domingo, 20 de janeiro de 2008
sábado, 19 de janeiro de 2008
Portugal adiado
Ontem também, foi noticiado o anúncio de um pacote de medidas financeiras dirigido ao relançamento da economia americana (ver aqui e aqui). George W. Bush assumiu, na ocasião, que o fomento do crescimento era a sua 'mais premente prioridade económica'. Percebendo a urgência da intervenção política, Bush anunciou um pacote de medidas fiscais no montante de 1% do PIB (145 mil milhões de dólares), capaz de, com efeitos imediatos, manter a economia em marcha e induzir o aumento do emprego – no essencial, através de incentivos fiscais para as empresas e de uma redução dos impostos sobre o rendimento dos americanos. Falando depois do Presidente, Henry Paulson, Secretário do Tesouro, disse, sem hesitar, que 'os riscos de não intervir com medidas de fomento económico seriam demasiado altos'. Na véspera, Ben Bernanke, presidente da Reserva Federal, defendera o recurso simultâneo a incentivos orçamentais e monetários, como forma de potenciar o apoio ao arranque da economia (a generalidade dos analistas vira, nestas declarações, a possibilidade de uma baixa de taxas de juro a anunciar pela Fed ainda no decurso do corrente mês de Janeiro). É certo que as reacções à iniciativa de Bush não foram entusiásticas e que Wall Street fechou em baixa, mas a agenda política assimilou o imperativo de intervenção.
O que será Portugal daqui a 10, 20 ou 30 anos?... Precisávamos de políticos capazes de pôr a pergunta e, portanto, de desafiar premissas. De políticos capazes de dar respostas e de, assim, ensaiar novos modelos. De políticos que percebessem que o horizonte poderia ser um ou outro, em função estrita da sua acção ou demissão. De políticos que não se resignassem a um país adiado.
O filho de bin Laden
O meu apreço por Shakespeare está em quebra. Dia a dia, a cada abertura da bolsa dramatúrgica, Hamlet, Othelo, Rei Lear caem apunhalados por uma realidade imprevista e delirante. Contra as notícias do dia, contra esses jornais e telejornais que levemente espremidos jorram sangue, Shakespeare bem pode gritar: “Plágio!” Na melhor das hipóteses, admitimos que possa reclamar o direito a um sussurro agónico: “Também tu, Brutus, meu filho”.O último golpe no velho mestre foi de adaga. Aqui, aqui ou aqui, um Mouro, outro intrépido e sereno Mouro, vem desafiar o terno amante de Desdémona. Omar Osama bin Laden, mouro sem ciúme, supera Othello, o “malignant and turbaned Turk” a quem Shakespeare deu alma nobre e furiosa.
em remissão. Simplificando, Omar Osama bin Laden é o terceiro filho de bin Laden e recusou a via do terrorismo que o pai defende, depois de 20 anos a viver com ele. Omar abandonou o pai, que o tinha treinado para matar, em 2000. Para já, e p
ara promover a tolerância entre “mouros e cristãos”, Omar propõe um raid hípico de cinco mil quilómetros por todo o Norte de África. Um Lisboa-Dakar a cavalo. Sem motores.sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Novidades na Geração de 60
Hoje, a “Geração de 60” apresenta uma novidade. Fomos ao mercado de inverno e sacámos um belo reforço. Olhem bem para a coluna da direita e reparem que há mais um nome. Comprámos um ponta de lança. Com a entrada do Pedro Marta Santos, o filme é outro: “A picture with a smile and perhaps a tear”.Temos, ele e eu, as nossas diferenças. Como dizia o outro, não há na nossa aldeia espaço para dois doutores e para dois vampiros. Mas hoje é dia de o saudar, levantando a flûte, com o brinde de que ele mais gosta: “À confusão dos nossos inimigos”. Pedro, o palco é teu.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
E o Passado Aqui Tão Perto

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Ateus graças a Deus
O laicismo é, bem entendido, um princípio saudável. A separação clara das águas entre a Igreja e o Estado é um princípio fundamental para a consolidação das democracias. Até aqui estamos todos de acordo. Sucede que, na linha do jacobinismo e do anti-clericalismo mais primários, o que os franceses estão a tentar fazer é precisamente o contrário do que pretende alcançar o ideal laico. Eu explico. A ideia laica pretende garantir que nenhuma confissão ou credo religioso tenha um direito de primazia sobre qualquer outro. Muito menos honras ou privilégios de Estado. O laicismo é, nesta acepção, um ideal profundamente tolerante. Visa permitir que diferentes confissões e credos floresçam lado a lado na sociedade em condições de absoluta igualdade. Que católicos, muçulmanos, hindus e ateus mereçam um tratamento indiscriminado por parte do Estado. Nada menos, mas atenção, nada mais.
Ora o que os franceses estão a fazer é uma interpretação fundamentalista e deturpada da ideia laica. Estão a confundir laicismo com a ideia de que devem abolir-se ou controlar-se quaisquer vivências ou manifestações religiosas. Estão a confundir laicismo com o ideal da ausência de religião em todos os domínios da vida. Perversa e paradoxalmente, estão a erigir o ateísmo a religião oficial do Estado. Uma ideia que felizmente entre nós nem o Bloco de Esquerda teve ainda a lata de defender. Mas que em França vai conseguindo o improvável milagre – privilégio das ideias verdadeiramente cretinas - de unir a esquerda mais radical à direita mais troglodita. Esperemos ao menos que a coisa se fique por lá.»
