segunda-feira, 28 de junho de 2010

Poder

O poder é o mais obsceno dos vectores de análise da política hoje em dia. Dizer que se quer poder roça a indecência. O poder é substituído por expressões elípticas e algo frouxas como “necessidades”, “enquadramento geo-estratégico”, “gestão de finalidades”, “estratégia” e outras quejandas. O poder está escondido, vive clandestino. A Europa fala pouco em poder, envergonha-se do que tem, tem medo de o usar e escuda-se nas paráfrases e no silêncio.

Quando se fala pouco de alguma coisa apenas nos valem os instintos, o que em si pode ser uma boa coisa, mas é em geral uma desgraça no espaço público. No mundo partilhado é pela comunicação que se é eficaz, e, convenhamos, a palavra não é dos piores meios de o fazer. O gesto pode ser curto e a arma algo longa demais.

Aprendi a não idolatrar a simplicidade por si mesma, porque em geral esconde deficiência intelectual. Mas a igualmente admirá-la quando nos ajuda a orientar de forma clara por caminhos algo obscuros. Em termos simples, portanto, vejo várias formas de poder. O politico, que se reduz à força simbólica ou física, o económico, o cultural e o social.

O paradoxo que vivemos é que verificando cada uma das dimensões do poder, rapidamente chegaríamos à conclusão que a Europa tem todas as condições para ser, a larga distância, o maior de todos. O maior PIB do mundo, uma economia que tem uma tripla possibilidade de crescimento: a comum, pelo crescimento da economia, o crescimento pelo desenvolvimento dos países periféricos que a integram (um dos maiores sucessos da integração europeia) e o crescimento pela adesão de novos países. Quase meio bilião de pessoas, sendo o terceiro maior agregado populacional do mundo. E não meio bilião de chineses, mas meio bilião de europeus, incomparavelmente mais cultos criativos e desenvolvidos. O sétimo maior país do mundo em dimensão, com três milhões e meio de quilómetros quadrados que não são Sahará nem Sahel. E uma potencialidade de expansão geográfica imensa por todo o verdadeiro território europeu (que irrompe na Rússia e não em janízaras paragens).

Esta auto-imagem de impotência daquela que é potencialmente a região mais poderosa do mundo, e é-o já actualmente em muitos aspectos, é das situações mais caricatas que a História já viu, não fora a tristeza de um espaço público desértico como o Sahará explicar esta desolação. Porque este horror ao poder, qual a necessidade de ter poder?
O ser humano teve sempre esta desagradável tendência de não fazer aquilo que nós queremos que ele faça. Por isso ou lhe forçamos a alma, ou lhe forçamos o corpo. Mas para quê este vício de queremos impor a nossa vontade aos outros? Bom, desde logo, porque existem outros que tem esse vício e pode-se dar o caso de a sua vontade não nos agradar. Dá-se o caso igualmente de termos interesses ou valores que seriam violados caso tivéssemos de obedecer a vontades alheias. Em último, mas não menos importante, lugar, porque impor a nossa vontade aos outros pode ser muitas vezes a única forma de podermos ter vontade própria.
A vida mostra-se pelo poder, alimenta-se do poder, molda-se pelo poder. O que um animal ou uma planta podem fazer é limite para o que efectivamente fazem. Quem não quer ter poder nenhum nada quer fazer. A inacção, a passividade delimita-o. O horror ao poder é igualmente horror à vida.

É evidente que o exercício e o crescimento do poder implicam risco. Daí que vejamos os bem-pensantes fazer o ar de mais compungida obstipação (é o que de mais próximo vêem como sendo inteligência) dizendo que temos de ser ponderados, que temos de ter consciência das nossas modestas dimensões. Julgam-se realistas, mas em suma são apenas limitados.
A verdade é que se espalhou um pudor em relação ao poder que me parece doentio. A palavra é omitida, a realidade é evitada. Mas desemboca com frequência no ódio a tudo o que cheire a poder. Só que a parte inconveniente desta postura é que o poder é sempre sinal de vida e é ele que abre as possibilidades. Um país fraco decide pouco, escolhe pouco para o seu futuro. Trabalha em margens de manobra que são definidas por outros. O facto de, não apenas se aceitar este destino para a Europa, mas se querer esse mesmo destino, mostra tão-somente um ódio à possibilidade, à abertura, em suma, à vida. Odiar o poder, todo ele, é sempre sintoma suicidário, tanto quanto o idolatrar.

Mas odiar o poder é igualmente odiar a liberdade, porque o poder é sempre a condição empírica da liberdade. Salvo se pretendermos colocar a Europa em levitação ou em perpétuo orgasmo místico como Santa Teresa de Ávila (estado difícil de atingir para todo um continente e igualmente difícil de manter, se tal fosse possível) não há liberdade empírica sem poder. O paradigma do cauteloso, do ponderado oficial, do pretensamente realista, é assim o orgasmo místico. Julga que não precisa de trabalhar para o poder porque tem o seu jardinzinho interior. Mas como não tem a graça divina pura e simplesmente é destituído de graça.

Um das vertentes desta triste postura é uma ideologia de fonte anglo-americana que vê a Europa como a grande soft power por oposição aos Estados Unidos, que seria o hard power. A expressão tem o requinte imagético de um amolador de facas de cozinha, mas atrevamo-nos a traduzi-la. Soft power: potência mole. Será eventualmente ideia excitante para alguns, e o ponto máximo de excitação que pretendem encontrar na vida, mas temo bem que mais uma vez seja desiderato de impotentes.

Nunca tal me havia passado pela cabeça mas temo bem que tenha alguma lógica. Todos os realistas tendem para o cristianismo e para o dogma como se vê com os tomistas e fenomenologistas primeiros da escola de Husserl, por exemplo. Compreende-se que assim seja na perspectiva da ontologia. O cristão, pelo menos os ortodoxos ocidentais e orientais, tem de aceitar a presença real na hóstia. E sob o ponto de vista metodológico o facto de se ir à procura das coisas, como Husserl gostava de dizer, levou os seus discípulos a converter-se ao cristianismo, por razões que se começam a tornar cada vez mais transparentes, e mesmo a formar uma mártir como Edith Stein.

Já os idealistas tendem a estabelecer fontes autónomas de legitimidade. A Renascença colocou ao lado do cristianismo ideias pagãs no mesmo plano, de um só golpe enriquecendo o cristianismo e enfraquecendo o seu monopólio. O curioso é que percebi até que ponto na nossa época impera o idealismo. A nossa época é idealista na perspectiva da ontologia. E fica-lhe muito mal. Porque o idealismo em coração aristocrático cai bem e em bolsa burguesa cheira a grosseria.

Renunciar ao poder é renunciar à realidade. Odiá-lo é odiá-la. Negá-lo é negá-la. A realidade, da velha e banal raiz “res”, coisa, só pode ser agida através do poder. Bastar-se com um poder mole é querer ter um contacto mole com a realidade, com as coisas. Recusar ter poder, recusar falar sobre ele, é recusar a possibilidade de agir sobre a realidade. Um discurso que se instala na Europa contra a realidade, em nome de um idealismo de taberneiro, em que o mundo ideal impera, apelando apenas para o Direito, vagos valores nunca ou mal enunciados (a liberdade, a tolerância, etc.), é profundamente anti-pragmático e consequentemente amoral. A consequência é a inacção e o fatalismo. O mundo que nos rodeia é constituído por um conjunto de inevitabilidades. Que se nos impõem. É inevitável o declínio demográfico da Europa, a invasão migratória, o capitalismo selvagem, a adesão da Turquia, a decadência da Europa perante a Ásia, a dominação americana. O mundo das inevitabilidades é um mundo sem intensidade, sem suco vital, sem liberdade, e em suma sem importância.

O idealismo imperante que nega o poder e o considera obsceno é no fundo um mundo da desconsideração, do desprezo pela realidade. E tendo a realidade pessoas, e sendo elas o seu mais importante foco, é em boa verdade um mundo de desprezo pelo ser humano. Larvas enfiadas em casulos, acham a borboleta ridícula e efémera mas esquecem-se de outras vidas bem mais garridas a que o seu estatuto nem permite aspirar. E numa Europa que silencia o discurso do poder, apenas os instintos o dirigem, sem lugar para o adoçamento pela razão. O que se segue é previsível. É o que acontece sempre que prevalecem os instintos no espaço comum.


Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 22 de junho de 2010

A utopia, a festa e a parvoíce


Estive recentemente em Paris, Marselha e Aix en Provence e, nos três destinos, deparei-me com o uso da bicicleta como transporte municipal. Basta um pequeno cartão (a primeira meia hora é grátis favorecendo a rotatividade), parques com bicicletas nas esquinas mais frequentadas, uma rede de ciclovias, faixas de autocarro à disposição e pode dizer-se que a utopia funciona.
Erro. Funciona em Paris e em Aix.
Os planíssimos e longos quarteirões de Lutécia tornam-se percorríveis com a agradável sensação de liberdade, cabeça ao vento, cenários e luzes sem filtros de vidro. Dia e noite, a cidade revela-se, magnífica e próxima. Dá-nos um sentimento de pertença. Transporta-nos para um filme idílico do qual somos protagonistas sem esforço.
Em Aix en Provence, é menor o contraste. As ruinhas e praças com fontes da capital medieval do Sul de França, muitas sem acesso de carros, tornam este transporte numa solução natural, antiga, retomada, sem novidade. As distâncias são muito curtas e o expediente do cartãozinho parece desnecessário. Mas também se repete a agradável sensação de pertença e sossego de pernas.
Mas em Marselha, bastam os ligeiros declives que emergem do porto e do centro da cidade para tropeçar, em cada esquina, naquele investimento paralisado. Já não falo na subida à Igreja de Notre Dame, também cidade, ou no passeio pela marginal a que chamam Corniche. É claro que lá andam alguns furiosos do pedal, com capacete, licras, costas vergadas ao volante e ao suor. Mas não é nada disso que nós, mortais com alegria de viver, queremos para as nossas vidas.
Moral da História: Lisboa é ainda mais acidentada do que Marselha. Deixou-se forrar por quilómetros de ciclovias socialistas que prometem maranhar pelas sete colinas. Deixem-se ficar pelo rio e pelas Avenidas do século XX. O resto é impenetrável. Diz-me quem sabe que se pode estudar um sistema complementar de bicicletas e transportes públicos aplicado em cidades acidentadas do Norte europeu. Não vejo quais, não vejo como.
(PS: Soube entretanto que estas comodíssimas bicicletas são construídas no Norte de Portugal)

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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Interesses

A mais que banal, mas não menos verdadeira, etimologia ensina-nos que o interesse é “inter esse”, estar entre, ou mais profundamente existir entre. O interesse é assim uma integração e uma limitação, uma pertença e um constrangimento. Quando fisicamente um país está entre dois outros, esses outros fazem parte do seu interesse, definem-no. Mas as fontes e as modalidades de interesses podem ter a mais variada origem. Os interesses associam-se a situações de vida, dos quais o espaço físico é apenas uma delas.

Algumas vezes diz-se dos místicos, ou de quejandas pessoas, por razões caracteriais ou outras, que são desinteressados. Em boa verdade não é esse o caso. Muitas vezes são bem mais interessados que os outros, estão bem mais integrados e delimitados pelo que lhes interessa que o comum dos mortais. Desinteressado significa apenas o que não está entre as coisas comuns. A ligação entre alguém e um interesse tem sempre elementos de inevitabilidade e de escolha. Portugal não pode decidir ser africano. Mas pode decidir dar mais ou menos ênfase às suas relações africanas.

Questão diversa é a da percepção dos interesses. A História tem demonstrado que sendo os interesses muito diversos, consoante as pessoas e o longo ou curto prazo, também as percepções dos interesses podem estar profundamente erradas. Mas, definidos os interesses, é perfeitamente legítimo defendê-los.

O que leva as pessoas as errarem na percepção dos interesses e o que as leva a não os defender diz muito sob o estado de espírito de uma civilização. A Europa tem quase tanta vergonha de falar dos seus interesses quanto de falar do seu poder. Ora não se faz política sem uma percepção clara de interesses.

A primeira escolha a fazer tem a ver com a definição dos centros de interesses. Esta é efectivamente uma escolha, com tudo o que isso implica de aleatório e determinado, de racional e irracional. Eu posso aplaudir a vitória de uma empresa só porque é do meu país ou da minha formação política, mesmo que pessoalmente nada ganhe com isso. Mas desde que reconheça um tecido mais vasto de que essa empresa faça parte como um todo, então já terá sentido em sentir essa vitória como minha. O que escolhemos como o que fica dentro desse centro leva a definir o que escolhemos como ficando fora do mesmo e mesmo a ele contraposto. Quando alguém fala do interesse de outrem seja ele país, seja ele região, fala de uma escolha. A desonestidade de muito discurso público é a de dar cheiro de necessidade metafísica o que mais não é (e já basta) que escolha.

Por isso é necessário que para cada um o centro de interesses esteja definido. O meu é a Europa, e por isso a ela me dedico. Para além de outros motivos exigindo bem mais longa confissão, há um muito simples. Portugal sozinho não tem real poder no mundo. As alternativas de aliança são apenas forma de submissão sem poder. Logo, a única forma de Portugal ter poder no mundo é participar num poder maior. Um em que participe e não seja apenas protectorado.

Um interesse demasiado estreito sufoca, um demasiado largo quebra. O estreito aperta as possibilidades de vida, um largo demais estilhaça-as por incorporar em si maior número de contradicções. Um interesse que seja centrado no mundo como um todo apenas acolhe em si interesses contrários entre si, em que os pontos de desunião e fractura são e serão sempre bem mais fortes que os de união.

Comecemos pelos interesses da Europa. O primeiro interesse de qualquer organização política é o de definir os limites do seu poder. De preferência aumentando-o. Poder político, mas igualmente económico, cultural, social. O interesse da Europa é igualmente o da manutenção e de desenvolvimento de um património, de uma determinada concepção do ser humano, e mais importante, de um determinado modo de viver como ser humano. Foi a Europa que o criou e só a Europa se tem mostrado capaz de o desenvolver plenamente. Um cruzamento de expansão para o futuro com um profundíssimo enraizamento no passado. Uma fortíssima comunhão de vivências (muito mais forte da que cabe aos ignaros julgar) e uma diversidade que só tem paralelo (quase) equivalente na Índia.

O interesse da Europa é abranger o seu espaço total, sob pena de vivermos sobre a fractura. Ou seja, a mais ou menos longo prazo o de incluir os países russófonos na sua esfera. A História tem demonstrado que as fracturas da Europa são simultaneamente temporárias e empobrecedoras na medida em que se mantenham. O cisma do ocidente dá-se no século XVI e foi bem profundo. Mas simultaneamente o comércio europeu nunca foi posto em causa. Os dois maiores espaços europeus, o francês e do sacro império eram híbridos, atravessados pelo protestantismo e catolicismo. As alianças entre a católica França e a protestante Holanda, a Inglaterra e mais tarde a Suécia foram perenes, entre o católico Portugal e a protestante (como quem diz...) Inglaterra igualmente, apenas para citar alguns exemplos. A Renascença e o Barroco atravessam a Europa toda sem distinção de cismáticos ou ortodoxos. A cisão da Europa corresponde assim a uma dissipação e a um desperdício de energias.

O interesse da Europa é o de uma cada vez maior união, representando igualmente a soberania de cada um dos Estados na escolha de quem participa nessa união. E é igualmente de que os povos europeus participem, acreditem se empenhem nessa união.

Estando os interesses da Europa em concorrência com outros (o entre onde estão os outros difere do nosso) é interesse da Europa que os nossos interesses não sejam prejudicados nem confundidos com os de outros. Similitudes de interesse tem a Europa com os Estados Unidos, mas igualmente com a América Latina, noutros casos com a África, noutros ainda com a Índia, por vezes com o Japão (se não falo da Rússia é porque no longo prazo entendo que o interesse é o mesmo). Enlear interesses de forma rígida apenas com um parceiro rigidifica as possibilidades de actuação. A obsessão amorosa com os americanos mostra-se assim como uma patologia do segundo pós-guerra que é limitadora e masoquista. Uma boa gestão dos interesses implica sempre estabilidade, mas igualmente flexibilidade de alienação, salvo nos casos em que se pretende fusão.

A incapacidade de discursar sobre o interesse, de pensar sobre ele, de lhe dar lugar nobre na forma de legitimação política, mostra não apenas menoridade moral, mas igualmente espiritual. O “entre” é a parte mais profunda do evangelho apócrifo de Tomé (“Parte este madeiro em dois e ver-me-ás entre eles”, dizia o Senhor), um dos centros do pensamento hermético, de Nicolau de Cusa, do pensamento morfológico de Goethe. O pensamento do “entre” é sempre uma superação de uma lhaneza. Quando Tucídides pensa nos interesses dos gregos para se guerrearem entre si, Filipe o Belo ou Henrique VIII no interesse da coroa ou Heisenberg tenta ler dados espectrográficos, estão todos apostados a ler entre, o que significa inevitavelmente (o que diz algo sobre a estrutura do mundo), aprofundamento. O desmerecimento dos interesses é sempre obra de novo-rico com medo de se meter no meio, em má imitação de fidalga abnegação. É obra de equivocados que conduzem o mundo ao equívoco. Ignoram que o empenho o interesse é a única forma de aprofundamento.

Dos três eixos da análise da política, o dos interesses é o visto com mais desprezo pela pudibundice contemporânea. O do poder é visto com horror, o dos interesses é visto com aristocrático desprezo. Falar de interesses cheira a muito menos nobre que falar em direitos do homem, da missão proselistista laica da Europa ou outras infantilidades. A validade desse desprezo (presunçosamente) aristocrático desfalece logo pela visão dos seus portadores. Mais destinados ao penduricalho que ao brasão, desonram pela sua simples presença a necessidade de demonstração infirmadora.


Alexandre Brandão da Veiga


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sexta-feira, 18 de junho de 2010

A morte de Saramago


Ensinam-nos a honrar os mortos.
Talvez isso venha do facto de já cá não estarem para se defenderem. E parece-me bem que assim seja.
Todos somos maiores do que as nossas vidas. Para os não crentes, pelo menos enquanto perduramos na memória ou no coração de quem fica.
Mas alguns de nós, como Saramago, são maiores do que o direito à inexistência do escrutínio da sua vida pública. Por isso me sinto autorizada a falar de José Saramago sem a obrigação estrita de o honrar como homem público.
Para quem não apreciava Saramago, vai sendo um lugar comum dizer que o Nobel teria caído melhor em Cardoso Pires, Agustina ou Lobo Antunes. A agressão ao sagrado dos outros e a pontuação completavam o quadro da antipatia. Mas podemos reconhecer um mérito literário capaz de dobrar o juri do melhor prémio do mundo para a escrita. E, sobretudo, a gratidão que lhe devemos pelo que fez pela nossa Língua no Mundo.
Para quem não apreciava Saramago, era imperdoável aquele àvontade com que criticava o nosso País para lá de Badajoz e a forma como ouviu a Mulher falar de Portugal e dos nossos poderes, sem respeito nem contenção. Mas podemos reconhecer que ali se pressentia uma história de amor, porventura mais bonita do que as que o autor soube ficcionar no papel.
Para quem não apreciava Saramago, ficou sempre aquele amargo de boca sobre o episódio dos despedimentos por delito de opinião, no Diário de Notícias, quando o escritor dirigiu o jornal depois da Revolução. Mas podemos reconhecer que a sua fidelidade ao PCP, até à morte, depois do desencanto soviético, representa uma lealdade à prova de constrangimento para qualquer intelectual reconhecido pela liberdade do verbo e por uma certa inteligência.
Para quem não gostava de Saramago, torna-se difícil honrá-lo depois de morto. Mas inevitável fazê-lo.

