domingo, 11 de novembro de 2007

Muito Lindo

O que o Pedro disse aqui sobre o filme “Youth Without Youth” é uma avaliação muito mais racional e mais fundada cinematograficamente do que a que vou fazer a seguir. Se digo o que vou dizer, não é por me assistir qualquer especial competência (como por amabilidade ele sugere), mas apenas pela desbragada parcialidade com que vejo os filmes de Coppola. Noutras áreas, essa guerrilheira parcialidade é um defeito grosseiro. Neste caso quero acreditar que seja inocente virtude.
“Youth Without Youth” narra a história de um homem de 70 anos que, por acidente, recupera a sua juventude e se descobre dotado de poderes e conhecimentos extraordinários.
Esse último filme de Coppola, o filme que vi ontem no Casino Estoril, no festival organizado pelo Paulo Branco, é – e vou ser mariquinhas – muito lindo.
“Eh pá, é tão bonito”, diria o Miguel Esteves Cardoso, que tão bem escreve, quando lhe apetece escrever, sobre cinema. “É de uma beleza inenarrável e estarrecedora”, juraria João Bénard da Costa, o único escritor que consegue pôr dois adjectivos em linha e continuar a parecer que trata tão bem a língua como o Padre António Vieira ou como Jorge de Sena.
“Youth Without Youth”é um filme um tudo nada elitista, que tem escrito à entrada, “reservado o direito de admissão”. A entrada no coração, no coração tão vermelho como uma rosa, deste filme de Coppola, só é autorizada se já se for um bocadinho velho, um bocado velhinho. Como é que eu vou explicar isto? Nem é uma questão de idade. O envelhecimento prematuro também serve. É preciso ter-se perdido uma coisa, qualquer coisa que nunca mais voltaremos a ter. Se em cada centímetro de pele, se nas mãos que já não conseguimos fechar, se lá mais abaixo, e delicadamente escuso-me a apontar, nos passar pela cabeça (pelo coração, sempre pelo coração) que, por exemplo ela, ela que tanto amámos, ela que tanto parecia amar-nos, nunca mais voltará (ou nunca mais a voltaremos a ter), é provável que estejamos autorizados a ver “Youth Without Youth”. A agonia, a agonia do amor, a agonia do desejo, a agonia da criação; é esse o tema, por vezes demasiado denso, do filme que Coppola pagou com os lucros dos seus vinhos de Napa Valley.
O filme de Francis Ford Coppola é desiquilibrado, delirante (nem sempre no melhor sentido), implausível. Mas é arrebatadoramente nostálgico. E tem o plano, a cena, mais bonita dos últimos anos: Tim Roth /Dominic é um velho curvado ao peso de setenta maus anos. A chuva começa a cair nos cem metros de rua de Bucarest onde veio, talvez, suicidar-se. Dominic tenta abrir um céptico e renitente guarda-chuva. De repente, num desses planos que a timidez me impede de qualificar, um raio vermelho e eléctrico rompe o ecrã e levanta Dominic do chão, transformando-o num anjo a arder. O que depois, logo a seguir, cai no asfalto, são arames incandescentes e um corpo carbonizado. Toda a cena, mas sobretudo a surpresa fulgurante desse plano de um corpo arrebatado que arde e voa, resgata-nos de anos de mau cinema.
Um só plano não faz um bom filme, mas a euforia desses dez segundos de agónica beleza não ma roubam – e faço raccord com a metafísica desta adaptação de um conto de Mircea Eliade – nem Deus nem o Diabo.

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sábado, 10 de novembro de 2007

Aventuras Pantagruélicas

Entre a cozinha e a net, entretido a elaborar um arroz de tamboril com toque exótico (jamais me apanharão a revelar segredos culinários), um rolo de carne com batatinhas do tamanho de moedas de dez cêntimos e uns bifinhos de porco cobertos de coentros e folhas de alho aromáticas, não consigo mais do que prometer, lá para o fim da noite, o devido agradecimento à Sofia, e o devido troco ao Pedro, meu companheiro cinéfilo das noites do Casino. Até já.

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Quando o Manuel S. Fonseca desafia…

“(…) não é tanto a aquisição de coisas, mas principalmente a nossa relação com nós próprios e com os outros que condiciona as nossas maiores alegrias e tristezas.” (Gilles Lipovetsky, A felicidade paradoxal – ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo, Edições 70, Lisboa, p. 161, linha 5)

