segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O ismaelismo como experiência de civilização II

 

 

Os momentos de suposta abertura e tolerância são acima de tudo cálculos políticos:

1)    Um dos vizirs do califas fatímidas, ‘Isa n. Nasturus, era copta, e havia a prática de atribuir postos a judeus e cristãos, mas a maioria da população não era ismaelita, era sunita e cristã, e mesmo assim isso teve como efeito que os sunitas destruíssem igrejas e matassem cristãos (p. 177), como é típico nas sociedades multiculturais. O próprio b. Nasturus acaba condenado à morte (p. 179). No século X no Egipto os sunitas e os cristãos coptas eram a maioria da população (p. 159). O poder califal tem medo do poder do seu vizir arménio, que tem um exército próprio (pp. 248-249). O governo tem de se vergar perante o poder deste vizir, mas, perante a política pró-arménia deste vizir, a populaça muçulmana revoltou-se e foi a intervenção de Rogério II da Sicília que o salvou (p. 249). O poder califal pede o apoio de um outro arménio, governador do Alto Egipto, que luta contra os cruzados e que assume o poder efectivo do Estado (pp. 250-251). Um monge cristão é encarregado da tratar das questões financeiras do Egipto, mas morre em 1129 fustigado (p. 244).

2)    A protecção dos cristãos, judeus e zoroastrianos depende do pagamento da «jizya» (p. 56). A relação sinalagmática entre a protecção e o pagamento é a que existe no sistema mafioso. Há conversões ao islão por razões fiscais (também p. 56). O califado no seu início tinha como principal receita o quinto do saque (p. 42).

3)    Há sempre contactos. Já’far al-Sadiq, apesar de xiita, é considerado uma fonte que descreve bem as autoridades pelos sunitas (p. 80). Sunitas e xiitas unem-se no ódio em relação aos soldados turcos seljúcidas (p. 196). O imperador Constantino IX (1042-1055) tinha excelentes relações com os fatímidas do Egipto, e forneceu estes quando da fome de 1054 (p. 198). Como é típico de zonas de fronteira, há aliança entre cruzados e muçulmanos no Levante (p. 368). O rei Amalric I de Jerusalém no século XII pune os templários porque desrespeitaram os acordos com muçulmanos e apresenta a estes as suas desculpas (p. 369). Em 1130 ismaelitas fugiram para o território dos cruzados das perseguições de sunitas (p. 349). Um contingente de Nizaris ajuda Raymond de Antioquia (p. 352). Depois do assassinato de Raymond II de Antioquia, os templários e os cristãos vingaram-se dos Nizaris (p. 352). Apesar de ter criticado as visões dos sunitas e europeus em relação aos «assassinos», a verdade é que o Autor reconhece (pp. 328, 377) que organizavam assassinatos políticos, lembrando em algo os zelotas judeus. As relações entre os ismaelitas Nizaris e os sunitas Khwarazmian, que substituíram os turcos seljúcidas, eram caracterizadas pelo assassínio, guerra e negociação (p. 387). Os Nizaris sírios tentam estabelecer relações amistosas com os Baybars quando é do seu interesse (p. 399). O título de Agha Kahn é dado pelo xá da Pérsia no século XIX (p. 464). Mas em 1841 o Agha Khan deixa a Pérsia (p. 469).

4)    Desde 1839 Agha Khan se alia aos britânicos, e terá apoiado as suas actividades na Pérsia no interesse de manter o domínio britânico na Índia (pp. 469, 481). Mostra que a vida «laica» actual dos ismaelitas tem origem política (a aliança com o Ocidente, e terem perdido o seu Estado) e religiosa (a prevalência do «batin»). Quando em 1843 os britânicos tentam conquistar o Balochistão, o Agha Khan ajuda-os (p. 470). Mantém a sua ligação aos britânicos quando da visita do futuro Eduardo VII à Índia (p. 474, e depois a p. 477). Em 1902 o vice-rei da Índia, Lord Curzon, nomeia-o como membro do Conselho Legislativo (p. 481). Em 1908 pela primeira vez um Agha Khan se casa com uma ocidental, Teresa Magliano (p. 482). Duas das mulheres com quem casa são plebeias e só a terceira é nobre (pp. 482-483). Já em 1914 promove medidas de assimilação (p. 482). Promove a modernização, a educação e o bem estar dos ismaelitas (p. 484). É graças ao apoio dos britânicos que Agha Khan impede que haja mais perseguição dos seus seguidores do Khurasahan (p. 493). O ismaelismo nasce de um dos grupos mais extremistas do xiismo (p. 92).

 

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