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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Valores

Quando se discutiu a Constituição europeia falou-se muito do Cristianismo. Quem era contra dizia que não havia que pôr Deus na Constituição. Como se o cristianismo não fosse um facto histórico. Daí se começou a falar de valores cristãos. Como se uma religião se reduzisse a valores. E pior ainda valores morais. Este cúmulo de reduções mostra a vida reduzida e o reduzido espaço intelectual que atravessa o espaço público.

A Europa passou os extremos da negação dos valores e é natural que retome o seu passado cristão (humanista, dizem uns) de negação da natureza instrumental do ser humano. Quando cientistas do Institut Pasteur tornaram do domínio público o genoma humano para que não pudesse ser patenteado por uma empresa senti-me orgulhoso de ser europeu. Apesar de tudo há limites. Mas há sobretudo limites para reduzir tudo aos valores.

Os valores são sempre uma auto-limitação. Assumir valores implica sempre contrair possibilidades de vida, mesmo que isto sirva de impulso para nos lançarmos a outras possibilidades. Como em tudo, depende do grau sabermos se o balanço final é de alargamento de vida ou a sua anulação. O facto de ser uma auto-limitação não significa sempre autonomia ou liberdade. O escravo que assume a obediência não é menos escravo por isso. O escravo revoltado por dentro não assumiu o valor da obediência. O submisso, embora isso tenha sido fruto de contracções externas, auto-limitou as suas possibilidades.

Os valores opõem-se por isso a tudo o que os complementa: as hetero-limitações e os alargamentos. Todos nós nascemos com limitações que nos são impostas: a família, o sexo, a beleza física, a inteligência. Não contribuimos em nada para isso. Não faz parte dos meus valores ser homem, ter nascido em África ou na Europa, ser burro ou inteligente. Do lado dos alargamentos, não faz igualmente parte dos meus valores ter recebido uma herança, ou actuar desta ou de outra forma, ter-me expandido como pessoa ou não. Quando muito alguns alargamentos podem ser consequência dos nossos valores, mas não são os valores em si mesmos. Em suma, o que se opõe aos valores são as inércias. Sejam de movimento, sejam de repouso.

A discussão sobre os valores da Europa mostra por isso desde logo um vício lógico: o da incompletude. Discutir os valores europeus é esquecer o que são as limitações externas e os alargamentos europeus, a sua herança, a sua natureza, os seus condicionamentos históricos. Discutir apenas os valores europeus como fundamento da Europa é assim fazer de conta que é europeu o Eufrates, europeu o janízaro, europeu o clima tropical. As ficções em si mesmas podem ser bastante agradáveis mas têm o inconveniente de serem fraco sustento para projectos a longo prazo. A ficção gera o vício e a dependência e nunca sustentou a liberdade. A liberdade é privilégio dos lúcidos.

Independentemente de se considerar as hetero-limitações e os alargamentos como inevitáveis, inultrapassáveis ou não, a verdade é que representam uma imensa inércia histórica. Querer ultrapassá-los tem um custo. E entra aqui o segundo vício lógico da discussão sobre os valores europeus. É que ir além das inércias, integrar um quarto do Médio Oriente tem custos, mais que económicos, de configuração da coisa europeia. E nenhum desses custos foi posto na mesa, bem como as vantagens são apenas adjectivadas e nunca concretizadas.

O terceiro vício, em consequência, foi o de se confundirem valores e identidade. Eu posso ter exactamente os valores do meu vizinho, mas não me identifico com ele. A identidade política não se constrói apenas de valores, mas de inércias. O minhoto e o galego podem ser mais parecidos nos seus valores que o minhoto e o algarvio e no entanto partilham de diversas inércias.

Mas a discussão sobre os valores padeceu concretamente de outro vício. O quarto. É que esses valores nunca foram enunciados. E quando o são, mostram que afinal não existe Europa. Porque se trata de democracia ou liberdade, então tenho de concluir que fora da Europa só há ditaduras, ou então em todos os continentes existe Europa.

É que o problema reside exactamente na discussão incompleta sobre os valores. Muito provavelmente os valores políticos europeus distinguem-se pouco dos americanos ou dos de outros democracias. Existem sobretudo modos diversos de viver esses valores. E esses modos diversos têm origem em valores que não vêm da politica e inércias que estão dentro e fora dela. Concretamente, o modo de fazer política associa valores estéticos (a crítica a certos governantes é em grande medida mais de repulsa estética que de oposição a um programa), moral, ou outros. E se o modo de fazer política na Europa diverge do de outras democracias, e muito profundamente, tem a ver com instituições, não apenas políticas, mas familiares, sociais, e modos de vida que evoluíram da Europa de modo diverso e de acordo com uma História bem mais profunda.

Na discussão sobre os valores em nada ajudou o facto de os políticos, jornalistas, comentadores pouco saberem do que é a Europa. Poucos vão a mais de umas décadas de História europeia, poucos conhecem algo de ciência ou matemática, de filosofia europeia só ouviram súmulas mal digeridas, da arte europeia incluindo a literatura conhecem sinais de tráfego geralmente mal instalados. Quiseram discutir aquilo para que exactamente são mais ineptos. E o problema que têm os valores, em relação aos interesses e o poder, é que apenas são convenientes com base no testemunho. Não é por acaso que a maior religião do mundo se baseia no testemunho de uma vida (e que vida). Ora dá-se o caso de serem os mesmos que falam de liberdade que dão factos consumados aos povos, os mesmos que falam em democracia que ou fazem leis à sua medida ou fazem-nas sem medir o que os povos pretendem.

Os valores são dizíveis, mas raramente há quem o saiba fazer. E foram precisamente os mais ineptos como teóricos e menos autorizados para testemunhar que mais insistiram na questão. É natural que a discussão sobre os valores esteja inquinada.

O problema é que necessariamente toda a acção e construção política estão banhadas de valores. Ao contrário do que dizem os pudicos, os valores são inevitáveis. Faz parte da nossa condição humana individual e colectiva auto-limitar-nos. É essa uma das nossas grandezas. E características. Na política um dos valores principais é o de aumentar o respectivo poder o mais que se puder. Outros valores estão aí para limitar não a dimensão do poder, mas o uso que dele se faz. E os interesses estão aí para modelar o seu concreto uso.

Quais são os valores da Europa? Braudel dizia que era não a liberdade, mas as liberdades. É uma menos má síntese para um historiador. Mas quem ler Homero, o Novo Testamento, Euclides e Dante fica com uma boa ideia aproximada do que sejam. Prefiro não entrar no campo das banalidades.

A discussão é tão primitiva neste momento que ainda falta dizer e fazer o essencial, o ponto de partida. Que não basta discutir valores, mas é preciso discutir igualmente inércias; que os custos de se contrariar essas inércias, bem como as vantagens têm de ser claramente discutidos à luz do dia, que discutir valores não nos isenta de discutir a identidade europeia, que só está apto para entrar na liça quem saiba ou quem possa ser testemunho e que, finalmente, dado que creio que falamos de política, o poder tem de ser claramente assumido como um valor, deixando para outros valores e interesses a questão do seu uso.



Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Notícias umbilicais


Toda a manhã informativa foi tomada pelo assalto de alguns sul africanos às coisas de dois jornalistas portugueses e um espanhol. Trabalhando com a televisão ligada, pude assistir ao frenesi das reportagens sugerindo o perigo a que valentemente estavam sujeitos, a falta de condições de segurança a que indecentemente estavam expostos e, até, ao verdadeiro Soweto que os rodeava. Nunca vi nada tão ridículo. Há que ter a noção do interesse público e do interesse do público. O pequeno furto mereceu 15 segundos de antena num canal brasileiro e nenhum segundo na BBC World. Em Portugal, nunca seria notícia se os visados não fossem os próprios jornalistas visivelmente impreparados para estarem no terreno dada a mariquice de receios que expuseram sobre o local onde estão.
Poderíam ser reporteres de guerra, sem deixar de falar nas condições logísticas?
Poderíam fazer dossier sobre grupos oposicionistas numa qualquer ditadura, sem deixar de exibir a sua galhardia?
Que saudades tenho das reportagens de Cândida Pinto, Santos Pereira, Jorge Araújo ou José Rodrigues dos Santos, entre outros. Gente que se faz invisível para um trabalho de utilidade pública e notória.
Em Julho de 1993, em Washignton, pedi para assistir a uma reunião de redacção da National Public Radio, a cadeia radiofónica que atravessa todos os Estados dos EUA, género TSF, e que, nessa altura, marcava a agenda política e televisiva (CNN incluída) daquela potência hegemónica mundial.
Lá fiquei calada e pasmada durante 50 minutos a ouvir o que aqueles senhores diziam que devia ser notícia no mundo, nesse dia. Pasmada porque perderam 30 minutos com o simples facto de um cão ter mordido num carteiro. Esse era o light motiv para mesas redondas sobre salivas de cão, modelos de segurança das casas, donas de casa isoladas, legislação sobre o direito a ter cão, etc. Os restantes 20 minutos foram distribuídos por outras notícias nacionais e, apenas, três temas internacionais: 1) sobre a Somália, onde as tropas norte-americanas estavam estacionadas; 2) sobre uma instabilidade governamental em Moscovo; 3) sobre uma ligeira abertura económica na China. Em suma: tudo interesses domésticos americanos, compatíveis com o facto da maioria dos senadores nunca terem tido um passaporte.
Uma vez mais me envaideci com a nossa universalidade. Até ao baque desta manhã.

