terça-feira, 14 de agosto de 2007

II. San Benedetto e l'Italia del suo tempo, Luigi Salvatorelli, Editori Laterza, Roma 2007

A questão é a de saber que sementes ele deixou, que deixam marca nos séculos, e ainda hoje nos marcam.

Pensemos numa instituição que assumiu a função de museu, universidade, hospital, centro de investigação, zona de experimentação económica. Centro de excelência de gestão, ponto de difusão de cultura, mecenas das artes, letras e investigação científica, zona de segurança física das pessoas, asilo, planeador e executor de grandes obras... O elenco não tem fim. Qual instituição hoje em dia se pode arrogar de ter esta multiplicidade de funções? Pode-se dizer que na altura mais ninguém o fazia. Ideia falsa, mas aceitemo-la para efeito de argumentação. Mas que alguém o tenha feito, e não tenha deixado despida a sociedade de possibilidades de actuação é facto mais que meritório. E poucas organizações se podem gabar de o ter feito com tanta eficiência e eficácia. Na nossa época nenhuma instituição se pode gabar de tanta multiplicidade de facetas e muito menos de tal grau de sucesso, salvo muita injecção tecnológica que dá aparência de maior virtude. As empresas bem podem tentar motivar os seus trabalhadores, mas não oferecem, pelo menos directamente, um projecto de eternidade.

Em segundo lugar reafirma um dado que é uma constante europeia, a da natureza limitada do poder. A começar pelo seu. O poder limitado do abade (125), tradição romana e cristã, é plenamente assumido na sua regra.

Em terceiro lugar cria uma forma de vida regrada, regrada igualmente pelo tempo. A palavra horário é-nos bastante conhecida e em todo o mundo esta é, para o bem e para o mal, herança beneditina. A racionalização da vida, seja a do militar, seja a do trabalhador, é obtida por via beneditina muitos séculos antes de os Estados ou as empresas se lembrarem de tal coisa.

Em quarto lugar fê-lo através de um “individualismo social” (p-.127). O monge faz parte de uma sociedade mas é para a sua salvação pessoal que lá se encontra. Esta é um marca da Europa. Sociedades civilizadas que esmagam o indivíduo, a História conhece-as muitas. Sociedades que o deixam à solta, indiferentes ao seu semelhante, também disso temos bastos exemplos. Mas este equilíbrio entre a integração social e a finalidade individual é marca que atravessa a cultura europeia até aos nossos dias.

Em quinto lugar instituiu a prudência como ideal religioso. Percebendo que os extremos são apenas um solução fácil – e perigosa quanto aplicada ao comum dos homens – e que este extremo rapidamente faz passar da disposição debochada à ascética, instituiu um sistema de equilíbrio, em que cada qual dá o que pode sob o ponto de vista religioso, desde que certos mínimos sejam cumpridos. É evidente que a prudência (a sophrosinè grega, para simplificar) tem um papel religioso bem mais antigo. Mas conseguir instilá-lo num corpo colectivo não é tarefa simples. Foi acusado de juridismo. Mas basta estudar a sua regra para perceber que tem pouco de jurídico. É antes do mais um guião de prudência, de assentimento equilibrado.

Em sexto lugar restringiu a violência. Numa época que se revelou particularmente violenta e em que o império “romano” (bizantino) fez talvez mais estragos que os bárbaros, conseguiu formar um corpo social em que a violência não era fundante do colectivo. Um dos elementos essenciais do espírito do homem dito moderno, o do corpo tutelado, protegido contra a violência, é em grande parte instituição sua.


Em síntese, mostrou o que só os grandes organizadores da humanidade têm: um profundo conhecimento da natureza humana." A voler fare gli uomini troppo buoni, non si rischi di farli divenire troppo malvagi: che mai: una fabbrica forzata di santi può trasformarsi facilmente in un covo di demoni" (p. 119). Um bom exemplo para as utopias comunista, multicultural, capitalista e outras tantas que pululam na nossa época bastamente analfabeta. Por isso e pode dizer com justiça que inventou uma nova forma de vida (p-.131). Quantos podem dizer o mesmo? E nessa forma de vida fomo-nos habituando a ver as marcas do que começámos a chamar de Europa.


http://www.lastampa.it/speciali/salvatorelli/index.html
http://www.liberonweb.com/asp/libro.asp?ISBN=8842080594
http://usato.unilibro.it/site/result_scrittori.asp?scrittore=Salvatorelli+Luigi&idaff=0
http://medioevo.leonardo.it/blog/studi_e_ricerche/san_benedetto_e_litalia_del_suo_tempo.html
http://www.unilibro.com/find_buy/result_scrittori.asp?scrittore=Salvatorelli+Luigi&idaff=unilibroES
http://www.liberalsocialisti.org/articol.php?id_articol=147







Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 13 de agosto de 2007

I. San Benedetto e l'Italia del suo tempo, Luigi Salvatorelli, Editori Laterza, Roma 2007

Quando vi o então cardeal Ratzinger assumir o nome de Bento XVI apenas me pude sorrir. É sempre difícil adivinhar porque um papa assume um nome. Raras vezes isso é oficialmente explicado (tirando o caso dos papas João Paulo) e mesmo que o seja, as últimas razões que os levam a escolher este e não aquele ficam com ele. Mas que o nome de Bento seja escolhido por um homem com tão vasto conhecimento da cultura europeia apenas poderia ter um significado: escolheu o patrono da Europa.

São Bento pertence a um vasto conjunto de santos cujo nome não foi esquecido, mas que suscita fraca devoção hoje em dia. Em boa verdade trata-se de uma personagem cuja obra suscitou sempre mais entusiasmo que a própria pessoa. Na sua época a tipologia monacal já se encontrava muito desenvolvida, e já existam múltiplas tradições por toda a cristandade. No Oriente as regras de São Pacómio e de São Basílio imperavam. No Ocidente uma multiplicidade de experiências ocorria.

