segunda-feira, 22 de março de 2010

A herança do nazismo

Um dos aspectos em que mais se revela a infantilidade da nossa época é a sua relação com o nazismo. Transformado no mal absoluto, essa mesma transformação tem consequências patológicas de toda a espécie. Vejamo-las: a) todo o povo alemão é culpado, b) o nazismo não faz parte da História mas do mito, c) o nazismo foi apagado e só aparece em margens.

Pode-se dar o caso de todo o povo alemão ser culpado, admitamo-lo. Como a França e a Inglaterra que com ele pactuaram e que tiveram nas suas elites fortes defensores do nazismo, o mesmo se dizendo de Portugal, Espanha, Roménia... A lista não pararia. E a verdade é que se trata do único povo da Historia que pagou efectivamente os custos das suas asneiras. E em grande medida motu proprio. A principal teorização anti-nazi parte em grande medida da própria Alemanha e nunca um povo com o poder que tem o alemão desde os anos 60 pagou tão colossais indemnizações de guerra.

Para o pensamento oficial o nazismo não faz parte da História, é como uma Encarnação do Mal, uma História de Anticristo. Ao contrário de todos os outros fenómenos históricos, que têm uma perspectiva de compreensão humana, o nazismo é dado como o incompreensível. Até Átila, as crueldades assírias, dos turcos e mongóis, o genocídio dos arménios e assírios pelos turcos em 1915, até isso tem explicação e pode ser objecto mesmo de simpatia. Mas o nazismo é considerado fora da compreensão humana.

O nazismo para esse mesmo pensamento oficial foi apagado. Mas como tudo o que é afastado por um passe de mágica aparece onde menos se espera. Em vez de se ter integrado o nazismo no nosso passado comum, praticou-se um exorcismo; faz-se de conta que já foi apagado, salvo uns grupúsculos que são considerados como casos clínicos.

Este pensamento oficial é ele mesmo patológico e infantil. Porque nada está fora da História, nada na vida humana está fora da vida humana, mesmo que se possa entender que a sua fonte lhe é externa. O nazismo como uma anti-Encarnação é um mito anticristão ele mesmo, mas construído com instrumentos de pensamento cristãos. Nada se apaga da História, e quanto mais recalcada uma realidade, mais ela se manifesta de forma difusa, inconveniente, inesperada. Por isso as metástases do nazismo são tão insistentes na nossa época.

É isso que tentarei fazer. Ver as heranças do nazismo que imperam no actual espaço público.

Algumas são evidentes. Existe uma herança cultural que não se deve tanto ao nazismo, mas à Alemanha enquanto era nazi. Enquanto o era não deixou de ser Alemanha, e não deixou de produzir génio e excelência. Heidegger, Benn, Heisenberg, Richard Strauss não passaram a ser lerdos só porque viviam num regime totalitário, como Prokofiev ou Chostakovski não passaram a ser duros de ouvido por viverem em ditadura. São conhecidas as caças aos cientistas e descobertas alemães depois do nazismo. E se os Estados Unidos devem o programa espacial a von Braun, o caso mais conhecido, ainda estão por esclarecer os roubos que americanos e soviéticos fizeram à ciência alemã. Malvados e imperdoáveis os nazis, mas pelos vistos bastante valiosos para os vencedores.

Mas esta não é uma herança do nazismo propriamente dito, embora Heidegger, um dos grandes mestres da esquerda libertária europeia, esteja bem longe de ser um anti-nazi. A sua herança encontra-se noutros planos.

Em primeiro lugar, o anti-cristianismo. O nazismo não inventou o anti-cristianismo. Este existe desde que existe cristianismo. Todos os grandes movimentos geram reacções e adversários. E em graus diversos sempre existiu na Europa, sob a capa da heresia, da política de Estado, interesses comerciais ou outros. Mas o nazismo é filho da Revolução Francesa (onde se viu um cabo austríaco a governar um país, como lhe chamava o aristocrata Churchill), da revolução industrial inglesa, do empirismo e do racionalismo, tanto quanto dos movimentos irracionalistas do século XIX. Hoje em dia alguns intelectuais anticristãos (penso em Onfrey em França, por exemplo) inventam simpatias do nazismo pelo cristianismo que não existiram. Mas a frase de Hitler: “primeiro os judeus, depois os católicos”, a perseguição de clérigos, a perseguição das aparições marianas dos anos 30 em nome da ciência (?) e da ordem pública (!), o especial cuidado em eliminar os judeus convertidos ao catolicismo, e a própria mensagem racista e eugénica negam frontalmente tanto os ensinamentos crísticos como o das igrejas institucionais. Isto associado à simpatia de Himmler pelo Islão, de tal forma que criou Waffen SS constituídas exclusivamente por muçulmanos. O nazismo não foi original neste papel em comparação com o comunismo, salvo na preservação das igrejas como monumentos históricos. É o mesmo modelo que se encontra hoje em dia. Acarinham-se os templos como meros monumentos históricos, ao mesmo tempo que se recusa o seu papel constitutivo da cultura europeia. Nisto a Europa actual é herdeira do nazismo mais uma vez.

Em segundo lugar, o ódio à tradição. A tradição não é o antigo, ao contrário do que se pensa. É o transmitido. O que é transmitido pode ser bem mais recente. Muitos tradicionalistas do Vaticano I foram confrontados com críticos que se escoravam... nos Padres da Igreja. E para se criticar a moral cristã recorreu-se mil vezes a Epicuro e aos cirenaicos, muito mais antigos que os ensinamentos de Cristo. Também nisto o nazismo não é original. Participa do mito da criação do homem novo, e da mesma seiva dos movimentos futuristas. O futuro como exclusivo motor associado a um passado reinventado é apanágio das ditaduras do século XX, sobretudo do nazismo e estalinismo. Uma Europa que se quer construir com base num passado mítico, em que afinal tivemos mil imperadores e génios muçulmanos, em que afinal fomos apenas encruzilhada de civilizações e não uma civilização em pleno título, associado a uma ideia que nos temos de virar para o futuro depois de termos arrumado sumariamente o passado é o paradigma da actual fase da construção europeia.

Em terceiro lugar, o culto da natureza, do corpo e do desporto associado a uma ideia de superioridade moral do vegetarianismo. Também aqui o nazismo não é original, tendo ido beber à República de Weimar a sua imensa capacidade de antecipar o futuro do século XX. Ainda está por se fazer um hino ao desporto como o filme de Leni Riefenstahl sobre Munique. Mas está lá antecipado muito do espírito da Europa actual. O que nos ocupa tempo dá-nos a medida da importância que objectivamente lhe damos. O tempo que nos ocupam estas tendências diz muito sobre que solo se quer construir a Europa actual, mais uma vez aqui antecipada pelo nazismo (lembro mais uma vez que dos primeiros panfletos ecológicos em papel reciclado era anti-semita, da extrema esquerda alemã).
Em quarto lugar, o racionalismo mágico, que é esta mistela entre referências científicas não digeridas e usadas como fonte de legitimação associadas a uma concepção mágica da vida, em que se julga ser o futuro moldável apenas por esquecimentos e desejos. As curas “quânticas” (!!!), a simpatia pelo lado reptiliano (os dinossauros e os répteis nunca estiveram tanto na moda), a associação entre a alta tecnologia e uma diferenciação moral primeva são todos eles sinais do parentesco da época actual com o nazismo.

Em quinto lugar, como não podia deixar de ser, o anti-semitismo: no fórum altermundialista de Durban circulavam entre ecologistas, altermundialistas e fundamentalistas islâmicos o Protocolo dos Sábios de Sião e o Mein Kampf. O anti-semitismo passou a ser frequentável, e refere-se hoje em dia expressamente ao nazismo, não tanto nos movimentos de direita (que salvo franjas recorrem mais à tradição anti-judaica cristã que ao anti-semitismo) mas mais do lado das novas esquerdas. Sob a capa do anti-sionismo o ódio ao judeu instila-se nos sacerdotes da verdade absoluta dos relativismos culturais.
Em sexto lugar, a teoria da mentira de Goebbels. Uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade. Todo o político mente, mas foram os nazis que instauraram esta necessidade compulsiva de construir a verdade absoluta com base na mentira. É sua a ideia da política como reposição de verdades escoradas em mentiras. É o que se fez com a guerra do Iraque (“armas de destruição em massa” passa a ser “democracia” como motivos), mas sobretudo com a adesão turca à Europa. Tanto se dirá que a Turquia é um país europeu que as pessoas passarão a acreditar. Mas a História não terminou bem para Rosenberg nem para Goebbels. E este mundo político pretende estar na reforma quando o boomerang se voltar contra eles.

Em suma, e em tema difícil de caber em poucas linhas, dois efeitos teremos desta invasão nazi no nosso espaço público. Uma diferenciação sentimental que se esbate, orientalizando a Europa, que já está disposta a ter residentes oprimidos em nome em nome de culturas em declínio e abrindo mais ainda o espaço à crueldade. E consequentemente à guerra. E uma Europa de mentiras marteladas até cheirarem ao sangue da verdade. Até que comece a correr um outro mais verdadeiro.

Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 17 de março de 2010

A escolha de Obama

Obama vem a Portugal, no próximo mês de Novembro, cumprindo a agenda da NATO. Terá recusado um convite prévio em solo espanhol dando um sinal que tardou, mas não falhou.
Na verdade, muitos se interrogaram sobre a razão que levou Durão Barroso a acolher, nos Açores, a cimeira que reuniu Bush, Blair e Aznar para debaterem a Guerra do Iraque. Porquê Aznar e Durão nesse encontro? Porque o Primeiro-Ministro espanhol tinha transferido o eixo tradicional da política externa de Madrid, do Continente para o Atlântico. Queria ser o parceiro de Washington na Península Ibérica, lugar ocupado por Portugal desde o centenário Tratado de Windsor, «herdado» pelos americanos no século XX.
Evitar ser secundarizado na geoestratégia do Atlântico terá movido Durão para a pista das Lages ficando conhecido como «o porteiro da Europa». Pior sorte tiveram os povos de Aznar e de Blair que sofreram atentados nos comboios e no metropolitano. Bush, pelo seu lado, passou à história como o homem da guerra dispensável sendo ainda cedo para saber se essa guerra foi ou não decisiva para evitar a reincidência do terrorismo nos EUA.
Nessa altura, Zapatero deveu a sua vitória à mentira da Direita sobre a matança de Atocha quando todas sondagens confirmavam Aznar no poder (que inicialmente atribuiu a responsabilidade à ETA). Logo depois, o socialista espanhol apressou-se a rever o pendor Atlântico da política externa de Madrid, invertendo os compromissos assumidos com Washington.
Obama recupera, em Lisboa, o valor seguro de uma aliança que não conhece flutuações politico-partidárias. Olé!

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terça-feira, 16 de março de 2010

O poder de Ricardo Costa


Acompanhei o Congresso do PSD em Mafra, no Sábado, e em casa, no Domingo. Não sendo congressista, conhecia as propostas de alterações dos estatutos e ouvi as intervenções dos autores. No Domingo, quando assisti à confusão das votações percebi, em directo pela TV, que a mesa do congresso não estava a par das exigências processuais previstas; que os principais candidatos não tinham estados de alma sobre as alterações; e que a maioria dos jornalistas também não estava atenta ao que tinha sido proposto.

Ricardo Costa, mais rápido e mais experiente, também não me pareceu a par do conteúdo da proposta de sanções para deslealdades de militantes durante as campanhas (e pré-campanhas) eleitorais. E, em directo, quando realizou o que estava a ser votado, incrédulo, disse qualquer coisa como: «Será que os delegados sabem o que estão a votar? Eles não se aperceberam disto, com certeza. Isto é uma lei da rolha! É uma verdadeira lei da rolha!».

Com a velocidade dos auriculares e dos telemóveis, o congresso mudou em 30 segundos. De repente, aquilo que nenhum dramatizara antes, passou a ser uma objecção de consciência, um pecado democrático, um nojo. Os reporteres à saída usaram a expressão de Ricardo Costa nas perguntas aos três candidatos que, em uníssono, se distanciaram da iniciativa. Posso dizer, com alguma nostalgia, que a competência do jornalista, ainda que tardia, se sobrepôs largamente à dos três candidatos e da mesa do congresso, liderando a questão em vez de a seguir. Isso não invalida o que penso sobre a medida. (post anterior)

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segunda-feira, 15 de março de 2010

Vi numa barca farta e pútrida

Vi numa barca farta e pútrida
Um velho homem cansado do seu ofício
- Eu não existo – declarou solene –
- Uma moeda pela tua passagem.

Soltei a corda de uma surda bolsa
Que só viu noites em sombria caixa.
- Não pago – pensei eu -. Ao leme
Não pode estar quem não fez viagem.

Ficar na margem ou ir para outra:
Aceitar uma viagem é obediência,
E quer ficar o que desiste.

- Não há escolha – disse eu ao sorriso do homem –
- E não haverá viagem nem permanência
Quando um não paga e o outro não existe.
Alexandre Brandão da Veiga

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domingo, 14 de março de 2010

A liberdade, a rolha e o PSD


O Congresso do PSD foi um festim de unidade e democracia que terminou com delegados e jornalistas a votarem e a comentarem a proposta de sanções para a deslealdade em tempo campanha.
É irónico ver como um encontro, convocado em nome do debate e da expressão livre, não consegue digerir a ideia, tão comum em Inglaterra, de respeito à informação classificada em tempo de guerra. Também na política os objectivos da conquista do poder e da sobrevivência se sobrepõem momentaneamente a algumas liberdades cívicas, indiscutíveis no tempo em que se limpam armas.
Só um País politraumatizado por 64 anos de ditadura não entende que o dever da lealdade mínima supera, por vezes, o das manifestações de opinião em público. Um trauma que nenhum dos candidatos pôde desconsiderar.
Dois meses de espírito comum é muito tempo? Conte-se a agenda mediática e veja-se se as Presidenciais não estão a ser discutidas com um ano de antecedência.
Uma coisa é certa: um pouco mais de carácter, de lealdade ou de sentido de corpo e este preceito seria dispensável.

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quarta-feira, 10 de março de 2010

Read my lips!


«Read my lips, no new taxes!».
A declaração de George Bush (Pai) na Convenção Nacional Republicana que o confirmou como candidato às Presidenciais, em 1988, seria desautorizada pelo próprio depois das eleições, com a subida de impostos, e tornar-se-ia na frase mais sintética para ilustrar as promessas invertidas dos políticos, antes e depois de serem eleitos.
Também José Sócrates prometeu não subir impostos; não falou em reduzir as deduções fiscais (como ficam as famílias numerosas com despesas de educação e de saúde?) ou em criar novos escalões no IRS; já para não falar no adiamento do TGV ou no congelamento de salários, com os quais concordo mas que representam o mesmo logro para quem votou acreditando nos seus lips. Isto, quando o PEC já estava previsto e as medidas para o alcançar também.
O que importa: falar verdade ou «adiar» a verdade? Não conhecíamos já esta performance quando, em 2005, prometeu não cobrar nas SCUT, não aplicar taxas moderadoras ou criar 150 mil postos de trabalho? Não foi reeleito, há pouquíssimo tempo, com inteiro respeito pelas regras da democracia?
Certamente porque lhe faltou alternativa. Ou porque, como diz Jean Jaques Rousseau: «Os escravos, com os seus ferros, tudo perdem, até o desejo de os quebrar, amam o cativeiro como os companheiros de Ulisses amavam o embrutecimento».

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segunda-feira, 8 de março de 2010

O que é a Europa? V

O universalismo destes quatro critérios parece-me cada vez mais assente. Porque não o vou buscar as declarações políticas. Mas a todos os campos da cultura da Europa, e a todos os campos em que a confronto com as outras. Como tenho vindo a demonstrar, desde a matemática, à física, a ciência em geral, teologia, filosofia, História, às vivências do dia a dia, a categorias que usamos, os sentimentos que nos atravessam estão permeados destas inércias.

Elas não nos limitam: definem-nos. Todos os seres humanos no mundo vivem felizes com a sua definição. Os europeus parecem querer apagar-se do mapa, por não quererem ser distintos. A indistinção dissolve, e todo o discurso que recuse diferença específica à Europa, é apenas destruidor. Bastou-me um Átila e um Tamerlão. De turco-mongóis já tivemos experiências que cheguem: adoráveis, para quem gosta, gloriosas, no modo de empilhamento de caveiras, mas sem dar uma ponta de viço à alma europeia.

Que o discurso político actual se confronte com a destruição e o parasitismo, diz mais sobre quem o profere que sobre a justiça do que afirma. Ficam com o seu autor os motivos suicidários. Aprovo-lhes a motivação, apenas lamento não terem coerência para consumarem o facto.

Não termina aqui o problema. Temos de avançar para mais uma das suas dimensões: o debate entre a inércia e a vontade. Bacon dizia que para dominar a natureza temos de obedecer às suas leis. Frase muito simples, mas que constituiu a base mais fundamental de toda a ligação entre a ciência e a tecnologia na cultura europeia. Negá-la é cair no fetichismo.

Ora bem, que nos dizem os sapientes da hora? A Europa é uma construção anti-histórica (ou seja, sem inércia, ou seja, sem lei da natureza). O que seja a Europa depende apenas da nossa vontade (ou seja, mais uma vez pertence a uma natureza sem leis).

O discurso político apoia-se assim em puro fetichismo. Contrário à ciência, invoca em vão o seu nome.

O plano da vontade implica por isso mais duas questões: o da possibilidade e dos custos. O primeiro é o do efectivo poder da vontade para mudar as coisas. O segundo o do que se perde com essa mudança.

