quarta-feira, 10 de março de 2010
segunda-feira, 8 de março de 2010
O que é a Europa? V
Elas não nos limitam: definem-nos. Todos os seres humanos no mundo vivem felizes com a sua definição. Os europeus parecem querer apagar-se do mapa, por não quererem ser distintos. A indistinção dissolve, e todo o discurso que recuse diferença específica à Europa, é apenas destruidor. Bastou-me um Átila e um Tamerlão. De turco-mongóis já tivemos experiências que cheguem: adoráveis, para quem gosta, gloriosas, no modo de empilhamento de caveiras, mas sem dar uma ponta de viço à alma europeia.
Que o discurso político actual se confronte com a destruição e o parasitismo, diz mais sobre quem o profere que sobre a justiça do que afirma. Ficam com o seu autor os motivos suicidários. Aprovo-lhes a motivação, apenas lamento não terem coerência para consumarem o facto.
Não termina aqui o problema. Temos de avançar para mais uma das suas dimensões: o debate entre a inércia e a vontade. Bacon dizia que para dominar a natureza temos de obedecer às suas leis. Frase muito simples, mas que constituiu a base mais fundamental de toda a ligação entre a ciência e a tecnologia na cultura europeia. Negá-la é cair no fetichismo.
Ora bem, que nos dizem os sapientes da hora? A Europa é uma construção anti-histórica (ou seja, sem inércia, ou seja, sem lei da natureza). O que seja a Europa depende apenas da nossa vontade (ou seja, mais uma vez pertence a uma natureza sem leis).
O discurso político apoia-se assim em puro fetichismo. Contrário à ciência, invoca em vão o seu nome.
O plano da vontade implica por isso mais duas questões: o da possibilidade e dos custos. O primeiro é o do efectivo poder da vontade para mudar as coisas. O segundo o do que se perde com essa mudança.
O que significa uma inércia histórica? Que nada pode ser mudado? De todo. Muito pode ser mudado, mas desde que se percebam e se apoie na inércia histórica. Que esta seja usada exactamente para ajudar o impulso e não o contradizer continuamente.
A Rússia soviética aproxima-se cada vez mais da política tzarista. É natural: inércia histórica. A revolução francesa deixa incólumes estruturas antigas e até reforça algumas estruturas desigualarias: inércia histórica. Os países do Médio Oriente tiveram desde há décadas de optar entre laicidade e democracia, da Turquia ao Egipto, nunca os podendo conciliar: inércia histórica.
Estamos obviamente a falar de inércias históricas de diferentes fôlegos. De fôlego muito menor do que é constitutivo da Europa. E por isso muito menos poderosas. Quanto mais será o poder do quádruplo pilar da Europa.
Podemos mudar? Sim, mas com custos. Podemos querer transformar países asiáticos em europeus. Mas com um esforço imenso e com o permanente risco da elasticidade os fazer retornar com ainda mais força ao seu asiatismo.
Podemos mudar de sexo, fazer operações às pernas para ficarem maiores. Os sofrimentos compensam os benefícios? Talvez. Existe a certeza de não haver sequelas? Nunca. E quando falamos de massas elásticas, induzidas pela inércia, corremos o risco sempre e mais uma vez de o retorno à situação original ser ainda mais violento. De querer transformar em Europa o que não é acabamos por criar uma Ásia ainda mais se torna Ásia.
Nas discussões científicas usa-se com frequência um termo que muitos julgam jurídico, mas vem da dialéctica: o de ónus da prova. Este é invertido quando alguém propõe um modelo. Está invertido. Mas para o rebater que não se indiquem jornais, nem documentos burocráticos, nem boas intenções. Ter consistência é um atrevimento na nossa época. Que alguém de atreva, pois.
Alexandre Brandão da Veiga
sexta-feira, 5 de março de 2010
O Terreiro socialista

Tem sido confrangedor assistir ao sectarismo jacobino do actual Executivo da Câmara Municipal de Lisboa sobre a visita do Papa Bento XVI no próximo mês de Maio. O governo da cidade que mais cristãos deu ao Mundo e que, também por isso, é (com Veneza) sede de um dois únicos Patriarcados da Igreja Ocidental, não faz o mínimo esforço por receber com dignidade o Chefe da Igreja Católica.
Do ponto de vista puramente secular, esta é uma oportunidade de ouro para projectar Lisboa internacionalmente dada a cobertura que as visitas pontifícias sempre despertam em todo o Mundo. Sendo a missa de Lisboa no Terreiro do Paço, não deveria a Câmara empenhar-se nesta projecção? O que não dariam os alcaides de Barcelona, Valência ou Sevilha por uma oportunidade destas? (para não falar de Madrid).
António Costa, e a sua equipe, ao nada contribuírem para o palco, os écrans, o som e o embelezamento do Terreiro do Paço estão a limitar, de forma escandalosa, o direito dos Lisboetas e de Portugal receberem dignamente o seu líder espiritual. Recorde-se que, pelo censo, 94% dos portugueses se declaram católicos.
Diz o autarca que ninguém lhe pediu nada. (Será que alguém lhe pediu para gastar milhões na comemoração da República?) Nuno Abecasis, em 1982, no Parque Eduardo VII, e Jorge Sampaio, em 1991, no Estádio do Restelo, apoiaram generosamente as visitas de João Paulo II. Tiveram alcance: do lugar da cidade no mundo e do lugar da religião no seu povo. António Costa ainda pode inflectir o radicalismo em que se acantonou. Mas dificilmente os Lisboetas esquecerão a resistência que pôs nesta colaboração.
quinta-feira, 4 de março de 2010
O que é a Europa? IV
Este critério tem duas partes, se bem repararmos. Por um lado temos de ver a relevância do império romano na actualidade. Em segundo lugar, o da relevância da sua queda, e da sua queda como mito.
A História de Europa é um permanente renascimento da ideia imperial. O simples facto de a palavra existir com esta relevância já é de si estranho. Afinal, na república romana o "imperium" era algo de bem mais trivial. Uma mera função militar e não um estado. E no entanto a Europa sente-se renascer com o renascimento do império, por múltiplas vias.
O renascimento carolíngio, o renascimento otoniano. Mesmo as Espanhas não fugiram a esta ideia imperial com Afonso VII, ou com o tsar dos búlgaros, ou o czar russo (ambas as palavras variantes de “Kaisar”, César). A Europa de Verdun de 843 é reproduzida em 1951 e em 1957 com a CECA e a CEE. Em modos diversos os Habsburgos, Dante, Napoleão, Bismarck e Hitler tentaram fazer renascer o império.
Trata-se de uma inércia histórica fortíssima, que aparece sob as mais diversas capas e com os mais diversos modelos. E se a Inglaterra a partir do século XVIII foge na aparência a esse modelo com o império colonial, ainda Henrique VIII ambicionou a coroa imperial. Mesmo na dominação fora da Europa de que se lembraram os países europeus? De fazer “impérios”, ainda por cima “coloniais”, expressões ambas romanas, e que teriam de ser analisadas mais de perto para se verificar o que têm de nada trivial ou justo. A actual União Europa é a reactivação desse complexo, para falar na linguagem dos psicanalistas, e não é estranho que uniões africanas, asiáticas e quejandas tenham um sabor de postiço, de imitação. É da Europa que nasce esse mito de unificação. A fórmula de Barraclough, unidade na diversidade, para definir a Europa descreve tanto as nossas angústias como a nossa grandeza.
