sexta-feira, 13 de março de 2009

Jesus está vivo. E Maomé também...



O título deste post pode, talvez, soar a qualquer tipo de publicidade feita à Igreja Universal do Reino de Deus. Mas não. Escrevo-o em diálogo com este outro post do nosso querido Manuel Fonseca (que, em rigor, já teria começado aqui), ao qual, sem querer, de modo nenhum, retirar da sua natural condição de "alinhado", gostaria, no entanto, de dizer alguma coisa.
A primeira é que Homero é apenas um personagem cujo nome individual representa todo o povo grego. Os "seus" poemas contam essa mítica viagem que, atravessando as civilizações minóica e micénica, foi feita pelos aqueus, desde o Médio Oriente até à Europa, passando pela labiríntica ilha de Creta. E já na europeia Hélade, onde, por volta do século VIII a. C. (a que Karl Jaspers chamou a idade axial), fomos definitivamente iluminados pela apolínea razão que nos faz ver, sem que a vejamos, permanece essa fundacional mentalidade homérica, que desde a parte mais vegetal das nossas almas nos informa ainda o que sentimos e o que pensamos.
Quanto a Sócrates, o verdadeiro (a quem a mulher, de nome Xantipa, constantemente recriminava por não aproveitar a sua fama para alcançar poder e honras), a frase que tomou como lema, ou como cruz, da sua vida (gnótis autón: conhece-te a ti mesmo), não era sua. Estava escrita no oráculo de Delfos, nesse centro, ou umbigo, da terra, a partir do qual os deuses comunicavam com os homens, indicando-lhes enigmaticamente os seus caminhos. Foi esse mesmo oráculo, aliás, que afirmou que Sócrates era o homem mais sábio da terra – justamente ele, que sabia quanto é humilde e limitado o que sabemos.
Quanto a Jesus Cristo, ninguém duvida da sua existência humana, hoje historicamente comprovada, tanto quanto pode comprovar-se este disperso pó que somos. É a sua existência divina aquilo que sempre é posto em causa. E, justamente, deve sê-lo, porque, tal como dissemos em relação a Apolo, o divino é o que, iluminando, não se vê. Temos, assim, que procurá-lo, a partir do que, no nosso caminho, ele nos mostra.
Maomé, do mesmo modo, por cá andou, de Meca para Medina e de Medina para Meca, cumprindo os desígnios do Senhor.
Ora, o meu ponto, querido Manuel, é este: estas não são figuras ausentes. Muito pelo contrário: são pessoas absolutamente presentes! Com efeito, são justamente os que nada escreveram, os que nada tiveram – numa palavra, os que não se objectivaram –, aqueles que permanecem duradoiramente na história com a qualidade de verdadeiros sujeitos.
É que a maior força que experimentamos nesta vida é, na verdade, a do espírito. Isto é um facto verificável. Com efeito, quem age hoje por causa de Júlio César e de todo o poder que ele teve? Quem determina a sua vida por causa do poder dos Medici? Quem quer agradar ao poder e ao dinheiro que passou?
No entanto, aqueles que viveram a sua vida de acordo com um poder que não se vê, mas que ilumina, ainda hoje determinam interiormente, transformando-a, a vida de cada um e de todos nós. Confúcio, Buda, Sócrates, Jesus, Maomé, São Francisco, Madre Teresa e os mais em que queiramos pensar. Mil anos passados, movem, de facto, montanhas.
A questão, assim, como a propósito da quaresma, num outro post, mais atrás, já tinha posto, é a da ordem que escolhemos para a nossa vida. Quem está no centro do mundo: o homem, ou Deus?
A resposta, dada nesse maior e melhor centro do mundo que é o nosso coração, continua a ser aquela que, respeitando a nossa liberdade, foi há mais de dois mil firmada por Jesus Cristo - e que nós lembramos por intermédio de São Mateus: «Onde tiveres o teu tesoiro, aí estará o teu coração.»

