terça-feira, 30 de Setembro de 2008

II. La fondation de Rome, Alexandre Grandazzi, Les Belles Lettres

Merece-me, no entanto, algumas críticas. Como vai sendo moda actualmente, fustiga-se Dumèzil e o trifuncionalismo indo-europeu. O pano de fundo é a fustigação de qualquer teoria geral. O amor pós-moderno ao fragmentário impera nesta obra.

O problema é que a imposição do fragmentário como modo de leitura da realidade padece sempre de um vício lógico. Não havendo conceito unitário, ou melhor unificador, não havendo invariâncias, como é possível aglutinar um fragmento? Porque mesmo um fragmento tem uma consistência própria. E havendo vários fragmentos só se poderia então analisar um de cada vez. Que critério de escolha deste fragmento? Se se analisa mais que um, que os liga entre eles?

A imposição do fragmentário é assim uma metodologia que omite premissas. Melhor, que as reprime. É que mesmo a descrição de um fragmento pressupõe uma procura de unidade, mesmo que menor. E essa procura de unidade pressupõe um critério unificador. A fragmentação tão amada pelos pós – modernos (nome agastante que se reduz a dizer que se é posterior a qualquer coisa que se define como modernismo por mera caricatura) é mais que uma porta para o arbitrário, é a sua tirania. A tirania é o seu critério unificador.

O segundo problema passa pela valoração do contributo indo-europeu. Uma questão é a de saber se a teoria unificadora tem falhas, e a do trifuncionalismo tem-nas como todas as teorias, uma questão igualmente é a de saber se o critério unificador dos povos indo-europeus sob o ponto de vista ideológico terá de ser outro. Provavelmente. Uma outra coisa, igualmente verdadeira, é que qualquer teoria unificadora não prescinde da apreciação de situações concretas. Querer explicar os druidas apenas pelo fundo indo-europeu, dado que não existem druidas em todos os povos indo-europeus, seria sempre falho. Mas esperar que povos que falam línguas com tão fortes parentescos entre si não tenham elementos ideológicos, religiosos e de mundivisão comuns parece-me irrealista.

É evidente que existem fenómenos de importação. Um tunisino pode falar francês, e isso não significa que esteja mais próximo dele um francês que o mesmo francês está da Alemanha. Mas as línguas pressupõem e conformam ao mesmo tempo vivências. Seria muito peculiar que não houvesse um fundo comum de modos de vivenciar entre os povos indo-europeus.

O terceiro problema, já aludido, tem a ver com o facto de as invariantes não poderem excluir a análise das concreções. Roma e Atenas fazem parte do espaço indo-europeu, em acréscimo com trocas muito intensas entre si. Mas Roma não é Atenas. Ninguém diz o contrário. E isso não pode ser descurado, obviamente. Visto da monografia percebe-se que o geral se torne irritante. Quando a verdade é que o geral está mais delimitado pela linguagem em que se enuncia que pela injustiça do que se diz.

Mas, e anuncia-se aqui o quarto problema de fundo e este geral na metodologia histórica, onde está o método e o objecto relevante? A História tem-se debatido com três posições de relevância: o universal, o típico e o concreto. A prática histórica oscila mais entre o típico (teorias estruturais, mentalidades etc.) e o concreto (seja o que for este concreto, se país, de cidade, se acontecimentos, se personagem). O universal tem sido objecto de estudo ou de amadores ou dos raros génios que a História como ciência teve.

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Paul Newman


O meu comentário a este belo texto do Pedro.

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segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

Newman: Somebody Up There Likes Him

Paul Newman morreu. Com ele, morreu a dignidade na derrota. Ninguém como Newman (nem Gary Cooper, nem John Garfield, nem Pacino, nem Montgomery Clift) mostrou o interior da dignidade no momento do ocaso, do falhanço, do fecho irremediável. Todo o cinema de Newman é construído nessa específica complexidade: e quando se perde tudo, como se mantém o mais importante?

Em "Nobody's Fool", o sexagenário Sully Sullivan (ninguém parecia menos sexagenário do que Newman apesar de o ser) sabe que perdeu as hipóteses de romance com Melanie Griffith, 25 anos mais nova, mas o seu discurso de derrota - no banco da frente de um carro nas traseiras de um bar de uma cidadezinha carregada de neve - sabe a vitória.
Em "The Color of Money", conseguimos sentir a dor física de "Fast" Eddie Felson depois de ser indecentemente aldrabado por Forest Whitaker, que se aproveita de um Felson imerso em auto-deslumbramento. Newman está de óculos escuros, mas sentimos os seus - terríveis, tremendos, doces - olhos azuis a ficarem castanhos com a vergonha e a melancolia.
Em "The Verdict", o "looser" Frank Galvin, advogado de meia-tigela, habituado a defender filhos miseráveis que ficam com a segurança social dos pais, tem uma última chance de recuperar a rectidão, e consegue agarrá-la, mas é preciso ver Newman a perceber que a cooperante - e amante - Charlotte Rampling o enganou em toda a linha para tocar na desilusão de um homem exausto .
Em "Butch Cassidy and the Sundance Kid", Butch, bandido simpático como poucos, mantém a cabeça próxima do céu segundos antes de entregar a vida às balas, roubando a cena (e o filme, e o cinema que ali estava a acabar) ao cintilante Robert Redford e ao realizador George Roy Hill.
Em "Cat on a Hot Tin Roof", a censura não permitiu a implosão da homossexualidade de Brick - o sólido, inquebrantável jogador de futebol americano que não correspondia aos sorrisos das "cheerleaders" na peça de Tennessee Williams - mas Newman deu-lhe a agonia de um animal ferido, a desaparecer devagarinho ao lado da pantera omnívora, Elizabeth Taylor.
Claro que há a célebre alma amaldiçoada de Eddie Felson enquanto jovem em "The Hustler", mas o retrato exacto da precária dignidade na derrota já estava no filme de estreia como protagonista, "Somebody Up There likes Me", com o seu Rocky (emulado do Marciano) a despedir-se de tudo no ringue, menos do sonho da honra.
Newman vai ficar bem. Por ser um dos mais firmes mensageiros da nossa extrema fragilidade, somebody up there likes him.



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" A PIZZA IS BORN "

It’s almost August in Lisbon, I decided to stick around and enjoy the peacefulness of this diverse and alternative city without all the usual traffic.While most of you were out and about working on your tan line this past summer, I was in my kitchen at La Brus”K”etta working on a different tan-one which involved “tanning the perfect pizza dough”...



Ever remodel your kitchen at home and have to put up with some bothersome issues which call for an aspirin and a good night sleep? Something about dealing with renovations….need I say more?  After it all came together it was time to play with my imported oven from Italy and patiently await the arrival of my teacher -Paolo.

Pizza dough can become extremely temperamental-almost that of a 4yr old child not getting his/her way! If it’s not handled correctly or left unattended chances are it becomes over worked and extremely difficult to put up with.Even a chef with my experience needs a little coaching once in a while-especially the kind of couching to help bring back some memories of my “teenage pizza days”. May sound easy but making the perfect pizza dough can be as difficult as making the perfect eggs over easy,“bacalhau com natas” or a smooth “leite creme”…practice definitely makes perfect!

A pizza man isn’t just about mixing water and flour. It involves understanding the dough’s silky exterior touch and delicate cushion consistency! Lucky for me, “Paolo o Pizzaiolo” a native “Napoletano” from my home town Ottaviano-Napoli was here to remind me of those forgotten “pizza tricks” and also added some new ones in order for us to reach perfection.

After our “espresso stretto”, we would head down to La Brus”K”etta. Our primary goal…to create the most scrumptious pizza’s ever to hit Lisbon.With his knowledge and my background using Portugal’s tasty ingredients- La Brus“K”etta was about to give birth to the new Portuguese Pizza’s! The menu would later develop-making sure we kept tradition alive by adding the “motherships” of pizza  such as a “margherita” and a “marinara” to the list. It doesn’t get more “simple tasty” than that ! Just the right amount of mozzarella cheese-or not.A true test with these two pizza's-you need to taste the freshness of  that ripe and juicy "seeded red fruit"-the fresh tomato!

We were able to reach our perfect batch of dough after the second attempt. The only ingredients we did not import, fresh yeast and water. We lucked out! “Lisbon’s water is not much different from that of Napoli. Come to think of it-the people, the way to prepare food and the family bonds here are not that much different from us ”, said Paolo.

It was time to put the pizzas to the test. Following the waiters to the dining room and keeping our distance, we were able to see the first reaction after the initial bite. We were content with all the happy faces shortly followed by plenty of “mmmm’s”!

Now for the fun part-Paolo could not understand why people were cutting the pizza with a knife and fork. I explained that Portuguese have some of the best table manors and “know how to eat” - no matter what background they come from. A napkin to pick up finger food, a knife and fork when seated at the table-always!

The reason for Paolo’s shock; pizza gets “butchered” when cutting it with a knife and fork. In order to get the full flavor-one needs to pick up the slice and eat as if you would a sandwich-which brings us to the reason why a pizza pie is sliced in the first place. Don’t worry about the paparazzi or neighboring friends-savor the true flavors of this flour and water creation without utensils and allow it to show its "casual romantic side"…grab that slice!

Chef Guerrieri

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I. La fondation de Rome, Alexandre Grandazzi, Les Belles Lettres


Quem fizer uma primeira leitura poderá pensar que é mais obra de metodologia histórica que de estudo de um caso concreto. Mas não seria justo afirmar isto desta maneira. Apenas prova que qualquer análise das origens implica sempre repensar o método. Porque o método pressupõe uma origem. Seja a origem a palavra crística, seja o surgimento de Hélade, ou a fusão bárbara no império romano. Roma não é o Cartaxo. A fundação de Roma tem um outro peso, histórico, mítico, ideológico, civilizacional.

Nesse aspecto é dos livros mais profundos que vi sobre um tema aparentemente tão restricto e tão nebuloso como a fundação de Roma. A uns parecerá que este já está dito e redito à exaustão. A outros parecerá que não se deve falar da questão, que deve ser relegada para o plano da lenda.

O que é fascinante neste livro – para além da seriedade e da erudição do autor, o que nunca é de desprezar – é a sua capacidade de nos mostrar como a complexidade dos métodos e a sua diversidade pode contribuir para uma compreensão mais profunda de uma questão que oscila entre ser rebarbativa ou esquecida, entre ser fundamental, ou mera curiosidade. Filologia, arqueologia, geologia, História, todas contribuem para delimitar o que seja a dita fundação de Roma.

Roma e Pavia não se fizeram num dia. Continua a ser verdade científica. Mas que tenha havido uma função de Roma, uma efectiva fundação, não no sentido de criação ex nihilo, mas de sagração das suas fronteiras, e consequentemente exposição da sua identidade, que tenha havido tal realidade, chame-se Rómulo ou não o seu fundador, e que a arqueologia nos corrobore, pelo menos neste sentido, esta fundação, apenas nos pode deixar em admiração. Depois das polémicas entre o hipercriticismo e o fideísmo históricos (para usar as felizes expressões do autor), percebe-se que a lenda como material tem de ser usada com mais cautela, e que por múltiplas vias (como a arqueologia nomeadamente) a lenda pode ser corroborada.

No fundo, existe um paradigma algo de negociante no hipercriticismo. Não é por sorte que surge em ambiente burguês. A sua lógica é a do merceeiro que desconfia sempre que o estão a enganar nas contas. A sua minudência, muitas vezes meritória, mais não é que um sinal de desconfiança generalizada na honestidade alheia. E um imenso gasto de energia em desperdício. Esperto é quem desconfia. Contesta-se tudo ou quase tudo, porque quanto maior o campo do indicado como suspeito menos crentes parecemos, e logo menos crédulos. O problema é que a descrença, aqui como noutras áreas da vida, só por si, ou como crítica de vida, leva sempre a empobrecimento. Acaba por ser acrítica, porque mais não é que recusa sem critério. Não é de espantar, acaba por redundar em birra.

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domingo, 28 de Setembro de 2008

A life, vidinha

"Lifestyle" é, segundo artigo de reputada escritora no jornal " Sol" de ontem, a escolha consciente de mulheres diletantes, que não se divorciam para manterem "(...) carrinhas e jeeps, crianças educadas em colégios particulares com actividades extracurriculares que incluem natação, rugby ou equitação, todo um lifestyle programado ao milímetro que nos fizesse sentir adultos, responsáveis e arrumados na vida.".

Remata a autora que em nome desta abundância, estas mulheres não se querem divorciar, vivendo assim uma vida (infeliz?) em nome do "lifestyle".
É verdade, existem mulheres que vivem assim. Da Lapa até Cascais.Da Avenida da Boavista até à Foz, passando por uma das ruas mais belas de Portugal, a Rua de Gondarém, no Porto.

Com esta concepção, imagino a autora uma férrea apoiante da nova Lei do divórcio. E vejo agora onde o Primeiro-Ministro foi buscar os argumentos para a lei.
Estar casado, ou não, divorciar-se ou não, é só e apenas uma questão de "lyfestyle".
Com o devido respeito pela autora e pelo Primeiro-Ministro, estas mulheres não são representativas das mulheres em Portugal e generalizar esta concepção é uma ofensa para as mulheres portuguesas.

Tenho familiares, amigas, colegas de trabalho, conhecidas, em Lisboa, no centro, no norte do país, nas ilhas. Conheço advogadas, juízas, professoras, secretárias, administrativas, costureiras, empregadas de limpeza, empresárias, comerciais, e todas, em diverso grau, defrontam graves problemas económicos com o divórcio. Se os salários são baixos em Portugal, os salários das mulheres são ainda mais baixos. Uma mulher com o seu salário a sustentar-se a si e aos filhos, passa mal, muito mal, dependendo sempre da boa vontade de familiares mais próximos.

Não falo de não terem dinheiro para ir ao cabeleireiro. Falo de não ter dinheiro para a comida, para transportes, para pagar as contas da electricidade e água.

Já ouvi muitas mulheres dizerem-me que têm apenas um filho porque em caso de divórcio ainda o conseguem sustentar, mas não têm o segundo porque não estão certas de lhe conseguirem dar de comer...
Isto num país com uma taxa de natalidade baixa como a nossa.

A vida destas mulheres divorciadas que eu conheço não tem "style", é só life, ou vidinha, em bom português.

Dir-me-ão que se já não há afecto...É possível, mas muitas mulheres que conheço, percebem que da constância do casamento depende o mínimo para os filhos: comida, educação. Por isso pugnam tanto por ele. E por isso dependem tanto das questões patrimoniais da Lei do divórcio.

O "afecto" lembra-me sempre um cachorro lindo branco de focinho húmido preto que se compra da loucura do Natal e se abandona para morrer atropelado na auto-estrada a caminho das férias algarvias, quando ele cresce, come muito e tem doenças.

Bem vistas as coisas, também é coisa que sucede às mulheres. Damos à luz bebés,crescemos, comemos muito, e temos doenças. Compreendo, não há afecto que resista.

Ou mudo de amigas, ou torno-me escritora famosa, ou mudo de país.

E no entanto só me assalta a frase da minha avó Fernanda, a propósito de um divórcio famoso na família:

" - Quem lhe comeu a carne, que lhe roa os ossos...".

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" Ensaio sobre imanência e metafísica na masculinidade enquanto obra de arte".


O título é roubado de uma frase que o Manuel Fonseca escreveu no post do Dean Martin.

