O ismaelismo como experiência de civilização II
Os
momentos de suposta abertura e tolerância são acima de tudo cálculos
políticos:
1)
Um
dos vizirs do califas fatímidas, ‘Isa n. Nasturus, era copta, e havia a prática
de atribuir postos a judeus e cristãos, mas a maioria da população não era
ismaelita, era sunita e cristã, e mesmo assim isso teve como efeito que os
sunitas destruíssem igrejas e matassem cristãos (p. 177), como é típico nas
sociedades multiculturais. O próprio b. Nasturus acaba condenado à morte (p.
179). No século X no Egipto os sunitas e os cristãos coptas eram a maioria da
população (p. 159). O poder califal tem medo do poder do seu vizir arménio, que
tem um exército próprio (pp. 248-249). O governo tem de se vergar perante o
poder deste vizir, mas, perante a política pró-arménia deste vizir, a populaça
muçulmana revoltou-se e foi a intervenção de Rogério II da Sicília que o salvou
(p. 249). O poder califal pede o apoio de um outro arménio, governador do Alto
Egipto, que luta contra os cruzados e que assume o poder efectivo do Estado
(pp. 250-251). Um monge cristão é encarregado da tratar das questões
financeiras do Egipto, mas morre em 1129 fustigado (p. 244).
2)
A
protecção dos cristãos, judeus e zoroastrianos depende do pagamento da «jizya»
(p. 56). A relação sinalagmática entre a protecção e o pagamento é a que existe
no sistema mafioso. Há conversões ao islão por razões fiscais (também p. 56). O
califado no seu início tinha como principal receita o quinto do saque (p. 42).
3)
Há
sempre contactos. Já’far al-Sadiq, apesar de xiita, é considerado uma fonte que
descreve bem as autoridades pelos sunitas (p. 80). Sunitas e xiitas unem-se no
ódio em relação aos soldados turcos seljúcidas (p. 196). O imperador
Constantino IX (1042-1055) tinha excelentes relações com os fatímidas do
Egipto, e forneceu estes quando da fome de 1054 (p. 198). Como é típico de
zonas de fronteira, há aliança entre cruzados e muçulmanos no Levante (p. 368).
O rei Amalric I de Jerusalém no século XII pune os templários porque
desrespeitaram os acordos com muçulmanos e apresenta a estes as suas desculpas
(p. 369). Em 1130 ismaelitas fugiram para o território dos cruzados das
perseguições de sunitas (p. 349). Um contingente de Nizaris ajuda Raymond de
Antioquia (p. 352). Depois do assassinato de Raymond II de Antioquia, os
templários e os cristãos vingaram-se dos Nizaris (p. 352). Apesar de ter
criticado as visões dos sunitas e europeus em relação aos «assassinos», a
verdade é que o Autor reconhece (pp. 328, 377) que organizavam assassinatos
políticos, lembrando em algo os zelotas judeus. As relações entre os ismaelitas
Nizaris e os sunitas Khwarazmian, que substituíram os turcos seljúcidas, eram
caracterizadas pelo assassínio, guerra e negociação (p. 387). Os Nizaris sírios
tentam estabelecer relações amistosas com os Baybars quando é do seu interesse
(p. 399). O título de Agha Kahn é dado pelo xá da Pérsia no século XIX (p.
464). Mas em 1841 o Agha Khan deixa a Pérsia (p. 469).
4)
Desde
1839 Agha Khan se alia aos britânicos, e terá apoiado as suas actividades na
Pérsia no interesse de manter o domínio britânico na Índia (pp. 469, 481).
Mostra que a vida «laica» actual dos ismaelitas tem origem política (a aliança
com o Ocidente, e terem perdido o seu Estado) e religiosa (a prevalência do
«batin»). Quando em 1843 os britânicos tentam conquistar o Balochistão, o Agha
Khan ajuda-os (p. 470). Mantém a sua ligação aos britânicos quando da visita do
futuro Eduardo VII à Índia (p. 474, e depois a p. 477). Em 1902 o vice-rei da
Índia, Lord Curzon, nomeia-o como membro do Conselho Legislativo (p. 481). Em
1908 pela primeira vez um Agha Khan se casa com uma ocidental, Teresa Magliano
(p. 482). Duas das mulheres com quem casa são plebeias e só a terceira é nobre
(pp. 482-483). Já em 1914 promove medidas de assimilação (p. 482). Promove a
modernização, a educação e o bem estar dos ismaelitas (p. 484). É graças ao
apoio dos britânicos que Agha Khan impede que haja mais perseguição dos seus
seguidores do Khurasahan (p. 493). O ismaelismo nasce de um dos grupos mais
extremistas do xiismo (p. 92).