O que significa uma inércia histórica? Que nada pode ser mudado? De todo. Muito pode ser mudado, mas desde que se percebam e se apoie na inércia histórica. Que esta seja usada exactamente para ajudar o impulso e não o contradizer continuamente.

A Rússia soviética aproxima-se cada vez mais da política tzarista. É natural: inércia histórica. A revolução francesa deixa incólumes estruturas antigas e até reforça algumas estruturas desigualarias: inércia histórica. Os países do Médio Oriente tiveram desde há décadas de optar entre laicidade e democracia, da Turquia ao Egipto, nunca os podendo conciliar: inércia histórica.

Estamos obviamente a falar de inércias históricas de diferentes fôlegos. De fôlego muito menor do que é constitutivo da Europa. E por isso muito menos poderosas. Quanto mais será o poder do quádruplo pilar da Europa.

Podemos mudar? Sim, mas com custos. Podemos querer transformar países asiáticos em europeus. Mas com um esforço imenso e com o permanente risco da elasticidade os fazer retornar com ainda mais força ao seu asiatismo.

Podemos mudar de sexo, fazer operações às pernas para ficarem maiores. Os sofrimentos compensam os benefícios? Talvez. Existe a certeza de não haver sequelas? Nunca. E quando falamos de massas elásticas, induzidas pela inércia, corremos o risco sempre e mais uma vez de o retorno à situação original ser ainda mais violento. De querer transformar em Europa o que não é acabamos por criar uma Ásia ainda mais se torna Ásia.

Nas discussões científicas usa-se com frequência um termo que muitos julgam jurídico, mas vem da dialéctica: o de ónus da prova. Este é invertido quando alguém propõe um modelo. Está invertido. Mas para o rebater que não se indiquem jornais, nem documentos burocráticos, nem boas intenções. Ter consistência é um atrevimento na nossa época. Que alguém de atreva, pois.




Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 5 de março de 2010

O Terreiro socialista


Tem sido confrangedor assistir ao sectarismo jacobino do actual Executivo da Câmara Municipal de Lisboa sobre a visita do Papa Bento XVI no próximo mês de Maio. O governo da cidade que mais cristãos deu ao Mundo e que, também por isso, é (com Veneza) sede de um dois únicos Patriarcados da Igreja Ocidental, não faz o mínimo esforço por receber com dignidade o Chefe da Igreja Católica.
Do ponto de vista puramente secular, esta é uma oportunidade de ouro para projectar Lisboa internacionalmente dada a cobertura que as visitas pontifícias sempre despertam em todo o Mundo. Sendo a missa de Lisboa no Terreiro do Paço, não deveria a Câmara empenhar-se nesta projecção? O que não dariam os alcaides de Barcelona, Valência ou Sevilha por uma oportunidade destas? (para não falar de Madrid).
António Costa, e a sua equipe, ao nada contribuírem para o palco, os écrans, o som e o embelezamento do Terreiro do Paço estão a limitar, de forma escandalosa, o direito dos Lisboetas e de Portugal receberem dignamente o seu líder espiritual. Recorde-se que, pelo censo, 94% dos portugueses se declaram católicos.
Diz o autarca que ninguém lhe pediu nada. (Será que alguém lhe pediu para gastar milhões na comemoração da República?) Nuno Abecasis, em 1982, no Parque Eduardo VII, e Jorge Sampaio, em 1991, no Estádio do Restelo, apoiaram generosamente as visitas de João Paulo II. Tiveram alcance: do lugar da cidade no mundo e do lugar da religião no seu povo. António Costa ainda pode inflectir o radicalismo em que se acantonou. Mas dificilmente os Lisboetas esquecerão a resistência que pôs nesta colaboração.

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quinta-feira, 4 de março de 2010

O que é a Europa? IV

Entremos no quarto critério: o mito da queda do império romano. Que disparate, dirão alguns. Vejamos então onde estaria o dislate.

Este critério tem duas partes, se bem repararmos. Por um lado temos de ver a relevância do império romano na actualidade. Em segundo lugar, o da relevância da sua queda, e da sua queda como mito.

A História de Europa é um permanente renascimento da ideia imperial. O simples facto de a palavra existir com esta relevância já é de si estranho. Afinal, na república romana o "imperium" era algo de bem mais trivial. Uma mera função militar e não um estado. E no entanto a Europa sente-se renascer com o renascimento do império, por múltiplas vias.

O renascimento carolíngio, o renascimento otoniano. Mesmo as Espanhas não fugiram a esta ideia imperial com Afonso VII, ou com o tsar dos búlgaros, ou o czar russo (ambas as palavras variantes de “Kaisar”, César). A Europa de Verdun de 843 é reproduzida em 1951 e em 1957 com a CECA e a CEE. Em modos diversos os Habsburgos, Dante, Napoleão, Bismarck e Hitler tentaram fazer renascer o império.

Trata-se de uma inércia histórica fortíssima, que aparece sob as mais diversas capas e com os mais diversos modelos. E se a Inglaterra a partir do século XVIII foge na aparência a esse modelo com o império colonial, ainda Henrique VIII ambicionou a coroa imperial. Mesmo na dominação fora da Europa de que se lembraram os países europeus? De fazer “impérios”, ainda por cima “coloniais”, expressões ambas romanas, e que teriam de ser analisadas mais de perto para se verificar o que têm de nada trivial ou justo. A actual União Europa é a reactivação desse complexo, para falar na linguagem dos psicanalistas, e não é estranho que uniões africanas, asiáticas e quejandas tenham um sabor de postiço, de imitação. É da Europa que nasce esse mito de unificação. A fórmula de Barraclough, unidade na diversidade, para definir a Europa descreve tanto as nossas angústias como a nossa grandeza.

A queda do império romano é um mito. A frase parece estranha, porque a títulos bem diversos, bem sabemos que o império morreu. Seja em 476, data simbólica, seja, noutro momento, seja numa contínua evanescência, o império romano acabou. Parece por isso paradoxal afirmar que se trata de um mito. No entanto para percebermos a sua natureza mitológica temos de olhar para Bizâncio, onde o mito inverso permaneceu: o mito da continuidade do império romano. Imperadores de origem arménia, no século XIII o império de Niceia. E no entanto, continuaram-se a chamar-se a si mesmo de “Romaioi”, romanos, por oposição aos “Latinos”, os da Europa ocidental.

Um mito não é forçosamente uma mentira. É uma história que tem força própria, que impulsiona para a acção. A Europa constituiu-se com base da ideia de “Translatio Imperii”, a translação do império (Peter Sloterdijk percebeu esta parte, mas caiu no politicamente correcto e no indefinido, não sabendo completar a sua teorização). E todo o pensamento político europeu foi marcado pelo império romano caído. Pelas modalidades da sua sucessão (partilhada pelos vários soberanos, ou concentrada no imperador, separando o gládio e o pálio, ou juntando em teocracia ou cesaropapismos, ou nos sistemas regalista, galicano ou ultramontano). Mas também pelas modalidades da sua reconstrução. Os já citados casos dos Otonianos, Habsburgos, Dante, Napoleão e da União Europeia.

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quarta-feira, 3 de março de 2010

A República de António Costa

A Câmara de Lisboa assinou um protocolo com a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República. Pretende «associar as características do regime republicano aos valores da cidadania numa sociedade democrática» (ponto 2.1) e, simultaneamente, «aprofundar o conhecimento dos acontecimentos», «até à época actual» (ponto 2.2).

Trata-se de uma contradição nos termos: como vamos associar a I República aos «valores da cidadania nuna sociedade democrática» se, como todos sabemos, esta revolução substituiu um regime constitucional, com alternância democrática, imprensa livre e liberdade de culto por um regime de partido único, sem liberdade de imprensa, onde se confundiu laicismo com ateísmo jacobino e houve lugar para perseguições aos sindicatos? Já para não falar no crime fundacional que constituiu o assassinato do Chefe de Estado.

E o que dizer do que se passou depois na chamada «longa noite» com o mesmo sistema de partido único, sob a capa de União Nacional, a censura e o condicionamento das liberdades religiosa, sindical e de associação?

Temos assim 64 anos de República, ou de ditadura, ou das duas coisas. Diz António Costa que a II República não conta. Defende então uma memória ideológica? Uma espécie de historiografia de supermercado em que se vai buscar, a cada prateleira, apenas o que se quer ter em casa? Se os valores democráticos da República só contam a partir de 74, que centenário é este celebrado com tanta antecedência?

Não me coloco contra estas comemorações que confundem o que esteve para ser, com o que foi. Nem proponho, pelo contrário, que se celebre a República confiando no desfecho autofágico das comemorações expostas ao ridículo de uma propaganda anacrónica, desnecessária, dispendiosa.

Proponho que se aproveite esta oportunidade histórica para se incentivar a investigação e a divulgação do que esteve para acontecer, mas não aconteceu, e do que realmente aconteceu. Talvez assim se resgatem alguns valores da ética que, aparentemente, precisa de não ser republicana para ser verdadeiramente ética.

