sábado, 12 de janeiro de 2008

Ainda a liberdade




“Prezam a liberdade de uma forma que só
pode ser prezada por quem não a teve (…)”.
José Pacheco Pereira, Público, 12 de Janeiro de 2008




Ao recorrer ao argumento que funda a autoridade para a defesa da liberdade na legitimidade histórica decorrente da experiência subjectiva e concreta da sua ausência, Pacheco Pereira diz o que pensa. Mas, infelizmente, sem pensar até ao fim.
Porque, se a ideia decorre de uma constatação de facto – e, portanto, do reconhecimento empírico de uma liberdade por entranhar no sentido profundo da vida individual e colectiva –, nada é mais urgente do que imputar responsabilidades. E, nesse caso, a tal geração que viveu sem liberdade, a de Pacheco Pereira justamente, terá contas sérias a acertar com a história. Conquistada a liberdade, desinteressaram-se da sua pedagogia. Serviram-se da liberdade, numa perspectiva que não ousou ser mais do que utilitária e que assim deixou por fazer a apologia intransigente do seu absoluto.
Mas, se o argumento tem razões de ciência, pior ficamos. Nessa hipótese, Pacheco Pereira reconduz o horizonte da liberdade à esperança de vida da geração que fez o 25 de Abril. O que é algo extraordinário. No entanto, como ele próprio diz, sem volta a dar. Por causa de Salazar, da censura e da polícia, a liberdade não tem vocação de perenidade. A coisa acaba mesmo com o túmulo – o túmulo dos anti-fascistas e resistentes.
A essa luz, é desde logo seguro que nós, crianças em 1974, estamos confrontados com uma capitis diminutio política. Nós não podemos prezar a liberdade como quem viveu privado dela. Para nós, a liberdade é, apenas, uma meia-liberdade. E, no nosso maior arrojo, seremos apenas meio-libertários.
Será que Pacheco Pereira quis dizer isto? Será que ele acredita nisto?
Na dúvida, talvez seja de lhe confiar o essencial. Para nós, viver sem liberdade é tão impensável como viver sem ar. A liberdade é condição vital da nossa realização. Valorizamo-la nessa exacta medida. Defendemo-la com esse alcance. Sabemo-la frágil e vulnerável por natureza. Mas acreditamos na pedagogia e na vigilância.
Ora, exactamente por isso, só sossegaremos no dia em que a liberdade for capaz de refutar derivas autoritárias, para lá da memória de Salazar, da censura e da polícia. Ainda que tal espante Pacheco Pereira, só mesmo nesse dia.


7 comentários:

João Brito de Sousa disse...

Não leu com atenção o que diz Pacheco Pereira. Em nenhum sítio ele afirma que o pensamento da liberdade é apenas penhor dos que a não conheceram. O que ele faz é falar da liberdade numa perspectiva biográfica, da sua e da sua geração. E estou longe de perceber porque razão diz a enormidade de que essa geração "terá contas sérias a acertar com a história. Conquistada a liberdade, desinteressaram-se da sua pedagogia. " Foram as pessoas da geração do Pacheco Pereira que criaram o ambiente do 25 de Abril e depois combateram muitos desvios esquerdistas desde 1975 até à estabilização democrática dos anos oitenta. O que penso ele não fará nem entenderá é isso da "pedagogia da liberdade" uma ideia paternalista que é o contrário da que ele defende? O que escreveu é tudo muito confuso e ignora muito do que Pacheco pereira tem escrito e há muitos anos sobre o assunto com notável coerência.

Anónimo disse...

Não me parece que o post seja sobre o que o Pacheco Pereira tem escrito há muitos anos. Mas sim sobre a ideia arrogante - e o Pacheco Pereira é arrogante - de haver gente mais qualificada para falar de liberdade do que outros. E isso ele diz claramente, no artigo de hoje, a propósito dele próprio e da sua geração (onde também só inclui A.Barreto e VPV, o que não deixa de ser curioso).
Por mim, acho que o post fez muito bem em defender o direito de cidadania de outra geração. Muito bem mesmo. Daqui a bocado, temos o exclusivo da liberdade com os velhos e os outros a nivelar pelo Sócrates e pelo Menezes. No fundo, é o que o Pacheco Pereira quer que a gente conclua.
Inês Pecquet

João Brito de Sousa disse...

