Arquitectura beleza e ornamentação
Um amigo meu esteve em Barcelona há muitos anos. Mostrou-me uma fotografia de um edifício. Perguntou-me se eu conseguia adivinhar quem fosse. Por instinto disse: parece Bauhaus, diria Mies van der Rohe. Saiu-me. Ele disse que eu tinha razão. Como eu tinha adivinhado? Não gosto de adivinhas. Não costumo responder a elas. E nunca me passaria pela cabeça relacionar Mies van der Rohe e Barcelona.
Schiller dizia na sua «Poesia
Ingénua e Sentimental» que a maioria das pessoas deveria cobrir com os véus da
arte a sua natureza asquerosa. Sim, o mesmo Schiller do «Hino à Alegria». «Todos
os homens são irmãos...»
Qual a relação entre Mies
van der Rohe e Schiller? Se reconheci a obra do arquitecto foi pela sua pureza
e perfeição. Mas a imensa maioria das pessoas não é capaz dessa perfeição. O
ornamento disfarça a banalidade e a falta de ideias. É realista. Também Goethe
lembrava a importância do ornamento. Era realista.
Quem discorda de mim
deixe de usar maquilhagem e condene o seu uso. Se as pessoas usam maquilhagem é
precisamente para disfarçar. O quê? A banalidade e a imperfeição. Não usar
ornamento é anunciar-se perfeito. Pronto para a admiração dos outros.
Sim. A aparente
simplicidade é apenas uma forma de presunção. E sendo os arquitectos treinados
para se apresentarem perfeitos deixam de aprender o essencial para quem não
sabe exprimir o essencial: o ornamento.
Ao pé do meu trabalho
está a ser feito um edifício de betão e vidro. Por cima encheram-no de um
ornamento que parece um glacé. Branco como um bolo de noiva sobre uma armadura
de Panzer. Nem perfeição nem bom ornamento.
Le Corbusier detestava
Roma. Fez belas vivendas de ricos. E bairros sociais de uma fealdade sem nome.
Parte deve-se não a teorias mas a um limite da modernidade. A dificuldade na
composição. Nem catedrais. nem basílicas. nem urbanismo. Apenas pequenas casas
de ricos as fazem belas, belíssimas.
Mas parte deve-se a uma
teoria que não sabe ensinar a grande composição e esquece ao mesmo tempo a arte
do ornamento. Deixam de ser génios e não sabem ser artesãos. E os primeiros só
aparecem num mundo rico dos segundos.
Alexandre Brandão da
Veiga
0 comentários:
Enviar um comentário