quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

I. Journey to Italy – Rossellini


Realmente uma trama de ironias.

A viagem a Itália de dois ingleses, uma paródia do Grand Tour. Mas em muitos aspectos virada do avesso. Em primeiro lugar, não é viagem de adolescentes solteiros. As regras são outras. Trata-se de um casal, e de meia-idade. Em segundo lugar, não é viagem para marcar o resto da vida como experiência interior e estética, mas a abandonar na prática quotidiana quando se volta a Inglaterra. É viagem definitiva.


Segundo grupo de ironias. Os ingleses do Grand Tour iam para Itália para aprender, acabando por reprimir o essencial. Ficava o estético, a memória, um parêntesis de vida. O casal que viaja no filme não viaja para aprender. Ele para tratar de uma burocracia, de uma herança. Ela com uma intuição de comunicar com o marido, senão de salvar o casamento. A ironia é a de que o conhecimento nos apanha de surpresa, pelo menos neste caso, e talvez seja melhor não se focar demasiado no objectivo para se atingir o essencial.

Terceiro grupo de ironias: parece tratar-se de um drama conjugal, de uma crise. Como tantas outras. Seria assim se Rosselini tivesse terminado a história com uma ruptura. Seria bem mais fácil. Mas – obscena solução se a há: termina bem. Quase temos medo de o dizer.

E quarto grupo de ironias: em vez de ser a perspectiva do homem que prevalece é a da mulher. Muda tudo. Rossellini parece estar a dar uma lição a duzentos anos de tradição britânica no Grand Tour, dizendo-lhes que perderam o essencial. Onde está ele? Veremos.


É evidente que existe aqui um desequilíbrio. Ambos têm classe, mas Ingrid Bergman ofusca pela sua beleza George Sanders. Não bastara a história ser contada sobretudo na experiência feminina, em acréscimo a nossa atenção fixa-se bem mais nela que no marido.

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

La frontière de l'aube


Quem viu desaconselhou-me. Vi e aconselho. Mas aviso: se procuram entretenimento ou se têm o cérebro cheio de teorias e referências de cinema, não vão. O filme podia ser uma tese inovadora se tivesse sido realizado há 70 anos, falaria de uma forma de amor, então, actual e compreensível, mas não é. Parece invocar um tempo e uma forma que se sonhou e que se perdeu. Philippe Garrel, o realizador, continua um inalterado “soixante huitard”. Neste sentido, o filme podia ser apenas uma nostalgia. Mas Garrel mostra-nos duas visões do amor postas em contraste.

François deambula entre o autêntico e, por isso, indestrutível amor por Carole e o conformista e, por isso, também, indestrutível amor por Eve. Serão o mesmo? Apesar de terem um poder e a uma lógica que os torna indestrutíveis (talvez, até, por poderem co-existir), há um idealismo no amor por Carole que transcende a própria vontade que, estando na origem da relação, poderia turvar a clareza dos sentimentos. Entre François e Carole há uma relação que expulsa o mundo e o tempo e em que só o amor ideal é real. Não obstante se possuírem, o seu amor é alimentado de uma impossibilidade de existir dentro do tempo que marca, desde início, a sua tragédia latente até ao desenlace final: Carole tem um marido ausente, mas um marido que aparece e perturba; Carole tem amigos no meio dos quais François se torna transparente e ausente, ardendo em ciúme; François resiste-lhe e isso leva-a à loucura; abandona-a e isso leva-a ao suicídio.
O amor por Eve é o amor “burguês” pela mulher que tem as suas ocupações, os seus sonhos, a sua natureza moral, em que tudo está de acordo com o tempo e com o mundo. Pode ser, também, uma promessa de felicidade: Eve fica grávida; François houve os conselhos dos amigos (tem amigos); dá a Eve o melhor presente que é pedi-la em casamento; promete-lhe o seu amor; dorme ao lado dela numa rotina sem sobressaltos.
Mas é das rotinas (vida burguesa, apática, conformista para Philippe Garrel) que se erguem os fantasmas. Não só os do desejo, mas também o da revolução (nada mais apropriado para a democracia pastosa e apática na Europa de hoje). As rotinas de Eve não lhe trazem, afinal, o sossego. François tinha conhecido outro amor, o amor que se alimenta, quase o podemos dizer, da sua ausência, porque o seu idealismo obriga a esvaziar a alma para se inundar plenamente. Daí a imagem dos limpa pára-brisas dada por um dos amigos para exprimir a relação dos amantes: quando um se aproxima o outro afasta-se e vice-versa. Uma espécie de dança da morte, uma sedução lenta, um jogo de escondidas.
Depois do seu suicídio, Carole aparece a François no espelho e chama-o para junto dela. Pede-lhe, no fundo, que se suicide para se lhe juntar. Carole chama-o... ou, ele quer ir ter com ela e invoca-a. Ela chama-o de fora do mundo e do tempo... ou, ele deseja encontrar-se com ela fora do mundo onde ela já não está e fora do tempo onde ela já não vive. O desenlace é trágico porque não tem solução no mundo e no tempo. A solução é morrer para renascer.

