sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

II. Sir William Rowan Hamilton; Thomas L. Hankins, The John Hopkins University Press, 1980

As suas grandes contribuições para a óptica, que se vertem posteriormente em toda a dinâmica (nomeadamente com o hamiltoneano) fazem esquecer um pouco os quaterniões, que foram esmagados pelo cálculo vectorial. No entanto como experiência e como resultado não podemos desprezar os quaterniões.

Em primeiro lugar, são das primeiras construções que tentam generalizar os números (será preciso esperar por Félix Klein para ver substancial desenvolvimento na coisa). Não um mas três números imaginários. Em segundo lugar uma das primeiras estruturas algébricas não comutativas expressamente desenvolvidas na História. Ignoro se no momento existem – mas suspeito que sim – mil demonstrações que deixem bem claro por que razão fundamental algébrica seriam impossíveis terniões numa estrutura algébrica fechada. Mas o facto de eles não permitirem este fechamento levou Hamilton a construir quaterniões.

Há partes da obra de Hamilton que ficam por explicar, mais pelo mistério do seu sabor que pelos resultados a que conduziriam. As suas experiências com grafos, e com figuras cada vez mais abstractas que lhe permitiram fazer um jogo patenteado, levam-nos a perguntar até que ponto tinha ele consciência da natureza “séria” das suas novas investigações matemáticas. Muitos antes dele fizeram jogos semelhantes e experiências aparentemente laterais. Leibniz, Euler e Gauss são apenas alguns exemplos. Mais tarde Poincaré, mas esse já bem sabia da importância da álgebra abstracta na matemática.

Seja como for. foi um cristão romântico que lançou bases fundamentais para a matemática do século XX e um dos mais importantes instrumentos matemáticos da física quântica, o hamiltoneano. Que fique para reflexão para quem acha que a Europa é feita de muitas influências difusas e nunca nominadas. Da parte que me toca encontro sempre as mesmas. Para uns isso é monotonia para outros será conhecimento de causa e coerência. A vous de juger


Alexandre Brandão da Veiga


http://scienceworld.wolfram.com/biography/HamiltonWilliamRowan.html
http://physicsweb.org/articles/world/18/8/7
http://www.emis.de/classics/Hamilton/
http://www.emis.de/ELibM.html

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Sarkozy, uma carne inteligente embora às vezes doente.

Sarkozy, uma carne inteligente embora às vezes doente.



O sexo é só um acidente.
O homem é um animal,
uma carne inteligente ,
embora às vezes doente

Assim dizia Pessoa.

Sarkozy em pompa e circunstancia anuncia esta manhã no Eliseu o “plan Espoir banlieues”.
Àqueles a quem chamou canalhas em 2005 quando era ministro do interior, Sarkozy oferece agora “une formation pour chaque jeune qui veut se lever tôt le matin”.
Este é um plano traçado em conjunto com Fadela Amara, a mulher que considerou a iniciativa dos testes de ADN para filhos de imigrantes de “dégueulasse” e que em finais de Janeiro declarou que não votaria Nicolas Sarkozy nas próximas presidenciais.
As encenações pessoais e políticas do presidente Francês estão a custar-lhe uma queda vertiginosa na sua popularidade e na admiração daqueles que o rodeiam.
Será que ele nunca leu Pessoa?

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Mr. Maduro (II) - o primado do Direito

Muito bem lembrado, Pedro.
O artigo do Economist pode ser lido aqui. E merece a leitura.
A opinião de Miguel Poiares Maduro é referida pelas melhores razões. Sem tergiversações, radica na assunção plena do 'rule of law' e, portanto, em coerência, das suas diversas implicações. Sem cedências a urgências securitárias, torna actual e cogente o imperativo de fidelidade aos valores fundadores da ordem jurídica europeia. Preto no branco, Miguel Maduro lembra-nos que o Direito é o que é - logo, o que deve ser - e não o que as conveniências de uma concreta circunstância poderiam determinar que fosse.
Pedagogia essencial, nos tempos que correm. E, como assinala o Economist, um muito provável ponto de viragem relativamente à tolerância que tem envolvido as práticas de combate ao terrorismo.
Parabéns, Miguel!

Antecipando a leitura integral:
«(...) in a potentially ground-breaking “opinion” to the European Court of Justice in the al Barakaat case on January 23rd, Poiares Maduro, one of the court's eight independent “advocates-general” (with a rank equivalent to that of a judge), argued that the court cannot “turn its back on the fundamental values that lie at the basis of the [EU's] legal order and which it has the duty to protect.” Where those values were at stake, the court might have to annul Security Council measures, he said.
Mr Maduro also says that even when such measures were intended to suppress terrorism, this “should not inhibit the court from fulfilling its duty to preserve the rule of law”. In doing so, it would not, as a lower EU court had argued, be “trespassing into the domain of politics”, but “reaffirming the limits that the law imposes on certain political decisions”.
Although the prevention of international terrorism might sometimes justify restrictions on an individual's right to property, it did not remove the need to demonstrate why those measures were being applied to that particular person or entity. Delivering a similar opinion in Mr Kadi's case, he said that imposing sanctions with such “potentially devastating” consequences on someone who might be totally innocent was “anathema in a society that respects the rule of law”.
(...)
Mr Maduro's opinion to the court marks the first substantive legal challenge to the fundamental assumption on which the UN's watchlist is based—namely that where world peace and security are at stake, virtually anything goes so long as it has the blessing of the world's great powers. An advocate-general's opinion is not, of course, the same as a ruling. The court still has to decide whether to accept Mr Maduro's advice. In the past, it has followed such opinions in about 80% of cases. But in potentially precedent-setting cases, such as those of Mr Kadi and al Barakaat, its reaction, expected by the summer, is much harder to predict. At the UN's headquarters in New York, the securocrats are increasingly twitchy.»