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segunda-feira, 7 de junho de 2010

A República vai nua!

O show começou. Um grupo de professores de Aveiro decidiu vestir 1200 crianças com a farda da Mocidade Portuguesa para evocar os 100 anos da República. (Público 07/06/10) Está certo: o Estado Novo ocupou quase metade desse tempo magnífico que agora se comemora com alegria. Logo o deputado do Bloco de Esquerda, Pedro Soares, se insurgiu: «esta iniciativa obriga alunos menores a serem actores de um acto laudatório e acrítico de uma página negra da História de Portugal». Concordo. Não gosto de ver as crianças de Aveiro assim vestidas. Mas, quando se procura a verdade, arriscamo-nos a não gostar da descoberta.
Há meses, apelei a António Costa, na Assembleia Municipal de Lisboa, para que aproveitasse este Centenário para comemorar «100 anos de República» e não «100 anos de propaganda». É uma ocasião única para promover a investigação, a publicação e divulgação do que realmente aconteceu neste período (post anterior «A República de António Costa»). Entre os estudiosos, Rui Ramos tinha feito o mesmo repto contrastando com o cepticismo de Vasco Pulido Valente, António Barreto e Filomena Mónica, que nada esperam de bom destes festejos.
Na altura, o Presidente da CML reagiu com humor e agressividade. Fico com o primeiro enfoque mas não deixo passar esta maré que nos sai cara e que foi lavrada por um protocolo entre a Câmara de Lisboa e a Comissão para as comemorações do Centenário.
Nesse sentido, vi nos Paços do Concelho a exposição «O jogo da Política Moderma!», desenho humorístico e caricatura na I República. Lá estava, logo na primeira frase da brochura, a irresistível propaganda: «A I república trouxe consigo a explosão das práticas de humor social e político». Nem Bordalo escapa! Ignora-se que uma das armas contra a Monarquia, antes de 1910, foi precisamente a prática intensiva de humor social e político. Uma prática que podia acontecer porque havia liberdade de imprensa. Pelo contrário, depois do 5 de Outubro, instalou-se um regime de partido único e a liberdade de imprensa foi uma das primeiras vítimas da Revolução.
Se quiséssemos falar verdade nesta exposição da CML, deveríamos poder ver, igualmente, o encerramento dos jornais monárquicos ou de facções republicanas que não estiveram, a cada momento, com a situação e que tentavam publicar a «explosão das práticas de humor social e político». Também a actividade da censura deveria estar ai retratada uma vez que, como se sabe, não foi exclusiva do Estado Novo.
Tal como na história do Rei vaidoso, venham de novo as crianças, agora vestidas de Mocidade Portuguesa, com o único mérito de dizerem: «A República vai nua!».

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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Valores, poder e interesses

Neste abatido espaço público que invade a Europa encontramos a discussão política crivada de tópicos argumentativos cada vez mais erráticos, desconexos, sem tino. Os argumentos apelam para os perigos, logo, para os medos, ou para o direito, logo para a formalidade. É preciso lutar contra o terrorismo, ou outros novos perigos, ou então temos de seguir as formas do Direito internacional. Discute-se pedagogia (como ensinar bárbaros a não queimar embaixadas, ou então igrejas, ou talvez mesquitas), discutem-se eficácias duvidosas.

Sou tentado a lembrar dois tópicos que me vêm à mente. De um lado a teorização dos regimes políticos dos gigantes Platão e Aristóteles, lembrando que cada forma de regime tem a sua versão degenerada, e uma referência de Thomas Mann no seu diário em meados dos anos 30, lembrando como as populações, e quanto mais politizadas internamente, podem ser cegas para as relações internacionais, que são de poder.

No que me respeita nunca idolatraria a simplicidade pela simples simplicidade, se isso significa empobrecimento. Mas para meu uso interno, e sinto-me bem acompanhado na História, parece-me que a política só se pode analisar de forma completa caso se tenham em conta os valores, mas igualmente os interesses e o poder. Em cada facto político de relevo (não falo do anedótico ou do meramente tribal) pergunto-me que valores se defendem, que interesses se protegem, que equilíbrio de poder se gera. Parece-me simples e bastante completo.
Um dos problemas do século XX (a que pertencemos e que não abandonámos ainda, por mais que propaganda contrário diga o inverso) é o unilateralismo. Uns apegam-se aos valores como se de religião se tratasse. Outros vêem tudo como um jogo de interesses. Outros ainda vêem sede de poder. Análises em que confluem todos estes aspectos são escassas.

O problema é que cada uma destas formas, quando vistas unilateralmente, geram formas degeneradas de se compreender a política.

A obsessão com o poder gera a crueldade desabrida. Os Europa o exemplo máximo é o do nazismo, ou por forças exteriores a ela, a de muitas conquistas: hunos, turcos, tártaros, mongóis são movidos por ânsia de poder no seu estado mais destilado. A degeneração da política em simples poder gera a soberba grosseira, a cegueira, a falta de testemunho e uma vitória fugaz. Não deixa marca, não deixa rastro, não deixa boa memória. É a política dos soldados de fancaria.
A obsessão com os interesses gera a mesquinhez grosseira, acabando muitas vezes num jogo pelo puro prazer do jogo, em que se envolveram com frequências diplomacias europeias da época Moderna. O jogo de espelhos caracteriza-a, e acaba por lhe destruir qualquer sentido útil. É a política dos fanqueiros de pacotilha.

A obsessão com os valores gera a cegueira perante os modos de realização a longo prazo, e acaba por redundar no mero formalismo do cumprimento dos rituais da ordem nacional e internacional, num discurso tartufo, beato, que desemboca sempre na vida pobre do homem que é o mero Direito. É a política dos juristas de feira.

Mas ter poder em si mesmo é essencial. Sem poder não há liberdade empírica. Poder é poder decidir, poder fazer o que se quer, poder dar prevalência aos nossos interesses quando assim entendermos. Os interesses em si mesmos não são pecaminosos. Uma criatura sem interesses é não só desinteressada, mas sobretudo desinteressante. Ter interesses é “estar entre”, “inter esse”. Quem não defende os seus interesses, quem não os tem claros, não sabe onde está e é bem capaz de ser obrigado a abandoná-los. Os valores não significam apenas numa versão piegas de cristianismos de substituição, uma lacrimejante postura perante o mundo. A confiança em si, o orgulho no que se é, a ambição, são igualmente valores que a Europa soube cultivar durante milénios.

O problema é de definir o espaço relevante desta tríplice união. Quem o assenta no Estado nacional poderá faze-lo se for chinês, americano ou indiano. Se for europeu reduz-se à impotência. Este simples teste mostra-me que o espaço nacional não pode ser na Europa o principal centro de formação de poder, sob pena de impotência.

Se assim é, resta saber se existem interesses comuns que sejam mais importantes que as fronteiras nacionais. Porque sem eles qualquer união de poderes fica vazia de motivo. E os europeus têm mais interesses em comum que divergências. Participam dos mesmos fenómenos de sociedades, dos mesmos problemas demográficos, da mesma situação geográfica, das mesmas ameaças, políticas, étnicas e económicas. No entanto, se junto ao meu vizinho puder ser mais forte e tiver interesses partilhados, pouca solidez tem esta construção se não se basear em valores comuns. Os interesses têm o problema de serem muito variáveis na sua configuração concreta e por isso é natural que, vistos na perspectiva curta, sejam muitos diversos dos do meu vizinho. Só posso aceitar sacrificar interesses de curto prazo se vir que existem outros de longo prazo que merecem esse sacrifício.

Mas se o jogo se basear apenas em interesses, dificilmente posso fundar uma realidade tão irracional quanto uma unidade política. Porque, convenhamos, uma medida de política é sempre irracional em muitos aspectos. Todos os que têm alguma diferenciação sentiram mais afinidades com pessoas de outras nacionalidade que com a maioria dos seus concidadãos. Um escritor, um amigo, um cientista, um movimento de outros países é-nos mais próximo que o nosso vizinho de prédio. Podemos ter mais interesses em comum com o nosso vizinho mas mais afinidades com alguém longínquo. A nossa vida, e também a colectiva, é feita de união de valores. E os valores da Europa sempre foram mais comuns que diversos. Os movimentos culturais, de populações, sociais, de sentimentos sempre foram mais ou menos síncronos na Europa. A mútua contaminação desde sempre existiu. E esses valores comuns só numa perspectiva limitada se poderiam reduzir à democracia, à economia de mercado ou a estruturas jurídicas. O que de melhor há na vida vai para além disso. E fazer uma união apenas com base em instrumentos é apenas empobrecedor.

O facto de o discurso político não saber integrar estas três frentes mostra mais uma das vertentes da infantilização do espaço público, tratando os destinatários como atrasados mentais ou meros espectadores de um ballet. Esquerda, direita, progressistas e conservadores e outros conceitos mais ou menos vazios de sentido enchem um espaço falho de reais ideias e vão manchado as páginas dos jornais e distraindo as gentes.
O paradoxo é o de se obrigar o discurso político a um duplo registo: quando são políticos a falar devem falar sobretudo de valores. Quando são comentadores devem falar sobretudo de interesses. Quando muito de poder.