O que é de espantar é que pertença a uma época que já tinha experimentado muita da diversidade que se foi encontrando durante muitos séculos na Europa. As múltiplas modalidades de vida monacal já haviam antes sido experimentadas (cenobitas, eremitas, giróvagos etc.). Os cónegos regrantes já no fim do século IV era conhecidos com o bispo Eusebio di Vercelli (p. 33).

São Bento não parte do nada. Mais revolucionário e deixando obra bem mais perene que as recentes expressões do modernismo, pode fazê-lo exactamente porque parte de terreno sólido. A cultura clássica ainda estava presente e cultura cristã era já muito rica. O dogma estava estabelecido nos seus traços principais, a diversidade de experiência de vida que iria marcar a Europa já estava em formação.

A questão é a de saber porque é ele o patrono da Europa. Nada mais, nada menos, porque deu forma consistente ao movimento monacal. Que importância pode ter isso, pergunta-se o transeunte. Parece-lhe uma referência “apenas” histórica.

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sábado, 11 de agosto de 2007

Entretanto, algures nos Açores...


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Comentário a «O Lugar da Democracia» em Abusiva Forma de «Post»

A citação feita pelo João Luís Ferreira no seu «post», «O Lugar da Democracia», do tal Ministro que afirmava, na televisão, a propósito duma luta de gangs, tal não dever ser possível suceder em democracia, afigura-se-me espelhar bem a confusão a que chegou o dito «pensamento político» da actualidade em resultado exactamente da demissão ou recusa de pensar além do mero «pensamento ingénuo», o pensamento que a todos e a cada um dado à nascença, a todos imediatamente acessível, daí resultando também a não menos actual incapacidade de correctamente entender já sequer o real significado de um conceito tão simples como o de «democracia»: o governo do povo, da maioria, como uma das três formas puras que os regimes políticos podem assumir. Tão só isto, apenas isto e nada mais do que isto. E não obstante, hoje, um termo tão simples como «democracia», parece ser tido como significando mais, muito mais, do que uma simples forma de regime político para assumir ou encarnar mesmo a mais pura, suprema e absoluta das virtudes. Sim, a ninguém, hoje, importa saber de outrem se firme é em sua prudência, em sua temperança, fortaleza, coragem, como tampouco, e menos ainda, em sua fé, esperança ou caridade. Uma única e sempre a mesma preocupação parece a todos obsediar: quão democrata é?

Sem ironia, poder-se-á dizer no entanto que, na actual situação mental do mundo, é bem compreensível a razão da afirmação do dito Ministro: se a democracia supõe a existência de um povo composto de «democratas»; se «democrata» significa, antes de mais e acima de tudo, encarnar, de algum modo, a perfeita virtude, não podendo os actos de quem encarna a perfeita virtude virtuosos deixarem de ser, necessariamente virtuosa não poderá igualmente deixar de ser, por maioria de razão, a vida em «democracia», inaceitáveis se afiguram, na realidade, tais actos, tão contrários a toda a «democrática» existência.

Na verdade, não nos podemos esquecer, numa primeira instância, de se ter constituído, desde sempre, como um dos principais motivos de defesa e exaltação da «democracia», o facto de ser entendido e aceite como o único regime político a permitir, a qualquer momento, a destituição dos actuais governantes e uma consequente transição de poder por meios pacíficos, eliminando, por extensão, a violência como primeira e última ratio de resolução de conflitos. Aliás, tão eminentes e celebradas figuras como um Sir Karl Popper não encontram outros argumentos de defesa da «democracia» sobre todos os restantes regimes senão esses mesmos: possibilidade de destituição dos actuais governantes, a todo o momento, por meios pacíficos, transição pacífica do poder e eliminação da violência como primeira e última ratio de resolução de conflitos.

Não é garantido que assim seja, como é evidente, como não menos abusivo será ser sempre identificar a monarquia com tirania e a aristocracia com oligarquia, todavia, acreditando, como hoje se acredita, constituir a «democracia» exactamente isso, possibilidade de destituição dos actuais governantes, a todo o momento, por meios pacíficos, transição pacífica do poder e eliminação da violência como primeira e última ratio de resolução de conflitos, também com facilidade se compreende o alto valor que lhe é atribuído, sobretudo quando, mesmo se apenas por breves instantes, se rememora as sucessivas e terríveis «revoluções» ocorridas na História dos povos desde os dias da dita gloriosa Revolução Francesa até hoje.

Assim, o «pensamento ingénuo», confundindo tudo, como lhe é próprio e característico, princípios, meios e fins, decorrente também de um processo psicológico muito comum que podemos designar como «enviezamento holístico», acaba por transferir e atribuir à «democracia» qualidades e virtudes que lhe não são próprias, com a agravante, além de lhe atribuir todas as virtudes, tudo isto ser, ainda por cima, incentivado e reforçado pelos lugares comuns típicos do ciclo feminino-ilumininista-socialista-positivista-marxista-pragmatista-relativista que estamos vivendo e em que são figuras de proa, Marx, Darwin, Nietzsche e Freud.

Numa tal perspectiva, está, sem dúvida, o tal Ministro «democraticamente» certo. Ingenuamente? Talvez, mas certo, no enquadramento actual. A questão, o problema, a dificuldade, não está no Ministro, está nos desvairados tempos que estamos vivendo.

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sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Breve apontamento sobre a entrevista de Pinto da Costa à SIC


Da entrevista de Jorge Nuno Pinto da Costa à SIC não retive o conteúdo. Confesso que não fui sequer capaz de ouvir muito - não me interessa nada.
Mas registei o clima. O charme distribuído pelos bastidores, os sorrisos generalizadamente rendidos dos circunstantes (de Ana Lourenço e Reinaldo Serrano aos câmeras ou aos técnicos de som…), o tom ameno das conversas, a indisfarçável atitude de proximidade, simpatia e, mesmo, aparente admiração. Mais: registei o facto de tudo isso ter sido objecto de circunstanciada reportagem, repetida à saciedade nos noticiários subsequentes, por forma a que não escapasse ao mais desatento telespectador…
Em ordens jurídicas mais desenvolvidas do que a nossa, ciências jurídicas mais sofisticadas do que a nossa dedicam tempo e atenção ao estudo do ambiente que envolve as decisões judiciais. E fazem-no por reconhecerem nesse ambiente uma variável determinante do sentido e alcance da prática jurisdicional.
Por cá, não. Para o bem e para o mal, ainda não. Mas que las hay…

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quinta-feira, 9 de agosto de 2007

IV. O mérito

Mais outro vício, porque o que é expulso por uma porta aparece por uma janela. As teorias racistas apenas poderiam nascer em solo anti-aristocrático, como se pode ver pelo fenómeno nazi e fascista.