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Exaltações laicas
Hoje, na sequência de uma manifestação de estudantes e professores da Universidade La Sapienza, em Roma, que reivindicava o direito a uma recepção hostil ao Papa, na visita marcada para o próximo dia 17, o Vaticano preferiu a prudência e anunciou o cancelamento da iniciativa.
De acordo com os slogans, e na versão do El País, estaria em causa a defesa da laicidade da ciência. Mais: a defesa do carácter laico do ensino público em Itália. De acordo com uma carta remetida ao Reitor, e depois divulgada à imprensa, subscrita por 67 professores – na sua maioria do departamento de física –, o Papa é um obscurantista. E, pior, como acrescenta um grupo de estudantes anarquistas, a hierarquia do Vaticano tem vindo a invadir a totalidade do espaço público, pronunciando-se sobre qualquer lei, influenciando e condicionando o poder político.
Na base do ruído, avultaria a memória de uma remota intervenção do Cardeal Ratzinger, na Universidade de Parma, em 1990, sustentando que, na época de Galileu, a Igreja ter-se-ia mantido muito mais fiel à razão do que o próprio Galileu… Aviltados, os estudantes convocaram uma semana anti-clerical e os ânimos exaltaram-se sem remissão. Perante o calor, o Vaticano resolveu recuar e, pela primeira vez desde a sua eleição, o Papa não cumprirá o programa estipulado. Em homenagem à ciência e ao ensino laicos, as cerimónias de abertura do ano lectivo da principal universidade pública de Roma não serão assombradas pela presença de Bento XVI.
O episódio apela ao antecedente de Ratisbona. Um dito perdido na sombra dos tempos, uma citação fora de contexto, uma divulgação ordenada à causação do dano. Simples, mas tremendamente eficaz.
Juntar a fome à vontade de comer
As razões não serão as melhores (Rangel acalentava a esperança de ser convidado para a administração da RTP?) e, sobretudo, o estilo carroceiro não se recomenda. Mas a verdade é que, descontados os insultos gratuitos, o retrato que traça do Ministro Santos Silva (para ler aqui) não andará muito longe da realidade. Juntar um Primeiro Ministro irascível e que não convive bem com a crítica a um Ministro que tutela a Comunicação Social com um programa dirigista para os media é um cocktail explosivo. O ar já foi mais respirável em Portugal.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Alcochete (II) – Compreender a decisão.
A compreensão de uma decisão governamental como a relativa à escolha da construção de uma grande infraestrutura pública depende em grande medida dos pressupostos de análise. A escolha desses pressupostos depende por seu lado de interpretações teóricas sobre o funcionamento da sociedade. A lista de pressupostos a escolher – e portanto de teorias sobre o funcionamento das sociedades – é enorme. Podemos escolher pressupostos que relevam a conspiração, o interesse privado dos políticos, os lobbies, a ignorância dos governantes ou a inoperância das instituições. Na História Económica, todavia, há um outro pressuposto que melhor ajuda a compreender o que se passa.
Trata-se de partir do princípio que as decisões tomadas reflectem acima de tudo as relações existentes entre as várias forças económicas. Esse pressuposto é tão mais válido quanto mais longo for o período em análise, uma vez que se pode mais facilmente defender que a verdadeira relação de forças tem o tempo suficiente para se definir e manifestar. O caso da decisão sobre a construção e a localização do novo aeroporto de Lisboa é um bom caso para aplicar o pressuposto acima enunciado. Com efeito, a decisão em causa teve um período de incubação largo de décadas, podendo inclusivamente ser remetido ao início dos anos 1970, embora a intensidade da discussão tenha sido maior, claro, na última década.
Ora, se atendermos a que a decisão reflecte de facto o estado actual da economia portuguesa, o que revela então a decisão recentemente anunciada de construir a novo aeroporto em Alcochete? Quanto a mim, revela essencialmente duas coisas. A primeira é o peso que a existência de uma vasta região ainda pouco ocupada do ponto de vista económico tem na configuração da economia portuguesa. A segunda revela expectativas quanto ao maior potencial de crescimento do sector dos serviços relativamente ao sector da indústria manufactureira. A escolha de Alcochete representaria assim o aproveitamento de condições na fronteira geográfica do país, o Alentejo, e de crescimento dos serviços. Esta interpretação é preliminar e precisaria de ser confirmada com o recurso a alguma informação adicional. Mas é uma interpretação plausível e que permite melhor compreender o que se passou. Ela pode ser falsa (se o for, então teremos de rever a análise, incluindo a escolha dos pressupostos, o que nos levaria a outras explicações).
Vejamos então brevemente qual o papel do Alentejo na nossa economia, para o que será necessário recuar a períodos em que a agricultura ainda tinha alguma importância. Em termos europeus, o Alentejo foi durante muito tempo uma terra de fronteira, isto é, um território sub-povoado e sub-aproveitado, do ponto de vista da exploração agrícola. O aproveitamento começou seriamente talvez na segunda metade do século XVIII e seguramente ao longo de todo o século XIX e da primeira metade do século XX. A existência dessa vasta área por explorar implicou a canalização de recursos para a exploração cerealífera. Todavia, apesar da existência de vastas áreas por ocupar, a produtividade do trabalho e da terra manteve-se muito abaixo da de outras partes do Mundo, o que implicou que tal expansão só pôde ser feita sob forte proteccionismo alfandegário e governamental. Isso teve implicações essencialmente negativas para o resto do País (embora tenha também tido algumas consequências positivas, se é verdade que permitiu em momentos cruciais aliviar a conta das importações de produtos alimentares). Mas o que é que os governos podiam ter feito? Havendo uma vasta região por explorar, ela podia ser deixada ao abandono?
