticos o que, porventura erradamente, me pareceu ser a tentação.
4. Estamos juntos, indestrutivelmente juntos, na defesa da liberdade lúdica (L-L) do “Geração de 60”. Por uma “Geração de 60, L-L” estou capaz de oferecer o peito às balas. E com isto encerro o “meu diário” com Sofia.

Permito-me, agora, alargar o debate. Como todas as discussões, também esta começou por um não-dito. Confesso o meu. Tive de ouvir de muitos amigos de esquerda, durante anos, a cada medida legislativa, a cada privatização de um jornal, a cada licença para rádios e televisão, que o fascismo, como um lobo, estava de volta. Esses gritos de aviso eram manifestamente exagerados e intelectualmente demagógicos.
Agora, os brados de pavor à direita soam-me, mutatis mutandis, a um pouco imaginativo déjà vu. A Imprensa portuguesa está hoje nas mãos de privados. Os diários mais lidos, o semanário e revista mais lidos, a televisão mais vista são privados. A rádio mais ouvida é da Igreja Católica.
Há a RTP e a rádio estatal? Há. Depois de anos de intrumentalização, chegou-se a um modelo construído pela mão direita e pela mão esquerda do Bloco Central. E desde aí quase nada mudou. Quando o PS é oposição queixa-se com amargura do torniquete com que o PSD estrangula a liberdade da RTP, e o PSD quando arredado do poder oferece o mesmo espectáculo: a mesma amargura, os mesmo olhos em alvo. Nomes como os de Marques Mendes e de Arons de Carvalho, para dar só dois exemplos, foram arrastados pela lama, acusados de fazerem alinhamentos de telejornais. A conversa é a mesma e eu declaro que estou farto.
Prefiria que atacassem outros temas. Por exemplo, mandem às urtigas a degradada economia portuguesa e a atitude de um patronato a que, hoje, no “Expresso”, Miguel Sousa Tavares chamou, e cito, ‘chicos espertos’, especialistas em fugir ao Fisco e malbarartar ajudas Europeias. Mostrem-me lá, agora que o Greenspan, depois dos lobos terem papado as ovelhinhas todas, clama em alvoroço que o livre mercado não pode regular-se a si próprio sem a supervisão da Administração (Alan dixit), mostrem-me como é que se constrói o capitalismo rico e farfalhudo, com explosões de produtividade e consumo, que inunda os meus sonhos mais freudianos. Digam-me o que vão ou se deve fazer, não me digam só o que está mal.
Mas há ainda, se quiserem, e para voltar às liberdades informativas em Portugal, um ponto para meditação. Porque é que, não sendo a RTP a estação líder de audiências, a sua informação é hoje a mais vista e consumida pelos portugueses?

(mais)

