quinta-feira, 4 de outubro de 2007

TWO SHOTS FOR HAPPY

Confesso estar farto de desgraças e de brilhantes diagnósticos que todos os dias nos anunciam e prometem o inferno. Decidi criar aqui, na Geração de 60, uma rubrica obsessivamente optimista e encantada. O título, “Two Shots for Happy”, foi pedido de empréstimo a uma canção que Bono cantou a Sinatra quando ele fez 80 anos. Vai ser uma coisa ingénua, cândida, de um espírito simples para espíritos simples (é mentira, mas estou a gostar do embalo).
Começo por um livro. Chama-se “The Dictionay of Imaginary Places” e é um album de 21 por 30 cm, da autoria de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi.
Este Dicionário inventaria os lugares imaginários com que os escritores foram povoando a literatura mundial. Face à vastidão da escolha, os autores decidiram eliminar todos os lugares que a inspiração dos escritores situou em inefáveis espaços celestiais ou nos mais nefandos e enxofrados infernos.
O Dicionário faz apenas o elenco dos lugares imaginários que se situam algures no Planeta Terra,onde julgamos habitar. Mesmo assim, para si impenitente viajante, fica já o aviso de que não é com o primeiro low-cost que lá vai chegar.
Foram igualmente excluídos lugares como o Yoknapatawpha de Faulkner ou a Balbec de Proust por serem, segundo Manguel e Guadalupi, lugares reais camuflados.
O que é que podemos então encontrar neste guia? Castelos, campos e montanhas povoados pelos cavaleiros do Rei Artur, as terras e lugares onde Gulliver foi minúsculo ou gigante, Atlantis ou Shangri-la. Dois anos de trabalho, milhares de lugares visitados de que sobraram, na versão final expandida que eu guardo religiosamente, mil e duzentos lugares apresentados com rigor e graça, com austero enciclopedismo ou com apelo quase sensual. Basta lembrar a descrição de Frivola, a terra de ténues maravilhas onde me apetece ir já descansar a minha lamentável miopia, ou a Capillaria das gigantescas mulheres louras que devoram “bullops”, criaturinhas na forma de orgãos sexuais masculinos (temo ainda não ser para mim o bom momento para gozar as presumíveis, porventura irreversíveis, delícias de Capillaria).
Para que tenham uma ideia mais precisa do livro, deixem-me dizer onde começa e acaba a peregrinação dos autores que, espero, inspire agora a vossa. O “Dicionário dos Lugares Imaginários” começa em Abaton, uma cidade cuja localização é permanentemente móvel, o que a torna quase inacessível (informo-vos de que não há mesmo GPS que vos valha). Alguns viajantes, diga-se, já a viram surgir, delicada e efémera, na linha do horizonte. Os testemunhos dão conta de altíssimos muros e poderosas torres de luz azul ou branca, embora no único vislumbre que dela tive (é verdade) me tenha surgido intensa e deliciosamente vermelha.
Termina, o adorável dicionário, em Where-Nobody-Talks (Où-On-Ne-Parle-Pas) o país que Jean Marie Gustave Le Clézio localizou no interior da nossa própria voz, coberto por uma espessa e invisível neve que tudo abafa.
Com este silêncio propício e de bom augúrio vos deixo durante uma semana. Vou obviamente de viagem.

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quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A cultura "de" café

EUA, New Haven, Starbucks… recordo Georg Steiner e o seu ensaio The Idea of Europe. Nele, a cultura de café (o estudo, a escrita, as tertúlias e as conversas no e à volta de um café) era apresentada por Steiner como um elemento da identidade comum europeia, lembrando os cafés de Lisboa a Viena, de Paris a Praga e a sua relação com as elites intelectuais da Europa e o nascimento da ideia de Europa. Parece-me que os americanos "roubaram" essa cultura à Europa. Lê-se, estuda-se, conversa-se, discute-se (frequentemente, no entanto, em "tertúlias" online). Curiosamente, nos nossos cafés é agora frequente ver-se o aviso "proibido estudar"… Os cafés da Europa deixaram de ser um espaço público para ser apenas um "local de comes e bebes". Na verdade, cafés cafés são poucos, o que há mesmo são Snack Bars. Há esperança no entanto: pode ser que as multi-nacionais americanas como a Starbucks tragam com elas a cultura europeia….

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III. Pierre Duhem, Sauver les apparences. Sur la notion de théorie physique. Vrin, 2003

O outro lugar comum é da oposição específica do catolicismo à ciência. Ora dá-se o caso de os primeiros opositores significativos às teorias de Copérnico serem protestantes. Nada mais nada menos que o próprio Lutero e Melanchton, para dar só alguns exemplos. E, facto curioso, e não casual, a reforma do calendário gregoriano é feita com base... nas tabelas de Copérnico. Onde está aqui esta dita oposição católica à ciência?

E como se não bastara eis que vem o grande Averroïs que teria sido marca de modernidade na cultura europeia, tão propalado pelos relativistas das civilizações. O problema é que Averroïs é duplamente derrotado. Quando a ciência se mantém como convencionalista, como o foi durante quase toda a Idade Média ou no século XX, é Averroïs derrotado porque defende, mais que Aristóteles, uma visão substancialista da ciência. Quando a ciência europeia se faz “moderna”, substancialista, é derrotado igualmente, porque não é a física (aristotélica-averroista) o padrão que tem de seguir a ciência, mas são os dados da astronomia que deixam de ser levados como meras convenções, e que têm de ser levados a sério. São eles que determinam a física e não o contrário. Copérnico já acredita nisto, embora o afirmasse entre linhas. Galileu afirma-o sonoramente e daí ter sido condenado. Em boa verdade, Averroïs é ainda mais vezes derrotado, quando a ciência unifica a física sublunar e a celeste, mas sobretudo, e no seu próprio campo, quando a partir do séc. XV começa uma análise mais critica do que é o profundo pensamento de Aristóteles.