A queda do império romano é um mito. A frase parece estranha, porque a títulos bem diversos, bem sabemos que o império morreu. Seja em 476, data simbólica, seja, noutro momento, seja numa contínua evanescência, o império romano acabou. Parece por isso paradoxal afirmar que se trata de um mito. No entanto para percebermos a sua natureza mitológica temos de olhar para Bizâncio, onde o mito inverso permaneceu: o mito da continuidade do império romano. Imperadores de origem arménia, no século XIII o império de Niceia. E no entanto, continuaram-se a chamar-se a si mesmo de “Romaioi”, romanos, por oposição aos “Latinos”, os da Europa ocidental.
Um mito não é forçosamente uma mentira. É uma história que tem força própria, que impulsiona para a acção. A Europa constituiu-se com base da ideia de “Translatio Imperii”, a translação do império (Peter Sloterdijk percebeu esta parte, mas caiu no politicamente correcto e no indefinido, não sabendo completar a sua teorização). E todo o pensamento político europeu foi marcado pelo império romano caído. Pelas modalidades da sua sucessão (partilhada pelos vários soberanos, ou concentrada no imperador, separando o gládio e o pálio, ou juntando em teocracia ou cesaropapismos, ou nos sistemas regalista, galicano ou ultramontano). Mas também pelas modalidades da sua reconstrução. Os já citados casos dos Otonianos, Habsburgos, Dante, Napoleão e da União Europeia.
quarta-feira, 3 de março de 2010
A República de António Costa
A Câmara de Lisboa assinou um protocolo com a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República. Pretende «associar as características do regime republicano aos valores da cidadania numa sociedade democrática» (ponto 2.1) e, simultaneamente, «aprofundar o conhecimento dos acontecimentos», «até à época actual» (ponto 2.2).
Trata-se de uma contradição nos termos: como vamos associar a I República aos «valores da cidadania nuna sociedade democrática» se, como todos sabemos, esta revolução substituiu um regime constitucional, com alternância democrática, imprensa livre e liberdade de culto por um regime de partido único, sem liberdade de imprensa, onde se confundiu laicismo com ateísmo jacobino e houve lugar para perseguições aos sindicatos? Já para não falar no crime fundacional que constituiu o assassinato do Chefe de Estado.
E o que dizer do que se passou depois na chamada «longa noite» com o mesmo sistema de partido único, sob a capa de União Nacional, a censura e o condicionamento das liberdades religiosa, sindical e de associação?
Temos assim 64 anos de República, ou de ditadura, ou das duas coisas. Diz António Costa que a II República não conta. Defende então uma memória ideológica? Uma espécie de historiografia de supermercado em que se vai buscar, a cada prateleira, apenas o que se quer ter em casa? Se os valores democráticos da República só contam a partir de 74, que centenário é este celebrado com tanta antecedência?
Não me coloco contra estas comemorações que confundem o que esteve para ser, com o que foi. Nem proponho, pelo contrário, que se celebre a República confiando no desfecho autofágico das comemorações expostas ao ridículo de uma propaganda anacrónica, desnecessária, dispendiosa.
Proponho que se aproveite esta oportunidade histórica para se incentivar a investigação e a divulgação do que esteve para acontecer, mas não aconteceu, e do que realmente aconteceu. Talvez assim se resgatem alguns valores da ética que, aparentemente, precisa de não ser republicana para ser verdadeiramente ética.
O que é a Europa? III
A nossa paisagem, as nossas cidades, os nossos conceitos, nada deixou de passar pelo crivo cristão. Mentira tem coloração bem diversa em grego que hoje em dia. O que seja a dimensão da fragilidade humana e como a ela se deve reagir está marcado pelo cristianismo. Girard disse-o bem: o cristianismo traz ao mundo uma fundamental inovação antropológica – a vítima é inocente. Uma civilização assente nesta conclusão e premissa tão estranha e improvável só poderia dar resultados inesperados. Que todo o bicho homem seja pessoa, outro conceito improvável, também traz o inusitado. Com o cristianismo a Europa constrói-se sobre a improbabilidade. A Europa é a civilização improvável por excelência.
O nosso maior pecado e maior virtude como europeus, a abissal diferenciação sentimental que o cristianismo induziu, é marca disso mesmo. Quanto mais se estuda a patrística e a filosofia medieval, seja europeia ocidental, seja bizantina, mais vemos que não há duas frases que possamos dizer que não estejam marcadas por esse pensamento. “Objectivo” e “subjectivo”, os mais elementares conceitos da lógica com que laboramos no dia a dia, estão marcados por uma leitura restante de Boécio, mas sob o olhar cristão. A tonalidade afectiva de cada uma das palavras que usamos foi delimitada pelo cristianismo, a um ponto que pouco conseguimos dizer sem essa marca. E o célebre espírito científico como oposto ao cristianismo vai beber triplamente à sua fonte (a valorização positiva do infinito, a bondade do corpo e da matéria, o movimento rectilíneo como natural foram os impulsos para a ciência moderna).
É evidente que existem heróis de pacotilha que afirmam que ultrapassaram o cristianismo. São esses os primeiros a não o conseguir fazer. A dificuldade de enunciar as filosofias antigas, que mesmo depois de mais de dois séculos de estudo crítico ainda são objecto de grandes equívocos, os limites com que podemos enunciar o pensamento hindu, budista, confucionista, têm a ver com um dado trivial: nenhuma cultura pode ser integralmente transposta noutra. Mas no caso da Europa têm a ver com um dado que lhe é peculiar: é que o elemento de força é o mesmo que gera a dificuldade de transposição. Foi o cristianismo que deu à Europa a abertura para estudar outras culturas. Se todas a culturas são etnocêntricas, talvez a europeia seja a que o é menos. Na Europa estudam-se todas as culturas. Vejo com dificuldade que no Paquistão se estude Plotino ou na Turquia São Gregório Palamas, salvo em pequenos seminários ortodoxos isolados.
Perceber o paganismo indo-europeu e o seu contributo foi um acto de reconquista de uma herança em parte perdida e em parte filtrada. Sair do cristianismo é a tentativa inversa e em geral mal conseguida. É esse, quer se queira quer não, o nosso ambiente natural. Tenho a prova disso com frequência quando começo a falar como um grego, hindu ou um budista. A plateia tende a ficar chocada porque não uso a linguagem aproximativa, mitigada e propagandística dos que apresentam essas culturas no fundo como uma espécie de cristianismo exótico. A maioria das pessoas adora as outras culturas desde que não sejam plenamente confrontadas com a sua diferença. Adoram contemplá-las como se vêm os leões no circo ou no jardim zoológico: com barras protectoras. Dá-se o caso de as barras protectoras serem cristãs. Por isso os cultores do multiculturalismo no fundo são pequenos burgueses que vão passear ao fim de semana ao jardim zoológico. Reconhecem o leão à distância, mas não querem ter intimidade com ele. A sua simpatia é directamente proporcional à distância que com ele estabelecem.
Seria obviamente lírico tentar sequer fazer uma síntese do contributo do cristianismo para a Europa. O que interessa salientar é que é tão presente que dele não se escapa, e tanto menos quanto mais se acha que é obra fácil fazê-lo.
terça-feira, 2 de março de 2010
O que é a Europa? II
Os nossos medos, os nossos demónios são diversos dos de outras culturas. Eles são (também) herdados do paganismo. Bem como muitas das nossas soluções. Na Europa existe uma relação com a adversidade cultivada nas elites que é estóica, não budista. Cada povo segrega e aceita o seu tipo de heroísmo próprio. O nosso é o do estóico e do cavaleiro medieval. O tártaro de Tolstoï é sempre dado por contraste, por oposição, como forma de mostrar não que temos de o imitar, mas que nos esquecemos do nosso heroísmo.
É evidente que me podem afirmar que estas figuras estão ultrapassadas. Mas são os mesmos que o dizem que são os primeiros que criticam faltarem estas qualidades a terceiros. Não se compreende metade do discurso da oposição política sem conhecer estes valores. Qual o problema de ser corrupto, o problema de mudar de posição de acordo com os ventos? Se quem afirma que estes valores já não se usam, se não lhes reconhecesse alguma força, não os invocaria.