A pergunta pode ainda ser feita, nesta primeira década do século XXI, embora em relação a outros sectores económicos que não o da agricultura. O Alentejo aparece agora a querer dar cartas precisamente no sector dos serviços.
A expectativa de que o sector dos serviços tenha um maior potencial de crescimento em Portugal faz sentido por várias razões ligadas à história recente da economia nacional e também da economia europeia. Ora aí a região de Alcochete tem vantagens relativamente à região da Ota. Esta última está mais próxima das velhas zonas industriais do País e apresenta algumas dificuldades, uma vez que a conversão implica não só a construção do novo mas também a destruição do velho, com os custos adicionais inerentes. A região de Alcochete, ao contrário, aparece como ideal para o desenvolvimento dos serviços e não só do turismo. Recorde-se que os promotores dessa localização apontam como vantagem a facilidade de desenvolvimento de uma “cidade aeroportuária” com capacidade de aproveitar sinergias decorrentes da utilização do aeroporto projectado.
A cosntrução será também um sector a beneficiar da decisão. Aliás, será precisamente o primeiro sector a responder. Isso acontece nas duas localizações rivais, embora em Alcochete o estímulo possa ser maior, se for verdade que haverá mais a construir aí.
O facto de se compreender a decisão recorrendo a esta interpretação eminentemente económica e que recorre a uma caracterização da estrutura da economia portuguesa ajuda a melhor perceber o processo político. Mas é apenas meio caminho andado. A qualidade da decisão dependerá do seguimento que os governos lhe souberem dar. Alcochete pode revelar-se ainda um elefante branco, à semelhança do complexo de Sines, projecto que foi feito sob argumentos semelhantes, no início da década de 1970. Se o seguimento for negativo, a decisão claramente também o é.
Do Actual Histerismo Anti-Religião às Novas Utopias Totalitárias

Nesse âmbito, podemos ainda e sempre relembrar também, julgando razões haver para sorrir, o bom do Afonso Costa, fervorosamente republicano, laico e socialista, vaticinando, no auge da I República, a plena extinção de todo o sentimento e consequente prática religiosa, em duas ou três gerações. No entanto, não se nos afigura haver grandes razões para sorrir: desde os idos dias dos Philosophes, da Enciclopédia e da funesta Revolução Francesa, ciclicamente ressurgem, não augurando nada de bom, esses momentos do mais puro fanatismo, radicalismo e fundamentalismo anti-religião, exactamente como o que estamos vivendo actualmente.
Hoje já não pontificam os Diderot, os d’Alembert, os Voltaire, os Rousseau e todos os demais «enciclopedistas», mas os Michel Onfray, os sempre os mesmos e inevitáveis Richard Dawkins e Daniel Dennet, entre alguns outros, como um tal de Sam Harris e um tal Christopher Hitchens, ambos com direito já a muito céleres traduções, com a devida pompa e circunstância, para a língua de Camões.
A obra do último, Christopher Hitchens, «deus não é Grande», viria a sair mesmo, muito a propósito, já em plena época natalícia, sendo logo objecto de muita e estridente propaganda, muita recensão, muita entrevista, como convém a este tipo de obras. No essencial, porém, as teses apresentadas parecem pouco acrescentar à obra do anterior Sam Harris, personagem até hoje absolutamente desconhecida mas que, não obstante a sua natural obscuridade, honrado se viu já com mundial aplauso pelo intrínseco valor único da sua obra, «O Fim da Fé – Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão», constituindo-se inclusive como referência primeira para os inevitáveis mas, apesar de tudo, mais reputados, Dawkins e Dennet. Assim, tomemos por todos, neste momento, «O Fim da Fé – Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão», para tentarmos compreender onde estes enfatuados senhores nos pretendem, afinal, conduzir e levar.
Em edição da Tinta da China, «O Fim da Fé – Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão», é apresentado entre nós também como «O Livro Negro da Religião», numa muito oportuna e ampla visão de marketing da lusa editora _ afinal, um «Livro Negro» é sempre um «Livro negro» e, no tempo de negrume que nos é dado viver, sempre venderá, com certeza, muito mais do que um simples «O Fim da Fé» que, a bem verdade, a muito poucos, hoje, preocupará. Mas vamos ao que importa.