(mais)

III. Porfírio, Sullo Stige, Bompiani 2006

Mas que nos interessa hoje em dia este problema que parece tão distante? É que, mais uma vez, a nossa época não é o de vazio de divindade, mas de um recalcamento da mesma no espaço público. Todo o recalcamento gera sublimação ou retorno explosivo. Na Viena burguesa do início do século XX era do sexo que se tratava. Mas o recalcamento religioso tem efeitos semelhantes. A religião é sublimada em direitos do homem, na natureza sacral da democracia, da ciência, da ecologia. Ou então explode literalmente nas ruas de Bagdad ou Madrid. Ou explode por outra via menos visível, a da irritação, da revolta intelectual e afectiva sem palavras.

A nossa época não teve a vitalidade de produzir um pensador universal como Porfírio, que soube perceber todos os movimentos da sua época, embora não os tenha conseguido resolver a quase nenhum. A síntese anda perdida por entre o barulho da comunicação social. Anunciavam-nos o fim da religião e ela aparece em fragmentos, vendida em pacotes, em que toda a espécie de mistérios são objecto de consumo. Nova Idade (qual?), códigos escondidos em que a ciência (misteriosa para os autores em causa) se mistura com do destino do mundo (misterioso de forma mais legítima). Os fundamentalismos crescem.

A solução freudiana é a catarse, a purificação. Leitura algo apressada da cultura grega. Era a leitura de que Freud podia dispor na altura de acordo com do desenvolvimento da filologia clássica. Mas libertamo-nos do reclamante religioso não exige tanto purificação quando absorção. Perceber, não apenas o mundo em que se vive e as suas necessidades, mas o centro dos problemas e soluções que desde sempre estiveram em frente do ser humano.


Porfírio estava bem mais armado que a maioria das pessoas da nossa época. Percebei bem os instrumentos que ela tinha disponíveis. O homem semi-alfabetizado da nossa época sente-se muito mais perdido. Quer-se libertar de peias que nunca conheceu, e são afinal escoras, quer alimentar-se de frutos exóticos para cuja absorção não está preparado. Está tão habituado a viver como um recalcado religioso que nem percebe ser. A sua forma de pudicícia para por uma linguagem de liberdade, mas nem lhe conhece os contornos, quanto mais os fundamentos. À massa ainda lhe falta dar o imenso passo que Porfírio deu. Quanto mais perceber que mesmo a Porfírio lhe faltou dar outros mais essenciais. Mas que renasça no homem comum a vivência do numinoso não lhe fará mal. É melhor enfrentá-lo que ser perseguido por ele sob forma de vapor. E um dia de explosão.




http://bompiani.rcslibri.corriere.it/bompiani/libro/5711_sullo_stige_porfirio.html
http://www.liberonweb.com/asp/libro.asp?ISBN=8845257118


O que se diz nos blogs:

Na Geração de 60
http://geracaode60.blogspot.com/2007/05/i-vangelo-di-un-pagano-testo-greco.html
http://geracaode60.blogspot.com/2007/05/ii-vangelo-di-un-pagano-testo-greco.html
http://geracaode60.blogspot.com/2007/05/iii-vangelo-di-un-pagano-testo-greco.html


Noutros blogs
A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, L







Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

Sexta-feira 13

1 - Por uma vez na vida, só hoje,e nunca pensei dizer isto, dou por mim a concordar com a Fernanda Câncio e com tudo o que escreve hoje no DN em " Pobreza desdobrada":

"(...) É o raciocínio que levou a que durante 35 anos de democracia tão poucas vezes se tenham feito as perguntas certas-quantos bairros sociais há, quanto custaram, em que estado estão, quem lá vive e há quanto tempo, qual o seu rendimento médio, que idade tem, qual o motivo de atribuição da casa, qual o valor das rendas, qual o modo como são calculadas e qual a respectiva taxa de cumprimento - e nunca se tenham ouvido as respostas. Suspeita-se até de que ninguém as conheça.(...)".

2 - Quanto ao assunto Manuel Alegre,depois de ontem ter ouvido António Costa a dizer que havia uma "questão afectiva", que estão juntos há muito tempo, acho que tudo se vai compor.
Retomando a metáfora dos septuagenários, penso que poderá haver uma solução: contratam uma pessoa, se tiverem meios, para confeccionar as refeições; ou a senhora ajeita o almoço e o jantar passa a ser lanche-ajantarado no café da esquina ( croquete e galão). No fim, tudo acabará bem.