A extraordinária fotografia do filme conduz-nos à primeira de duas considerações finais. A narrativa não é um movimento em que as personagens se vão revelando. As personagens de algum modo são aquilo que o autor quer que elas sejam e, por isso, as sequências — os estados, os progressos e os conflitos —são abruptamente introduzidas. Neste estilo há um dramatismo expressionista, em que, ao contrário do teatro ou do romance, as personagens são uma criação directa do autor e não uma necessidade da própria natureza ou razão da narrativa. As personagens não se autonomizam do autor. No cinema, esta forma moderna de criação artística, encontra uma facilidade muito evidente. Há no cinema uma intenção teórica, que sobrepõe a tese à sensação. A unidade estética vem por via do elemento sensível construído pela fotografia de William Lubtchansky. É uma imagem de outro tempo, a preto e branco em que o branco, por vezes, se expande na fita até quase à indistinção das formas. Invocando o cinema dos anos 20/30 o autor transporta-nos para um tempo perdido e misterioso, para nos falar do amor que hoje seria impossível.
A segunda consideração é sobre o amor. A ideia do amor não como um encontro de interesses, como ele se ilude no modelo “burguês”, mas como amor trágico em que o mundo é apenas um lugar de encontro para chegar a outras paragens. Aqui o amor torna-se num manifesto irmão da revolução. Contra o conformismo, o adormecimento e a exaustão do espírito. Aqui o público em geral ri-se. O riso é o medo da morte. É, pois, natural que ria. Riu em Cannes e até apupou. O amor trágico é associado a uma época que passou. O amor hoje em dia anda arredado do mundo. O amor e as causas. Nada turva a pacata apatia em que vegetamos. Mas se bem pensarmos o que procuramos no mais profundamente celeste das nossas cavernas individuais, é o amor que não conhece limite, que não pode estar no que se corrompe e, por isso, não se realiza no mundo e no tempo. Por isso o amor é secreto. Para se proteger. A razão de haver transcende-nos. O amor é sempre transcendente ainda que nos surja como uma porta que por acaso se abriu neste tempo e neste mundo em que vivemos. Quantos estaremos dispostos para a viagem que nos propõe?

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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Um Natal em África