Se os exemplos históricos de meritocracia estão bem longe da democracia não é por acaso. É que a que se atribuiu mérito, quem atribui o mérito, e a quem se atribui mérito são mais factores de uma cultura que de um regime político. E quem detém esse mérito tem-no sempre em grande medida por causas que não escolheu: uma aptidão, uma inteligência, uma visão, uma atitude perante a vida cuja genética e educação desenvolveram.

Porque aqui entra a terceira faceta da meritocracia. A primeira está no que cada um leva, a sua genética, a sua educação. No segunda o que cada um recebe, a valoração que a sociedade faz dos seus méritos. A terceira faceta é a do sucesso. A meritocracia tende a adular o sucesso, seja o que isto signifique. E este lado institui nas sociedades (por mais democráticas que se digam) um factor de crueldade. Por exclusão de partes a grande maioria das pessoas não acedem aos pontos mais altos do sucesso, são escalonadas na meritocracia, por critérios que já vimos podem ser os mais variados. Que uma sociedade tenha forçosamente elementos de crueldade é inevitável. Que se diga que, sendo o mérito inerente à democracia, a democracia é geradora desta crueldade já a carrega de um outro peso. Os excluídos do mérito seriam os desclassificados da democracia. Ora se para algo existe a democracia é para ponderar as desclassificações, não para as instituir.

Que a democracia recolha ideias de mérito é inevitável, apenas porque todas as culturas sempre viveram de ideias de mérito. Que se tenha a ilusão de que esta é uma figura democrática apenas pode resultar de um etnocentrismo europeísta e modernista que julga que vivemos no paradigma da História e que o solo que pisamos é o solo natural da humanidade. Quando este vale apenas para um tempo e para um espaço. A diversidade humana tem a maravilha de ser infinitamente mais rica que essa ilusão.




Alexandre Brandão da Veiga

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Sic transit gloria mundi

Choca-me de sobremaneira a violação do segredo de justiça no caso Maddie. Mas choca-me ainda mais o silêncio dos "media" e dos "profissionais" quanto a essa violação. Todos os dias a Polícia Judiciária parece alimentar novos cenários, todos eles com imenso "piri-piri" mediático. Ou os órgãos de comunicação social - em delírio de fome noticiosa de Verão - mentem ou a polícia não honra os seus compromissos. Tudo é ainda mais impressionante quando substantivamente as notícias andam à volta do círculo íntimo da criança. Pobre país - ou pobre mundo - este em que se perdeu por completo sentido da dignidade pessoal e institucional.

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quarta-feira, 8 de agosto de 2007

III. O mérito

Uma cultura pode dar imenso valor ao mérito (os príncipes da Renascença são disso bom exemplo) sem ser democrática, e muitas democracias menosprezam muitas formas de mérito (para simplificar, nos países anglo-saxónicos, os pensadores, artistas e escritores são menos valorizados, nos países latinos o mesmo se passa com os cientistas e homens de negócios). É a Inglaterra menos democrática por atribuir menos importância pública aos seus escritores e pensadores ou a França menos democrática por esquecer os seus imensos cientistas?

As democracias recolhem a ideia de mérito, porque todos os regimes recolhem a ideia de mérito. Cada um o faz de forma diversa. Nada mais trivial que isto. A Inglaterra nada democrática do tempo de Haendel dá tanta importância aos seus cientistas quanto a Inglaterra um pouco mais democrática do tempo de Eduardo VII. A França de Luiz XIV dá uma importância aos escritores igualmente grande à que uma França bem mais democrática de De Gaulle.

A ideia de mérito pessoal cheira a democrática porque afasta uma determinada ideia aristocrática, tipicamente europeia, ligada à hereditariedade. Nem todos os sistemas aristocratizantes são hereditários, no entanto. Fora da Europa, o império otomano e a China do mandarinato mostram bem o sistema contrário. Na China aliás a inversão era total. Nobilitavam-se os antepassados, não os descendentes. Ligar a ideia de mérito à democracia é assim ir beber ao mito da Revolução Francesa e não olhar a História de frente.

Relacionar democracia com meritocracia é uma ideia que apenas poderia passar na cabeça de um europeu, que associa (associação histórica algo apressada sob o ponto de vista estrutural) aristocracia e hereditariedade. E que vive de um certo mito, tanto dado pela Revolução Industrial inglesa como pela Revolução Francesa, de que a modernidade se faz do apagamento da hereditariedade.

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terça-feira, 7 de agosto de 2007

TAP e FCP: um comentário incidental

Em plena silly season, os meios de comunicação resolveram dar um assinalável destaque às atribulações por que passou o vôo Amesterdão-Porto-Lisboa, que acabou por ser um simples vôo directo Amesterdão-Lisboa. Vôo esse que, por entre vicissitudes várias em terra e no ar, se prolongou por dez horas.
O caso chamou-me a atenção, não enquanto adepto portista, mas enquanto utilizador frequente da TAP e, em especial, do "corredor da discórdia" Porto-Lisboa, Lisboa-Porto. E devo dizer, para que conste, que, de há vários meses a esta parte, não há pior serviço que o da TAP. Não há um vôo no horário. Foi instituído o princípio de que o avião só arranca quando estiver cheio (ou, como sucedeu no referido caso, mais que cheio). Não há mala que se encontre. As portas de embarque mudam. Os autocarros de transporte de passageiros dentro do aeroporto ficam horas parados, com todos os viajantes dentro.
Dizem que os resultados da TAP têm melhorado, embora haja previsões de uma inflexão séria a breve prazo. Mas têm melhorado à custa de um serviço de péssimo nível. Já não se fala em luxos; já nem se cogita em qualidade. Só se pede respeito: respeito pelo passageiro, que é cliente e que é cidadão. Mas, nesta como noutras matérias, não há respeito.