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Mr. Maduro

Só li o artigo rapidamente ontem no Economist desta semana e não tenho aqui a revista comigo. É um artigo de uma página, com desenho e tudo, que mostra as Nações Unidas como um polvo agarrando alguns suspeitos, no escuro, e uma lanterna com a bandeira da União Europeia a revelar o feito.

A história é mais ou menos esta. A ONU ou melhor, o Conselho de Segurança, tem uma lista com umas centenas de nomes de suspeitos de terrorismo. Esses nomes não têm poder de contestar a sua pertença à lista, evocando a ONU para isso razões de segurança. Um ou dois deles fizeram queixa ao Tribunal Europeu de Justiça. Este tribunal tem advogados gerais que emitem opiniões para ajudar os juízes a decidir, sendo que aqueles têm o mesmo estatuto destes. Ora, como se pode ler no Economist, saiu uma opinião de um dos advogados gerais, Mr. Maduro, dizendo que a lista de terroristas da ONU viola uma data de princípios e que deve ser eliminada. Em 80% dos casos, os juízes seguem as opiniões dos advogados gerais. É uma decisão importantíssima para as questões da liberdade e dos direitos humanos, quer o Tribunal a venha a acatar ou não, quer se concorde com ela ou não.

E quem é o Mr. Maduro? – O nosso, claro. Tenho a certeza de que os nossos jornais de referência deram ou irão dar o devido destaque a esta importante notícia.

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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

I. Sir William Rowan Hamilton; Thomas L. Hankins, The John Hopkins University Press, 1980



O cálculo vectorial é das áreas da matemática onde a História está mais por deslindar. Uma criação paulatina, um longo parto, em que cada novo passo mostra nova consciência da coisa. Não é como o cálculo infinitesimal que, se como tudo na matemática tem uma História cumulativa, é criado com total consciência por Leibniz e Newton. Fruto de trabalhos alemães (Grassman), de um irlandês (Hamilton), de um francês (Cauchy), mesmo de um americano (Gibbs) uma ideia tão simples e ao mesmo tão abstrusa como a de vector levou tempo a construir. Estranha realidade a de o cálculo tensorial ser construído por Riemann ainda antes da ideia de vector estar estabelecida com solidez. Há mistérios da História da matemática e este é apenas um deles.

Hamilton é uma figura interessante porque nos obriga a deitar ao lixo os lugares comuns bem pensantes da massa que ocupa o espaço público. Irlandês até ao tutano, mas protestante. Um astrónomo que é bem mais físico e um físico que é bem mais matemático. Mas sobretudo um físico romântico.

A sua obsessão filosófica era Kant, o que mostra que na supostamente isolada Grã-Bretanha o pensamento europeu esteve sempre presente. É com Kant que se defronta na sua construção matemática, não com o empirismo popular dos ingleses (popular porque os grandes cientistas nunca foram empiristas, como o exemplo de Maxwell bem demonstra).

A sua repulsa na física era a matéria, em como se demonstra que ao contrário do que dizem os popularuchos defensores de ciência de divulgação se pode ser grande cientista sem idolatrar a matéria (Mach, Poincaré, cada um deles seria bom exemplo disso).

Cientista e romântico, ao contrário do que a visão popular entende. Não apenas por ser amante de poesia (isso não quer dizer ser romântico), mas porque fez ciência com base em postulados românticos, procurando uma figura total na ciência que só um romântico tentaria descobrir.

Cientista e profundamente cristão, mais um na tão grande lista, ao contrário dos cientistas de pacotilha que julgam que com gráficos e estatísticas mal digeridas se apaga o cristianismo do mapa-múndi.

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A inveja



"Oh Pátria tão naturalmente amada, como naturalmente incrédula! Que filhos tão grandes, e tão ilustres terias, se assim como nascem de ti, não nascera juntamente de ti, e com eles a enveja, que os afoga no mesmo nascimento, e os não deixa luzir, nem crescer!"
As palavras são do Padre António Vieira e têm quase quatrocentos anos. Mas podiam ter sido escritas ontem.

