segunda-feira, 9 de março de 2026

Arquitectura beleza e ornamentação

 

Um amigo meu esteve em Barcelona há muitos anos. Mostrou-me uma fotografia de um edifício. Perguntou-me se eu conseguia adivinhar quem fosse. Por instinto disse: parece Bauhaus, diria Mies van der Rohe. Saiu-me. Ele disse que eu tinha razão. Como eu tinha adivinhado? Não gosto de adivinhas. Não costumo responder a elas. E nunca me passaria pela cabeça relacionar Mies van der Rohe e Barcelona.

 

Schiller dizia na sua «Poesia Ingénua e Sentimental» que a maioria das pessoas deveria cobrir com os véus da arte a sua natureza asquerosa. Sim, o mesmo Schiller do «Hino à Alegria». «Todos os homens são irmãos...»

 

Qual a relação entre Mies van der Rohe e Schiller? Se reconheci a obra do arquitecto foi pela sua pureza e perfeição. Mas a imensa maioria das pessoas não é capaz dessa perfeição. O ornamento disfarça a banalidade e a falta de ideias. É realista. Também Goethe lembrava a importância do ornamento. Era realista. 

 

Quem discorda de mim deixe de usar maquilhagem e condene o seu uso. Se as pessoas usam maquilhagem é precisamente para disfarçar. O quê? A banalidade e a imperfeição. Não usar ornamento é anunciar-se perfeito. Pronto para a admiração dos outros.

 

Sim. A aparente simplicidade é apenas uma forma de presunção. E sendo os arquitectos treinados para se apresentarem perfeitos deixam de aprender o essencial para quem não sabe exprimir o essencial: o ornamento.

 

Ao pé do meu trabalho está a ser feito um edifício de betão e vidro. Por cima encheram-no de um ornamento que parece um glacé. Branco como um bolo de noiva sobre uma armadura de Panzer. Nem perfeição nem bom ornamento.

 

Le Corbusier detestava Roma. Fez belas vivendas de ricos. E bairros sociais de uma fealdade sem nome. Parte deve-se não a teorias mas a um limite da modernidade. A dificuldade na composição. Nem catedrais. nem basílicas. nem urbanismo. Apenas pequenas casas de ricos as fazem belas, belíssimas.

 

Mas parte deve-se a uma teoria que não sabe ensinar a grande composição e esquece ao mesmo tempo a arte do ornamento. Deixam de ser génios e não sabem ser artesãos. E os primeiros só aparecem num mundo rico dos segundos.


Alexandre Brandão da Veiga

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