sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Lucrécio e Vesperini I

Lucrécio é um epicurista, materialista e atomista perseguido pela Igreja Católica e recuperado pela Renascença por Poggio. Esta é a versão que se lê em livros infantis e em teses de Harvard (não há hoje grande diferença entre uns e outras). VESPERINI, Pierre, Lucrèce. Archéologie d’un Classique Européen, Fayard, Paris, 2017, diz exactamente o contrário e, por isso, é talvez o livro mais interessante que surgiu sobre Lucrécio nos últimos anos. Inteligente e adulto.

(a) Construir a modernidade como um apagamento do passado é falso:

1)    A modernidade é algo de formidável, mas não precisa de assentar na luta contra o obscurantismo das épocas passadas (p. 12).

2)    É falso que a filosofia tenha nascido da crítica da religião (p. 16).

3)    A sabedoria não tem necessariamente relação com a aprendizagem, porque Epicuro nasceu sábio: segundo o seu irmão Néocles, a constituição atómica da sua mãe só poderia gerar um sábio (p. 18).

4)    Como nos habituámos a ver os epicuristas como precursores do racionalismo moderno, esquecemos que eram espíritos religiosos (p. 121).

5)    Para Greenblatt, Poggio despreza a sua época ignorante e, como outros eruditos, está dominado pela ideia das Luzes florentinas (p. 223).

6)    Não há nada de bizarro em que um clérigo se interesse por livros (p. 223).

7)    É no século XIX que surge o mito de Lucrécio, porque, para criar um mito, é preciso uma história, e até ao século XVIII esta não existia (p. 281). É Flaubert, mas sobretudo o Lucrécio das universidades, que está na origem desse fenómeno (p. 283). Embora na Alemanha Lucrécio tenha menos importância, pois os alemães dão preferência aos estudos gregos, Hermann Diels dedica os seus últimos esforços a uma edição de Lucrécio, obra que teve o prefácio de Einstein e foi financiada em segredo pelo padre Franz Cumont (p. 284).

8)    A modernidade não é um bloco unitário e Chaupoutot bem mostrou que os nazis não eram medievais atrasados (p. 286).

9)    O libertino Guillaume Naudé, bibliotecário de Mazarino, numa carta ao médico Guy Patin, cita vários livros que conduzem à vida e não cita Lucrécio entre eles (p. 263). O libertino Wyemars critica Lucrécio, que não é, portanto, um mestre incontestado dos libertinos (p. 264).

10) É em nome da física cartesiana que o cardeal de Polignac recusa Lucrécio, mas ao mesmo tempo coloca Descartes do lado da ortodoxia num poema que ataca Descartes em nome da física de Newton; «aucun -isme n’est en tant que tel du côté de la modernité, et par conséquent voué à la persécution» (p. 267).

11) No século XV, Raimondi refere-se aos seus estudos astrológicos, que são condenados pelo epicurismo (pp. 238-239).

12) A única tradução de Lucrécio proibida foi a de Marchetti, em 1695, o mesmo Marchetti que não quis encontrar Espinosa (p. 271).

13) A condenação de textos ímpios como o de Lucrécio por si só é certamente uma condenação, mas precedida de uma expiação; antes de condenar, estuda-se e analisa-se (p. 287).

14) Da mesma forma que as coisas físicas não se combinam arbitrariamente sob pena de criarem monstros, o poema tem de ser articulado entre si (p. 184).

15) As humanidades não podem resistir à tentação do mito quando há um empobrecimento cultural (p. 285). Não é contando belas histórias sobre a origem da modernidade que se salvará a democracia (p. 286).

(b) O De Rerum Natura não é uma obra catequética do epicurismo:

1)    Mémio não encomendou a Lucrécio um poema didáctico, género que, segundo Vesperini, ainda não existia como categoria literária autónoma, mas antes um poema épico (p. 94).

2)    Os aristocratas romanos imitavam os reis helenísticos, que mantinham junto de si filósofos provenientes de escolas diversas (p. 106).

3)    Os filósofos aristocratas gregos eram frequentemente intolerantes, ao passo que a aristocracia romana não tolerava os sectários, os graeculi, convencidos de possuir a verdade (p. 107). O paralelo com Pilatos, que afirma não saber o que é a verdade, traduz uma imitação da atitude aristocrática.

4)    Os Romanos epicuristas não são um grupo coerente (p. 110).

5)    Quando Mémio encomenda um poema epicurista a Lucrécio, quer dar-se uma imagem grega (p. 111).

6)    Quando Mémio adquire o Jardim, em Atenas, pretende associar o seu nome ao de Epicuro (p. 113).

7)     O próprio Epicuro interditou ao sábio fazer poemas (p. 118).

8)    Quando Lucrécio pede o apoio de Vénus, contradiz os princípios do epicurismo, que considera os deuses indiferentes aos homens (p. 119).

9)    O prazer, enquanto potência que preside à reprodução, não surge em Epicuro (p. 120).

10) A erudição poética de Lucrécio pertence exactamente ao género censurado por Epicuro (p. 124).

11)  O De Rerum Natura não é um poema epicurista no sentido ideológico (p. 128).

12) A luta contra os ritos está mais próxima dos cínicos do que dos epicuristas (p. 142).

13) Os dogmata epicuristas são pretexto de desenvolvimentos, mas o essencial são as diatribes cínicas ou para-cínicas contra a religião e mesmo temas aristotélicos da multiplicação de pequenos problemas físicos (pp. 164, 180).

14) A mesma ideia, a de que o que nasce morre e o que cresce envelhece, pode ser vista como epicurista, é de Salústio, e usada em sentido cristão por São Cipriano de Cartago, São Jerónimo ou Santo Agostinho, e os tópicos epicuristas não eram vistos como doutrinação, mas como ocasião (p. 171).

15) O abstencionismo político epicurista é rejeitado logo no prólogo do poema quando Lucrécio diz que Mémio se deve à República (p. 177).

16) O De Rerum Natura não é um manual, um texto de propaganda ou um evangelho epicurista (p. 178).


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