Grandes alegrias trazem lágrimas. Sempre será assim e muito mais assim foi no Natal de 1974. Só vos digo e para vosso sossego: a alegria tem uma ferocidade vaidosa e dramática.
Em 1974, estava em Luanda, cidade sofrida e a caminho da crudelíssima independência. Aos 21 anos sentia-me tão só quanto só se pode estar. A família tinha deixado África e eu, nem pai, nem mãe, estava por minha conta, acompanhado por uma multidão de amigos cujas cabeças, dia a dia, iam rolando à velocidade da guilhotina na Revolução Francesa. Mortos? Nem mortos, nem atropelados. Eram apenas nomes inconsoláveis que, dia a dia, a ponte aérea para Lisboa abatia ao activo. Para nós, e para o que na altura interessava, defuntos irremediáveis e indesculpáveis.
No meio desse caos furioso e obsessivo, no meio do fogo amigo e do fogo inimigo de cuja ontologia duvidávamos, começou a crescer, modesto mas abnegado, o Natal, o meu Natal de 74. Não sei se foi um sussurro, se foi um piscar de olhos, mas esse Natal, que na Europa calha tão bem aparecer de repente no meio do Inverno, surgiu suave, mais tropical do que nunca e foi o meu primeiro e verdadeiro Natal angolano.
O caloroso acolhimento foi duma família africana, comandada por um patriarca como nunca mais encontrei. Entre irmãos, irmãs e meio-irmãos eram uns seis, mais primas e primos, pai e mãe, como só existem nas grandes sagas familiares. Eu, branco, fui recebido como filho. A geleira, como numa família decente se chama a um frigorífico, estava (esteve durantes dois anos) à disposição: “Aqui não se pede, abre-se e tira-se.
Lembro-me de nos organizarmos e traficarmos. Sei que houve vinho, couves e bacalhau a chegar de Portugal. Se algum dia (e peço perdão) o Menino Jesus me tinha parecido anedótico e um pouco tolo, no Verão angolano de 74 tive a impressão de que o Natal era intemporal, robusto e sem caprichos.
Naquela dia, 24 de Dezembro, tive a melhor das ceias. De vez em quando, ou quase sempre, o crepitar das AK ia pondo vírgulas e pontos de interrogação nessa noite de uma estrela. Menos insistentes, com uma delicadeza obsoleta, dois ou três morteiros introduziam a necessária nota de suspense. Coisa pouca e, I promise, nem sequer me estou a fazer interessante. Coisa muita foram as conversas, as promessas, as juras e os choros dessa ceia tão delicada e intensa. Os discursos, meu Deus, o gosto que tínhamos nos nossos discursos, tão vibrantes, tão eufóricos, tão nus. Apontavam-nos uma pistola à cabeça e discursávamos. Mesmo mortos, continuaríamos a discursar, e sempre com alegria feroz, vaidosa e dramática.
Foi, imagino que foi, no meio dos discursos, em pleno Natal de 74, ciciado e susurrante, que dei comigo a pensar: quem sabe se em vez do verdadeiro Cristo ser Marx – como diziam os nossos discursos e a ponta de cada espingarda – quem sabe se, afinal, o verdadeiro Marx não será este Cristo anunciado por uma estrela amarela no céu vermelho de África.
Para ser completamente franco interessa-me bem mais a a pergunta do que qualquer resposta.
Copiado quase integralmente daqui, do Pnet Homem!

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Ajuda

1) O Banco Alimentar contra a Fome é uma grande ideia e todos os anos contribuo. Mas é uma ideia que podia talvez ser melhorada. O Banco recolhe alimentos à porta dos supermercados que depois são reunidos num armazém e organizados para distribuição. São milhares de sacos cheios das mais variadas coisas. Dantes não havia indicação do que dar e agora isso mudou havendo algumas indicações. Todavia, este sistema implica seguramente altos custos de organização, que só devem compensar porque o trabalho é voluntário. Mas, mais importante, implica que os alimentos sejam dados a preço de retalho e que não se saiba o verdadeiro valor das dádivas. Este sistema podia continuar, dado o sucesso da adesão, mas podia ser acompanhado de uma alternativa: a de se poder dar em talões pagos também nas caixas dos supermercados, talões que depois seriam trocados nos supermercados mas a preços por grosso e portanto mais baixos. Isto podia ainda reduzir os custos de operação. Não sei o que me deu para escrever isto aqui, pois não deve chegar ao destinatário e seguramente alguém já pensou em melhorias deste tipo. Mas mesmo assim aqui ficam as palavras.

2) Não se esqueçam que na declaração do IRS se pode dar 0,5% do rendimento a associações de beneficência. Bem sei que é pouco mas sempre é algum que se tira das unhas do Estado. Se houvesse um site onde se pudessem escolher as associações a quem se quer dar, seria óptimo. Uma espécie de associação das associações. Isso existe?

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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Democracia versus Socratocracia