A ironia é que todos têm razão à sua maneira nesta História. Kepler, Copérnico e Galileu, quando pretendem unificar a física sublunar à celeste e (agora pelos resultados e não tanto pelos fundamentos) quando insistem no mito do experimentum crucis (expressão a vários títulos curiosa). Osiander, o cardeal Belarmino e o papa Bonifácio VIII quando lembram que uma hipótese só tem a sua verdade estabelecida, não apenas quando salva as aparências, mas quando igualmente se demonstra que todas as restantes hipóteses geram contradições com a experiência. Neste sentido são metodologicamente mais “avançados”.

Que a História oficial tenha feito de uns heróis e de outros os vilões ou pior ainda esquecidos é significativo da vontade de uniformização da nossa época louca por “podia”, concursos e campeonatos. Tanto espírito democrático faz sair por outro lado um desejo insatisfeito de hierarquias. Mas destas que se gostam são umas que esmagam e esquecem que uma História se conta sempre em diálogo, e que sem um lado o outro dificilmente se percebe.

Moral da história: mais um tema em que o homem público deveria ser proibido de falar, sob pena de pelourinho. Devia reduzir-se a falar de distritais de partidos ou outros assuntos menores. Mais à sua dimensão.



http://bkmarcus.com/blog/2007/09/penetrating-popular-consciousness
http://branemrys.blogspot.com/2007/07/duhem-on-mathematical-generalization.html
http://toegodspot.blogspot.com/2007/08/history-of-science-and-christianity.html
http://whatsleftinthechurch.blogspot.com/2007/07/history-as-chastening-rod-for-both.html
http://www.laprocure.com/livres/pierre-duhem/sauver-les-apparences-essai-sur-notion-theorie-physique-platon-galilee_9782711616084.aspx


Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 2 de outubro de 2007

II. Pierre Duhem, Sauver les apparences. Sur la notion de théorie physique. Vrin, 2003

Vejamos então o que resulta do estudo sintético, mas cuidado, de Duhem e como cai como um castelo de cartas o dislate do homem público.

Galileu foi perseguido pela Igreja católica. Vejamos; só a partir de certo momento. Antes era protegido do papa. Razões pessoais e políticas levaram a esse desfecho, em que o contexto da Reforma Católica e das birras recíprocas entre Galileu e o papa se misturam. Mas a questão acabaria por ser anedótica, não fora isso mostrar a estratégia de propagandistas: contar metade da história, retirar do contexto. Imagine-se que o criminoso do Churchill bombardeou a Alemanha nazi. História que seria justa, se nos esquecêssemos de que a Inglaterra tinha sido antes fortemente bombardeada.

A escolástica de que falamos no século XVII é uma escolástica tardia, de tal forma que se torna quase injusto ligá-la à do século XIII. Quatro séculos se tinham passado entre o Aquinate e a Inquisição que acusa Galileu. Seria a mesma coisa que caracterizar a cultura do tempo de D. João II recorrendo a Eça de Queiroz.

A ligação entre a escolástica, o aristotelismo e o sistema ptolemaico é no mínimo caricata. A separação entre os cientistas e os filósofos, embora em termos muito próprios, existe muito antes da Idade Moderna. Os cultores da astronomia (porque é desta ciência que se trata, como antecessora da nossa actual física) nem sempre o eram da filosofia e vice-versa. Bem pelo contrário, a tendência geral foi sempre a de permanentes encontros, é certo, mas num contexto de evoluções paralelas. Os que cultivam a astronomia vêem a física (filosófica, digamos assim para simplificar) quando muito como um problema, mas não como o seu solo. Inversamente o mesmo se passa com os cultores da física.

A prática científica (astronómica) desde a Antiguidade, sobretudo a tardia, e ao longo de toda a Idade Média era sobretudo convencionalista. O que se compreende tendo em conta o pano de fundo religioso. Ou porque a ciência humana das coisas físicas era menor, ou porque a ciência humana é por definição falível, nunca podendo abranger todo o universo. Os convencionalismos do século XX sobretudo são reacções ao positivismo e em certa medida ao iluminismo. É um problema edipiano. Não uma luta de modernos ateus contra religiosos, mas luta de modernos (crentes, ou não) contra o laicismo determinista na ciência. É contra o pai que se revoltam e o pai não era religioso.

A visão medieval da ciência é assim em grande parte convencionalista. E compreende-se bem. A incerteza já foi descoberta há muito tempo. A nossa época não a inventou. A única novidade é a de ter passado a ser decisiva. Mas não por algo de novo que se adquiriu, mas por algo de antigo que se tirou. Quando o homem se instala em solo religioso não se assusta com a imperfeição da ciência humana. Só merece gritaria o que é desesperante. E só há desespero quando o solo é de construção meramente humana.

Foi a Renascença que começou a trazer à baila a natureza substantiva da ciência como algo de vital. A ciência torna-se autónoma porque se leva a sério, por vezes demasiado a sério, como verdade absoluta. O cardeal Belarmino chama a atenção para este facto. A Renascença reinventou as ciências mas igualmente envenenou-as de equívocos, a que ainda hoje em dia estamos a tentar dar respostas. É já durante a segunda metade do século XVI que se começa a colocar verdadeiramente o problema da oposição às Santas Escrituras como questão fundamental da relação com a ciência astronómica.