Lembrei-me desta obra de arte. Neste filme não sei qual dos dois é a imanência, nem qual é a metafísica.

Mas fiquei a saber o que era a masculinidade.

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Tintin contre Professeur Choron

No inicio dos anos 80, o meu Tio Antonio ofereceu-me a sua preciosa colecçao de cerca de 40 numeros do Hebdo Hara Kiri. Esse foi um momento de incandescente iluminaçao em que os discretos Tintin, Corantin, Coronel Clifton, Corto Maltese, o muito Portugues Espiao Acacio e muitos outros habitantes das paginas do ja’ nessa altura extinto “Tintin”, foram esmagados de forma visceral por um universo de humor “Bete et Mechant” onde a ironia se misturava com o grotesco, o absurdo e o neo-pornografico. As capas de um provocatorio absolutamente gratuito, o total desrespeito pelo bom gosto dos textos e a agressividade da banda desenhada do Hara Kiri abriram-me assim as portas a uma fascinante e "nova" ordem (a)cultural.


O Hebdo Hara Kiri fundado em Paris por George Bernier (aka Prof. Choron - 1929-2005) em 1960, tinha como slogan «Si vous avez deux francs à foutre en l'air, achetez Hara-Kiri, sinon, volez-le !». Com Choron ao comando, a revista encarna ao longo de mais de duas decadas o espirito ultra corrosivo de uma corrente anarquica e radical, que parte de uma contestaçao aberta a De Gaulle, passa pelo Maio de 68 e os libertinos anos 70, apoia a candidatura anarquista-burlesca de Coluche à presidencia em 81 para “ leur foutre au cul”, para vir depois gradualmente a perder a sua força e originalidade iniciais, vindo-se a extinguir completamente em 1989.

Nos anos, Hara Kiri deu tambem vida a uma corrente de desenhadores e argumentistas (Reiser, Gébé, Willem, Wolinski, Cabu, Vuillemin, Lefred Thouron, Nicoulaud, Fournier, Cavanna e o proprio Prof. Choron) que iria revolucionar a tradicional “Bande Dessiné” dos anos 50 e 60 e dar origem a tantas outras publicaçoes de sucesso como L’echo des Savanes, Charlie Hebdo, Circus, e Metal Hurlant. Saidos de algumas desta revistas, podem-se tambem considerar herdeiros directos do Hara Kiri, autores como Lauzier, Veyron, Bilal, Moebius, Tardi, Schuiten, Boucq, Manara, Comes e Bourgeon, que deram forma durante os anos 80 e 90 a um novo periodo de ouro da BD Franco-Belga. Embora o espirito original de subversao se tenha perdido nestes autores domados pela força das editoras e das "version luxe", a influencia seminal do Hara Kiri continua a sentir-se nesta “Neuvieme art”.

Hoje, em pleno seculo XXI e submerso de anglo-saxonicas “buzzwords” como “bail-outs”, “force multipliers” e “adverse morality”, vendido ao capital americano e vivendo uma vida ao sabor do meu “business acumen” e dos meus queridos “long-term stock-option incentives”, gostava de poder chamar o Prof. Choron para vir abrir uma grande frente de anarquica resistencia contra o cinzento esteril, hipocrita e desinspirado destes ultimos tempos. Um seu colaborador descreveu Choron como « .... un gentleman déguisé en salaud. Il a passé sa vie à rire avec talent d’une société de salauds déguisés en gentlemen : notre société. »

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Ameaça de privatização

Ao arrepio da senda de nacionalizações, linha gonçalvista, que o executivo liberal de Bush lançou nos Estados Unidos, com particular incidência nessas execráveis excrescências do capitalismo que são a Banca e os Seguros, ameaço privatizar este blog (tenho cá dentro as minhas alianças) se pelo menos 12 dos elementos do "colectivo", cujos nomes estão aqui à direita (salvo seja), não desatarem a mandar posts e a fazer sublir a cotação do "Geração de 60" na Bolsa.

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Provocações partidárias

As interferências de factores alienígenas na política são incalculáveis.

Por exemplo:
Com acentuada melhoria no cabelo e com óculos de massa preta, se Marques Mendes medisse um metro e setenta e cinco será que seria ainda, hoje, o sólido líder do PSD?

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Superioridade Ideológica













Julgo não haver dúvidas: a governação do presidente Lula é, em todos os aspectos, da política externa à gestão da economia e das finanças, política social e inovação, superior à do presidente Bush.
Será que os resultados conferem ao sistema ideológico de Lula consequente superioridade sobre o de Bush?

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Era Uma Vez Uma Canção, parte 2

Dean Martin com Mia Farrow e Sharon Tate: thrilling and smooth
Dean Martin foi o primeiro, em 1954, a cantar “Sway”. Já lá vamos.
Antes, recordo que, nesse ano, um tal Norman Gimbel, praticamente um desconhecido, escreveu em inglês, a letra da canção de que comecei por falar aqui. Uma letra notável, cheia de curvas, de suaves “pára, arranca”, escrita com olhos fechados e sonhadores. Não julguem que foi obra do acaso. Norman escreveria depois, e durante três décadas, centenas de sucessos. Ganhou Golden Globes, Emmys e o Oscar. E para não julgarem que estou a falar de uns monos quaisquer que já toda a gente esqueceu, lembro que a letra em inglês de “Girl from Ipanema” é dele, como é dele, já nos anos 70, a de “Killing Me Softly With This Song”.
Mas se a letra tem a técnica mágica de que se fala num dos versos, o essencial foi a voz e a interpretação de Dean Martin. Dino Paul Crocetti – assim se chamava este filho de italianos nascido no Ohio – só aprendeu a falar inglês na escola. Não sei se isso teve alguma influência ou não (parece-me que sim) na forma como Martin canta “Sway”. Há, queiram ou não queiram, um eco latino que impregna cada estrofe.
A “persona” de Dean Martin também influenciou o resultado final. Ele era o epítome do ladie’s man. Um womanizer, como agora, com má cara, se diz. Mas era o género de womanizer com muito boa cara que jantava todos os dias em casa com a família, if you know what I mean. Só um tipo assim seria capaz de insinuar a desmedida ternura e entrega que a canção pede, continuando a manter a pose masculina e cool de controle e segurança.
When we sway, I go weak”? A voz dourada de Dean Martin mostra charme, mas não fraqueza. Sobreviverá, com viril easy manner, a qualquer desenlace. Desculpem-me a provocação geracional, mas este tipo de homens deixou de se fabricar nos anos 50.
Se com “Sway” ainda não chegaram lá, e querem mesmo perceber, façam o favor de ver um dia destes um filme, “Some Came Running” de Vincent Minnelli. Olhem bem para a personagem de Dean Martin, comparem-na com a de Frank Sinatra, e não se espantem se vos apetecer escrever um ensaio sobre imanência e metafísica na masculinidade enquanto obra de arte. Banda sonora já têm: este “Sway”, thrilling e smooth, cantado por um italiano do Ohio.


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sábado, 27 de Setembro de 2008

Era uma vez uma canção


Aviso: vai ser uma experiência dolorosa. Vão aturar-me durante 3 posts. Contrapartida: vão ver e ouvir 3 clips exaltantes.
Tudo para, e só para, contar a história de uma canção, de que deve haver 1001 interpretações. Hoje, cantam-na Michael Bublé, a francesa Arielle Dombasle, a mediática Jennifer Lopez, o excelente Peter Cincotti. Cantaram-na Dean Martin, Eydie Gormé, Julie London e Los Panchos.
Comece-se, então e como deve ser, pelo príncipio.
Era uma vez uma canção chamada “Quién Será”, tão cheia de ritmo e de balanço que um dia teria de se chamar “Sway”.
Pablo Béltran Ruiz, estudou um ano de leis e três de química. Acabou músico. Mexicano e maestro, escreveu um belo mambo em 1953, ano em Estaline morreu e milhões de russos felizardos nasceram (e também eu, ao lado do Côa, o rio da minha aldeia).
Quién Será” era um cha-cha-cha (ou mambo?) com ritmo doce e lírico que, um ano depois, o cinema mexicano adoptou, numa interpretação a que Pedro Infante emprestou uma ironia benigna, sublinhada sem acinte pela realização, como se verá no vídeo abaixo.
É uma canção simples, à volta de uma mitologia masculina simples. Não repeti o qualificativo por acaso: a canção, de tão simples, duas vezes simples, é mesmo maravilhosa.
A Pedro Béltran Ruiz – ainda hoje vivo, e ainda hoje à frente da sua banda – é de agradecer, com recuada e humilde vénia, a cortesia dos milhões de passos de dança que o seu “Quién Será” ofereceu a salões de bailes, y por supuesto a casais apaixonados, a cônjuges e adúlteros, num tempo em que o amor era de maior idade, com todas as barreiras e sem a mariquice fácil da lei do divórcio em coro e contrabaixo.
Por mais danzóns, merengues, cumbias e boleros que se tenham dançado, “Quién será la que me quiera a mi / Quién será la que me de su amor / Quién será, quién será” foram, em 1953, as estrofes do México. Todo. Inteiro. Dançaram-nas porteiros e telefonistas, chefes de repartição e enfermeiras, bacharéis e costureiras. Foi tal o balanço, o doce enlevo, a paixão e o calor que, do México, as estrofes passariam a fronteira. Com marimbas e o mesmo ritmo. Mas agora, em inglês.

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sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

Loneliness

Loneliness, Elena Vasilieva


O que é que Greta Garbo queria dizer quando disse: "I want to be alone"? Ou melhor, quando disse que não disse, ao dizer: "I never said, I want to be alone. I only said I want to be let alone".
Acabamos, seja como for, por descobrir que há um bocadinho de solidão na vida de cada um de nós.

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Why do crack dealers still live with their moms?


“TED Ideas worth spreading“ (Technology, Entertainment, Design) começou em 1984 como uma serie de conferencias juntando pessoas destas tres areas com o desafio de apresentarem ao vivo uma ideia excepcional em cerca 18 minutos e para um publico muitissimo exigente e de natureza digamos bastante “liberal”.

Este site reune a maioria das apresentaçoes feitas ate' hoje e inclui speakers como Isabel Allende, Jeff Bezos, Richard Branson, Richard Dawkins, Norman Foster, Frank Gehry, Peter Gabriel, Jane Goodall, o muito "Liberal" Gore e muitos outros(as).

Esta e’ uma apresentaçao de Steven Levitt, (co-autor de “Freakonomics”), que com um tremendo humor e tal como num dos capitulos do livro, tenta explicar a razao porque a maioria dos traficantes de droga vive ainda em casa da mae.

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Divórcio à portuguesa

Dizem-me que a lei do divórcio foi aprovada. Já não percebo nada.

Então era concubinato, união de facto, economia comum ou casamento aquilo que unia o Magalhães ao JP Sá Couto? Então e agora como é que vão dividir o património? Parece que é coisa para cima de 200 milhões de euros...

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quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

Desinspirado

Se a palavra existe, é assim que estou e retirei o post um pouco ridículo sobre um importante evento, que fica aqui ligado todavia. Volto mais tarde. Alguns acham que os posts devem ser definitivos. Eu sou mais adepto de rascunhos, revisões, jogar basket com bolas de papel no lixo, etc.

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quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

Palin, este é para ti.

Palin, tens razão. Alguém duvida?

ADÃO E EVA - José Régio

Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou qua achara
o par que a lama e a carne lhe pedia.

- E cada um de nós sonhou que o achara...

E entre nós dois
Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
...Se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão,
Me ofertaste, e eu mordi,o fruto do pecado.

- O meu nome é Adão...

E em que furor sagrado
Os nossos corpos nus e desejosos
Como serpentes brancas se enroscaram,
Tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos
Que as nossas pobres bocas se atiraram,
Sobre um leito de terra, cinza e pó!

Ó abraços que os braços apertaram,
Dedos que se misturaram!

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
Sede que nada mata, ânsia sem fim!
- Tu de entrar em mim,
Eu de entrar em ti.

Assim toda te deste,
E assim todo me dei:

Sobre teu longo corpo agonizante,
Meu inferno celeste,
cem vezes morri, prostrado...
Cem vezes ressucitei
para uma dor mais vibrante
E um prazer mais torturado.

E enquanto as nossa bocas se esmagavam,
E as doces curvas do teu corpo se ajustavam
Às linhas fortes do meu,
Os nosso olhos muito perto, imensos
No desepero desse abraço mudo,
Confessram-se tudo!
...Enquanto nós pairávamos, suspensos
Entre a terra e o céu.

Assim as almas se entregaram,
Como os corpos se tinham entregado.
Assim duas metades se amoldaram
Ante as barbas, que tremeram,
Do velho pai desprezado!

E assim Eva e Adão se conheceram:


Tu conheceste a força dos meus pulsos,
A miséria do meu ser,
Os recantos da minha humanidade,
A grandeza do meu amor cruel,
Os veios de oiro que o meu barro trouxe...

Eu os teus nervos convulsos,
O teu poder,
A tua fragilidade
Os sinais da tua pele,
O gosto do teu sangue doce...

Depois...

Depois o quê, amor? Depois mais nada,
- Que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada...

Continuamos a ser dois,
E nunca nos pudemos penetrar!

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A Graça dos Movimentos Simples


Pedi coisas simples, encontrei coisas simples.
A fotografia, de Dima Oukhov, intitula-se, com mérito e propriedade "Grace of Simple Movements".
E, no entanto, só espero que ela fique assim, sem se mexer, nunca, nunca mais.

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terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Sinto a falta, parte II

À coeur ouvert, Geneviève Van der Wielen


Sinto a falta
De histórias maravilhosas e verdadeiras sobre mulheres e homens, sobre traições, facas e tangos, cigarros ansiosos e lençóis clandestinos (“... no de abrir-se a dentes línguas tão penetrantes quanto línguas podem...”);

Sinto a falta
De um pensamento que não se esgote em depressões taciturnas, em dores de cabeça do tamanho de um comboio, ou na venalidade de chás e bules (“... ó caro doutor Freud, arranjaremos pélvica e insuspeita maneira de sublimar o egoísmo”);

Sinto a falta
De uma academia consciente de que a nossa melhor metafísica é cómica (“... quando me fazes rir, sinto-me enredado numa inocência feliz”).

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Razões para sorrir?