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O que é a Europa? III

As contribuições do cristianismo foram tão vastas quanto as do paganismo e mais contínuas nos últimos dois mil anos. Não há terreno da nossa vida que não seja por ele marcado. A nossa concepção das idades humanas, do corpo, da sensibilidade, da estética é determinada pelo cristianismo.

A nossa paisagem, as nossas cidades, os nossos conceitos, nada deixou de passar pelo crivo cristão. Mentira tem coloração bem diversa em grego que hoje em dia. O que seja a dimensão da fragilidade humana e como a ela se deve reagir está marcado pelo cristianismo. Girard disse-o bem: o cristianismo traz ao mundo uma fundamental inovação antropológica – a vítima é inocente. Uma civilização assente nesta conclusão e premissa tão estranha e improvável só poderia dar resultados inesperados. Que todo o bicho homem seja pessoa, outro conceito improvável, também traz o inusitado. Com o cristianismo a Europa constrói-se sobre a improbabilidade. A Europa é a civilização improvável por excelência.

O nosso maior pecado e maior virtude como europeus, a abissal diferenciação sentimental que o cristianismo induziu, é marca disso mesmo. Quanto mais se estuda a patrística e a filosofia medieval, seja europeia ocidental, seja bizantina, mais vemos que não há duas frases que possamos dizer que não estejam marcadas por esse pensamento. “Objectivo” e “subjectivo”, os mais elementares conceitos da lógica com que laboramos no dia a dia, estão marcados por uma leitura restante de Boécio, mas sob o olhar cristão. A tonalidade afectiva de cada uma das palavras que usamos foi delimitada pelo cristianismo, a um ponto que pouco conseguimos dizer sem essa marca. E o célebre espírito científico como oposto ao cristianismo vai beber triplamente à sua fonte (a valorização positiva do infinito, a bondade do corpo e da matéria, o movimento rectilíneo como natural foram os impulsos para a ciência moderna).

É evidente que existem heróis de pacotilha que afirmam que ultrapassaram o cristianismo. São esses os primeiros a não o conseguir fazer. A dificuldade de enunciar as filosofias antigas, que mesmo depois de mais de dois séculos de estudo crítico ainda são objecto de grandes equívocos, os limites com que podemos enunciar o pensamento hindu, budista, confucionista, têm a ver com um dado trivial: nenhuma cultura pode ser integralmente transposta noutra. Mas no caso da Europa têm a ver com um dado que lhe é peculiar: é que o elemento de força é o mesmo que gera a dificuldade de transposição. Foi o cristianismo que deu à Europa a abertura para estudar outras culturas. Se todas a culturas são etnocêntricas, talvez a europeia seja a que o é menos. Na Europa estudam-se todas as culturas. Vejo com dificuldade que no Paquistão se estude Plotino ou na Turquia São Gregório Palamas, salvo em pequenos seminários ortodoxos isolados.

Perceber o paganismo indo-europeu e o seu contributo foi um acto de reconquista de uma herança em parte perdida e em parte filtrada. Sair do cristianismo é a tentativa inversa e em geral mal conseguida. É esse, quer se queira quer não, o nosso ambiente natural. Tenho a prova disso com frequência quando começo a falar como um grego, hindu ou um budista. A plateia tende a ficar chocada porque não uso a linguagem aproximativa, mitigada e propagandística dos que apresentam essas culturas no fundo como uma espécie de cristianismo exótico. A maioria das pessoas adora as outras culturas desde que não sejam plenamente confrontadas com a sua diferença. Adoram contemplá-las como se vêm os leões no circo ou no jardim zoológico: com barras protectoras. Dá-se o caso de as barras protectoras serem cristãs. Por isso os cultores do multiculturalismo no fundo são pequenos burgueses que vão passear ao fim de semana ao jardim zoológico. Reconhecem o leão à distância, mas não querem ter intimidade com ele. A sua simpatia é directamente proporcional à distância que com ele estabelecem.

Seria obviamente lírico tentar sequer fazer uma síntese do contributo do cristianismo para a Europa. O que interessa salientar é que é tão presente que dele não se escapa, e tanto menos quanto mais se acha que é obra fácil fazê-lo.

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terça-feira, 2 de março de 2010

O que é a Europa? II

O paganismo indo-europeu onde se manifesta? Na herança romana e grega, comum a toda a Europa. Mas igualmente na herança celta germânica, eslava. Sem o ciclo arturiano, ou o dos Nibelungos perde-se uma parte fundamental da nossa concepção do que pode ser a literatura. Mas mais importante, perde-se uma parte fundamental do que é e pode ser a vida humana. O que damos por evidente é construído. Como amamos, como nos movemos, a que damos importância, ainda vai buscar a estas fontes.

Os nossos medos, os nossos demónios são diversos dos de outras culturas. Eles são (também) herdados do paganismo. Bem como muitas das nossas soluções. Na Europa existe uma relação com a adversidade cultivada nas elites que é estóica, não budista. Cada povo segrega e aceita o seu tipo de heroísmo próprio. O nosso é o do estóico e do cavaleiro medieval. O tártaro de Tolstoï é sempre dado por contraste, por oposição, como forma de mostrar não que temos de o imitar, mas que nos esquecemos do nosso heroísmo.

É evidente que me podem afirmar que estas figuras estão ultrapassadas. Mas são os mesmos que o dizem que são os primeiros que criticam faltarem estas qualidades a terceiros. Não se compreende metade do discurso da oposição política sem conhecer estes valores. Qual o problema de ser corrupto, o problema de mudar de posição de acordo com os ventos? Se quem afirma que estes valores já não se usam, se não lhes reconhecesse alguma força, não os invocaria.

De Roma herdámos a noção de que são as leis e não os homens que governam. O génio romano foi o de dar instância para julgar onde começa a tirania. Incumprir a lei, onde está o problema? Em todas as culturas o incumprimento da lei é condenado, é verdade. Mas a ideia de que o poder tem todo ele a fonte na lei, para o bem e para o mal, é herança prática romana.

Um visitante grego em Roma definiu as matronas romanas como rainhas. Todas elas eram rainhas. A ideia de república traduz esta de partilha da soberania. A laticlave de púrpura era usada pelos senadores romanos. Todos eles tinham uma parte de púrpura, mas nunca se atreviam a vestir integralmente de púrpura. Por mais absoluto que fosse o poder na Europa, os limites impostos pelos parlamentos a Luís XIV são um bom exemplo dos limites do poder que sempre constituíram a Europa. Não são apenas limites de facto, todos os regimes os tiveram, não são apenas limites de legitimação, todas as culturas os têm. O que é distintivo da Europa é o facto de a própria existência de limites ser constitutiva do poder. Seja com Antígona, seja mais tarde com a sinfonia bizantina.

Mas a força do paganismo não assenta no vazio. É carreada pela imensa maioria dos povos que habitam a Europa, mas é apoderada pelos que não a carreiam em igual dimensão. Os fino-ungáricos, os bascos, o magiares puros, os petchenegues ou foram absorvidos até não ficarem traços étnicos nem língua, ou apenas ficou a língua. E quando restaram os dois a destrinça cultural é ténue. Um basco pode sentir a sua natureza de basco com muita intensidade. A sua língua e os seus costumes. E está no seu direito. Mas desafio alguém a tentar destrinçar um basco de um francês, ou italiano apenas pelo seu modo e pensar ou sentir o mundo.

O substrato sobre o qual agiu a onda indo-europeia não era uniforme. Os povos da Velha Europa, eventualmente os etruscos (língua indo-europeia arcaica segundo alguns, não interessa, para estes efeitos, aprofundar a questão, neste momento apenas especulativa) foram absorvidos. No início do império ainda se reconheciam os etruscos de origem em Mecenas e poucas mais personagens. As marcas que deixaram nas línguas (na toponímia nomeadamente), e eventualmente em alguns valores, estão de tal forma fundidas com a restante cultura que já não pode dela ser destrinçada.

O que seja este contributo dos substratos é meramente conjectural. Seria preciso que conhecêssemos efectivamente as culturas da Velha Europa (como lhe chamam os arqueólogos), e as múltiplas culturas minoritárias desse substrato europeu. As tentativas de encontrar nesse meio traços de matriarcado que se encontrariam ainda em Creta e na Etrúria, uma relação especial com o culto solar e das estrelas são mais hipóteses que teses demonstradas. O período de antecedeu e imediatamente seguiu a queda do império romano mostrou a capacidade criativa da etnogénese, de como povos se fundem noutros, e como rapidamente se chamam a si mesmo godos vândalos que foram por aqueles vencidos. A fusão gera entropia. Será sempre muito difícil extrair a pepita pura do pensamento pré-indo-europeu.