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II. O mérito

Em primeiro lugar, a que se atribui mérito? À coragem guerreira, à inteligência, à capacidade estratégica para os negócios, à profundidade mística? Por uma ou por outra via facilmente vemos que existe em todas as qualidades a que atribuímos mérito um elemento de esforço pessoal. É inegável. Mas os dados de base não nos foram dados.

Se o mérito for uma qualidade democrática, porque razão quem tem uma genética de maior inteligência, estando por isso favorecido pelo destino, pode ter mais mérito que o aluno que se esforçou duas vezes mais mas nunca há-de perceber o mais elementar teorema de topologia? A imensa maioria das pessoas que estudaram muito mais matemática que Leibniz não lhe poderão chegar nunca aos calcanhares.

Muitas pessoas têm capacidade estratégica para os negócios, mas só uma ou mais gerações depois as suas ideias vencem. Da mesma forma o trabalho místico de Nietzsche ou de Mestre Erckhart levou gerações a ser valorizado. Bach na sua geração era considerado apenas o sétimo melhor músico, muito depois de Telemann. Porquê o imenso erudito, fruto de um trabalho e esforço titânico, que era o padre Martini, que ensinou Mozart, terá menos mérito que o próprio Mozart? Não fora a divina inspiração do segundo, sem lhe retirar o mérito do trabalho, seria muito inferior a Martini. E no entanto...

Entramos aqui no segundo aspecto nada democrático do mérito. Que tipos de mérito são adulados por uma sociedade? Quem estabelece o grau de mérito? Quantas vezes não vimos grandes criadores e pensadores serem desprezados? Para a sociedade do seu tempo Camões teve menos mérito e menor reconhecimento que outros poetastros muito mais bem instalados na vida que ele.

Não, o mérito não é uma qualidade democrática, porque as sociedades não são nunca plenamente democráticas. Vivem de um imenso lastro que aceitam sem muitas vezes dele terem consciência e acumulam historicamente outra tanta bagagem. A democracia portuguesa, a japonesa e a neozelandesa são muito diferentes, dão diverso valor ao mérito, escolhem diversas versões do mérito, não por serem democracias diversas enquanto tal, mas por serem culturas diferentes.

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O futuro do WSJ

A compra do WSJ pelo Sr. Murdoch (sobre a qual José Manuel Fernandes assina hoje um artigo notável no Público) é um enorme acontecimento no panorama mediático mundial. Arrisco-me mesmo a dizer que, nos próximos meses, o WSJ vai ser um laboratório de teste para as grandes questões com que hoje se depara a imprensa. A saber:
- Qual o efectivo valor da «qualidade» (leia-se rigor e isenção na informação, credibilidade, «expertise», capacidade de investigação) na imprensa? Continua válido o modelo dos jornais ditos de referência que apostam nesses valores para encontrar um mercado (ou um nicho de mercado) que os tornam projectos editoriais rentáveis e de sucesso? Existe ainda um mercado para a qualidade? A credibilidade compensa, quanto mais não seja a prazo?
- Qual o efectivo valor da independência? Continua actual a máxima segundo a qual a independência editorial dos grandes jornais face aos seus accionistas, anunciantes e demais «stakeholders» é um garante da sua credibilidade e sobrevivência a prazo?
- É possível continuar a compatibilizar rentabilidade e qualidade (e assim assegurar a independência editorial) num mercado com cada vez menos índices de leitura e ameaçado por novos hábitos de consumo de media?
- E é possível fazer «migrar» estes conteúdos e este modelo para novas plataformas de distribuição? Os jornais de referência, devidamente adaptados ao novo meio, têm um futruro na Internet?
- Continua a fazer sentido o modelo «dualista» do WSJ de separar completamente a informação da opinião, pugnando por notícias factuais e inatacáveis do ponto de vista deontológico e uma opinião com alma e com «causas» conhecidas de todos?
No meu intimo espero que, a bem ou a mal, o caso do WSJ venha a dar razão a todos quantos os que, como eu, acreditam não apenas na sobrevivência deste modelo mas até na sua crescente importância num mundo de «overload» informativo onde são cada vez mais necessários «portos de abrigo» de confiança com capacidade para organizar e prioritizar uma informação dispersa e muitas vezes sem rosto. No meu intimo espero que o Sr. Murdoch saiba perceber a diferença fundamental entre o WSJ e o New York Post ou o Sun. Ou que, não a percebendo, o mercado saiba castigar uma eventual deriva do WSJ.
Mas a última palavra pertencerá, de facto, ao mercado. E nada do que se passar nos distantes EUA será indiferente para o futuro da imprensa em Portugal. Sobretudo num momento em que no mercado se confrontam projectos que apostam claramente no modelo dos jornais de referência (o Nuno Lobo Antunes dirá que nem sempre o fazem com sucesso, eu respondo com a garantia que tentam todos os dias fazê-lo com seriedade e empenho) com projectos que cedem de forma evidente à tentação tabloidizante. Por cá os sinais são animadores (pelo menos no que diz respeito à imprensa semanal). Será também assim nos EUA? Estou confiante que assim será. A bem das nossas democracias liberais.
PS:1 Talvez seja escusada mas aqui fica a declaração de interesses: não escrevo como administrador do Expresso mas também não tenho nenhuma presunção de isenção nesta matéria.
PS2: A «conectividade» não é, infelizmente, o forte da Ilha das Flores. O meu silêncio nos próximos dias tem essa desculpa. E terá, para mim, larguíssimas compensações...