O que ele diz é uma coisa muito diferente: é que a maneira como um certo tipo de pessoas falam da liberdade está a incomodar muita gente, no PS, no governo quando se critica a ASAE e Sócrates, Ele é arrogante, concordo consigo, mas nunca disse "haver gente mais qualificada para falar de liberdade do que outros." O que disse é que a maneira como ele e Barreto e Pulido e eventualmente outros falam da autonomia e da liberdade, incomoda à esquerda e à direita. E isso é um facto, basta ler o que se tem escrito. Se não se é rigoroso e se quer atacar alguém porque se enfia a carapuça, pode-se sempre atacar.

Sofia Galvão disse...

Caro João Brito de Sousa, algumas breves notas sobre o meu post e os seus subsequentes comentários:
1. Não escrevi sobre Pacheco Pereira ou, sequer, sobre o artigo dele no Público de ontem, mas apenas sobre um dos argumentos aí usados. Argumento que me pareceu mau e, até, perigoso;
2. Quanto a Pacheco Pereira e à essência do que há muito defende, assino por baixo: em matéria de liberdade e do que daí decorre para uma certa visão sobre o estado da democracia, pressinto que estaremos sempre do mesmo lado da trincheira (em especial, sobre a degradação da vida partidária, acompanho-o sem hesitação);
3. Sem prejuízo de tudo isso, na minha opinião, Pacheco Pereira recorreu ontem a um mau argumento e eu apenas enunciei alguns tópicos para uma possível refutação.
4. Na verdade, Pacheco Pereira pretendeu valorizar o sentido de liberdade de uma certa geração. Muito à sua maneira, a retórica servia um ponto de chegada e este era, inequivocamente, a fronteira de todas as diferenças entre aqueles que cultivam “um gosto pela vida autónoma, uma vontade de não depender de ninguém, uma desconfiança natural da vontade presumida e arrogante” e os outros. Mas, nestes outros, e essa é que é a grande questão, Pacheco Pereira facilitou: referiu-se aos yuppies displicentes dos nossos dias mas não nos disse quem são, não os caracterizou, não adiantou mais nada. Ou seja, juntando tudo, era possível concluir afinal que Pacheco Pereira defendia a existência de dois mundos: o dos que viveram a experiência da falta de liberdade e, por isso, se converteram em penhor da liberdade libertária e o dos que não viveram a experiência da falta de liberdade e, portanto, se apresentam como os yuppies displicentes dos nossos dias. Assim, sem mais distinções, a preto e branco, de um lado os bons,
do outro lado os maus...;
5. É a linearidade perversa do argumento que me parece má. E perigosa. Porque simplifica o que é complexo mas, sobretudo, porque exclui em vez de incluir, porque afasta em vez de convocar. Ora, a liberdade não é de facção. Pelo contrário, ela agrega e irmana. Eu estarei sempre muito mais próxima de Pacheco Pereira do que dos yuppies displicentes dos nossos dias, assim como creio que Pacheco Pereira estará sempre mais perto de mim do que de gente da sua geração que se mantém incapaz dessa liberdade libertária.
6. Já quanto às responsabilidades históricas de uma certa geração pela falta de pedagogia da liberdade, escrevi e repito. Com a normalização da vida democrática, uma escassa dúzia de anos depois do 25 de Abril, esquecemo-nos de prezar a liberdade. Deixámos o tema amarelecer como memória do PREC e não valorizámos, não qualificámos, não aprofundámos. Demos por adquirido aquilo que o não estava e ninguém, então, saiu a terreiro para cantar a liberdade (eram tempos de sucesso e de pragmatismo, sem agenda para mais). O que acontece hoje é o resultado dessa demissão e não pode espantar. A nossa matriz política é autoritária. Não temos uma experiência amadurecida da liberdade (a nossa vocação natural é, antes, para a anarquia e a balbúrdia). Por isso, a tal pedagogia teria sido tão importante. Como continua a ser e será sempre. Sem sombra de paternalismo (não sei mesmo onde foi buscar semelhante ideia, mas asseguro-lhe que, aqui, as suas pré-compreensões estarão nos antípodas das minhas…). Ou acha que os anglo-saxónicos nos dão, nesta matéria, lições de paternalismo?
7. Last but not least, não tenho a pretensão de imaginar que conheça algumas das coisas que tenho escrito e dito ao longo dos anos, mas já me permito confessar-lhe que, no caso, tenho pena. Se conhecesse, teria percebido muito bem o que quis dizer no meu post de ontem.

Seja como for, agradeço-lhe o contraditório.

Andreu Vallès disse...