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Obrigado, Senhor Primeiro-Ministro

O Centro de Segurança Social fica na Rua das Pedralvas. A Rua das Pedralvas fica em Benfica, seguindo as indicações do cemitério.Impunha-se mudar a residência dos elementos do agregado, lá fui.
Lá chegada, começo a ver muita gente à porta, com um ar estranhamente pacificado. Mais mulheres do que homens. Negros, brancos, ciganos, novos, velhos, bonitos, feios, magros, gordos, senhoras com o cabelo loiro impecavelmente armado, crianças também. Portugueses, Brasileiros, Ucranianos. A diversidade lembra uma assembleia das Nações Unidas.
Entro afoita, a máquina em aço inoxidável modernaço cospe a senha: 202. Olho apavorada para o número do atendimento, 102.
À minha frente tenho cem números, cem almas,cem.
Lá dentro as pessoas não estão calmas, estão resignadas. A maioria é claramente cliente habitual e já sabe ao que vai. Papel na mão, esperam pelo subsídio.
Tento o segurança: " - Se faz favor, é só para mudar a residência", " - Tá aí o papel é só preencher." Encho-me de esperança e em brio o preencho, estendo-o ao segurança/porteiro que recua apavorado: " Eu cá não recebo nada!".
Olho em volta para aquilo tudo. Homens vestidos de preto com o chapéu enterrado na cabeça perguntam pelo almoço. É a risota. Rematada pela frase cínica do segurança que diz que já que a malta não faz nada, também não há porque resmungar da demora.
" Tempt not a desperate man" lembro-me eu das palavras do bardo, ainda acaba mal aquele porteiro.
Desisto.
No sábado na tv vejo o comício em que o nosso Primeiro-Ministro fala das revoluções na segurança social. A multidão bate palmas. As bandeiras a preceito.
Animei-me, pudera.
Na segunda-feira envio um mail para o site da segurança social a perguntar o que fazer para alterar a morada, só isso. A resposta veio célere, numa hora. Sim senhor, muito bem. Era só ir, pessoalmente, a um posto de atendimento!
Recordo as palavras e gitos de ordem do comício de sábado e das duas, uma: ou volto a Pedralvas e desapareceu aquela gente toda ou resolveram servir um chá e umas sandes de pepino aos utentes. Não acredito que as pessoas tenham desaparecido. Pelo que deve ser mais a segunda opção, e embora ache o pepino um bocadinho indigesto, sempre é melhor do que nada.
Muito obrigado, Senhor Primeiro-Ministro!

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A importância de se chamar Altamente

ADMISSÃO DE PESSOAL

Refª A - Um lugar de Técnica Profissional Especialista de Prevenção e Segurança;

Refª B - Um lugar de Assessor da Carreira Técnica Superior de História;

Refª C - Um lugar de Operário Altamente qualificado Principal Mecânico;

Refª D - Um lugar de Operário Qualificado Principal Pintor;

Refª E - Um lugar de Fiscal Municipal Especialista Principal;

Refª F - Um lugar de Fiscal Municipal Especialista;


E ainda dizem que não há qualidade na nossa Administração Pública

( Concursos publicados no Jornal "Público" de 22 de Setembro )

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"O liberalismo científico"

La Famille Heureuse, Geneviève Van der Wielen

Provavelmente teremos de voltar às coisas simples. Desde que a economia, a mais séria das sérias mulheres de César, descobriu o prazer sôfrego e avassalador da montanha russa, as nossas vidas perderam a linha regular e previsível que nos servia de horizonte. O que, ontem, era religião passou, hoje, a seita fanática e repulsiva. E isso era ontem, porque hoje, o que era verdade há uma hora é já mentira há cinco minutos.
Wall Street, qual fénix, levanta-se orgulhosa, mas enfraquece-lhe o joelho Dow Jones à esquerda e fere-se-lhe a asa Nasdaq à direita. É tiro e queda.
O petróleo, cansado do fausto milionário dos 100 dólares, parecia ter regressado à burguesa normalidade de uma discreta prosperidade e bem-estar. Num só dia, com desculpas de que há divórcio e estalada no Delta do Níger, voltam a subir-lhe à cabeça os delírios de ouro negro e o “light sweet crude” chuta para os 120,92 dólares o barril em Nova Iorque. “Quando não se aguenta um copo não se deve tentar beber um barril”, já me dizia, e dizia bem, o barbeiro (ó meu velho e abençoado Mário) do bairro adolescente e angolano que me criou.
Posso – podemos – com algum estoicismo, aguentar tudo. Mas há limites. Quando, em menos de uma semana, George W. Bush, o último e prosaico esteio de um mundo ordenado e harmonioso, transforma os Estados Unidos da América na maior economia socialista do mundo, eu tremo e Marx e Lenine sentem-se uns palhaços.
Para que serve, agora, toda a – tanta, tanta – sabedoria que reuni em noites de bar aberto e fumo espesso e lúbrico? Ah, de que valem, hoje, as intoleráveis batalhas travadas em festas onde as feridas ideológicas se apaziguavam com o bálsamo de “slows” dançados até à última gota?
Confesso, reaccionário, que me invade uma proustiana nostalgia. Gostava de voltar a viver num mundo que compreendesse. O que eu não dava para voltar a viver no mesmo mundo a que devo tantas horas de felicidade egoísta e descuidada.
Talvez, amanhã, o petróleo baixe, a Bolsa suba e Bush regresse ao “liberalismo científico”. Mesmo assim, provavelmente, nunca mais voltaremos às coisas simples.
Publicado por autor anónimo no Pnet Homem.

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domingo, 21 de Setembro de 2008

Sinto a Falta

Cigar, Jennifer Newton


Sinto a falta
de pessoas que finjam com gentileza que não lhes interessa compreender o mundo e que acreditem, desinteressadas, num hedonismo cósmico.
(“... que se lixe Aristóteles, tragam-me é um bom charuto de 5 cêntimos”).



Às vezes, sinto falta de algumas coisas. Ou de algumas pessoas. Ou de algumas velhas sensações. Começo hoje a fazer a lista.

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Um mundo de homens

um mundo de homens

Um mundo de homens.
É o que dizemos quando nos metemos a discutir futebol. Ou é a justa qualificação de algumas conversas em que, com candura, falamos de mulheres. Será mesmo?

um mundo de homens

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sábado, 20 de Setembro de 2008

Os traineeeeeeeeees

Existe uma categoria de candidatos a assessores, ou consultores, políticos ou de imagem, ou comunicação, de Ministro que, enquanto jovens, ou muito jovens, eu chamo traineeeeeees.
A estridência do nome provém do facto destes jovens candidatos a assessores serem de muita evidência. Assemelham-se enormemente entre si. Não muito altos, trajam todos o mesmo fato cinzento escuro, a mesma camisa azul e a mesma gravata encarnada. A qualidade e gosto na escolha do sapato costuma definir a proveniência social.
Usam acoplado ao ouvido um aparelho telemóvel, da mais alta tecnologia, o mais recente grito, portanto. Geralmente na mão esquerda, porque, de passagem, sempre exibem impanes, o grande relógio. Mãos transparentes de dedinhos finos treinados apenas nas novas tecnologias: soundbytes.

Sempre apressados, sempre aos magotes, muito conscientes, compenetrados e atentos às necessidades do seu Ministro, ou Secretário de Estado. Negoceiam tempos de antena com as tv´s, batem o pezinho pequenino, e saiem finalmente, em arrevoadas, conscientes de mais um dever cumprido. Parecem bandos de pardais à solta.

Suspeito que nenhum deles tenha frequentado estações de camionagem, ou de caminho de ferro, centros de saúde, hospitais públicos, usado transportes públicos, andado em escolas públicas, posto o pé na segurança social ou num centro de emprego,ou tenha ido ao interior, que é onde verdadeiramente anda, ou pára, o país que Portugal é.

Só da cabecinha desta gente pode ter saído um discurso que ouvi a um Ministro no qual comparava as performances da economia nacional e o problema energético com a selecção nacional, o Critiano Ronaldo e o recordista dos 100 m, sendo que Portugal ficava a ganhar.

Para esta gente, Portugal tem a distância que vai de Cascais à Bica do Sapato. De TGV. Ou de carro com motorista. Ou de táxi, em último caso.

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Sou só eu?


Sou só eu que decidiu comprar uma casa? Sou só eu que tive a mediação de uma imobiliária? Sou só eu que pagou IMT e IMI? Sou só eu que decidiu fazer obras de remodelação no apartamento? Que contactou, pediu orçamentos e contratou pedreiros, canalizadores, estucadores, pintores, electricistas, carpinteiros, pessoas singulares, colectivas, biscateiros, prestadores de serviços e empreiteiros? Sou só eu que tive de fazer uma mudança? Só eu mandei fazer limpezas?

Devo ser.

Porque sendo só eu a comprar uma casa, fazendo nela obras, mandando-a limpar e mudando-me finalmente, poderei ter tido a noção que há uma grande área de actividade económica do país que foge ao fisco, pura e simplesmente não se colectando. É a glória da economia paralela, sustentada por todos aqueles que obrigatoriamente pagam impostos.

" - Qual o preço?"
" - É X,Sô Dôtôra."
" - Passa factura, recibo?"
" - Oh, SÔ Dôtôra,assim o preço é diferente..."
" - É diferente como?"
" - Atão, nesse caso é preciso fazer as contas..."

Agora entendo porque é que o mercado da habitação em Portugal está estagnado. É porque ninguém do Governo comprou casa nestes últimos anos. E já agora também não levou o carro à oficina.

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O beijo do dragão

A falta de liquidez, o encerramento de bancos de investimento à míngua de depósitos, o estigma da falência do Lehaman Brothers, todo esse ruído se apaga face à flor silenciosa, rosa em botão, tão presente e quase invisível.

O beijo do dragão, D. Oukhov

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Fleetwood Mac



O que é que deu cabo dele? A intensa doçura com que cantava? As trips de LSD? Os electrochoques com que lhe trataram a esquizofrenia, as alucinações e a paranóia?
Peter Green fundou os Fleetwood Mac. Ele era, sem prejuízo dos outros músicos, a banda. Ainda devo ter nalgum baú o single do Rattlesnake Shake. Mas do que eu gostava mesmo era dos blues que Green cantava. Este I Need Your Love So Bad parece veludo; pede que venhas dançar e nos encaixemos, sem um centímetro de desculpa, da cabeça aos pés, até não podermos respirar.

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Notícias de Paris

O meu amigo RA - nickname Andrea - num comentário de hoje a este post, foi esclarecedor e conciso. Cito-o:

"Meu caro Manuel, segundo dados não oficiais de um observatório independente para a imigração sediado em Paris, saíram de Portugal nos últimos dois anos cerca de 300.000 portugueses. O destino, para esta nova corrente de imigrantes, foi sobretudo a Europa e os países que nesta são acolhimento tradicional mas também Andorra, Reino Unido e sobretudo Espanha.
Temo que por este andar acabem a curto prazo os problemas de trânsito na Ponte 25 de Abril e que finalmente se consigam reduzir os índices de sinistralidade nas estradas portuguesas. Abraços."

Lá vamos, cantando e rindo. Meu estimado, já uma vez raptado e agora exilado Andrea, um abraço.

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quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

Alguém esqueceu-se do mercado


A crise financeira dos últimos dias serve para recordar um facto muito simples: o mercado é um meio e não um fim. Já há muito tempo escrevi um texto em que defendia que era um erro confundir o Estado e o mercado com ideologias. Tratam-se apenas de duas formas diferentes de produzir decisões sociais.

Tal como o Estado, o mercado é um simples mecanismo de agregação das preferências individuais em decisões colectivas. No Estado, o instrumento fundamental de agregação dos interesses individuais em decisões colectivas é o processo político (legislando, administrando etc.). No mercado, são as transacções. Estamos perante dois processos de decisão social distintos: um com uma tendência mais atomista, descentralizada e de cooperação voluntária (o mercado), o outro assente, sobretudo, em mecanismos de decisão mais centralizados e de cooperação imposta (o Estado). Mas, mesmo a este respeito, é preciso notar que o próprio mercado gera fenómenos de centralização (o primeiro dos quais são as empresas: como notaram, por ex., Coase ou Williamson as empresas são instrumentos de coordenação e hierarquia necessários à redução dos custos de informação e transacção; são, no fundo, mini-Estados). Isto significa que nem sempre o mercado assenta na ou produz liberdade (da mesma forma que nem sempre o Estado reproduz o interesse público) mas significa, igualmente, que o mercado tal como o Estado exige mecanismos de responsabilidade.

Um das questões fundamentais das decisões colectivas é precisamente a responsabilidade: é esta que garante que a instituição que decide (Estado ou mercado) atende a todos os custos e benefícios potenciais (incluindo avaliando o risco). Quer Estado quer mercado têm de estar sujeitos a mecanismos de responsabilidade que correspondam às formas de poder e de decisão que assumam. No fundo, o que aconteceu na crise financeira foi que alguém se esqueceu de criar mecanismos de responsabilidade correspondentes às novas formas do mercado: criou-se uma cadeia de decisão em que o risco foi sendo transferido até ao ponto em que o último elo da cadeia já não tinha percepção do mesmo ou não estava em condições do avaliar. Isto não nos deve levar a colocar em causa o mercado mas apenas a recordar aquilo que é realmente o mercado.

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quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

Da Visão: Moms for Sarah




Já aqui o defendi a propósito do mesmo Barack Obama: os fenómenos de massas sempre irritaram a «intelligentsia». Porque é suposto que a «intelligentsia» desmonte cinicamente a proverbial candura das massas. Porque à «intelligentsia» compete moderar o entusiasmo bruto e primevo dos povos com a fria racionalidade que, por definição, daqueles a distingue. Mas sobretudo, convenhamos, porque nenhuma «intelligentsia» pode parecer verdadeiramente inteligente se deixar o seu intelecto marchar, a seu bel-prazer, anónimo, indiferenciado, ao lado de mais uns quantos milhões de cidadãos desqualificados. «Não é natural nem fica bem», como rezava um anúncio velhinho do restaurador Olex.
Compreende-se portanto que o senador Barack Obama, um dos mais extraordinários casos de popularidade dos últimos anos e um homem que tem resgatado para a política activa gerações inteiras de eleitores que dela pareciam ter-se irremediavelmente afastado, nunca tenha caído no goto de uma certa elite bem pensante europeia (maioritariamente de direita, porque na rejeição do fenómeno há também uma boa dose de ortodoxia política). De resto é essa mesma elite intelectual de direita que, para que não subsistisse qualquer sombra de dúvida sobre a sua capacidade de resistência à imoderada vaga de entusiasmo, se rendeu, ela própria acrítica, aos encantos de um McCain que parecia prometer, se não propriamente densidade intelectual, pelo menos uma muito menos ameaçadora sobriedade de um ex-herói da guerra do Vietname.
Imagino que o «furacão Palin» não estivesse nos planos desta gente. Até porque, sejamos justos, a historiografia oficial garante que o próprio McCain, até ao dia em que acordou com a extraordinária ideia de projectar tão singular figura para o estrelato mundial, só se tinha avistado cinco (presumo que estimulantes) minutos com a antiga «quase-Miss-Alaska» (o que não deixa de ser um processo de «recrutamento» que dá, em si mesmo, para todo um tratado). Mas a verdade é que a vida dá muitas voltas e que a vingança se serve fria. Em vez da «retórica vazia» de Obama, a intelligentsia europeia de direita ganhou agora um estimulante discurso (esse sim, denso e verdadeiramente erudito) sobre o creacionismo, a diabolização do aborto e as virtudes das armas de fogo. Assustada com a «falta da preparação» do candidato democrata para governar o Mundo, pode agora dormir descansada com a tranquilizante ideia de poder contar na Casa Branca com a inestimável experiência da «ex-mayor» de Wasilla (sempre são 8.471 habitantes). Desconfiada da «volatilidade programática» de Obama, conta agora com a tenacidade da governadora que, a propósito da emblemática «bridge to nowhere», já defendeu, com a sua reconhecida inflexibilidade em questões de princípio, tudo … e o seu contrário. Finalmente, em vez de se confundir com as ignaras multidões electrizadas com o discurso de mudança de Barack Obama, pode agora exibir-se, muito mais orgulhosa e respeitosamente, ao lado das simpáticas «Moms for Sarah».

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Crise? Qual crise?