Há um tempo atrás, relativamente a uma polémica havida neste blog (nomeadamente aqui e aqui), cujo tema de fundo era o condicionamento ou não condicionamento dos meios de comunicação social pelo actual Governo, resolvi nada dizer. Renovo agora a polémica, porém, fruto de alguma preocupação.
O facto é que desde o início desta legislatura temos vindo a habituar-nos a um novo modelo de relação entre o Governo da nação e os órgãos de comunicação social, segundo o qual parece que já ninguém estranha – e, consequentemente, ninguém leva a mal – que o senhor primeiro-ministro (que não é, obviamente, o único a fazê-lo) telefone para directores de órgãos de comunicação social, directores de informação e jornalistas, afirmando-se desagradado com determinadas notícias, manifestando-se furibundo por causa delas, gritando com os seus interlocutores e intimidando-os relativamente ao seu trabalho.
É lícito concluir, neste quadro, que tais actos – ligados a outros, mais estruturais, como a decisão relativa ao já famoso quinto canal e o apoio que o Governo sempre encontra nas Entidades Reguladoras por ele nomeadas – ajudem a explicar o facto da nossa comunicação social não investigar alguns casos relativos a membros deste Governo que, tendo sido notícia, rapidamente se esfumaram e absolutamente desapareceram, nem informar imparcial e objectivamente seja sobre a actuação do Governo, seja sobre a daqueles que lhe são contrários – sendo que não falo aqui apenas de partidos políticos.
Ora, a minha preocupação relativamente a este cada vez maior controlo e ingerência do Estado nos órgãos de comunicação social (cuja visibilidade é hoje apenas a sua total invisibilidade), tem a ver com o facto de que, se lhe juntarmos o controlo cada vez maior do Estado sobre a economia e os acrescentarmos ao endémico controlo do nosso Estado sobre a esmagadora maioria das associações de carácter civil, veremos como a nossa democracia, que o é ainda de um ponto de vista formal, tem neste momento um claro conteúdo totalitário.
É ou não verdade que cresce entre nós a percepção desta cultura totalitária latente na atitude dos membros do Governo, especialmente assumida no autoritarismo do senhor primeiro-ministro, na intransigência da senhora ministra da educação, na arrogância do senhor ministro dos assuntos parlamentares, na implacabilidade do senhor ministro da presidência e na impunidade do senhor ministro das obras públicas? Não vemos nós, dia após dia, essa cultura transvazar e incorporar-se em vários organismos da administração pública, de que os maiores exemplos permanecem a ASAE, os serviços das Finanças e a Direcção Regional de Educação do Norte? Não será estranha esta revolta de tantos sectores chave da nossa sociedade – dos professores, das forças de segurança, dos militares –, que nunca em Portugal se tinham manifestado com esta espontaneidade e com esta força, e mais estranha ainda pelo facto das suas reivindicações surgirem envoltas no eco de uma distante irrealidade?
A lista poderia continuar. Para já fica assim o desabafo. Muitos discordarão, estou certo. Fico à espera. Entretanto, será bom lembrar que, tendo-se finalmente publicado a lista dos credores do Estado, apenas 3 empresas aceitaram integrá-la. Será bom lembrar a percepção comum, sempre não investigada, de que há empresas que controlam cada vez mais e maior parte dos vários sectores da economia, sem que tal aconteça com a necessária e devida transparência. Será bom lembrar que o Estado nomeia hoje directa e indirectamente os membros dos Conselhos de Administração de 5 Bancos portugueses (BP, CGD, BCP, BPN e BPP), fruto de uma intervenção que começou muito antes da actual crise financeira internacional. Será bom lembrar que, por causa dessa crise financeira, a sobrevivência dos restantes Bancos depende hoje, em boa medida, do aval do Estado. Enfim… Será bom lembrar que a democracia nunca está feita, mas a fazer-se: por todos nós, se nos deixarem; só por alguns, se os deixarmos!

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Eastwood e os 100 anos de Oliveira