3 - O sal. Concordo com a legislação, contra a opinião do amigo Pedro Norton. À velocidade a que isto vai, não tarda, nem para o croquete e para o galão chega. Vai ser mesmo à base de pão. Outra pessoa que é capaz de torcer a orelha é a septuagenária aqui de cima, um enfarte do cônjuge era capaz de dar jeito.

4 - "JP Sá Couto cria mais 200 empregos" Diz o DN.
Já só faltam 149.800 empregos, digo eu.

(mais)

LEO

Deliciosa a metodologia.
Lindissimo o mito.
Mais um "fantasma" que se revela.

(mais)

A Lei que faltava




"O Partido Socialista (PS) vai debater esta sexta-feira, na Assembleia da República (AR), um projecto lei que tem como objectivo reduzir a quantidade de sal no pão português, que, actualmente, tem mais do dobro da quantidade recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
O plano é para aplicar «de forma faseada», garante o deputado Jorge Almeida, do PS, em nome da saúde dos portugueses, já que o excesso de sal pode provocar vários problemas, como hipertensão, acidentes cardiovasculares e alguns tipos de cancro.
«É preciso um tecto máximo de teor de sal no pão e 25% faz com que o consumidor não vá notar», garante o deputado, defendendo que, «daqui a alguns anos, o processo legislativo deve fazer uma revisão e, eventualmente, fazer mais reduções»."

(Fonte Diário Digital).

Posto isto, pergunto: estará o deputado Jorge Almeida (a quem agradeço o zelo pela minha saúdinha) disponível para nomear uma comissão parlamentar para controlar a condimentação da minha sopa? E se não for pedir muito, será que posso pedir-lhe uma mãozinha para me fazer as compras ao Sábado? Só para garantir que não exagero nos açucares.

(mais)

Labirinto

Labirinto de letras, Ana-Hatherly
Aqui, o Jorge Buescu e o Pedro Norton decidiram fazer derivas shakespeareanas, a propósito deste post sobre a recente revelação de um retrato do autor de “Romeu e Julieta”. Alinho com eles (estar de acordo faz parte da minha condição) e acho que o jogo de ledos enganos já vem de longe.
Shakespeare, pode ser que seja só um "nome emprestado" a uma obra – a hipótese de que as suas inúmeras peças sejam da autoria de um “outro Shakespeare” ou, numa hipótese plural, de “outros Shakespeares”, converte-o, afinal, na sublime personagem de uma inimitável “comédia de enganos”.
Mas há mais. É provável que Homero não tenha existido e que a Ilíada e a Odisseia, obras fundadoras, sejam também obras órfãs.
Sócrates (e falo do grego), mesmo que tenha existido, não escreveu uma linha, o que deixa o célebre “conhece-te a ti mesmo” desesperadamente à procura do “seu” sujeito.
Já sei, já sei – vão também lembrar-me que Jesus Cristo não terá, sequer, existência histórica reconhecida e que Maomé, o áspero e arrebatado profeta, não escreveu, não ditou e não se reconheceria, nem nas 92 suras que dizem ter-lhe sido reveladas em Meca, nem tão pouco nas 22 que os céus só lhe mostraram em Medina.
Não é estranho que tenhamos construído tanta civilização em cima de "figuras ausentes"? Ficção em cima de ficção, fantasmas em cima de fantasmas? Ninguém se atreveria a censurar aos humanos que tenham inventado os esplêndidos deuses. Mas que tenham também inventado os humildes inventores dos deuses, num inverosímil labirinto ficcional, será que nos obriga ao mais feroz cepticismo?

(mais)