Eu não sou economista – apesar de saber inglês! No entanto, não me parece muito difícil explicar a actual crise económica mundial.
Há pelo menos 30 anos o mundo decidiu viver a crédito. Este movimento começou no chamado mundo ocidental com a ideia de que, desta forma, era possível transformar os proletários de ontem nos burgueses de amanhã, sem pôr em causa os poderes instituídos.
As ideologias, porém, poderiam deitar tudo a perder. Mas socialistas e liberais têm mais em comum do que se pensa (nomeadamente a mesma ideia de que a economia é a base da vida humana em sociedade e de que a ciência e a técnica são os instrumentos que permitem dominá-la), pelo que conjuntamente se empenharam nesta mesma tarefa, deste modo diferindo os problemas do presente para o futuro.
Ora, neste moderno mundo da comunicação, que dizem ser o nosso, uma boa ideia não consegue ficar muito tempo escondida, pelo que logo se resolveu aplicá-la a todo o mundo. Claro que, aqui, passadas as fronteiras do confortável canto ocidental, o presente põe problemas bem maiores – as guerras, as doenças, a pobreza, a fome, o isolamento, a ignorância… – e, nesse sentido, mais difíceis de iludir.
Nada, porém, que a poderosa aliança entre políticos e capitalistas, operando de modo global, não consiga fazer, entretendo os povos num contínuo teatro mediático, no qual os indivíduos, espectadores e consumidores passivos da produção desta realidade, têm a noção de participar activamente.
É claro que tudo isto funciona com um equilíbrio muito instável, de onde resulta um terrível e constante medo das crises. Socialistas e liberais, aliás, também aqui sempre estiveram de acordo, pelo que, nos dois extremos, prometendo o fim da história, prometeram sempre o fim das crises. Em conjunto, portanto, continuaram a trabalhar.
O problema, como eu dizia, parece-me, assim, muito simples. Todos sabemos que, ao comprarmos qualquer coisa com um cartão de crédito, temos algo no presente pelo que só iremos pagar no futuro. Isto implica, obviamente, que alguém nos emprestou esse dinheiro, o qual haveremos de pagar com juros.
Ora, foi esta última premissa que, na verdade, desapareceu. Porque aplicando este sistema à economia global, temos que viver a crédito significa ter agora um conjunto de coisas pagas com dinheiro que resulta da produção de coisas que ainda não aconteceu, isto é, o dinheiro que nos emprestam ainda não existe.
É claro que nada disto tem importância se o tal equilíbrio se mantiver: os pobres e os proletários participam hoje mesmo nas delícias dos ricos e capitalistas e estes garantem que no futuro continuarão a ser ricos e capitalistas. O problema está nas crises. Porque elas obrigam a que o dinheiro, que só existe no futuro, seja pago agora. E aí é que são elas. Os pobres ficam sem as coisas, os ricos sem o seu dinheiro, e os governos são obrigados a tomar uma decisão (é, aliás, o que significa a palavra crise).
E todos temos visto os Bancos estatais a tentarem controlar a inflação e a injectarem dinheiro nas economias. Todos temos visto os governos a intervirem na gestão das instituições financeiras e a comprarem empresas em risco de falência. Mas ninguém quer mudar o discurso, porque ninguém quer mudar o estado das coisas. Se tudo correr bem, a tempestade vai passar e tudo ficará como dantes. Sem crises, sem história, sem ideologias.
Mas é difícil não reparar numa cada vez maior intervenção dos Estados nas economias, com a imediata conotação ideológica que isso tem. Com a agravante de que, perante a actual diminuição dos poderes dos Estados, essa maior intervenção caberá cada vez mais a entidades mais distantes dos cidadãos e dos seus representantes directos, que, deste modo, menos as controlarão e mais serão controlados por elas.
A estratégia, no entanto, para já, continua a ser pôr uma almofada sobre a cabeça e esperar que a tempestade passe, pelo que ninguém parece muito interessado em meditar no facto do governo dos Estados Unidos da América ter hoje nacionalizado uma Companhia de Seguros! Mas já ninguém deve ter ilusões: o século XXI será de novo um século de crises, de história e de ideologias. Para o bem e para o mal. Ora, o mal já aí está (nomeadamente a associação totalitária entre políticos e capitalistas). Cabe-nos agora preparar o bem.

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Briseida, a pelada ( continuação)

" - És bela tu, podia dizer-te que te deitasses comigo uma hora, mas não é nada disso que tu queres, pois não?" - Repetiu Aquiles.
Estavam sentados de frente. Aquiles tinha puxado bruscamente um banco para pousar as pernas. Briseida estava sentada com as costas direitas, a cabeça baixa, olhava as mãos. Via o queixo dele apontado na sua direcção e dois olhos de ferro.
Quando ela ouviu de novo a mesma frase, levantou a cabeça e disse:
" - Que é isso, uma hora?"
" -É o tempo que levam os Deuses a piscar os olhos" - respondeu Aquiles a rir.
Briseida ouviu a resposta em silêncio, depois levantou-se. Aquiles levantou-se também. Briseida virou-se para saír, ficando à distância de um sopro dele. Olharam um para o outro. Aquiles sorriu. Briseida saíu em passo apressado. De narinas dilatadas e cabeça levantada, aquele homem lembrava-lhe um cavalo que o pai tinha no estábulo.

Por ora, a nossa história fica assim. Retorna com o solstício. Veremos o que faz Briseida com um ano inteiro.

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terça-feira, 16 de Setembro de 2008

Divórcio ou Morte!

Onde é que está Mr. Abubakar?
Entre a morte e o divórcio, Mr. Abubakar, um líder religioso nigeriano, escolheu o divórcio.
Casado com 86 mulheres, Mohammadu Bello Abubakar foi condenado à morte, a menos que aceitasse resignar-se à lei islâmica que lhe dá de barato ter apenas quatro mulheres. Mr. Abubakar ainda tentou litigar, sustentando que não há no Corão ponto, ponta ou versículo que penalize quem, para além das quatro relações canónicas (as quatro de avanço), se atire a compromissos sexuais mais ambiciosos.
Invocou também o facto de já estar casado com as suas 86 mulheres há mais de 30 anos. E reclamou resultados abonatórios: todas elas têm filhos seus. Cerca de 170, já que a contagem final se revelou incerta.
O tribunal, apostado na vigorosa e profunda reintrodução da Sharia, não se comoveu e, parafraseando o grito lânguido de Sierra Maestra, atirou-lhe com um “Divórcio ou Morte” irredutível. Mr. Abubakar aceitou. Não sem um lamento elegíaco: “Como é que estes sábios sacerdotes podem esperar que eu consiga deixá-las em dois dias?!
Para ser franco, há uma razão que me leva a simpatizar com as sacerdotais razões dos juízes islâmicos. Que, e autorizo-me a viril cumplicidade do primeiro nome, Mohammadu andasse feliz e contente, quem duvida? Mas poderá dizer-se o mesmo das mulheres de Mohammadu?
Admito que Mohammadu, de quem todos somos indefectíveis admiradores, conseguisse diariamente distribuir miminhos, húmidos beijos e suados abraços, para a seguir deslizar pela pista levantando glorioso e ruídoso vôo com uma das parceiras amadas. Admito mesmo que o infatigável Mohammadu repetisse diariamente a proeza com outra esposa.
Os números não mentem. Ainda assim, cada uma das 86 esposas teria motivos de plena satisfação apenas de 43 em 43 dias. Vá lá, um mês se, sempre em pé, Abubakar arrebatasse e fosse arrebatado por três amantes ao dia.
O adultério poderia ser a solução para elas, se o apedrejamento até à morte não cortasse cerce a ousadia. Outras modernices? O ambiente, em open space imagino, não seria o mais propício. Não se lhes conhecendo queixa, e atendendo ao longo conúbio de 30 anos, temo que a única legítima conclusão seja a de que esta amostra de 86 mulheres nos obriga a pensar, de outra e mais modesta maneira, a maneira como e quanto o sexo interessa às mulheres. Dir-se-ia que lhes interessa pouco.
Só lhes interessa de 43 em 43 dias? Vá lá, uma vez por mês? Mr. Abubakar, deixe-me que lhe diga, ao dar-lhes vida fácil, tornou a nossa muito mais difícil.
O Pnet Homem anuncia grandes mudanças. Como se pode ver, nesta transcrição feita com a devida vénia

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II. Ti Manel e Ti Jaquina

É evidente que o Ti Manel e a Ti Jaquina são analfabetos ou quase, mas têm uma grande sabedoria de vida. É bom de se ver. Porque a sabedoria de vida neste sistema pressupõe exactamente o analfabetismo. O escritor está-se a defender a si mesmo. Apenas isso. Justifica a sua ignorância, mostrando que pessoas ainda mais ignorantes que ele podem ser sábias. Aliás, apenas podem ser sábias por nada saberem de culturalmente estruturado. O problema é que este tipo de paradigma destrói o próprio valor da literatura. Alguém que escreve, e afirma quem nem sabe escrever é melhor que ele, está a lançar as sementes para que o próprio acto de escrever se torne coisa menor. E tem razão. E gosto de lhe dar razão no que lhe respeita. Faz arte menor. A arte dos Tis.

Julgava que estava em vias de extinção. Mas infelizmente renasce a todo o tempo. Repare-se que a arte vinda do povo nem sempre é arte popular, no sentido folclórico, estafado e enfadonho que geralmente tem. Hesíodo elevou-se por si mesmo à aristocracia da vida. Assumiu os valores aristocráticos, incorporou-os numa visão da vida e num modo e sentir popular e conduziu-se até à criação dos deuses. Se a sua intenção foi a ultrapassar Homero quanto à qualidade seria temerário dizer, mas ultrapassou-o geneticamente. Escavou até ao fundo o meio que conhecia. A terra. Subiu até ao maior cimo que conhecia. O céu. E neles desvelou a origem dos deuses. A sua formação.

Arte feita pelo povo, quando assume os valores aristocráticos, os faz descer à terra e os eleva até aos céus levando-nos até à origem dos deuses, sem dúvida essa é arte maiúscula. Mas arte popular que nem parte nem chega ao povo, porque dele nunca saiu, é apenas exercício de bairro. Acanhado. Isto tanto mais quanto esse povo é apenas ficcional, mera origem do autor. O escritor, hoje em dia burguês por inevitabilidade, quer assentar em terreno firme. Para ele, esse terreno é o povo. A classe que contribuiu para fazer desaparecer. Assenta em mortos em cujo homicídio participou e inventa por isso figuras em que até os nomes estão truncados. Ti Manel, Ti Jaquina.

Para dizer o quê? Que sendo pessoas de pouco banho e pouco lustre, são eles os verdadeiros, os ilustres representantes da raça humana. Eles devem ser o paradigma. Quando escava a terra apenas fica com lama. Quando sobe aos céus parte as pernas. E quando procura a origem dos deuses apenas encontra – Tis Maneis e Tis Jaquinas. Que Deus lhes perdoe, que outras coisas me ocupam neste momento.


Alexandre Brandão da Veiga

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Diet Coke or New Coke?


Escrevo de uma executive suite da Harvard Business School (sem cedilhas nem acentos), que apesar do pomposo nome, e’ um espartano quartinho com aguas quentes e frias no coracao do campus universitario e onde nao tenho sequer uma televisao onde possa presenciar ao serao o espectaculo vivo que este curioso pais chamado Estados Unidos da America proporciona aos seus cidadaos. Cidadaos esses, que hoje observam estupefactos e esperemos de forma particularmente humilde o colapso das algumas das suas mais queridas e aparentemente ate' aqui inabalaveis instituicoes privadas. Estou aqui reunido com lideres da industria farmaceutica e na companhia de alguns professores da HBS faculty (pagos de forma absolutamente obscena) procurando perceber como salvar esta industria dos horrores do inverno que se aproxima.

Sem televisao dizia, decidi pois entreter-me folheando o “The Harbus”, orgao oficial de comunicacao dos estudantes independentes desta universidade e que apresenta como artigo de fundo – “Sarah Palin – Diet Coke or New Coke? “

Deste maravilhoso e perfido artigo que se desenvolve ao estilo de um verdadeiro HBS case study, destaco os paragrafos de abertura e conclusao:

“This year's 2008 election is starting to look a lot like a certain RC strategy case: Cola Wars. There is the election's Coca-Cola, a historic and trusted brand, in John McCain. There is Pepsi, a youthful and fresh new brand, in Barack Obama. And there is Sarah Palin, John McCain's brand extension - his Diet Coke...”

“In the end, who knows? But one thing is for sure. Selecting a woman like Sarah Palin to be your running mate in this election year has little to do with politics. It is just damned good marketing.”

Considerando que as encomendas feitas ao distribuidor Americano dos oculos que usa a Palin, quadruplicaram desde o fecho da convencao republicana, os diligentes estudantes de Harvard estao aquilo que se podia dizer “right on the mark”!

Para quem estiver interessado(a), os ditos oculos sao made by Kazuo Kawasaki. Cabeleiras Palin Style podem tambem ser encomendadas on-line em Wigsalon.com

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segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

João Luis Ferreira

Descobri, com a ajuda de um ilustre amigo meu, esta plataforma, Archis, e esta revista, Volume. Se há alguém, na "Geração de 60", habilitado a falar do tema, creio (estou absolutamente seguro) ser o João Luis que já não nos brinda com a sua inteligência (e ironia) há séculos. Peço-lhe um favor e faço-lhe um desafio: leia este trecho e mostre-nos como é que se sai do labirinto.

"Our society seems to be locked into a position in which the user’s and voter’s choices determine how we shall live in the future. A disturbing collective urban life in a giant Big Brother House looms, a material and social world in which sensationalistic media and its commercial translation dominate.
Our sense of what is real and what is quality is on the verge of collapse. The practice and education of the engineers of this society is determined by short-term effect instead of long-term social responsibility. Culture becomes little more than a market, politics its façade and the city its stage.
Instead of reviving old school high modernist social engineering or claiming the need for an intellectual junta, we solicit new forms of social engineering. Where shall this lead?"

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Chef Guerrieri

Hi Chef,


How come that you didn't invite the all "Geração de 60" bunch to Mezzaluna Madonna's dinner?!!! I'm happy - I guess all the bloggers are - that you got her. But now, you know, you've a story to tell.
At the next blog party: no rules, great stories.
Pois é, o Chef Guerrieri foi mesmo o anfitrião da Madonna no Mezzaluna. Grande escolha. Quem é que duvida que é este o melhor restaurante italiano de Lisboa?!

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I. Ti Manel e Ti Jaquina

Julgava que este tipo de literatura já tinha acabado. Uma em que as personagens são Ti Manel e Ti Jaquina. O dito realismo português consagrou muitas destas personagens, muitas vezes com bom estilo, mas mais vezes ainda com alguma tacanhez. Não é realismo. Apenas miserabilismo.

O argumento é bem conhecido. O escritor X aparentemente fala apenas do seu bairro mas o seu bairro é uma metáfora para o mundo, e é pois da humanidade inteira que fala. Falso. Se fala apenas do seu bairro é porque nada mais conhece. O espécime que reconhece é apenas extrapolado e de forma arbitrária. A diversidade da experiência humana é-lhe desconhecida. O seu espírito é imperialista. Pretende impor à humanidade inteira como paradigma o seu bairro.

Vivia na ilusão que já tinha desaparecido este tipo rotineiro de literatura. Para um texto ser literário teria de ter Tis (masculino) e Tis (feminino). É evidente que o realismo francês do século XIX tinha vários “pères”, o mais famoso o “Père Goriot”. Há mesmo quem tenha transformado a experiência popular em epopeia, como Visconti, que criou o realismo no cinema, para rapidamente o deixar a figuras amantes da repetição.

