segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Do Actual Histerismo Anti-Religião às Novas Utopias Totalitárias


José Manuel Rodrigues - Amsterdam, 1982

Cousa antiga, muita antiga mesmo, pelo tão antiga quanto o próprio cristianismo é, como sempre foi, o ataque ao cristianismo. Nesse plano, nada de novo. Escusado será até relembrar os tempos em que vulgar era, para gáudio da populaça, aos leões entregar como repasto, os pobres e desgraçados dos primeiros cristãos, ou simplesmente os fritar ou esquartejar, entre outras finezas próprias da época, em nome e defesa do Império e da canónica Paz. Porém, ainda nesses idos dias, não deixava de haver respeito pela Religião como, mesmo antes desses idos dias, sempre houve. O que hoje sucede, porém, é distinto. O que hoje sucede não é apenas um ataque a uma ou outra religião mas um ataque desenfreado a toda a possível ideia de religião sequer.

Nada de muito novo, dir-se-á, uma vez mais. Afinal, pode-se mesmo defender mais não ser a actual fúria anti-religião senão o culminar das ideias dos Philosophes que antecederam, prepararam e realizaram a sempre tão celebrada Revolução Francesa, representando e sintetizando também, de algum modo, a essência do Iluminismo, o qual imaginou ser possível, ou mais que possível, imperioso, dispensar e negar a Religião como um dos elementos cruciais da Civilização para erigir sobre as suas cinzas uma nova Sociedade fundada, em exclusivo, na deusa Razão (entendida, como é evidente, num muito sofismado e estreito sentido).

Nesse âmbito, podemos ainda e sempre relembrar também, julgando razões haver para sorrir, o bom do Afonso Costa, fervorosamente republicano, laico e socialista, vaticinando, no auge da I República, a plena extinção de todo o sentimento e consequente prática religiosa, em duas ou três gerações. No entanto, não se nos afigura haver grandes razões para sorrir: desde os idos dias dos Philosophes, da Enciclopédia e da funesta Revolução Francesa, ciclicamente ressurgem, não augurando nada de bom, esses momentos do mais puro fanatismo, radicalismo e fundamentalismo anti-religião, exactamente como o que estamos vivendo actualmente.

Hoje já não pontificam os Diderot, os d’Alembert, os Voltaire, os Rousseau e todos os demais «enciclopedistas», mas os Michel Onfray, os sempre os mesmos e inevitáveis Richard Dawkins e Daniel Dennet, entre alguns outros, como um tal de Sam Harris e um tal Christopher Hitchens, ambos com direito já a muito céleres traduções, com a devida pompa e circunstância, para a língua de Camões.

A obra do último, Christopher Hitchens, «deus não é Grande», viria a sair mesmo, muito a propósito, já em plena época natalícia, sendo logo objecto de muita e estridente propaganda, muita recensão, muita entrevista, como convém a este tipo de obras. No essencial, porém, as teses apresentadas parecem pouco acrescentar à obra do anterior Sam Harris, personagem até hoje absolutamente desconhecida mas que, não obstante a sua natural obscuridade, honrado se viu já com mundial aplauso pelo intrínseco valor único da sua obra, «O Fim da Fé – Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão», constituindo-se inclusive como referência primeira para os inevitáveis mas, apesar de tudo, mais reputados, Dawkins e Dennet. Assim, tomemos por todos, neste momento, «O Fim da Fé – Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão», para tentarmos compreender onde estes enfatuados senhores nos pretendem, afinal, conduzir e levar.

Em edição da Tinta da China, «O Fim da Fé – Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão», é apresentado entre nós também como «O Livro Negro da Religião», numa muito oportuna e ampla visão de marketing da lusa editora _ afinal, um «Livro Negro» é sempre um «Livro negro» e, no tempo de negrume que nos é dado viver, sempre venderá, com certeza, muito mais do que um simples «O Fim da Fé» que, a bem verdade, a muito poucos, hoje, preocupará. Mas vamos ao que importa.