De Roma herdámos a noção de que são as leis e não os homens que governam. O génio romano foi o de dar instância para julgar onde começa a tirania. Incumprir a lei, onde está o problema? Em todas as culturas o incumprimento da lei é condenado, é verdade. Mas a ideia de que o poder tem todo ele a fonte na lei, para o bem e para o mal, é herança prática romana.
Um visitante grego em Roma definiu as matronas romanas como rainhas. Todas elas eram rainhas. A ideia de república traduz esta de partilha da soberania. A laticlave de púrpura era usada pelos senadores romanos. Todos eles tinham uma parte de púrpura, mas nunca se atreviam a vestir integralmente de púrpura. Por mais absoluto que fosse o poder na Europa, os limites impostos pelos parlamentos a Luís XIV são um bom exemplo dos limites do poder que sempre constituíram a Europa. Não são apenas limites de facto, todos os regimes os tiveram, não são apenas limites de legitimação, todas as culturas os têm. O que é distintivo da Europa é o facto de a própria existência de limites ser constitutiva do poder. Seja com Antígona, seja mais tarde com a sinfonia bizantina.
Mas a força do paganismo não assenta no vazio. É carreada pela imensa maioria dos povos que habitam a Europa, mas é apoderada pelos que não a carreiam em igual dimensão. Os fino-ungáricos, os bascos, o magiares puros, os petchenegues ou foram absorvidos até não ficarem traços étnicos nem língua, ou apenas ficou a língua. E quando restaram os dois a destrinça cultural é ténue. Um basco pode sentir a sua natureza de basco com muita intensidade. A sua língua e os seus costumes. E está no seu direito. Mas desafio alguém a tentar destrinçar um basco de um francês, ou italiano apenas pelo seu modo e pensar ou sentir o mundo.
O substrato sobre o qual agiu a onda indo-europeia não era uniforme. Os povos da Velha Europa, eventualmente os etruscos (língua indo-europeia arcaica segundo alguns, não interessa, para estes efeitos, aprofundar a questão, neste momento apenas especulativa) foram absorvidos. No início do império ainda se reconheciam os etruscos de origem em Mecenas e poucas mais personagens. As marcas que deixaram nas línguas (na toponímia nomeadamente), e eventualmente em alguns valores, estão de tal forma fundidas com a restante cultura que já não pode dela ser destrinçada.
O que seja este contributo dos substratos é meramente conjectural. Seria preciso que conhecêssemos efectivamente as culturas da Velha Europa (como lhe chamam os arqueólogos), e as múltiplas culturas minoritárias desse substrato europeu. As tentativas de encontrar nesse meio traços de matriarcado que se encontrariam ainda em Creta e na Etrúria, uma relação especial com o culto solar e das estrelas são mais hipóteses que teses demonstradas. O período de antecedeu e imediatamente seguiu a queda do império romano mostrou a capacidade criativa da etnogénese, de como povos se fundem noutros, e como rapidamente se chamam a si mesmo godos vândalos que foram por aqueles vencidos. A fusão gera entropia. Será sempre muito difícil extrair a pepita pura do pensamento pré-indo-europeu.
O facto de o contributo deste substrato não poder ser definido nos seus traços gerais não significa que não tenha relevância. É para a Europa a matéria e a energia negra de que falam os cosmólogos. Sabemos que tem peso, mas ao contrário dos últimos não podemos ainda quantificar o seu peso. Apenas podemos verificar que o facto de as restantes componentes da Europa se terem instalado num determinado continente e em mistura com povos anteriores tem um peso. Afinal, os cristãos de Malabar têm marca indo-europeia, são cristãos, mas não são europeus.
A Europa não é etnicamente pura. É verdade. Como nada é. Se um argumento tiver de assentar nestas generalidades deixa de o ser.
segunda-feira, 1 de março de 2010
O que é a Europa? I
É evidente que não temos de ter uma definição científica para cada palavra que usamos. Mas quando pretendemos arvorar legitimidade intelectual no nosso discurso, e dizemos que este e outro país são europeus ou não, temos de ter a certeza de que a nossa sapiência não é filtrada por jornais e revistas.
A Europa é tolerância, democracia, direitos do homem? Não me parece. Por duas razões muito simples: porque não o foi durante pouco tempo, e apenas o foi com interrupções. Dezoito séculos de História europeia seriam metidos no lixo se quiséssemos que fosse este o critério. A Alemanha nazi, a Rússia comunista, ou Portugal salazarista não seriam Europa neste critério. Em segundo lugar, porque é no fundo ou simples ilogismo ou arrogância. Arrogância se isso significar que é o nosso traço distintivo. Nós somos a democracia e tudo à nossa volta são regimes ditatoriais. Ou é ilogismo, porque significa que não criamos nenhum critério de distinção da Europa em relação aos restantes países.
A incapacidade de exprimir sequer um pouco o que seja a Europa mostra além de uma profunda incultura da nossa época, o seu profundo ódio ao pensamento científico. A nossa época é fascinada por tecnologia, simples fetiche. Mas em geral odeia a ciência e o que ela nos obriga a pensar. Porque a ciência implica um fortíssimo conjunto de vinculações. É essa em geral a condição de toda profunda liberdade, e a ciência não é excepção à regra. Não posso partir de uma premissa porque a acho engraçada e deitá-la fora no restante discurso. O pensamento científico reconhece que a perda dessa vinculação é perda de valor. O que de original fez Dirac foi conciliar a mecânica quântica e a teoria da relatividade. Poderia é certo deitar ao lixo estas duas teorias e partir de premissas completamente arbitrárias. Mas isso seria mera birra e não trabalho científico. Incoerência, arbitrariedade, capricho são inimigos da ciência.
Por isso quem fala da Europa tem de saber do que fala. Para isso tem de conhecer a matéria de que trata. Esta não é dada por declaração divina, por iluminação. O que seja a essência da Europa é terreno para discussão fora da ciência. Discussão legítima, mas que não é a que me interessa agora. Guardo a questão para outras núpcias.
Uma construção científica da Europa implica a construção de um modelo que represente as suas maiores inércias. A inércia não significa que seja impossível mudança. Significa que se encontrou o centro das forças da Europa, o seu núcleo mais resistente e fundamental. É essa a perspectiva sobre a qual se tem de delimitar o que seja Europa ou não.
Percorrendo o campo de estudo chamado Europa encontro quatro elementos que definem a Europa:
a) O paganismo indo-europeu;
b) Assente sobre povos autóctones da Europa;
c) O cristianismo;
d) O mito da queda do Império Romano.
Nenhum país é europeu se não tiver estas quatro características. Poderá ser democrático, poderá ser limítrofe. Poderá ser simpático, estratégico, importante. Mas não é europeu.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
A saga Rui Gomes da Silva
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Winter Storm On Long Island 2010
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
SERMÕES AOS CANDIDATOS A ESCRITORES
Os desabafos pessoais são feitos a pessoas que gostam de nós. Fazê-lo com o público é puro exibicionismo.
Não existe o desafio da folha em branco. O que pode estar em branco são as ideias. Mas esse não é um desafio, é um defeito.
Quem quer fazer uma literatura acéfala cai sempre na autobiografia.
As pessoas que estão sempre em perpétua renovação, além de levarem uma vida muito cansativa, dão a entender que tudo o que fizeram antes não presta. Para quem tem sentido de indução facilmente percebe que isto significa que a última obra terá o destino das futuras na qualificação do seu autor.
Quem não sabe distinguir uma obra média de uma obra-prima tem de começar por ler antes de tentar escrever.