quinta-feira, 12 de março de 2009

Da Visão: Convicção e Coragem




1 - O tempo não está, já se sabe, para grandes dissidências políticas. Em bom rigor, o tempo, em Portugal, nunca está para grandes dissidências políticas. Desde há muito que as máquinas partidárias se transformaram em fábricas aperfeiçoadas de uniformização ideológica (se é que se pode chamar ideologia à repetição compulsiva de meia dúzia de verdades oficiais). Há muito tempo que os partidos, sobretudo os partidos no poder, excomungaram os livre-pensadores e se encheram de militantes ordeiros e acríticos. Há muito que os grupos parlamentares são uma espécie de massa uniforme de deputados teleguiados. Quase sempre foi assim e quase sempre assim foi em todos os partidos. Mas é em tempos de maiorias absolutas e de «claustrofobia democrática» que os mares se tornam verdadeiramente agrestes para todos quantos, em política, persistem em pensar pela sua própria cabeça.
Na entrevista que concede ao Expresso do passado sábado, Manuel Alegre, o fantasma que pairou sobre o «congresso de uma nota só» (como ele próprio chamou ao conclave socialista de Espinho), volta a cometer esse horrendo pecado capital da ortodoxia partidária. Insiste em dar mostras do seu inconformismo e não tem papas na língua quando se trata de reafirmar as suas profundas divergências de princípios com o PS de José Sócrates. Fala na «gente medíocre que se apoderou dos partidos», na falta de debate ideológico, no célebre «medo» de que também falou Edmundo Pedro. Afronta Soares e define a sua hipotética Presidência da Assembleia da República como uma «mordaça de luxo».
Dirão os seus detractores que Manuel Alegre tem sede de protagonismo. Que, desde que se deixou inebriar pela campanha presidencial, não tem parado de buscar as luzes da ribalta. Vasco Pulido Valente adivinha-lhe a ambição de voltar a bater-se por um lugar em Belém. Eu, que não concordo com quase nenhuma das suas ideias, continuo, pelo contrário, a ver convicção e coragem onde outros vislumbrarão traições, ambiguidades e incoerências. Eu, que não posso rever-me menos na sua «convergência da esquerda», continuo a admirar o homem e o lutador. Eu, que continuo a acreditar no mesmo liberalismo a que Alegre atribui boa parte dos males do Mundo, não estou menos convicto de que são homens incómodos como ele que fazem falta aos partidos e à democracia portuguesa. Especialmente em momentos de crise económica, social, ideológica e sobretudo em momentos de unanimismo político, à esquerda ou à direita, como é aquele em que, infelizmente, vivemos.
2 – E se homens como Alegre prestigiam a Democracia e o parlamento portugueses, são episódios como o da muito pouco dignificante troca de insultos entre os deputados José Maria Martins e Afonso Candal que mais contribuem para o seu descrédito. Não é tanto a grosseria que choca. Num assomo raro de condescendência, estou até disposto a aceitar que todos temos direito aos nossos «cinco minutos de infelicidade». Mas confesso que não consigo aceitar que o episódio não tenha consequências mínimas. É caso para dizer que fazem pior à imagem do Parlamento as orelhas moucas do Presidente da Assembleia da República do que as bocas desabridas dos senhores deputados.

(mais)

quarta-feira, 11 de março de 2009

A morte e a morte de Max Ophuls




Passo a vida a tropeçar em Max Ophuls. A primeira vez que o conheci tinha nascido em Saarbrucken e era o brilhante realizador de uma «Carta de uma desconhecida» de que já falei neste blog. Se há filme que fale de amor é esse. E se há cena para rever cem vezes é a viagem no comboio «de fingir» naquela Viena de fim de século.
Depois fomo-nos vendo por aí. Poderia nomear vários encontros: aquele com «Lola Montès» que, para ser inteiramente franco, nunca verdadeiramente me encheu as medidas, aquele outro com «Le plaisir», ou ainda o com «Madame de». Mas arrebatamento como o primeiro, só quando o voltei a encontrar num «The reckless Moment» com o enorme James Mason. O filme «noir» mais romântico alguma vez filmado. Digo eu.
A semana passada voltei a tropeçar em Max Ophuls.Nascido e crescido em Estrasburgo, judeu ashkenazi, resistente, embaixador e senhor de «quantidades perigosas, possivelmente até letais de charme».
Max Ophuls morreu em 1957 em Hamburgo mas foi descansar para o Père-Lachaise. Depois voltou a morrer em 1993 em Los Angeles. Selvaticamente assassinado pelo homem a quem chamavam «Shalimar o Palhaço».
Vale a pena conhecer Ophuls nas suas várias encarnações. Do eterno romântico da «Carta» e do «Reckless moment» ao amante cínico do romance de Rushdie.
Há vidas que merecem ser vividas duas vezes.

(mais)

Revolutionary Road




Ou me levas para Paris, ou eu mato-me.
Matou-se.
Muito adulto.