«O Fim da Fé – Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão» abre com este magnífico relato no mais puro estilo hollyoodesco: «Um jovem entra num autocarro quando este se prepara para abandonar a paragem. Traz um sobretudo vestido. Debaixo do sobretudo, leva uma bomba. Os seus bolsos estão cheios de pregos, rolamentos de esferas e veneno para ratos.[...] O casal ao seu lado parece andar à procura de um frigorífico novo. A mulher já escolheu um modelo, mas o marido acha que deve ser demasiado caro. Indica outro num catálogo que ela tem aberto sobre o colo...». Desnecessário prolongar a transcrição. O brevíssimo excerto aqui deixado é já suficientemente elucidativo da índole, carácter e estilo do pobre Harris. No final, há, como não poderia deixar de haver, a explosão da bomba, o regozijo da família e vizinhos pela morte heróica do rapaz do sobretudo debaixo do qual escondia a bomba, e muita pergunta patética: «Estes são os factos. É tudo o que sabemos ao certo sobre o jovem. Haverá mais alguma coisa que possamos inferir a partir do seu comportamento? Seria popular na escola? Seria rico ou pobre? Seria muito ou pouco inteligente?...», e por aí fora até ao esperado grande clímax: «Porque será, então, que é tão fácil, tão trivialmente fácil _ tão fácil que quase poderíamos apostar a nossa própria vida _ adivinhar a religião deste jovem?»

Quase poderíamos admirar Sam Harris se a afirmação de «apostar a própria vida» não fosse apenas uma figura de estilo sem outra consequência senão a de muito má e inconsequente retórica. Afinal, a que religião são os actos de ataque suicida específicos? Se passarmos muitas horas a ver televisão, talvez possamos conjecturar com algum grau de verosimilhança qual a resposta que Sam Harris daria ou dá mas, na realidade, o que se sabe, como os estudos mais sérios sobre o assunto indicam, é terem tido os ataques suicidas cometidos desde os anos de 1980, em cerca de 85%, motivação essencialmente política, independentemente de qualquer específica fé religiosa. Tais dados, porém, não embaraçam, comovem ou diminuem o histerismo anti-religião de um Sam Harris. E este é apenas um exemplo entre outros da probidade «científica» destes novos arautos de um racionalismo sem mácula que verberam, a torto e a direito, sempre com ar de grande escândalo, a «irracionalidade» da fé.

A probidade científica e intelectual do autor encontra-se, aliás, igualmente bem espelhada no triste episódio relativo às considerações estabelecidas sobre os mais totalitários, sanguinários e desapiedados regimes do século XX. Defendendo Sam Harris a tese segundo a qual a fonte e causa das piores atrocidades humanas e de toda a violência humana residem em exclusivo na fé ou religião, incapaz sendo de distinguir ambos os conceitos, os regimes de Hitler, Estaline, Mão-Tsé-Tung, Pol-Pot ou Kim Jong-il, surgem, naturalmente, como uma espécie de regimes que refutam liminarmente da sua tese. Ou seja, constituindo-se como uma espécie de regimes desmancha-prazeres, nada melhor do que, para eliminar, de vez, tão inoportuna maçada, postular, desde logo, o seu carácter religioso, sem mais. E uma vez tal realizado, sem necessidade de recorrer a fastidiosas demonstrações ou a quaisquer outros argumentos sempre passíveis de refutação, quando alguém lembrar o carácter eminentemente secular de tais regimes, Sam Harris, do alto da sua inocência, limitar-se-á a referir tal postulado estar já e, por consequência, mais não ser necessário dizer, a não ser, evidentemente, quando completamente impossível é escamotear tal evidência, acrescentar apenas «não serem», ou terem sido, «especialmente racionais» (pág.259). Ora, como a fé provém da irracionalidade, mais sofisma menos sofisma, paralogismo menos paralogismo, tudo vai dar no mesmo. Como método, é brilhante, mas se isto não é a mais pura má fé, o que «má fé» possa ser, deixamos de saber.