Quem escrevendo pretende mostrar que tem uma vida sexual muito activa demonstra escrevendo que ela não é suficientemente tentadora para o fazer deixar de escrever.
Quem quiser escrever destituído de sentimentos deveria rapidamente verificar que essa não é a única qualidade literária que lhe falta. Quem quer escrever com o sentimento esquece-se de que a tinta deixa uma marca mais perene no papel.
Quem considera que a cultura é um defeito num escritor está a falar na sua própria deficiência.
Aqueles que querem meter a todo o custo e a todo o momento imagens naquilo que escrevem, visando com isso dar um maior peso expressivo ao seu discurso, talvez devessem ponderar a hipótese de fazer banda desenhada.
Quem afirma só gostar de um estilo simples refere-se geralmente à sua incapacidade de lidar com o complexo.
Quem idolatra o grosseiro e o considera um passo indispensável na criação literária julga que o modo como se comporta em casa se pode arvorar em lei universal.
Mostra-se obcecado com a fealdade quem pretende esconder sob a capa de uma escolha o que mais não é que falta de alternativa.
Quem fazendo literatura pretende mudar o mundo deveria dar o primeiro passo nesse sentido mudando de profissão.
Não há problema nenhum em escrevermos para ridicularizarmos algumas pessoas, que frequentemente o merecem. Mas atenta no perigo de seres ridículo fazendo-o.
Escrever uma saga de família é possível mesmo que no fim da linha não se encontre criadagem ou escravos.
Um bom escritor tem pelo menos um dos requisitos para ser bom jornalista: sabe escrever. A um bom jornalista pode faltar tudo o resto.
Quem se banha na intranscendência não pode querer lavar a vida alheia. Falta-lhe a prática da água e do sabão.
Quem escreve obedecendo a um programa pode fazer coisas de qualidade. Mas se o faz não é o programa que o dita.
Não tem sentido esconder a falta de ideias com uma pontuação deficiente.
Os que afirmam que escrevem sobre o seu bairro, mas que em bom rigor se referem à universalidade não são generosos nem criativos. Com efeito, se escrevem apenas sobre o seu bairro é de desconfiar que não conheçam mais nada.
Aos escritores que se queixam permanentemente da incompreensão dos outros falta-lhes razão para se queixarem. Ou estão acima da chusma e isso é motivo de regozijo, ou estão no mesmo nível e não tinham razões para se meterem em trabalhos.
Quem usa a literatura como forma de sedução fracos dotes pessoais deve ter.
Quem quer fazer literatura regionalista perdeu uma vocação para fazer bons guias turísticos.
Só tem razão para se queixar do público quem nunca quis publicar.
Alguns escritores falam com recorrência dos livros que têm na gaveta por publicar como os melhores. Uma prenda anunciada tem de ser entregue. É de péssima educação omiti-lo.
Se estás obcecado com a alternativa de escrever algo de belo ou de útil pensa que não tem muita utilidade o que escreves se não for belo. Se a tua obsessão é imprimir fealdade ao que escreves descansa por que o mais natural é que o faças espontaneamente.
Se é tua única intenção transmitir ideias erraste na vocação e o mais provável é que erras executando-a. Se não quiseres transmitir ideias a tua insuficiência substituir-se-á tua vontade no sucesso da tua empresa.
Quem diz que a literatura é a coisa mais importante do mundo deveria fazer a experiência de deixar de comer.
Os que afirmam que a função da literatura é mostrar a experiência vital perdem em geral tempo a mostrar algo que não adquiriram.
Querer ir direito aos assuntos significa com frequência bater com a cara numa parede. Nada há de mais oblíquo que a simplicidade.
Leio por vezes textos enfeitados de vírgulas, parágrafos arrevesados, frases cortadas a meio. Percebo que respeites e dês visibilidade ao trabalho do tipógrafo. Mas não é a ele que compete fazer literatura.
Alguns dos que escrevem deliram inventando palavras novas a todo o momento. Já me elogiaram mais de um dizendo que inventa palavras novas. Só respondi: - Será que não são capazes de fazer nada de jeito com as que já existem?
Antigamente falava-se do estilo de um escritor, a gora fala-se de escrita. É justo: perderam o conceito e falta-lhes o estilo.
A escrita é acto de meros alfabetizados. Na melhor das hipóteses, de contabilistas. Noutras ainda de calígrafos. Para um escritor é apenas uma inevitabilidade prática. Tem de escrever, no sentido em que não se é escritor se não se gravar de alguma forma palavras num suporte. Falar da escrita de um escritor é o mesmo que usar a palavra cutelo quando se fala de um cirurgião. Continua-me a parecer mais difícil salvar vidas que cortar carne num talho.
Antes de saber escrever, a primeira coisa que um escritor deve saber fazer em cima de uma mesa é comer. Quem não sabe comer à mesa devia aprendê-lo antes de ter a pretensão de escrever.
A grosseria não é um requisito literário, mas apenas um defeito pessoal.
Queres ser escritor? Lembra-te que a coisa não depende da tua vontade. Uma pretensão legítima chama-se ambição, quando ilegítima presunção.
A vocação é exactamente o oposto da vontade. A segunda passa-te rapidamente se fores saudável. Se não passar é mais competente para o teu trabalho um padre ou um psicólogo.
Se queres escrever coisas que fiquem depois da tua morte é mais provável que o consigas elaborando o teu epitáfio.
É dever dos candidatos a escritores o de falarem muito. É menos tempo que dedicam a colocar no papel para todo o sempre os seus disparates.
O realismo na literatura é tarefa de poetas.
Alexandre Brandão da Veiga
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Marziano Capella. Nozze di Filologia e Mercurio, Bompiani, 2001

Conheço pessoas que, na sua vontade de criticar a modernidade, se desfazem em elogios aos manuais escolares do tempo do salazarismo. “Antigamente é que era bom”. Sejamos pois consequentes. “Antigamente”? 1940? Sessenta anos? Depois da revolução francesa, da inglesa, da industrial, da queda de monarquias por toda a Europa? Moderno?
Aceitemo-lo. Se queremos algo que seja mesmo antigo peguemos então em coisa com quinze séculos e com mais de mil anos de uso escolar. Manual escolar por excelência, as “Núpcias de Filologia e de Mercúrio” são um dos exemplos máximos de sucesso editorial. Mil anos como livro escolar em toda a Europa, ou em parte dela. É obra, e vale a pena ser reconhecida.
É evidente que os eruditos tentam aproximar-se do significado da obra, e das intenções do autor de múltiplas formas. Se um jogo, se um livro de uma civilização romana em decadência e deprimida, de um homem que sabe estar a cultura em declínio (premissa algo abusiva), que pretende salvar o que restava da cultura clássica, ignoro. Poder-se-ia dar o caso de a vontade enciclopédica mostrar mais uma vez o encerramento de um ciclo. Assim fez Aristóteles e a sua escola perante a polis grega que se esvai (mas não morre), Varrão e Plínio o Velho com Roma republicana que fenece, Marciano Capella e mais tarde Isidoro de Sevilha com o mundo antigo. Os ciclos culturais são bem mais complexos e é muito difícil enunciar sínteses na matéria. Pode-se afirmar que as enciclopédias são igualmente abertura de um novo ciclo: o helenístico e o visigótico como o da enciclopédia francesa o teria sido da modernidade.
A verdade é que esta obra mostra um humor variável, e sobretudo capacidades variáveis e competências não uniformes. Prolixo nas humanidades, parco nas ciências, tendendo a ser algo superficial em ambas.
Imagine-se um homem que hoje em dia quisesse por si sintetizar toda a cultura da sua época. É natural que claudicasse na matemática ou na música, ou na História, ou na literatura. Marciano pega na enciclopédia da sua época, nas sete artes liberais e tem o projecto ambicioso de as transmitir ao seu filho. Encenação teatral ou intenção verdadeira, não é importante para o caso.
