segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Newman: Somebody Up There Likes Him

Paul Newman morreu. Com ele, morreu a dignidade na derrota. Ninguém como Newman (nem Gary Cooper, nem John Garfield, nem Pacino, nem Montgomery Clift) mostrou o interior da dignidade no momento do ocaso, do falhanço, do fecho irremediável. Todo o cinema de Newman é construído nessa específica complexidade: e quando se perde tudo, como se mantém o mais importante?

Em "Nobody's Fool", o sexagenário Sully Sullivan (ninguém parecia menos sexagenário do que Newman apesar de o ser) sabe que perdeu as hipóteses de romance com Melanie Griffith, 25 anos mais nova, mas o seu discurso de derrota - no banco da frente de um carro nas traseiras de um bar de uma cidadezinha carregada de neve - sabe a vitória.
Em "The Color of Money", conseguimos sentir a dor física de "Fast" Eddie Felson depois de ser indecentemente aldrabado por Forest Whitaker, que se aproveita de um Felson imerso em auto-deslumbramento. Newman está de óculos escuros, mas sentimos os seus - terríveis, tremendos, doces - olhos azuis a ficarem castanhos com a vergonha e a melancolia.
Em "The Verdict", o "looser" Frank Galvin, advogado de meia-tigela, habituado a defender filhos miseráveis que ficam com a segurança social dos pais, tem uma última chance de recuperar a rectidão, e consegue agarrá-la, mas é preciso ver Newman a perceber que a cooperante - e amante - Charlotte Rampling o enganou em toda a linha para tocar na desilusão de um homem exausto .
Em "Butch Cassidy and the Sundance Kid", Butch, bandido simpático como poucos, mantém a cabeça próxima do céu segundos antes de entregar a vida às balas, roubando a cena (e o filme, e o cinema que ali estava a acabar) ao cintilante Robert Redford e ao realizador George Roy Hill.
Em "Cat on a Hot Tin Roof", a censura não permitiu a implosão da homossexualidade de Brick - o sólido, inquebrantável jogador de futebol americano que não correspondia aos sorrisos das "cheerleaders" na peça de Tennessee Williams - mas Newman deu-lhe a agonia de um animal ferido, a desaparecer devagarinho ao lado da pantera omnívora, Elizabeth Taylor.
Claro que há a célebre alma amaldiçoada de Eddie Felson enquanto jovem em "The Hustler", mas o retrato exacto da precária dignidade na derrota já estava no filme de estreia como protagonista, "Somebody Up There likes Me", com o seu Rocky (emulado do Marciano) a despedir-se de tudo no ringue, menos do sonho da honra.
Newman vai ficar bem. Por ser um dos mais firmes mensageiros da nossa extrema fragilidade, somebody up there likes him.



3 comentários:

joão maurício disse...

Gostei muito deste belo texto. É um "elogio da derrota", da grandeza na adversidade; coisa pouco em voga nos tempos que vão correndo, em que o obrigatório "sucesso" limita a ambição humana.
Peço licença para referir o texto de uma belíssima conferência proferida no Palácio Valenças , por ocasião da assinatura do protocolo de doação do arquivo de Luís de Almeida Braga à Câmara Municipal de Sintra (3.12.1997),por um amigo meu, Gonçalo Sampaio e Mello, publicado na revista "Vária Escrita" vol. 7, 2000 - com o título: "Luís de Almeida Braga ou o Elogio da Derrota".
Cumprimentos
João Wemans

joão maurício disse...

Gostei muito deste belo texto. É um "elogio da derrota", da grandeza na adversidade; coisa pouco em voga nos tempos que vão correndo, em que o obrigatório "sucesso" limita a ambição humana.
Peço licença para referir o texto de uma belíssima conferência proferida no Palácio Valenças , por ocasião da assinatura do protocolo de doação do arquivo de Luís de Almeida Braga à Câmara Municipal de Sintra (3.12.1997),por um amigo meu, Gonçalo Sampaio e Mello, publicado na revista "Vária Escrita" vol. 7, 2000 - com o título: "Luís de Almeida Braga ou o Elogio da Derrota".
Cumprimentos
João Wemans

Sofia Rocha disse...

Pedro,gosto muito do texto, mas não concordo com ele.
Everybody down here likes him.
Paul Newman era gosto de toda a gente. Meu incluído.
Acho que quando olhávamos para ele nunca acreditávamos verdadeiramente na derrota, o mesmo com Gary Cooper, são personificações do Bem, do sonho americano,os "Doe" da nossa vida e por isso gostamos tanto deles porque existem para nos assegurar que existe justiça e redenção. Aliás, parece-me que a "Cor do dinheiro" não é mais do que o passar de testemunho...
Quando olhamos para o rosto de um Montgomery Cliff, de um Brando, de um Burton, sabemos que que o diabo os habita e que está sentado a comer-lhes pacientemente as entranhas...