O problema não é o de meter Tis na literatura. Já se meteram coisas bem piores e com algum efeito e sentido. O problema é que se acha que a literatura necessita, exige, não vive sem Tis. Além de imperialista esta literatura é impositiva. De modo escondido, traficado, normativa. O Ti não é sinal de liberdade, mas um lugar comum imposto.

Nada tenho contra elementos normativos na literatura. A grande literatura não vive sem elas. A criação humana não se põe em pé sem regras. O problema é a qualidade das regras e a maestria do seu uso. O Ti como paradigma em vez de Apolo terá sempre um pequeno problema. Respira ar menos elevado e é menos bonito. Para quem gosta e para quem lhe basta tanto melhor. Citando a boa da rainha Cristina da Suécia: “non mi bisogna e non mi basta”.

Qual é o paradigma de vida destes cultores de Tis? Ti Manel, Ti Jaquina. Faltam letras, é bom de se ver. Porquê? Porque estes autores alimentam-se delas. Parca dieta para parcimoniosos resultados. Se é certo que a literatura sempre foi mais feita por quem tem a barriga saciada, nem sempre isso é assim. Mas também não deixa de ser verdade que, mais ou menos esfomeado que seja o escritor, se é bom, percebe que é frutificador de letras e não seu predador. Se vive de as comer errou na vocação.

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domingo, 14 de Setembro de 2008

Ramalho Eanes

Acabo de ler o que João Gonçalves escreveu aqui. Ramalho Eanes foi prejudicado por uma decisão ad hominem de Mário Soares. Reparada a injustiça, poderia ter recebido mais de um milhão de euros. Recusou o dinheiro.
Vale a pena ler a notícia e o comentário no Portugal dos Pequeninos. Pode gostar-se mais ou menos do que Eanes tenha sido como estadista. Mas esta luva branca já ninguém lha tira. Poetic justice!

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O casamento do Sr. Sulu.




Hoje, enquanto meia América se deleita, rendida, com a retórica de cabeleireira de uma «quase-Miss Alaska» fã de criacionismo que trocou as voltas à eleição presidencial, casa-se o Sr. George Takei com o seu companheiro de 21 anos. É verdade, Mr. Sulu himself, aproveita a lei aprovada em Maio passado na California e põe a vidinha em ordem. A boda, rezam as crónicas, será abrilhantada pela presença do amigo de sempre, o meio-vulcano, meio-humano, Mr. Spock.

Não tenho, ao contrário do PS de Sócrates, nenhuma obsessão «politicamente correcta» com o casamento dos homossexuais. Está longe de me parecer a maior prioridade da nação e desconfio sempre muito da defesa de «agendas fracturantes» feita com base nos méritos do seu carácter ... «fracturante». Mas também é verdade que, nestes tempos de trevas, em que o Mundo corre o risco de vir a ser governado por uma criatura tão extraordinária como a Srª. Palin, confesso que me dá algum alento saber que há toda uma outra América, tolerante e liberal, que nunca se reverá na agenda religiosa e ultraconservadora da governadora do Alaska.

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130 mil empregos

Parece que dos 130 mil empregos criados pelo governo de Sócrates, cerca de 30 mil são no estrangeiro. Parece que alguns comentadores consideram o facto uma enorme perversão e se preparam para precipitar o primeiro-ministro nas mais duras penas do Inferno. A penas, enxofre e alcatrão.
Presumo que deve ser inveja. Emprego e no estrangeiro? Longe deste inglório e ingovernável jardim? Longe da qualidade de vida canalha de Lisboa? Está visto, por mais anjos que passem por eles, estes comentadores nunca saberão reconhecer a felicidade.

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Sealed With a Kiss

Os membros deste blog bem podem agradecer ao “sealed with a kiss” do vídeo abaixo terem chegado a ver a luz do dia e ameaçarem, mais dia, menos dia, virem a governar o país.
Em 1962, cantava-se assim, dançava-se como na foto acima, e amava-se de Verão em Verão, sem vontade de dizer adeus, com cartas ardentes fechadas com um beijo.
Ouçam, descontando o péssimo som do video, e depois encomendem o cd: “Teenage Crush, volume 1”.
Atendendo ao ritmo coleante, palpita-me que é um cd muito mais Tower Records do que Virgin.




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sábado, 13 de Setembro de 2008

Le parole sono importanti

Tenho vindo a rever alguns filmes do Nanni Moretti e como verifico que o "Politically correct" nao e' caracteristica deste Geraçao de 60, nao podia deixar pois de partilhar este momento muito alto do seu cinema (incluindo a estalada a' jornalista claro!). Para os que nao viram ou nao se lembram de "Palombella Rossa", Michele Apicella (alter-ego de Moretti e que aparece pela primeira vez no filme "Ecce Bombo" de 1978), cansado da luta politica que vem a desenvolver como membro do partido comunista, encontra-se aqui neste longo dia a jogar uma partida de polo aquatico depois de um pequeno acidente de automovel durante a manha. Um acidente que o faz perder a memoria e esquecer o conteudo de uma polemica entrevista que teria dado na noite anterior a um programa politico televisivo e que e' reputada por todos os que o encontram de absolutamente memoravel e reveladora do estado do PCI.....

O uso da expressao "politically correct" que penso nao se usasse muito em 1989 quando este filme foi feito daria direito seguramente a uma muito merecida estalada do Nanni. Pensemos nisso quando enriquecemos (empobrecemos) as nossa frases com coisas do genero....

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sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

Às armas


Às armas!

No Pnet Homem - um sítio muito duvidoso, onde 7 cavalheiros que afinal são 6 escrevem artigos ululantes para competir com o Pnet Mulher onde 7 Evas dançam com alegre volúpia - o Pedro Marta Santos, o nosso Pedro Marta Santos, foi vítima de ataque soez.

É preciso pôr esta gente na ordem.

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The Cricket

O Geracao (quem me dera ter, neste canto do Mundo onde me encontro perdido, uma singela cedilha ou um esvoacante til) contratou mais uma estrela internacional. Desta vez fomos "pescar" a Milao e asseguramos os servicos de Vasco "The Cricket" Grilo. A biografia oficial garante que "Vasco Holds an MBA from SDA Bocconi in Milan, a Masters in Manufacturing Systems Engineering from Lehigh University, PA in the US and an Engineering degree from Instituto Superior Tecnico in Lisbon, Portugal". Pelo sim, pelo nao, prefiro nao por as maos no fogo pela veracidade de tao brilhante curriculo. Quando a esmola e grande, o pobre desconfia. O que posso garantir e que, com o seu humor corrosivo, o Geracao nunca mais sera o mesmo.
Bem vindo Vasco!

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Aznavour

Por mais estima que eu tenha pela canção francesa, e tenho alguma, do que eu gosto mesmo é de Charles Aznavour. Gosto muito mais de Aznavour do que de Gilbert... ó mas que é que isso interessa. Gosto muito mais do Charles do que de Yves... ó deixa lá isso. Gosto muito mais dele do que do Serge .... ó poupa-me.
Neste concerto em Nova Iorque, no Carnegie Hall, Aznavour está por cima, muito lá por cima, da sua plenitude. Já nem precisa de ser muito bom. Basta-lhe ser gentil e sem remorsos. Certo na melodia. Infalível no tempo.


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O Fundamentalismo

... detecto neste olhar um sentido de indevida apropriação...
A este post sobre Sarah Palin, a Inês Dentinho respondeu aqui com garra e frontalidade. Demarcou-se de Palin (“nada contra e muito menos a favor”, disse Inês) e apontou espingardas ao politicamente correcto (“porque é que não é visto como um fundamentalismo?”).
Obrigou-me, por isso, a consultar os meus botões e saíu-me isto.
Entre instinto e razão, entre sonhos e pesadelos, tenho algumas coisas contra Palin e outras a favor.
Digamos que não aprecio da mesma maneira o que nela é acção e o que nela é reflexão. Indeciso e inconstante, não consigo é saber o que aprecio ou o que detesto.
Ah, mas sei o que odeio no politicamente correcto, e dou exemplos:

· a apropriação monopolista dos meios de contestação;
· a acumulação primitiva da mais-valia da queixa;
· a liminar exclusão dos adversários como praxis científica e revolucionária;
· mas sobretudo, sobretudo, pensarem que Lukács é uma marca de lâmpadas de 15 watts.

Ai Sarah, Sarah, que o teu fervor não derreta os gelos do Alaska.

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Será o Domingo?




E aqui o desenvolvimento.

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O pragmatismo como princípio

Não resisto a sugerir a leitura deste artigo de Cass Sunstein (um dos melhores constitucionalistas americanos e amigo de Obama) sobre a filosofia política de Obama. A tese fundamental é a seguinte: aquilo que alguns têm entendido como mudanças de posição ou contradições ideológicas por parte de Obama, conduzindo a acusações de oportunismo político é, na verdade, reflexo de uma forma particular de conceber a política como necessariamente aberta às posições contrárias e procurando sempre um consenso socialmente alargado.
Esteja-se ou não de acordo com a tese de Sunstein ela é muito bem construída e particularmente interessante por duas razões. Primeiro, porque transforma o pragmatismo numa posição de princípio: não são razões de estratégia e oportunismo que motivam as aparentes contradições ideológicas de Obama mas sim uma filosofia política de constante abertura à posição contrária e de busca do consenso social. Segundo, porque reconstrói a personagem política de Obama de forma semelhante à auto-representação de McCain. Também este se apresenta como um homem de consensos (acima dos partidos) e cuja a heterodoxia o torna difícil de catalogar em termos ideológicos. Só que, enquanto em Obama isso nos aparece como uma consequência do seu intelecto, em McCain isso é apresentado como produto da sua história de vida.
A seguir nos próximos capítulos…

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quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

As Ideias Perigosas

...Regressando do terreno das amarguras nórdicas, onde a glória pessoal (três golos, um de improvável trivela) se perde na errância patriótica, aos pés torpes desses misséis altos, de cabelo loiro - perdoem-lhes, porque eles só têm a sorte e Hans Christian Andersen.

Regressando às ideias que ameaçam: "Grandes Ideias Perigosas" (Tinta da China, Maio de 2008) é a tradução do original norte-americano de 2007, uma resenha da pergunta lançada pelo psicólogo de Harvard, Steven Pinker, no âmbito de um "think tank" progressista - mesmo para os padrões do ocidente europeu - chamado "Edge" (edge-org, vale a pena uma consulta periódica na Net), que há uns anos vem defendendo, de forma despretensiosa, a chamada Terceira Cultura, a saber: os intelectuais do mundo pós-moderno, moldados na ressaca dos anos 70, cristalizaram-se na desconstrução da linguagem e na reavaliação do quadro de pensamento antes conhecido por Artes e Letras, esquecendo a importância crítica da reflexão científica.
No fundo, trata-se de um regresso ao passado: de Da Vinci a Richard Feynman, os homens que pensam verdadeiramente o seu tempo - e as consequências desse tempo no futuro - são os que integram a cultura "artística" na cultura "científica".
Na minha modesta opinião (a madrugada permite-me escrever isto com sinceridade), os notáveis subscritores desta célula altamente desestabilizadora ( Pinker, Richard Dawkins, John Brockman, Rupert Sheldrake, Matt Ridley, Daniel Dennett, Craig J. Venter - esse mesmo, o geneticista herético) só pecam por defeito: O FUTURO DO PENSAMENTO QUE IMPORTA É EXCLUSIVAMENTE CIENTÍFICO - desde que praticado por homens e mulheres que compreendam emocionalmente Vermeer e Martin Luther King...
Ainda as Ideias Perigosas: estas agoras publicadas em Portugal resultam da pergunta colocada ao grupo em 2006 por Steven Pinker: "A história da ciência está cheia de descobertas que, na sua época, foram consideradas social, moral ou emocionalmente perigosas: as revoluções concretizadas por Copérnico ou por Darwin são as mais óbvias. Qual é a sua ideia perigosa? Uma ideia em que tem meditado (não necessariamente uma ideia sua, original) e que acha que é perigosa, não porque se presume que é falsa, mas porque pode ser verdadeira?

Dois exemplos retirados do livro:
- "O nosso planeta não está em perigo". Oliver Morton, redactor principal da "Nature", defende que as - grandes - crises ambientais sempre foram uma parte crucial da história da Terra. Depois de tremendas flutuações da temperatura, glaciações severas, fortes impactos de asteróides e cometas, a Terra, continua aqui, incólume. E continuará, tomando conta de si própria, alheia a flutuações alarmistas. (O que não significa que deixemos de cuidar dela o melhor possível).
- "A gramática moral universal é imune à religião". Para Marc Hauser, existe uma larguíssima diversidade de juízos morais imunes a variações demográficas ou culturais, entre os quais o enquadramento religioso (concordo).

Acho que os nossos estimados cúmplices (do 1 ao 100 000) gostariam de saber qual é a Ideia perigosa de muitos de vocês. Que Ideia Perigosa têm para 2008?

Deixo a minha: "A plena compreensão do fenómeno da consciência é impossível".

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Um " género particolare"

Ontem ao final dia, enquanto recolhia a roupa no cimo de um prédio de oito andares em Lisboa, veio-me a lembrança desse filme sublime de Ettore Scola, " Una giornata particolare".
Sophia Loren é nesse filme uma mulher ignorante e gasta, pelo tempo, pela prole numerosa, pelos filhos, pelo marido, pelas provações.
Vive num apartamento estreito, num prédio construído para a classe operária na Itália dos anos trinta que vive o furor da ditadura de Mussolini.
Esse filme mostra-nos um dia, apenas um dia, da vida dela. A vida numa gaiola, e do passáro que dela foge, por instantes. Um descuido, porta aberta e um assomo de liberdade.
A vida daquela mulher é uma imensa rotina de tarefas e de serviço, serve a família, que se serve dela.
Cultiva em casa um livro de recortes de Mussolini, o grande homem, idolatra-o, enquanto cozinha e limpa. Que para a festa vão os outros, vestidos de gala e a esperança escarrapachada na cara.
Quando o vizinho, lhe aparece, dignifica-se-lhe um certo viço. Esconde o buraco da meia, embora use chinelos e compõe a melena em frente ao espelho, apesar da bata.
Ensaia danças sensuais latinas, ri, desafia a autoridade das vizinhas que vestem de preto.
No alto do seu prédio, entre os lençóis, ensaiando desajeitada as asas e pensando que estava pronta para o voo, descobre a impotência do acto. O vizinho, elegantemente, não é homem para tanto.
No final desse dia o passáro volta para casa e para a gaiola. Afinal, não conhece outra mão, que não seja aquela que abre a gaiola, que a limpa, que lhe fará uma festa de vez em quando, que lhe dá de comer e que no final volta a fechar a portinhola.
Não é um ser pensante. É um útero ambulante. Um útero que não milita nem na extrema direita, nem na esquerda.
É um " género particolare". Deve ser a isto que se referem quando se fala na questão do género.