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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Eis A Minha Obra

I love the game. Gosto de futebol. Gramo à brava o futebol que aprendi a ver em África. E aprendi a vê-lo como quem vê dançar o tango. No Estádio dos Coqueiros, os seniores do Benfica de Luanda e do ASA, no Campo de São Paulo todos os juniores. Quando entravam em campo, os jogadores eram guerreiros que exibiam a insolência da sua individualidade, mestres de cerimónias tão civis que jamais sairiam de campo sem oferecer a cada espectador um toque magistral: uma troca súbita de pés, um sprint que sacudisse a sonolência da noite tropical, uma chulipa arrebatadora, o vôo vertiginoso de um guarda-redes. O que, aos espectadores, nos dilatava o peito de orgulho era a incalculada alegria de jogar futebol que aqueles humildes artífices exprimiam a toda a extensão do terreno. De Cerqueira a Gomes, de Justino a Dinis ou Inguila, passando pelo divino Jacinto João. Ganhava-se, perdia-se, mas o que nos interessava é que o céu se enchesse de estrelas: um tiraço de fora da área que fosse golo, o passe de bandeira a que o avançado-centro dissesse sim com a gentileza de um noivo, três obscenos dribles ceifados por um sarrafo impiedoso.
Em olimpicamente melhor, em edição de luxo, vi depois no cinema, nas matinés do Vilinha, Pelé a pôr em causa as leis da física com a improbabilidade dos movimentos que dele emanavam como se fosem entidades autónomas. Dei-me conta da adjectiva incapacidade da língua portuguesa para enumerar os prodigiosos incidentes que se estabeleciam entre o esférico e os pés, joelhos e calcanhares do brasileiro.
Depois vi – vi mesmo – entrar Eusébio no Estádio. Era força e paixão puras. Nunca confiei em mais ninguém como confiei nele. Era preciso disparar com soberba e arrogância a 40 metros da baliza? Era preciso deixar cinco atónitos defesas para trás? Era preciso fuzilar de cabeça no incauto risco da pequena-área? Ele faria sempre por nós o que fosse preciso: por nós ele entraria por ali dentro com bola e tudo.
Hoje, Cristiano Ronaldo faz 23 anos. Reencontro nele a alegria do futebol da minha adolescência. Finta como quem dança. Corre como um miúdo que vai ter com a namorada. Remata com a violência de quem se julga imortal.
Aconselhado pelo tricolor Nelson Rodrigues, Deus, lá em cima, como já dissera dos seus dilectos filhos Pelé, Eusébio ou Maradona, olhou agora para o fulgurante livre marcado pelo português Ronaldo e fez passar, por entre as ondas de aquecimento global, um fresco sussuro que nos diz: “Eis a minha obra”.

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Geração Absinto




Tenho dois filhos adolescentes e confesso que procuro quem comigo se insurja quanto ao que uso chamar a “geração absinto”.
Os meus filhos crescerão sem poder fumar porque “fumar mata” mas poderão continuar a beber shots de vodka e de absinto em todos os locais nocturnos próprios para a diversão de adolescentes.
Extraordinário: uma cerveja custa um euro mas um shot de Vodka ou Absinto custam apenas 90 cêntimos.
Ou seja, em nome do negócio, das margens e do lucro, dos chamados empresários da noite (a maior parte, sabemos, de escrúpulos bem reduzidos), os meus filhos não se podem matar a fumar mas podem envenenar-se com bebidas brancas que além de lhes dar cabo do fígado lhes matam com toda a certeza boa parte dos neurónios.

Numa era em que se questiona a legitimidade do Nobel atribuído a Egas Moniz por ter inventado a lobotomia, em Portugal “lobotomizam-se” as gerações vindouras em nome do desenvolvimento da “economia nocturna”.

As autoridades portuguesas que tanto gostam de cumprir o que está dentro e além do seu papel não se lembraram ainda de dar uma olhadela nas noites dos adolescentes? Ou será que este é apenas um lapso calculado…
Já pensaram no jeito que dá ter esta geração de absinto “adormecida” quando daqui a 10 anos estiver na idade activa?

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José Rodrigues dos Santos: "Pin-up"

Não sei se sou o único, mas a piscadela de olho do José Rodrigues dos Santos, no fim dos telejornais, provoca-me uma irritação instintiva. A questão é mais séria do que parece, e o motivo por que o "pivot" o faz, e eu me irrito, tem muito a ver com os tempos modernos.É uma espécie de abuso de poder. A minha vontade é perguntar: "conhece-me de algum lado?". Sim, quem lhe deu licença de supor intimidades, comigo, (ou já agora com a minha mulher, sentada a meu lado), para nos piscar o olho em cumplicidades que nunca consenti? Suponho que a criatura julga ter criado uma "trade mark" original, um achado de comunicação, sem perceber que ultrapassou a marca da distância interpessoal que apenas se permite aos intimos. O nosso cérebro reage à imagem como há milhares de anos atrás. Uma rapariga em bikini, que pisca o olho do ecrã, mostrando uma garrafa de cerveja, traz uma mensagem clara que o nosso cérebro interpreta como um convite implicito, dirigido individualmente ao espectador singular. José Rodrigues dos Santos sabe que é assim, e com a sua piscadela de olho, passa uma mensagenm de "eu, teu amigalhaço", vendendo não uma marca de refrigerantes, mas ele próprio, transformado em produto de consumo, e já agora, em membro da família com quem se tem a obrigação familiar de ler, (comprar), o livro que escreveu. Se todas as noites, José Rodrigues dos Santos pisca o olho a um milhão de portugueses, todas as noites um milhão de portugueses têm a liberdade de se sentar à sua mesa de restaurante, se o encontram a jantar.