«O Fim da Fé – Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão» abre com este magnífico relato no mais puro estilo hollyoodesco: «Um jovem entra num autocarro quando este se prepara para abandonar a paragem. Traz um sobretudo vestido. Debaixo do sobretudo, leva uma bomba. Os seus bolsos estão cheios de pregos, rolamentos de esferas e veneno para ratos.[...] O casal ao seu lado parece andar à procura de um frigorífico novo. A mulher já escolheu um modelo, mas o marido acha que deve ser demasiado caro. Indica outro num catálogo que ela tem aberto sobre o colo...». Desnecessário prolongar a transcrição. O brevíssimo excerto aqui deixado é já suficientemente elucidativo da índole, carácter e estilo do pobre Harris. No final, há, como não poderia deixar de haver, a explosão da bomba, o regozijo da família e vizinhos pela morte heróica do rapaz do sobretudo debaixo do qual escondia a bomba, e muita pergunta patética: «Estes são os factos. É tudo o que sabemos ao certo sobre o jovem. Haverá mais alguma coisa que possamos inferir a partir do seu comportamento? Seria popular na escola? Seria rico ou pobre? Seria muito ou pouco inteligente?...», e por aí fora até ao esperado grande clímax: «Porque será, então, que é tão fácil, tão trivialmente fácil _ tão fácil que quase poderíamos apostar a nossa própria vida _ adivinhar a religião deste jovem?»
Quase poderíamos admirar Sam Harris se a afirmação de «apostar a própria vida» não fosse apenas uma figura de estilo sem outra consequência senão a de muito má e inconsequente retórica. Afinal, a que religião são os actos de ataque suicida específicos? Se passarmos muitas horas a ver televisão, talvez possamos conjecturar com algum grau de verosimilhança qual a resposta que Sam Harris daria ou dá mas, na realidade, o que se sabe, como os estudos mais sérios sobre o assunto indicam, é terem tido os ataques suicidas cometidos desde os anos de 1980, em cerca de 85%, motivação essencialmente política, independentemente de qualquer específica fé religiosa. Tais dados, porém, não embaraçam, comovem ou diminuem o histerismo anti-religião de um Sam Harris. E este é apenas um exemplo entre outros da probidade «científica» destes novos arautos de um racionalismo sem mácula que verberam, a torto e a direito, sempre com ar de grande escândalo, a «irracionalidade» da fé.
A probidade científica e intelectual do autor encontra-se, aliás, igualmente bem espelhada no triste episódio relativo às considerações estabelecidas sobre os mais totalitários, sanguinários e desapiedados regimes do século XX. Defendendo Sam Harris a tese segundo a qual a fonte e causa das piores atrocidades humanas e de toda a violência humana residem em exclusivo na fé ou religião, incapaz sendo de distinguir ambos os conceitos, os regimes de Hitler, Estaline, Mão-Tsé-Tung, Pol-Pot ou Kim Jong-il, surgem, naturalmente, como uma espécie de regimes que refutam liminarmente da sua tese. Ou seja, constituindo-se como uma espécie de regimes desmancha-prazeres, nada melhor do que, para eliminar, de vez, tão inoportuna maçada, postular, desde logo, o seu carácter religioso, sem mais. E uma vez tal realizado, sem necessidade de recorrer a fastidiosas demonstrações ou a quaisquer outros argumentos sempre passíveis de refutação, quando alguém lembrar o carácter eminentemente secular de tais regimes, Sam Harris, do alto da sua inocência, limitar-se-á a referir tal postulado estar já e, por consequência, mais não ser necessário dizer, a não ser, evidentemente, quando completamente impossível é escamotear tal evidência, acrescentar apenas «não serem», ou terem sido, «especialmente racionais» (pág.259). Ora, como a fé provém da irracionalidade, mais sofisma menos sofisma, paralogismo menos paralogismo, tudo vai dar no mesmo. Como método, é brilhante, mas se isto não é a mais pura má fé, o que «má fé» possa ser, deixamos de saber.
Os disparates de Sam Harris, o seu carácter e manifesta desonestidade intelectual, não nos interessam particularmente. Os Sam Harris não são de hoje, são de sempre, e, com grande probabilidade, nunca irão desaparecer nem faltar. O que importa é distinto, é perceber o porquê e o para quê de todo este novo histerismo anti-religião, todo este frenesim editorial, toda esta exaltada propaganda em torno de tão fracas obras.
Num ponto teremos de reconhecer a honestidade dos autores referidos, ao explicitarem, sem hesitação nem margem para dúvidas, a sua consciente motivação ao escrevem e publicarem as respectivas obras. Para Sam Harris, como afirma a páginas 17, a sua principal intenção ou motivação é «mostrar que o próprio ideal de tolerância religiosa _ com origem na ideia de que todos os seres humanos devem ser livres de acreditar naquilo que quiserem sobre Deus _ é uma das principais forças que nos arrastam para o abismo», parecendo, neste particular, ser até um pouco mais ambicioso que um Dawkins, para quem a redacção e publicação do seu «The God Delusion» teve, tem, apenas como expressa intenção, a esperança de transformar cada leitor num ateu militante.
Numa primeira instância, perante tão pueris e patéticas intenções, para não referir já a mais pura infantilidade da maioria da argumentação, dir-se-ia não haver motivo para preocupação. Todavia, algo mais fundo e grave subjaz a estas obras, das quais «O Fim da Fé» é um exemplo perfeito, ou seja, o que subjaz e, a pouco e pouco, por repetição até à exaustão e completa disseminação entre a principal intelectualidade actual, é o desejo de edificação de um Nova Utopia Totalitária, como é próprio de todas as utopias, bastando para tal relembrar tão só as mais famosas, seja a propriamente dita Utopia de Thomas Morus, seja a Cidade do Sol de Campanella, fundando-as nos três seguintes momentos decisivos: 1) Imposição do primado absoluto do materislismo; 2) Imposição da Razão Científica como Razão Absoluta; 3) Negação absoluta da individualidade em detrimento do Colectivo ou do mais antigo Ser Genérico.