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quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

Três SMS e uma ideia perigosa

Regressado do melhor sítio do mundo - chama-se Preguiça -, e ainda emocionado com as 100 mil almas que sorriem com as nossas indiscrições, aqui fica:
- Sócrates (o nosso, o mestre em Engenharia Sanitária) regozijou esta semana com os recentes, e extraordinários, resultados escolares. Os testes do segundo ciclo em avaliação foram respondidos pelos alunos de forma exemplar através de esculturas de plasticina, livros de colorir e uma análise epistemológica da vida amorosa de Paris Hilton.
- "O Cavaleiro das Trevas" mostra que o mundo dos "comics" também pode ter "pathos" e filiações nobres: senão, interrompam a leitura de Musil ou Turgueniev e leiam - e vejam - Jack Kirby, Alan Moore, Neil Gaiman ou Frank Miller, alguns dos pais espirituais (e leitores atentos dos clássicos) de um filme desiquilibrado mas emocionante - uma BD biónica para o futuro.

- A melhor imagem das férias (à excepção de um fato de banho às risquinhas com a minha mulher lá dentro): um Caravaggio no micro-museu da Catedral de Toledo, na luz e no intangível que El Greco (a estrela - importada - lá da terra) nunca conseguiu captar (e não foi por falta de tentativas)
...Uma ideia perigosa (não é minha, é de Steven Pinker, e está num livrinho muito estimulante chamado "Grandes Ideias Perigosas", editado em Maio último pela Tinta da China):
"Os grupos humanos podem diferir geneticamente nos seus talentos e temperamentos médios".
Continua hoje à noite - desculpem lá, mas tenho que ir para o segundo melhor sítio do mundo: um campo de futebol.

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terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Mas que grande título


Lipstick

O título, magnífico convenhamos, abre hoje a "primeira página" de um dos meus sítios preferidos. Por lá, no Salon, escreve muita gente alinhada e outra bastante mais desalinhada, como é o caso da Camille Paglia. A viagem demora o tempo de clique.

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Aventureiro e Revolucionário

Com a devida vénia, esta veio do sítio Pnet Homem


Mao Tsé-Tung, esse irreal modelo de Andy Warhol, morreu há 32 anos em Pequim. Na altura, não passava pela cabeça do mais esparvoado dos seus sequazes que Pequim seria um dia palco de Jogos Olímpicos, com abertura coreografada por um cineasta chinês, meio dissidente, meio émulo do Busby Berkeley que fez a glória dos musicais americanos dos anos 40.
Há 32 anos eu estava em Angola. E pensava em tudo menos em eleições justas e livres e muito menos nas eleições que, agora, o MPLA ganhou com conforto (porventura menos justo) e com esmagadora maioria (porventura pouco livre). Se ligo Mao Tsé-Tung e Angola é porque há 32 anos, protegido pelo pequeno e tão citável Livro Vermelho do terrível mandarim, eu sentia, no generoso calor de África, que devia aos meus 20 anos a obrigação de ser aventureiro e revolucionário para ter a legitimidade de chegar, décadas mais tarde, a chefe de bombeiros.
As minhas aventuras foram irrisórias e estão condenadas ao esquecimento. A coisa resultou em nada ou coisa nenhuma. A bem dizer nem sequer tiveram a dignidade trágica do mau resultado que pais e outros afectos temiam.
Não foi o que aconteceu a um dos meus amigos. Ele e eu, ambos de Luanda, tínhamos caído de pára-quedas no Lobito e, desportivamente, demos em chatear a dominante Unita (Savimbi quando lá vinha ficava no prédio em frente e o Jorge Valentim era um cansativo prodígio de energia). Entre os muitos militantes do Galo Negro havia um idealista e jovem branco que era tu cá, tu lá comigo, mas embirrava com o frémito triunfal estampado no sorriso do meu amigo, julgo que até mais do que com o distinguo político que nos colocava em campos irreconciliáveis.
Chegados os dias de fogo e balas, a Unita começou a tomar conta da cidade. Num velho Citroen boca de sapo, o meu amigo e dois compagnons de route tentaram, já com algum atraso, sair do cerco inimigo. Apanharam uma barreira de imberbes guerrilheiros, putos do mato que, tímidos a descobrir a cidade dos flamingos, logo descobriram no chão do carro um carregador de pistola. Encostaram-nos à parede do Liceu Vasco Lopes Alves e preparavam-se para os fuzilar.
Guerra é guerra e era essa a guerra que todos faziam. Nem o meu amigo, dada a evidente imprudência do achado, lhes poderia levar a mal. Olho por olho.
O meu amigo e os outros dois ainda protestavam desenganada inocência quando se desenhou na esquina mais próxima o perfil trágico e vingador do nosso embirrante e branco adversário. O que os soldadinhos desconfiavam, ele sabia. E ele, do alto dos seus 17 anos militarizados, mandava. Pairava agora no ar uma exaltação de sangue e o meu amigo despediu-se silenciosamente da vida.
Mas num segundo, num só segundo estremecido e assombroso, tudo mudou. O sincero e combativo militante da Unita, que pela Unita continuaria a bater-se depois, declarou inocentes e apolíticos os três compungidos condenados. “Estes vão para o aeroporto apanhar o avião e sair de Angola”, disse ele aos guerrilheiros da Unita. E o carro, o cansado boca de sapo, lá adiante, em vez de seguir à direita para o aeroporto, virou traiçoeiramente à esquerda em direcção à Catumbela e a Benguela onde estava o MPLA.
Já encontrei este anjo salvador duas vezes. Ainda hoje não sabe explicar o que o levou a arriscar a própria vida para salvar a pele dos que o abominavam. Um luminoso respeito pela vida humana? Uma corrosiva solidariedade de raça? Ele não nega, como também não jura por nenhum destes grandes princípios, mas garantiu-me que a prosaica simpatia com que nos tratávamos foi uma das suas modestas razões. Receio bem nunca chegar a ter a coragem desta simplicidade.

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sábado, 6 de Setembro de 2008

Briseida, a pelada ( continuação)

Para a ocasião, o rei Aga chamou Aquiles para jantar na sua tenda. A noite era auspiciosa, de quarto crescente, limpa e fria. No exterior, as fogueiras ardiam, os homens estavam de guarda. Aquiles atravessou o acampamento, saudando todos com mão firme e rosto distendido. Passou pelos gurdas e entrou na tenda do rei.
Cumprimentaram-se com um abraço. Sentaram-se lado-a-lado. A um sinal do rei, a ceia começou a ser servida. Falaram sobre os tempos em que ainda jovens corriam soltos, varando distâncias e profundezas. Lembraram batalhas, guerras e alguns companheiros que tinham atravessado o rio sem retorno.
Três músicos tocavam a um canto da tenda, enquanto os criados entravam e saíam, servindo comida e bebida.

Na tenda das mulheres, Briseida era preparada. As mulheres cuidavam dela em silêncio. Depois do banho, esfregaram-na com óleo emoliente, colocaram-lhe a túnica verde bordada a ouro. Sentada, foi penteada, os pés e as mãos, cuidadosamente pintados, assim como os olhos e a boca. Quando acabaram, afastaram-se para ver o trabalho. Briseida estava pronta. Em silêncio, cobriram-na com o véu negro.
Briseida não sabia ao que ía, apenas lhe tinham dado a ordem.
Foi levada à tenda do rei. Entrou, ficando de pé defronte dos dois homens.
" - A partir de hoje, pertences a Aquiles." - Disse o rei Aga a Briseida.
Aquiles olhou primeiro para Aga e depois para Briseida em assentimento.
E porque Aquiles se levantasse, o rei deitou-lhe o braço, dizendo:
"- Espera, sempre gostaria de ver aquilo de que abdico."
" - Aga, se nem eu sei aquilo que quis, porque hás-de tu conhecer o que já te não pertence?"

Briseida, enrolou o véu, tirando-o completamente. Os dois homens olhavam para ela e ela para eles. Aquiles calou-se. Por instantes, os olhos agudos, a boca fechada, o corpo hirto. Depois sorriu: " - Meu amigo, a tua magnificência não conhece limites. Deste-me a Ásia inteira."
Virou as costas, começando a andar. Disse: " - Vem!"
Briseida, seguiu-o, entrando na tenda de Aquiles dois metros depois dele.
Aquiles sentou-se, fazendo-lhe sinal que se sentasse à sua frente.
Ainda Briseida mal se havia sentado quando Aquiles diz:
" - És bela tu, podia dizer-te que te deitasses comigo uma hora, mas não é nada disso que tu queres, pois não?"

( a continuar)

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sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

Calor estival

Acabado de chegar de férias não pude deixar de confirmar os efeitos do calor estival nos meus amigos co-bloggers.
Senão vejamos:
Um rabo...

Dois rabos...

Não há três rabos mas há amor (?) na praia...



Maminhas (só uma na verdade - peço desculpa)...

Nu integral (fotograia que apareceu duas vezes)...



E a terminar um post intitulado "Gajas mesmo muito boas" em que se referem algumas coisas chocantes, entre as quais sexo com animais.
Em nome dos bons costumes espero que o Outono que aí vem nos traga a todos alguma decência.






































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Gajas mesmo muita boas





É provável que você se sinta levemente enganado com o conteúdo deste post. Mas a verdade é que este outro post do Manuel Fonseca continua, vários meses após a sua publicação, a ser um chamariz internacional para este blog. E, por muito que me custe admiti-lo, eu não queria deixá-lo muito mais tempo a brilhar sozinho (a inveja, mesmo entre bloggers, é de facto uma coisa muito feia). Seja como for, agora que anda por aqui, está convidado a voltar. Não prometemos «mulheres nuas» nem «gajas boas» mas sempre se vão arranjando traições inconfessáveis e confissões verdadeiramente chocantes, sexo com animais, conversa de bola, alguma pornografia e, com algum jeito, até uma fotografia ou outra mais marota. Tudo, já se vê, boas razões para o seu regresso.

ps: agora que termino este post dou-me conta de quem é o maior contribuinte líquido para a «baixeza» deste blog.

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quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

Dos sentimentos de Sócrates

José Sócrates, Primeiro-Ministro de Portugal, afirmou publicamente estar muito satisfeito com a decisão judicial que condenou o Estado português a pagar uma indemnização a Paulo Pedroso: «Não é difícil imaginar o meu estado de espírito – afirmou o Primeiro-Ministro – porque eu vivi intensamente essa época no Partido Socialista. Sei tudo o que se passou e acompanhei com detalhe todo esse processo». Ainda segundo a mesma fonte, quando foi instado a explicar melhor o que era isso que sentia, José Sócrates terá acrescentado: «A minha responsabilidade como político obriga-me a não comentar decisões judiciais, mas repito mais uma vez que não é difícil imaginar aquilo que sinto».
Sabendo que não é politicamente correcto falar deste assunto, devo dizer, no entanto, que me é muito difícil imaginar como é que se sente o Sr. Primeiro-Ministro. E isto pela simples razão de que não considero minimamente verificados os dois pressupostos básicos desta notícia, a saber: primeiro, que o Sr. Primeiro-Ministro é amigo de todos os portugueses, razão pela qual eles sabem como ele se sente; segundo, que o Sr. Primeiro-Ministro é amigo do Sr. Paulo Pedroso, razão a partir da qual podemos imaginar como ele se sente.
Quanto ao primeiro ponto, devo dizer que, no que me diz respeito, não sou amigo do Sr. Primeiro-Ministro. Não há aqui qualquer afirmação política, mas a simples indicação do facto de que eu não conheço pessoalmente José Sócrates. Não frequentámos as mesmas escolas, não temos o mesmo grupo de amigos, não nos cruzámos profissionalmente… enfim: não nos conhecemos. Daí que me é muito difícil saber como ele se sente: está triste com toda esta horrível história em que estão envolvidas crianças e pessoas que lhe são próximas? Está contente com esta vitória judicial de Paulo Pedroso? Está irritado e até zangado por, apesar da vitória e da inocência de Paulo Pedroso, em que acredita, este ir ficar obviamente marcado durante toda a sua vida? Nenhuma das anteriores? O facto é que eu não sei como se sente o Sr. Primeiro-Ministro e o mesmo julgo que se poderá dizer da esmagadora maioria dos portugueses.
Quanto ao segundo ponto, devo também dizer que não sei se o Sr. Primeiro-Ministro é ou não é amigo do Sr. Paulo Pedroso. E, sendo-o, não sei se é pouco amigo, muito amigo, mesmo muito amigo, ou quase irmão. Na verdade, sei que se conhecem do PS. Mas isso diz-me pouco, pelo que me é ainda mais difícil imaginar o que sente o Sr. Primeiro-Ministro. Tanto mais que, como se sabe, os sentimentos são coisa sempre difícil de explicar e muitas vezes não obedecem à razão.
Mas isto não é tudo, porque, na verdade, também me é difícil perceber que o Sr. Primeiro-Ministro tenha dito publicamente aquilo que disse. Porque se José Sócrates é amigo de Paulo Pedroso, está muito bem que, em privado, com ele partilhe os sentimentos que experimentou num caso que a este dizia respeito: que lhos dê a conhecer, que se emocionem e que se abracem. Tudo isso está muito bem. Nada justifica, porém, que o faça em público, ainda que apelando à imaginação dos portugueses. O que lhe dirá, então, em privado: que enquanto Primeiro-Ministro lhe custou muito ver o Estado português ser condenado?
A verdade é que não parece nada bem que o Primeiro-Ministro de um país se afirme publicamente satisfeito quando o Estado que representa é condenado. Muito menos quando essa questão resulta de um processo em que muitas pessoas alegadamente violentadas nos seus corpos e nos seus direitos esperam ainda uma resposta desse mesmo Estado, à guarda do qual estavam, aliás, desde pequenos. Para esses não tem o Sr. Primeiro-Ministro uma palavra pública? Não viveu intensamente esses seus dramas? Não acompanhou em detalhe os seus processos? Não duvido – que fique claro – que também com eles se preocupa o Sr. Primeiro-Ministro. Mas fica mal mostrar-se publicamente satisfeito quando um seu amigo é justificado, enquanto tantos outros, que não conhece, vão, nesse mesmo caso, desesperando da justiça.
Com efeito, não vale aqui a apregoada vitória da justiça, porque o que se perdeu em todo este caso foi, justamente, a justiça. Se há coisa que os portugueses sabem de todo este caso, é isto: que, ao que parece, um homem inocente foi dado como culpado; que, ao que parece, vários homens culpados serão dados como inocentes. E é aqui, Sr. Primeiro-Ministro, que poderá funcionar a imaginação dos portugueses, nomeadamente na procura de razões que expliquem estas injustiças. E se a série televisiva sobre o caso “ballet rose” serviu recentemente para exemplificar o nosso antigo regime e a podridão que o corrompia, pergunto: o que pensarão sobre o nosso regime aqueles que, daqui a uma ou duas gerações, virem a série televisiva sobre o caso “Casa Pia”?

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IV. Khomiakov, L'Eglise latine et le Protestantisme au point de vue de l'Eglise d'Orient, Xenia Editions

São Histórias diversas as herdadas pelo mundo latino católico que gera o dito Ocidente e a que gera o mundo ortodoxo grego, eslavo. São ritmos históricos diversos, embora com sincronismos que não podem ser esquecidos. A queda do Islão na Península Ibérica coincide com a vitória de Dimitri Donskoï contra os turco-mongóis. O islão num e noutro extremo da Europa é expulso para permitir a plena realização da Europa. A Renascença entra na Rússia não muito mais tarde do que entra em Portugal. E Pedro II traz para a Rússia a modernização numa altura em que um outro Pedro, este o II de Portugal, tenta fazer a mesma coisa. Estranho mistério, este, o de dois países extremos da Europa se ignorarem de forma tão ostensiva, quando a nostalgia das estepes tem tantas afinidades com a do mar, e a ternura da poesia russa sempre encorpada pela virilidade, lembra tanto alguma da poesia portuguesa. Pushkine e Camões poderiam ser primos afastados.