Uma política que não queira poder não existe. É pura farsa. Uma política sem valores é puro capricho. E uma sem interesses é pura perda de tempo. Uma Europa que não se construa segundo estes três eixos é uma Europa feita de lerdos para lerdos, uma canção de embalar contada a crianças por encantadores de serpentes. Imagina-se o que quem as conta julga ter à frente.

O realismo político tem de ter em conta sempre estes três eixos. E num espaço público recheado de anões, apenas podemos exigir que ao menos sejam adultos. E que se abandone a infantilização do discurso. Os seus portadores perdem tempo fazendo-se crianças. E os seus destinatários merecem mais que isso.

Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Conservadores e progressistas

No clássico livro de Kirk sobre o estado de espírito conservador (talvez melhor tradução para o “The Conservative Mind”, que “o pensamento conservador”), surge uma fileira de criaturas, a maior parte das quais decentes, embora nem todas, mas em geral, convenhamos, muito pouco eróticas. Tirando o conde de Tocqueville, esse grande estudioso da democracia e o sempre comovente Burke, poucas personagens me suscitam real interesse. Se o livro não fosse tão centrado no mundo anglo-americano, o que não lhe retira interesse, mas torna-o algo provinciano, poderia referir nomes tão ou mais importantes do pensamento conservador e bem mais excitantes, como Ortega y Gassett, Thomas Mann, Chateaubriand, Popper, Goethe, Baudelaire e De Maistre, cada um no seu género e à sua maneira bons representantes do pensamento conservador.

A primeira ideia popular é a de que não existe um pensamento conservador. Um conservador não pensa, apenas existe. De seguida surge outra ideia difusa, a de que o conservador se opõe ao progresso, logo ao desenvolvimento económico, à democracia. O mundo mais uma vez é simples e está explicado.

Como a destrinça entre a esquerda e a direita, que cheira mais a explicativa do que sabe, a divisão entre conservadores e progressistas é frequentemente artificiosa, fonte de equívocos e pouco útil.

Há basicamente duas espécies de progressistas. Uns definiram de antemão o que seja o Futuro da humanidade. E tudo o que se desvie desse futuro que conhecem por iluminação divina deixa de ser progressista. Atenção porque este futuro foi incarnado por laicos, radicais, comunistas, mas também pelos sacerdotes da economia de mercado e da democracia como forma última e mais perfeita da humanidade. São os progressistas escatológicos. A segunda espécie de progressistas é composta dos que estão insatisfeitos com o que existe só porque existe. Por isso aceitam qualquer mudança. O facto de ser mudança já é bom. São os progressistas fracturantes.

Há igualmente duas espécies básicas de conservadores. Uns reconhecem não apenas coisas boas no passado, mas crêem que a vida é tradição, ou seja, passagem de testemunho. São os conservadores tradicionalistas. Outros recusam a mudança porque o passado é sempre melhor que o futuro. São os conservadores passeístas.

A destrinça entre conservador e progressista tem a ver com a relação do homem com o tempo. Nada tem a ver com a destrinça entre revolucionários e reformadores. Houve revoluções conservadoras e mesmo reaccionárias (Savonarola, Juliano o Apóstata) e reformas notoriamente progressistas (as de Bismarck na Alemanha ou as de Adenauer ou De Gaulle). A grande diferença entre um revolucionário e um reformador tem a ver não com o tempo directamente, mas com a velocidade.

Se conservador e progressista são conceitos que têm a ver com o passado e o futuro questão diversa é a que os distingue em relação ao presente. Os dois extremos que definem esta distinção encontram-se nos reaccionários e oportunistas. O reaccionário é o que nega o presente, seja em nome do passado ou do futuro, o oportunista é o que o aceita por uma ou outra razão. Oportunista é um conceito francês do século XIX, como tantos outros em uso na política, e que não tem a carga negativa que depois se deu. Oportunista é o que aproveita a oportunidade, embora tenha de se reconhecer que tipicamente o faz sem grande elegância.

Existem por isso toda a espécie de combinatórias nesta matéria. Há conversadores oportunistas e reformadores (Disraeli e Bismarck), reaccionários revolucionários (conservadores como Mao Tse Tung ou progressistas como Robespierre), progressistas reformistas reaccionários (como Thatcher) e assim por diante.

O grande problema é que estas destrinças mais uma vez têm um significado político muito variável e muitas vezes o mesmo projecto é defendido por conservadores e progressistas de toda a espécie. É esse o caso do projecto europeu.

Quem são os conservadores? A resposta a esta pergunta mostra a vacuidade do conceito. Conservadores são os de da esquerda à direita defendem um conceito de Estado-Nação forjado no século XIX. Conservadores igualmente os que defendem uma Europa meramente burocrática tal como criada nos anos de 1950. Conservadores o que em França lutam pela manutenção dos acquis sociaux. Mas igualmente os que em Inglaterra pretendem manter uma concepção de mercado construída um quarto de século antes. Conservador Brejnev que tenta manter a gerontocracia no poder. Conservadoras as democracias que se pretendem impor como modelo ao mundo. Conservadores os que da esquerda à direita têm uma concepção da Europa baseada no fim dos anos de 1940, em que a Europa é a Europa NATO, e em consequência querem a Turquia na União Europeia. Conservadores estes e tantos outros que em miscelânea vaga se comprazem de tudo e de coisa nenhuma.

Progressistas, conservadores, reformistas revolucionários, oportunistas e reaccionários são todos eles conceitos ligados ao tempo de uma forma ao de outra, ao passado ao presente, ao futuro ou à velocidade. Nada nos dizem sobre conteúdos. Têm a vantagem sobre as ideias de esquerda e direita, que em si nada dizem e apenas resultam de falta de imaginação topológica, de ao menos em cada época histórica nos permitirem definir um movimento, um vector, se se quiser. Mas exactamente por isso nada nos dizem sobre os conteúdos que se defendem. Defender a protecção social é progressista no século XIX, conservador no XXI. Defender o mercado pode ser progressista ou conservador consoante os momentos históricos.

É evidente que colocado em cada momento histórico e em cada situação ser conservador ou progressista ou revolucionário e assim por diante não é irrelevante. Como figuras vectoriais que são podem ser muito importantes para conformar as vidas das pessoas, para lhes modificar a maneira de estar, de viver, de sentir. Mostram direcções e sentidos sob o ponto de vista geométrico, denotam forças em acção. Mas mais uma vez nada dizem sobre para onde nos dirigimos, o que queremos, o que nos interessa, o que nos move.

No entanto, têm sido estes os conceitos sobre os quais se tem construído o discurso político dos últimos duzentos anos. Sobre meras metáforas temporais ou espaciais primitivas como estas se tem tentado dar algum sentido ao discurso político, quanto nenhum destes conceitos transporta em si nenhum sentido. Se conseguíssemos transformar o discurso em imagens teríamos como que um ballet em que uns se dirigem mais para um lado da cena e outros para outro, uns saltam mais depressa, outros fazem piruetas, outros ainda aceitam o solo em que pisam, ou outros ainda pretendem escapar à força da gravidade. Conceitos mais potentes pelo fascínio que concedem que pela sua força explicativa, mostram um discurso político que se resguarda em meros símbolos e perde todo o contacto com a realidade.

Mas tendo eu criticado as mais simbólicas traves mestras do discurso político da nossa época longa, vejo-me obrigado a fornecer uma alternativa. Para quem queira ver a política com olhos adultos, ela tem de se basear numa tripla ideia: poder, valores e interesses. É sobre esses três eixos que toda a política deve ser analisada, e no caso que me interessa, a política europeia. É pois de um discurso político adulto que tentarei tratar da próxima vez.



Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 25 de maio de 2010

Era assim

O Jardim do Príncipe Real reabriu ao público com 54 árvores abatidas e 380 mil euros gastos em candeeiros, bancos, saibro, tubinhos de rega e plantação de algumas árvores dos viveiros da CML.
A obra teve início em Novembro de 2009 sem o aval obrigatório da Autoridade Florestal Nacional e do IGESPAR. A primeira deve pronunciar-se sempre que algum galho é cortado num raio de 50 metros de uma árvore classificada. É importante que assim seja porque as alterações abruptas da incidência do sol numa árvore de referência podem ditar o anúncio da sua morte. Naquele jardim existem quatro árvores classificadas o que faz o perímetro de todo o espaço verde. Também o IGESPAR não foi ouvido em tempo útil. Só quando já tinham sido abatidas mais de 50 árvores daquele património florestal e a Junta de Freguesia e um grupo de cidadãos se revoltou é que o Vereador Sá Fernandes captou as assinaturas necessárias, entre um Domingo e um Feriado, com o estrago patrimonial já no chão.
A operação fitossanitária era necessária. Mas o que aconteceu foi um realinhamento sumário do coberto florestal, que envolveu o abate de árvores doentes e saudáveis. Um jardim romântico não pede este tipo de ordenamento paisagístico. Pelo contrário. É do seu «acaso» que lhe vem a traça e a beleza. O que lá temos agora é um espaço mais iluminado, e bem, mais arrumado de bancos e circuitos, e bem. Com os inevitáveis tubinhos de rega, como se estivessemos num resort construído no ano passado num destino turístico, Pour épater le bourgeois. E não se diga que a vegetação vai cobrir. Não vai. O sistema contínuo da tubagem é tão moderninho e prático como desventrado e visível. E, certamente, nada tem a ver com o restauro de um jardim romântico num bairro antigo de Lisboa.
José Sá Fernandes, que constituiu o seu ADN político com a bandeira da severidade e da vigilância, o cavaleiro solitário amante desinteressado da Cidade de Lisboa, verdadeiro Torquemada da exigência processual, vai perdendo as suas máscaras. Para não ser fariseu da política, teria de ter tido razão quando acusou outros - coisa que nem os Tribunais têm confirmado; e teria de praticar igual ou maior exigência consigo próprio, uma vez no poder.
Mas pergunta depois de abater; explica depois da revolta; e desenha o restauro do caos saudável a régua e esquadro. Um susto.