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"Expiação" até mais não

Há uns dias - talvez demasiados, mas tenho andado a fazer pesca submarina em busca de ideias decentes - João Pereira Coutinho alertava para o facto de a primeira meia hora de "Expiação", de Joe Wright, ser extraordinária, e depois o filme se afundar como um submarino germânico.
Tinha razão. O primeiro acto da fita não desmerece as passagens socialmente mais maliciosas de Jane Austen, o prenúncio trágico das irmãs Bronte e - porque não - os equívocos com bilhete de metro para o purgatório de Graham Greene. Há ambiente, incandescência na contenção, um fresco de temas mentais, música das almas - que se aproximam para nunca mais se encontrarem, como no "Retrato de Jennie" do pós-romântico William Dieterle - e um trabalho sobre o tempo que define o que o tempo é: tangível, viscoso como a pele das serpentes, infinitamente subjectivo.
Há mesmo uma das melhores cenas de sexo dos últimos anos - e não, não está em "Shortbus" de John Cameron Mitchell (o melhor "self made blow job", talvez), no "Ken Park" de Larry Park (a não ser que se goste de publicidade com meninas de 17 anos que parecem ter nove, feitos ontem de madrugada), nem mesmo no "9 Songs" de Michael Winterbottom (a melhor "queca"? Eventualmente).
Antes que este texto perca toda a lisura dos seus objectivos, convém referir que Pereira Coutinho é um bocadinho injustinho com Anthony Minghella, como o são todos os críticos e observadores com mais de 2000 livros na biblioteca (o número tem, evidentemente, rigor científico). O homem é um valente chato - e presunçoso, que são os chatos da pior espécie - quando se toma pela reencarnação de David Lean com dry bourbon e um twist de limão, como se pode (des)apreciar nos flashforwards de "O Paciente Inglês" (já não há pachorra para a Juliette Binoche a fazer caretas de adolescente deslumbrada) ou no epílogo de "Cold Mountain", com corvos, neve e todo o "mambo jumbo" holístico da praxe.
Mas quando Minghella abandona as cópias pirata de "Doutor Jivago" e "A Filha de Ryan" e se concentra no humanismo outonal, por vezes sombrio, do Lean da primeira fase britânica ("In Which We Serve", "Oliver Twist", "Brief Encounter") ou no abrasivo segundo acto de "Lawrence da Arábia" acerta, como acertou com "Truly Madly, Deeply" (que desconfio Coutinho não ter visto) e as sequências do deserto de "O Paciente": se excluirmos o próprio Lean, Chris Marker, Nicholas Ray e Claire Denis, quem filmou até hoje melhor o deserto do que Minghella?

Regressando à nossa "Expiação": sendo certo que dois terços do filme são papa virtuosa e emocionalmente opaca, não há hoje nenhum realizador português (alguma vez houve?) capaz de oferecer uma primeira parte tão deleitada e tão justa como os trinta minutos inaugurais desta fita de enganos irrecuperáveis. É por essa régua que nos devemos medir, é essa aspiração que devemos exigir (mesmo aos que são suficientemente cegos, mas insuficientemente borgeseanos, para não reconhecer essa aspiração mesmo que ela lhes caísse em cima vinda do topo de um prédio com dez andares). Já se sabe que a ruminância da mediocridade nunca pára.


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Ainda a democracia na América


Não resisto a entrar na conversa. Sem negligenciar a inspiração do Miguel, mas em diálogo próximo com o Pedro.
Começando pelo registo de interesses, assumo que estou com o Pedro na atenção a tudo o que prometa ser politicamente novo e assim reabilite a exaltação de fazer e viver a política. Como assumo que partilho com o Pedro o sonho de recuperar o "sentido de premência e acuidade" do debate político.
Mas, concordando embora na essência do que importa, pergunto-me se não há uma evidente condescendência na assunção de que ao novo basta a emoção e de que ao emocional se dispensa o substantivo. Não será essa pretensa linearidade demasiadamente simplista? E, nesse simplismo, não será sobretudo facilitista?
Obama é um excelente pretexto de reflexão. É manifesto que exalta, mobiliza e desafia. Como é patente que traz um sopro novo à arena política. No plano da emoção, faz a diferença. Mas o que propõe efectivamente como modelo de vida e de desenvolvimento? Percebemos o registo e o estilo, mas quais as "policies"? Substantivamente, o que poderá ser o seu mandato? No fundo, no fundo, ninguém sabe. Ora, apesar de toda a frescura, confesso que o facto me inquieta.
No âmago das minhas angústias, dou por mim a ouvir o sorriso do Gonçalo Magalhães Collaço, dizendo-me: "coisas de um mundo crescentemente feminino"... Logo a mim, que sou mulher e que continuarei sempre sem entender por que não se pede substância à emoção... A mim, que sou mulher e que só acredito na emoção substantiva porque só nela vejo perspectiva...
Mas, enfim, talvez seja ainda a certeza de tratarmos de um mundo de homens. E, portanto, dos medos que assombram uma emoção com densidade e horizonte.