Os disparates de Sam Harris, o seu carácter e manifesta desonestidade intelectual, não nos interessam particularmente. Os Sam Harris não são de hoje, são de sempre, e, com grande probabilidade, nunca irão desaparecer nem faltar. O que importa é distinto, é perceber o porquê e o para quê de todo este novo histerismo anti-religião, todo este frenesim editorial, toda esta exaltada propaganda em torno de tão fracas obras.

Num ponto teremos de reconhecer a honestidade dos autores referidos, ao explicitarem, sem hesitação nem margem para dúvidas, a sua consciente motivação ao escrevem e publicarem as respectivas obras. Para Sam Harris, como afirma a páginas 17, a sua principal intenção ou motivação é «mostrar que o próprio ideal de tolerância religiosa _ com origem na ideia de que todos os seres humanos devem ser livres de acreditar naquilo que quiserem sobre Deus _ é uma das principais forças que nos arrastam para o abismo», parecendo, neste particular, ser até um pouco mais ambicioso que um Dawkins, para quem a redacção e publicação do seu «The God Delusion» teve, tem, apenas como expressa intenção, a esperança de transformar cada leitor num ateu militante.

Numa primeira instância, perante tão pueris e patéticas intenções, para não referir já a mais pura infantilidade da maioria da argumentação, dir-se-ia não haver motivo para preocupação. Todavia, algo mais fundo e grave subjaz a estas obras, das quais «O Fim da Fé» é um exemplo perfeito, ou seja, o que subjaz e, a pouco e pouco, por repetição até à exaustão e completa disseminação entre a principal intelectualidade actual, é o desejo de edificação de um Nova Utopia Totalitária, como é próprio de todas as utopias, bastando para tal relembrar tão só as mais famosas, seja a propriamente dita Utopia de Thomas Morus, seja a Cidade do Sol de Campanella, fundando-as nos três seguintes momentos decisivos: 1) Imposição do primado absoluto do materislismo; 2) Imposição da Razão Científica como Razão Absoluta; 3) Negação absoluta da individualidade em detrimento do Colectivo ou do mais antigo Ser Genérico.

Não por acaso, há, em simultâneo, um recrudescimento do um certo neodarwinismo, mais fundamentalista que o próprio Darwin alguma vez ousaria defender, de modo a tentar provar não ser o Homem mais do que fruto e mero acaso de uma suposta e todo poderosa evolução material do universo, retoma-se também com novo ímpeto e largo fôlego, o velho determinismo de um Laplace: «Uma inteligência que, num momento dado, conhecesse todas as forças que animam a natureza, e a situação respectiva dos seres que a compõem, se além disso fosse assaz poderosa para submeter esses dados à análise, abrangeria na mesma fórmula os movimentos dos maiores corpos do universos e os dos átomos os mais ténues: nada para ela seria incerto, e o futuro como passado seria a seus olhos presente».

Assim, começamos a perceber um pouco melhor onde todos estes movimentos actuais nos pretendem conduzir, sobretudo quando, no plano da «inteligência» de Laplace, se coloca hoje a «razão científica», absolutizada. Uma «razão científica» que, em boa verdade, não é já sequer «científica», razão decorrente do pensamento científico, mas tão só «razão tecnológica», se assim podemos dizer, ou seja, razão da tecnologia ou absoluta autonomização da Técnica em relação à Ciência, à velha Ciência dos Gregos e Medievais, distinção, aliás, a que um Sam Harris não chega, como seria de esperar. Todavia, não deixa de escrever, logo a páginas 16, «A tecnologia, porém, possui a faculdade de criar novos imperativos morais», e a páginas 47, «a ciência não irá permanecer silenciosa em questões espirituais e éticas durante muito mais tempo», sem no entanto explicitar exactamente o alcance da sua afirmação.