Não por acaso, há, em simultâneo, um recrudescimento do um certo neodarwinismo, mais fundamentalista que o próprio Darwin alguma vez ousaria defender, de modo a tentar provar não ser o Homem mais do que fruto e mero acaso de uma suposta e todo poderosa evolução material do universo, retoma-se também com novo ímpeto e largo fôlego, o velho determinismo de um Laplace: «Uma inteligência que, num momento dado, conhecesse todas as forças que animam a natureza, e a situação respectiva dos seres que a compõem, se além disso fosse assaz poderosa para submeter esses dados à análise, abrangeria na mesma fórmula os movimentos dos maiores corpos do universos e os dos átomos os mais ténues: nada para ela seria incerto, e o futuro como passado seria a seus olhos presente».
Assim, começamos a perceber um pouco melhor onde todos estes movimentos actuais nos pretendem conduzir, sobretudo quando, no plano da «inteligência» de Laplace, se coloca hoje a «razão científica», absolutizada. Uma «razão científica» que, em boa verdade, não é já sequer «científica», razão decorrente do pensamento científico, mas tão só «razão tecnológica», se assim podemos dizer, ou seja, razão da tecnologia ou absoluta autonomização da Técnica em relação à Ciência, à velha Ciência dos Gregos e Medievais, distinção, aliás, a que um Sam Harris não chega, como seria de esperar. Todavia, não deixa de escrever, logo a páginas 16, «A tecnologia, porém, possui a faculdade de criar novos imperativos morais», e a páginas 47, «a ciência não irá permanecer silenciosa em questões espirituais e éticas durante muito mais tempo», sem no entanto explicitar exactamente o alcance da sua afirmação.
Sam Harris não explicita mas é possível deduzir. Sendo da «natureza da fé impedir a indagação intelectual», um primeiro passo, será repudiar, sem contemplações, toda e qualquer forma ou manifestação de fé. Logo depois, negando «a concepção ingénua de uma alma que seja independente do cérebro», páginas 231, haverá apenas que atacar a última e derradeira fronteira, a mente, na expressão anglo-saxónica, ou seja, avançar destemidamente por essa lúgubre ciência do século XXI, a Neurociência, compreendendo também como «o sentido do eu parece ser produto da representação que o cérebro faz dos seus próprios actos de representação».
Claro, dado o «estado da arte» da neurociência actual, Sam Harris aprece comedido. É uma táctica muito típica, dando sempre a ilusão de genuína precaução científica. Todavia, não tem dúvidas que estamos a entrar num mundo estranho, um mundo onde «a nossa própria humanidade em termos genéticos, já não é uma condição necessária da existência. A fusão das inteligências humana e artificial é também uma séria possibilidade...(pág. 244)».
Para não assustar ninguém, Sam Harris ainda parece aceitar um vago misticismo: «Os mistérios velados do mundo podem ser analisados através de conceitos (pela ciência), ou podem ser experienciados livres de conceitos (pelo misticismo)». Mas não nos deixemos enganar, a sua verdadeira fé reside inteira na Neurociência ou Neurociências, como se costuma também dizer, encontrando-se mesmo, neste momento, segundo a biografia exposta na badana do livro, «a concluir um doutoramento em neurociências, estudando a base neural da crença, da descrença e da incerteza».
Sabendo também do «futuro estranho que temos à nossa frente: máquinas de ler a mente, realidade virtual genuína, implantes neurológicos e drogas cada vez mais sofisticadas», com «implicações na visão que temos de nós próprios, bem como das nossas possibilidades espirituais» (pág.244), só não fica preocupado quem imagina que os sonhos eugénicos, tanto de nazis quanto de suecos muito democráticos e social-democratas, como múltiplos outros de que nem teremos conhecimento, são sonhos irremediavelmente perdidos no passado. Para quem conheça um pouco mais fundo a natureza humana, as preocupações não podem deixar de ser evidentes.

José Manuel Rodrigues - Amsterdam, 1984
Sim, em termos objectivos, tanto o livro de Sam Harris como dos restantes, são livros contra a Religião. Mas não sejamos ingénuos, o que se prepara é muito mais do que isso, o que se prepara é, como referido, a edificação de uma Nova Utopia Totalitária, fundada na «razão científica» e justificada pela sua presumida perfeição e capacidade de tudo recriar à sua imagem e semelhança. Não por acaso, também, a ilusão de Dawkins de poder fundar uma nova ética recorrendo em exclusivo à «razão científica». Se todo o comportamento humano depende apenas e em exclusivo dos genes e uma certa disposição dos neurónios, se não há individualidade ou não se lhe atribui aquele mínimo de sacralidade como desde o cristianismo sempre teve, então tudo é possível, tudo será permitido, seja em nome de um abstracto colectivo ou de uma qualquer deificada razão humana, demasiado humana. Teremos, enfim, uma existência devidamente ordenada, devidamente asséptica, devidamente racional. Se ainda teremos vida é outra questão mas que pouco importará já.
domingo, 13 de janeiro de 2008
sábado, 12 de janeiro de 2008
Ainda a liberdade
Porque, se a ideia decorre de uma constatação de facto – e, portanto, do reconhecimento empírico de uma liberdade por entranhar no sentido profundo da vida individual e colectiva –, nada é mais urgente do que imputar responsabilidades. E, nesse caso, a tal geração que viveu sem liberdade, a de Pacheco Pereira justamente, terá contas sérias a acertar com a história. Conquistada a liberdade, desinteressaram-se da sua pedagogia. Serviram-se da liberdade, numa perspectiva que não ousou ser mais do que utilitária e que assim deixou por fazer a apologia intransigente do seu absoluto.