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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Da Democracia na América



Volto, como prometido, ao tema das eleições americanas para continuar a conversar com o Miguel Maduro. É minha convicção que, independentemente do resultado da «Super Tuesday» e, por maioria de razão, das eleições do próximo mês de Novembro, Barack Obama já mudou a face da política americana e é, seguramente, um dos fenómenos mais fascinantes que apareceu no universo político nos últimos 20 ou 30 anos. Não discuto (pelo menos aqui) as habilitações do candidato para se sentar na Casa Branca. Interessa-me apenas sublinhar a extraordinária revolução que Obama tem conseguido introduzir na forma de fazer e de viver a política. Num momento em que, um pouco por todo o Mundo, se fala de crise de representação, de afastamento entre eleitores e eleitos, da «mercantilização» da política, é espantoso observar como Obama tem conseguido resgatar, para a discussão e para os debates políticos, enormes franjas da população (nomeadamente os eleitores mais jovens) que dela pareciam irremediavelmente afastadas. É espantoso como tem conseguido devolver um sentido de premência e de acuidade ao debate político. É espantoso como tem conseguido (re)transformar a arena política num território fascinante para ser trilhado. É espantoso como tem devolvido uma dignidade imanente à própria arte de fazer política.
Fá-lo através de um discurso empolgante e de uma espontaneidade desarmante. Fá-lo através de uma reabilitação quase «naïve» dos temas da mudança e da esperança para o léxico político. Fá-lo através da recuperação de um certo imaginário «kenediano» a que nem os Kennedys parecem resistir. Fá-lo, muitas vezes em prejuízo de um discurso mais substantivo, sobrepondo claramente a emoção à razão. Mas fá-lo, ainda assim, com a mestria de quem parece nunca ultrapassar a «thin line» que separa o político idealista do populista desbragado. O que não é dizer pouco.
Em certo sentido, Barack Obama já ganhou. E nesse mesmo sentido, não tenho quaisquer dúvidas, com ele ganhou já a «Democracia na América».

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«Ministros não queriam sair»



Verdadeiramente luminosa a manchete do semanário Sol desta semana: «Ministros remodelados não queriam sair». Ai sim? «E contaram só prá vocês?»

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domingo, 3 de fevereiro de 2008

Portugal não tem o corpo e a alma lado a lado

Portugal não tem o corpo e a alma lado a lado

Se pensarmos que o Estado é o corpo e a sociedade civil a alma deste Portugal aonde vivemos, chegaremos rapidamente à conclusão de que nele, o sonho não acontece nem nunca vai acontecer porque o seu corpo e a sua alma não caminham lado a lado.

Em Portugal, ainda não se percebeu que para se chegar a um grau mínimo de civilidade, quer no que toca ao contacto periférico quer à interdependência económica quer à comunhão psíquica, já não se pode crescer senão interpenetrando-se.

O Estado é o primeiro a virar costas a esta realidade, tentando ignorar que as peças de teatro que tão bem ensaia, se revelam incapazes de, por si sós, conduzirem à aproximação entre os portugueses: fora dos casos particulares em que actuam, quer as forças sexuais, quer transitoriamente qualquer paixão comum extraordinária, os portugueses, como qualquer mortal, permanecem hostis, ou pelo menos fechados em relação uns aos outros. Não há portanto o perigo de constituírem uma massa expressiva. (Veja-se a (não) qualidade da oposição parlamentar e os membros que a representam, oiçam-se os debates da Assembleia da Republica!...)

O Estado actua em Portugal sabendo que quanto mais a humanidade ordena tecnicamente a sua multidão, mais nela, pari pasu, sobem a tensão psíquica, a consciência do tempo e do espaço, o gosto e o poder da descoberta.

O primeiro-ministro que com todo o mérito, regimenta e usufrui da ignorância dos portugueses, sabe que o país, graças à sua política de educação e formação, está cada vez mais longe de vir um dia a ter sentido crítico, a ter vontade própria, a ter a participação activa e positiva da sociedade civil.

Os portugueses passaram agora a pagar IVA sobre a taxa de televisão que está incluída nas suas facturas de electricidade e não dizem nada. Uma dupla tributação que supostamente seria para ajudar a pagar um serviço público (qual?) de televisão com qualidade, mas que em boa verdade servirá para qualquer outra coisa que os portugueses nem querem saber.
Sócrates, reflectindo-se sobre si mesmo, sem massa crítica a contrapor, tornar-se-à cada vez mais imóvel.
Está portanto cada vez mais longe a possibilidade de Portugal um dia sonhar inteiro, com o corpo e alma lado a lado!



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Bagdad: o horror


Há limites intransponíveis porque, para além deles, fica o horror. Apenas o horror.
A confirmar-se que os recentes ataques suicidas em Bagdad foram perpetrados por mulheres deficientes mentais, ter-se-á ultrapassado um desses limites. A confirmar-se que o factor determinante do recurso às duas bombistas foi, precisamente, a sua deficiência mental, nenhum homem e nenhuma mulher capazes de consciência podem sentir-se estranhos ao choque, à vergonha e ao terror.
Independentemente de todas as distâncias, para este efeito, Bagdad somos nós. Ninguém está fora, ninguém pode pôr-se de fora.