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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Quem é Cavaco Silva?


As palavras de Cavaco Silva na despedida de Bento XVI deixavam adivinhar um Presidente da República corajoso, livre de complexos sobre a laicidade do Estado (sem a comprometer), fiel representante dos anseios da imensa maioria dos portugueses. Teríamos homem? Rapidamente alguém esclareceu: «Então não o conhece? Vamos ver se não está a preparar o caminho para aprovar a leizinha».
Deixemos o conteúdo da lei que permite o Casamento de homosexuais.
Quem é Cavaco?
Um equilibrista que compromete os mandatos que lhe são confiados pensando no percurso que lhe falta percorrer?
Ou um verdadeiro político que destingue as questões de Estado das confissões pessoais?
O que foi a sua vida política? Esteve com o esplendor de Sá Carneiro. Evitou Balsemão na trágica herança. Combateu o Bloco Central (83 - 85) depois da dificuldade das contas, antevendo a prosperidade dos fundos europeus (86).
Teve equilíbrio para acompanhar a onda do novo ciclo, durante dois mandatos. Ultrapassou, com mérito, a derrota nas autárquicas, alcançando uma segunda maioria, no início da década de 90. Pelo caminho, fez a revisão Constitucional (89), que libertou a economia do Estado, e uma reforma fiscal que rendeu frutos. Aproximou o País com alcatrão, fez a expo e recuperou a confiança do mercado interno.
Mas funcionou sempre com a segurança das maiorias (a minoria 85 - 87 foi propedeutica). Sentindo dificuldades na corrida a Belém, traíu o seu braço direito e herdeiro, Fernando Nogueira e, por uma vez, estampou-se com calculado tabu sobre as Presidenciais.
Usou o deserto de dez anos na Academia (95 - 05) para consumo interno: «pontuou» nos artigos sobre o «Monstro» criado por Guterres e sobre a «boa e má moeda» em Novembro de 2004, apunhalando o XVI Governo Constitucional. Pouco depois, com o mesmo cálculo, recusaria o uso da sua fotografia num cartaz das Legislativas do PSD de Fevereiro de 2005 onde surgiam todos os líderes desde a fundação do partido. Cavaco sabia que não seria eleito com um Governo laranja.
Eleito pela Direita, fez um festim de cooperação institucional com Sócrates. Aprovou a Lei do Aborto sem que o Referendo tenha tido uma participação maioritária, como a Constituição impõe. Irritou-se (e bem) com o novo Estatuto dos Açores que lhe pisou os calos e inverteria os poderes do Estado e aprova agora a Lei do Casamento entre pessoas do mesmo sexo, contra todas as razões que soube identificar e que são reais. O veto estava ao seu alcance e ninguém, à esquerda ou à direita, levaria a mal que o usasse. Afinal, foi eleito sem dizer que, consigo, esta lei passaria sem qualquer dificuldade.
Terá uma agenda direitíssima até ao final do mandato apostando na memória curta de quem o elegeu. Mas, para vencer as eleições, basta a qualquer adversário fazer um replay da última intervenção do PR. «Sou muito direito, quando as circunstâncias pessoais o permitem. Contem com o meu cálculo. Comigo, não».

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terça-feira, 18 de maio de 2010

Por onde anda a antropologia científica? II

E eis que chega um senhor chamado René Girard. Vem da análise documental e passa pelo estudo da literatura e eis que entra na antropologia. E pela primeira vez encontro um antropólogo que não se basta com essa divisão entre primitivos e civilizados. Todas as culturas humanas em todos os seus estádios podem finalmente passar pelo mesmo crivo.

O problema é que recorre para esse efeito a outros dois centros bem diversos de análise: o mimetismo e a Bíblia. A crucifixão separa o arcaico do cristão. Pecado infame, é bom de se ver. Para os senhores antropólogos instalados nas suas cátedras, debitando em sebentas lições contra a escolástica, opinião vinda de fora apenas pode ser bárbara, herética.

O mimetismo tem um papel na cultura do século XX bem maior do que gostaríamos de aceitar. Mais um dos conceitos de Aristóteles, o tal velho já ultrapassado, que nos volta a perseguir. Na etologia, da economia com Hayek, e na antropologia renasce independentemente sempre com maior força.

E a Bíblia, centro de saber científico? Ainda mais abominável que Aristóteles ou o pensamento liberal. A Bíblia é tudo o contrário da ciência, qualquer criança aprende isso na escola. É dogma estabelecido, não pode ser contestado.

Mas Girard lembra-se de salientar um pequeno pormenor que poucos tinham visto, salvo os mais atentos à eucaristia: a vítima é inocente. Há um antes e um depois desta declaração de evidência da inocência da vítima. Os antigos tentaram adoçar ou obnubilar a crueza do sacrifício (os Vedas são bom e poético exemplo disso), mas pela primeira vez na Historia existe uma vítima plena e absolutamente inocente. E toda a História muda com esse facto. O problema da cruz não é questão para beatas inconsoláveis escudadas intelectualmente em pouco mais que o missal, é afinal o centro que corta as civilizações em dois.

Horror, sacrilégio, blasfémia, grita o dito cientista humano, o comentador político, o jornalista, puxando do seu lenço e dos seus sais enquanto disfarça um chilique. Enquanto apresenta sinais de afrontamento vai lançando os seus anátemas, que na sua linguagem são o de anti-científico, etnocêntrico, reaccionário.

O que não percebe o novo escolástico é que neste aspecto Girard completa a corrente que vem de Harnack, Overbeck... e Nietzsche.

A antropologia liberta-se assim dos seus centros de gravidade. Finalmente. O primitivo e o imperial cedem o terreno ao mimetismo e à Bíblia.

Acredito eu totalmente no poder explicativo do mimetismo?

De um só golpe trespassa a antropologia e põe em forte queda a natureza primitiva do desejo. Exit Freud. Freud gostaria de colocar aí o seu axioma fundante e eis que Freud é posto em causa. A teoria do mimetismo, vi-a em actuação em muitas situações. O cerco para criação da vítima viu-o bem William Golding no seu “Lord of the Flies” que Peter Brooks transpôs maravilhosamente para o cinema.

Um amigo meu quando esteve na Índia contou-me sem conhecer nada destas teorias, um fenómeno estranho por que passou numa terra de província. Uma multidão começa a rodeá-lo e às suas companheiras de viagem e começa a circular de forma cada vez mais apertada à sua volta. Também na vida real vi cercos feitos a pessoas para as vitimar. O fenómeno que hoje em dia se chama de "bullying" é apenas um entre outros fenómenos de criação de vítimas. Esta atracção pelos outros, sobretudo em multidão, é criadora e mortífera.

Os Vedas estão repletos de ritos de circundação e a volta da Kaaba é um outro exemplo disso. A própria circuncisão hebraica mostra réstias de um sacrifício de uma vítima. À volta, cercando, gerando um círculo, e consequentemente um centro.

O mimetismo é explorado de forma bem mais profunda por Girard que por Hayek. É certo que ambos participam do horror às totalidades que Platão, Hegel e Durkheim representam, e nisso são primos entre si e de Prigogine. Girard tem a capacidade de lhes ir ao fundamento. Hayek nunca conseguiria associar o mimetismo à vítima e ao desejo. Por isso nunca conseguiria perceber o poder civilizacional da Bíblia e o que esta traz de agastante para os perseguidores de todo o mundo que a ela se opõem.

Nesse sentido Girard é uma porta de abertura, uma rajada de frescura nas rotinas do pensamento antropológico. E em geral na forma como nos vemos na nossa época. Girard apenas esquece algo muito importante. E isto não lhe vai em demérito. Já fez brilhantemente o seu papel. Esqueceu-se deste imenso mistério, aquilo a que Jung chamava o maior complexo, o “eu”. Este esquecimento não retira força à sua teoria, sobretudo tendo em conta a fraqueza das teorias anteriores. Apenas quer dizer que existe um espaço aberto para uma nova antropologia, que desta vez também anuncie o “eu”. Essa é fácil de estabelecer nas suas fontes. É a dos Padres Gregos e o seu projecto de divinização do homem. Mas para essa ainda teremos de esperar algum tempo. A lucidez paga-se sempre com custo. E afinal a nossa vida é mais longa do que parece. Podemos dar-nos ao luxo de esperar. Desde que estejamos prontos a pagar o preço.




Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Por onde anda a antropologia científica? I









Na nossa época gosta-se do epíteto científico. Por isso quem querer ser credível usa e abusa dele, como antigamente (e hoje em dia) se forjam brasões e genealogias. A antropologia não é excepção. E no público medianamente culto a antropologia está associada aos torpores do linguajar estruturalista, cheio de gráficos, esquemas e precisões conceptuais que por vezes temos toda a razão de detestar.