Mas, se o argumento tem razões de ciência, pior ficamos. Nessa hipótese, Pacheco Pereira reconduz o horizonte da liberdade à esperança de vida da geração que fez o 25 de Abril. O que é algo extraordinário. No entanto, como ele próprio diz, sem volta a dar. Por causa de Salazar, da censura e da polícia, a liberdade não tem vocação de perenidade. A coisa acaba mesmo com o túmulo – o túmulo dos anti-fascistas e resistentes.
A essa luz, é desde logo seguro que nós, crianças em 1974, estamos confrontados com uma capitis diminutio política. Nós não podemos prezar a liberdade como quem viveu privado dela. Para nós, a liberdade é, apenas, uma meia-liberdade. E, no nosso maior arrojo, seremos apenas meio-libertários.
Será que Pacheco Pereira quis dizer isto? Será que ele acredita nisto?
Na dúvida, talvez seja de lhe confiar o essencial. Para nós, viver sem liberdade é tão impensável como viver sem ar. A liberdade é condição vital da nossa realização. Valorizamo-la nessa exacta medida. Defendemo-la com esse alcance. Sabemo-la frágil e vulnerável por natureza. Mas acreditamos na pedagogia e na vigilância.
Ora, exactamente por isso, só sossegaremos no dia em que a liberdade for capaz de refutar derivas autoritárias, para lá da memória de Salazar, da censura e da polícia. Ainda que tal espante Pacheco Pereira, só mesmo nesse dia.
Portugal e o Tratado de Lisboa
O Governo decidiu que o Tratado de Lisboa não será objecto de Referendo mas apenas levado a aprovação à Assembleia da República para posterior ratificação pelo Estado Português. Dir-se-á uma decisão certa por razões erradas mas, ainda assim, uma decisão certa que não vale a pena procurar combater por razões que seriam sempre também, por consequência, razões erradas.
Ericeira, Rastos na Areia, 1962
Carlos Afonso Dias
Ninguém duvida já da próxima aprovação do Tratado pela Assembleia da República e a sua posterior ratificação pelo Governo. Todavia, importa não esquecer que o Tratado mantém intocável o famigerado artigo do projecto de Constituição que retira a plena soberania a Portugal sobre a sua ZEE (Zona Económica Excusiva).
Pelas razões já apresentadas em anterior «post», defendemos que, a partir desse dia, Portugal entrará num processo final de evanescência sem remissão. Um primeiro passo são os seres vivos, logo depois virá a Guarda Costeira Europeia e quando acordarmos não seremos senão, de facto, a West Coast da Europa, onde os mesmos Europeus virão usufruir do agradável clima, deliciar-se com as magníficas praias e paisagens, enquanto degustam o «seu» excelente pescado eventualmente acompanhado por um fresquinho Verde, talvez ainda produzido por um velho português caturra.
No dia da votação do famigerado Tratado de Lisboa, talvez relembremos ainda o velho dito de Fernão Lopes (se a memória não nos atraiçoa), segundo o qual, «entre os portugueses, traidores houve algumas vezes». Poderemos mesmo identificá-los mas, infelizmente, de pouco nos valerá já _ mesmo esses poderão sempre desculpar-se pela subjugação à muito aplaudida, venerada e amplamente aceite ignomínia da «disciplina de voto», sem a mínima consciência da inconsciência com que sempre fazem tudo quanto fazem.
É triste? É, é triste, muito triste, francamente triste. Somos uma nação ocupada, em evanescência, em que poucos são aqueles que ainda prezam a liberdade, a independência e têm verdadeiro orgulho de serem e se reconhecerem como portugueses.
Alcochete: A Vitória dos Planos Socialistas (I)
"Conclusões do estudo encomendado pela CIP
Aeroporto em Alcochete custa menos três mil milhões de euros do que na Ota
A construção do futuro aeroporto internacional de Lisboa na localidade de Alcochete, na margem sul, permitirá poupar três mil milhões de euros em relação à proposta que se encontra em cima da mesa e que é a Ota, a norte do Tejo.”
in Público.pt 26.10.2007
Cavaco Silva deve estar arrependido de ter posto em causa a decisão de construção do novo aeroporto de Lisboa na OTA. Digo isto, porque o que agora foi decido contrasta para mim claramente com o que a história recente nos diz que é o pensamento económico do ex-Primeiro-ministro. E digo isso também porque contrasta com a forma como ele via a governação.