Tente o leitor fazer esse exercício. Como sintetizar a nossa civilização como se a quiséssemos transmitir ao nosso filho? É obra.
Capella não é um génio. Mas por isso mesmo a sua obra tem um significado especial. Lembro-me de uma vez ter ouvido um historiador dizendo que o historiador do pensamento está habituado a lidar com génios, o historiador comum compraze-se em lidar com medíocres.
Platões aparecem em dose homeopática na História e por isso, se dizem mais sobre a sua época do que o comum dos mortais, dizem menos por si do que era a sua época do que os medianos.
Marciano não era medíocre no plano do século, mas na vasta paisagem histórica cola-se à massa dos ignotos. Homem de grande cultura e cultura estruturada, é antes do mais para mim um bom testemunho psicológico, testemunho do que é a paisagem mental de um homem culto do fim do império romano do ocidente no âmbito latino.
A retórica é um meio eficaz de transmitir mensagens, mas surte o efeito de véu num jogo de espelhos em que muitas vezes é difícil destrinçar o que nos aparece e o que efectivamente representa. Marciano escrevia efectivamente para o seu filho? Será um comovente testemunho de alguém que visa proteger a todo o custo uma retórica e uma cultura que sabe ameaçada pelas invasões bárbaras e a queda do império? A ameaça seria assim tão grande afinal nessa época? Seria a queda o império vista com tanta angústia por todos os seus habitantes e da mesma forma? Ou então estamos apenas perante um jogo retórico de que poderá eventualmente participar o seu filho? A obra deixa-nos esta dúvida. Não sabemos se estamos no registo do cómico ou do trágico, do amargo, do agridoce ou da alegria.
O mais importante sob o ponto de vista histórico é que mostra tanto a sofisticação, como o esgotamento do pensamento pagão tardio em língua latina. Só os autores cristãos em latim tiveram genialidade. E mesmo assim pela via mais da filosofia e da teologia que pela criação literária pura.
Mais uma vez pela curiosidade, Filologia é virgem como devia ser toda a donzela pagã e devia casar-se com alguém do seu nível. Dois elementos que o jornalismo imputa ao cristianismo e que mais uma vez se verifica serem originalmente de factura pagã. A virgindade das donzelas e a igualdade de ilustração dos nubentes são afinal um dado perene da cultura europeia.
Mas mais importante sob o ponto de vista da lição, mostra até que ponto a pedagogia cai rapidamente no jogo de espelhos, e até que ponto a retórica pode ser importante, mas pouco esclarecedora se for exclusiva. Este é uma das profecias de Platão que não são muitas vezes levadas a sério. A cada momento temos de verificar se o que estamos a impor às nossas crianças e jovens mais não é que um casamento de filologia e mercúrio mal assimilada, uma enciclopédia limitada e tendenciosa, que esquece muito do que se passa à nossa volta e do que é a herança passada, não preparando por isso de modo completo para o futuro.
Há algo de equívoco e mesmo de tenebroso em Capella. O que nos tem de ocupar é saber se todo o projecto educativo não tem forçosamente essas dimensões. Pelo menos quando se pretende completo. Se aliás quanto mais completo se pretende mais desperta a alegoria, a insinuação, o difuso.
Jung quando o seu filho lhe perguntava como educar os seus filhos respondeu que os deixasse crescer como as árvores. A desconfiança de Jung em reacção à pedagogia poderia ter extremista, mas não deixa de ser um bom aviso. É inevitável querermos educar com base numa enciclopédia, mesmo que não queiramos transmiti-la de forma orgânica. É inevitável que essa enciclopédia gere equívocos.
Mas pergunto-me se, ainda que pela via errada, Capella não terá mais mérito que quem esconde que existe uma enciclopédia, quem a oprime e ficciona a sua inexistência. O seu medo do conhecimento passa a ser então o motor da sua pedagogia, e é apenas o medo que transmite. Educar tem riscos, não o fazer gera desastres. Negar sequer a possibilidade de o fazer nasce apenas do medo. Por isso talvez Capella seja mais um aviso que uma proibição.
Alexandre Brandão da Veiga
http://www.liberonweb.com/asp/libro.asp?ISBN=8845291022
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Tradição e imitação II
Sob o ponto de vista estrutural evolução, tradição e imitação são indissociáveis. As revoluções, sejam políticas, sejam sociais, de mentalidade, sejam científicas, resultam de uma massa crítica formada pela tradição.
Mas sob o ponto de vista vital é igualmente verdadeira esta relação. Colocando-nos na perspectiva do inovador, ou do revolucionário, não se encontra nenhum que não dialogue com a tradição. Os filósofos gregos com Homero, os cristãos com a filosofia grega e o direito romano, Einstein com Maxwell e Newton, Proust com Racine, Picasso com a tradição ibérica e a pintura da Renascença... É evidente que o ignorante não inova. É evidente que apenas mostra capricho, e depois do sucesso cai no ridículo e mais tarde no esquecimento. Mas a questão vai mais fundo que a lógica pobre da vida do medíocre com presunção, vai além da anedota. É que a criação implica sempre diálogo (exactamente o oposto da conversa de café, que não empenha ninguém). E só se dialoga com o que já existe, através do que já existe, a isso chama-se de tradição.
Na tradição protestante sobretudo desde o século XX que se percebeu que o “sola scriptura” tinha um vício lógico. É que a “scriptura” é delimitada... pela tradição. Tanto católicos como protestantes revalorizaram a teologia do outro lado e por vezes os resultados são inesperados. Mas inesperados só na aparência. É que sem tradição não há diálogo, sem imitação não há aprendizagem.
Ninguém tem mais horror aos seguidistas, às criaturas sem personalidade que se reduzem a ser citadores. Entre estes estão os revolucionários de café, ou de Internet hoje em dia. Mas creio que já apanhamos a sua principal brecha: não querem ou não sabem dialogar, recusam aprender. Recusam a tradição e o que tem de revolucionário. São conformistas. Não se querem confrontar com uma tradição que pela sua grandeza demonstra a sua pequenez. E acabam por seguir uma longa tradição humana: a da desonestidade intelectual.
Resta-nos fazer as perguntas fundamentais. Porque se imita? Porque tem importância a tradição?
Porque se imita? Talvez seja uma estratégia de sobrevivência. Mas talvez signifique antes do mais que o ser humano não é estúpido. Aproveita-se a experiência alheia, o comportamento alheio, os gostos alheios para retirar algo deles. A ideia de imitação foi sempre algo equívoca. Ou se imita a natureza ou os outros seres humanos. Confesso que sempre desconfiei um pouco de uma visão vulgata de Aristóteles que vê a imitação como algo de passivo, como o pintor que supostamente reproduz a paisagem. Mas a partir do momento que percebemos que não existe nunca mera reprodução, que esta é mediada por perspectivas, ênfases técnicas, nunca a imitação é passiva.
Porque tem importância a tradição? A tradição começa por ser a consequência da imitação memorizada. É inevitável que surja tradição quando existe imitação. É o repositório das muitas imitações em cadeia. Para que serve? É uma medida de economia. Não temos de inventar de novo os modos de ver e reagir ao mundo. Tanto melhor. Mas é igualmente um repositório de modos de ver o mundo seleccionados por gerações de seres humanos no qual se vai depositando a sabedoria (e a asneira) humana. Quem a recusa não apenas labora no impossível, mas igualmente recusa qualquer cultura. Não há cultura sem tradição. Quando se fala de cultura, mesmo que em relação a uma fatia cultural apertada, é sempre de uma tradição que se fala. É o estado a que a tradição levou a que certas sociedades chegassem, incluindo as formas como essas pessoas reagem a essa tradição. Mesmo os revolucionários reagem a uma tradição, e é dentro dela que laboram. É sempre num misto de contra e com que os seres humanos laboram a sua vida. Apenas variam os graus. E já é um apenas bem vasto.