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segunda-feira, 1 de outubro de 2007

I. Pierre Duhem, Sauver les apparences. Sur la notion de théorie physique. Vrin, 2003




Vejamos qual é o pano de fundo do homem público a propósito do caso Galileu, quando este é visto como fundador da ciência moderna.

“Galileu foi perseguido pela Igreja Católica que pretendia defender a escolástica e o sistema ptolemaico e aristotélico a ele ligado, uma visão medieval, substancialista da ciência que não dava lugar à convenção, apoiada nas Santas Escrituras.”

Primeira prevenção: o homem público em geral é incapaz de ter tal vocabulário e ainda menos formular juízo tão complexo (mesmo que eu o tenha simplificado em excesso). No entanto, e embora não seja capaz de descrever a árvore inteira, é lá que vai buscar os frutos. Sempre que vejo um ignaro falar do papel da malfadada igreja católica como obstáculo ao desenvolvimento das ciências pergunto o que sabe ele para afirmar com tantas certezas absolutas tantas inépcias.

Segunda prevenção. Pierre Duhem é um caso à parte. Poucos historiadores da ciência puderam atingir a sua competência. É natural. Em primeiro lugar é um grande físico . Se não pertence aos maiores, a sua competência e erudição não podem ser postas em causa. O seu pensamento influenciou cientistas durante o século XX, e não menores, como Prigogine. Tem a vantagem igualmente de ser grande conhecedor da filosofia e da teologia. Em acréscimo estava longe de ser analfabeto em latim e grego, o que apesar de tudo não é irrelevante para quem queira fazer História da ciência. Ao menos sem ser como amador. A imensa maioria dos documentos está nessas duas línguas pelo menos até há três séculos. Sem o conhecimento destas línguas a História da ciência é exercício de ilustração, mas não de ciência histórica.

Terceira prevenção: tudo o que Duhem diz vai contra a tradição iluminista no que respeita à história da ciência. Toda a gente “sabe” que a Idade Média foi uma época obscura sob o ponto de vista intelectual, e consequentemente sob o ponto de vista científico. E está arrumada a questão. Mas esta tradição que tem o seu epítome em Voltaire - e vai até Brecht, nomeadamente - deve suscitar-nos alguma desconfiança. Destes autores nenhum pode ser elogiado pela sua probidade. E apesar de reconhecer a qualidade dramática de Brecht, não o usaria como modelo de sentido de justiça (os seus ódios a Thomas Mann são disso bem sinal) e muito menos como grande conhecedor de ciência ou História. Não esteve preocupado em conhecer a História, mas mais que a História o conhecesse a ele.

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quinta-feira, 27 de setembro de 2007

II. Serge Berstein, Léon Blum, Paris, Fayard, 2006

No entanto, visto à distância, vemos que é mais um produto que um produtor, mais um efeito que uma causa, mais um exemplar que um paradigma.

Pertence ao grupo muito vasto de pessoas que em ingenuidade e ignorância histórica acreditaram que vivemos num mundo moderno em que o fascismo não seria perigoso (!), que a religião era uma inexistência política (!), que era racional e científico (!). Rodeado por uma cultura literária que se degradou cada vez mais ao nível da cultura jornalística.

Na perspectiva da História longa, o pico que representou no anos 30 fica esbatido quando visto na perspectiva do século, a relevância para a França fica esmorecida quando vista pelos olhos do mundo, e numa perspectiva da realmente longa duração é apenas mais um ponto entre centenas e milhares de primeiros-ministros que o mundo já viu.

A explicação é simples. A razão do seu sucesso é a mesma da sua irrelevância. Homem integrado no século, produto dele mais que seu produtor, fica como mais uma ilustração de vida típica dos anos de entre guerras.

Crente da República laica, e ao mesmo tempo adorador formal de um marxismo que nunca estudou teoricamente e em que nunca acreditou realmente, mas cujo apelo doutrinal achava essencial para a sua liturgia, vivia na ilusão de que existia uma modernidade que aclimataria os seres humanos de uma forma rompida com o passado, como se houvesse mais um nascimento virginal, mais um Hapax, mais uma Incarnação. Não almejava pelos amanhãs que cantam, pelo novo homem do futuro, porque no fundo já acreditava que ele tinha vindo, sobre a forma do progresso, da laicização, da “racionalidade” política, económica, pessoal.

Tornou-se por isso em mais um dos crentes desta religião postiça, sucedânea, invertebrada e sem carne nem linfa que é a da modernidade. Crente na História, mas curta, foi aplaudido por uma História com a mesma duração. A pessoa merece respeito. A grandeza não merece menção.





http://www.alapage.com/-/Fiche/Livres/2213630429/?donnee_appel=GOOGL
http://www.palgrave-journals.com/fp/journal/v4/n1/pdf/8200090a.pdf


Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 26 de setembro de 2007

I. Serge Berstein, Léon Blum, Paris, Fayard, 2006



Nem todas as personagens históricas nos têm de agradar ou desagradar, elas não existiram para suscitar os nossos sentimentos. Não são seres funcionais só porque morreram. No entanto, não me posso escusar de ver umas com mais, outras com menos simpatia.

Blum tem alguns aspectos que me são profundamente simpáticos. Um apurado sentido de justiça e de moderação, uma preocupação efectiva com o sofrimento alheio e uma real postura de honestidade política. E estava longe de ser estúpido ou inculto. Nada mau tendo em conta muita da classe política actual.

Do lado positivo na minha perspectiva o facto de ter impulsionado a participação de mulheres na política, colocando três sub-secretárias de Estado numa altura em que as mulheres nem podiam votar nem ser eleitas, de ter respeitado a legalidade e o seu compromisso de respeitar a república, de ter uma efectiva preocupação com o ser humano, sobretudo o desprotegido pela economia capitalista.