Dir-se-á que também o acaso requer sorte ou talento. Talvez por isso tenha feito saltar da estante uma aparente banalidade…
E, no entanto, as banalidades podem enganar. O que é banal toma-se por consensual e, nesse sentido, por pacificado. Mas, afinal, há apenas ausência de questionamento. Daí que, na medida de cada repetição acrítica, o banal se negue ou, por outras palavras, negue a essência da sua verdade.
Aliás, o mote de Lipovetsky pode ser bem eloquente. Porque, ao arriscar tal via de resistência à pressão da sociedade de consumo e ao seu projecto de felicidade paradoxal, Lipovetsky parece não ver o óbvio. Ou seja, a inevitabilidade de esse humaníssimo caminho – a nossa relação com nós próprios e com os outros como condição das nossas maiores alegrias e tristezas – se fazer, cada vez mais, de acordo com os princípios e as regras da sociedade do hiperconsumo.
As relações converteram-se em modas. As relações consomem-se. As relações exibem-se e competem. Há um mercado das relações. Para alimentar a produção e a dinâmica dos circuitos, as relações tornaram-se descartáveis. Temporárias. Fungíveis. Precárias.
Nesse sentido, as relações – todas, as cada um consigo mesmo, as de pais e filhos, as de maridos e mulheres, as de amantes e amigos – fragilizaram-se. Pior, atingindo mais fundo a equação de Lipovetsky, depreciaram-se. E, assim sendo, perderam a capacidade de resistir. Contaminadas pela lógica hiperconsumista, tornaram-se, afinal, parte do problema.
Ou não?...

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Nadar para fora de pé

Arrisco nadar para fora de pé. Na plateia estava um misterioso companheiro de blog bem mais autorizado do que eu para discorrer sobre o tema. Mas a verdade é que saí do Casino do Estoril com uma irreprimível vontade de dizer mal de Coppola. Talvez porque a expectativa fosse muita (dez anos sem filmar é muito ano). Talvez porque me parecesse natural exigir-lhe que honrasse a memória do «Padrinho», de «Cotton Club», de «Gardens of Stone» de «Rumble Fish» e sobretudo de «Apocalypse Now». Talvez porque estivesse roído de curiosidade para ver Bruno Ganz dirigido por Francis Ford. Seja porque razão fosse. Do amargo de boca é que ninguém me livra. Pretensioso e desconexo, polvilhado de clichés e de lugares comuns, enfeitado com um misticismo «new-age» que arrepiaria até o Paulo Coelho, «Youth Without Youth» é uma espécie de «Coppola-meets-Lynch» sem o vigor das obras anteriores de Coppola e sem nada que se assemelhe à perturbante dimensão onírica dos filmes de Lynch. Tim Roth passa pelo filme sem deixar marcas e Bruno Ganz deixa Adolf Hiltler às voltas no túmulo. É verdade que Alexandra Maria Lara é linda mas ninguém vai ver Coppolas para se contentar com uma cara laroca.

Um desastre que ameaça vir a ser um sucesso de bilheteira (convenhamos que para afirmação pretensiosa também não está mal).

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sexta-feira, 9 de novembro de 2007

De Manaus para Manuel

Há anos fiz uma viagem pela Amazónia com paragem obrigatória na magnífica cidade de Manaus. Como gosto, passei os olhos pelo que se vendia numa livraria local tendo comprado uma colectânea de 100 discursos históricos onde pontuam Cristo, Sócrates (o legítimo) Galileu, Napoleão, La Passionária, Frei Bartolomeu de las casas, entre os outros 94 autores. A página 161 apanha o Sermão da Sexagésima de Padre António Vieira que, na linha cinco reza assim sobre a misericórdia de Deus: «em que se manifesta a majestade, a grandeza e a glória da vossa infinita omnipotência é em perdoar e usar de misericórdia: «pois» em castigar vencei-nos a nós, que somos criaturas fracas: mas em perdoar vencei-vos a vós mesmo, que sois todo poderoso e infinito»
Esta passagem reporta-me a um episódio da minha vida de jornalista. Durante uma entrevista, aparentemente simples, surgiu a questão do perdão, em tese. O entrevistado parou de falar e fez um silêncio que, a meus olhos, apenas atrasava o expediente daquele «trabalho». Depois acrescentou: «Essa é a questão mais difícil do Homem. Perdoar». Não tive outras e ali prolongámos o nosso silêncio.

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Razões que a razão desconhece



O Público de hoje faz manchete com uma notícia, no mínimo curiosa: «a Força Aérea Portuguesa apresentou queixa ao Ministério Público pelo não pagamento de uma facturam de 13.500 € relacionada com uma operação de socorro a um pescador em alto mar» (note-se que, como é óbvio, o INEM não cobra nada a alguém que seja socorrido em terra). Ainda esta semana, o Ministro Jaime Silva anunciava, orgulhoso, que o Governo português se dispunha a entregar aos agricultores cuja explorações tivessem sido atingidas pela doença da língua azul um subsídio «entre os 55€ e os 100€ por cada animal morto».

Em termos de prioridades está tudo dito. Mas se menciono estes dois assuntos, que não têm qualquer relação evidente entre si, é apenas para ilustrar algo que me parece cada vez mais evidente: em Portugal o Estado tem vida própria, é incontrolável e «tem razões que a razão desconhece».