(mais)

II. Porfírio, Sullo Stige, Bompiani 2006

É verdade que existem épocas de recalcamento religioso. A nossa época, marcada por um freudismo em versão vulgata, disserta muito sobre o recalcamento sexual, mas esquece o recalcamento de outras pulsões. Na alimentação, fala-se desde há uns anos nos distúrbios alimentares. O recalcamento intelectual aparece apenas em estudos isolados sobre a auto-mediocrização dos sobredotados. Mas o recalcamento religioso permanece no vazio, no silêncio.

E no entanto, é o mais perigoso e cruel dos recalcamentos. Assumindo que o centro da vida humana é religioso (demonstração que não farei aqui), o recalcamento religioso tem efeitos bem mais nefastos que os outros no longo prazo.

Um período que vai do século I a.C. até ao II d.C. tem várias fases de recalcamento religioso em graus diversos. Os resultados não se fizeram esperar. O século III, o século da grande crise do império romano, é também uma época de explosão religiosa. Não é o cristianismo, nem sequer publicamente, o que mais se destaca. Mas uma diversidade de vivências religiosas que se entrechocam e misturam e convivem entre si. A experimentação, a incerteza, a diversidade e o vazio lutam entre si.

Porfírio é em grande medida o apogeu desse movimento. Neoplatonismo e neopitagorismo (frequentemente confundidos na época), alguns influxos de Aristóteles, os oráculos caldaicos, as religiões mistéricas, filosofias orientais, tudo se encontra num mundo muito mais “globalizado” (expressão bárbara, se a há) do que a presunção de nossa época deixa admitir.

Da Índia ao Próximo Oriente, ao Egipto, até à Grécia, e laivos de religião romana tradicional, tudo se conjuga e se torna presente no pensamento da época. Esta observação é trivial. O que é menos salientado é o facto de este renascimento religioso ser igualmente o das fontes primárias da religião grega clássica, nomeadamente Homero. O Tratado sobre o Estige é disso exemplo eminente. Deixaram de acreditar nos seus deuses os antigos? Nem por isso. Viraram-nos em alegoria, mas não deixaram por isso de vibrar pela sua natureza divina directa.

O tremendum, o numinosum, o poder de fascínio não estava absolutamente perdido. O Estige é o rio terrível, sobre o qual juram os deuses. É o que mostra as condições da felicidade dos deuses, que podem ser castigados quando quebram esse juramento. Felizes, absolutamente felizes, são os deuses. Absolutamente? Não. Há limites, há condições. Cometendo perjúrio sobre as águas do Estige a divindade suspende-se.

O que renasce é o aspecto misterioso da divindade, mas igualmente o das suas vias de suspensão. No fundo, mais um dos lugares da sua incerteza. E lugares em sentido próprio. A certeza do divino exige a procura de uma geografia teológica, seja o Estige, ou o Antro das Ninfas. Os deuses impulsionam mais a reflexão que a acção. Também neste aspecto o cristianismo foi uma salvação porque permitiu uma e outra.

(mais)

Onde Vaz, Fernão?




Detesto um dos principais entretenimentos nacionais, a maledicência gratuita. É sempre mais fácil dizer mal de algo que se faz do que fazer algo.


Por isso, nem liguei quando começaram os inevitáveis ataques mais ou menos trauliteiros a propósito do programa de distribuição do célebre computador Magalhães pelas crianças do Básico.

Numa sociedade marcada pela inequidade de oportunidades entre ricos e pobres, fosso que se alarga com a info-exclusão, aqui estava uma medida niveladora por alto. Não era barata: se cada máquina custar ao Estado 200 euros, os 500.000 Magalhães representam um investimento da ordem de 100 milhões de euros. Não é de desprezar mas é um grande investimento no maior recurso de todos: o humano. Como dizia Tony Blair, se acham que a Educação é cara, experimentem a ignorância!

Que me interessava que a medida fosse divulgada por um poderoso marketing político? Que houvesse empresas a ganhar dinheiro com o negócio (desde que fosse legitimamente – desde quando uma empresa produz máquinas para ter prejuízo)? Que a máquina não fosse de tecnologia portuguesa (mas desde quando existe por exemplo um carro português?), mas uma solução preexistente? Que não exista rede wireless gratuita em toda a extensão do País (nem nos EUA isso ocorre)?

Francamente todas estas “objecções” me parecem absolutamente patéticas e fruto da nossa crónica mesquinhez maledicente. Velhos do Restelo a bradar, não contra um Vasco da Gama mas contra um Magalhães.