A antropologia em boa verdade pode-se dizer que nasce quando o homem se hominiza. Mas se nos ficarmos por isso estamos a dizer demais, ou seja, quase nada. A antropologia em boa verdade surge quando se descobre a universal diversidade do ser humano. Marco Polo podia ser dado como exemplo, como tantos viajantes, Ibn Batutta por exemplo, ou mesmo Xenofonte ou Heródoto. Mas a antropologia universal surge com a Europa, a primeira criadora de um mundo ecuménico. E mais precisamente com os jesuítas. Desde os ritos chineses até aos índios da América do Sul, o jesuíta mostrou uma capacidade de empatia e aculturação que foi nesse sentido pioneira na história, pela sua profundidade e duração.

Mas eis que a antropologia se quer científica. E o século XIX, romântico como era, não quis deixar de ser científico. E foi-o. Até à ousadia. Para surgir de forma sistemática e organizada era preciso um império universal e meios académicos ricos. Escusado será dizer que teriam de ser os britânicos a começar a antropologia.

O problema é que esta antropologia surge marcada por duas características: estuda os povos primitivos, enquadra-se num projecto de ideologia imperial. Descobre-se entretanto um outro conceito para definir outros primitivos, os que temos mais próximos de nós, os camponeses, os dentro da Europa, mas fora do processo de expansão industrial e eis que se fala em etnologia.

E em França a física social começa a aparecer, chama-se de sociologia, e os povos desenvolvidos ficam incluídos neste processo de científica visão do mundo social. E algo vindo da Alemanha confunde tudo. Os britânicos, muito sensatamente, falavam de Folk-lore. Coisa do povo, tradições, canções do povo. Mas a Alemanha impõe o seu conceito de Kultur, à falta de melhor, mas que para um alemão se distingue claramente de Bildung, que só é destinada a uma elite. O conceito de cultura estende-se irremediavelmente na boca do povo até ficar em permanente esparregata. Esvazia-se de sentido para se poder aplicar a tudo. Tudo é cultura. Inevitavelmente. Até a palavra cultura deixar de ter qualquer significado de prestígio. Como o Monsieur Jourdain fazemos cultura mesmo (e sobretudo) não o querendo. E eis que a antropologia científica se reveste do nome de antropologia cultural, para se distinguir da antropologia física.

A História é sempre bem mais complexa, mas estes dados de base já nos permitem perceber alguma dos limites de nascimento da antropologia: povos primitivos e ideologia imperial.

Não é por caso que nos restantes cem anos a antropologia se revolta contra estes dois conceitos. A revolta é evidentemente edipiana porque a antropologia se sabe filha destes dois pais. E por isso dedica-se cem anos a demonstrar que os primitivos não são primitivos e que a ideologia imperial é um hedionda abominação, que no fundo a sabedoria está nos primitivos, que por sinal não o seriam, mas apenas estuda o “selvagens”, “os povos originários” ou outros conceitos puritanos que decidiu inventar.

Sente-se incomodada com as lides da etnologia, esconde muitas vezes a face à sociologia, mas a verdade é que os dois centros de gravidade mantém-se os mesmos, seja para o afirmar, seja para o negar: a ideia de primitivo, e a ideologia imperial. Sendo filha da ideologia imperial revolta-se contra a mãe, sendo filha da separação do primitivo e civilizado esforça-se por demonstrar ainda mais essa separação, desta feita a favor do primitivo.

É evidente que nos Estados Unidos se passa um fenómeno estranho. Um francês marca a antropologia mais que outros. Mas, como Einstein, idolatrado, influente, mas no fundo marginal, é dos raros que não mostra grande afecto pelos primitivos. Sobre as suas análises de analogias musicais e matemáticas, recorre a um grande matemático, André Weil, para analisar a estruturas do parentesco, e depois esquece o reconhecimento que lhe deve. Falo, é evidente de Lévi-Strauss.

Lévi-Strauss tem na antropologia o destino que Einstein tem na física. Determinante nas ideias e métodos, é de certa forma esquecido sob o ponto de vista filosófico. Lévi-Strauss nunca idolatrou o indígena, mas o antropólogo de segunda linha pega nas suas ideias para o fazer.

É claro que os contributos da antropologia não podem ser negados. Historiadores recorrem aos seus métodos e conceitos e aplicam-nos na História. Mas evidentemente a épocas primitivas das civilizações, seja a grega, a romana, a persa. Nenhum mal há nisso. O problema é que padecem ainda do mesmo mal duplo, o da separação do primitivo e a ideologia imperial (geralmente na forma de negação).

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quarta-feira, 12 de maio de 2010

Irresistível em 24 horas


O «medonho Torquemada» da Congregação da Doutrina e da Fé que, durante o longo pontificado de João Paulo II, clarificou as balizas da Igreja pós-conciliar; o alemão tímido que não faz ski, nem sequer sabe representar; o sucessor do preferido, o maldito pelos pecados mais hediondos de alguns padres, foi esperado pela agenda pensante com primarismo e sem esperança.
Anunciaram-se bandeiras pretas e distribuições de preservativos; questionou-se a tolerância de ponto, os gastos, a oportunidade da visita em tempos de crise. E a inteligência mediática desdobrou-se em pequenas análises consonantes com a aversão ou a má vontade no acolhimento ao visitante.
O que mudou em 24 horas?
Ainda o avião não tinha aterrado, já o Papa calava fundo os mais críticos dizendo que a agressão à Igreja estava dentro de casa, (como sempre) no pecado. No alcatrão de Figo Maduro, foi ao encontro do assanhamento republicano dizendo que, há 100 anos, a laicidade libertara a Igreja do Estado.
Parece que o País pensante foi apanhado desprevenido. Desde logo, no Programa «Prós-e-Contras», descobriu que afinal havia católicos inteligentes, operantes, letrados, com ideias claras e discurso actual. Depois, dá ideia que nunca pensou ver nas ruas de Lisboa e no Terreiro do Paço, a alegria genuína de tantos que pareciam saídos de um País que estava escondido dentro do seu. E, finalmente, a intelectualidade agreste à Igreja, é muito sensível à inteligência e à cultura - pilares inequívocos da personalidade de Joseph Ratzinguer. A nata estava no CCB para o ouvir e aplaudir de pé. O respeito voltou à Cidade e abriu espaços a pequenos e grandes grupos. A todos.
As palavras de Bento XVI têm a clareza e a esperança que o Povo pede em tempo de incerteza. «Quem acreditar em Jesus não será confundido»; «Ele disse: estarei convosco até ao fim dos tempos»; «Nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja». Em tempo de crise, a verdade, a confiança e a sobriedade valem tudo. E o Papa provou que não precisa de ser uma estrela para ser brilhante.
Teremos tréguas ou um novo caminho?

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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Vem cá falar connosco, vamos ouvi-lo


«Precisamos de homens que mantenham o olhar voltado para Deus e aí aprendam a verdadeira humanidade. Temos necessidade de homens cujo intelecto seja iluminado pela luz de Deus e aos quais Deus abra o coração, de modo a que o seu intelecto possa falar ao intelecto dos outros e o seu coração possa abrir o coração dos outros. Só através de homens tocados por Deus, Deus pode voltar para junto dos homens».
Joseph Ratzinguer «A Europa de Bento na crise de culturas» (Aletheia, 2005)

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sexta-feira, 7 de maio de 2010

Quem não tem competência não se estabelece


Facto I
Dois gravadores roubados por um Deputado da direcção da bancada do PS, no Parlamento.
Facto II
Furto captado por uma Câmara de filmar.
Facto III
Justificação pública: acto irreflectido para defesa do bom nome. Não devolução do produto do furto.
Facto IV
Direcção da bancada solidária com o deputado usurpador.
O que é isto???
Há quem encontre uma saída: «foi a única maneira de se defender»; «o jornalista estava a pedi-las»; «não roubou os gravadores, levou o seu som».
Não podemos enlouquecer. Roubar é roubar. O título da Sábado «Deputado levou os gravadores» é eufemístico (figura de estilo em que se disfarçam ideias desagradáveis por meio de expressões suaves, Dic.Editora). Roubar no Parlamento, no exercício das funções de Deputado, pede imediata perda de mandato. E, quando há arrependimento, suponho que há um pedido de desculpas e a devolução do que se roubou. Quanto à solidariedade do líder da bancada com este gesto, só me lembro do dito popular: «Tão ladrão é o que vai à vinha como o que fica de espreita».
Ninguém obrigou Ricardo Rodrigues a ser Deputado, a dar uma entrevista, a responder a perguntas incómodas. Só o obrigaram a viver em Democracia e num Estado de Direito onde há liberdade de imprensa e não há liberdade de furto. Pode ser-se político sem dar entrevistas ao assertivo Fernando Esteves e pode ser-se Deputado com anteriores suspeitas de crimes que o Tribunal não provou. Mas não se pode roubar o que não é nosso. E, por cima disso, justificar o roubo. Talvez a única coisa que bate certo é o Deputado dizer que irreflectidamente quis defender o seu bom nome.

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quinta-feira, 6 de maio de 2010

O desprestígio dos criadores V

A ênfase na destruição não é causa, mas sintoma deste estado de espírito. O espírito democratizante na cultura em geral precisa de destruir, não para construir, mas pura e simplesmente porque não sofre confronto. Destruir é sempre mais fácil que construir. A lista de obras-primas que eu seria capaz de destruir é sempre infindável, as que eu seria capaz de fazer será forçosamente mais restricta.

O assento na desconstrução não revela por isso espírito crítico, ao contrário do que os seus cultores gostam de afirmar, mas apenas necessidade de criar espaço próprio. O seu parente é o “Lebensraum”. O criador contemporâneo sente-se oprimido, não por limitações legais impostas pela sociedade, mas pela grandeza do que herdou. Precisa de destruir para conquistar espaço vital, não para construir algo de sólido em substituição. A sua política é a da terra queimada, do nazi criando o vazio na terra russa. O parentesco entre a cultura contemporânea e o nazismo é aliás evidente e participa dos mesmos vícios da modernidade. São filhos da mesma fonte. De uma vontade de grandeza generalizada tornando pequenos todos os outros. Paradoxo apenas aparente, porque quando todos querem ser grandes todos são pequenos.