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quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O Profeta

O Salon.com é um sítio fantástico, com mais camadas do que uma cebola. É um blog (blogging from the left vs blogging from the right), é um sítio informativo, é um diário, é um semanário, com notícias, opinião, entretenimento, desportos e artes. Tem dossiers especiais e tem colunistas variados, a começar (ou a acabar) na Camille Paglia cujo paganismo e “pensamento selvagem” são, pardon my french, “bouleversantes”.
Hoje, o tema de “capa” é a conversão de Bush: “How George Bush really found Jesus”. Aparentemente a história da conversão, contada no livro “oficial” “A Charge to Keep”, tem muitos buracos negros. Nem sequer me atrevo a resumir a trapalhada. Aconselho leitura imediata e apimento a coisa com uma passagem que enobrece qualquer anedotário:
“Baptized as an Episcopalian in Connecticut, Bush had been a regular churchgoer his entire life, but for the most part he had just been going through the motions. As Stephen Mansfield reported in "The Faith of George W. Bush," when a Midland pastor asked his congregation what a "prophet" was, Bush replied, "That's when revenues exceed expenditures."

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Há Cada Vez Menos Oposição

José Pacheco Pereira afirma, aqui, que “há hoje menos oposição em Portugal”.
É péssimo, reconhecemos todos. Atrevo-me, por paradoxo, a afirmar que não é necessariamente mau.
Imagino que é fácil para qualquer aparelho partidário montar discursos (sempre) , propostas (menos), e soundbytes (sobretudo) arrasadores para qualquer Governo em exercício. Se hoje é cada vez mais manifesta essa suspensão (ou ausência) de oposição é porque aquele exercício exige credibilidade e tem uma factura histórica a pagar. Não se pode sucessivamente falhar oportunidades quando se está no poder e vir reclamar, a seguir, de quem governa, que faça o que, quando se esteve no “trono”, não se conseguiu, ou não se quis, fazer.
Bottom line: em áreas fundamentais da vida política duvido que os cidadãos acreditem hoje que o PSD faça melhor do que o PS, ou faça sequer o que acusa o PS de não fazer.
Exemplos:
* Duvido que os cidadãos acreditem (seja por fundadas razões, seja por puro impressionismo) que o PSD faça diferente do PS na redução da despesa pública;
* Duvido que os cidadãos acreditem que o PSD possa fazer outra coisa que não seja cumprir com zelo a obrigação que Bruxelas determinar para o défice;
* Duvido que os cidadãos acreditem que o PSD, sendo Governo, baixe os impostos;
* Duvido que os cidadãos acreditem que o PSD não obrigue a classe média a pagar a crise, continuando o processo de pauperização a que a dita classe tem vindo a ser sujeita por Guterres, Barroso, Lopes e, agora Sócrates;
* Duvido que os cidadãos acreditem que, como já dissera
aqui, o PSD não prossiga a “forma gravosa como os “mais desfavorecidos”, de pensionistas a cada vez mais desempregados, estão a ser (pelo PS) empurrados para a “vala comum”.
É, por isso, que não me parece tão peregrino e destítuido de sentido o facto de que, como refere Pacheco Pereira, “entendimentos alargados com o PS” ganhem terreno no PSD. É mais do que um recurso desesperado ou uma cínica táctica de lavagem de imagem.
Um sinal claro desse “entendimento alargado” é o que se subentende na forma como o painel de personalidades, que incluía altas figuras da história do PSD, tratou no “Expresso”, e por antecipação, o Orçamento que agora o Governo apresentou na Assembleia. Ou a forma como Mira Amaral acabou por se ir rendendo às razões de Teixeira dos Santos e até à virulência de Silva Lopes no “Prós e Contras” da RTP. Por uma razão que revela razoabilidade e seriedade: nenhum deles se propõe fazer um orçamento “melhor” do que o apresentado por Teixeira dos Santos. Não basta desejar que o PSD apresente, como diz Pacheco Pereira, “um projecto para Portugal alternativo ao dos socialistas”. É preciso tê-lo. E é preciso, ainda, saber se o projecto do PS não é já o projecto que o PSD, afinal, desejaria ter e apresentar.

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quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Adivinha de salão



Não se trata de um electroencefalograma. Trata-se de uma ferramenta chamada «Google Trends» que monitoriza o número de referências na Internet de uma dada palavra-chave. Alguém adivinha a palavra procurada?