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segunda-feira, 6 de agosto de 2007

A Europa dos pobres

Às vezes dou por mim como sendo a única pessoa que neste País ainda fala dos Fundos de Coesão da União Europeia (ver post anterior a este). Faço isso porque a teoria económica e alguns trabalhos empíricos me convenceram sobre a capacidade dos fundos para ajudar o crescimento dos países mais pobres da EU. Na verdade, apenas conheço estudos aplicados aos casos da Irlanda, da Grécia e da Espanha, onde se conclui que o impacto dos fundos foi amplamente positivo. Não me lembro de nenhum trabalho sobre os efeitos dos fundos de coesão para o caso português embora, indirectamente, Alfredo Marvão Pereira e associados apontem para efeitos positivos do investimento público e por isso também dos fundos europeus.

Como tenho sempre dúvidas e frequentemente me engano, dou por mim preocupado em perceber se não estou perante uma obsessão minha e se o meu país é o único que não consegue beneficiar dos ditos fundos. Mas a verdade é que é mesmo difícil perceber a pouca importância que é dada por cá ao assunto. Bem sei que há muitos economistas que pensam que não se devem dar ajudas, uma vez que isso distorce o mercado. Eu também penso assim, regra geral, mas o caso da União Europeia é diferente, uma vez que, para dizê-lo em breve palavras, os fundos servem de contrapartida ao alargamento do mercado europeu.

Hoje fiquei todavia contente ao ler a coluna “Charlemagne” no Economist desta semana sobre, precisamente, os fundos de coesão. Aí se diz: “there are sound economic and political arguments for investing in backward parts of such open economic zones. EU projects in poor neighbourhoods are notoriously prone to corruption and waste, but the risks are matched by high rates of return”. E continua dizendo que esses investimentos ajudam a criar novos mercados, novos consumidores, a estabilizar democracias frágeis e a limitar o risco de migrações massivas dentro da União. Bingo! Esta citação é importante tratando-se de uma coluna de opinião que é geralmente céptica relativamente aos efeitos de políticas públicas.

Este tema é importante: haver uma opinião pública conhecedora das vantagens dos fundos de coesão pode levar a que o Governo nacional dê mais importância aos fundos nas conversações com Bruxelas e, por essa via, manter ou aumentar o fluxo das ajudas.

Os últimos dez anos assistiram à diminuição do ritmo de crescimento da economia portuguesa. Mas isso não foi por causa dos fundos. Foi, isso sim – é a minha principal hipótese ainda não totalmente confirmada empiricamente –, porque houve um aumento do nível de abertura da economia portuguesa sem contrapartida na intensidade das ajudas.

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Lealdade, Fidelidade e Mérito

Um dos nossos problemas é termos transformado aquilo que pode ser uma virtude privada (a fidelidade) num critério de organização social. Não se deve confundir a lealdade (que é uma virtude pública) com a fidelidade (uma virtude privada que se transforma num vício quando aplicada no domínio público). A lealdade admite a discordância e promove o mérito. A fidelidade impõe a subserviência e dissemina a mediocridade. E, já agora, talvez seja bom recordar aqueles que promovem a fidelidade que ela não deve ser confundida com amor… Onde há amor pode esperar-se fidelidade mas nem sempre da existência de fidelidade se pode deduzir a existência de amor….

Vem isto a propósito dos posts anteriores que me trouxeram à memória (perdoem-me o egocentrismo bloguista…) um texto dos meus tempos de cronista no DN. Intitulava-se Fidelidade e Mérito e contrapunha dois modelos de organização da nossa sociedade: um assente numa promoção da fidelidade (dar preferência aos que "fazem parte de nós") o outro numa lógica de reconhecimento do mérito (premiando os melhores). Não vou, no entanto, repetir aqui esse texto, que reconhecendo certos méritos à fidelidade (promove a coesão e solidariedade dentro do grupo e é mais igualitária), procurava demonstrar que (independentemente de outros juízos éticos) a fidelidade se traduz na disseminação de uma cultura de subserviência e repetição, contrária à inovação e criadora de uma espécie de consanguinidade social, cultural e política que, a longo prazo, atrofia qualquer sociedade e o seu potencial de desenvolvimento. Outra questão é o que é exactamente o mérito (a questão suscitada pelo post do Alexandre talvez não seja tanto sobre a relevância do mérito mas sim soube diferentes tipos de mérito e de formas de o determinar)..

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I. O mérito

Existe uma ilusão, a de se considerar que o mérito é uma instituição democrática. Não é assim.

A primeira democracia, a ateniense (deixemos esta premissa na sua nua simplicidade) baseava-se sobretudo no acaso, o sorteio, para a escolha dos representantes. O mérito era deixado a apenas algumas funções o de natureza técnica e militar.

Ainda hoje em dia, e estruturalmente, a democracia baseia-se na escolha pelo povo. Será que esta escolha tem algo a ver com o mérito? Não haverá pessoas de maior mérito muitas vezes em pequenos partidos que não são escolhidos apenas porque pertencem a pequenos partidos? A própria escolha democrática se opõe necessariamente à ideia de mérito. Gramsci ou Berlinguer eram bem maiores na perspectiva do serviço público que Berlusconi e nunca tiveram o seu poder.

Quais são os exemplos históricos de meritocracia? O sistema napoleónico, com as Grandes Ecoles, sem dúvida. O sistema de mandarinato na China. O vizirato turco. E para culminar o elenco, o sistema de promoções das SS, profundamente anti-aristocrático, desejando subverter os valores burgueses, os títulos (nem o Reichsführer-SS Himmler podia ser tratado por Herr).

Que os sistemas de meritocracia pura sejam tudo menos democráticos não nos pode fazer espantar. Há boas razões estruturais para que assim seja.