O facto de o contributo deste substrato não poder ser definido nos seus traços gerais não significa que não tenha relevância. É para a Europa a matéria e a energia negra de que falam os cosmólogos. Sabemos que tem peso, mas ao contrário dos últimos não podemos ainda quantificar o seu peso. Apenas podemos verificar que o facto de as restantes componentes da Europa se terem instalado num determinado continente e em mistura com povos anteriores tem um peso. Afinal, os cristãos de Malabar têm marca indo-europeia, são cristãos, mas não são europeus.

A Europa não é etnicamente pura. É verdade. Como nada é. Se um argumento tiver de assentar nestas generalidades deixa de o ser.

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segunda-feira, 1 de março de 2010

O que é a Europa? I

As declarações políticas usam a palavra, os tratados da União europeia usam a palavra, o cidadão comum usa a palavra.

É evidente que não temos de ter uma definição científica para cada palavra que usamos. Mas quando pretendemos arvorar legitimidade intelectual no nosso discurso, e dizemos que este e outro país são europeus ou não, temos de ter a certeza de que a nossa sapiência não é filtrada por jornais e revistas.

A Europa é tolerância, democracia, direitos do homem? Não me parece. Por duas razões muito simples: porque não o foi durante pouco tempo, e apenas o foi com interrupções. Dezoito séculos de História europeia seriam metidos no lixo se quiséssemos que fosse este o critério. A Alemanha nazi, a Rússia comunista, ou Portugal salazarista não seriam Europa neste critério. Em segundo lugar, porque é no fundo ou simples ilogismo ou arrogância. Arrogância se isso significar que é o nosso traço distintivo. Nós somos a democracia e tudo à nossa volta são regimes ditatoriais. Ou é ilogismo, porque significa que não criamos nenhum critério de distinção da Europa em relação aos restantes países.

A incapacidade de exprimir sequer um pouco o que seja a Europa mostra além de uma profunda incultura da nossa época, o seu profundo ódio ao pensamento científico. A nossa época é fascinada por tecnologia, simples fetiche. Mas em geral odeia a ciência e o que ela nos obriga a pensar. Porque a ciência implica um fortíssimo conjunto de vinculações. É essa em geral a condição de toda profunda liberdade, e a ciência não é excepção à regra. Não posso partir de uma premissa porque a acho engraçada e deitá-la fora no restante discurso. O pensamento científico reconhece que a perda dessa vinculação é perda de valor. O que de original fez Dirac foi conciliar a mecânica quântica e a teoria da relatividade. Poderia é certo deitar ao lixo estas duas teorias e partir de premissas completamente arbitrárias. Mas isso seria mera birra e não trabalho científico. Incoerência, arbitrariedade, capricho são inimigos da ciência.

Por isso quem fala da Europa tem de saber do que fala. Para isso tem de conhecer a matéria de que trata. Esta não é dada por declaração divina, por iluminação. O que seja a essência da Europa é terreno para discussão fora da ciência. Discussão legítima, mas que não é a que me interessa agora. Guardo a questão para outras núpcias.

Uma construção científica da Europa implica a construção de um modelo que represente as suas maiores inércias. A inércia não significa que seja impossível mudança. Significa que se encontrou o centro das forças da Europa, o seu núcleo mais resistente e fundamental. É essa a perspectiva sobre a qual se tem de delimitar o que seja Europa ou não.

Percorrendo o campo de estudo chamado Europa encontro quatro elementos que definem a Europa:
a) O paganismo indo-europeu;
b) Assente sobre povos autóctones da Europa;
c) O cristianismo;
d) O mito da queda do Império Romano.

Nenhum país é europeu se não tiver estas quatro características. Poderá ser democrático, poderá ser limítrofe. Poderá ser simpático, estratégico, importante. Mas não é europeu.

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A saga Rui Gomes da Silva


Nos últimos dias multiplicam-se as comparações entre o que disse Rui Gomes da Silva, em 2004, sobre o direito ao contraditório a propósito dos 40 minutos semanais de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI, e as alegadas tentativas de José Sócrates condicionar a informação na TVI, entre 2005 e 2010. Procura-se assim silenciar o PSD nesta matéria.
O que aconteceu realmente em 2004 deve ser do conhecimento público.
Ainda antes do XVI Governo Constitucional tomar posse (Julho 2004), já havia sérias pressões internas dentro da TVI para afastar Manuela Moura Guedes, José Eduardo Moniz e Marcelo Rebelo de Sousa. Este tinha conhecimento destes movimentos e aproveitou as declarações do Ministro Rui Gomes da Silva, em Outubro desse ano, para sair pondo a responsabilidade num Governo que atacara desde a Tomada de Posse. Depois, foi a Belém ampliar o acontecido e à ERC alistar motivações que nada tiveram a ver com o acontecido.
Acresce que o Ministro se limitou a pedir o direito ao contraditório para 40 minutos de ataque semanal ao Governo (basta ver as gravações desses meses), direito que viria a ser depois determinado pela ERC já no mandato do Governo seguinte. Fê-lo por uma questão de liberdade e de equidade de expressão; fê-lo em directo para as televisões, sem quaisquer manobras de bastidor com empresas com capitais públicos; fê-lo sem pressões para as redacções; fê-lo às claras, sem faltar ao respeito a nenhum direito público.
Pode ser discutível se o seu pedido de contraditório constitui uma forma de «pressão». Nada que se compare aos ataques de Sócrates ao Jornal de Sexta no conclave do PS e às tentativas indecorosas do seu anel de servidores de domínio total sobre a TVI com dinheiros públicos.

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Winter Storm On Long Island 2010

I arrived at Diana's tonight..Rowayton Connecticut.
I tried getting here yesterday but mother nature took charge and forced me to turn around and head back home...what a delusional experience.
I was traveling west bound on the LIE - got on at exit 42 and made it to exit 39 before deciding Connecticut was not going to be in tonight's plans.Flashes of sleeping in my car and waking to a mountain of snow covering my vehicle didn't help either. I remember Diana's last words, "leave now or you will get caught in the storm". Caught in the storm...more like eaten up by the storm" !
The snow flakes were falling big and moist-the kind perfect for making snowmen and packing snowballs hard enough to give black and blues.As these frantic-white fluffy wonders made contact with the warm glass of the windshield, physics took over and behold..."windshield wiper popsicles". Just what we need in the middle of a blizzard ! Solid iced wipers slowing down in speed as their weight accumulated with every "swish". Back and fourth, back and fourth-I went from high speed to low speed hoping the ice would some how fall off or shatter in order for them to do what they do best...make driving visible.
I lost my cel phone during one of the several times I had to stop in order to beat the ice off. As I continued to drive (I could have walked faster than I was moving) I began to notice an accumulation of stopped cars building up on my right along the shoulder lane. It wasn't long after this "car cemetery" began to work it's way to the center and left lane also. Made me stop to wonder for a moment what that driver we had in drivers ed class would be doing right now, you know-the one who always hit the curbs when trying to park and waited over 60 seconds before leaving stop signs. The visibility was below imaginable.
I continued to "crawl". What a sight, the SUV I rented was as helpless as a baby pup making it's way to it's mothers nipple. I thought these monstrous sized vehicles were built for conditions of this magnitude...wrong!
All the exits I needed to take had a 3 foot pile of snow blocking the ramp.It seemed hopeless trying to get off the Long Island Expressway.The plow trucks came around to plow but blocked the exit ramps with 3 foot piles of snow.Yes,at this point you could say I began to panic a bit...worried of running out of gas,worried I was "phone-less" and worried the sight of my warm bed was going to be exactly that....just a sight ! It was a jungle out there.
My Tarzan arrived to save the day. It was an 18wheeler truck who needed to get off the same exit I needed that was going to take me home. Almost 3 hours had passed, a few more moments waiting patiently for the truck to maneuver it's way to plow through the exit was the least of my worries.I backed up as much as possible in order to make way. I exited my car to help guide traffic away from the outer lane for the truck to back up enough in order to pick up speed to plow through that man made pile of snow blocking the ramp. Moments later, covered from head to toe with snow-my hair iced ,my jeans feeling like they had been bathed in starch and my face as red as baboons butt...I got back into my car and watched as the truck began to pick up speed. The first thing that came to mind were memories of the old Batman series, visions of "POW"..."BOOM" and sure enough...the road to freedom !
CHEF GUERRIERI

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

SERMÕES AOS CANDIDATOS A ESCRITORES

Se tiveres a tentação de escrever não o faças. O mais provável é que saia asneira.

Os desabafos pessoais são feitos a pessoas que gostam de nós. Fazê-lo com o público é puro exibicionismo.

Não existe o desafio da folha em branco. O que pode estar em branco são as ideias. Mas esse não é um desafio, é um defeito.

Quem quer fazer uma literatura acéfala cai sempre na autobiografia.

As pessoas que estão sempre em perpétua renovação, além de levarem uma vida muito cansativa, dão a entender que tudo o que fizeram antes não presta. Para quem tem sentido de indução facilmente percebe que isto significa que a última obra terá o destino das futuras na qualificação do seu autor.

Quem não sabe distinguir uma obra média de uma obra-prima tem de começar por ler antes de tentar escrever.