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Na Corrente

Nunca fui muito de correntes. As que primeiro conheci eram intimidatórias, prometendo terríveis desgraças a quem não as cumprisse. Aos abaixo-assinados por dá cá aquela palha, passo sempre ao largo. Mas a Inês desafiou-me aqui para uma corrente muito especial e:

1. por estar a Inês num daqueles estados em que nada se lhe pode recusar;
2. por que quem anda na rede molha-se e eu até prometi desde o início boa vizinhança

aqui estou à procura da linha 5 da página 161 de um livro ao acaso, para tentar fazer-me interessante.
Não queiram saber, para já, quantos livros que admiramos não têm sequer 161 páginas. Tenho um belíssimo objecto que dá pelo nome “O Culto do Chá”, que Wenceslau de Moraes escreveu inspiradamente e a editora frenesi (assim, com minúsculas, por favor) ilustrou com um um bom gosto que aflige e a que nem sequer numerou as páginas, tão poucas são e tão desnecessária é a sinalização. Menos de 161 páginas tem o último livro de Roger Scruton, “Culture Counts” subtitulado “Faith and Feeling in a World Besieged”, o que tudo diz sobre o propósito transcendente do autor, em que a estética é central e sublime. 75 páginas são as páginas em que ardentemente respira Herberto Helder na “Vocação Animal”, editado pelas publicações dom quixote (assim também, em minúsculas na capa), em Maio de 1971. Muito antes, em 1963, o poeta escrevera, para a Portugália, essa “pancada de alto a baixo do meu corpo” que se chama “Passos em Volta” e que termina caprichosamente na página 160.
Fiz , por isso, e para não defraudar a Inês, batota, recorrendo à monumental “Poesia Toda”, da Assírio. Trancrevo escrupulosamente, linha 5, página 161:

“contra o hálito.
Até à noite que retumbe sobre as pedreiras.
Canta – dizem em mim – até ficares
Como um orfão contornado
”

Mas, por mais bela e moral que seja a citação destes versos, não consegue fazer esquecer a dor e a alegria que um dia a abertura do “Amor em Visita”, de Herberto, me provocou e, fazendo outra vez batota, é essa a citação que, “ao acaso”, necessariamente vos deixo:

“Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sangue
E seu arbusto de sangue. Com ela
Encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
Do sorriso de um momento.
”

Para não quebrar a corrente, deixo o mesmo desafio, et pour cause, a cinco mulheres: à misteriosa Teresa C. do Sem Pénis nem Inveja, à rigorosa Helena Matos de Blasfémias, à voluntariosa Antonieta Lopes da Costa do Jazza-me Muito, e às ilustres presenças femininas de Geração de 60, Sofia Galvão e Inês Dentinho, esperando que nenhuma delas tenha já sido atormentada antes com pedidos do género, o que só mais justificação lhes dará para me mandarem dar higiénica volta.
ps - back to basics: o desafio é fazerem post nos respectivos blogs, citando a linha 5 da página 161 de um livro aberto "ao acaso".

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terça-feira, 6 de novembro de 2007

Surprised by Truth: 11 Converts Give the Biblical and Historical Reasons for Becoming Catholic



Não sou suspeito de amar nem de odiar os americanos. A sua cultura é-me apenas estranha e tanto mais estranha quanto a vejo ser reproduzida na Europa em papel de segunda via.

Mas numa Europa que tende a imitar o mais grosseiro que os Estados Unidos têm, por vezes esquece-se de olhar para o que nos reservam de boas surpresas.

O gosto é por vezes duvidoso. A capa insuportável de mau gosto, como é tão típico dos países anglo-americanos. Escolhem para os bolos e as capas dos livros a mesmas cores, conseguindo assim afastar os mosquitos dos bolos, como dizia uma italiana que conheci, mas igualmente olhos mais sensíveis dos livros.

Mas uma coisa tem de se reconhecer. Se há muito europeus execráveis, não deixam de existir muitos americanos que nos comovem, como outro ser humano o faria, quando vivem uma vida de entusiasmo consistente, de estudo por vezes menos avisado, mas intenso e honesto. Esse tipo de pessoas merece muito mais o meu respeito que criaturas de ar enjoado que dizem ser confucionistas e altermundialistas (confusão de géneros se a há, a de juntar o pensamento de um aristocrata cultor da hierarquia e a paixão pelo incivilizado) ou que em geral arrastam o seu ar de enjoo que só é legítimo porque ser eles seria um enjoo em si mesmo.

Vindos do judaísmo, do protestantismo ou de um catolicismo morno, falam aqui várias pessoas que contam histórias de paixão, de estudo sério das fontes, de esforço permanente para se ligarem às fontes da vida. Algo de muito melhor do que os que misturam as sopas quânticas às energias do universo (?) e outros dislates quejandos. E onde se mostra que a religião, como diziam os romanos é o contrário da superstição. É um esforço vital, atento, crítico, lutador, resistente perante uma realidade que se impõe só porque existe. E uma participação gloriosa nessa existência.