Da parte que me toca, desconfio tanto dos que imitam e seguem a tradição por seguir, como os que a elas se opõem sistematicamente. Sempre me parecerem muito parecidos. De uma forma ou de outra são escravos delas. Ao menos os primeiros são um pouco menos enfadonhos porque com menos presunções e um pouco mais de harmonia. Os segundos, na sua presunção poética, tornam-se apenas burocratas do desfazer, e tristes exemplos do contrário do que anunciam.
Alexandre Brandão da Veiga
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Tradição e imitação I

A modernidade (e a pós-modernidade seja o que isso for) construiu-se contra a tradição e contra a imitação. É este o lugar comum. Se virmos o comentador, o intelectual mediano, o jornalista, é esse em geral o lugar comum que defendem.
Temos de ser originais, quebrar com o passado, destruir a herança, seguir o nosso próprio caminho. O paradigma parece ser o do aventureiro que se arrisca na selva amazónica, no terreno ainda não desbravado.
Nada tenho contra a real inovação, o pensamento que é aventura (o verdadeiro pensamento é sempre aventura), a contestação da tradição e o horror à imitação. O problema é o de saber se estes feitos estão ao acesso de todas as bolsas. E o problema é o de saber até que ponto este lugar comum é consistente com quem o defende.
Quando vemos multidões a defender estes lugares comuns (ao ponto de até o marketing se alimentar deles) vemos que quem o segue, fá-lo por um fenómeno de imitação, e em suma segue uma tradição mais ou menos recente. Primeira brecha neste paraíso da inovação.
Em segundo lugar, quando vemos os criadores da modernidade seguiam mestres de tradições ainda mais antigas (Baudelaire e seu Maistre, Nietzsche e seus pré-socráticos). Toda a aparente negação da tradição gera apegos a tradições, toda a negação da imitação gera novas imitações e nelas se sustenta. Eis a segunda brecha.
Em terceiro lugar, no elevado pensamento contemporâneo não é este tipo de negação que impera sem partilha. Na física encontramos um conservador impenitente como Einstein ou mesmo Dirac. Na química um Prigogine. Na economia um Hayek, na antropologia um René Girad. É estranho aliás que a relação entre estas várias personalidades nunca seja feita, porque apresentam estruturas de pensamento em muitos aspectos semelhantes.
Na matemática os termos em que se coloca a hipótese do contínuo só se compreende porque se quer integrar a mesma numa tradição. Afinal é fácil de demonstrar, basta afirmar que os índices de Aleph são apenas 0 e inteiros positivos como axioma, o que não deixaria satisfeito nenhum matemático que se preze, exactamente por não incorporar a tradição matemática. Na física Einstein quis preservar as equações de Maxwell e procurou novos princípios de conservação.
Um dos campos que parece excepção aparente é o da arte, em que se teria rompido com a tradição de vez. Mera ilusão. Picasso confronta-se com Rafael e procura noutras tradições (a ibérica mais que a africana como Penrose mostrou) a sua inspiração. A música de vanguarda acaba por dialogar com os mestres flamengos do século XVI. Na literatura a poesia concreta descobre a sua genealogia nos alexandrinos e na tradição medieval. Rilke encontra na tradição medieval e bizantino-russa muita da sua inspiração para o “Livro de Horas”.
De uma forma ou de outra o pensamento contemporâneo – o profundo, não o jornalístico – nunca abandonou nem a tradição nem a imitação como modelos explicativos e estruturas fundamentais da existência. E é natural que ambas estejam ligadas. É o que a realidade empírica nos mostra, é o que qualquer análise da realidade nos demonstra.
Qualquer criatura humana cai numa Terra que já existe, numa cultura que já existe. O mundo antes dela já existia. Teríamos assim duas possibilidades, ou o mundo que a rodeia ser-lhe-ia incompreensível, ou irrelevante, ou poderia dele absorver informação. Absorvendo teríamos duas possibilidades: ou vinha com estruturas totalmente novas, caídas no nada, de compreensão e interacção com o mundo ou tê-las-ia herdado. A genética e a experiência histórica mostram que é a segunda hipótese a verdadeira.
Por mais vasto que seja o campo da liberdade humana, há muita coisa que não escolhemos. Não escolhemos nascer ou não, não escolhemos ser mortais, não escolhermos ser lémures ou humanos, ser chineses ou portugueses, homens ou mulheres, bonitos ou feios, inteligentes ou estúpidos, nascer num meio favorecido ou não. A lista poderia ser desenvolvida até ao infinito. A tradição é simultaneamente o espaço fora da liberdade humana e onde ela se pode exercer. É a estrutura do ambiente humano.
Alguém que não reconheça o papel da tradição que tente começar de um dia para o outro a falar Urdu, se conseguir. Mas faça melhor, porque o Urdu pertence a uma tradição linguística apesar de tudo. Que fale numa língua só sua, com regras morfológicas e sintácticas totalmente novas. Que a função da palavra na frase não seja dada nem pela declinação nem pela preposição, ou pela posição, por exemplo. Os que dizem que não seguem tradições, que não falem nenhum das línguas existentes, pois. Que se calem nessas e falem só em línguas que mais ninguém conhece. Ao menos um efeito obteríamos: o nosso descanso.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
O regresso de Hipácia II
Teologia e ciência não se separam para um cientista da época e nada prova que Hipácia fosse excepção. Mais um exemplo de modernidade?
Muita da ciência da época foi destruída pelos cristãos e perdemos séculos de desenvolvimento graças a essa destruição. Hipácia é mais um exemplo disto. Tirada algo temerária, temo bem. Em primeiro lugar, porque faz actuar o célebre “se” histórico. E nesse aspecto os historiadores foram os primeiros cientistas a ter consciência (embora não os primeiros a formalizar a teoria) dos sistemas complexos. Não se pode afirmar nunca com certeza sobre o “se” variante.
Mas podemos pensar alguma coisa sobre isso. Quando vemos o que fez evoluir a ciência europeia a partir sobretudo dos finais da Idade Média e na Idade Moderna, vemos que é impulsionada por três factores que o pensamento antigo nunca foi capaz de integrar. O movimento rectilíneo como natural, a dignidade da matéria como objecto de pensamento científico e a valorização positiva do infinito. Esses três elementos essenciais para ciência moderna são conquistas do cristianismo. Lembro mais uma vez a tese do “falsus circulus" de Santo Agostinho” e a dignidade da matéria no cristianismo (Cristo tinha um corpo, e o corpo glorifica-se) e sem infinito não existe análise nem teoria dos conjuntos. Se a ciência antiga se pudesse desenvolver independentemente do cristianismo teria de ir buscar ao cristianismo e integrar no seu centro estas suas premissas vitais. Ou seja, tinha de se tornar cristã de alma, mesmo que não de fé.
Uma grande cientista. Sem dúvida. A melhor matemática da época parece. O problema é o ponto de comparação. A época não se comparava a Eudoxo, Euclides ou Arquimedes. Em parte nenhuma do mundo nessa época surgiram matemáticos realmente originais e criativos. Talvez eu seja o melhor matemático do meu prédio, quem sabe? Mas suspeito que a minha glória por essa via é diminuta. Grande erudita em matemática? Tudo indica que sim. Grande criadora? Tudo vai no sentido oposto.
E finalmente a cereja no bolo, o que se torna mais erótico para a propaganda moderna: vítima do cristianismo. A tese é velha, Gibbon já a tinha aventado.
Mais uma vez no entanto, raciocínio apressado. As versões são algo diversas, mas é preciso colocar a coisa no seu contexto.
