quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Há Cada Vez Menos Oposição

José Pacheco Pereira afirma, aqui, que “há hoje menos oposição em Portugal”.
É péssimo, reconhecemos todos. Atrevo-me, por paradoxo, a afirmar que não é necessariamente mau.
Imagino que é fácil para qualquer aparelho partidário montar discursos (sempre) , propostas (menos), e soundbytes (sobretudo) arrasadores para qualquer Governo em exercício. Se hoje é cada vez mais manifesta essa suspensão (ou ausência) de oposição é porque aquele exercício exige credibilidade e tem uma factura histórica a pagar. Não se pode sucessivamente falhar oportunidades quando se está no poder e vir reclamar, a seguir, de quem governa, que faça o que, quando se esteve no “trono”, não se conseguiu, ou não se quis, fazer.
Bottom line: em áreas fundamentais da vida política duvido que os cidadãos acreditem hoje que o PSD faça melhor do que o PS, ou faça sequer o que acusa o PS de não fazer.
Exemplos:
* Duvido que os cidadãos acreditem (seja por fundadas razões, seja por puro impressionismo) que o PSD faça diferente do PS na redução da despesa pública;
* Duvido que os cidadãos acreditem que o PSD possa fazer outra coisa que não seja cumprir com zelo a obrigação que Bruxelas determinar para o défice;
* Duvido que os cidadãos acreditem que o PSD, sendo Governo, baixe os impostos;
* Duvido que os cidadãos acreditem que o PSD não obrigue a classe média a pagar a crise, continuando o processo de pauperização a que a dita classe tem vindo a ser sujeita por Guterres, Barroso, Lopes e, agora Sócrates;
* Duvido que os cidadãos acreditem que, como já dissera
aqui, o PSD não prossiga a “forma gravosa como os “mais desfavorecidos”, de pensionistas a cada vez mais desempregados, estão a ser (pelo PS) empurrados para a “vala comum”.
É, por isso, que não me parece tão peregrino e destítuido de sentido o facto de que, como refere Pacheco Pereira, “entendimentos alargados com o PS” ganhem terreno no PSD. É mais do que um recurso desesperado ou uma cínica táctica de lavagem de imagem.
Um sinal claro desse “entendimento alargado” é o que se subentende na forma como o painel de personalidades, que incluía altas figuras da história do PSD, tratou no “Expresso”, e por antecipação, o Orçamento que agora o Governo apresentou na Assembleia. Ou a forma como Mira Amaral acabou por se ir rendendo às razões de Teixeira dos Santos e até à virulência de Silva Lopes no “Prós e Contras” da RTP. Por uma razão que revela razoabilidade e seriedade: nenhum deles se propõe fazer um orçamento “melhor” do que o apresentado por Teixeira dos Santos. Não basta desejar que o PSD apresente, como diz Pacheco Pereira, “um projecto para Portugal alternativo ao dos socialistas”. É preciso tê-lo. E é preciso, ainda, saber se o projecto do PS não é já o projecto que o PSD, afinal, desejaria ter e apresentar.

2 comentários:

Pedro Lains disse...

Acho que estou pronto a concordar com os argumentos de base deste post. E se calhar temos no fundo de dar menor importância à política. Mas a fotografia deixa-me confuso: isto faz de nós homens modernos ou do Neandertal?

Manuel S. Fonseca disse...

Modernos ou de Neandertal, estamos, como a pintura testemunha, igualmente sitiados por um poder de fogo que nos ultrapassa.