Longe de ser uma obra-prima, de ser profundo, ou de ser novidade pelas ideias, é francamente compensador por mostrar que no presente e num país que apesar de tudo e com a suas taras, não divorciou o desenvolvimento científico da agitação espiritual, há quem leve a vida a sério. E disso retire conclusões.






http://www.surprisedbytruth.com/


Alexandre Brandão da Veiga

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Os duelistas


Pior, muito pior do que a inanidade de alguns debates políticos, só mesmo a retorcida floresta dos comentaristas políticos. A delícia com que se entregam a elucubrações estratégicas sobre o reencontro (o duelo) entre Sócrates e Santana chega a ser patética.
Temo que, para pasto dos comentários pós orçamento, valha tudo, do vinco dos fatos à pose de guerreiros, passando pela graçola retórica com que tentarão enterrar-se um ao outro. Interesa pouco ou nada que "ganhe" Sócrates ou Santana se pelo caminho se perder a discussão do essencial: o facto da produtividade ser o que é (em 2006 Portugal ficou na cauda do crescimento europeu, em penúltimo lugar de uma lista em que só a Itália ficou atrás de nós), o facto de não haver soluções “inspiradas” para conter a despesa pública, a quase fatalista impossibilidade de baixar impostos para dar um suplemento de alma ao desenvolvimento económico, a forma gravosa como os “mais desfavorecidos”, de pensionistas a cada vez mais desempregados, estão a ser empurrados para a “vala comum”, quando também a saúde das classes médias está entre a tísica e a depressão.
Sem prejuízo de, neste momento, estar a ser “julgado” o orçamento de 2008 subscrito pelo governo de Sócrates, é sempre bom lembrar que em tudo isto o PS e o PSD partilham largas (ou todas) as responsabilidades, ou por outra, é sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar…

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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Há lodo no cais

Uma visita ao Porto de Lisboa, com paragem obrigatória nos magníficos painéis de Almada Negreiros, devolvem-me a preocupação sobre o futuro da Zona Ribeirinha entregue ao verbo e à tentação «betoneira» de José Miguel Júdice. (Registo a falta de pudor e de bom gosto com que JMJ minou a Quinta das Lágrimas, em Coimbra. Se assim desbaratou a estética e a história dentro de casa, o que não fará com o que não lhe pertence?)
Os portos sempre tiveram vida própria e precisam de espaço para fazer vingar a cidade no mundo. O Porto de Lisboa habituou-se a servir a capital universal mais do que a Lisboa paroquial. Almada Negreiros desenha o feudo fluvial como ninguém e o Estado Novo, mais atento ao País do que às pessoas, defendeu esta reserva estratégica até ao absurdo. Em Lisboa, a exposição do Mundo Português, nos anos 40, permitiu arranjos e pavilhões visitáveis pelos estranhos à vida do porto e, já no final da década de 50, foi desenhado junto à Torre de Belém, o primeiro «green» aberto, sem canteiros nem empedrados, para que o povo se pudesse esticar aos Domingos. (Gabo a co-autoria desse jardim a António Barreto e ao meu Pai que souberam dar primazia ao espaço e ao protagonismo da Torre). Na Zona Ribeirinha havia ainda lugar para a vela que foi perdendo vez para Cascais e para outros hábitos. Salazar lamentava a falta de velejadores no rio com um desabafo que aqui abrevio: «que pena me faz ver aos domingos os cafés cheios de jovens (...) os filhos deste País de marinheiros».
Depois, penso que foi com Azevedo Soares, Ministro do Mar de Cavaco Silva, que teve início o processo de socialização das áreas libertas pela perda do Império, pela pujança dos portos espanhóis e por um novo conceito de cidade que pressionava - e pressiona - os domínios «absentistas» da margem esquerda do Tejo.
Nasceram as «Docas». Ampliaram-se espaços verdes onde hoje os lisboetas se encontram com o rio. Surgiram bons restaurantes e tornou-se possível dançar em Lisboa sem acordar os vizinhos. Aos fins de semana alugam-se bicicletas e apanha-se sol numa multidão de caminhadas saudáveis. 30% das receitas do Porto de Lisboa vêm da actividade recreativa, para grande admiração do grupo de franceses que acompanhei na visita.
Um conjunto de postais oferecido à saída esclarece que à actividade portuária do Porto de Lisboa se junta a dinamização turística, a requalificação urbana, a preservação ambiental e a referida diversão e lazer. Um equilíbrio de cinco áreas de interesse público, difícil de gerir, mas com interesse público.
Não é de hoje a apetência imobiliária pela zona ribeirinha sempre vendida com o slogan de devolver a cidade ao rio. Quem não se lembra dos múltiplos edifícios previstos pelo POZOR - seria assim que se chamava? - o plano oportunamente moderado pela crítica dos anos 90?
O que separa a cidade do rio é a linha do comboio e as duas vias rápidas que a ladeiam. O que separa a cidade de parte do rio é a afirmação de Portugal na Península, na Europa e no Mundo, com o primeiro porto Atlântico da UE (já ultrapassado por Barcelona, Valência e Algeciras). O que separa a cidade do rio é a escolha que Júdice fará entre o espaço de trabalho e de recreio; o interesse público e o privado.
Na moderníssima torre de controlo, no Dafundo, não deixo de ouvir o desabafo de um técnico: «Não sei como as pessoas se deixam enganar. Parece que não vêm o que aconteceu em grande parte da Expo. Os lisboetas têm hoje um acesso aberto ao rio que nunca mais terão se entrarem aqui os blocos do Júdice. Nunca mais». Vamos ver.

