segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O axioma da escolha e o pecado original

 A história é conhecida por quem sabe um pouco da História da matemática. Zermelo enuncia o axioma da escolha e muitos matemáticos, alguns deles grandes, sobretudo da escola francesa, acham a conversa uma perda de tempo.

 

Ou por o axioma ser evidente, ou fantasista, ou simplesmente inútil. Não interessa neste caso saber o que diz o axioma. O importante é que Zermelo muito argutamente estuda textos escritos por esses mesmos matemáticos que o criticam e mostra que são precisamente eles a usar esse axioma nas suas demonstrações, sem disso terem consciência.

 

Para o historiador médio, ensinado a desconfiar de teorias gerais (o que em si é toda uma teoria geral). qualquer menção a um axioma geral na História é simples tontice. Vira a sua cara e pensa noutra coisa.

 

Pior ainda, se lhe dizem que esse axioma tem natureza religiosa, é mesmo um dogma, e, pior ainda, um dogma católico, nada poderá haver de mais execrável no catecismo que lhe ensinam.

 

O problema é que toda a crítica histórica séria assenta nesse axioma: o do pecado original. Quando as fontes históricas dizem que os culpados são os outros, que só fizemos esta guerra porque fomos provocados, é de bom método desmontar esta afirmação e ver que contributos deram os ditos puros e imaculados para uma situação de violência.

 

Em suma, a premissa é a de que todos temos pecados, e que uma testemunha histórica é tanto menos credível quanto diz que vem de um lado imaculado, sem qualquer pecado.

 

Eis o conteúdo do axioma escondido da crítica histórica. Girard já tinha mostrado que a antropologia europeia apenas poude existir por causa da desconstrução cristã do bode expiatório. Da mesma forma, a História só existe caso se assuma o pecado original.

 

Como os matemáticos franceses agastados com a enunciação do axioma da escolha, o historiador médio também não vai achar graça a esta ideia. Não há problema. Que não se queira ver nu é compreensível. Mas todos temos de perceber que todos, sem qualquer excepção, estamos nus por debaixo das roupas. E que de uma forma ou de outra, um e outro axioma mandatam que seja possível a escolha.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

(mais)