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domingo, 5 de agosto de 2007

A propósito do ‘caso Dalila Rodrigues’

Quase tudo foi escrito e dito. Tentei ler e ouvir. Até as derivações inusitadas de alguma opinião que me habituei a considerar e respeitar…
Por mim, em rigor, não tenho nada de decisivo a acrescentar sobre o caso. Não conheço toda a história, não conheço os pormenores, não conheço as pessoas. Poderia, evidentemente, raciocinar com base na minha própria pré-compreensão dos factos, assumindo as premissas de que partiria. Desde logo, a presunção legítima de não tomar uma respeitada professora catedrática, com nome, obra e carreira, por pessoa imatura, leviana e irresponsável, capaz de desrespeitar, com ligeireza, e movida por uma qualquer ânsia de protagonismo, o quadro de actuação institucional aplicável ao exercício das suas funções. Como também a presunção, igualmente legítima, de reconhecer no actual Governo e na Ministra da Cultura uma investida metódica contra aqueles que não identificam como instrumentos obedientes e anódinos das suas políticas e do seu modo de estar na vida pública. Poderia, mas não vou fazê-lo.
É claro que estou profundamente convencida de que o afastamento de Dalila Rodrigues é uma perda imensa para o Museu Nacional de Arte Antiga e para a nossa prática museológica. É claro que vejo neste caso mais uma trágica intervenção da Ministra da Cultura, depois de ter sacrificado o Centro Cultural de Belém às conveniências do Comendador Berardo e de anunciar vir a privilegiar o fogacho constituído pelo acordo com o Ermitage à construção de soluções sérias para refundar (e sanear) a rede de museus nacionais. Mas, muito mais do que isso, interessa-me o fundo da questão, o que aqui é subliminar e profundo. Mais do que o caso, interessa-me o que se pode perceber e discutir a pretexto dele.
Afinal, o real problema foi a evidência de se estar perante alguém com uma opinião sobre as coisas. Uma opinião sobre as suas funções e o sentido do que fazia. Pior, alguém capaz de expor essa opinião e de se bater por ela. Com coragem, com frontalidade e em voz alta (desgraçadamente para o Governo, e ao contrário do que foi escrito por alguns, sem quebra dos deveres de lealdade ou de obediência, já que a dita opinião surgiu no quadro da discussão formal de regimes orgânicos e modelos de gestão, sempre referenciada à defesa dos interesses do MNAA).
O pecado foi, portanto, esse. Dalila Rodrigues deveria ter olhado para o seu mandato como para um emprego. Ou um tacho. Pacato, discreto, silencioso, resignado, agradecido. Um emprego ou um tacho sossegados, bem comportados e nada mais. Nunca deveria ter ousado um projecto. Jamais uma visão. Nunca deveria ter-se imposto objectivos. E nunca, nunca poderia ter tido o topete de propor um caminho para lá chegar…
E este é o nosso problema. Muito mais sério do que geralmente se pensa, porque profundamente entranhado no nosso modo de estar e de pensar.
Nós não educamos – e não fomos educados – para o pensamento crítico. Culturalmente, não valorizamos o argumento ou a discussão das ideias. Em paralelo, e por decorrência, não promovemos o confronto, o debate, a dialéctica da diversidade. Consequentemente, sem darmos por isso, não nos formamos na defesa veemente de coisa nenhuma. E, ao mesmo tempo, não aprendemos a assumir responsavelmente os êxitos e os fracassos a que tenhamos dado causa.
O estilo ‘português suave’ vem de há muito. E faz-se de pequenino, em cada um de nós. Aliás, cedo se descobrem os talentos deste caldo luso: o menino que se senta na primeira fila e dá graxa ao professor, o menino que não empresta a bola, o menino queixinhas, o menino sonso, o menino intriguista, o menino mentiroso, o menino da mamã (claro que há meninas para cada um dos ditos meninos, algumas mesmo muito promissoras…). Estes meninos encantadores, de geração em geração penhor do país que somos, costumam ser adultos bem enquadrados e sucedidos: singram nas empresas, na função pública, na política, na vida em geral. O segredo do êxito é o seu perfil, subserviente, disponível, calado, passivo, elástico. Os que chegam mais longe são, em princípio, os mais hábeis nas artes da dissimulação e da manipulação, sempre adequadamente tergiversantes, envolventes, imprescindíveis e dúcteis. De entre todos, destacam-se os bajuladores e sabujos a quem estão reservadas as mais cobiçadas glórias mundanas. Estão por todo o lado. Em cada vez maior número e com um sucesso crescente. O sinal é inequívoco: é esta gente que se quer, é esta a gente que a sociedade reconhece e premeia.
O regime também. Por isso, os convites para o exercício de cargos públicos dirigidos a pessoas de excelência, em nome dessa excelência, devem ser entendidos nos seus devidos termos, isto é, numa lógica de pura instrumentalização. Não se espera – e não se admite – que tenham opinião ou projecto. Contudo, porque são quem são, assume-se subliminarmente que dirão o que for necessário dizer e, portanto, que se nada disserem é porque nada haveria para ser dito. Ou seja, impõe-se-lhes o silêncio para, depois, se retirar uma leitura desse silêncio. E, evidentemente, decorrendo do silêncio um aval tácito das políticas, credibiliza-se o sistema. Reconheça-se que não está mal pensado…
O pior é mesmo o país. Na iniciativa privada e, por maioria de razão, no serviço público, Portugal como projecto precisa de gente capaz de opinião. E precisa do exercício livre e responsável do direito à opinião. Senão, será tudo apenas uma espécie de…

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O Euro de Sarkozy

Porque é que Sarkozy fala agora do governo económico do Euro? Por ser francês, dizem alguns, querendo com isso implicar que naquele pais o Estado e o centralismo económico prevalecem sempre. Mas, então, porque é que Chirac não trouxe esse tema para a agenda? O paradoxo é resolvido, penso eu, se for tido em consideração que o que o novo Presidente francês quer de facto é relançar o aprofundamento da integração europeia e que isso passa por lançar a ideia do governo económico europeu. Sarkozy, aliás, logo no dia seguinte à eleição, mostrou a sua faceta europeísta ao revelar que dava mais importância ao novo Tratado a 27 do que à forma como ele deveria ser ratificado. Mas vejamos algumas destas questões por partes.

A unificação das moedas que hoje fazem o Euro resultou acima de tudo da preocupação em melhor controlar definitivamente as taxas de câmbio num regime de liberalização dos mercados de capitais. Tratou-se de uma medida tipicamente intervencionista e foi por isso que nasceu com o apoio da França e da Alemanha, dois dos Estados mais intervencionistas da Europa. O Euro não recebeu inicialmente o apoio da Grã-Bretanha. Todavia, uma vez que veio contribuir para a liberalização dos mercados de capitais na esfera internacional e, particularmente, dentro da União Europeia, a nova moeda acabou por ter o apoio de Margaret Thatcher.