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Sem aurora, nem ocaso

Em Madrid, até 23 de Março, exibe-se uma exposição de fotografias de viagens do escritor Jorge Luis Borges, autor da impúdica História Universal da Infâmia.
Brilham, em Madrid, imagens inéditas de Paris, Cairo, Roma, Creta, Istambul, Filadelfia, Genéve ou Buenos Aires. Quero acreditar que haverá uma de Lisboa. Mesmo que não haja, interessa é que são imagens paradoxais das viagens de um escritor cego que nelas se obstinava em cumprir o imperativo do acaso. Diz Maria Kodama, companheira do poeta, que escolhiam os destinos das suas viagens abrindo o atlas e deixando que “las yemas de los dedos adivinaran lo imposible: la aspereza de las montañas, la tesura del mar o la mágica protección de las islas".
Por improvável que a associação pareça, cegueira e escritores são estrelas que cintilam juntas em noites de tempestade. Para além de Borges, que escreveu parte substancial da sua obra, “prisionero de un tiempo soñolientò / Que no marca su aurora ni su ocaso”, evoco aqui a empobrecida visão de Wordsworth que, na matura idade, não conseguia ler mais do que 15 minutos de cada vez. Do divino e sádico Marquês diz-se que terá perdido um olho quando esteve na cadeia. Também os olhos de Dostoiveski, mais castigado um do que outro, sofreram com os ataques de epilepsia que o acometeram desde os 20 anos. Um ataque de glaucoma obrigou Joyce à tortura de sucessivas operações que explicam a pala que usava sobre o olho esquerdo. Aos 46 anos, Milton, já cego, escreveu Paradise Lost com a ajuda das suas três filhas. Aldous Huxley só não seguiu a carreira científica por ter ficado virtualmente cego e (o que me terá dado para juntar os dois) Gabrielle d’ Annunzio perdeu o olho esquerdo quando foi atingido por bala inimiga, num vôo durante a Primeira Grande Guerra, Não conto nem falo dos que, no fim da vida, como Jean-Paul Sartre, tombaram no poço de trevas que rouba as formas dos rostos e das rosas, ficando obrigados a só escrever ditando.
“... and your eyes more bright
Than stars that twinkle in a winter’s night.”
John Dryden (1631-1700) The Conquest of Granada.
Fotos: em cima, Jorge Luis Borges; ao meio William Wordsworth; ao fundo, James Joyce.

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sábado, 2 de fevereiro de 2008

Ainda D. Carlos

Volto ao tema das celebrações do regicídio, em post autónomo, para «dialogar» com a Sofia e com o Pedro.
Para o bem e para o mal a evocação da memória do Rei D. Carlos é, será sempre, um acto político. Porque foi um intérprete maior da monarquia constitucional portuguesa, porque a sua história, e sobretudo o seu fim, se confundem, justa ou injustamente, com o confronto mais vasto entre as ideias de monarquia e república. Quer isto dizer que todos quantos decidem evocar a memória de D. Carlos têm uma terrível agenda conspiratória para reimplantar a monarquia? Obviamente que não. A celebração da memória de um Rei com as inúmeras qualidades de D. Carlos, a sua redescoberta histórica, têm um inegável valor intrínseco e não precisam de referência a qualquer outro objectivo. Mas negar a dimensão simbólica da figura de D. Carlos e portanto a dimensão política da celebração da sua morte é, do meu humilde ponto de vista, uma ingénua negação da realidade.
Dir-se-á que não existe nenhuma ferida aberta na sociedade portuguesa, que a ideia monárquica é hoje absolutamente minoritária e «inofensiva» e que, assim sendo, a polémica carece de sentido e só pode ser alimentada por jacobinos saudosistas da 1ª República. Discordo. Em política a importância de uma questão não se mede apenas pela sua premência ou extrema actualidade. A ideia monárquica, ainda que obviamente traduzida na sua versão constitucional, não é uma ideia qualquer. Abala as fundações da sociedade política em que vivemos. Põe em causa a própria origem da legitimidade do poder político a que aceitámos submeter-nos. Discuti-la, debatê-la não poderá nunca ser uma questão inócua ou ultrapassada. Mais uma vez, negar este facto, parece-me uma ingénua negação da realidade. «To say the least».
Dito isto, acompanho plenamente a Sofia na sua «celebração da celebração». Um dos pilares mais importantes das sociedades em que vivemos é a liberdade de expressão. Não a devemos nem à Monarquia nem à República. Devemo-la à «ideia liberal» que convive bem quer com um regime quer com outro. Ora, acredito firmemente que a liberdade de expressão deve ser uma regra com pouquíssimas excepções. E não me parece minimamente que a defesa do ideal monárquico deva ser uma delas. Repugna-me portanto que se criem qualquer tipo de entraves a quem entenda por bem celebrar a memória de D. Carlos, quer o faça para evocar a sua «justa» memória, quer o faça (com igual legitimidade) com o intuito de celebrar o ideal monárquico. A isto acresce que a República tem de dar provas de maturidade e, sobretudo, de grandeza. A presença dos lanceiros, ou do próprio Presidente da República, na cerimónia de evocação da memória do Rei só pode ser vista como uma prova disso mesmo.
É no campo das ideias livres e do debate aberto que a ideia monárquica deve ser combatida (digo eu, bem entendido) ou defendida. Colocar entraves à celebração do regicídio ou rotular de jacobinos todos os que se opõe com firmeza ao ideal monárquico são duas maneiras igualmente infelizes de impedir que isso aconteça.