Quem escrevendo pretende mostrar que tem uma vida sexual muito activa demonstra escrevendo que ela não é suficientemente tentadora para o fazer deixar de escrever.

Quem quiser escrever destituído de sentimentos deveria rapidamente verificar que essa não é a única qualidade literária que lhe falta. Quem quer escrever com o sentimento esquece-se de que a tinta deixa uma marca mais perene no papel.

Quem considera que a cultura é um defeito num escritor está a falar na sua própria deficiência.

Aqueles que querem meter a todo o custo e a todo o momento imagens naquilo que escrevem, visando com isso dar um maior peso expressivo ao seu discurso, talvez devessem ponderar a hipótese de fazer banda desenhada.

Quem afirma só gostar de um estilo simples refere-se geralmente à sua incapacidade de lidar com o complexo.

Quem idolatra o grosseiro e o considera um passo indispensável na criação literária julga que o modo como se comporta em casa se pode arvorar em lei universal.

Mostra-se obcecado com a fealdade quem pretende esconder sob a capa de uma escolha o que mais não é que falta de alternativa.

Quem fazendo literatura pretende mudar o mundo deveria dar o primeiro passo nesse sentido mudando de profissão.

Não há problema nenhum em escrevermos para ridicularizarmos algumas pessoas, que frequentemente o merecem. Mas atenta no perigo de seres ridículo fazendo-o.

Escrever uma saga de família é possível mesmo que no fim da linha não se encontre criadagem ou escravos.

Um bom escritor tem pelo menos um dos requisitos para ser bom jornalista: sabe escrever. A um bom jornalista pode faltar tudo o resto.

Quem se banha na intranscendência não pode querer lavar a vida alheia. Falta-lhe a prática da água e do sabão.

Quem escreve obedecendo a um programa pode fazer coisas de qualidade. Mas se o faz não é o programa que o dita.

Não tem sentido esconder a falta de ideias com uma pontuação deficiente.

Os que afirmam que escrevem sobre o seu bairro, mas que em bom rigor se referem à universalidade não são generosos nem criativos. Com efeito, se escrevem apenas sobre o seu bairro é de desconfiar que não conheçam mais nada.

Aos escritores que se queixam permanentemente da incompreensão dos outros falta-lhes razão para se queixarem. Ou estão acima da chusma e isso é motivo de regozijo, ou estão no mesmo nível e não tinham razões para se meterem em trabalhos.

Quem usa a literatura como forma de sedução fracos dotes pessoais deve ter.

Quem quer fazer literatura regionalista perdeu uma vocação para fazer bons guias turísticos.

Só tem razão para se queixar do público quem nunca quis publicar.

Alguns escritores falam com recorrência dos livros que têm na gaveta por publicar como os melhores. Uma prenda anunciada tem de ser entregue. É de péssima educação omiti-lo.

Se estás obcecado com a alternativa de escrever algo de belo ou de útil pensa que não tem muita utilidade o que escreves se não for belo. Se a tua obsessão é imprimir fealdade ao que escreves descansa por que o mais natural é que o faças espontaneamente.

Se é tua única intenção transmitir ideias erraste na vocação e o mais provável é que erras executando-a. Se não quiseres transmitir ideias a tua insuficiência substituir-se-á tua vontade no sucesso da tua empresa.

Quem diz que a literatura é a coisa mais importante do mundo deveria fazer a experiência de deixar de comer.

Os que afirmam que a função da literatura é mostrar a experiência vital perdem em geral tempo a mostrar algo que não adquiriram.

Querer ir direito aos assuntos significa com frequência bater com a cara numa parede. Nada há de mais oblíquo que a simplicidade.

Leio por vezes textos enfeitados de vírgulas, parágrafos arrevesados, frases cortadas a meio. Percebo que respeites e dês visibilidade ao trabalho do tipógrafo. Mas não é a ele que compete fazer literatura.

Alguns dos que escrevem deliram inventando palavras novas a todo o momento. Já me elogiaram mais de um dizendo que inventa palavras novas. Só respondi: - Será que não são capazes de fazer nada de jeito com as que já existem?

Antigamente falava-se do estilo de um escritor, a gora fala-se de escrita. É justo: perderam o conceito e falta-lhes o estilo.

A escrita é acto de meros alfabetizados. Na melhor das hipóteses, de contabilistas. Noutras ainda de calígrafos. Para um escritor é apenas uma inevitabilidade prática. Tem de escrever, no sentido em que não se é escritor se não se gravar de alguma forma palavras num suporte. Falar da escrita de um escritor é o mesmo que usar a palavra cutelo quando se fala de um cirurgião. Continua-me a parecer mais difícil salvar vidas que cortar carne num talho.

Antes de saber escrever, a primeira coisa que um escritor deve saber fazer em cima de uma mesa é comer. Quem não sabe comer à mesa devia aprendê-lo antes de ter a pretensão de escrever.

A grosseria não é um requisito literário, mas apenas um defeito pessoal.

Queres ser escritor? Lembra-te que a coisa não depende da tua vontade. Uma pretensão legítima chama-se ambição, quando ilegítima presunção.

A vocação é exactamente o oposto da vontade. A segunda passa-te rapidamente se fores saudável. Se não passar é mais competente para o teu trabalho um padre ou um psicólogo.

Se queres escrever coisas que fiquem depois da tua morte é mais provável que o consigas elaborando o teu epitáfio.

É dever dos candidatos a escritores o de falarem muito. É menos tempo que dedicam a colocar no papel para todo o sempre os seus disparates.

O realismo na literatura é tarefa de poetas.



Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Marziano Capella. Nozze di Filologia e Mercurio, Bompiani, 2001






Conheço pessoas que, na sua vontade de criticar a modernidade, se desfazem em elogios aos manuais escolares do tempo do salazarismo. “Antigamente é que era bom”. Sejamos pois consequentes. “Antigamente”? 1940? Sessenta anos? Depois da revolução francesa, da inglesa, da industrial, da queda de monarquias por toda a Europa? Moderno?

Aceitemo-lo. Se queremos algo que seja mesmo antigo peguemos então em coisa com quinze séculos e com mais de mil anos de uso escolar. Manual escolar por excelência, as “Núpcias de Filologia e de Mercúrio” são um dos exemplos máximos de sucesso editorial. Mil anos como livro escolar em toda a Europa, ou em parte dela. É obra, e vale a pena ser reconhecida.

É evidente que os eruditos tentam aproximar-se do significado da obra, e das intenções do autor de múltiplas formas. Se um jogo, se um livro de uma civilização romana em decadência e deprimida, de um homem que sabe estar a cultura em declínio (premissa algo abusiva), que pretende salvar o que restava da cultura clássica, ignoro. Poder-se-ia dar o caso de a vontade enciclopédica mostrar mais uma vez o encerramento de um ciclo. Assim fez Aristóteles e a sua escola perante a polis grega que se esvai (mas não morre), Varrão e Plínio o Velho com Roma republicana que fenece, Marciano Capella e mais tarde Isidoro de Sevilha com o mundo antigo. Os ciclos culturais são bem mais complexos e é muito difícil enunciar sínteses na matéria. Pode-se afirmar que as enciclopédias são igualmente abertura de um novo ciclo: o helenístico e o visigótico como o da enciclopédia francesa o teria sido da modernidade.

A verdade é que esta obra mostra um humor variável, e sobretudo capacidades variáveis e competências não uniformes. Prolixo nas humanidades, parco nas ciências, tendendo a ser algo superficial em ambas.

Imagine-se um homem que hoje em dia quisesse por si sintetizar toda a cultura da sua época. É natural que claudicasse na matemática ou na música, ou na História, ou na literatura. Marciano pega na enciclopédia da sua época, nas sete artes liberais e tem o projecto ambicioso de as transmitir ao seu filho. Encenação teatral ou intenção verdadeira, não é importante para o caso.

Tente o leitor fazer esse exercício. Como sintetizar a nossa civilização como se a quiséssemos transmitir ao nosso filho? É obra.

Capella não é um génio. Mas por isso mesmo a sua obra tem um significado especial. Lembro-me de uma vez ter ouvido um historiador dizendo que o historiador do pensamento está habituado a lidar com génios, o historiador comum compraze-se em lidar com medíocres.

Platões aparecem em dose homeopática na História e por isso, se dizem mais sobre a sua época do que o comum dos mortais, dizem menos por si do que era a sua época do que os medianos.

Marciano não era medíocre no plano do século, mas na vasta paisagem histórica cola-se à massa dos ignotos. Homem de grande cultura e cultura estruturada, é antes do mais para mim um bom testemunho psicológico, testemunho do que é a paisagem mental de um homem culto do fim do império romano do ocidente no âmbito latino.