Do lado negativo, o facto de afirmar a irrelevância da origem étnica em França quando se lembra de se afirmar judeu quando fala com judeus americanos (o que mostra que o sonho da integração plena permite manipulações e oportunismos), de se deixar dominar por um quadro teórico mais afectivo que ponderado e o querer impor à realidade e de no fim de contas ter cedido à pressão dos funcionários públicos, esquecendo-se dos velhos e dos reais desprotegidos da sociedade. Blum inaugura uma tradição que se tornará secular que leva os partidos socialistas a serem reféns do funcionalismo público.

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terça-feira, 25 de setembro de 2007

O cinema cura


Há um novo e miraculoso livro no mercado. O título, “Guia Terapêutico de Cinema” é atraente e directo quanto basta. Aparentemente pouco dado a elipses, o autor, Pedro Marta Santos, não resistiu e acrescentou-lhe um subtítulo que retira dúvidas e esclarece angústias: “Como curar insónias, fobias, depressões e desastres amorosos”. O resultado é uma lição de que o Serviço Nacional de Saúde sai corrido, como popularmente se diz, aos gritos de “toma e vai-te tratar”. O Pedro receita filmes e basta ler o que ele diz para perceber que, se os virmos, recuperaremos o bem-estar, a sanidade mental, ou mesmo um vigor igual ao de qualquer um daqueles armários da selecção nacional de rugby. Cada capítulo tem o seu folheto médico que inclui contra-indicações, efeitos secundários e interacções medicamentosas, sem esquecer os terríveis efeitos da interrupção dos tratamentos. Também há, para os mais sovinas, dispensários e os genéricos de lei.
É verdade, os filmes ganham aqui uma força salvífica e regeneradora única. Cortem nos ansiolíticos, reduzam as consultas e evitem as TAC: decididamente os portugueses têm agora uma alternativa científica à toda poderosa classe médica. Não é, de resto, a única classe profissional a ver diminuído o seu monopólio: o livro exercita algumas técnicas de relaxamento que vão diminuir, quer as viagens dos portugueses à Tailândia, quer a nossa escravização ao jugo dos monitores dos health clubs.
Admito que as minhas qualificações denunciem a presença parcial de fármacos pouco aconselháveis para avaliar este livro que Pedro Marta Santos acaba de publicar (e escusam de me pedir para dizer o nome da editora). Confesso alguma duvidosa cumplicidade com o autor, forjada nos subterrâneos laboratórios da SIC Filmes e, agora, da VC Filmes. Antecipo-me e confesso já um incurável conflito de interesses: estou à espera de que as “farmácias” que o têm à venda, por esta e futuras recomendações, mandem de volta o amável cheque para a viagem a um congresso no Hawaii. Mas só vou se me deixarem levar o “Guia Terapêutico de Cinema” na bagagem.

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Small is not beautiful

Um zapping a meio a tarde, num intervalo de escrita, dá-me o contraste entre as agendas mediáticas portuguesa e francesa. No canal nacional, a crise do PSD. No France 24 os discursos dos líderes mundiais reunidos nas Nações Unidas, a conferência de imprensa de Nicolas Sarkosy e o subsequente debate com especialistas em geopolítica.
De um lado, a antena aberta para o público sobre as minudências intestinas da fórmula de pagamento das quotas do PSD. O cartão multibanco, o papel da secção, o estatuto dos não pagadores, o significado do voto da Dra Manuela Ferreira Leite sobre esta matéria, os desabafos vespertinos do dr Gomes da Silva e a promessa de revolta do dr Menezes Lopes, logo mais, às 20h, a postos para a principal notícia dos jornais televisivos.
Do outro, a premência de uma nova ordem internacional que inclua a Índia, o Brasil e África na reforma representativa da ONU; a última chamada para respostas que atendam às alterações climáticas; a atenção ao perigo nuclear iraniano; a hora das soluções no Médio Oriente; a recusa da especulação sobre os preços do petróleo. Numa palavra: a falência das palavras e dos diagnósticos perante o anúncio de medidas concretas, imediatas.
É fácil - e quase demagógico - comparar estes dois temas, a escalas tão diferentes, e daí extrair a conclusão sobre o nosso mundo infinitamente pequeno. Não é disso que aqui trato até porque é sempre mais difícil lidar com os problemas próximos do que perorar sobre as grandes questões do Planeta.
Mas como é possível ignorar o que os líderes mundiais têm a dizer sobre o nosso tempo? Como não ver em directo a reacção do Presidente Iraniano às palavras de Sarkosy sobre a intolerância à escalada do armamento nuclear? Como não observar, nos discursos, a troca de um capitalismo financeiro para um capitalismo de investimento? Como passar ao lado do encontro de líderes mundiais do Conselho de Segurança da ONU (o que acontece pela terceira vez na história das Nações Unidas) sobre a África, para onde deverão partir forças da ONU e da UE? Como não compreender as alterações do discurso Bush? Como ignorar o debate sobre futuro do Kosovo, dentro da nossa casa europeia (salvando a face da Rússia e da Sérvia)? Como deter a Presidência da União Europeia, por escassos seis meses, sem nela prestar a maior atenção?
A democracia das nossas células políticas domésticas será importante, tal como o método que se usa para as manter vivas. Mas no mesmo dia, à distância de um toque no comando da televisão, Sarkosy recupera o protagonismo da França na cena internacional e dele faz eco. Enquanto Portugal não sabe, nem faz saber, quais as propostas ou as respostas que a Presidência da UE leva às Nações Unidas pela mão do seu Primeiro-Ministro.