Fui ver no sábado o último filme de Clint Eastwood (Changeling) que constitui mais uma obra prima. Penso que não existe hoje em dia um outro realizador tão consistente e perfeito na forma como dirige os seus filmes. Para além disso, ou Eastwood tem uma sorte incrível nos guiões que lhe calham ou consegue transformar qualquer guião num grande filme. A única diferença entre este filme e os mais recentes de Eastwood é que ele regressa a uma separação clara entre o bem o mal. Os filmes de Eastwood são quase todos filmes profundamente morais mas, enquanto na grande maioria dos seus filmes mais recentes (Unforgiven, Mystic River, Million Dollar Baby ou o "díptico" sobre a batalha de Iwo Jima) Eastwood se concentrou na ambiguidade moral e na dificuldade de identificar claramente onde está o bem e o mal, Changeling é um filme que não nos deixa dúvidas a esse respeito. É bem possível também que Angelina Jolie ganhe o Óscar com a sua interpretação (embora, pessoalmente, me pareça que falta um pouco de profundidade psicológica à sua personagem: é uma interpretação perfeita até na sua contenção mas penso que Angelina Jolie simplesmente não consegue exprimir a "geologia" psicológica de um personagem).
A razão porque vos escrevo sobre o filme é outra, no entanto: foi o primeiro filme de Eastwood que vi depois de saber da sua admiração por Manuel de Oliveira. Confesso que isso gerou em mim uma certa perplexidade inicial: eu sou um grande fan de Eastwood mas não de Oliveira. Digo isto com a consciência de que Manuel de Oliveira celebra 100 anos esta semana e que, em Portugal, estas comemorações costumam excluir qualquer referência crítica. Como não há o risco, no entanto, de ofender Oliveira (duvido que leia o nosso blog ou que se importe minimamente com o que penso) gostaria de ser sincero no que respeita ao seu cinema, em particular à luz da sua "relação" com o cinema de Eastwood.
Compreendo os filmes de Oliveira como uma expressão da sua tese sobre o cinema enquanto forma de literatura ou teatro filmados. Compreendo a tese e os seus filmes mas não concordo e não gosto (a diferença é o Aniki Bóbó que formalmente, no entanto, está bem mais próximo do neo-realismo; que pena Oliveira não ter seguido esta via, talvez por não ter realizado outro filme durante muitos anos). Sou capaz igualmente de apreciar certos planos e é aqui que vejo alguma influência em Eastwood (os travellings lentos e com os personagens fixos na câmara por exemplo). Só que, para mim, se Oliveira coincide com Eastwood na elegância formal de certos planos cinematográficos faltam-lhe três dimensões essenciais do cinema que Eastwood dominana perfeição e o transformam no meu realizador favorito: direcção de actores, montagem e ritmo narrativo (o que é diferente de um ritmo acelerado; os filmes de Eastwood por vezes são lentos mas com um ritmo narrativo perfeito). A consequência é que os filmes de Oliveira podem ser objectos muito interessantes mas, para mim, não são bom cinema.
Como este blog está cheio de cinéfilos mais especialistas que eu estou curioso de saber se partilham desta opinião. Discutir Manuel de Oliveira e caracterizar o que faz talvez seja uma forma interessante de celebrar os seus 100 anos. .

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domingo, 7 de dezembro de 2008

O sexteto será de cordas?!

O sexteto de luxo de Barack Obama, incluindo Hillary Clinton como ministra dos Negócios Estrangeiros e um ministro de Bush, Robert Gates, na Defesa, mostra que a democracia americana tem pouco a ver com;
a) a nossa forma europeia (e ainda menos com a portuguesa) de separar esquerda e direita;
b) com a forma europeia, e muito menos com a nossa forma portuguesa, de vermos a alternância democrática.
Aos dois já citados, Obama juntou Janet Napolitano para cuidar da luta anti-terrorista e da imigração, Timothy Geithner, banqueiro que transita da Reserva Federal para as Finanças, Eric Holder que será o primeiro negro ministro da Justiça e James Jones, um general da Nato, para a segurança nacional. As nomeações vieram juntas com um solene aviso: “A economia americana está muito mais inclinada a piorar do que a melhorar”.
No essencial, a equipa é centrista (ou até conservadora se a referência for o espectro democrático) o que sobretudo se reflecte no “dream team” de conselheiros que se juntam, nas Finanças, a Geithner.
Dos 6 ministros – ou secretários – há três com mais de 60 anos (Hilary, por exemplo), dois com mais de 50 e apenas um abaixo, no caso Geithner que tem 47 anos.

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Ministros da Educação


Falemos de ensino. Do ensino secundário:

1. Trinta e três greves em oito anos.

2. Não há evolução de carreira: tanto faz que se seja bom como mau professor. Não há sanção, nem há recompensa e os professores são refractários à avaliação.

3. Os slogans das manifestações dos anos 70 são os mesmos das manifs de hoje.

4. A reivindicação maior é tempo: “querem ser profs para terem mais tempo livre”, acusam-nos os mais críticos, apontando facto da maioria dos profs serem mulheres que querem estar em casa cedo e ter as mesmas férias grandes dos seus filhos.

5. Os profs são, hoje, uma classe proletarizada e deprimida pelas suas próprias queixas.

Não, este não é o quadro que Maria de Lurdes Rodrigues tem de enfrentar. Este é o retrato-robot que enfrenta o ministro Xavier Darcos, responsável pela Educação dos franceses no governo de Sarkozy. O governo francês é dos que mais gasta na Europa (julgo que é mesmo o que mais gasta, com um professor para cada 12 alunos) com resultados tão medíocres como desanimadores que fazem com que 8,5% dos alunos com 15 anos demonstrem grande dificuldade de leitura.
Xavier Darcos, tal como Maria de Lurdes, iniciou a sua cruzada de mudança. Resultado, deparou-se com uma resistência implacável e sistemática. Já estava à espera, os sindicatos não se mostraram, nos últimos trinta anos, favoráveis a uma só das propostas que os diferentes governos apresentaram. Apesar de tudo conseguiu evitar o terramoto português. Favorecem-no duas situações:
pela inexorável marcha da idade, há uma saída massiva de professores da velha geração para a reforma;

a renovação geracional trouxe gente interessada em trabalhar melhor, investindo no seu papel de educador, com a condição de ser mais bem paga.