A retórica é um meio eficaz de transmitir mensagens, mas surte o efeito de véu num jogo de espelhos em que muitas vezes é difícil destrinçar o que nos aparece e o que efectivamente representa. Marciano escrevia efectivamente para o seu filho? Será um comovente testemunho de alguém que visa proteger a todo o custo uma retórica e uma cultura que sabe ameaçada pelas invasões bárbaras e a queda do império? A ameaça seria assim tão grande afinal nessa época? Seria a queda o império vista com tanta angústia por todos os seus habitantes e da mesma forma? Ou então estamos apenas perante um jogo retórico de que poderá eventualmente participar o seu filho? A obra deixa-nos esta dúvida. Não sabemos se estamos no registo do cómico ou do trágico, do amargo, do agridoce ou da alegria.

O mais importante sob o ponto de vista histórico é que mostra tanto a sofisticação, como o esgotamento do pensamento pagão tardio em língua latina. Só os autores cristãos em latim tiveram genialidade. E mesmo assim pela via mais da filosofia e da teologia que pela criação literária pura.

Mais uma vez pela curiosidade, Filologia é virgem como devia ser toda a donzela pagã e devia casar-se com alguém do seu nível. Dois elementos que o jornalismo imputa ao cristianismo e que mais uma vez se verifica serem originalmente de factura pagã. A virgindade das donzelas e a igualdade de ilustração dos nubentes são afinal um dado perene da cultura europeia.

Mas mais importante sob o ponto de vista da lição, mostra até que ponto a pedagogia cai rapidamente no jogo de espelhos, e até que ponto a retórica pode ser importante, mas pouco esclarecedora se for exclusiva. Este é uma das profecias de Platão que não são muitas vezes levadas a sério. A cada momento temos de verificar se o que estamos a impor às nossas crianças e jovens mais não é que um casamento de filologia e mercúrio mal assimilada, uma enciclopédia limitada e tendenciosa, que esquece muito do que se passa à nossa volta e do que é a herança passada, não preparando por isso de modo completo para o futuro.

Há algo de equívoco e mesmo de tenebroso em Capella. O que nos tem de ocupar é saber se todo o projecto educativo não tem forçosamente essas dimensões. Pelo menos quando se pretende completo. Se aliás quanto mais completo se pretende mais desperta a alegoria, a insinuação, o difuso.

Jung quando o seu filho lhe perguntava como educar os seus filhos respondeu que os deixasse crescer como as árvores. A desconfiança de Jung em reacção à pedagogia poderia ter extremista, mas não deixa de ser um bom aviso. É inevitável querermos educar com base numa enciclopédia, mesmo que não queiramos transmiti-la de forma orgânica. É inevitável que essa enciclopédia gere equívocos.

Mas pergunto-me se, ainda que pela via errada, Capella não terá mais mérito que quem esconde que existe uma enciclopédia, quem a oprime e ficciona a sua inexistência. O seu medo do conhecimento passa a ser então o motor da sua pedagogia, e é apenas o medo que transmite. Educar tem riscos, não o fazer gera desastres. Negar sequer a possibilidade de o fazer nasce apenas do medo. Por isso talvez Capella seja mais um aviso que uma proibição.






Alexandre Brandão da Veiga


http://www.liberonweb.com/asp/libro.asp?ISBN=8845291022

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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Tradição e imitação II

A ligação entre imitação e tradição estabelece-se em várias ciências de formas curiosamente próximas. Moléculas que se agregam e que passando uma fase crítica geram transições de fase (as revoluções são uma consequência da tradição como se vê). Com a análise do mercado em Hayek os fenómenos de imitação são a base da auto-organização (uma forma de tradição, em suma). Com Girad análise semelhante mas ainda mais profunda, porque percebeu que a imitação não é neutra na vida humana, mas funda-se e gera uma forma de energia que no ser humano redunda em violência e na sua contenção.

Sob o ponto de vista estrutural evolução, tradição e imitação são indissociáveis. As revoluções, sejam políticas, sejam sociais, de mentalidade, sejam científicas, resultam de uma massa crítica formada pela tradição.

Mas sob o ponto de vista vital é igualmente verdadeira esta relação. Colocando-nos na perspectiva do inovador, ou do revolucionário, não se encontra nenhum que não dialogue com a tradição. Os filósofos gregos com Homero, os cristãos com a filosofia grega e o direito romano, Einstein com Maxwell e Newton, Proust com Racine, Picasso com a tradição ibérica e a pintura da Renascença... É evidente que o ignorante não inova. É evidente que apenas mostra capricho, e depois do sucesso cai no ridículo e mais tarde no esquecimento. Mas a questão vai mais fundo que a lógica pobre da vida do medíocre com presunção, vai além da anedota. É que a criação implica sempre diálogo (exactamente o oposto da conversa de café, que não empenha ninguém). E só se dialoga com o que já existe, através do que já existe, a isso chama-se de tradição.

Na tradição protestante sobretudo desde o século XX que se percebeu que o “sola scriptura” tinha um vício lógico. É que a “scriptura” é delimitada... pela tradição. Tanto católicos como protestantes revalorizaram a teologia do outro lado e por vezes os resultados são inesperados. Mas inesperados só na aparência. É que sem tradição não há diálogo, sem imitação não há aprendizagem.

Ninguém tem mais horror aos seguidistas, às criaturas sem personalidade que se reduzem a ser citadores. Entre estes estão os revolucionários de café, ou de Internet hoje em dia. Mas creio que já apanhamos a sua principal brecha: não querem ou não sabem dialogar, recusam aprender. Recusam a tradição e o que tem de revolucionário. São conformistas. Não se querem confrontar com uma tradição que pela sua grandeza demonstra a sua pequenez. E acabam por seguir uma longa tradição humana: a da desonestidade intelectual.

Resta-nos fazer as perguntas fundamentais. Porque se imita? Porque tem importância a tradição?

Porque se imita? Talvez seja uma estratégia de sobrevivência. Mas talvez signifique antes do mais que o ser humano não é estúpido. Aproveita-se a experiência alheia, o comportamento alheio, os gostos alheios para retirar algo deles. A ideia de imitação foi sempre algo equívoca. Ou se imita a natureza ou os outros seres humanos. Confesso que sempre desconfiei um pouco de uma visão vulgata de Aristóteles que vê a imitação como algo de passivo, como o pintor que supostamente reproduz a paisagem. Mas a partir do momento que percebemos que não existe nunca mera reprodução, que esta é mediada por perspectivas, ênfases técnicas, nunca a imitação é passiva.

Porque tem importância a tradição? A tradição começa por ser a consequência da imitação memorizada. É inevitável que surja tradição quando existe imitação. É o repositório das muitas imitações em cadeia. Para que serve? É uma medida de economia. Não temos de inventar de novo os modos de ver e reagir ao mundo. Tanto melhor. Mas é igualmente um repositório de modos de ver o mundo seleccionados por gerações de seres humanos no qual se vai depositando a sabedoria (e a asneira) humana. Quem a recusa não apenas labora no impossível, mas igualmente recusa qualquer cultura. Não há cultura sem tradição. Quando se fala de cultura, mesmo que em relação a uma fatia cultural apertada, é sempre de uma tradição que se fala. É o estado a que a tradição levou a que certas sociedades chegassem, incluindo as formas como essas pessoas reagem a essa tradição. Mesmo os revolucionários reagem a uma tradição, e é dentro dela que laboram. É sempre num misto de contra e com que os seres humanos laboram a sua vida. Apenas variam os graus. E já é um apenas bem vasto.

Da parte que me toca, desconfio tanto dos que imitam e seguem a tradição por seguir, como os que a elas se opõem sistematicamente. Sempre me parecerem muito parecidos. De uma forma ou de outra são escravos delas. Ao menos os primeiros são um pouco menos enfadonhos porque com menos presunções e um pouco mais de harmonia. Os segundos, na sua presunção poética, tornam-se apenas burocratas do desfazer, e tristes exemplos do contrário do que anunciam.






Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Tradição e imitação I







A modernidade (e a pós-modernidade seja o que isso for) construiu-se contra a tradição e contra a imitação. É este o lugar comum. Se virmos o comentador, o intelectual mediano, o jornalista, é esse em geral o lugar comum que defendem.

Temos de ser originais, quebrar com o passado, destruir a herança, seguir o nosso próprio caminho. O paradigma parece ser o do aventureiro que se arrisca na selva amazónica, no terreno ainda não desbravado.

Nada tenho contra a real inovação, o pensamento que é aventura (o verdadeiro pensamento é sempre aventura), a contestação da tradição e o horror à imitação. O problema é o de saber se estes feitos estão ao acesso de todas as bolsas. E o problema é o de saber até que ponto este lugar comum é consistente com quem o defende.

Quando vemos multidões a defender estes lugares comuns (ao ponto de até o marketing se alimentar deles) vemos que quem o segue, fá-lo por um fenómeno de imitação, e em suma segue uma tradição mais ou menos recente. Primeira brecha neste paraíso da inovação.

Em segundo lugar, quando vemos os criadores da modernidade seguiam mestres de tradições ainda mais antigas (Baudelaire e seu Maistre, Nietzsche e seus pré-socráticos). Toda a aparente negação da tradição gera apegos a tradições, toda a negação da imitação gera novas imitações e nelas se sustenta. Eis a segunda brecha.