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"A CASA" vs DINING OUT

Dad had this thing about going out to eat, "you never
know what you get on your plate if it doesn't come
from your own stove".Years to come would slowly
help me to understand his simple and experienced
philosophy-word by word!
It was incredible what went on in public kitchens!

I can’t remember what kind of “in” music was
playing at the time-my radio station was always
glued to 102,7 WBAB-Long Islands Favorite Classic
Rock Station.
As inspirational as the music lyrics were,it was even
more inspirational having the opportunity to open my
first restaurant during my early 20’s.
The location was perfect - on a corner of a main
intersection where Hicksville, Syosset, Plainview and
Bethpage town lines met.

I wont bore you with all the in’s and out’s concerning
“ the making of” but one thing is certain, there are
just as many pleasures of starting a business as there
are rules and regulations. We have to make the time to
learn more about them in order to pass those “surprise
inspections” which help to keep our establishments
open.

There was a time I didn’t understand why meat and
vegetables could not be stored together-or even cheese
and fruit on the same shelf. Who would think such a
thing? Six years prior, my life was a continuous
routine of arriving to Dantes Pizzeria, where we used
every square inch of cold storage space.
It was easy–keep it clean, wrapped and then sealed.
If it fit, put it in. If it didn’t, make it fit ! The
last thing on our minds was which foods could or could
not cross.I had a lot to learn if I wanted to go from working with flour to boiling pasta!

Lets face it; we all grow up with a frig/freezer full
of different foods, watching our moms cutting a variety
of ingredients from the same cutting board or allowing
the left over food to cool down on the counter before
storing it in a cool place. To ask someone to change
these habits at home is almost as likely to happen as
trying to make some one write with their left hand!
(No pun intended for all you gifted lefties)

Could some of these childhood memories be responsible
for the reasons behind the hate and discomfort we have
developed toward ASAE? Do we really need a machine to
chill/freeze food before storing, different colored cutting boards to separate the food groups or different
colored knifes for slicing and dicing ?
You might be wondering about the other food group-the sponge, soap, water and a little elbow
grease to get the smell out. As tough as it may be to
accept-all the elbow grease in the world can’t wash
away certain bacteria’s.

Things got tougher!

Every time a new food regulation was passed, our
mental stability of common practice in the kitchen
would sometimes become unbalanced. The simple change
of a plastic container could make some chefs have a
cow! It was almost like obligating some one to go from
canvas to wood.
Is writing with our left hand impossible, or are we able to manage with time and a little practice ?

The best thing we can do in order to make our
establishment more patron safe is easy. Start with some simple research and making time to read-this
means goggle and not your neighbor’s opinion.
You will discover there is some logic behind keeping
what we eat clean and as bacteria free as possible. If
you feel nervous about an inspection-chances are you
are doing some thing wrong. Try and fix it best you
can, so you may feel comfortable when some one visits your
"home"… both in the dining room and the kitchen.
We owe it to our public.

Don't worry all you mom's and "cooking lovers"- there
will always be a need for the “other food
group” … this is one group which will never become an
extinct species.

Chef Guerrieri

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Cem anos depois...


Evoco a memória do Rei D. Carlos I e do Príncipe Real, D. Luís Filipe, no dia em que passam cem anos sobre as suas mortes.
Celebro a iniciativa dos que decidiram marcar a data e, em liberdade, promover um programa de homenagens públicas.
Celebro a vontade de aprofundar o conhecimento da vida e obra do Rei, bem como a sua tradução em compromisso concreto de estudo e divulgação.
Celebro a maturidade cívica dos promotores e de todos os que, aderindo ou não, respeitam o direito à manifestação livre no espaço público.
Celebro a reconciliação com a memória histórica, como celebro uma nova reflexão sobre a cultura política do liberalismo português e o que dela decorre para a melhor compreensão do que hoje, colectivamente, somos e podemos ser.

Recuso a autoridade parcial de um Estado que proíbe um regimento militar de prestar tributo à memória de um dos seus Soldados, por este ter sido Rei de Portugal.

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O Rei de Fora

Rui Ramos é porventura um dos mais importantes e mais completos historiadores portugueses actualmente em plena actividade. Para mim é-o seguramente. As razões da qualidade do trabalho de Ramos prendem-se com a sua inteligência e grande erudição. Quem o conhece sabe que ele “leu tudo” e sobre tudo tem algo a dizer de importante, inovador, e quase sempre pontuado por algum humor. Mas tem ainda uma outra qualidade, quando escreve bons livros. Trata-se do facto de não misturar as suas interpretações históricas com as suas opções ideológicas.

A sua área de maior especialização é a história política nacional do século balizado entre o fim das guerras liberais e a consolidação do Estado Novo, entre, digamos, 1834 e 1936. É importante ser-se um especialista de todo este século, pois só assim se conseguem perceber os momentos mais importantes da história política portuguesa contemporânea. Só com essa longa perspectiva se consegue perceber, de facto, a Monarquia Constitucional, a República e o Estado Novo. Os historiadores que se concentram apenas numa dessas épocas não têm capacidade suficiente para se pronunciarem sobre as outras, pois as conclusões não são obviamente extrapoláveis. Esta verdade já há muito que é usada na história económica e Ramos é dos poucos que a usa também na história política do país. Pode saber-se muito sobre os meandros políticos da monarquia, mas, se não se conhece bem os da República ou do Estado Novo, não se pode ter uma perspectiva fundamentada do período contemporâneo nacional.

