quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Da Visão: Moms for Sarah




Já aqui o defendi a propósito do mesmo Barack Obama: os fenómenos de massas sempre irritaram a «intelligentsia». Porque é suposto que a «intelligentsia» desmonte cinicamente a proverbial candura das massas. Porque à «intelligentsia» compete moderar o entusiasmo bruto e primevo dos povos com a fria racionalidade que, por definição, daqueles a distingue. Mas sobretudo, convenhamos, porque nenhuma «intelligentsia» pode parecer verdadeiramente inteligente se deixar o seu intelecto marchar, a seu bel-prazer, anónimo, indiferenciado, ao lado de mais uns quantos milhões de cidadãos desqualificados. «Não é natural nem fica bem», como rezava um anúncio velhinho do restaurador Olex.
Compreende-se portanto que o senador Barack Obama, um dos mais extraordinários casos de popularidade dos últimos anos e um homem que tem resgatado para a política activa gerações inteiras de eleitores que dela pareciam ter-se irremediavelmente afastado, nunca tenha caído no goto de uma certa elite bem pensante europeia (maioritariamente de direita, porque na rejeição do fenómeno há também uma boa dose de ortodoxia política). De resto é essa mesma elite intelectual de direita que, para que não subsistisse qualquer sombra de dúvida sobre a sua capacidade de resistência à imoderada vaga de entusiasmo, se rendeu, ela própria acrítica, aos encantos de um McCain que parecia prometer, se não propriamente densidade intelectual, pelo menos uma muito menos ameaçadora sobriedade de um ex-herói da guerra do Vietname.
Imagino que o «furacão Palin» não estivesse nos planos desta gente. Até porque, sejamos justos, a historiografia oficial garante que o próprio McCain, até ao dia em que acordou com a extraordinária ideia de projectar tão singular figura para o estrelato mundial, só se tinha avistado cinco (presumo que estimulantes) minutos com a antiga «quase-Miss-Alaska» (o que não deixa de ser um processo de «recrutamento» que dá, em si mesmo, para todo um tratado). Mas a verdade é que a vida dá muitas voltas e que a vingança se serve fria. Em vez da «retórica vazia» de Obama, a intelligentsia europeia de direita ganhou agora um estimulante discurso (esse sim, denso e verdadeiramente erudito) sobre o creacionismo, a diabolização do aborto e as virtudes das armas de fogo. Assustada com a «falta da preparação» do candidato democrata para governar o Mundo, pode agora dormir descansada com a tranquilizante ideia de poder contar na Casa Branca com a inestimável experiência da «ex-mayor» de Wasilla (sempre são 8.471 habitantes). Desconfiada da «volatilidade programática» de Obama, conta agora com a tenacidade da governadora que, a propósito da emblemática «bridge to nowhere», já defendeu, com a sua reconhecida inflexibilidade em questões de princípio, tudo … e o seu contrário. Finalmente, em vez de se confundir com as ignaras multidões electrizadas com o discurso de mudança de Barack Obama, pode agora exibir-se, muito mais orgulhosa e respeitosamente, ao lado das simpáticas «Moms for Sarah».

5 comentários:

Sofia Rocha disse...

Pedro, apesar de eu suspeitar que a Palin é mulher para preferir o calor, o calor de um secador que lhe arma o penteado e o quentinho de uma arma acabada de disparar, temo que vá ser ela a saborear esse prato servido frio que é a vingança.

Anónimo disse...

uma postada excelente.

ezequiel

Miguel Poiares Maduro disse...

Caro Pedro,

Concorda com o que dizes com um "senão". Acho errado utilizar como argumento (mais ou menos assumido) o facto de Palin ser uma ex-miss. Os democratas referem-se frequentemente a ela nesse tom depreciativo e, para além de entender que isso é também uma forma de demagogia (ter sido miss não deve desqualificar ninguem para a política) acho que é pouco inteligente (só vitimiza a Palin e a aproxima das outras mulheres, exactamente o contrário do pretendido). Quanto ao receio que ela te suscita partilho-o em boa medida. Sobretudo porque sempre me suscitam enormes reservas as pessoas que têm respostas simples para tudo. O fundamentalismo das suas ideias é frequentemente uma forma de ocultar a sua ignorância.
abraço
miguel

Pedro Norton disse...

Miguel,
A tua crítica é absolutamente pertinente. Acho que não resisti a um «piada» fácil...

Sonia Duarte disse...

Ainda que com algum atraso, devo dizer que é impressionante a "violência" que a sua posição gerou em parte da blogesfera (http://5dias.net/author/jgalamba/). Seria de esperar mais substância, com argumentação válida e menos histeria por parte de joão galamba...Parece-me que ainda iremos assistir nos dois lados da campanha a muita coisa e que eventualmente não gerará consensos entre os respectivos apoiantes, mas o discurso creacionista e a diabolização do aborto sempre pairou nas hostes republicanas...mas as incoerências da sociedade americana e as caracteristicas do sistema político americano fazem com que sejam tão interessante acompanhar umas presidenciais norte-americanas..