quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Três ideias sobre Nietzsche II

 


 

E eis que a aparece a terceira observação. Todo o projecto de Nietzsche é o de demonstrar a falsidade do «nulla salus sine Ecclesia». Não há salvação fora da Igreja. O que ele diz é: eu serei a minha própria Igreja, e fabricarei a Igreja que me há-de sustentar. Deu-lhe um nome. O de super-homem. Assente nas suas próprias forças, e próprio fundamento, sua própria escora, esse super-homem conseguiria fazer do nada, criar a partir do nada, ou de uma massa informe, talvez seja mais correcto dizer assim, porque sem o Deus cristão nem o nada existe…

Criar a partir desse quase nada, dessecados… Mas de que caos, mas criar o quê, com que forças? Eis a sua experimentação. Sobretudo, sem pecado, sem pecado original, sem base a não ser a de uma tradição grega… Nietzsche sem a tradição é incompreensível. Alguma tradição. A dos gregos, ou mais precisamente a de como os alemães cultos da sua época viam os gregos.

O problema é que essa tradição alemã era marcada pelo cristianismo. O problema é que quis criar com base na filologia, a ciência mais cautelosa em relação à criação. A mais legitimamente desconfiada em relação a conceitos como o de criação, nomeadamente a artística. Queria criar um aristocrata a partir do que o não era, uma glória sem genealogia, um brasão sem campos.

Uma salvação sem o Cristo, ou o afundamento. E Nietzsche afundou-se, depois de um ataque de piedade, a sua primeira natureza venceu, seja o que resultasse de uma primeira natureza tão martirizada por anos de pensamento destruidor da sua parte. Os cavalos de Aquiles falavam. O cavalo de Nietzsche apenas sofreu. Nem o cavalo falou com ele. Queria ser aristocrata, e Cristo ele mesmo. Fundamento do mundo. Boa tentativa. E falhou. Num filósofo a sua vida é fraco argumento contra as suas teorias. O cristianismo ensinou-nos a apreciar a obra de um autor independentemente da sua exemplaridade moral. Mas no caso de Nietzsche a sua vida era a obra prima que ele estava a tentar conseguir com a sua obra. E a sua vida afundou. A sua obra toda ela soçobra.

Hitler, que, como é moda, admirava o islão e falava de civilização judaico-cristã, mandou realizar em pedra algumas das obras, porque percebeu que as ruínas do betão eram feias. Mais que obras belas para o presente, queria fazer ruínas belas para o futuro. Eis o que é a obra de Nietzsche. Desde a origem uma obra que se anuncia como uma ruína, um aviso, um resto. A ser admirada, a suscitar-nos ternura em certos momentos, admiração noutros.

Mas a ser seguida…

No fundo, Nietzsche tem razão. Dizia que devia ser lido com desconfiança. Se Jung é genial, os jungianos em geral são insuportáveis, salvo Marie Luise von Franz. Se Nietzsche é genial, os seus esbirros são insuportáveis. Mas para o próprio Nietzsche. Ele seria o primeiro a desprezar os seus esbirros, os seus idólatras, os seus seguidores. O seu fracasso ao menos foi espectacular, trágico, banhado pela beleza crepuscular. Os seus seguidores vivem em antros de pequenas dimensões, e confundem a fraca luz que os ilumina com o entardecer do mundo, a pequenez da sua vida com a discreta semente do futuro. Mas são exactamente o inverso de Nietzsche. Ele ao menos experimentou. Eles apenas copiam.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

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