O axioma da escolha e o pecado original
A história é conhecida por quem sabe um pouco da História da matemática. Zermelo enuncia o axioma da escolha e muitos matemáticos, alguns deles grandes, sobretudo da escola francesa, acham a conversa uma perda de tempo.
Ou por o axioma ser
evidente, ou fantasista, ou simplesmente inútil. Não interessa neste caso saber
o que diz o axioma. O importante é que Zermelo muito argutamente estuda textos
escritos por esses mesmos matemáticos que o criticam e mostra que são
precisamente eles a usar esse axioma nas suas demonstrações, sem disso terem
consciência.
Para o historiador médio,
ensinado a desconfiar de teorias gerais (o que em si é toda uma teoria geral).
qualquer menção a um axioma geral na História é simples tontice. Vira a sua
cara e pensa noutra coisa.
Pior ainda, se lhe dizem
que esse axioma tem natureza religiosa, é mesmo um dogma, e, pior ainda, um
dogma católico, nada poderá haver de mais execrável no catecismo que lhe
ensinam.
O problema é que toda a
crítica histórica séria assenta nesse axioma: o do pecado original. Quando as
fontes históricas dizem que os culpados são os outros, que só fizemos esta
guerra porque fomos provocados, é de bom método desmontar esta afirmação e ver
que contributos deram os ditos puros e imaculados para uma situação de
violência.
Em suma, a premissa é a
de que todos temos pecados, e que uma testemunha histórica é tanto menos
credível quanto diz que vem de um lado imaculado, sem qualquer pecado.
Eis o conteúdo do axioma
escondido da crítica histórica. Girard já tinha mostrado que a antropologia
europeia apenas poude existir por causa da desconstrução cristã do bode
expiatório. Da mesma forma, a História só existe caso se assuma o pecado
original.
Como os matemáticos
franceses agastados com a enunciação do axioma da escolha, o historiador médio
também não vai achar graça a esta ideia. Não há problema. Que não se queira ver
nu é compreensível. Mas todos temos de perceber que todos, sem qualquer
excepção, estamos nus por debaixo das roupas. E que de uma forma ou de outra,
um e outro axioma mandatam que seja possível a escolha.
Alexandre Brandão da
Veiga