Resposta a Sofia

A democracia acorrentada?
Sacha Dean Byian
Sofia, discordamos mesmo, no que não há mal nenhum e talvez possa haver algum bem. Li aqui e reli mais abaixo - com gosto, aliás - e confesso que não me anima muito rebater as ilações a que a Sofia chega. Ilações que noutro contexto poderia mesmo aplaudir. O que me custa, por uma simples questão de rigor, é que chegue a essas ilações (no essencial, que o PS controla a a RTP e que, de forma premeditada, está a calar conteúdos incómodos) usando como bandeira dois casos cujos contornos materiais estão nos antípodas do que lhes é atribuído.
Poderia vir aqui espantar-me com o facto de PS ou PSD – os dois partidos que legislaram, controlaram, nomearam, e fizeram trinta por uma linha – conseguirem acusar com seriedade senatorial a outra parte como culpada, única culpada e merecedora do fogo do inferno, pelas variadas trapalhadas em que o país está emitido e das quais a RTP não é, certamente, a maior.
Mas não, só me interessa uma coisa pequenina e prosaica – é que o ponto de partida está, na minha pessoalíssima opinião, errado. Se tudo o que a Sofia tem para sustentar a sua tese é a saída dos Gato e a alteração de programação do Contra, então o seu casus belli não tem razão de ser. Atrevo-me a dizer: não há nesses dois “incidentes” nenhuma acção política concertada; não há nesses “acidentes” nenhuma directiva em que a administração da RTP ou o seu actual director tenham feito o triste papel de factótuns. Declaração de interesses: conheço os directores de programas das estações de televisão e sei que, se têm um problema, o problemas deles é conquistar públicos e gerir orçamentos. Posso admirá-los obscenamente ou invejá-los com ressentimento, mas não lhes discuto o profissionalismo.
Não me vou repetir, ou melhor vou: os Gato foram para a SIC com o director de programas que, tendo-os contratado para a RTP, transitou da estação pública para a privada. Julgo mesmo terem feito uma declaração nesse sentido, manifestando empatia (e até gratidão) por quem os tratou bem e lhes proporcionou condições dignas. Mérito desse director.
Para o caso do Contra, a Sofia dá a melhor das explicações, ao mencionar o Daily Show do Jon Stewart. É um sucesso? Sim, no cabo e num canal orientado para um nicho de mercado. Nenhuma estação americana “major” exibe o estimável e irreverente Stewart. Por razões de mercado. No actual quadro em que a RTP opera (do qual o PSD e o PS são responsáveis) e com os objectivos que lhe são definidos, essa é uma das razões (gerar receita para amortizar a dívida, o que julgo vir do ministro Morais Sarmento). A outra é a renovação de conteúdos, reciclando os modelos esgotados, sobretudo quando não chegam longe, nem calam fundo, para usar a contrario expressões da Sofia.
Tire, Sofia, estes casos concretos de cima da mesa e eu nem discuto. Mais, desde que não tenha de ser “engagé”, ofereço-me para estar de acordo: o país está péssimo e as liberdades estremecem, arrepiadas.
Talvez até já nem vivamos em democracia. Só pedia era às tecnocracias partidárias que não nos usurpem a alegria de sermos nós, os que nem o direito de voto nos arrogamos, os primeiros a dizer isto. Caso contrário, ficamos com uma sensação de feira: a do PSD e PS terem o poder de tomar as medidas que nos arruínam e ainda a de terem o privilégio de serem os primeiros a queixar-se delas. Está bem, atirem os foguetes. Mas deixem ao menos sermos nós a apanhar as canas.

Seja como for, e mérito da Sofia, o tema, saboroso e sumarento, gerou enorme adesão. O Joshua, por exemplo, regressou ao nosso convívio. Admirador de ontem, detractor de hoje, está revoltado comigo. Mágoa que exprimiu com alguns sobressaltos gramaticais. Aconselhando-o a reler (para não tresler) os motivos da nossa discórdia, agradeço-lhe os mimos e calo-me já para não lhe coarctar a indignação.

(mais)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

A chegada do Magalhães

Investigadores portugueses da Universidade Independente descobriram recentemente que o primeiro lugar do continente americano visitado por Magalhães, o famoso navegador português que realizou a primeira vagem de circunavegação do globo terrestre, não foi, como até aqui se pensava, o Rio de Janeiro, mas a Venezuela. O Geração de 60 teve acesso a uma gravura da época, que aqui se reproduz.

(mais)

Blue Memories


Em 1982, no Parque Palmela no Estoril, assisti ao meu primeiro concerto de jazz. Não recordo o “line-up” (tinha 13 ou 14 anos e penso que ouvia menos jazz e mais Ramones) mas recordo bem a excitação do momento, a música de uma linha decididamente não linear e o facto de os músicos serem todos negros. O ambiente em 82 era seguramente diferente daquele de forte contestação que caracterizara o Cascais Jazz nos anos 70. Pelas densas nuvens de fumo que recordo no ar, o publico parecia mais interessado na qualidade da marijuana e menos em levantar o punho para protestar contra as garras da opressão (e’ famoso o episodio em que o baixista Charlie Haden teria sido preso pela PIDE-DGS depois de dedicar um dos seus temas ao movimento de independência de Angola durante a edição de 1971 do dito festival).

Uns anos mais tarde, em 87, recordo um notável concerto de Jan Garbarek com Nana de Vasconcelos e Eberhard Weber no auditório ao ar livre da Gulbenkian, num muito quente mês de Agosto. Recordo os frios ecos nórdicos do sax alto de Garbarek fundirem-se nos ritmos mirabolantes de Nana de Vasconcelos, tudo temperado pelo grave e celestial violoncelo de Weber (um grande elfo, vestido e iluminado de branco). Um pormenor: Ao longo do concerto, Nana de Vasconcelos foi combinando com intenção e humor o som dos seus vários instrumentos de percussão com o ruído do passar dos aviões sobre a Praça de Espanha (saudando estes últimos possivelmente em rota para o Brasil).