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Da Visão: Cada tiro, cada melro



No curto espaço de uma semana, o governo de José Sócrates conseguiu produzir dois documentos de uma imbecilidade absolutamente notável que dizem muito sobre a massa de que é feito este executivo.
A festa começa nesse hino à impunidade e à displicência que constitui o novo estatuto do aluno. A coisa explica-se duma penada: reconhecendo a sua antipatia genética pela ideia de disciplina, o PS de Sócrates resolve a questão da generalizada rebaldaria que grassa nas escolas públicas do país legitimando-a. A ideia é de uma genialidade desarmante. À falta de se vencer a balda, integra-se no sistema a própria balda: os petizes, que já tinham dificuldade em chumbar por razões pedagógicas, ficam agora «proibidos» de chumbar por faltas. Ou como se diz em «eduquês»: «a escola pública inclusiva não pode permitir que se impeça um aluno de voltar à escola por conta, apenas (!), de um determinado número de faltas». É certo que alguns lunáticos e conservadores ultrapassados dirão que se sacrifica um pouco mais a cultura de exigência e de mérito que seria suposto começar a ensinar-se na escola pública. Mas os cães ladram e a caravana passa. E o que é realmente importante é que, graças a esta aberração saída das profundezas mais tenebrosas do Ministério da Educação que dá pelo nome oficial de «nova filosofia de intervenção pedagógica e disciplinar», se salvam a face da Ministra e as estatísticas do sector.
Mas a festa não fica por aqui. Não satisfeito com o ritmo de uma imbecilidade por semana, o governo apresentou um projecto de um novo contrato de concessão do serviço público em que se defende que a emissora estatal venha a lançar, em pleno século XXI e entre outas coisas bizarras como um canal destinado ao conhecimento (teme-se o pior), um novo canal destinado ao público infanto-juvenil. O puzzle começa assim a ficar completo. Resolvida formalmente (que não substantivamente entenda-se) a questão das faltas, era preciso que o generoso Estado socialista viesse entreter (de forma pedagógica, estou certo) os petizes que, libertos do pesadelo do chumbo por faltas, ameaçavam ficar seriamente aborrecidos. Mais uma vez, meia dúzia de liberais furiosos dirá que o Ministro Santos Silva tem uma visão totalmente ultrapassada do sector. E que os avanços tecnológicos justificam um recuo e não um avanço do papel do Estado na prestação de um serviço público de televisão. Mas não passarão de vozes isoladas. E o Ministro há-de levar avante a iluminada ideia de servir, à custa do erário público, doses maciças de Noddy às criancinhas agora desocupadas.
Dir-me-ão que é abusivo ligar, através de um nexo e de um propósito comum, uma e outra medida. Concedo. Mas não deixo de ter vergonha de viver num país onde o Estado, com uma falta de pudor revoltante, desiste de impor um mínimo de disciplina e de cultura de mérito nas escolas públicas, mas abraça com um entusiasmo dirigista próprio dos irresponsáveis a nobre tarefa de desbaratar o dinheiro dos contribuintes na resposta a necessidades fúteis e largamente satisfeitas pelo mercado.

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domingo, 4 de novembro de 2007

