domingo, 22 de junho de 2008

Sem Ódios, mas com muitas irritações


Caro Manuel,

Seis!? Um já é um exagero.

Ódios momentâneos são irritações que passam, não contam. Dão-nos graça.

Mas quando não passam são ódios que, ficando, nos destroem. O maior medo é o ódio a nós próprios. Aquele que nos pode acompanhar sempre se não aprendermos a amar. Porque é o próprio aquele que o Ódio destrói.

Os Ódios são sequelas de tudo o que nega o amor, tudo o que nega a humildade, tudo o que nega o despojamento, e que na distância de cada para consigo próprio gera a inveja, a avareza, a soberba, etc....

As irritações têm graça. São inconsequentes. Mas são também a nossa desistência momentânea de resistir. Mas quem aguenta ouvir uníssonos como:

— a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade dos outros!
— tudo é arte!
— está cientificamente provado!

Ou as campanhas:

— Tolerância Zero (para esconder a Intolerância total);
— Todos diferentes todos iguais. (para tornar igual tudo o que é diferente e tornar diferente tudo o que é igual);
— Cartão jovem: a tua identidade! (para produzir jovens contentinhos e intervenientes a partir da sua propalada juvenil irreverência);
— ler jornais é saber mais! (como se houvesse uma relação necessária entre ler jornais e saber);

Ou as confissões falsamente compungidas que fazem do sofredor um herói e um exemplo de vida:

— os espectadores de comédias não imaginam o sofrimento que vai na alma do cómico, que mesmo a rir e a fazer rir está a sofrer por dentro!

Tudo isto gera irritações porque são fórmulas para inibir e evitar que se pense. Não creio que sejam Ódios propriamente.

Por fim, o que é detestável:

— a desfaçatez e a sua personalidade dissimulada;
— a falta, reflexa e geral, do sentido do ridículo;
— o espírito lamuriento;
— a vitimização;
— a falta de espontaneidade, de genuinidade e de autenticidade;
— os lugares-comuns apresentados como se fossem novidades;
— falar em nome dos outros dizendo o que eles querem mesmo que eles não queiram;
— o que destrói o encanto.

Não sei se são Ódios, como disse, estes sentimentos que nos alteram. O Ódio é uma negação absoluta. Não estamos em condições de odiar. A não ser que saiamos absolutamente de nós e nos deixemos absolutamente possuir, isto é, desalmar. Mas, por isso, é que o Ódio mata acima de tudo quem odeia.

4 comentários:

Helena Forjaz disse...

João Luis, adorei o seu post.
Dei por mim a pensar que ainda tenho um longo caminho pela frente. É que eu muitas vezes sinto que "saio absolutamente de mim"!

Manuel S. Fonseca disse...

Caro João Luís, quero acreditar, como está implícito no seu post, que quem muito ama muito menos odeia. Tudo, é claro, na poética crença de que o amor nos faz mais fortes e indestrutíveis.

Anónimo disse...

Mais um texto inspirado ...
- na civilização cristã.
JW

Inez Dentinho disse...

São estes posts que nos enchem de preguiça pela via do dever já cumprido por outros. Não posso estar mais dentro do que o João Luís escreveu.
Tentarei encontrar as minhas profundíssimas irritações num futuro post já que o ódio a sério, enquanto o amor for presente, não me tem visitado.