Em 91 fui ver, ouvir e prestar vassalagem ao grande Miles Davis no velho Coliseu dos Recreios poucos meses antes de este ultimo grande maestro se retirar definitivamente para “Birdheaven” (e um dos últimos concertos que vi em Portugal). Recordo a surdina penetrante e expressiva de Miles acompanhado por uma jovem secção rítmica absolutamente estonteante. Recordo o recorte luminoso do seu vulto, vestindo um colete lilás “glam” a tocar curvado e de costas para o público. Recordo também que não proferiu mais de duas ou três palavras durante as duas horas de concerto, apresentando os músicos levantando ele mesmo cartazes com os seus nomes escritos. Recordo que saiu sem agradecer.

Tudo isto para poder assinalar que em Marco do próximo ano, “Kind of Blue” comemora meio século de idade. Gravado numa igreja desconsagrada de Nova Iorque por um Miles em plena fase de metamorfose, e na companhia de uma extraordinária banda composta por músicos como Coltrane, Cannonball Adderley, Bill Evans (o único branco da banda que Miles ironicamente apelidava de Rosto Pálido), Paul Chamber, Billy Cobb e Wynton Kelly, “Kind of Blue” e’ hoje, para além do mais vendido disco de Jazz (10 milhões de copias), talvez o mais importante e determinante jamais feito. Abandonando a ja’ por si radical característica modal do Jazz clássico, em “Kind of Blue”, Miles e Coltrane abrem definitivamente as portas para a livre improvisação e para o despoletar daquilo que viria a ser uma nova ordem musical, infinitamente rica, livre e primitiva. Para celebrar o aniversario, a Columbia Legacy publica um cofre com um cd duplo, um dvd, um poster e um livro de 60 páginas com um texto sobre a história do disco e da sua gravação. Recomenda-se seguramente.

PS: Este fim-de-semana estou em Nova Iorque e tentarei passar no “Smalls”, tão famoso como minúsculo antro de Jazz onde músicos anónimos (ou não) se encontram e improvisam na tradição dos grandes mitos de “Kind of Blue”.

(mais)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Um país sem elefantes




Certeiro o post da Sofia. E o que acontece a um país em que os elefantes não se podem reproduzir livremente? Vão até aqui e descubram

(mais)

Se um elefante incomoda muita gente…


Sempre entendi a política como coisa séria. Para ser levada a sério. E tratada com seriedade.

Mas foi vingando a ideia de que o sério é chato. E, na busca de uma política apelativa, a modernidade mediática trouxe soluções: o debate vestiu a cor do circo e a crítica acantonou-se no humor.

É claro que não vinha mal ao mundo da existência de tais produtos – aliás, em voga aquém e além-fronteiras.. O problema sempre foi – como sempre seria – o exclusivo. Houvesse outros meios de aceder à discussão, de aprofundar argumentos e de desenvolver o contraditório e nada de mais grave ocorreria.

Sucedeu, no entanto, que a graça feita para ser ligeira e inconsequente acabou por, à falta de registo sério, passar a ser o seu contrário. A inconsequência tornou-se profundamente consequente e promoveu uma efectiva corrosão no espaço público.

O efeito foi exponencial. Tipicamente, não seria possível resistir: não há regras, não há armas, não há defesa. Um boneco menos simpático, uma graçola mais pesada e o destino fica escrito.

Para o poder, o jogo é tentador. Mas arriscado. Num primeiro momento, pode ser muito eficaz. No que diz, no que não diz, no que distrai. Porém, com o tempo, é muito provavelmente devastador.

O fim de carreira do “Gato Fedorento” na RTP foi sinal eloquente dessa percepção. Aliás, como tal não escapando aos mais desatentos. Por isso, muito mais subtil e certeiro, foi o discreto desaparecimento do “Contra-Informação”. De um dia para o outro, sem aviso, sem alarde. Vítimas do seu sucesso: qual bobos da corte que exorbitaram. Agastando o poder, tornaram-se incómodos - logo, dispensáveis.

Poder avisado, este que temos. E perigoso, cada vez mais perigoso.

(mais)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Islândia

Rui Ramos, um colunista que sem dúvida vale a pena ler - e comentar - de vez em quando, tem hoje no "Público" um artigo sobre o que aconteceu recentemente na Islândia com um argumento interessante e curioso. Não posso fazer um link porque o texto não é acessível a não assinantes (fica aqui o apelo para acabar com essa limitação de acesso que não deve ser vantajosa para ninguém, nem sequer para as contas do jornal em causa). Ainda não li nada com atenção que explicasse bem o que se passou na Islândia mas, pelo pouco que percebi, parece que, fundamentalmente, atraíram capital a mais que agora saiu. Esse capital foi absorvido pelos islandeses por dívidas cujos juros não conseguem agora pagar na totalidade. Para Ramos tratou-se de uma participação intensa nos fluxos económicos e financeiros internacionais. Uma conclusão sem dúvida correcta. Só que ele conclui ainda o seguinte: o episódio acabou mal mas o que interessa é que tenha acontecido. Ou seja, o que interessa é o "modelo" seguido, independentemente dos resultados. Um argumento curioso, mas seguramente interessante.