Em primeiro lugar, o Egipto era famoso na Antiguidade pelo seu fanatismo. Juvenal na Sátira XV, se bem me lembro, relata o facto. Juvenal aliás mereceria melhor estudo pela nossa época porque melhor relata os sentimentos da classe média actual que os doutoramentos em sociologia. Essa maravilhosa sociedade pagã, que supostamente vive de tolerância, tem afinal fenómenos seculares de fanatismo, em que os adeptos de deuses diferentes se matam entre si por considerarem o deus do vizinho falso. Não foi o cristianismo a inventar o fanatismo humano. O episódio do assassínio de Hipácia passa-se em terra especialista no fanatismo. O cristianismo nada trouxe de novo na matéria.
Em segundo lugar, tudo indica que o seu homicídio ocorreu no contexto de oposições entre os judeus e os cristãos. Uma História que se encontra por contar, porque não bem pensante, é a dos ódios e perseguições dos judeus em relação aos cristãos em expansão, de que há sinais sobretudo entre os séculos II a IV d. C. Os cristãos não eram ainda suficientemente poderosos para impedir a perseguição, mas já o eram para ser temidos e sentidos como concorrência. Muitos judeus na época não teriam ficado agradados por o cristianismo crescer exactamente por ter abdicado do vínculo étnico. Não queriam eliminar a causa, mas detestavam os efeitos.
Seja como for, tudo indica que o ódio original não seria contra o paganismo, mas contra os judeus. Entenda-se; não estou a fazer juízos morais ou a querer justificar seja o que for. Apenas mostro que a História tem bem mais complexidade do que parece.
A ironia da História é que o paganismo tardio hoje em dia quase não tem detractores. É simples: são ignorados. Quando ressurgem há sempre uma recuperação abusiva dos Juliano o Apóstata e das Hipácia, e há-de chegar o dia dos Símaco e Libânio. Não faz mal. Quem os conhece realmente admira-os na sua devida medida e por isso não os usa.
E o vitorioso cristianismo, por outro lado, esse sim é atacado mais uma vez por todos os lados. Por pessoas que o ignoram profundamente, mas ainda ninguém os informou do facto. Julgam que o cristianismo é uma religião do povo, dos desprovidos intelectuais, e por isso julgam que lhes está acessível. Esquecem-se por isso que, quando o fazem, não demonstram que conhecem o cristianismo, mas que só por serem desprovidos o podem criticar.
Não vi o filme e quero ir ver. Não sei se será bom ou não. Mas parece-me bom ao menos tentar vê-lo. Vi no entanto o que sobre ele se disse, e os livros e comentários que se fazem sobre Hipácia, e aconselho vivamente a deixá-los no esquecimento na sua maioria. Hipácia seria a primeira a achá-los indigentes.
Alexandre Brandão da Veiga
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
O regresso de Hipácia I

Eis que surge um filme sobre Hipácia. Finalmente. Não o vi e pretendo vê-lo. Por isso não vou comentar o filme, mas o que se diz a volta dele. Aparecem livros sobre a personagem em Inglaterra. Tanto melhor. É significativo que uma antiga deputada uns meses antes tenha dito que se tinha posto a estudar Hipácia. A mesma que diz que o mundo são partículas, o que é sempre bom saber, porque deve julgar que as ditas são uma espécie de berlindes em ponto pequeno.
Cada um ache o que pode e sabe, mas o que assusta neste renascimento da figura da Hipácia para o público não é tanto o renascimento, que em si é saudável, mas a forma distorcida com que é vista. Quando uma figura reaparece, se for sinal de alargamento de conhecimento, tanto melhor. Se é apenas de propaganda que se trata já a coisa é repugnante. A época contemporânea não fez nascer a ciência (já vinha de antes), fez surgir a propaganda parasitária da ciência. Algo bem diverso.
Como é usada Hipácia para propaganda? Tem vários ingredientes que a tornam apetecível: é uma mulher, intelectual e foi morta por cristãos. Permite assim a unificação de uma propaganda em que se mostra de uma só assentada como o cristianismo oprimiu as mulheres e a cultura. Vários picantes num só.
O problema destas conclusões é que resultam de uma absoluta incultura e de quem é incapaz de perceber a complexidade e por isso lhe tem ódio.
Entendamo-nos. Poucas pessoas podem invocar a sua admiração em relação ao paganismo tardio como eu. O paganismo tardio é essencial para explicar a sociedade que se construiu depois, de matriz cristã, mas igualmente profundamente influenciada pelo paganismo na forma em que este se encontrava. Exactamente: a forma tardia. O cristianismo não surgiu no tempo de Homero, e nem sequer de Péricles. É por isso francamente menos frutuoso fazer a sua comparação com estas fases do paganismo, que com o estado em que o cristianismo o encontrou.
Quando nasce o cristianismo, a religião oficial do Estado romano era uma, mas as elites estavam imbuídas de estoicismo e a população de mitos orientais, egípcios, restos da religião popular romana em evolução. Cibele, Mitra (embora menos do que pensaria Renan, como Turcan demonstrou), Serápis inundam Roma. As inscrições mostram-nos, as obras dão disso testemunho. A partir do século III os múltiplos neoplatonismos e neopitagorismos ressurgem em força e misturam-se com o ambiente anterior, prevalecendo sobre o estoicismo.
É um pequeno excurso, mas mostra que não é por confronto a Sófocles vivo ou Platão que se integram os cristãos. É por via de um Homero cada vez mais alegorizado, de um Platão cada vez mais divinizado que os cristãos se integram no mundo dito antigo.
O paganismo tardio está repleto de personagens de uma imensa dignidade. Porfírio, juntamente com Nietzsche, foi o mais profundo crítico do cristianismo, e não por acaso grande admirador de Jesus. São sempre os mais perigosos, para o bem e para o mal, os que admiram quem contestam. Não há memória que Cipião tenha dito que Aníbal era medíocre.
Proclo e Jâmblico, mas também Libânio, ou num registo diverso, Símaco, são personagens comoventes, tanto pelas suas convicções, como pelas suas limitações. Amavam um mundo que sabiam estar a morrer e de que não perceberam ter afinal nessa fase uma possibilidade de renascimento.
Hipácia faz parte dessa galeria de figuras dignas (menos aflitas que Celso, por exemplo), que mostraram a grandeza, não do paganismo clássico, mas do paganismo tardio. É por si mesma uma figura fascinante, pelo que tem de grande mas afinal de típico da época.
Como me interessa trazer para a nossa época a personagem, mais que a analisar, vejamos como a propaganda que a usa se quadra muito mal na personagem. Mulher, cientista e vítima de cristãos.
Mulher, sem dúvida. Mas quem a quiser ver como paradigma da mulher moderna (seja lá o que esse lugar comum queira dizer) é capaz de ter algumas surpresas. A castidade e a virgindade foram valores de que não abdicou. Não imagino os ditos modernos de profissão a poderem exaltar por isso. Não era casta por uma suposta ideologia judaico-cristã (termo tonto de o há), mas por força precisamente do paganismo que professava.
Perante um homem que a assediava (parece que era muito bela) entrega-lhe o equivalente ao seu penso higiénico e diz-lhe: é com isto que pretendes fazer amor? Ao que, como é evidente, e em boa moral pagã, o jovem se arrepende e decide ser casto com ela. Mais um exemplo que a modernidade pretende seguir?
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Citação e referência

Nada tenho contra citações e referências. São uma boa ajuda para escorar o percurso intelectual e sobretudo marca de honestidade intelectual. Se a ideia não é nossa, é bom que se indique tem a teve.
Nem sequer me oponho a que na conversa corrente surja a referência erudita, ou sequer a citação. Basta que seja sinal de intimidade e tenha pertinência para estarem legitimadas uma e outra.