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sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Outras diplomacias em Timor

Sigo o post do Pedro Norton, em sintonia.
Quanto à justiça das causas na questão de Timor-Leste, aquela que não se rege apenas pela vantagem material, lembro que ela passou em plena Guerra Fria pela solidão, firme e solidária, do Duque de Brangança. E, na transição política da Indonésia, pela coragem e diplomacia de António Guterres ao insistir, implacavelmente, no apoio internacional ao Referendo. Xanana repetiu a ascese de Mandela no Oriente sendo peça fundamental para a atenção mundial e para a liderança interna. E lembro ainda, antes e depois do Referendo, o papel da Igreja que, internamente, levou esperança às resistências domésticas e cá fora atingiu o Nobel e a persistência da diplomacia pontifícia, que muito pode. Também no terreno, no «day after», foi a Igreja quem cerziu interesses e ódios, como pôde. E houve o empurrão de obras concretas como a de João Soares que recuperou o edifício de traça colonial do antigo Liceu de Dili para ali instalar a Universidade, semente do futuro independente e esclarecido. O seu sucessor faria a reconstrução integral do antigo Palácio do Governador (também de traça portuguesa), hoje Residência do Presidente.
21 de Setembro de 2007 11:40
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Da Visão: Ana Gomes vs. Metternich

Se há coisa de que Portugal se pode orgulhar na sua história diplomática recente é a de não ter embarcado numa estratégia de pragmatismo cínico na questão da autodeterminação do povo timorense. E é bom lembrar que, à época, eram muitas as cabeças pensantes que davam o diferendo por perdido e que, a bem dos superiores interesses do país, defendiam que a diplomacia portuguesa devia deixar cair uma causa que era manifestamente incómoda para uma grande potência regional e para muitos dos nossos (e seus) aliados tradicionais. Era a isso que aconselhavam todos os manuais da «realpolitik» e era esse o único curso de acção considerado minimamente «realista». Do outro lado da barreira, convém não esquecer, resistiram como puderam meia dúzia de então apelidados «idealistas ingénuos». Entre estes sempre esteve a diplomata Ana Gomes. Que está agora na linha da frente da contestação às opções que tomaram Presidente e Governo portugueses no quadro da visita do Dalai Lama. No seu estilo muito pouco diplomático acusa-os de se vergarem aos «interesses chineses» e relembra que «um Estado que não se dá ao respeito não pode ser respeitado».
Como se provou na questão timorense, e como se provará no episódio do Dalai Lama, é Ana Gomes quem vê mais longe. E não se trata aqui de saber quem é mais nobre de sentimentos. Mas tão só de perceber quem entende melhor o Mundo em que vive. Senão vejamos: de um lado desta contenda está uma visão cínica e «realista» da diplomacia, forjada no século XIX, que sobrevaloriza o papel das chancelarias e ignora por completo o papel da opinião pública global. Do outro está uma visão de um mundo globalizado e mediatizado em que não é possível ignorar o poder muito real de uma opinião pública planetária cada vez mais actuante e interventiva. Repare-se portanto que estamos aqui longe da dicotomia clássica idealistas/realistas. Ao invés, estamos sempre a falar de «power politics». Mas enquanto os burocratas do MNE continuam a imaginar o Mundo à imagem do que conheceu Metternich, Ana Gomes é capaz de entender o século XXI em toda a sua complexidade e com toda a sua multiplicidade de actores.
Na questão Timorense Portugal teve a clarividência de perceber que um pequeno país armado de grandes princípios pode, num mundo mediatizado e globalizado, mobilizar a opinião pública internacional e, por essa via, ganhar um estatuto moral capaz de rivalizar com o poder de grandes potências militares e económicas como era a Indonésia. E o que é um facto é que o país saiu do conflito com um prestígio (e portanto um poder) até então desconhecido.
Na questão da visita do Dalai Lama, Portugal portou-se como um vulgar protectorado chinês. Deixou-se pressionar ou, mais ridículo, imaginou pressões que ninguém se deu ao trabalho de fazer e sai da história desprestigiado e enfraquecido aos olhos do Mundo, sem que ninguém lhe agradeça o sermão.
Mas isto, já se vê, é algo que os nossos diplomatas novecentistas jamais conseguirão perceber.

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quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Disposição testamentária



Se não estou equivocado, no Panteão Nacional estão sepultados os ex-Presidentes Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Oscar Carmona e Sidónio Pais, os escritores Almeida Garrett, João de Deus, Guerra Junqueiro e (desde ontem) Aquilino Ribeiro, para além de Humberto Delgado e Amália Rodrigues. No Panteão encontram-se ainda os cenotáfios de Nuno Álvares Cabral, Vasco da Gama, D. Henrique, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque e Luís de Camões.

Não é portanto preciso dizer mais para que se conclua que chamar Panteão Nacional a esta colecção disparatada e sem qualquer critério de ossos avulsos da História de Portugal é uma força de Expressão. Pelo que a polémica em torno da trasladação de Aquilino é pouco mais do que estéril.
Pelo meu lado deixo já esclarecido que escusam de me guardar um talhão. Balda por balda prefiro repousar ao lado da família.