Sabes que todos temos a boca cheia de liberdade. Ouves dizer muitas vezes que a liberdade é um valor essencial e todos se acusam de querer tirar a liberdade uns aos outros. Até os grandes crápulas e tiranos da história disseram muitas vezes que defendiam a liberdade. Podes perguntar-te por que raio de razão é a liberdade tão importante. Não poderíamos todos lutar pela felicidade? Ou pelas conquilhas, já agora? Mas repara bem: com liberdade, podes decidir a tua felicidade. Sem liberdade, há outros que sabem bem melhor como te fazer feliz. A liberdade não é só um aspecto formal da vida. É a capacidade de te refazeres todos os dias e de te prenderes ao que queres, de perderes a tua liberdade pelo que te interessa e pelo realmente queres. A liberdade é o crédito com que nasces e gastas ao longo da vida. Que valha a pena. Luta por ela. Está sempre em perigo, porque para muitos, que têm muita liberdade na boca, o que interessa é a perfeição, é não verem a liberdade suja e incómoda dos outros à sua porta. A limpeza, a beleza, a felicidade. Esses são os deuses dessoutros que não querem a tua liberdade. Defende-te.

Anónimo disse...

Minha querida Sofia, sendo um tema que muito me importa, permite-me dois pontos mais sobre a (nossa) liberdade, ou melhor, as (nossas) liberdades (falo aqui sobretudo da liberdade moral): O primeiro, é que a liberdade se cumpre no bem e com ele se deve e mesmo tem que articular; o segundo é que, apesar disso, é a liberdade - e não o bem - o princípio da própria liberdade.
Dito isto, assim rápida e impropriamente, queria apenas dizer que este foi um tema apaixonada e profundamente vivido e debatido em Portugal e em Espanha, nomeadamente nos séculos XVI e XVII, tendo-se por meio desse debate proposto como centro diferenciador do ser e do agir ibérico - e português.
Hoje, no entanto, estamos confusos, ou melhor perdidos. Recusamos instintivamente qualquer pedagogia da liberdade, como se a liberdade nada tivesse que ver com o bem; e responsabilizamos sempre outros (sobretudo Salazar) pela nossa falta de liberdade, como se não fossemos nós os primeiros responsáveis pela nossa liberdade (ou falta dela)!
Ora, dizer que a matriz portuguesa é autoritária, não é inteiramente verdade (se assim fosse, como diz - talvez sem ver - Pacheco Pereira, tal seria já um passo para a liberdade). O nosso maior problema é que não temos uma matriz. E não temos uma matriz porque nos esquecemos de ser portugueses. E esquecemo-nos de ser portugueses porque desistimos de ser livres.
À nossa volta, porém, não abunda a liberdade. O ocidente, regra geral, vive uma liberdade sem sentido; o resto do mundo, um sentido sem liberdade. Entre uns e outros continua esquecida a matriz ibérica - e portuguesa -, que pretendeu conciliar a liberdade e o bem no mundo físico, moral e espiritual dos séculos XVI e XVII. E se é verdade que tal proposta foi violentamente combatida pelos franceses, pelos holandeses, pelos ingleses, pelos alemães... não é menos verdade que ela foi morta por nós, que desde então desistimos de ser (com muito maior culpa, hoje em dia, a apontar ao lado português).
E, no entanto, o mundo precisa de nós!

Um beijinho

Gonçalo Pistacchini Moita

Gonçalo Magalhães Collaço disse...

O que o Gonçalo Pistacchini Moita afirma é terrível mas, feliz e infelizmente, sendo totalmente exacto, por um lado, por outro, assim não sucede. É certo, enquanto a Europa repudia as suas raízes cristãs, nós, portugueses, parecemos esquecer também as nossas raízes filosóficas. Fomos, de facto, violentamente combatidos pelos franceses, pelos holandeses, pelos ingleses, pelos alemães e, sob determinados aspectos, derrotados, invadidos e subjugados por todos eles. Por isso somos hoje uma nação ocupada, comportamo-nos como uma nação ocupada, pensamos como uma nação ocupada, com a agravante de os mesmos que nos combateram de fora, combaterem-nos agora cá dentro, como portugueses, negando e repudiando todos aqueles que mantiveram e têm mantido viva a tradição portuguesa de filosofar. Infeliz circunstância, dir-se-á, sem dúvida, mas enquanto houver portugueses a pensar em Portugal e em português, de acordo com a nossa tradição clássica, aristotélico-platonizante, fiéis à verdadeira filosofia, como há, feliz é também a nossa situação, não obstante as dificuldades. Pelo menos, sempre nos dá uma necessária réstia de esperança.