O Orçamento e o Nada

Ao contrário das opiniões bastante temperadas e tépidas do painel de notáveis do (em geral excelente) suplemento de “Economia” do “Expresso”, Bagão Félix, numa entrevista dada ao “Correio da Manhã” (o jornal mais eficaz do país), não deixa, do Orçamento Geral do Estado de 2008, pedra sobre pedra. O que me interessou, tanto nas opiniões do painel, como nas de Bagão, foi o facto de se tratar de “praticantes” e não de teóricos. Há vários ex-ministros das finanças e um ex-primeiro-ministro. Sem sombra de dúvida, sabem do que estão a falar.
Para Bagão Félix, que é pessoa sensata e séria, este OE é uma farsa e está cheio de falácias. É verdade, diz, que o OE apresenta um défice abaixo dos 3%, mas fá-lo à custa dos impostos, o que é mau para a economia. Antes, assevera Bagão Félix, esse redondo e dourado mito dos 3% atingiu-se à custa da venda de um património que muitas vezes só dava despesa, o que fazia com que o Estado ganhasse em dois carrinhos. O Estado deixava de ter desperdício e assegurava receitas extraordinárias. Agora, os 3% são conseguidos à custa da falácia que é a pressão fiscal. Traduzo em soundbytes: “mais impostos, menos desenvolvimento”. Deixando-nos de soundbytes e descendo à realidade: em 2008, até 13 de Maio estaremos todos, trabalhadores e empresas, a trabalhar para o Estado. Em 2007, diz Bagão e diz bem, a partir de 8 de Maio já estávamos a trabalhar para nós próprios.
A segunda falácia, segundo Bagão Félix, é a da estrepitosa máxima, “saem 2, só entra 1”, com a qual o Governo assegura que, reduzindo o pessoal da Administração Pública, está a cortar na despesa pública. Bagão reconhece que o soundbyte é impressivo, mas castiga-o denunciando-lhe a falácia: os 2 que saem, como o mercado não os quer, vão para a Caixa Geral de Aposentações, o que significa que, afinal, “saem 2 e ficam 3”.
A entrevista diz muito mais, mas para o que me interessa, já basta de citações. E o que me interessa é muito simples: o que é que se pode então fazer?
O recurso às receitas extraordinárias de que Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite foram, à míngua de outras soluções, paladinos, mesmo que, por suposição, seja “melhor” do que a carga nos impostos, não foi, por si só solução, e não é, sobretudo, uma solução muito mais desenvolvimentista do que a do eufemismo que dá pelo nome de pressão fiscal.
Há, por isso, que reduzir a despesa pública. Mas Bagão Félix reconhece que também ele, quando foi Ministro das Finanças (e Manuela Ferreira Leite, se bem me lembro), não conseguiu cortar nas rubricas de pessoal. Em última análise, digo eu, se na sua actual forma a passagem de funcionários para a Caixa Geral de Aposentações é apenas uma transferência de custos duma rubrica para outra (que, a não ser por engenharia. em nada alivia o OE), presumo que a única forma efectiva de cortar despesas na rubrica de pessoal é virtualmente impossível, uma vez que implicaria que os funcionários fossem espoliados dos seus direitos, do que resultaria, como é lógico, uma ruptura no plano social cuja brutalidade, insustentabilidade e custos são impensáveis.
Ou seja, a redução de pessoal de Estado, pelo menos na rubrica de pessoal, é um belo estandarte eleitoral. Mas tanto a direita, como a esquerda se apressam a arrumá-lo no sótão no dia em que o chefe entra em São Bento. E nem é por cinismo, mas apenas por “realpolitik”, a mesma que nos obriga a reconhecer que o OE tem de ser construído com um conjunto de condicionantes “europeias” tão liminares como a de não haver política monetária própria ou não haver politica cambial própria. Deixo a especialistas o elenco acabado e rotundo de tudo o que um Ministro das Finança não pode fazer por imperativo incontornável (hélas!) do Concílio de Bruxelas.
Basicamente, e quando se trata de criticar o OE que o Governo em exercício propõe, a Oposição, seja ela qual for, grita a plenos pulmões que o crescimento tem de basear-se numa efectiva melhoria da produtividade e que, para lá chegarmos, o papel da educação, essa obscena paixão, acaba por ser fundamental. Ou seja, tirando declarações de princípio genéricas, mesmo os “praticantes”, pelo menos em fórum público, limitam-se a apontar ao OE “technicalities”, reconhecendo que, se estivessem no Poder, e tirando fórmulas já usadas, pouco teriam para propor de verdadeiramente diferente.
O que é que se pode fazer então? Tirando “technicalities”, Nada. E é entre o Nada e o Nada que voltaremos a escolher nas próximas eleições. Pela parte que me toca, desculpem-me o hermetismo, prefiro Faulkner.

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A Educação

O destino da Educação é formar homens livres no pressuposto que a sabedoria é a verdadeira portadora da consciência dessa liberdade possível. Pressupõe, por isso, a Educação, que o saber é um espelho em que o homem se revê a si e ao mundo. Na acepção etimológica educar vem de ex-ducare, significa, trazer para fora e, nesse sentido, a maiêutica socrática, ou seja, a arte das parteiras, era verdadeiramente a educação. Significava que o saber que cada um procura seria encontrado dentro de cada um desde que fosse posto cá fora, isto é, fosse dado à luz.

