Lucrécio e Vesperini I
Lucrécio é um epicurista, materialista e atomista perseguido pela Igreja Católica e recuperado pela Renascença por Poggio. Esta é a versão que se lê em livros infantis e em teses de Harvard (não há hoje grande diferença entre uns e outras). VESPERINI, Pierre, Lucrèce. Archéologie d’un Classique Européen, Fayard, Paris, 2017, diz exactamente o contrário e, por isso, é talvez o livro mais interessante que surgiu sobre Lucrécio nos últimos anos. Inteligente e adulto.
(a)
Construir a modernidade como um apagamento do passado é falso:
1) A
modernidade é algo de formidável, mas não precisa de assentar na luta contra o
obscurantismo das épocas passadas (p. 12).
2) É
falso que a filosofia tenha nascido da crítica da religião (p. 16).
3) A
sabedoria não tem necessariamente relação com a aprendizagem, porque Epicuro
nasceu sábio: segundo o seu irmão Néocles, a constituição atómica da sua mãe só
poderia gerar um sábio (p. 18).
4) Como
nos habituámos a ver os epicuristas como precursores do racionalismo moderno,
esquecemos que eram espíritos religiosos (p. 121).
5) Para
Greenblatt, Poggio despreza a sua época ignorante e, como outros eruditos, está
dominado pela ideia das Luzes florentinas (p. 223).
6) Não
há nada de bizarro em que um clérigo se interesse por livros (p. 223).
7) É
no século XIX que surge o mito de Lucrécio, porque, para criar um mito, é
preciso uma história, e até ao século XVIII esta não existia (p. 281). É
Flaubert, mas sobretudo o Lucrécio das universidades, que está na origem desse
fenómeno (p. 283). Embora na Alemanha Lucrécio tenha menos importância, pois os
alemães dão preferência aos estudos gregos, Hermann Diels dedica os seus
últimos esforços a uma edição de Lucrécio, obra que teve o prefácio de Einstein
e foi financiada em segredo pelo padre Franz Cumont (p. 284).
8) A
modernidade não é um bloco unitário e Chaupoutot bem mostrou que os nazis não eram medievais atrasados
(p. 286).
9) O
libertino Guillaume Naudé, bibliotecário de Mazarino, numa carta ao médico Guy
Patin, cita vários livros que conduzem à vida e não cita Lucrécio entre eles
(p. 263). O libertino Wyemars critica Lucrécio, que não é, portanto, um mestre
incontestado dos libertinos (p. 264).
10) É
em nome da física cartesiana que o cardeal de Polignac recusa Lucrécio, mas ao
mesmo tempo coloca Descartes do lado da ortodoxia num poema que ataca Descartes
em nome da física de Newton; «aucun -isme n’est en tant que tel du côté de la
modernité, et par conséquent voué à la persécution» (p. 267).
11) No
século XV, Raimondi refere-se aos seus estudos astrológicos, que são condenados
pelo epicurismo (pp. 238-239).
12) A
única tradução de Lucrécio proibida foi a de Marchetti, em 1695, o mesmo
Marchetti que não quis encontrar Espinosa (p. 271).
13) A
condenação de textos ímpios como o de Lucrécio por si só é certamente uma
condenação, mas precedida de uma expiação; antes de condenar, estuda-se e
analisa-se (p. 287).
14) Da
mesma forma que as coisas físicas não se combinam arbitrariamente sob pena de
criarem monstros, o poema tem de ser articulado entre si (p. 184).
15) As
humanidades não podem resistir à tentação do mito quando há um empobrecimento
cultural (p. 285). Não é contando belas histórias sobre a origem da modernidade
que se salvará a democracia (p. 286).
(b)
O De Rerum Natura não é uma obra catequética do epicurismo:
1) Mémio
não encomendou a Lucrécio um poema didáctico, género que, segundo Vesperini,
ainda não existia como categoria literária autónoma, mas antes um poema épico
(p. 94).
2) Os
aristocratas romanos imitavam os reis helenísticos, que mantinham junto de si
filósofos provenientes de escolas diversas (p. 106).
3) Os
filósofos aristocratas gregos eram frequentemente intolerantes, ao passo que a
aristocracia romana não tolerava os sectários, os graeculi, convencidos
de possuir a verdade (p. 107). O paralelo com Pilatos, que afirma não saber o
que é a verdade, traduz uma imitação da atitude aristocrática.
4) Os
Romanos epicuristas não são um grupo coerente (p. 110).
5) Quando
Mémio encomenda um poema epicurista a Lucrécio, quer dar-se uma imagem grega
(p. 111).
6) Quando
Mémio adquire o Jardim, em Atenas, pretende associar o seu nome ao de Epicuro
(p. 113).
7) O próprio Epicuro interditou ao sábio fazer
poemas (p. 118).
8) Quando
Lucrécio pede o apoio de Vénus, contradiz os princípios do epicurismo, que
considera os deuses indiferentes aos homens (p. 119).
9) O
prazer, enquanto potência que preside à reprodução, não surge em Epicuro (p.
120).
10) A
erudição poética de Lucrécio pertence exactamente ao género censurado por
Epicuro (p. 124).
11) O De Rerum Natura não é um poema
epicurista no sentido ideológico (p. 128).
12) A
luta contra os ritos está mais próxima dos cínicos do que dos epicuristas (p.
142).
13) Os
dogmata epicuristas são pretexto de desenvolvimentos, mas o essencial
são as diatribes cínicas ou para-cínicas contra a religião e mesmo temas
aristotélicos da multiplicação de pequenos problemas físicos (pp. 164, 180).
14) A
mesma ideia, a de que o que nasce morre e o que cresce envelhece, pode ser
vista como epicurista, é de Salústio, e usada em sentido cristão por São
Cipriano de Cartago, São Jerónimo ou Santo Agostinho, e os tópicos epicuristas
não eram vistos como doutrinação, mas como ocasião (p. 171).
15) O
abstencionismo político epicurista é rejeitado logo no prólogo do poema quando
Lucrécio diz que Mémio se deve à República (p. 177).
16) O
De Rerum Natura não é um manual, um texto de propaganda ou um evangelho
epicurista (p. 178).