Ramos contribuiu de forma definitiva para uma melhor compreensão do curso da História nacional entre 1834 e 1936. Essas décadas são muitas vezes tidas como o palco da gradual implantação do liberalismo e da republicanização do País. Esta teria ganho fôlego com a “revolução” de 1910, para depois morrer nas mãos da ditadura quase-fascista de Salazar. Mas as coisas devem ser vistas de outra forma. A implantação do liberalismo começou de verdade com fim das guerras liberais de 1832-1834, mas os passos que se deram depois foram lentos e nem sempre em ascensão para o governo da república, isto é, para o governo do povo. Ao longo do século em causa, a história política do País foi palco de uma grande instabilidade resultante das disputas entre grupos políticos, cuja identidade não se viria a definir até ao fim da Monarquia. O facto de os agrupamentos políticos se terem mantido mutáveis e indefinidos tornou as lutas entre eles particularmente acesas e permitiu o florescimento de movimentos radicais.

Um dos movimentos radicais que surgiu na Monarquia foi precisamente aquele que viria a solidificar-se no Partido Republicano. Essa força decorria claramente das fraquezas da Monarquia. Mas deve ter-se em consideração que as fraquezas da Monarquia não decorriam da inépcia dos políticos da situação ou de uma especial propensão para a corrupção e para a falta de interesse nos destinos da Nação. Para compreender correctamente essas fraquezas, é preciso compreender o País e ter presente um quadro mais geral, dado pelas dificuldades inerentes ao atraso económico e ao enorme esforço de modernização que o século do liberalismo económico europeu de certa forma permitiu e potenciou.

Rui Ramos ainda não tinha escrito a sua obra mais importante. Há uns anos publicou o volume VII, relativo ao período entre 1890 e 1926, da História de Portugal organizada por José Mattoso, o qual contém muitas novidades interpretativas e algumas pistas importantes, mas não aguenta uma leitura seguida. Depois, Ramos publicou uma biografia de João Franco, que é um trabalho de síntese e um sub-produto da sua obra anterior. Também publicou um livro com algumas das suas crónicas de jornal (do “Independente” ou da “Atlântico”), mas são textos dirigidos a públicos ideologicamente comprometidos e menos baseados em argumentação sólida ou pesquisa fundamentada.

A bibliografia que acaba de sair do rei D. Carlos pode ser a primeira obra definitiva do autor. Ponho isto no condicional pois ainda só li uma parte. Todavia, as primeiras 100 páginas têm já tudo do que faz um excelente livro. E é bom falar desde já da obra, antes de a acabar de ler, pois neste momento pode fazer-se uma leitura sem saber o desfecho trágico da história deste rei. Recomenda-se aliás esse exercício a todos que queiram melhor compreender D. Carlos, pois muitos fazem interpretações abusivas baseadas em interpretações do que veio a acontecer. D. Carlos nasceu, cresceu, foi educado e viveu sem saber que iria ser morto e que a monarquia iria acabar. Esta constatação de facto tem um reverso menos lembrado: o Rei e o seu filho foram mortos não pelo que fizeram, nem porque a monarquia tinha um fim à vista, mas sim porque um grupo de tresloucados assassinos assim o quis.

Os historiadores mais empenhados ideologicamente parecem querer dizer, à Esquerda, que a monarquia portuguesa só podia ter acabado na República e, à Direita, que a República só podia ter acabado no Estado Novo. Quem conhece bem todo este período sabe que isso não é necessariamente verdade. A Monarquia Constitucional tinha dentro dela capacidade de se reformar, tendo inclusivamente sofrido ao longo da sua longa vida outras crises graves que conseguiu ultrapassar. A República, na sua vida quase toda ela desastrosa, estava de melhor saúde nas vésperas do golpe de 28 de Maio de 1926.

Dito isto, não se pode negar que o nível de animosidade da sociedade portuguesa, liderada pelos políticos da oposição e pelos publicistas, estava a subir exponencialmente no fim daqueles regimes e que isso ajudou às respectivas quedas. Nos nossos dias também vemos isso, mas, felizmente, os actuais publicistas não têm tanto efeito, pois a Democracia é um regime mais consolidado do que os anteriores. Mas esses publicistas deveriam pensar nesta comparação. Curiosamente, Rui Ramos, que é um deles também, evita o tom dos que nunca vêm nada de bom no que se passa no nosso país. Porventura porque sabe avaliar o que é que esses textos dramáticos de fim-do-mundo representaram para a vida política nacional.

Duas palavras finais sobre a figura de D. Carlos que aparece neste livro: ele foi um Rei obviamente culto, ligado à esquerda moderada e, acima de tudo, ligado ao estrangeiro e cosmopolita. Pertenceu a um pequeno grupo iluminado que inclusivamente chegou aos nossos dias na forma de uma “esquerda nobre”, não necessariamente de sangue, que podemos ainda encontrar envolvida na actividade politica, no fim do marcelismo e a seguir a 1974, próxima de Mário Soares ou de Sá Carneiro e Pinto Balsemão. O que os distingue não é serem republicanos ou monárquicos mas sim verem com maior ou menor discernimento a forma como este país funciona.

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