Lancei uma provocação à Sofia Galvão e o resultado foi catastrófico. Para mim, claro. Saio ferido e triturado, com sessões de fisioterapia já marcadas no precário e duvidoso serviço nacional de saúde.
Para ser prático comento por pontos o essencial
desta veemente, e tão bem argumentada, declaração da Sofia, Não sem um preâmbulo cavalheiresco: se, para que a Sofia pudesse falar livremente, eu tivesse que me calar, fâ-lo-ia. Seria, aliás, uma “
win-win situation”: todos ficaríamos a ganhar. A sua voz, Sofia, para além de ser musical, é de participação e idealismo, a minha é a de um aflautado auto-denegrimento, que desemboca na nulidade.
Vamos, então, aos pontos:
1. Regista a Sofia, com agrado, que eu mudei de opinião em 24 horas. De dia dizia que “
os elefantes corriam livres na pradaria”, à noite já eu anunciava “
que o país está péssimo e as liberdades estremecem, arrepiadas”. Reconheço agora que a mediocridade de estilo não autoriza que se perceba a ironia de ambas as declarações. A partir de agora é pão, pão, queijo, queijo, por que quem não tem competência não se estabelece. Quando eu disser que o pecado cobre o mundo como um manto de opróbio e que sucumbiremos a ferro e enxofre, quero que me levem a sério.
2. Diz a Sofia que já toda a gente percebeu os nossos respectivos argumentos. Reitero só um ponto técnico inultrapassável: não se pode (ou não se deve) construir uma argumentação com premissas erradas. Insisto, para ver se levo a bicicleta: é o caso dos dois casos de que
ab ovo surgiu a nossa “metodológica” discórdia.
3. A Sofia defende com exuberância a individualidade dos seus pontos de vista. Mas a verdade é que falamos sempre de algum lugar e “somos” também esse lugar. O meu lugar, por exemplo, é o de um cidadão desconfiado dos aparelhos partidários e descrente, por traumatismos vários, dos méritos da intervenção política. Absurdo e demissionista, mas é o meu lugar. O seu lugar, Sofia, é bem mais construtivo, participante e cívico. Acho legítimo, nada ofensivo e muito menos ainda condicionante que, atendendo ao tema, eu me dirija à integralidade da sua “fala”. Quem sou eu para fraccionar o “eu” público e soberano da minha opositora? O que a Sofia viu como uma tentativa de silenciamento é apenas o reflexo das altas expectativas que tenho no seu discurso, esperando que nunca se reduza à rotina dos “jogos de linguagem” políticos o que, porventura erradamente, me pareceu ser a tentação.
4. Estamos juntos, indestrutivelmente juntos, na defesa da liberdade lúdica (L-L) do “Geração de 60”. Por uma “Geração de 60, L-L” estou capaz de oferecer o peito às balas. E com isto encerro o “meu diário” com Sofia.
Permito-me, agora, alargar o debate. Como todas as discussões, também esta começou por um não-dito. Confesso o meu. Tive de ouvir de muitos amigos de esquerda, durante anos, a cada medida legislativa, a cada privatização de um jornal, a cada licença para rádios e televisão, que o fascismo, como um lobo, estava de volta. Esses gritos de aviso eram manifestamente exagerados e intelectualmente demagógicos.
Agora, os brados de pavor à direita soam-me,
mutatis mutandis, a um pouco imaginativo
déjà vu. A Imprensa portuguesa está hoje nas mãos de privados. Os diários mais lidos, o semanário e revista mais lidos, a televisão mais vista são privados. A rádio mais ouvida é da Igreja Católica.
Há a RTP e a rádio estatal? Há. Depois de anos de intrumentalização, chegou-se a um modelo construído pela mão direita e pela mão esquerda do Bloco Central. E desde aí quase nada mudou. Quando o PS é oposição queixa-se com amargura do torniquete com que o PSD estrangula a liberdade da RTP, e o PSD quando arredado do poder oferece o mesmo espectáculo: a mesma amargura, os mesmo olhos em alvo. Nomes como os de Marques Mendes e de Arons de Carvalho, para dar só dois exemplos, foram arrastados pela lama, acusados de fazerem alinhamentos de telejornais. A conversa é a mesma e eu declaro que estou farto.
Prefiria que atacassem outros temas. Por exemplo, mandem às urtigas a degradada economia portuguesa e a atitude de um patronato a que, hoje, no “
Expresso”, Miguel Sousa Tavares chamou, e cito,
‘chicos espertos’, especialistas em fugir ao Fisco e malbarartar ajudas Europeias. Mostrem-me lá, agora que o Greenspan, depois dos lobos terem papado as ovelhinhas todas, clama em alvoroço que
o livre mercado não pode regular-se a si próprio sem a supervisão da Administração (Alan dixit), mostrem-me como é que se constrói o capitalismo rico e farfalhudo, com explosões de produtividade e consumo, que inunda os meus sonhos mais freudianos. Digam-me o que vão ou se deve fazer, não me digam só o que está mal.
Mas há ainda, se quiserem, e para voltar às liberdades informativas em Portugal, um ponto para meditação. Porque é que, não sendo a RTP a estação líder de audiências, a sua informação é hoje a mais vista e consumida pelos portugueses?