Assim, a Educação tem uma finalidade superior e tem primado sobre aquele pálido e muitas vezes inútil, senão mesmo desorientador, objectivo de formar trabalhadores, ou seja, dirigir as suas finalidades para o mercado de trabalho. Ensinado a pensar, o homem, estará habilitado pelos seus hábitos, pela sua inteligência e pela sua imaginação, a contribuir com o seu esforço para as necessidades que, individual e comunitariamente, os homens em geral, têm na vida económica, artística e política.
A consciência do eu implica a consciência do outro e é dessa harmonização que o homem livre tem consciência ao proceder por pensamentos e actos. Aprender a ser livre exige que o saber se consolide nas comunidades humanas e o mundo civilizado é aquele que se pensa integralmente a partir do que está integralmente sedimentado pela tradição biológica, moral e filosófica. É erróneo pressupor que tudo vai ser inventado quando tudo apenas carece de actualização, ou de ser renovado.
Percebendo que está integrado numa sociedade humana, cada homem sabe que é parte de uma História que passa por si mas nem começa nem se esgota em si. Perceber qual é o seu lugar, qual é a sua singularidade e quais são os seus deveres, exige uma caminhada em que, voluntarismo, atrevimento e energia aprendam a reflectir-se, a conter-se e a reorientar-se. A Educação não é o que se verifica pelo resultado de uma avaliação técnica e arbitrária de conhecimentos disto ou daquilo, mas uma formação integral que inclui os hábitos dentro dos quais sentimos, procedemos e pensamos, as capacidades para procedermos por via da intuição e da inteligência, e o culto do amor pelo descobrimento da renovação que em cada ser se inaugura e que a cada ser cabe compreender para que, realizando-se individualmente realize a própria essência do convívio dos seres.
Retirar do sistema de ensino a conjugação dos hábitos de esforço, de disciplina e de respeito; da exigência intelectual da vida intuitiva e inteligente; e do culto da esperança no valor individual e universal do saber; é não perceber que a finalidade da Educação é a Liberdade. É julgar que a liberdade é ser-se um escravo obediente.

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sábado, 3 de novembro de 2007

Rankings das escolas e mais algo.

Na batalha dos rankings das escolas, ganhou o Expresso, pela descrição e por ter, naturalmente, consultado especialistas. Estes rankings são fundamentais e mais vale um ranking com deficiências do que nenhum. Mas eles não devem ser parte de uma batalha ideológica.

Os Maristas em Lisboa estão no top 10, ou coisa que o valha. Parabéns! Se bem me lembro, no meu tempo quase só lá ia parar quem se portava mal. Os outros ficavam nos liceus públicos. Será que o ensino público do tempo de Marcello Caetano era assim tão bom? Era, de facto, em alguns sítios. O que se poderá então concluir? - A culpa deve ser da democracia.

A Ministra da Educação, essa, devia estar por um fio. Para deixar bem expressa a minha opinião sobre as faltas: sempre que posso deixo explicitamente uma margem de 20% da avaliação para a assiduidade e participação nas aulas.

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sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O Cão

Artigo inspirado de João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo online. Guillermo Vargas é um artista. Para protestar contra a fome no mundo decidiu, e cito, “resgatar um cão das ruas da Nicarágua, enfiá-lo numa galeria de arte, amarrá-lo com uma corda à parede e esperar para ver”.
Não conto mais nada. Leiam aqui.

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O Mandarim

Cheguei à idade em que dá prazer (re)(re)ler o Eça. Acabei o "Mandarim". Para quem não se recorde, a história é de um amanuense lisboeta que matou um longinquo Mandarim, herdando a sua fortuna, pelo simples toque de uma sineta.Porém, o velho Mandarim com o seu papagaio de papel, obesa barriga e eriçada trança, aparecia nos momentos mais inoportunos, atormentando a consciência do funcionário público, tornado milionário, que em desespero clama:"É preciso matar este morto!". Na política portuguesa é necessário matar os políticos mortos, de forma a renovar ideias, métodos, valores. Mas qual, ei-los que depois de mortos renascem, de ventre proeminente, ameaçando mais do mesmo, a um povo que tudo esquece. Estranho fenómeno este, em que um colectivo não aprende as lições óbvias, e acredita que D. Sebastião ainda que derrotado, e manifestamente incompetente, mantem incólume a esperança de com o "seu" povo, vencer novas cruzadas.

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A Missão

Paul Warfield Tibbets era um piloto americano de 30 anos. A 6 de Agosto de 1945, num avião chamado Enola Gay (era, ao que consta, o nome da sua mãe), lançou sobre Hiroxima a primeira bomba atómica. Morreram de imediato cerca de 100.000 pessoas.

Paul Tibbets considerou até ao fim que cumpriu ordens e que a sua missão tinha o objectivo patriótico de acabar com a guerra o mais rapidamente possível. Por mais terrível e injusto que pareça não é fácil provar o contrário. Poderia ter recusado a missão? Terá tido consciência, antes, do poder letal da bomba que transportava?

“Durmo bem todas as noites” é uma afirmação que os jornais agora lhe atribuem. Morreu hoje, no Ohio, com 92 anos de idade.

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