Em terceiro lugar, no elevado pensamento contemporâneo não é este tipo de negação que impera sem partilha. Na física encontramos um conservador impenitente como Einstein ou mesmo Dirac. Na química um Prigogine. Na economia um Hayek, na antropologia um René Girad. É estranho aliás que a relação entre estas várias personalidades nunca seja feita, porque apresentam estruturas de pensamento em muitos aspectos semelhantes.

Na matemática os termos em que se coloca a hipótese do contínuo só se compreende porque se quer integrar a mesma numa tradição. Afinal é fácil de demonstrar, basta afirmar que os índices de Aleph são apenas 0 e inteiros positivos como axioma, o que não deixaria satisfeito nenhum matemático que se preze, exactamente por não incorporar a tradição matemática. Na física Einstein quis preservar as equações de Maxwell e procurou novos princípios de conservação.

Um dos campos que parece excepção aparente é o da arte, em que se teria rompido com a tradição de vez. Mera ilusão. Picasso confronta-se com Rafael e procura noutras tradições (a ibérica mais que a africana como Penrose mostrou) a sua inspiração. A música de vanguarda acaba por dialogar com os mestres flamengos do século XVI. Na literatura a poesia concreta descobre a sua genealogia nos alexandrinos e na tradição medieval. Rilke encontra na tradição medieval e bizantino-russa muita da sua inspiração para o “Livro de Horas”.

De uma forma ou de outra o pensamento contemporâneo – o profundo, não o jornalístico – nunca abandonou nem a tradição nem a imitação como modelos explicativos e estruturas fundamentais da existência. E é natural que ambas estejam ligadas. É o que a realidade empírica nos mostra, é o que qualquer análise da realidade nos demonstra.

Qualquer criatura humana cai numa Terra que já existe, numa cultura que já existe. O mundo antes dela já existia. Teríamos assim duas possibilidades, ou o mundo que a rodeia ser-lhe-ia incompreensível, ou irrelevante, ou poderia dele absorver informação. Absorvendo teríamos duas possibilidades: ou vinha com estruturas totalmente novas, caídas no nada, de compreensão e interacção com o mundo ou tê-las-ia herdado. A genética e a experiência histórica mostram que é a segunda hipótese a verdadeira.

Por mais vasto que seja o campo da liberdade humana, há muita coisa que não escolhemos. Não escolhemos nascer ou não, não escolhemos ser mortais, não escolhermos ser lémures ou humanos, ser chineses ou portugueses, homens ou mulheres, bonitos ou feios, inteligentes ou estúpidos, nascer num meio favorecido ou não. A lista poderia ser desenvolvida até ao infinito. A tradição é simultaneamente o espaço fora da liberdade humana e onde ela se pode exercer. É a estrutura do ambiente humano.

Alguém que não reconheça o papel da tradição que tente começar de um dia para o outro a falar Urdu, se conseguir. Mas faça melhor, porque o Urdu pertence a uma tradição linguística apesar de tudo. Que fale numa língua só sua, com regras morfológicas e sintácticas totalmente novas. Que a função da palavra na frase não seja dada nem pela declinação nem pela preposição, ou pela posição, por exemplo. Os que dizem que não seguem tradições, que não falem nenhum das línguas existentes, pois. Que se calem nessas e falem só em línguas que mais ninguém conhece. Ao menos um efeito obteríamos: o nosso descanso.

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O regresso de Hipácia II

Cientista, mais uma vez ninguém duvida. Mas cientista e filósofa. Nada há de mal nisso. Um cientista intranscendente sob o ponto de vista filosófico nunca foi criativo. A questão é que a filosofia da época era totalitária. Mais uma vez, para o bem e para o mal. Uma escola filosófica não era apenas um quadro mental, era um modo de vida.

Teologia e ciência não se separam para um cientista da época e nada prova que Hipácia fosse excepção. Mais um exemplo de modernidade?

Muita da ciência da época foi destruída pelos cristãos e perdemos séculos de desenvolvimento graças a essa destruição. Hipácia é mais um exemplo disto. Tirada algo temerária, temo bem. Em primeiro lugar, porque faz actuar o célebre “se” histórico. E nesse aspecto os historiadores foram os primeiros cientistas a ter consciência (embora não os primeiros a formalizar a teoria) dos sistemas complexos. Não se pode afirmar nunca com certeza sobre o “se” variante.

Mas podemos pensar alguma coisa sobre isso. Quando vemos o que fez evoluir a ciência europeia a partir sobretudo dos finais da Idade Média e na Idade Moderna, vemos que é impulsionada por três factores que o pensamento antigo nunca foi capaz de integrar. O movimento rectilíneo como natural, a dignidade da matéria como objecto de pensamento científico e a valorização positiva do infinito. Esses três elementos essenciais para ciência moderna são conquistas do cristianismo. Lembro mais uma vez a tese do “falsus circulus" de Santo Agostinho” e a dignidade da matéria no cristianismo (Cristo tinha um corpo, e o corpo glorifica-se) e sem infinito não existe análise nem teoria dos conjuntos. Se a ciência antiga se pudesse desenvolver independentemente do cristianismo teria de ir buscar ao cristianismo e integrar no seu centro estas suas premissas vitais. Ou seja, tinha de se tornar cristã de alma, mesmo que não de fé.

Uma grande cientista. Sem dúvida. A melhor matemática da época parece. O problema é o ponto de comparação. A época não se comparava a Eudoxo, Euclides ou Arquimedes. Em parte nenhuma do mundo nessa época surgiram matemáticos realmente originais e criativos. Talvez eu seja o melhor matemático do meu prédio, quem sabe? Mas suspeito que a minha glória por essa via é diminuta. Grande erudita em matemática? Tudo indica que sim. Grande criadora? Tudo vai no sentido oposto.

E finalmente a cereja no bolo, o que se torna mais erótico para a propaganda moderna: vítima do cristianismo. A tese é velha, Gibbon já a tinha aventado.

Mais uma vez no entanto, raciocínio apressado. As versões são algo diversas, mas é preciso colocar a coisa no seu contexto.

Em primeiro lugar, o Egipto era famoso na Antiguidade pelo seu fanatismo. Juvenal na Sátira XV, se bem me lembro, relata o facto. Juvenal aliás mereceria melhor estudo pela nossa época porque melhor relata os sentimentos da classe média actual que os doutoramentos em sociologia. Essa maravilhosa sociedade pagã, que supostamente vive de tolerância, tem afinal fenómenos seculares de fanatismo, em que os adeptos de deuses diferentes se matam entre si por considerarem o deus do vizinho falso. Não foi o cristianismo a inventar o fanatismo humano. O episódio do assassínio de Hipácia passa-se em terra especialista no fanatismo. O cristianismo nada trouxe de novo na matéria.

Em segundo lugar, tudo indica que o seu homicídio ocorreu no contexto de oposições entre os judeus e os cristãos. Uma História que se encontra por contar, porque não bem pensante, é a dos ódios e perseguições dos judeus em relação aos cristãos em expansão, de que há sinais sobretudo entre os séculos II a IV d. C. Os cristãos não eram ainda suficientemente poderosos para impedir a perseguição, mas já o eram para ser temidos e sentidos como concorrência. Muitos judeus na época não teriam ficado agradados por o cristianismo crescer exactamente por ter abdicado do vínculo étnico. Não queriam eliminar a causa, mas detestavam os efeitos.

Seja como for, tudo indica que o ódio original não seria contra o paganismo, mas contra os judeus. Entenda-se; não estou a fazer juízos morais ou a querer justificar seja o que for. Apenas mostro que a História tem bem mais complexidade do que parece.

A ironia da História é que o paganismo tardio hoje em dia quase não tem detractores. É simples: são ignorados. Quando ressurgem há sempre uma recuperação abusiva dos Juliano o Apóstata e das Hipácia, e há-de chegar o dia dos Símaco e Libânio. Não faz mal. Quem os conhece realmente admira-os na sua devida medida e por isso não os usa.

E o vitorioso cristianismo, por outro lado, esse sim é atacado mais uma vez por todos os lados. Por pessoas que o ignoram profundamente, mas ainda ninguém os informou do facto. Julgam que o cristianismo é uma religião do povo, dos desprovidos intelectuais, e por isso julgam que lhes está acessível. Esquecem-se por isso que, quando o fazem, não demonstram que conhecem o cristianismo, mas que só por serem desprovidos o podem criticar.

Não vi o filme e quero ir ver. Não sei se será bom ou não. Mas parece-me bom ao menos tentar vê-lo. Vi no entanto o que sobre ele se disse, e os livros e comentários que se fazem sobre Hipácia, e aconselho vivamente a deixá-los no esquecimento na sua maioria. Hipácia seria a primeira a achá-los indigentes.







Alexandre Brandão da Veiga

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