O meu filho mais novo esperou ansiosamente um mês pelo seu Magalhães, que eu comprei com todo o gosto e chegou na semana passada. E desde então não o larga.

Foi aí que fui surpreendido, chocado, esmagado pelo Expresso da semana passada. Li e não acreditei: era maiis desinformação. Fui verificar no Magalhães do meu filho: era tudo verdade. O software educativo para crianças do Básico, que estão a aprender a ler e escrever, instalado pelo Ministério da Educação, tinha erros de português que na minha altura dariam chumbo no exame de 4ª classe – ortografia, gramática, sintaxe. Nem é preciso ir longe, estão logo à superfície. “Dirije o guindaste e copía o modelo”. “Quando acabas-te, carrega no botão OK”. “Quando o tangram for dito frequentemente ser antigo, sua existência foi somente verificada em 1800.” E o omnipresente “saír”. Já circulam na Net documentos com o Top 10 do “Magalhanês”.

E aqui perdi as minhas ilusões. Isto não era maledicência gratuita.

Num primeiro nível, sinto-me indignado. É totalmente inaceitável que um projecto destes, subsidiado com 100 milhões de euros dos nossos impostos (mesmo dos que NÃO usufruem dos benefícios, pois o dinheiro sai do OE) possa ter um controlo de qualidade inexistente (é claro que nunca ninguém português leu estas frases). Frases mal adaptadas do francês? Para crianças que estão a aprender a ler? Sendo responsável o ME? Inacreditável. É o análogo informático a investir 100 milhões de euros numa Cartilha Maternal com asneiras. Enquanto contribuinte, exijo explicações e espero tê-las sem insultos à minha inteligência.

Num segundo nível, sinto-me revoltado. Afinal, tudo isto estava mesmo preso com arames, foi mesmo feito sem qualidade, em cima do joelho, sem rigor, sem verificação. O importante era ter isto cá fora a tempo de ser brandido com timings políticos. E o facto de ser um “computador”, termo que ainda assusta muitos pais, só aumenta o novo-riquismo e a sensação de tudo isto ser também uma mascarada pour épater le bourgeois.O supra-sumo do suburbanismo.

Num terceiro nível, sinto-me profundamente deprimido. Mais uma vez, a mensagem que estamos a passar aos nossos jovens é que vale tudo, desde que se seja chico-esperto. Pode e deve ser-se um baldas, fazer tudo à pancada porque no fim vale a pena. Se uma criança de 8 anos que aprende a ler recebe materiais com software educativo com a chancela do ME num português macarrónico, como é que eu a vou convencer aos 12 anos que “fazer um trabalho para a Escola” não é ir à Wikipedia fazer cut and paste de um texto brasileiro sem sequer o ler?

E como é que explico, como me aconteceu há algum tempo num Júri (sim, é verdade!), que é inaceitável, e plágio, que uma Tese de Mestrado original tenha páginas inteiras (mal) traduzidas da Wikipedia? Aliás é curioso que os alunos ainda não tenham percebido que as tecnologias de informação sejam uma arma de dois gumes: se eu suspeito que um texto não seja original bastá-me procurá-lo no Google e descubro isso em 2 segundos.

O que me deprime mais ainda são os valores transmitidos. O crime compensa. Vale a pena ser baldas e preguiçoso – só os chatos é que se dão ao trabalho de pensar para fazer uma coisa original e séria. Não faz mal errar, desde que dê menos trabalho, porque se alguém der por isso depois se vê. E, claro, muitas vezes ninguém dá por nada (o Magalhães anda por aí há 6 meses). Vale tudo. Tanto faz. E se der menos trabalho, melhor.

Daqui a 10 ou 20 anos, quais serão as hipóteses de um jovem que tenha recebido esta formação a quem foram transmitidos estes valores numa entrevista contra profissionais a sério, vindos de países onde as “tecnologias de informação” não sejam vistas com este novo-riquismo balofo e imbecil mas como o auxiliar precioso que são?

Onde Vaz, Fernão?