A União Económica Monetária coroou-se de êxito, como se pode ver pelo facto de o Euro se ter valorizado grandemente, em relação ao dólar. Essa valorização não foi só mérito da nova moeda, mas também uma consequência do estado da economia norte-americana, fortemente endividada perante o exterior, por causa, entre outras coisas, da Guerra do Iraque (note-se a analogia: a Guerra do Vietname foi causa directa do fim do sistema de Bretton Woods, em 1971). Para o êxito do Euro foi igualmente necessário o forte controle da inflação por parte do Banco Central Europeu e o Pacto de Estabilidade e Crescimento que obrigou os países aderentes a comportarem-se bem do ponto de vista da estabilidade orçamental.

Assim, os governos nacionais do Euro levaram os últimos 15 anos a tudo fazer para que a nova moeda fosse um êxito e conseguiram-no. Uma vez conseguida a afirmação do Euro nos mercados internacionais, abriu-se a possibilidade de seguir em frente e é disso que Sarkozy nos fala agora. A construção europeia é tipicamente feita por etapas. Ultrapassada a década do Euro, seria de esperar que algum “motor” da Europa liderasse o caminho para o passo seguinte. Ao falar do governo económico, Sarkozy está apenas a dizer que é preciso fazer algo mais do que dormir sobre os louros do Euro. Acontece que este passo está a ser dado pela França e isso é importante, mas não pelas razões comummente aduzidas.

O que se passa então? Passa-se que a zona do Euro não é uma zona monetária óptima, para usar uma expressão técnica. Com efeito, as economias dos países em causa ainda não estão suficientemente integradas e a nova moeda não as afecta do mesmo modo. Por razões que têm que ver com o trauma da hiper-inflação a que só Hitler pôs fim, e com a estrutura federal de Governo, a Alemanha seguiu desde a segunda Guerra Mundial, persistentemente, políticas de taxas de câmbio relativamente elevadas. Isso implicou o desenvolvimento de uma estrutura económica específica. A Alemanha há muito que é um grande exportador de produtos industriais com vantagens competitivas em muitos sectores. À Alemanha não importa muito que o Euro esteja com um preço elevado. A situação francesa é diferente e muitos agentes económicos beneficiariam de uma moeda menos forte. A Alemanha é também mais dependente da importação de petróleo do que a França, e as taxas de câmbios elevadas permitem-lhe poupar no preço do petróleo, cotado em dólares. A França é mais dependente da energia atómica nacional (42% do consumo total de energia tinha origem nuclear, em 2004, contra 12% na Alemanha). Outro exemplo: a França depende mais do que a Alemanha do sector do turismo, sector que sofre com moedas valorizadas.

Sarkozy não quer acabar com o Euro. Ao contrário, quer que a moeda única tenha futuro. Por isso pede uma coisa: que o valor do Euro nos mercados internacionais não suba demasiado, aproximando-se dos interesses da economia francesa. Para tal, pede uma menor subida das taxas de juro por parte do Banco Central Europeu. Ou melhor, no fundo pede que o BCE seja um pouco menos independente e se aproxime porventura dos níveis de dependência dos congéneres nos EUA e no Reino Unido.

O comércio livre, os orçamentos públicos equilibrados e a flexibilização dos mercados do trabalho e financeiros são condições necessárias, embora não suficientes, para melhorar o ritmo de crescimento económico na Europa. Mas essas condições não caem do céu. São precisos governos (não confundir com Estados) fortes para que elas se desenvolvam. Um pouco mais de governo económico da Europa podia ser uma contribuição importante.

E, para Portugal, o que convém mais? Bem, deve dizer-se que Portugal está muito distante dessa discussão pois um pequeno ajuste do Euro de pouco serviria, uma vez que o défice de competitividade nacional é muito grande. Mas Portugal pode beneficiar da discussão em torno do governo económico europeu, se isso implicar a regresso das preocupações directas com o estado das economias europeias. Há muito que muitos perceberam que não basta olhar para o défice público para se resolverem os problemas das economias mais atrasadas da Europa. Sendo assim, podia ser vantajoso que o governo português procurasse que o tal governo económico europeu tivesse em conta a necessidade do reforço das políticas de coesão.

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Ensino

Quando em férias, há uns dias, li de relance um debate neste blog em que a certa altura o Nuno Lobo Antunes dava a sua concordância com a frase, tornada ditado popular, que diz que “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Na altura não tive tempo para reagir e agora apetecia-me discordar dessa ideia.

Ensinar é obviamente uma ocupação importantíssima e muito do que cada um de nós é decorre da aprendizagem ao longo dos vários ciclos de ensino. Dou o meu exemplo: porque tive um óptimo professor de Matemática no Liceu, consegui fazer um curso de Economia com maior facilidade pois essa disciplina nunca foi para mim um bicho-de-sete-cabeças. Porque não tive praticamente educação musical (ninguém a teve na altura) e tive professores péssimos de desenho, sou um zero-à-esquerda nessas matérias. Talvez com uma análise aprofundada mudasse de ideias sobre isto, mas por agora é essa a minha impressão. E consigo ver outras formas de a confirmar. Mais um exemplo: os poucos alunos de mestrado que me passam pelas mãos distinguem-se claramente por duas coisas: pelas médias de licenciatura que trazem com eles (o que mostra que as avaliações nas universidades portuguesas tendem a ser fiáveis); e pelas faculdades de origem (o que prova que há formas diferentes de ensinar, com resultados também diferentes).

A prova que o Nuno às tantas dá, de que nos EUA se pergunta onde treinaste mas não onde aprendeste, pode ser uma verdade apenas parcial. Porquê? – Porque o sítio onde se aprende pode ser crucial para se ir parar a um bom sitio para o treino. Aliás, de outro modo não se entenderia que houvesse quem investisse 50 mil dólares ou mais para tirar um curso de medicina numa Universidade da Ivy League.