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Interesse Público e interesse do público: rugby e Aquilino II

É evidente que não comparo Aquilino com a selecção de Rugby. Refiro-me aos desencontros do nosso tempo mediático e político.
1) Aquilino escritor devia estar nos programas escolares;
2) Aquilino atentador contra a vida de um Chefe de Estado português não deveria estar no Panteão Nacional;
3) O Governo que o promove nestas cerimónias não o acha recomendável na exacta condição da honra concedida.
4)Quanto ao Rugby, estamos perante uma proeza nunca dantes conseguida do ponto de vista da internacionalização do nosso desporto. Se as audiências são argumento - único - para não a transmitir questiono porque razão esse argumento não presidiu, dias depois, à transmissão da cerimónia de Aquilino. A resposta, sabêmo-la: a televisão é mais pública para o Governo do para o País.
Finalmente, não compreendo o primeiro comentário que me atribui uma leitura histórica fora do contexto. Aquilino conspirou na violência terrorista da Carbonária que levaria ao assassinato do Rei e do Príncipe Real. São factos assumidos pelo próprio. Dir-me-á que a luta dos republicanos por um novo Regime era legítima e que, nessa época, houve uma dúzia de assassinatos, a este nível, na Europa, provocados pela onda revolucionária. Todos sabemos isso. Também defendemos valores da Revolução Francesa sem promover o Terror. Muitos portugueses se indignaram com a entrada de Aquilino no Panteão. Nem por isso são delirantes.

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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Interesse Público e interesse do público: rugby e Aquilino

Acatei com dificuldade a explicação de Luís Marinho (RTP) justificando a não transmissão dos jogos de Rugby no canal estatal. O Director de informação e programação disse na passada semana que não havia audiência suficiente para tal opção. Ficámos assim com as imagens impressionantes do hino cantado pela equipe de amadores que ali se batia contra os melhores do mundo, durante alguns segundos do telejornal. Pouco mais.
Esta manhã dou de caras com a transmissão em directo do Panteão Nacional da tranladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro.
- Qual terá sido o nível das audiências?
- Será o exemplo de um bombista incompetente, íntimo de quem matou o Chefe de Estado no Terreiro do Paço, mais importante para a transmissão televisiva do que o dos rapazes que se batem contra os «All Blacks» da Nova Zelândia?
- Ou será maneira de honrar um escritor de excepção transladá-lo para o Panteão Nacional enquanto se mantém o seu nome na lista dos autores de «livros não lidos» dos programas escolares?
- O que terá pesado hoje na decisão de Marinho? E do Governo?
Parece estar tudo ao contrário: A RTP cega perante o apoio que o País deve aos aventureiros do Rugby que representam com valentia, boa cara e ossos partidos a bandeira de Portugal; e o Governo bipolar que dá honras de Panteão ao activista da Carbonária esquecendo o escritor do lugar de onde nunca devia ter saído: o ensino literário das novas gerações.
Como disse António Valdemar durante a cerimónia: «todo o escritor morre quando deixa de ser lido e todo o que é lido é descoberto». Só por esta frase valeu a transmissão, Marinho.

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terça-feira, 18 de setembro de 2007

Um ser capriano

Marques Mendes e Luis Filipe Menezes estavam agora na SIC Notícias a dirimir argumentos. Pelo que ouço (e estou cada vez mais surdo) estão também a dar corda às angústias que a Sofia Galvão exprimia aqui, na Geração de 60, dois posts atrás, a saber, a falta de um líder para o PSD. Meto-me na conversa? Arrisco? Não arrisco? Eu não, mas o cinema tem solução e happy-end.

Presumível solução cinéfila para o dilema de liderança da Sofia: um ser capriano, entre o Jimmy Stewart do “It’s a Wonderful Life” e o Gary Cooper de “Meet John Doe”.

Jesus Cristo também é uma boa sugestão. Não estou a ser original ou a fazer-me interessante, limito-me a tirar da boca de Barbara Stanwick as palavras que Frank Capra lhe pediu que dissesse, num momento quase tão dramático como o que o PSD vive burocraticamente agora:
“ Oh, darling!... We can start clean now. Just you and I. It'll grow John, and it'll grow big because it'll be honest this time. Oh, John, if it's worth dying for, it's worth living for. Oh please, John... You wanna be honest, don't ya? Well, you don't have to die to keep the John Doe ideal alive. Someone already died for that once. The first John Doe. And he's kept that ideal alive for nearly 2,000 years.”

Ou, como noutro momento e no mesmo filme, diz o Gary Cooper, “Why can't that spirit, that warm Christmas spirit, last all year long?”


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A propósito da decisão do Conselho Superior da Magistratura


O que acontece neste país quando um jovem juiz de instrução revela lucidez e visão? O Conselho Superior da Magistratura assegura o seu silêncio.
Perante o ruído imenso que envolve este ‘caso Maddie’, Paulo Frias percebeu que seria importante esclarecer o sentido do actual momento processual e serenar o registo em que tudo se discute. Percebeu bem. Pena foi que tenha ficado sozinho.
Com a sua decisão, o CSM evidenciou um autismo formalista que só pode chocar. Está em causa a imagem da justiça, a percepção do que a justiça é e deve ser.
Para muitos, em Portugal e no estrangeiro, passa a ideia de que o casal McCann já foi acusado. E, não o tendo sido, importava que alguém esclarecesse o estatuto de arguido, lembrasse o teor garantístico do nosso processo penal, explicasse a lógica própria das diferentes etapas processuais e desdramatizasse a investigação. Afinal, quando tudo é ainda incerto, também para defender a actuação da nossa Polícia Judiciária e do Ministério Público… Paulo Frias quis fazê-lo. Mas o CSM não deixou.
A imagem da nossa justiça está sob fogo cerrado. Internamente, sendo a cultura tão resistente àquela consciência jurídica arreigada que marca as velhas democracias, tal é sempre um risco. Mas verdadeiramente perigosa é a ameaça que paira sobre a imagem internacional de Portugal. Aqui, tudo se joga. Muito mais decisivamente do que em qualquer campanha promocional ou de que em qualquer presidência europeia.
A vida é o que é. E a comunicação, os tablóides, os advogados famosos ou os porta-vozes de luxo estão no terreno. A criança desaparecida, essa, aliás, está cada vez mais distante das preocupações essenciais.
O CSM não percebeu nada disto. Como não percebeu que, quando assim é, as torres de marfim são redutos intoleráveis.
Infelizmente, e em paralelo, o Governo também nada percebeu. Ao reduzir o caso à sua dimensão de investigação penal, faz um erro fatal e denuncia uma trágica miopia política. Com uma enorme falta de coragem e de sentido das circunstâncias, o Governo deixa assim completamente abandonada a dimensão – crítica – da gestão da imagem externa do País…

