domingo, 3 de fevereiro de 2008

Sem aurora, nem ocaso

Em Madrid, até 23 de Março, exibe-se uma exposição de fotografias de viagens do escritor Jorge Luis Borges, autor da impúdica História Universal da Infâmia.
Brilham, em Madrid, imagens inéditas de Paris, Cairo, Roma, Creta, Istambul, Filadelfia, Genéve ou Buenos Aires. Quero acreditar que haverá uma de Lisboa. Mesmo que não haja, interessa é que são imagens paradoxais das viagens de um escritor cego que nelas se obstinava em cumprir o imperativo do acaso. Diz Maria Kodama, companheira do poeta, que escolhiam os destinos das suas viagens abrindo o atlas e deixando que “las yemas de los dedos adivinaran lo imposible: la aspereza de las montañas, la tesura del mar o la mágica protección de las islas".
Por improvável que a associação pareça, cegueira e escritores são estrelas que cintilam juntas em noites de tempestade. Para além de Borges, que escreveu parte substancial da sua obra, “prisionero de un tiempo soñolientò / Que no marca su aurora ni su ocaso”, evoco aqui a empobrecida visão de Wordsworth que, na matura idade, não conseguia ler mais do que 15 minutos de cada vez. Do divino e sádico Marquês diz-se que terá perdido um olho quando esteve na cadeia. Também os olhos de Dostoiveski, mais castigado um do que outro, sofreram com os ataques de epilepsia que o acometeram desde os 20 anos. Um ataque de glaucoma obrigou Joyce à tortura de sucessivas operações que explicam a pala que usava sobre o olho esquerdo. Aos 46 anos, Milton, já cego, escreveu Paradise Lost com a ajuda das suas três filhas. Aldous Huxley só não seguiu a carreira científica por ter ficado virtualmente cego e (o que me terá dado para juntar os dois) Gabrielle d’ Annunzio perdeu o olho esquerdo quando foi atingido por bala inimiga, num vôo durante a Primeira Grande Guerra, Não conto nem falo dos que, no fim da vida, como Jean-Paul Sartre, tombaram no poço de trevas que rouba as formas dos rostos e das rosas, ficando obrigados a só escrever ditando.
“... and your eyes more bright
Than stars that twinkle in a winter’s night.”
John Dryden (1631-1700) The Conquest of Granada.
Fotos: em cima, Jorge Luis Borges; ao meio William Wordsworth; ao fundo, James Joyce.

3 comentários:

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Estranhando a ausência de Luís de Camões nesta evocação de autores que associam a escrita e a cegueira, acrescento dois personagens (e já não escritores), que desde sempre me impressionaram justamente por chamarem a atenção para essa trágica necessidade de perdermos os olhos (físicos) para mais profundamente podermos ver: Argos, o fiel cão de Ulisses, que, sendo cego, é o primeiro e o único que imediatamente o reconhece, quando, às portas da cidade de Ítaca, ele de novo aparece, após 20 anos de ausência (e "vendo-o", ele que todo este tempo ali o esperara, estando velho, torna-se novo, atirando-se para o seu colo - onde morre); e Édipo, que no culminar da sua tão humana encruzilhada, quando finalmente "vê" quem é - arranca violentamente os próprios olhos.

Manuel S. Fonseca disse...

Tem o Gonçalo Pistaccchini Moita toda a razão em lamentar a ausência de Camões, a quem Borges, o pretexto para o meu post, presta aliás devida vénia. Onde se prova que é aos mais próximos e mais familiares que mais injustamente esquecemos...
Agradeço a correcção e a adenda de Argos e Édipo. O papel da cegueira na dramaturgia da grande e pequena poesia, teatro e romance ocidentais daria, por certo, um belo ensaio. Não quer o Gonçalo avançar?

Pedro Norton disse...

E falta, caro Manuel, o mais «cego» dos escritores porugueses. O Saramago do «Ensaio sobre a Cegueira» mas sobretudo o Saramago da cegueira ideológica que o tornou um ser atormentado e azedo que que se recusa a ver que o seu mundo ruiu.