A verdade é que esta deriva não pode ser esquecida na união entre ortodoxos e “ocidentais”. Esquecê-lo não seria apenas falta de realismo, seria ignorar dados essenciais de como a economia da salvação se manifesta na História. Qualquer união terá de ter em conta este facto.

Mas a outra questão é eminentemente eclesial, no seu fundo. Khomiakov insiste na natureza, não conciliar ou colegial da igreja, como frequentemente se diz que os ortodoxos defendem, mas, algo bem mais profundo, como uma união de amor, independente da hierarquia. Segundo este princípio, pouco espaço sobraria para o papado senão um protestantismo latino, uma rebelião, um fratricídio moral, como ele gostava de o chamar. No fundo, e embora Khomiakov não enfrente expressamente o problema, trata-te da conciliação entre a mensagem de Cristo a Pedro como Pedra (“Tu és Pedro” de Mt 16,18 e “eu estarei no meio de vós” (Mt, 18, 20, se bem me lembro).

A solução não pode ser política apenas porque geraria uma mera aliança, e aqui Khomiakov tem toda a razão. Não pode ser de mera tolerância, porque esse é o grau zero da hostilidade. Sendo de caridade mútua já se deu um passo. Mas é evidente que estamos em época algo diversa, e por isso Khomiakov não pode ser criticado em termos anacronísticos. Passaram entretanto duas guerras mundiais, o Vaticano II, os protestantes foram mudando desde o século XIX a sua visão da igreja católica (embora ainda hoje em dia tele-evangelistas americanos lembrem que, se os colonos fugiram para a América, foi para fugir à perseguição católica... da Inglaterra (?)), os ortodoxos embora de forma mais lenta vão mudando da sua perspectiva em relação à modernidade. Na fronteira da Polónia começa a haver ligações entre ortodoxos e católicos, e sobretudo Bento XVI, de forma discreta, mas muito eficaz, tem dado como prioridade ao seu pontificado a ligação aos ortodoxos, muito mais estiolada que a que existe com os protestantes, que se conjugaram no mesmo lado das mesmas guerras mundiais.

Também o mundo ortodoxo deixou de ter a pureza original que Khomiakov gostava de nele encontrar. Crítico dos uniatismos como mero negócio político, não poderia adivinhar as ligações que existem hoje em dia entre os ortodoxos e os monofisitas coptas em alianças não menos “políticas” para usar a sua expressão. Os críticos dizem que Khomiakov compara a igreja ortodoxa como deveria ser com as ocidentais como elas são, o que seria injusto. Nem refere o conceito bizantino de “symphonia” entre o poder político e religioso como justificação. Bem sabe o que ele significou. E como, se é verdade que existe uma união entre ortodoxos, esta muitas vezes foi lassa, pouco enérgica. Ou como na verdade os poderes políticos dominaram de forma muito pesada muitas vezes os poderes religiosos no mundo ortodoxo. Com todas as desvantagens do Património de Pedro, a Igreja Católica soube servir-se dele para ter uma autonomia bem maior em relação aos poderes políticos, embora não tenha sido isenta de domínios políticos (da França, do Império). Foi paradoxalmente o facto de assentar também como poder político que lhe permitiu transcender fronteiras. Mas a ortodoxia construiu-se sobre impérios (bizantino, búlgaro, russo). A igreja católica sobre os seus escombros, e coube-lhe a ela ajudar a reconstruí-los.

O mundo é outro, mas o problema teológico mantém-se. Não nos mesmos termos. De um lado a teologia católica tenta perceber melhor o filioque na perspectiva dos ortodoxos (Bruno Forte), do outro, há mais noção dos problemas ocidentais na Rússia do que por vezes se tende a pensar. Ninguém está inocente nesta matéria, e ninguém está inerte. Política, diálogo, tolerância, caridade, oração, pensamento teológico, inspiração, nada é demais para atingir esse objecto de união.

Khomiakov revela-se um grande erudito, nomeadamente da teoria da religião, mostrando capacidade de análise simbólica que só se volta a encontrar muitas vezes no século XX com Kerenyi ou Jung. A sua erudição é vasta e segura, embora obviamente dominada pelo espírito da época. Considerando o mundo eslavo herdeiro do mundo iraniano, quando em boa verdade é mais primo dele que filho, retira daí consequências que podem ser discutíveis (como a etimologia da palavra Bog, Deus). Pouco releva para o que nos interessa. Mais importante que tudo isto é o facto de Khomiakov dever ser levado a sério.

Hoje em dia querem-nos fazer acreditar que todas as culturas são maravilhosas, ricas, profundas, sem nos explicar em que o são. Os bem-pensantes aproximam-nos de altaicas presunções, doentia obsessão de asiáticos com a prosápia de serem europeus, nem que seja à força. Da parte que me toca continuo a preferir as grandes culturas, que efectivamente o são, às medíocres. A russa é uma grande, uma imensa cultura, que diz mais sobre o que a Europa é na sua riqueza que mil tratados sobre a igualdade presuntiva e presunçosa das civilizações. Hoje em dia mandam-nos compreender todas as culturas, mesmo quando são repugnantes em muitos aspectos e esquecemo-nos de ter um olhar de abertura ao que pensam e sentem os ortodoxos, que vivem ao lado de nós e na mesma casa em suma. As suas queixas não são nem destituídas nem plenas de razão. Perceber a parte de justiça de cada um delas pressupõe ouvi-las previamente.


O mais importante é ter em conta que a visão ortodoxa sobre si mesma e sobre o dito Ocidente da Europa não pode ser desmerecido ou tratado com condescendência. Não se trata de povos turco-mongóis, adoráveis, mas intranscendentes e sem produção cultural superior. Trata-se de gente com uma capacidade criativa superior e bem nutrida na sua capacidade crítica. Por isso, ler Khomiakov é uma bela lição para qualquer pessoa educada no cristianismo latino ou protestante. Faz-nos pensar que também nós estamos por vezes instalados na imutabilidade e no conforto de lugares comuns, em oposições cujos termos de base por vezes funcionam em círculo fechado. Khomiakov faz-nos abrir esse círculo, só por esse facto já lhe devíamos estar gratos.


Alexandre Brandão da Veiga

http://en.wikipedia.org/wiki/Aleksey_Khomyakov
http://www.editions-xenia.com/livres/khomiakov/index.html

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quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

Hitler, ao meio-dia em ponto

A Guerra e Paz - acuso-me - vai editar, no último trimestre do ano, alguns grandes livros. Um desses livros é um fantástico ensaio, obcecado com uma só coisa, com o humor que resiste a tudo, a tempos de cólera e de brasa, a tempos de guerra e caos. No livro contam-se algumas anedotas excepcionais. Uma para amostra:

Dois Judeus têm um plano para assassinar Hitler. Ficam a saber que o carro dele passa por uma certa esquina todos os dias ao meio-dia, e fazem-lhe uma espera com as pistolas bem escondidas.
Ao meio-dia em ponto estão prontos para disparar, mas não há sinal de Hitler.
Cinco minutos depois, nada.
Passam mais cinco minutos, e nada de Hitler.
Às 12h15, começam a perder a esperança.
Um deles diz para o outro: «Valha-me Deus, espero que não lhe tenha acontecido nada».

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Jass sem rabo




E se alguém perguntar ao Jazz porque é que o Jazz se chama Jazz? O mais certo é que o Jazz responda que o Jazz tem a resposta ... que cada Jazz tem.

Dito por outras palavras, há explicações para todos os gostos:
- Jazz vem de Jasper, um escravo dançarino de uma plantação vizinha de New Orleans que tinha precisamente a alcunha de Jazz...
- ... de Chas, um baterista que viveu no Mississipi em finais do século XIX...
- ... de um músico de Chicago chamado Jasbo Brown...
- ... do arábico Jazzib...
- ... de jasmim, uma fragrância muito em voga entre as prostitutas de New Orleans...
- ... da palavra homónima com que os negros apelidavam a «copulation»...
- ... e de onde mais se quiser.

Na dúvida, eu gosto de acreditar na versão do tresloucado La Rocca. O Jazz, antes de ser Jazz, era Jass. Mas o Jass teve de virar Jazz para os miúdos pararem de riscar o J nos cartazes do Jass. Que é como quem diz: «Jass sem rabo é J e Jass sem J é rabo».

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A quem tal possa interessar...

Álvaro Pais, como é sabido, foi um político hábil que, à volta do Mestre de Aviz, soube congregar o povo e os vários partidos nacionais que então estavam em oposição. O seu desígnio, porém, foi nacional, e por isso a história lhe perdoa as manhas.
Já o mesmo não se poderá dizer de alguns políticos de hoje, que, no seio dos seus Partidos, tudo fazem para eleger os seus próprios mestres segundo lógicas exclusivamente pessoais. Podiam bem ser suas as palavras de Álvaro Pais, que, logo após a tomada de Lisboa, indicava ao futuro rei como havia de ganhar o poder. Entre ambos, porém, há a enorme diferença de que uns quiseram erguer um reino, que é o nosso, enquanto os outros não sabemos ao que vêm.
Aqui ficam as palavras, para quem tal possa interessar:

«As cobiças andavam acesas, e Álvaro Pais, com a sua experiência manhosa, aconselhava o Mestre:
– Senhor, fazei por esta guisa: dai aquilo que vosso não é; e prometei o que não tendes, e perdoai a quem vos não faltou... Ser-vos-á de grande ajuda neste negócio em que sois posto.
O Mestre seguia pontualmente o conselho, perdoando tudo, dando tudo, prometendo tudo.»*

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* Oliveira Martins, A Vida de Nun´Álvares, Ed. Guimarães, Lisboa, 1955, pág. 130.

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O rapaz de Chicago


Tive finalmente a oportunidade de ler o artigo da New Yorker sobre Barak Obama, aquele que vinha no número da revista com a capa controversa. A capa é de facto um pouco excessiva, não tanto pelos disfarces com que Obama e a mulher aparecem vestidos, mas mais pela bandeira dos EUA a queimar na lareira. Enfim, todavia, nada de muito grave.

O que interessa mesmo é o artigo que é muito bom como quase sempre acontece com esta revista. São 18 páginas de biografia política aprofundada, com investigação junto de antigos colaboradores, leituras de colunas de imprensa de sua autoria, entre outras coisas. Esta é sem dúvida uma das melhores revistas do mundo e é nestes artigos que essa reputação foi conquistada.

O jornalista claramente arranjou motivos suficientes para não gostar de Barak Obama, enquanto pessoa. Obama aparece-nos aqui como alguém extremamente ambicioso que passou por cima de algumas coisas para avançar na rápida caminhada que o levou onde chegou hoje. Essa impressão é feita com base na recolha de algumas opiniões de ex-colaboradores que se viram deixar para trás. Parece que em muitas ocasiões teve comportamentos oportunistas. Ninguém se queixa de falta de carácter ou de algo semelhante, mas sim de uma grande ambição. Trata-se, para o jornalista, de um BUPPIE (black urban professional).

Obama define-se a ele próprio como sendo da ala “liberal” do partido já liberal que é o Democrático, algo que lhe poderia ter fechado algumas portas, sobretudo as do dinheiro. Mas não foi sempre isso. Obama foi presidente da Harvard Law Review, um cargo de enorme importância e prestígio. Parece que para conseguir essa nomeação percorreu um caminho muito estreito, satisfazendo os eleitores (de algum colégio eleitoral, presumo) à direita e à esquerda. Tudo isto ia acontecendo num ambiente em que muitas vezes Obama é referido já há algum tempo como futuro primeiro presidente negro da América.

O sucesso da ascensão de Obama teve essencialmente duas vertentes, segundo o artigo da New Yorker. A primeira foi ter conseguido ganhar para si a máquina do Partido Democrático de Chicago, um feito nada pequeno atendendo ao funcionamento da mesma. A segunda foi ter conseguido fazer uma ponte sólida entre os liberais do dinheiro, em Chicago e em outras partes dos EU, e os negros dos bairros mais problemáticos da cidade por onde foi eleito Senador.

A descrição que o artigo faz do funcionamento da política em Chicago mostra um aparelho partidário dominado por grandes caciques e com ligações muito próximas a dinheiros menos limpos. Não é propriamente a democracia na América de Tocqueville. Mas é a democracia na América. Obama, todavia, conseguiu passar por cima dos problemas mais graves e conquistar a nomeação para senador sem sujar as mãos (em Chicago a nomeação assegura a eleição). Foi a sua primeira grande vitória. Para o conseguir teve de arranjar dinheiro e fê-lo com uma facilidade inusitada, granjeando simpatias junto de alguns milionários abonados. Fez isso ao mesmo tempo que conseguia a simpatia das pessoas mais carenciadas através de um discurso convincente e também de ter conseguido levar a cabo algumas reformas, pôr de pé alguns projectos importantes, e livrar-se de políticos agarrados à máquina partidária mas menos populares.

Uma história de ascensão na máquina partidária apoiada por dinheiro e muito faro político. Ou seja, afinal é um homem normal. Só não é tão normal como os outros porque é um homem excepcionalmente inteligente. E também porque é negro. E não por acaso tudo isto aconteceu em Chicago, uma espécie de Massachusetts dos negros. 150 anos depois do fim da escravatura, não se pode dizer todavia que tenha sido cedo demais.

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III. Khomiakov, L'Eglise latine et le Protestantisme au point de vue de l'Eglise d'Orient, Xenia Editions

A verdade é que o problema da união das igrejas é simultaneamente um problema histórico e religioso. Uma verdadeira religião da Incarnação não pode ver a coisa de outra forma. É aqui que Khomiakov, com a sua imensa erudição, claudica. Tivera publicado apenas o seu primeiro ensaio seria bem mais difícil contestar muito do que diz. A partir daí publica novos ensaios e descobre o fundo do seu pensamento. Padece do preconceito tipicamente ortodoxo da imutabilidade do dogma na sua enunciação. O ortodoxo basta-se com os primeiros concílios ecuménicos e não mudou dogmas. Não juntou nomeadamente o mal afamado filioque. A sua mensagem mantém a pureza da mensagem apostólica. Seja. Isto vê-se particularmente quando critica a teoria de Newman do desenvolvimento.

É assim tão simples? Que haja apenas uma revelação, de uma vez por todas, todo o cristão, esquecendo apocalípticas revelações, o tem de aceitar. Mas que se diga que um ortodoxo é o único depositário da verdade intacta porque intocada é coisa que já pode merecer reparos. É que se Constantinopla I afirmou claramente que Niceia não podia ser alterado, a verdade é que Niceia existiu – depois dos Apóstolos. A relevação da verdade tem desenvolvimento histórico. Na enunciação é certo. Depois de Niceia, mesmo depois de Éfeso ficaram claras a incorrecções de expressão, mesmo os riscos de tão ortodoxa e católica figura quanto São Cirilo de Alexandria. Mas a História não é apenas um processo intelectual, ou mesmo espiritual, de enunciação (mesmo aqui o ortodoxo congelou a enunciação com os primeiros concílios ecuménicos). O próprio desenvolvimento histórico em si mesmo desvela à humanidade a economia da salvação e consequentemente, o que dela não pode ser desligado, o dogma. De tanto insistir na imutabilidade Khomiakov acaba por ter uma versão idealista da História, e acaba na armadilha do idealismo alemão que tanto admirava, mas criticou.