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VII. Hodiernos cristãos: conclusões

O pano de fundo destas consequências é o que igualmente antes indicámos. O cristão aceita como natural não confrontar a vida com o absoluto, o eterno e o infinito. O cristianismo para ele torna-se idiossincrasia, quase folclore. Interiorizou que a vida é amputação e que apenas no seu caso concreto existe uma necessidade quase afectiva de Cristo. Esquece a dimensão objectiva do Cristo.

Bento XVI, mais que qualquer outro papa é o papa do ecumenismo, mais ainda que do diálogo das religiões (tema vasto e bem mal tratado que mereceria muito a dizer). Por isso é um papa do dogma, da teologia, do recentramento. Por isso é um papa europeu por excelência; embora a sua mensagem seja universal percebe que ainda hoje em dia o coração da intelectualidade cristã está na Europa e só por via do ecumenismo pode ser íntima (e não apenas funcionalmente) sarado[1].

Com cristãos que se julgam modernos, mas vivendo uma espiritualidade dos anos sessenta, precisamente por não viverem no seu século, não conseguem com ele comunicar. Com cristãos que acham que o cristianismo é derrota e estreitamento sob a capa da doçura e do cordeiro que é levado ao abate temos criaturas simpáticas, mas não expansivas. Esquecem-se que o cristianismo é expansão e não retraimento, e que se não se fez o cristianismo pela espada é igualmente religião de guerreiros.



Alexandre Brandão da Veiga


[1] Os apressados dizem que o papa se tornou favorável à adesão da Turquia, mas o leitor mais atento perceberá que foi Erdogan, o primeiro-ministro turco quem disse isso e não o papa nem nenhum seu porta-voz. A pobreza e a desonestidade intelectuais são tão grandes hoje em dia que até um Recepp qualquer se torna porta-voz oficial do papa para os olhares menos ilustres.

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segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Desabafos de Verão (III)



Não consigo olhar para o actual PSD sem uma profunda tristeza. Onde está a chama? O rasgo? A capacidade de prometer e de exaltar? Onde está o projecto? Onde estão os valores, os princípios, as causas? Onde estão as pessoas?!
Ao abrir o jornal, ao ligar a televisão ou a rádio, não gosto do que vejo e oiço. É muito pouco e muito pequeno. Carne assada e questiúnculas de paróquia. Tudo me deprime…
Falta alma! Falta nível. Falta substância. Falta estatuto. Falta liderança…
Como eu queria acreditar na possibilidade de um líder afirmativo e forte. Alguém capaz de fazer a diferença.
Uma pessoa normal, que encarnasse plenamente esse sentido de normalidade. Alguém com vida e com história. Com qualidades e talentos. Mas também com defeitos e limites. Alguém com gostos assumidos, escolhas feitas, caminhos seguidos. Alguém com família, amigos, colegas, conhecidos. Alguém querido e, naturalmente, alguém criticado. Alguém capaz de amar e de repudiar. Alguém com sonhos e medos, ora firme, ora frágil, mas sempre gente. Afinal, alguém consistentemente humano.
Alguém cuja atitude pessoal fosse marcada por um profundo respeito pela ideia de liberdade. Alguém que sentisse nas entranhas a menor afronta ao exercício dessa liberdade. E alguém profundamente comprometido com o respeito pela liberdade de cada um.
Alguém que sentisse a política como imperativo. Alguém para quem a intervenção na vida pública se assumisse como dever indeclinável em nome de um projecto concreto de transformação da sociedade. Alguém em quem a estafada proclamação do sentido de serviço soasse a verdade original. Alguém que não precisasse de palco ou de emprego.
Alguém capaz de um discurso assertivo, directo, corajoso, sem papas na língua. Alguém com a garra dos que acreditam. Alguém com o efeito dos que são genuínos.
Alguém que integrasse, mobilizasse e irmanasse, convocando esse imenso, latente e esquecido universo de gente de recta intenção. Gente bem mais atenta e disponível do que os poderes instalados sempre gostam de fazer crer.
Mas, sobretudo, alguém capaz de criar esperança. Uma esperança credível. Alguém que, ao propor caminhos, tocasse os Portugueses. Alguém que revelasse conhecer o País e fosse capaz de pensar um projecto político a partir da emulação dos casos virtuosos. Gostava de sentir esse entusiasmo criador que tudo desafia e supera. Gostava de ver coesão à volta dessa esperança. Sem discursos fátuos, sem exortações ocas, mas como manifestação de verdade e de aposta partilhadas. Por detrás da pobreza e do desencanto de muitos, há gente que triunfa e há histórias de trabalho que premeiam. Temos empresários, marcas e sectores capazes de liderança e neles bem poderíamos, com visão política, assentar um desígnio ganhador.
Eu queria alguém que assumisse muito claramente a prioridade do crescimento do País – alguém que não surgisse com ideias avulsas e desgarradas, disparando em todas as direcções, incapaz de ligar temas e de sustentar neles um discurso de fundo com coerência e sentido. Eu queria um líder capaz de densificar um objectivo de crescimento e de lhe dar lastro político. Gostava de ver alguém explicar aos Portugueses, de modo simples e directo, o que mudaria na sua vida e na vida do País se conseguissem crescer, por exemplo, a 4%, a 5% ou a 6% ao ano. Como gostava de ver explicados os custos reais da divergência face à Europa. Gostava de ver uma proposta concreta de calendário para a convergência e gostava de acreditar na possibilidade de lá chegar.
Gostava de um líder capaz de ganhar o PSD, de fora para dentro, a olhar para o País, a ouvir o País, a falar para o País. Longíssimo das lógicas aparelhísticas e das suas aritméticas feitas à medida de pertenças, influências, obediências e favores – passados, presentes ou futuros.
Alguém que fizesse a diferença – no PSD e, decisivamente, no confronto com o estilo e a substância do actual Primeiro-Ministro. Alguém que começasse por mudar o PSD e depois mudasse o País.
Mas o futuro próximo não me permite ilusões... E o menos próximo, a ver vamos. Quando todos se engalfinharem, achando que chegou a hora, talvez o espectáculo seja, no essencial, apenas degradante. Pobre País!