(mais)

Outra história triste


Aos pés da cama

Ela pediu-lhe para pôr um disco. KD Lang.
Ele também queria música. Qualquer coisa para abafar os gritos dados por um coração que nada sentia sem amor.
- “É o máximo não achas?”
- “Acho”, respondeu sem sentir.
Foi uma noite bêbada em que o álcool mandou às urtigas a repugnância que lhe dava o seu riso ordinário.
Mais tarde, sóbrio, a repugnância abraçou-se à vergonha.
Hoje o disco lembra-lhe uma promessa que fez e não cumpriu. Uma promessa de amor.
Naquela noite, a solidão passou-lhe à frente. Beijou-a e, triste, descalçou o amor aos pés da cama.

(mais)

Uma história triste




Sou um vagabundo sem cão.
À noite não tenho o pêlo quente de um qualquer rafeiro doente
(para me aquecer).
Bato o dente e tenho medo de toda esta gente que passa ao pé de mim.
Tremo as pernas tremendas de varizes de rondas infinitas pela cidade onde morro.
Estou em vias de extinção – e o não ter cão só me alarga a solidão que me faz minguar a alma.
Não acordo amanhã.

(mais)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A Apatia Sexual dos Factos

Jorg Immendorf, Solo

Tinha de escrever a crónica habitual para o Pnet Homem e não tinha tema. O tempo, implacável, escasseava.
Consolei-me com o facto de não ser o primeiro a quem isso acontece. Há quem me diga, e eu também já tenho dito, que a melhor fonte de inspiração é a realidade. Acredito e até dou exemplos:
Thomas Mann só escreveu “Morte em Veneza” porque o compositor Gustav Mahler lhe serviu de modelo para o ascético herói do seu romance. A mulher de Mann não desmente, mas sempre acrescenta que a impressão causada por um rapazinho de 13 anos – “era tremendamente atractivo e o meu marido não deixava de olhar para ele”, comentou – poderá ter sido outra realíssima razão.
Já leram, está claro, o “Last Tycoon”, de Scott Fitzgerald. Não julguem que o personagem saiu armado da cabeça demiúrgica do romancista. Em boa verdade, Monroe Stahr é a literária cara chapada de Irving Thalberg, o mais poderoso dos produtores de Hollywood dos anos 20 e 30, casado com a actriz Norma Shearer. Aliás, bem casado, quanto mais não seja porque a morte de Thalberg, por pneumonia, aos 37 anos, evitou as canónicas trapalhadas domésticas que o meio cinéfilo, volátil e tão rotativo, em geral proporciona.
Por vezes, a realidade é até mais imaginativa do que o seu espelho ficcional. O Capitão Ahab, do genial “Moby Dick” de Melville, foi decalcado dos infortúnios e tormentos de um marinheiro de carne e osso, Owen Chase de sua graça. O barco de Owen foi afundado por uma baleia. O marinheiro andou à deriva 91 dias num bote e sobreviveu alimentando-se (ahrrggg!) do cadáver de um companheiro.
E já que estou com um pé na água, recordo que Robinson Crusoe é a reprodução ficcional de uma outro marinheiro despejado numa ilha deserta do Pacífico, depois de contestar as condições do seu navio. Alexander Selkirk, o marujo recalcitrante, passou quatro anos e quatro meses solitários na ilha. Contou as suas agruras comportamentais, e consequentes delícias espirituais, a Daniel Defoe e o resultado foi uma das mais exaltantes e lendárias aventuras que nos foi dado ler. Sobretudo se tivermos em conta que, em boa verdade, não há mulheres na história e que a apatia sexual do herói não se recomenda a ninguém.
Pois, pois. Eu bem olhei para a realidade circundante. Para a cara mumificada da crise bolsista. Para a vulcânica erupção eleitoral dos Açores. Para a enxurrada obsoleta de Sete Rios. A crueza dos citados eventos é inapelável e indesmentível. Mas não me inspira: a apatia sexual destes factos ultrapassa a do eremítico Crusoe.
Não fossem os livros e eu não tinha crónica. Quando a jovem realidade não ajuda, valha-nos a velha literatura.

(mais)