Sam Harris não explicita mas é possível deduzir. Sendo da «natureza da fé impedir a indagação intelectual», um primeiro passo, será repudiar, sem contemplações, toda e qualquer forma ou manifestação de fé. Logo depois, negando «a concepção ingénua de uma alma que seja independente do cérebro», páginas 231, haverá apenas que atacar a última e derradeira fronteira, a mente, na expressão anglo-saxónica, ou seja, avançar destemidamente por essa lúgubre ciência do século XXI, a Neurociência, compreendendo também como «o sentido do eu parece ser produto da representação que o cérebro faz dos seus próprios actos de representação».

Claro, dado o «estado da arte» da neurociência actual, Sam Harris aprece comedido. É uma táctica muito típica, dando sempre a ilusão de genuína precaução científica. Todavia, não tem dúvidas que estamos a entrar num mundo estranho, um mundo onde «a nossa própria humanidade em termos genéticos, já não é uma condição necessária da existência. A fusão das inteligências humana e artificial é também uma séria possibilidade...(pág. 244)».

Para não assustar ninguém, Sam Harris ainda parece aceitar um vago misticismo: «Os mistérios velados do mundo podem ser analisados através de conceitos (pela ciência), ou podem ser experienciados livres de conceitos (pelo misticismo)». Mas não nos deixemos enganar, a sua verdadeira fé reside inteira na Neurociência ou Neurociências, como se costuma também dizer, encontrando-se mesmo, neste momento, segundo a biografia exposta na badana do livro, «a concluir um doutoramento em neurociências, estudando a base neural da crença, da descrença e da incerteza».

Sabendo também do «futuro estranho que temos à nossa frente: máquinas de ler a mente, realidade virtual genuína, implantes neurológicos e drogas cada vez mais sofisticadas», com «implicações na visão que temos de nós próprios, bem como das nossas possibilidades espirituais» (pág.244), só não fica preocupado quem imagina que os sonhos eugénicos, tanto de nazis quanto de suecos muito democráticos e social-democratas, como múltiplos outros de que nem teremos conhecimento, são sonhos irremediavelmente perdidos no passado. Para quem conheça um pouco mais fundo a natureza humana, as preocupações não podem deixar de ser evidentes.





José Manuel Rodrigues - Amsterdam, 1984


Sim, em termos objectivos, tanto o livro de Sam Harris como dos restantes, são livros contra a Religião. Mas não sejamos ingénuos, o que se prepara é muito mais do que isso, o que se prepara é, como referido, a edificação de uma Nova Utopia Totalitária, fundada na «razão científica» e justificada pela sua presumida perfeição e capacidade de tudo recriar à sua imagem e semelhança. Não por acaso, também, a ilusão de Dawkins de poder fundar uma nova ética recorrendo em exclusivo à «razão científica». Se todo o comportamento humano depende apenas e em exclusivo dos genes e uma certa disposição dos neurónios, se não há individualidade ou não se lhe atribui aquele mínimo de sacralidade como desde o cristianismo sempre teve, então tudo é possível, tudo será permitido, seja em nome de um abstracto colectivo ou de uma qualquer deificada razão humana, demasiado humana. Teremos, enfim, uma existência devidamente ordenada, devidamente asséptica, devidamente racional. Se ainda teremos vida é outra questão mas que pouco importará já.

2 comentários:

Nuno Nasoni disse...

Recentemente, numa visita a uma Almedina, não pude deixar de reparar que o livro de Bento XVI, "Jesus de Nazaré", era apresentado na secção de ficção. Enquanto Richard Dawkins tinha honras de secção de ciência. Neste gesto, todo um programa.

Gonçalo Magalhães Collaço disse...

Muito significativa ironia do destino, sem sombra de dúvida, ou, como diz o Nuno Nasoni, nesse gesto, «todo um programa», um perfeito espelho do desatino dos dias.

Mundo estranho, este, em que estamos vivendo, de facto.