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VI. Hodiernos cristãos: consequências para os cristãos

Para os cristãos em geral surgem igualmente quatro consequências.

Em primeiro ligar pulula a figura do cristianinho. Esta personagem caracteriza-se por dizer que “lá essas coisas da igreja (entenda-se, dogmática, pastoral etc.) eu não sigo, mas guardei do cristianismo o conteúdo moral”. Belo: apenas o “sede perfeitos como o Pai é perfeito”. Nada mais. Nada como ficar apenas com o impossível e deitar de lado as condições da sua possibilidade.

Em segundo lugar o cristão do Estado de Direito Democrático. Este vai além de aceitar o Estado de Direito Democrático. Vê-o como a realização concreta do cristianismo, no que tem razão sob o ponto de vista histórico (este não apareceu fora do espaço cristão). Mas vê-o igualmente como a única forma legítima de realização do cristianismo. Como se dezanove séculos de vida cristã fossem menos legítimos. O problema deste tipo de cristão é que incorporou a separação do Estado e da Igreja como parte da sua religião, em vez de ser apenas uma parte da sua posição política. O perigo desta posição é acabar a possibilidade de Antígonas na área cristã, que se deixam embalar pela sereia da legitimidade do Estado de Direito Democrático, não por este se basear numa substância que o ultrapassa, mas pura e simplesmente ser o que é.

A terceira consequência é a do estreitamento da santidade. Ou seja, das possibilidades de vida. Santo para a nossa época, santo plenamente, é apenas São Francisco. Apresenta várias vantagens: não é Cristo, o que é simpático para os não cristãos, tem ar de pobre e bonzinho e em suma de inofensivo. Enganosa visão de São Francisco, mas muito cómoda. A verdade que é muitos cristãos aceitam esta versão mais ao menos delicodoce. Ora as vias da santidade são muito variadas. Uma das grandes vantagens da santidade, tão benquista pelas ortodoxias ocidental e oriental, é a de se estabelecerem em cada santo tipos diversos de acesso à felicidade plena. Cada santo é um tipo, pelo menos os que não são anónimos e tipificados, como acontece com a maioria dos mártires. São Bento quase desapareceu, o organizador. São Tomás de Aquino, o intelectual, é relegado para fora da santidade e para dentro dos cursos de filosofia e teologia. São Bernardo é malquisto. Logo exactamente o grande herdeiro dos profetas do Antigo Testamento, o que fustiga a sociedade, que não a deixa estar na sua inércia mole, nas suas lutas intestinas. O que não se acomoda com rotinas. A caridade, ou melhor a sua versão liofilizada do humanitarismo, esmaga as possibilidades de plenitude de vida pelo profetismo, a organização, o envolvimento intelectual. Ser santo é ser bonzinho, o que mais uma vez transforma a santidade em depósito da nossa boa consciência e algo aparentemente inofensivo. A possibilidade de felicidade plena estreita-se e em suma não tem grande importância.

A quarta consequência é a da confusão entre ecumenismo e diálogo de religiões. O Vaticano II promoveu ambos, mas a sua ênfase estava sem dúvida no ecumenismo. É espantoso ver a quantidade de cristãos bem intencionados que encolhem os ombros de enfado quando se lhes fala das ortodoxias orientais, mas iluminam o olhar quando lhes falam de budistas, ateus, e muçulmanos.

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sexta-feira, 14 de setembro de 2007

V. Hodiernos cristãos: consequências civilizacionais

Quais as consequências dessa situação? Vejo-as em dois planos. No plano civilizational geral e no plano do cristianismo, ou melhor, dos cristãos.

No plano geral podemos voltar às nossas premissas iniciais. As consequências são fáceis de adivinhar.

Em primeiro lugar a mediocridade. Não havendo confronto com os dados fundamentais da civilização a criatividade apenas se opera na rotina, mesmo e sobretudo quando tem a capa da revolução. A poesia concreta retoma a composição numérica de origem medieval, a música vai buscar a caos primevo aparente padrões já mais que vistos. Para quem me acuse de exagero apenas pergunto que Gauss, Bach ou Rafael estamos a criar neste momento.

Em segundo lugar a cegueira. Não apenas o espaço circundante se torna mudo, as pedras, as igrejas, os monumentos, as pinturas, as músicas, mas igualmente a nossa linguagem, de origem indo-europeia mas montada sobre assento cristão, se torna absolutamente muda para o próprio locutor.

Em terceiro lugar a manipulação. A identidade europeia não tem lugar de existir, porque só se compreende com o cristianismo e este não pode ser invocado. Por isso o egípcio tem direito de se rir do alemão que diga que é árabe, mas o europeu perdeu o direito de dizer do turco e azeri que digam que não são europeus.

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