sábado, 12 de janeiro de 2008

Alcochete: A Vitória dos Planos Socialistas (I)

"Conclusões do estudo encomendado pela CIP
Aeroporto em Alcochete custa menos três mil milhões de euros do que na Ota

A construção do futuro aeroporto internacional de Lisboa na localidade de Alcochete, na margem sul, permitirá poupar três mil milhões de euros em relação à proposta que se encontra em cima da mesa e que é a Ota, a norte do Tejo.”
in Público.pt 26.10.2007

Cavaco Silva deve estar arrependido de ter posto em causa a decisão de construção do novo aeroporto de Lisboa na OTA. Digo isto, porque o que agora foi decido contrasta para mim claramente com o que a história recente nos diz que é o pensamento económico do ex-Primeiro-ministro. E digo isso também porque contrasta com a forma como ele via a governação.

Um neo-keynesiano vê o investimento em grandes obras com grande cautela. A razão é que ele sabe olhar para o passado e perceber que muitos dos grandes investimentos se tornaram elefantes brancos. Essa cautela obriga a que se siga um princípio básico, entre outros, a saber, que a intervenção do Estado através da promoção do investimento deve ser feita atendendo aos sinais do mercado. Isso implica que o decisor político não se pode transformar num planificador a imaginar o futuro. A decisão de construir na Ota coadunava-se com esse princípio. A crítica que Cavaco Silva fez ao aeroporto prendia-se sobretudo com o preço e a necessidade da sua construção, e não com a localização. Agora vai assistir à construção não só do novo aeroporto, como de uma "cidade aeroportuária", num país que carece enormemente do reordenamento dos centros urbanos existentes.

Cavaco Silva também não deve estar contente porque a mudança de posição do Governo foi feita, aparentemente, através dos jornais. Ele, que dizia que não lia jornais, terá ficado incomodado com essa circunstância. A verdade é que estas grandes decisões devem descer à praça pública e nela serem discutidas. Mas isso deve ser feito com equilíbrio e tendo os governos plena capacidade de decidir no fim. Ora, o que aconteceu com a decisão em causa foi que algumas pessoas tiveram o acesso privilegiado aos jornais.

Esse acesso traz um grande problema, pois os jornais não têm capacidade suficiente para avaliar a qualidade relativa das opiniões e por isso opiniões infundadas apareceram com a mesma importância das opiniões mais fundadas. A opinião pública ficou baralhada e a uma certa altura definiu-se em função da credibilidade que dava ao Governo.

Os jornais permitiram que pessoas que descobriram vantagens em que o aeroporto fosse para sul do Tejo fizessem chegar as suas posições ao público. Os interesses no aeroporto mais a sul são obviamente os de pessoas e empresas do Norte, que assim vêem baixar a concorrência de produtos e serviços de fora (um argumento que teria de ser desenvolvido para ser sólido); de pessoas ligadas aos terrenos que vão ser beneficiados pelo novo aeroporto (aqui aparece o argumento risível de que isso assim não é pois os terrenos do aeroporto são do Estado – uma vez que se trata da valorização da área envolvente); de pessoas que estão ligadas à construção de certas infrestruturas a sul; e também de pessoas que têm o potencial de beneficiar da construção da cidade que vai nascer para bandas de Alcochete.

Todos estes interesses são legítimos e o Estado só deve, precisamente, apostar em sectores onde haja à partida interesses a manifestarem-se. Só assim o Estado consegue “ler” o mercado, questão crucial para a s boas decisões, como acima se disse. O problema é que esses interesses colidem com os interesses que giravam em torno da Ota e podem não ser os melhores para o País.

Os cabeçalhos anunciavam que Alcochete levaria à poupança de três mil milhões de Euros em relação à Ota. Afinal são só cerca de 300 milhões, todas as contas feitas. Serão 4,9 em vez de 5,2 mil milhões, uma diferença que nem a margem de erro destas contas deverá cobrir. Para além da incerteza quanto a uma série de outros factores financeiros extremamente importantes como sejam as compensações financeiras da UE, que podem vir a ser menores (não percebo como há quem diga que não são importantes); as compensações necessárias à região preterida e que esperou 10 anos; os custos adicionais que os consumidores terão de pagar para atravessar as pontes; e, acima de tudo, os custos de uma opção típica de planificação, a da construção de uma cidade aeroportuária.

A esse úlitmo ponto tentarei voltar mais tarde, quando tiver acabado de digerir cabalmente toda esta impressionante notícia.

1 comentários:

desnorteado disse...

E o que é que Alcochete tem a ver com o aeroporto?