Um neo-keynesiano vê o investimento em grandes obras com grande cautela. A razão é que ele sabe olhar para o passado e perceber que muitos dos grandes investimentos se tornaram elefantes brancos. Essa cautela obriga a que se siga um princípio básico, entre outros, a saber, que a intervenção do Estado através da promoção do investimento deve ser feita atendendo aos sinais do mercado. Isso implica que o decisor político não se pode transformar num planificador a imaginar o futuro. A decisão de construir na Ota coadunava-se com esse princípio. A crítica que Cavaco Silva fez ao aeroporto prendia-se sobretudo com o preço e a necessidade da sua construção, e não com a localização. Agora vai assistir à construção não só do novo aeroporto, como de uma "cidade aeroportuária", num país que carece enormemente do reordenamento dos centros urbanos existentes.
Cavaco Silva também não deve estar contente porque a mudança de posição do Governo foi feita, aparentemente, através dos jornais. Ele, que dizia que não lia jornais, terá ficado incomodado com essa circunstância. A verdade é que estas grandes decisões devem descer à praça pública e nela serem discutidas. Mas isso deve ser feito com equilíbrio e tendo os governos plena capacidade de decidir no fim. Ora, o que aconteceu com a decisão em causa foi que algumas pessoas tiveram o acesso privilegiado aos jornais.
Esse acesso traz um grande problema, pois os jornais não têm capacidade suficiente para avaliar a qualidade relativa das opiniões e por isso opiniões infundadas apareceram com a mesma importância das opiniões mais fundadas. A opinião pública ficou baralhada e a uma certa altura definiu-se em função da credibilidade que dava ao Governo.
Os jornais permitiram que pessoas que descobriram vantagens em que o aeroporto fosse para sul do Tejo fizessem chegar as suas posições ao público. Os interesses no aeroporto mais a sul são obviamente os de pessoas e empresas do Norte, que assim vêem baixar a concorrência de produtos e serviços de fora (um argumento que teria de ser desenvolvido para ser sólido); de pessoas ligadas aos terrenos que vão ser beneficiados pelo novo aeroporto (aqui aparece o argumento risível de que isso assim não é pois os terrenos do aeroporto são do Estado – uma vez que se trata da valorização da área envolvente); de pessoas que estão ligadas à construção de certas infrestruturas a sul; e também de pessoas que têm o potencial de beneficiar da construção da cidade que vai nascer para bandas de Alcochete.
Todos estes interesses são legítimos e o Estado só deve, precisamente, apostar em sectores onde haja à partida interesses a manifestarem-se. Só assim o Estado consegue “ler” o mercado, questão crucial para a s boas decisões, como acima se disse. O problema é que esses interesses colidem com os interesses que giravam em torno da Ota e podem não ser os melhores para o País.
Os cabeçalhos anunciavam que Alcochete levaria à poupança de três mil milhões de Euros em relação à Ota. Afinal são só cerca de 300 milhões, todas as contas feitas. Serão 4,9 em vez de 5,2 mil milhões, uma diferença que nem a margem de erro destas contas deverá cobrir. Para além da incerteza quanto a uma série de outros factores financeiros extremamente importantes como sejam as compensações financeiras da UE, que podem vir a ser menores (não percebo como há quem diga que não são importantes); as compensações necessárias à região preterida e que esperou 10 anos; os custos adicionais que os consumidores terão de pagar para atravessar as pontes; e, acima de tudo, os custos de uma opção típica de planificação, a da construção de uma cidade aeroportuária.
A esse úlitmo ponto tentarei voltar mais tarde, quando tiver acabado de digerir cabalmente toda esta impressionante notícia.
Está uma consciência...
A verdade é que o terreno que passa a pisar está menos defendido em relação à mentira grosseira ou sofisticada. É um mundo de camarins, com lâmpadas atentas às imperfeições e make-ups capazes de dar qualquer solução.
Atrás de um grande homem...
Quando se olha para a fotografia de David Axelrod não se dá grande coisa por ele. Mas sem este guru da estratégia política Barack Obama poderia não ser o sério candidato à vitória no campo democrático que todos, hoje, reconhecem.Nasceu em Chicago, como Obama. Tem 52 anos. Começou como jornalista, actividade que abandonou há quase 20 anos, para se dedicar a consultoria política.
Primeiro grande sucesso: definiu e dirigiu a estratégia de comunicação do primeiro mayor negro de Chicago. Não foi o seu único êxito: até agora ganhou 80% das campanhas que liderou. Falta-lhe a cereja em cima do bolo: a vitória numa campanha presidencial.
Esta não é a primeira vez que David apoia o candidato. Era o seu braço direito na corrida ao Senado, em 2004. Agora, uma vez mais, Axelrod é o master mind da estratégia de Barack Obama. Escreve-lhe os discursos, confere-lhe autenticidade aos gestos, oferece-lhe os soundbytes.
David Axelrod é o homem atrás do grande homem.
Se Obama ganhar, a quem atribuir o sucesso: a Obama por ter escolhido um estratego genial ou a Axelrod por ter escolhido o melhor candidato?
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
Postais da Índia III
Nas últimas eleições indianas votaram 380 milhões de pessoas de um total de 675 milhões de eleitores registados. 5398 candidatos de 220 partidos políticos distintos disputaram 543 lugares no parlamento. Para tanto, no país estiveram em funcionamento 700.000 mesas de voto e 1,2 milhões de máquinas de voto electrónico. (*)
É reconfortante lembrar que, antes de ser um milagre económico, a Índia é um verdadeiro milagre da democracia.
(*) cito dados de Pavan K. Varma. The WEEK.