O que se passou com os criadores não é algo de muito diverso do que se passou com os políticos, os jornalistas, os modelos. A glória efémera prevalece e por isso mostra a sua insignificância. O problema é que os criadores têm uma responsabilidade bem mais grave nessa matéria que os outros. São eles que têm de expressar a grandeza, mesmo que não a encarnem. Não consta de Carlos Magno fosse grande poeta. Um político não precisa de expressar em objecto a sua grandeza. Exprime-se nos seus actos.

Os criadores, pelo contrário, apenas evitam a submersão dos séculos mostrando o que está acima deles. Horácio, um dos grandes estetas, mostrou bem isso ao afirmar que tinha criado um monumento mais perene que o bronze. Fez algo para ser admirado nos séculos, porque os séculos sabem que não o podem agarrar na plenitude, apenas o podem passar para a geração seguinte.

O abuso da soberania, a sua comercialização e em sequência a sua trivialização fazem dos criadores plenamente criaturas do seu século, prontas a morrer com ele, ou mesmo antes dele. Criaram para si mesmos esse estatuto, quando seria o seu papel criar estatutos para outros. Os grandes senhores da história sabiam que precisavam de vates para serem imortais. Sem Alcuíno Carlos Magno perderia muito da sua imagem, sem Virgílio Augusto seria um pouco mais pequeno. Sem Marco Polo não perderíamos mais que dois segundos da nossa vida a pensar quem seria Kublai Khan. Estaria guardado para os eruditos, as pessoas cuja paciência ressuscita em luz ténue geralmente mediocridades. Benditos sejam pelo seu trabalho, que me merece o meu maior respeito. Mas não agitam fogueiras, lançam fogos, não queimam o mundo, não lhe dão calor nem o iluminam.

O curioso nesta situação é que são os próprios criadores oficiais que criaram esta situação. E que a população em geral (incluindo os intelectuais menores) que partilham esta visão. Cantam uma ladainha da importância da cultura, mas não fazem peregrinações para ouvir os criadores. Precisam deles na sua corte, à sua volta, apenas para afirmarem que dão importância à cultura. Mas acham-nos tão irrelevantes quanto o comum dos mortais. Sejam eles intelectuais, políticos, empresários, jornalistas, quando procuram os criadores é para a entrevista, para ocupar tempo, não em procura de iluminação.

Talvez os criadores tenham tido o que merecem, mas pergunto-me se uma sociedade merece apenas isto. Talvez tenha chegado o momento de criadores retomarem a soberania, discreta, com noção de serviço, pensando além dos séculos, trabalhando para o perene, reconhecendo o seu lugar. Processo que levará gerações, talvez. Porque o homem é assim feito. Se um monarca não se comporta, fere a própria ideia de monarquia, se um político é acusado de tráfico de favores é a classe política que sofre, se um taxista é malcriado todos lhe ganham a fama. Pádua não passou a ser terra de santidade por ter abrigado um santo.




Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 5 de maio de 2010

O desprestígio dos criadores IV

Resta-nos o terceiro factor. A banalização da superioridade, ou mesmo a sua negação. O lugar comum diz que não há música clássica e a outra, mas que há música boa e música má em todas a áreas, o que não deixa de ser verdade. Mas esquece-se que a música mais profunda, mais arrojada e mais rica é a dita erudita. Aliás a aflição e a insistência com que se repete este chavão mais denota que se quer produzir um efeito que reconhecer uma realidade. Com a literatura passa-se o mesmo. Um selvagem da Nova Papua tem foros de genialidade e por isso a complexidade de Dante ou Horácio são comprimidas para caberem no mesmo cesto. Que o poeta popular mais ou menos sincero e sofrido apenas conheça o heptassílabo rimado em quadra deve ser ignorado perante a riqueza formal e de ideias de Camões.

O próprio criador quando defende estas teses se anuncia como substituível, intermutável, e a complexidade de que se ocupa torna-se mero atavio, sem real importância. Para que todos acedam à criação foi preciso que a criação se tornasse acto trivial. Já resta pouco do impulso de admiração que se revela por duas frases simples: “eu não era capaz de fazer isto”, ou então, “como não me lembrei eu disto?” (reservada esta ultima, fora de presunção, para outros criadores).

A postura geral, justa ou não, não interessa para estes efeitos, é a sua dupla inversa: “eu também era capaz de fazer isto”, ou então, “não faria isto, mas faria algo de pelo menos tão grande valor”.

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terça-feira, 4 de maio de 2010

O desprestígio dos criadores III

O segundo factor de desprestígio foi a comercialização.

O escritor que se posta na feira a dar autógrafos, o pintor que faz rondas comerciais como o vendedor de produtos financeiros é relegado para o mesmo plano. Perdeu a auréola mística da soberania. Passa estar no circuito comercial, como as batatas, e as televisões.

Já não é soberano, mas produto. E nesse caso é o público que é soberano. O cliente pode deter pouco poder em si mesmo, mas no seu conjunto determina o consumo. Soberania, religião, mística deixam de ter sentido para este criador com soberania perdida. Apresentado como um aristocrata de casa reinante deposta, vive de ser produto, aceitou que os seus brasões sejam logótipo, e os seus pergaminhos apenas folheto de publicidade.

O seu irmão encontra-se nos membros de mais ou menos antiga ou recente aristocracia, verdadeira ou forjada, que se pavoneiam das revistas sociais. Tanto mais se afirma de vanguarda ou experimental, tanto mais se torna produto. Tem de ser fracturante, inovador, destruidor de tradições. É essa a tradição que tem de respeitar, essa a especificação técnica do seu produto. É o que se exige de si. E bem comportado, cada vez mais bem comportado, vende uma revolta de rotina como dever de ofício.

De soberano pretérito tornou-se caixeiro-viajante e, se bem sucedido economicamente, na melhor das hipóteses, numa espécie de executivo internacional, mas em versão de patente menor, porque nesse circuito é geralmente mais mal pago e menos prestigiado.

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domingo, 2 de maio de 2010

«O Vietname não é uma guerra. É um País»

Sempre que penso em Saigão, lembro-me da versão do Apocalipse Now, dobrada em castelhano, que a TVE passou talvez no final do ano de 79 ou 80. Nas primeiras cenas, ao som das pás de um helicoptero, com a imagem de uma ventoínha de tecto, o personagem abre a janela do quarto e diz: «Saigón, mierda». Nada como o castelhano para transformar uma tragédia em comédia.
Neste fim-de-semana, passam 35 anos sobre a queda de Saigão. E, tal como na dobragem da fita de Coppola, o drama desse tempo foi tomado pelo seu contraste.
Atravessei recentemente o País. De Norte a Sul procurei nas amabilíssimas caras de cada vietnamita o ódio de um vietcong disposto a matar-me devagarinho, como mostra a indústria de hollywood. Nada feito. Procurei então os sinais opressores do regime tuletado pela União Soviética, mesmo depois de 75, quando o perigo conheceu as cores do Camboja, sob o peso da China. «O Partido Comunista atrapalha as vossas vidas?», pergunto a Kuang, à saída de Ha Noi. «Ainda não convém fazer manifestações sobretudo quando se discorda», e adianta: «Mas a maioria dos vietnamitas está muito ocupada a trabalhar para as suas vidas».
A lei da sobrevivência, a ausência de um tecto oficial (no emprego, na saúde ou na segurança social) e, sobretudo, a pujança do crescimento económico no País tornam possível e desejável a cada vietnamita a realização do verdadeiro sonho americano, na sua terra.
No more boat people. No more kiling fields. A iniciativa privada é lei. Os grandes investimentos no Turismo - pagos por chineses, franceses, autralianos e sulcoreanos - são secundados por milhares de pequenos negócios de roupa, comida, transportes, pesca ou turismo, à mão da nova ambição vietnamita. Ao luxo asiático soma-se o requinte francês. No restauro da Ópera de Ha Noi ou na recuperação dos melhores hotéis da viragem dos séculos XIX-XX. Ali se come o mais fresco fois ao som de Aznavour, «Non Je n'ai rien oublié, rien oublié». Uma pequena multidão de franceses, nostálgica do seu breve império (1850-1954), garante o negócio: «Pour un flirt avec toi je ferait n'importe quoi», canta Michel Delpech, enchendo a pista de dança...
Dizem os estrategas que «o vencedor é, muitas vezes, assimilado pelo vencido». O Vietname será hoje um bom objecto de estudo. Os veteranos de guerra norte-americanos voltam aos campos de batalha com os guerreiros viets. Querem deixar escritos os nomes numa pedra. Vivem memórias em comum: «Nós estávamos aqui quando vocês nos atacaram». Recuperam os postos no terreno, sem agressão. Tudo é mais fácil desde que Bill Clinton visitou Ho Chi Min, em 2001.
«Quem é hoje o vosso inimigo?» pergunto em todas as conversas. «A China!» respondem, sem hesitar. A memória do apoio dado pelos chineses aos Kmers Vermelhos no abate da elite viet, há 30 anos, é refrescada agora pela disputa de duas ilhas junto à fronteira, perto da magnífica Baía de Ha Long. Vale a pena percorrê-la num Junco, ali dormir entre os penhascos que emergem do mar e pensar que aquele cenário de sonho está imune a quaisquer conflitos. Tal como vem escrito, talvez na revista do avião, para informar os incautos: «O Vietname não é uma guerra. É um País».

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