quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Onde está o teu coração?



Começa hoje a quaresma, os quarenta dias que antecedem a Páscoa e nos quais devemos preparar a passagem do espírito de Deus que, na terra dos homens, distingue e liberta o que é vivo e o que é morto.
Ainda no Egipto, todos os que viviam da verdadeira vida o assinalaram na ombreira da porta de suas casas com o sangue do cordeiro que, em família, comeram no temor do seu Senhor. E logo deixaram de ser escravos e o Faraó os deixou partir para que buscassem o seu Deus.
Jesus Cristo, mais tarde, tornou-se ele próprio no cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, oferecendo-se a todos e a cada um para que, comendo-o, nos tornemos dignos dessa libertação verdadeira pela qual podemos livre e eternamente buscar o verdadeiro Deus.
Uma das diferenças entre as duas Páscoas, sem dúvida, é esta: Deus, agora, está mais próximo, está intimamente presente dentro de cada um de nós. Continuamos a ter que reunir-nos em família, entre irmãos, como é próprio da natureza humana, mas a ombreira da porta tornou-se agora no coração de cada um de nós, no qual Deus toca, libertando e salvando nessa sua terrível e exigentíssima passagem.
Ora, o que aqui quero sugerir, independentemente daquilo em que cada um crê, ou julga crer, é a meditação sobre o coração. Muitas tradições falam do coração como lugar privilegiado dos homens: íntimo, sensível, puro. Mas de que é que falamos quando falamos do coração? Quem já o experimentou, no regresso desse percurso em que fora de nós, buscávamos a Deus, que agora procuramos dentro de nós? Quem já o reconheceu, nesse caminho, em que nos tornámos, e que passa sempre pelas portas da nossa carne?
Crentes e não crentes têm em comum este mesmo mistério: aquilo que eles próprios são e a partir do qual procuram, ou não, a Deus. Deixemos que o nosso pensamento passe pelas portas da carne e se eleve e aprofunde cada vez mais dentro de si. O resto é uma questão de fé: de graça e de liberdade. A este caminho até si, porém, cada um à sua maneira, estamos todos obrigados.

4 comentários:

Anónimo disse...

Agora percebo porque perdi a fé. É do coração. Fui transplantado e calhou-me um órgão de algum ateu empedernido.

Nina disse...

Não, anónimo, não percebeu, porque o que lhe falta mesmo não é só o coração mas o miolo também.
Nina

João Wemans disse...

Bela meditação.
JW

Anónimo disse...

Ó Nina, está enganada. Miolo talvez não o tenha assim em quantidade. Mas coração tenho. Sinto cá a batê-lo - por enquanto... Não é meu, é certo. Foi-me gentilmente doado por alguém que já precisava dele.