Historicamente existem desenvolvimentos diversos do cristianismo no Ocidente e no Oriente. É evidente. E não se contam desde o cisma de Photius que não foi tão definitivo como se diz, nem tão novo quanto se afirma. O cristianismo nasce no império romano e em zona helenizada. Região bem diversa da zona latina. Por mais fortes contactos que tivesse havido entre as duas partes do império, e mais forte fosse a circulação de pessoas, bens, ideias, mesmo de religiões (o caso do mitraísmo e das religiões mistéricas são bons exemplos disso), a verdade é que se trata de duas partes do império. Uma latina para o bem e para o mal, outra helenizada.

Se bem pensarmos, estranho é que sequer tenha havido um cristianismo latino. Mais: que o cristianismo tenha dado à língua latina filósofos e uma profundidade filosófica que antes nunca teve. A originalidade filosófica em língua latina começa com o cristianismo. Antes temos romanos muito cultos, profundos conhecedores da cultura grega, mas que não merecem citação entre os gregos e que não deixam marca no próprio pensamento ocidental mais profundo (salvo, e que excepção, na linguagem com Cícero, por exemplo, e a versão poética de ética com Séneca).

Mas não é com a queda do Império Romano do Ocidente, e muito menos com o cisma dos séculos IX a XI que se separa um e outro cristianismo. Os gregos não sabiam latim e os latinos pouco sabiam de grego. Se isso não lhes impedia a comunhão, permitiu que se gerassem malentendidos (pessoas e hipóstases, por exemplo são difíceis equivalências). Que a essa dificuldade profunda original se juntassem contextos históricos diversos, de queda no ocidente e sobrevivência a oriente, de germanização a ocidente e miscisgenação oriental em Bizâncio, apenas para dar uns exemplos, apenas mostra que esta diversa História não pode ser desconsiderada mesmo na perspectiva da economia da salvação.

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terça-feira, 2 de Setembro de 2008

Nick La Rocca. A preto e branco.

Eis o registo. Ao vivo e...a preto e branco.

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II. Khomiakov, L'Eglise latine et le Protestantisme au point de vue de l'Eglise d'Orient, Xenia Editions



É fácil em relação à Rússia viver de oposições. Os ocidentalistas, modernos, contra os eslavófilos, reaccionários. O despotismo contra a anarquia. Os elementos da mais requintada civilização associados à maior barbárie. Depois de duas guerras mundiais estas opções tornam-se muito menos evidentes. Sobretudo mostram-nos que nunca foram efectivamente evidentes.

Os eslavófilos como retrógrados e reaccionários? Seja. Talvez fosse bom lembramo-nos que também eles lutaram pela libertação dos servos na Rússia e não apenas os ditos ocidentalistas. Que estavam bem longe de ignorar os movimentos intelectuais mais avançados da Europa. Não se trata de um conjunto de eruditos de paróquia mal informados e em permanente birra. Em certo sentido ensinam mais a Europa que muitos ocidentalistas, que apenas mostraram ser capazes de aprender em profundidade dos conceitos ditos ocidentais, mas sem grande inovação.

Khomiakov é dos mais belos exemplos da eslavofilia, ou melhor, da defesa da ortodoxia contra os ocidentais, sejam latinos sejam protestantes.

Os conceitos que usa não são irrelevantes e ainda hoje em dia nos fazem pensar, não apenas no plano político mas igualmente civilizacional. Distingue fortemente união de aliança. Alianças temo-las feitos com não europeus, sejam turcos, americanos, ou chineses. União é algo de mais profundo, mesmo que não estejamos a falar no plano especificamente religioso.

Qual é o ponto principal da sua argumentação? O clássico na ortodoxia. Há um cisma ocidental (no ocidente dizemos oriental), um protestantismo latino da Igreja de Roma, a que se segue um protestantismo germânico. Mais que cisma, há mesmo heresia. Quebra-se o dogma da Igreja como uma união de amor, quando se anuncia a supremacia papal. A esta heresia apenas se poderiam acoplar outras como a do filioque a Imaculada Conceição e assim por diante. Nisto repare-se que Khomiakov é consistente e mesmo convincente, se pensarmos apenas no seu primeiro ensaio. A sua eclesiologia não é disparatada, é a que resultaria dos primeiros concílios, de forma mais ou menos expressa ou confusa. É a clássica argumentação ortodoxa, e vendo o mundo com os olhos de um ortodoxo, teria imensa razão. A primazia particular da Sé de Roma, sobretudo quando em certos momentos críticos foram papas a defender a ortodoxia, nunca foi posta em causa pelos ortodoxos. Mas que essa primazia se arvore em princípio constitutivo de toda a Igreja é coisa que um ortodoxo não pode aceitar. E faz bem. Faz bem porque representa um ponto essencial da eclesiologia que desafia os nossos prejuízos ocidentais.

Khomiakov tenta demonstrar que a Igreja (ortodoxa) é por isso a única que concilia dentro de si o depósito da verdade (como os latinos) com a procura da verdade (como os protestantes). O que seria “apenas” eclesiologia passa a ser assento para mostrar qual o papel do fiel na igreja. O protestantismo romano (para usar a sua expressão) cai no despotismo, o germânico na anarquia.

A História deu alguma razão aos ortodoxos. Conseguiram manter a unidade sem depender de um órgão central e não caíram na fragmentação protestante. O vínculo de amor como base da união da igreja parece ter demonstração histórica. O problema é que este argumento do sucesso histórico é reversível. Se o sucesso for o critério, a Igreja católica é de longe a mais bem sucedida de todas. Nova argumentação: isso vem do facto de seguir o sucesso dos impérios em que assentou: espanhol, português, francês. Só em parte. E o mesmo se poderia dizer da relação da ortodoxia com os impérios em que assentou, seja russo, búlgaro ou bizantino. E isso não explicaria o facto de o maior sucesso que teve a igreja católica foi pós-colonial. Valendo as estatísticas o que valem, tudo indicam que triplicaram as conversões em África depois da saída dos impérios coloniais. O próprio interesse dos impérios coloniais em expandir o catolicismo foi muito relativo. A República laica francesa e mais tarde a portuguesa não seriam muito suspeitas de favorecimento das missões católicas, embora se tenha visto de tudo na História.

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segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

I. Khomiakov, L'Eglise latine et le Protestantisme au point de vue de l'Eglise d'Orient, Xenia Editions


Impera hoje em dia uma russofobia que é apenas mais uma das formas de ódio à Europa. Querem-se admitir países asiáticos na União europeia quando se esquece ostensivamente o maior país europeu nesta União. A União é Europeia e os adjectivos têm algum significado. A Rússia é um país europeu, com todas as dificuldades que resultam de ser, não meio asiático, mas de ser o maior de todos os países europeus.

As raízes desta russofobia encontram-se em muitas fontes. O apreço das elites intelectuais inglesas, sobretudo anglicanas, foi substituído pelo espírito de merceeiro que rege a Inglaterra sobretudo depois da II Guerra Mundial e por maioria de razão depois da tomada de poder pelos conservadores nos anos 80. Um James Bond nunca surgiria de um espírito aristocrático inglês.

Mas as raízes são bem mais fundas. A oposição entre ocidentais e orientais é assumida tanto por protestantes como por católicos, que no fundo participam do mesmo movimento romano-germânico de formação da Europa, que, sendo o de mais forte impulso, não é o único. A Europa formada com a matriz bizantina (se Bizâncio era ou não Europa deixo para outras núpcias) é aceite ainda hoje em dia por muitos como uma espécie de Europa dos pequeninos, uma Europa adorável na melhor das hipóteses, mas que tem muito que aprender connosco, como se toda a Europa Oriental e Central fosse uniforme, e como s e não tivéssemos nós a aprender com ela.

Que a cultura russa seja uma imensa cultura não tenho dúvidas. Não por ser cultura, o que é trivial. Sempre me pareceu que há culturas desprezíveis, enfadonhas, sem originalidade. Quem gasta a admiração com todos acaba por mostrar apenas que não quer admirar efectivamente ninguém. A cultura russa é admirável, não por ser cultura, mas por não ser trivial no que é e no que nos deu.

Na matemática deu-nos Lobatchevski e Kolgomorov e só por isso já mereceria a minha vénia. Na química Mendeleev e assim o meu respeito. Na música, literatura tantos outros. Mas no pensamento, menos lembrado no Ocidente, embora não tenha criado grandes sistemas filosóficos, ou talvez por isso mesmo, mostrou um realismo, uma capacidade de nos lembrar de dados fundamentais, que lhe dá uma função equivalente à da filosofia inglesa.

Cada um na sua vertente, seja Soloviev, seja o Padre Gagarin, seja Herzen, ou tantos outros, disseram qualquer coisa que nos revela, enquanto ocidentais, como apenas uma parte da Europa. Não é por acaso. A elite russa dominava o francês, o inglês, o alemão, o latim, o grego e o russo. Estava por isso habituada a circular entre as grandes línguas cultas da Europa. A imensidão do seu país estava na medida da imensidão dos seus estudos. Era precisamente a consciência do seu atraso económico e de desenvolvimento como um todo, associado à noção da sua entrada recente (quão recente e quão pouco recente, é questão mais complexa) no concerto europeu que lhe dava a frescura das suas análises, e o realismo das suas críticas.

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Rei Édipo

«A voz gloriosa, partindo do nevado Parnaso, ordena que se busque o homem que se esconde; erra pelas florestas bravias, pelas cavernas, pelos rochedos, como um toiro, e anda vagabundo, o infeliz, miserável e solitário, para escapar ao oráculo saído do centro da terra; mas o oráculo, que não morre, o persegue por toda a parte.»*

«Maldito seja o que me desatou os pés cruelmente amarrados e me salvou da morte. Em nada lhe estou grato; se tivesse morrido nessa altura, não teria provocado tais dores, aos meus amigos e a mim!»*

Continuando esta pequena incursão por algumas das histórias dos antigos gregos, chegou a altura de lembrar o Rei Édipo, de Sófocles, no qual a questão da identidade se constitui como o centro de toda a acção, que nos mostra, porém, como a progressiva descoberta da identidade de Édipo vem inevitavelmente acompanhada da revelação de um crime. Édipo, com efeito, é aquele que quer, «venha o que vier, conhecer a sua origem, por mais obscura que seja», de tal maneira que assim possa escapar à tragicidade própria da sua existência: o seu crime, portanto, foi o de ter querido ou afirmar-se de tal modo que ele próprio se tornasse o princípio de todas as coisas; ou não se afirmar sequer... em ambos os casos, o seu crime foi o de ter querido a indiferença: ter querido, ainda criança, «fugir e esconder-se onde não pudesse ver cumprirem-se os oráculos vergonhosos e horríveis»; ter querido, já adulto, responder, de uma vez por todas, ao monstruoso enigma que trazia dentro de si: o que é o homem, este ser que questiona acerca de si mesmo?
O homem, de acordo com a concepção trágica de que Sófocles aqui nos dá conta, é este ser capaz de um encontro maravilhoso com a Esfinge: de um olhar de frente o próprio monstro que, no entanto, porque o homem lhe não pode dar resposta, logo a seguir o devora. Por isso nos diz Sófocles que a maior felicidade do homem é «a de parecer feliz e de logo morrer». Mas o homem é também este ser tentado a resolver o enigma e que, tal como Édipo, se subtrai à realidade e se substitui à natureza, sendo essa sua acção horrenda digna dos maiores castigos. É o próprio monstro, então, quem, desesperado, se mata, o que acarreta para o homem um castigo pior do que a morte, pois que agora, absolutamente determinado, já não se pode questionar.
É que «não era um homem qualquer que tinha obrigação de explicar o enigma, mas sim os adivinhos». É o próprio Tirésias quem o diz a Édipo: decifrar o obscuro enigma «foi exactamente o que te perdeu». O crime de Édipo, assim, foi ter ousado responder a «essa cadela, com as suas palavras obscuras, (...) sem o auxílio das aves e dos augúrios». Ele representa o homem que – aproveitando o dito de Protágoras – se impõe a si mesmo como medida de todas as coisas: o homem que se impõe ao próprio lógos ao invés de, colaborando com ele, participar nas delícias do divino palácio do ser.
Édipo, portanto, é o Adão do povo grego (sem esquecer, claro, que Adão é expulso por Deus do jardim do Éden, enquanto que Édipo pede, ele próprio, para sair), símbolo do homem pecador que, vítima do orgulho, se afirma, absolutamente definido, como o senhor de todas as coisas. Por isso se torna «para todos o irmão de seu próprio filho, o filho e o esposo daquela que o gerou, aquele que ocupa o leito de seu pai, depois de o ter matado». Ora, este homem indiferente, absolutamente igual a si mesmo, é o mais infeliz dos homens – porque vive sozinho. E o homem que vive sozinho, incapaz de ouvir as novidades que lhe trazem os mensageiros e os arautos, é um homem injusto: a cólera, a insensatez e o medo tomam sucessivamente conta de si.
A consciência da queda, no entanto, traz consigo a memória das alturas. O homem tem também, portanto, esta possibilidade de voltar a participar na vida dos deuses, que radicalmente se lhe manifesta nesse encontro com a Esfinge, «a Profetiza, a Virgem das garras recurvadas». A esse reencontro com o divino, no entanto, o homem só chega por via da comunidade com o outro, sendo que a comunidade com o outro só acontece por via da acção justa, isto é, da acção bela, corajosa e inteligente – as três verdadeiras virtudes do homem que caminha para o divino e que surgem a partir da própria natureza esfíngica da questão. Por isso nos diz Édipo: «ó encruzilhada, ó vale sombrio, ó bosques de carvalhos, ó estreito passo a que vão dar as três estradas».
Na verdade, o monstro, a que leva a estrada, está já presente no caminho, apresentando-se sob a forma de uma questão cuja figura é a de uma mulher com corpo de leão alado, símbolo das três instâncias que devem ser convocadas neste humano caminhar: a mulher, símbolo da beleza e da sensibilidade estética; o leão, símbolo da coragem, da força viril e primitiva; as asas, símbolo do espírito inteligente que compreende e une todas as coisas (cada uma destas três virtudes opondo-se imediatamente aos três vícios, atrás indicados, do homem só: a beleza opondo-se à cólera; a coragem ao medo; e a inteligência à insensatez).
Reconhecemos aqui, portanto, a estrutura, ou dinamismo, próprio do ser, tal como vinha expresso na Grécia já desde os poemas homéricos: Édipo é o símbolo do homem decaído, que, para expiar o seu crime, tem de, descobrindo e respeitando a estrutura virtuosa do real, reunir-se aos outros homens, com eles se transformando por relação ao que é sempre igual em todos e em cada um, para assim poderem regressar a casa.
A existência deste homem, no entanto, já não é mítica, antes se reconhece ordenada pelo lógos, que permite expressar universalmente essa experiência de um destino trágico a que nenhum homem pode escusar-se e que consiste ou em contrair «vergonhosas núpcias» – que são as do homem que, sozinho e, portanto, injusto, vive na indiferença –, ou em contrair «gloriosas núpcias» – que são as do homem que, em comunidade e, por isso, justo, acolhe em si mesmo o outro. Em ambos os casos, porém, o homem tem de escolher: é esse o seu destino.

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* SÓFOCLES, Rei Édipo, trad. Agostinho da Silva, Ed. Inquérito, Lisboa, 1939, págs. 34 e 69.

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