Héraclite, Allégories d’Homère, Les Belles Lettres, Paris, 2003
O Heraclito de que aqui falamos não é o filósofo, o obscuro, mas o filólogo. Não o Heraclito, “rei” em Êfeso, mas o Pôntico. Não o filósofo do século VI a.C., mas um filólogo do século I d.C. Mais de seiscentos anos os separam, tanto quanto D. João I está longe de nós. Que duas figuras tão diversas e em épocas tão diversas, pertencendo as duas à cultura grega é certo, fossem idênticas seria de espantar.
Heraclito é mais um dos exemplos de como a cultura grega padeceu da fractura entre a cultura filosófica e filológica, em suma entre a filosofia e a erudição. Uma luta que ainda hoje em dia se sente quando uns preferem Wilamowitz-Moellendorf a Nietzsche, ou Heidegger a Jaeger, ou Croce a Mondolfo, ou Sartre a Meillet, como se uns ou outros se pudessem substituir. E esta luta podia ser feroz.
Hoje em dia tem-se a ideia do divino Platão, do religioso Platão, mas esquecemo-nos de como ele poude ser feroz com os mitos gregos. Durante séculos houve quem não se esquecesse. Muitos dos eruditos não o fizeram. E Heraclito é um dos muitos exemplos, e talvez o mais arrebatado. O seu ódio por Platão é imenso, a sua critica irritada contra o blasfemo Platão. Porque o santo e o blasfemo sempre estiveram próximos.
Heraclito é também um de muitos exemplos de como a visão pacata da cultura grega apenas tem sentido para quem a vê morta, para quem nunca a viveu. A ideia de alegoria tem a sua marca etimológica muito fresca em Heraclito. A alegoria leva para outro sítio. Não se satisfaz com o texto. Sabe que o texto pode gerar insatisfação. Por isso leva-o para outro lado. A alegoria medieval é bem outra coisa. Originalmente a alegoria implica vir de um ponto de partida para chegar a outra coisa. A alegoria medieval começa logo no ponto de chegada. Sabe que apenas se está a representar algo que é o ponto de partida do discurso.
Hoje em dia há quem leia a Bíblia e fique insatisfeito com ela. E por isso compara com uma cultura grega supostamente serena e imutável que se teria satisfeito com os seus textos fundadores. Nenhuma cultura é assim, nem nunca foi. Apenas está satisfeito com a letra do texto quem nunca o percebeu. Fazer entrar a alegoria na análise do texto pressupõe várias coisas, ricas, mas desagradáveis. Que o texto tem de ser traduzido, que só se pode traduzir levando-o para outro lado, para outro sentido. Mas a alegoria grega fez algo mais que a simples teologia cristã. A teologia cristã, pelo menos ortodoxa, nunca abdicou da narrativa, ou seja da carne. A teologia grega tende cada vez mais para o que Proclo fará como chave de ouro: a destruição de toda a narrativa, de toda a carne do mito. Se Proclo levou a religião grega para bem fora do que era a sua vivência carnal é porque esse trabalho já tinha na sua época mais de mil anos de percurso. E Heraclito é uma das pedras nesse caminho.
Mais uma vez tudo isto parece irrelevante para o tempo actual. E mais uma vez não é. Quando da discussão da constituição europeia foram os mesmos que recusaram o cristianismo como fonte europeia que vieram a aceitar a cultura grega como herança da Europa. No que têm razão, mas exactamente por não saberem em que a têm. Porque a cultura grega não é apenas o discurso de Péricles, em suma, bem datado e bem situado geograficamente no seu espírito. Nem sabemos se foi mais discurso de Tucídides que de Péricles. Se como europeus somos herdeiros da Grécia, é porque somos igualmente herdeiros da sua infinita riqueza, da sua natureza multiforme, das suas lutas, das suas dilacerações. Sem o discurso de Péricles teríamos perdido uma pérola. Só com ele esquecemos todo o resto do tesouro.
Alexandre Brandão da Veiga
http://www.lesbelleslettres.com/livre/?GCOI=22510100524570
Vida Nova
Dito isto, mais importante é notar que os analistas são interessantes de ler quando transmitem conhecimentos. Não basta ser inteligente para ser interessante, é preciso saber coisas. Pulido Valente sabe e sempre soube quem faz o quê e geralmente porquê. A grande vantagem dos analistas mais velhos está aliás aí. Eles conhecem bem os principais protagonistas, sabem quem contactar para saber mais e por aí fora. Mas Pulido Valente (como outros, mas isso aqui não interesse pois a liga é só dele) está a perder o pulso ao que se está a passar com as pessoas mais novas. Eu sei isso, porque ouço frequentemente esse comentário, a que presto atenção sobretudo quando vem de pessoas que gostam imensamente do que ele representa. Este fenómeno não é novo e na Grã-Bretanha até tem um nome, que escrevo aqui porque sei que pode ser lido com sentido de humor: “grumpy old men”.
É preciso ter em atenção que muitas das pessoas que hoje escrevem nos jornais nunca estiveram em cafés a olhar para o lado a ver se estava algum “bufo” da PIDE. Essa preocupação é genuína e a herança não pode ser esquecida. Mas já lá vão alguns anos. Pode voltar? Claro que pode voltar. Mas a nossa vida – e o nosso pensamento – não pode viver com esse estigma. Por uma simples razão: tal estigma não serve para nada.
















