domingo, 11 de novembro de 2007

Muito Lindo

O que o Pedro disse aqui sobre o filme “Youth Without Youth” é uma avaliação muito mais racional e mais fundada cinematograficamente do que a que vou fazer a seguir. Se digo o que vou dizer, não é por me assistir qualquer especial competência (como por amabilidade ele sugere), mas apenas pela desbragada parcialidade com que vejo os filmes de Coppola. Noutras áreas, essa guerrilheira parcialidade é um defeito grosseiro. Neste caso quero acreditar que seja inocente virtude.
Youth Without Youth” narra a história de um homem de 70 anos que, por acidente, recupera a sua juventude e se descobre dotado de poderes e conhecimentos extraordinários.
Esse último filme de Coppola, o filme que vi ontem no Casino Estoril, no festival organizado pelo Paulo Branco, é – e vou ser mariquinhas – muito lindo.
Eh pá, é tão bonito”, diria o Miguel Esteves Cardoso, que tão bem escreve, quando lhe apetece escrever, sobre cinema. “É de uma beleza inenarrável e estarrecedora”, juraria João Bénard da Costa, o único escritor que consegue pôr dois adjectivos em linha e continuar a parecer que trata tão bem a língua como o Padre António Vieira ou como Jorge de Sena.
Youth Without Youth”é um filme um tudo nada elitista, que tem escrito à entrada, “reservado o direito de admissão”. A entrada no coração, no coração tão vermelho como uma rosa, deste filme de Coppola, só é autorizada se já se for um bocadinho velho, um bocado velhinho. Como é que eu vou explicar isto? Nem é uma questão de idade. O envelhecimento prematuro também serve. É preciso ter-se perdido uma coisa, qualquer coisa que nunca mais voltaremos a ter. Se em cada centímetro de pele, se nas mãos que já não conseguimos fechar, se lá mais abaixo, e delicadamente escuso-me a apontar, nos passar pela cabeça (pelo coração, sempre pelo coração) que, por exemplo ela, ela que tanto amámos, ela que tanto parecia amar-nos, nunca mais voltará (ou nunca mais a voltaremos a ter), é provável que estejamos autorizados a ver “Youth Without Youth”. A agonia, a agonia do amor, a agonia do desejo, a agonia da criação; é esse o tema, por vezes demasiado denso, do filme que Coppola pagou com os lucros dos seus vinhos de Napa Valley.
O filme de Francis Ford Coppola é desiquilibrado, delirante (nem sempre no melhor sentido), implausível. Mas é arrebatadoramente nostálgico. E tem o plano, a cena, mais bonita dos últimos anos: Tim Roth /Dominic é um velho curvado ao peso de setenta maus anos. A chuva começa a cair nos cem metros de rua de Bucarest onde veio, talvez, suicidar-se. Dominic tenta abrir um céptico e renitente guarda-chuva. De repente, num desses planos que a timidez me impede de qualificar, um raio vermelho e eléctrico rompe o ecrã e levanta Dominic do chão, transformando-o num anjo a arder. O que depois, logo a seguir, cai no asfalto, são arames incandescentes e um corpo carbonizado. Toda a cena, mas sobretudo a surpresa fulgurante desse plano de um corpo arrebatado que arde e voa, resgata-nos de anos de mau cinema.
Um só plano não faz um bom filme, mas a euforia desses dez segundos de agónica beleza não ma roubam – e faço raccord com a metafísica desta adaptação de um conto de Mircea Eliade – nem Deus nem o Diabo.

2 comentários:

Anónimo disse...

SILÊNCIO CULPADO disse...
Perante uma grande sacanice que está a ser feita sobre alguns professores que não recebem vencimento,têm horários d e12 horas ou estão a recibos verdes sugere-se que todos os blogues publiquem a notícia que está no http://cegueiralusa.blogspot.com

Anónimo disse...

Meme si en répondant à votre poste je vais entrer dans un espace qui ne m’apartient pas…comme je ne peux pas écrire en portugais…je ne fais pas partie de la generation de 60…je m’excuse en avance.

En fait c’est grace au “Journal portugais” de Mircea Eliade que j’ai commencé à m’interesser à la lingue et culture portugaises …et je suis tombée sur ce blog…j’ai découvert des choses tellement intéressantes.

Je voudrais juste dire deux mots sur la nouvelle homonyme de Mircea Eliade car je n’ai pas vu le film …Copolla lui disait qu’il faut le voir deux fois pour le comprendre et que paradoxalment c’est un film sur la viellisse ?!?

La texte original est aussi, comme vous decrivez le film “desiquilibrato, delirante, implausivel”. J’ai été très impressionée qu’en dépit du fait que la scène dont vous parlez est clairement un “effet cinema” - elle capture très bien le symbolisme et la mystique du texte original.

C’est vrai, c’est pas une question d’age.
Le thème central est le temps et sa fuite inexorable, la question – clé qui revient d’une manière obsessive vers la fin du texte, qui “exprime la suprème ambiguité de l’etre humain”, etant “qu-est ce qu’on fait avec le temps”?
Eliade veut laisser l’impression que Dominic après cette experience iniciatique a vraiment obtenu la réponse à cette question.


Ce que je voudrais aussi mentionner est que le titre “Youth without youth” est un “jeu de mots” qui s’inspire du titre d’un vieux conte populaire roumain “Jeunesse sans viellesse et vie sans mort” qui reprend le meme thème – le lieu et le sens de l’homme dans l’univers et finalement l’impossibilité de l’homme de depasser sa condition.

Et pour finir dans une toute autre note...comme je viens de voire que vous écrivez aussi sur „oeuf étoilé” –la traduction du dictionnaire electonique AltaVista BabelFish- (merci pour l’illustration), ça sera pour quand un post sur la littérature et surtout la poésie portuguaise...ou bien il y en a déjà et je ne l’ai pas vu?

Gianina