Parece que Xavier Darcos tem dinheiro para isso.

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A morte de Alexis II


Quando no dito Ocidente nos ocupamos sempre das mesmas coisas, e os projectores se deixam deslumbrar sempre pelas mesmas vistas, gostava de lembrar a morte de Alexis II.

Um homem que deixa uma igreja ortodoxa mais forte que a que encontrou e que deu passos importantes na conciliação com a igreja católica.

Personagem complexa, mas só os insípidos não o são.


http://en.wikipedia.org/wiki/Patriarch_Alexy_II_of_Russia

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Sarkozy encontra Dalai-Lama

Não se pode dizer que Nicholas Sarkozy não tenha a sua própria agenda. E já se viu que não é a habitual e canónica Moleskine. Como também não parece que o produto seja "made in China".
Sarkozy diz que a agenda dele não é dramática.
Há quem diga que é simbólica.
Os chineses alegam que é uma agenda espinhosa.

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Eleições antecipadas

Não tenho dados para validar ou para desacreditar a tese segundo a qual o PS prepara caminho para eleições antecipadas. Desse ponto de vista, os desmentidos oficiais valem o que valem. Mas não tenho muitas dúvidas que, a serem provocadas, poderiam traduzir-se num magistral golpe de misericórdia para a oposição. Do que verdadeiramente duvido é do «killer instinct» de José Sócrates.

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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Inverdades


Lembro-me que em 1980 tínhamos um pequeno aparelho de tv, a preto-e-branco e lembro-me de ver o meu pai saír de casa, de um salto, quando a tv dava as notícias do acidente de Camarate e ir para a rua tentar ver o ar que se respirava.

Essas imagens e a dos políticos desse tempo, ficaram-me gravadas na memória. Quando era miúda, tendia-se mais para o absoluto. Parecia que nesses tempos se usavam menos palavras do que hoje.E as que havia, pareciam absolutas.

Por exemplo, "verdade", "mentira". Estacávamos diante dessas palavras como diante de um fosso. Respirávamos fundo antes de afirmarmos que era verdade e não teríamos coragem de dizer que era mentira aquilo que sabíamos ser verdadeiro.
Para além de que chamar alguém mentiroso exigia coragem. Não raramente teríamos de defender ao murro e pontapé a palavra e apanhar um par de palmadas da progenitora não era caso virgem.

Hoje, desapareceram a responsabilidade, o fosso, a vertigem do absoluto e a coragem. Inventaram-se palavras novas. "Inverdades", é uma delas. É como um passadiço de madeira trémulo e inquieto que permite atravessar para o outro lado, em segurança.

Já não é preciso tomar fôlego. " Inverdades" é uma palavra inventada à medida dos irresponsáveis e dos cobardes.

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MEZZALUNA

Os convivas do "Geração de 60" juntaram-se ontem no restaurante Mezzaluna, em Lisboa, por amável convite do Chef. Guerrieri, italo-americano radicado em Portugal.

Não houve Vichysoise.

Mas houve fartura de bem receber, fina comida, escorreita bebida e prazenteira conversa, para que conste.

Juro que nada desta apreciação resulta do facto de o Chef Guerrieri por duas vezes, à chegada e na partida, me ter dito, à laia de cumprimento, num sonoro e cantado italiano " Bela!"

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Sentença de surdez


Não sei se alguns companheiros geracionais partilham esta paixão, mas David Lodge era o meu romancista contemporâneo favorito. A utilização do passado não significa que ele tenha morrido: está bem vivo e publicou em 2008 mais um romance, "Deaf sentence".

Descobri David Lodge em Inglaterra. Eu fazia o doutoramento em Warwick, e comecei pela brilhante trilogia "Changing places - small world - nice work". E fui por aí fora: para trás (The British Museum is falling down, How far can you go?) e aguardando ansiosamente o próximo livro (Therapy, Paradise News, Thinks).