(mais)

segunda-feira, 9 de março de 2009

O retrato de Shakespeare

É ele. É este. A imagem acima reproduz o único retrato de Shakespeare (1546-1616) feito durante a sua vida. Para sermos matemáticos, foi pintado 6 anos antes da sua morte. Testa alta, nariz recto, olhos escuros e rasgados, a boca a que o inverno de Stratford-upon-Avon deu um toque de rouge, são estes os traços do autor de Hamlet e da Tempestade. Os raios X e as imagens de infra-vermelhos dos experts foram conclusivos e não nos deixam mentir. Soube-se ontem, numa segunda-feira de Março. Gosto da cara dele – mais jovem do que os 64 anos que já teria – acho, enfim, que tem boa pinta. Devemos-lhe um mundo e o teatro desse mundo. Mas quantos, como diz Borges, não tiveram de matar o seu rei para que ele pudesse escrever Hamlet ou Macbeth?!

(mais)

I. Porfírio, Sullo Stige, Bompiani 2006



Houve uma época feliz em que os deuses antigos já tinham morrido e o novo não tinha nascido. Isto teria sido no século II depois de Cristo no império romano. Tese de quem? De Marguerite Yourcenar nas “Memórias de Adriano”.

Ideia simples? Sem dúvida. Mas cheia de vícios. Em primeiro lugar, a ideia não é de Yourcenar, mas de Renan. Renan era um genial estilista, um homem de grande erudição. Mas quando não nos deixamos impressionar apenas por isto e não perdemos sentido crítico, conseguimos ver um pouco além disso. Renan levou uma vida inteira em desesperada procura de vazios de cristianismo ou, o que é o mesmo, de suas alternativas.

Foi o mesmo Renan que achou que o mitraísmo tinha vocação para ter sido a alternativa ao cristianismo, quando a investigação mais recente (Turcan, v.g.) mostra que esteve sempre bem longe disso. O mesmo que tentou encontrar numa espécie de positivismo poético de base filológica uma alternativa para o sentido do mundo.

O que Renan diz é sempre maravilhoso, mas suspeito, portanto. O século II, e a dinastia dos Antoninos, esteve longe de ser um vazio de religião. Antonino Pio segue-se a Adriano e talvez tenha sido o último imperador plenamente imbuído da religião clássica romana. Plutarco viveu no mesmo século e estava bem longe de ser um irreligioso. Os cultos de Cibele, Serápis, Ísis, Mitra prosperam. A generalização histórica produz efeitos poéticos, mas é luxo para poucas mãos. Sobretudo no que respeita ao sentimento, e ainda mais ao sentimento religioso.


(mais)

O cúmulo

O militante socialista José Vieira da Silva, secretário ncional do PS, vai, enquanto dirigente partidário, coordenar o processo eleitoral do presente ano: europeias, autárquicas e legislativas.

O assunto não me diria respeito se o militante José Vieira da Silva não fosse simultaneamente o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social do meu país. Das duas uma: ou o dia do ministro tem 48 horas, ou o número de desempregados não lhe preenche suficientemente o dia.

(mais)

Uma "Quadratura do Círculo" empírica ( cont.)

O segundo episódio.

Dia 13 de Fevereiro: jantar-comício do PSD no Pavilhão União de Coimbra, nessa cidade.

Cheguei à hora marcada, estavam apenas algumas dezenas de pessoas. Devagar, começam a chegar dezenas, centenas de pessoas. Numa hora, o pavilhão encheu. Todas os lugares estão preenchidos, todas as mesas completas.
Ao fundo, centenas de militantes e de simpatizantes esperam de pé, já não há lugares.

Está muita gente, mas ainda assim menos do que no anterior jantar-comício em Vila Nova de Famalicão.

A edição do jornal Público de dia 15 de Fevereiro,noticia que teriam estado mais de 1000 pessoas nesse jantar.

Nesse dia, José Manuel Fernandes, em editorial fala apenas desse assunto, chama ao jantar "banho de multidão".

Menciona a possibilidade de os ataques à liderança do PSD se ficarem a dever à eventualidade de esses opositores verem uma oportunidade real de Sócrates não ganhar as eleições e de a sua conduta se pautar pelo oportunismo político.

Houve um banho de multidão em Coimbra? Sim. Mas estava o dobro das pessoas em Braga e ninguém lhe chamou assim.

O que terá mudado em Coimbra: a percepção dos media ou o relacionamento do PSD com estes?

( a continuar)

(mais)