Muito Lindo
O que o Pedro disse aqui sobre o filme “Youth Without Youth” é uma avaliação muito mais racional e mais fundada cinematograficamente do que a que vou fazer a seguir. Se digo o que vou dizer, não é por me assistir qualquer especial competência (como por amabilidade ele sugere), mas apenas pela desbragada parcialidade com que vejo os filmes de Coppola. Noutras áreas, essa guerrilheira parcialidade é um defeito grosseiro. Neste caso quero acreditar que seja inocente virtude.“Youth Without Youth” narra a história de um homem de 70 anos que, por acidente, recupera a sua juventude e se descobre dotado de poderes e conhecimentos extraordinários.
Esse último filme de Coppola, o filme que vi ontem no Casino Estoril, no festival organizado pelo Paulo Branco, é – e vou ser mariquinhas – muito lindo.
“Eh pá, é tão bonito”, diria o Miguel Esteves Cardoso, que tão bem escreve, quando lhe apetece escrever, sobre cinema. “É de uma beleza inenarrável e estarrecedora”, juraria João Bénard da Costa, o único escritor que consegue pôr dois adjectivos em linha e continuar a parecer que trata tão bem a língua como o Padre António Vieira ou como Jorge de Sena.
“Youth Without Youth”é um filme um tudo nada elitista, que tem escrito à entrada, “reservado o direito de admissão”. A entrada no coração, no coração tão vermelho como uma rosa, deste filme de Coppola, só é autorizada se já se for um bocadinho velho, um bocado velhinho. Como é que eu vou explicar isto? Nem é uma questão de idade. O envelhecimento prematuro também serve. É preciso ter-se perdido uma coisa, qualquer coisa que nunca mais voltaremos a ter. Se em cada centímetro de pele, se nas mãos que já não conseguimos fechar, se lá mais abaixo, e delicadamente escuso-me a apontar, nos passar pela cabeça (pelo coração, sempre pelo coração) que, por exemplo ela, ela que tanto amámos, ela que tanto parecia amar-nos, nunca mais voltará (ou nunca mais a voltaremos a ter), é provável que estejamos autorizados a ver “Youth Without Youth”. A agonia, a agonia do amor, a agonia do desejo, a agonia da criação; é esse o tema, por vezes demasiado denso, do filme que Coppola pagou com os lucros dos seus vinhos de Napa Valley.
O filme de Francis Ford Coppola é desiquilibrado, delirante (nem sempre no melhor sentido), implausível. Mas é arrebatadoramente nostálgico. E tem o plano, a cena, mais bonita dos últimos anos: Tim Roth /Dominic é um velho curvado ao peso de setenta maus anos. A chuva começa a cair nos cem metros de rua de Bucarest onde veio, talvez, suicidar-se. Dominic tenta abrir um céptico e renitente guarda-chuva. De repente, num desses planos que a timidez me impede de qualificar, um raio vermelho e eléctrico rompe o ecrã e levanta Dominic do chão, transformando-o num anjo a arder. O que depois, logo a seguir, cai no asfalto, são arames incandescentes e um corpo carbonizado. Toda a cena, mas sobretudo a surpresa fulgurante desse plano de um corpo arrebatado que arde e voa, resgata-nos de anos de mau cinema.
Um só plano não faz um bom filme, mas a euforia desses dez segundos de agónica beleza não ma roubam – e faço raccord com a metafísica desta adaptação de um conto de Mircea Eliade – nem Deus nem o Diabo.