É difícil dizer o que me atrai mais em David Lodge. Talvez a forma ligeira mas profunda com que aborda problemas sociais. Talvez a forma um pouco estranha como constrói situações à partida improváveis mas que acabam por ser quase inevitáveis. Talvez a bonomia e o sentido de humor que levam a tiradas absolutamente hilariantes a propósito de assuntos sérios.

Nunca tive dúvidas de que os seus romances tinham fortíssimas componentes autobiográficas. Em Changing Places ele claramente descreve a sua sabática de troca de posições académicas com um professor de Berkeley (no livro Euphoric State University - estamos no final dos 60s). Em Nice Work a relação do mundo académico com o mundo do trabalho thatcheriano. Em The British Museum is falling down, o seu próprio debate moral (um jovem que está a acabar o PhD) com a pílula, no início dos anos 60. Em Therapy, as suas experiências com a psicanálise. Em Paradise News, viagens de férias em grupo organizado, tão à inglesa. Em Thinks, as relações entre o mundo das letras e das ciências cognitivas.

Para mim, isto era mais um incentivo aos seus livros. "Deixa cá ver o que ele esteve a fazer agora!". O traço mais marcante era a forma como ele descrevia situações semelhantes sem dúvida a outras por que tinha passado e construía um plot interessantíssimo e com um sentido de humor excepcionais. Com todos os livros dele dei por mim a rir alto.

Apareceu agora este "Deaf Sentence". Num posfácio Lodge admite que o livro tem componentes autobiográficas: a sua luta com a surdez, a perda do pai, uma visita quase falhada a Auschwitz.

Para um fã incondicional, o livro é uma tremenda desilusão.

David Lodge não perdeu o instinto de criar situações intrigantes e aparentemente improváveis. Mas onde antes era leve, agora é pesado. Onde mostrava um humor subtil e hilariante, agora é azedo e amargo. Onde mostrava saber rir de si próprio e tinha prazer em partilhar com os outros esse riso, agora é apenas descritivo e tenso.

Amargura, azedume, tensão. Acho que David Lodge perdeu a capacidade de rir de si próprio, de olhar com leveza para os seus próprios problemas. Infelizmente já não vou estar sempre à espera de ver quando sai o seu próximo livro.


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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

39º Celsius


Crónica falsa e recomendação depressiva encontrados nos perdidos do Pnet Homem


Bati um recorde pessoal. Cheguei aos 39,3º de temperatura. Um febrão como, julgo, só terei tido nos palúdicos tempos de Angola. Foram 48 horas e devo ter delirado, mas pouparam-me às enormidades que possa ter dito. Resultado, hoje, ainda febril e temendo efeitos colaterais, não há crónica. Eu que exagero, e não é pouco, nos adjectivos e outros ademanes literários, ainda acabaria por submergir inocentes e pacientes leitores com inopinados oxímoros ou, o que não seria melhor, corria-os todos a alexandrinos.

Antes destes sintomas se terem manifestado, tinha começado a ler e nos momentos de lucidez, digo eu, continuei e terminei a leitura de um livro que recomendo vivamente. Chama-se "Ennemies Publics" e contem a correspondência trocada, de Janeiro a Julho de 2008, entre dois intelectuais franceses, Michel Houellebecq (um romancista que admiro) e Bernard-Henri Lévy (filósofo de grande inteligência).

A primeira frase do livro, da primeira carta de MH a BHL, anuncia uma empresa de desassombrada racionalidade: "Tudo, como se diz, nos separa - com excepção de um ponto fundamental: somos, tanto um como o outro, dois indivíduos bastante desprezáveis".

A seguir, em pouco mais de 300 páginas, MH e BHL, seguindo um modelo confessional que os aproxima da ideia de literatura como tauromaquia, fazem uma radiografia de quase todos os grandes temas que, na época em que vivemos, podem dar consistência e fundamento ao que, para não estar a complicar muito, chamaria "uma visão do mundo". Política, filosofia, islamismo, judaísmo, sexo, a vida pessoal são debatidos com uma frontalidade pouco habitual, tendo até em conta que o objectivo confessado da correspondência era a publicação em livro. Não percam. Eu consegui chegar aos 39,3º. Mas há febres que valem a pena.



um vídeo esclarecedor

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Ele há títulos que me chateiam

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O governo económico da Europa?