Falta muita prática ao ensino feito em Portugal e isso deve ser apontado como um enorme defeito – mas também aqui se deve recordar que isso na maior parte das vezes acontece por falta de meios e não por questões de princípio. Comparar Portugal com a Ivy League é necessariamente injusto e é preciso recordar que nos EUA há muitas universidades muito fracotas.

Ao reler este texto, pareceu-me que estava a defender a Universidade portuguesa. Não: ela é péssima e tem de mudar muito. Mas convém fazer diagnósticos acertados para encontrar as curas certas.

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A estrada


Há anos que tenho discussões verdadeiramente épicas com o meu amigo Domingos Amaral. Não concordamos em nada. Do Benfica ao cinema, da política à música, da literatura a um alegado desnível permanente que ele jura existir entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Se ele diz branco eu digo preto, se eu aplaudo, ele apupa, e aí por diante. É dessa inesgotável capacidade de discordância, e da imensa tolerância que a acompanha que é, aliás, feita a nossa amizade.

Pois bem não há regra sem excepção. O Domingos recomendou-me o último romance de Cormac Mc Carthy e eu, para poder contrariá-lo, lá ataquei o livro. Mas, surpresa das surpresas, rendi-me quase imediatamente à grandeza da obra. Mc Carthy não engana. Merece um lugar ao lado de Faulkner ou de Roth e este «A estrada» é um dos grandes romances do ano.

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Mediocridade Cultural

A Ministra da Cultura prossegue a sua cruzada contra todos os que vão tendo o supremo desplante de se erguer acima da mediocridade generalizada. Depois da Cinemateca, do São Carlos, agora a o Museu Nacional de Arte Antiga.
«Em terra de cegos quem tem um olho é rei», diz o ditado. À falta de uma visão para a Cultura a Ministra vai-se rodeando de ceguinhos. É uma forma peculiar de fazer política...

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quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Da teoria da prática a algumas questões práticas da teoria

O meu texto anterior provocou uma série de reacções tendo transbordado, como notou o Paulo Rangel, para a relação entre teoria e prática. Acontece que, na minha opinião, sendo a distinção entre teoria e prática importante a dicotomia e oposição entre elas deve ser combatida. Perdoem-me o cliché de dizer que não há boa prática sem teoria nem boa teoria que não se traduza (ou comprove) numa prática. Sendo um cliché não deixa de ser largamente verdade… Dois exemplos (práticos e não "teóricos"...), na política e na universidade, com base nos comentários feitos:.

1 – Na política: a inconsistência das nossas políticas a que a Inês Dentinho faz referência é tanto produto da substituição da ideologia pelo pragmatismo como é consequência da prática política não ser orientada por uma teoria da política (talvez melhor, neste caso, uma teoria das políticas). Uma ênfase na prática e na produção de resultados que não é suportada numa reflexão sistémica sobre a nossa sociedade e os seus problemas vai traduzir-se necessariamente em políticas cíclicas e inconsistentes (o comentário do j. pinto correia concerne precisamente este fenómeno). Um ministério adopta normas que entram em conflito com a política de outro ministério; a cada ministro sucede-se uma política radicalmente diferente independentemente do governo, etc. A verdade é que a inconsistência ideológica (ou teórica, para não contaminar a ideia de ideias pela carga histórica das ideologias) acaba por minar os resultados práticos das políticas….
2 - Na universidade: estou em grande parte de acordo com a prioridade definida pelo Paulo Rangel. No entanto, confesso que tenho uma certa irritação em relação ao discurso sobre teoria e prática na nossa universidade. Em primeiro lugar, porque ele é frequentemente utilizado como manifestação de supremacia intelectual pelos que se arrogam do domínio da "teoria" (não estou a atribuir isto ao Paulo, para não gerar mais equívocos…). Em segundo lugar, porque, muitas vezes, aquilo que, entre nós, se define como teoria não passa de uma abstracção e generalização do pensamento prático. As nossas Faculdades de Direito (que o Paulo e eu bem conhecemos) são normalmente acusadas de serem excessivamente teóricas. Na verdade, a nossa dogmática jurídica é frequentemente bem incipiente do ponto de vista teórico. O que falta às nossas Faculdades de Direito é mais e melhor reflexão teórica e menos auto-referencialismo e generalização e formalização da prática. No que concerne a importância do ensino "teórico" a que faz referência o Paulo parece-me importante notar duas coisas. Por um lado, o bom ensino teórico é sempre o que fornece melhores instrumentos para a prática (um exemplo: a Faculdade de Direito de Yale faz um ensino do direito todo centrado na "teoria" e não na transmissão de informação, de tal forma que os seus alunos, de acordo com um estudo realizado, quando terminam o curso teriam uma elevada taxa de reprovação no exame para a ordem dos advogados; seis meses mais tarde, tendo estudado sozinhos no final do curso os códigos e a legislação, os alunos de Yale têm a melhor classificação nos exames da ordem e obtêm as melhores ofertas para sociedades de advogados…). Por outro lado, não podemos ignorar que a prática também pode ser uma boa forma de descobrir a teoria (também está comprovado que o ensino através da prática é frequentemente mais eficaz na transmissão de competências que o ensino ex-cátedra, através da clássica lição magistral e penso que é a isto que o Nuno Lobo Antunes faz referência). O que é mau é a prática despida de teoria (ou seja, sem reflexão crítica e sistémica sobre o que estamos a "praticar")!
PS: Espero que este último ponto esclareça alguns dos equívocos que o Nuno Lobo Antunes me atribui ter-lhe atribuido! Eu não atribuí ao Nuno nenhum reconhecimento de primazia da ciência aplicada sobre a ciência pura nem da acção sobre o pensamento. Eu nem sequer disse que achava que o Nuno acreditava na citação no Shaw. Eu apenas disse que discordava da citação. É uma caricatura mas é uma caricatura que reforça um equívoco e que acentua este tipo de dicotomia entre pensar/fazer ou teoria/prática que, pelos vistos, ambos combatemos….

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