É interessante notar que embora se discutam os méritos do plano económico para a Europa apresentado pelo Presidente da Comissão Europeia Durão Barroso, ninguém parece reparar que tal plano pode constituir provavelmente uma das maiores transformações políticas da União Europeia. A União Europeia tem uma política monetária mas, diz-se frequentemente, falta-lhe um governo económico. A política económica permanece, em boa medida, nas mãos dos Estados e a União tem um orçamento irrisório quando comparado com o dos seus Estados Membros (a União sempre foi vista como um "Estado" regulador: legisla porque não tem o que gastar). O que Durão Barroso procura é criar um governo económico da Europa sem dinheiro e sem verdadeiras competências económicas. Dos 200 biliões de Euros apenas 30 biliões são da União Europeia. Os outros pertencem ao orçamento dos Estados Membros. O que Comissão faz é orientar a forma como os Estados devem gastar esse dinheiro.
Será esta estratégia viável ou apenas uma ilusão que o comportamento individual dos Estado se encarregará de rapidamente destruir? O seu possível sucesso assenta em duas componentes. Primeiro, politicamente, este é o momento certo para a Comissão assumir uma posição de liderança: reivindicando-se uma estratégia comum da Europa para sair da crise vai ser difícil aos Estados Membros vir agora opor as suas competências e políticas individuais ao projecto da Comissão. Segundo, sendo verdade que a Comissão não tem competências clássicas de governo económico ela pode impor fortes limites ao exercício pelos Estados Membros das suas próprias competências. Numa altura, por exemplo, em que os Estados necessitam de conceder auxílios económicos a várias empresas e sectores produtivos da sua economia é a Comissão Europeia que tem o poder de os autorizar. Um dos aspectos fundamentais deste "governo económico", emergente da proposta da Comissão Europeia, é o de dizer aos Estados onde eles estão "autorizados" a gastar o seu dinheiro. Desta forma, a Comissão define, indirectamente, as prioridades estratégias de investimento na União Europeia. Se for bem sucedida, a estratégia de Durão Barroso consubstancia um embrião de governo económico mas, igualmente, uma nova experiência de governo económico e político: o executivo descentralizado.

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Quem não sente, não é filho de boa gente

Eu sei que é fácil ter um preconceito relativamente a Cavaco Silva.
Entre outros, o Natal presta-se a isso. Claro, o episódio do bolo-rei.

Na semana passada veio tudo a terreiro dizer que não percebia porque é que o nosso Presidente tinha feito aquele comunicado, relativamente à situação patrimonial e a propósito do BPN.


" Manuel Dias Loureiro é, indiscutivelmente, um homem inteligente, trabalhador e competente. Por isso se tornou um dos mais importantes militantes do PSD, chegando a secretário-geral dos sociais-democratas. Por isso se tornou um pilar do chamado cavaquismo, exercendo bem os cargos políticos-ministeriais que ocupou. Por isso, após ter abandonado a política, se tornou num homem de negócios de sucesso. Rico, no dizer de alguns. Com uma vida confortável, segundo o próprio.(...)" - Nicolau Santos, in jornal Expresso.

Indiscutivelmente. Quem não sente, não é filho de boa gente.

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Congresso PCP

Vejo no noticiário: sai toda a gente, entram só os delegados, para votar - secretamente.
E de repente lembro-me daquela cantiguinha:
" Lá em cima está o tiroliroliro
Cá em em baixo
Está o tiroliroló,
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina
A dançar o solidó..."
Que é, nem mais nem menos, do que a música do faz de conta.

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"O Quebra-Nozes"


Juntam-se naquele espaço o que de melhor Portugal consegue fazer.


Refiro-me ao bailado "Quebra-Nozes" que, por estes dias, podemos ver dançado pela Companhia Nacional de Bailado, no palco do S. Carlos, com música da Orquestra Sinfónica Portuguesa.


Espectáculo natalício por excelência, que convida famílias. Neste sábado à tarde, crianças eram muitas dezenas! Tantas, tantas, e no entanto silenciosas, sem tosses. Todas de pescoço esticado, deliciadas com a fada de açucar, rapazes a vibrar com a dança russa e os saltos no ar, dedos que tocam a ponta dos pés a um metro do solo.


O cenário brilha, cai neve do céu.


Mesmo à distância, vemos as veias salientes daqueles soberbos seres humanos, atletas de alta competição, seres de excepção.


Tenho pena que a festa só desça à cidade uma vez por ano, que apenas faça parte do milagre do Natal. E é pena porque estas prendas duram uma vida inteira, não se partem, nem se rasgam.

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