Está dito o essencial; não me oponho por princípio a tais práticas. Cada uma tem a sua razão de ser, o seu local próprio e a sua pertinência.
Podemos entrar assim na sua dimensão pantanosa, no seu lado obscuro.
Cita-se um texto, refere-se um autor ou uma obra. Existem diferenças importantes entre um e outro facto.
Quem cita tem boa memória. Integrou em si um pensamento, uma observação, um modo de ver o mundo. Ou ao menos sabe onde procurá-lo. Não é mau em si mesmo. Quem refere apenas menciona. O conteúdo não o ocupa forçosamente, avança com um sinal, uma bandeira, alerta, demarca. Nada mau em si mesmo da mesma forma.
Coisa diversa é o citador impenitente, o referenciador obsessivo, sobretudo sem pertinência. Geralmente esconde vários vícios.
O primeiro, o da parasitagem. Quer dar-se por via de outros um prestígio que pelas suas ideias não obtém.
O segundo, o da fraqueza de espírito. Como não tem forma pessoal de preencher o espaço, enche-nos de referências e citações. Aflito por estar presente invade-nos o espaço com restos de ideias alheias, de glórias de outrem.
É evidente que existe uma tipologia ainda vivaz de espécimes desta natureza.
O mais conhecido, que ainda permanece, é o citador e referenciador solene. Coloca a gravata sempre que diz a palavra “Platão”, precisa da maiúscula gráfica para esconder a minúscula intelectual. O “Ser” tem sempre maiúscula, não se vá pensar ser ele mais reduzido. O citador solene pode ter o mérito da memória, e quando o tem é realmente mérito. Mas não lhe serve para nada na vida. Rapidamente se percebe que tende a ser inútil e enfadante.
O segundo é igualmente clássico. O citador lúdico, que tende à paródia por vezes. Para ele, citar é uma forma de festa, referir, uma brincadeira. Pode suscitar a boa disposição, mas é na melhor das hipóteses uma boa sobremesa que se saboreia e se esquece. Na pior, apenas inconveniente.
Mas o terceiro tipo é o mais usual na nossa época e o mesmo conhecido: o citador angustiado. Oscila entre a solenidade e o jogralesco. Na forma pretende-se descontraído, mas no fundo quer ser levado a sério. Jogral na ideologia aliás mais que na aparência, vive na aflição de nada ter para dizer e nem sequer ter graça.
As suas técnicas são conhecidas. Para dar o ar jogralesco mistura Bach com uma cantadeira menor, Homero é citado ao lado de Hemingway se for o caso, ou então, se quiser forçar ainda mais a nota, cita a literatura light. Se usa a palavra “metafísica” exorciza-se falando de imediato em futebol.
Quer-se intelectual, mas conhecedor da vida. Como não reconhece a elevação (ela denunciá-lo-ia) baixa Aristóteles ao nível do tenista do dia. O seu registo poderia parecer o do mediano, mas em bom rigor é apenas o do difuso. Tudo do que se fala participa da mesma nuvem indefinida em que umas coisas sobem, outras descem, em que tudo se agita, mas nada tem o seu lugar. É um agitador de poeira.
Em si a idolatria do vital, da pujança física, da beleza visível fica-se pela palavra, porque geralmente não é bom exemplo de nenhuma dessas coisas. Esconde-se por isso. Passa a vida escondido como os pequenos mamíferos que ainda assistiram à vida dos dinossauros. E é apenas mais uma marca da imensa tristeza que o mundo pode conter.
Alexandre Brandão da Veiga
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
À volta de Herman Van Rompuy
Os comentadores passam o tempo a criticar a política espectáculo, a ausência de substância dos políticos, o excesso de marketing na política. Eis que lhes é dado de bandeja o oposto. E eis que se queixam da ausência das mesmas características.
Afinal vem ao de cima o que o comentador político e os meios de comunicação social precisam: de espectáculo. Apenas sabem apreciar a cena teatral, queixam-se da falta de texto, mas quando ele aparece afirmam que é maçudo, pouco atraente, cinzento. Especialistas de pirotecnia sem foguetes, não sabem apreciar política.
No que me respeita apenas me posso lembrar que Jean Monnet só foi conhecido a partir dos anos 80, quando foi cerca de 30 anos antes que fez o que de mais relevante tinha a fazer. Churchill era considerado um doido antes de ser primeiro-ministro. De Gaulle um arrogante. Joåo XIII um papa de transição, João Paulo II um exótico. Augusto um fedelho irrelevante.
Não, a imprensa queria uma estrela já conhecida, com currículo no estrelato. Mais uma sua característica sua que vem ao de cima: a imprensa é conservadora, prefere apostar em valores seguros, em bilheteira garantida. O senhor ainda não fez nada e já se lamenta ter o dever de ser um fracasso. O político tem de ser sexy. A cada um o seu gosto. A sensualidade é mais gozosa procurada alhures, parece-me.
As alternativas são mais apelativas, mas algo discutíveis. Mais visíveis e em grande medida apenas por serem menos substantivas. Blair o campeão do marketing, que descobriu que era possível conciliar economia de mercado com o socialismo, segundo dizem. Pena que tenha feito essa descoberta quase duzentos anos depois dos saint-simonistas, e mais de cem anos depois das sociais-democracias do Norte da Europa. Ideias velhas em roupagem sempre nova, a imprensa gosta disso.
E no entanto, quando começa um novo órgão, um novo posto, a tarefa de consolidação é a mais importante. E essa é feita discretamente. César foi imenso mas seria mais um episódio juntamente com Pompeu, Cipião ou Sylla. Foi preciso o trabalho (inicialmente) discreto de Augusto para que a ditadura se tornasse império. A ditadura são pessoas, o império uma instituição.
Ignoro o que sejam os resultados de Herman Van Rompuy. O futuro o dirá. Sei que o facto de ser um intelectual incomoda os senhores comentadores porque frequentemente não gostam de quem tem mais cultura que eles. Mas tenho mais confiança num discreto organizador e consolidador cujos resultados se verão em anos que em espectáculo de pirotecnia que deslumbra o transeunte e deixa no seu rasto apenas custos, um olhar cansado e um cheiro de pólvora queimada.
http://www.reuters.com/article/idUSLI45257420091119
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
II. Ignomínia no Séc. XX
O rescaldo da aventura colonial europeia, em que uns participaram mais que outros. Há sempre invejas. Os que ficaram para trás também queriam participar no jogo. Uma ideologia rica em antepassados em todos os casos. Não se diga que a aventura japonesa mergulha os seus fundamentos no xintoísmo, nas profundidades da cultura japonesa, e ficaria assim dourada. Os brasões do nazismo e do comunismo são muito semelhantes e muito superiores em vários aspectos. Platão, Nietzsche, Maquiavel, Thomas Morus, e tantos outros podem ser invocados com tanta ou tão pouca legitimidade para dar uma justificação ideológica a ambos. O que diferencia o comunismo e o nazismo vistos de perto é abissal, mas visto de uma terceira cultura, que neste aspecto terá mais razão se for minimamente lúcida, é muito pouco. Ambos participam de uma dimensão da civilização europeia que existe, é activa, intensa. Não é por acaso que o humanismo, nas suas múltiplas formas, atravessa a cultura europeia. O homem europeu não é mais cruel que outros. Mas preocupa-se mais com a sua crueldade e sabe que restringindo a sua energia cinética lhe aumenta a energia potencial. A Europa é perigosa, em suma. Exactamente porque manifesta de modo menos intenso a sua crueldade, se a compararmos com outras culturas com a mesma diferença de potencial interna. Mas não podemos esquecer outro elemento de ponderação, para além dos aspectos económicos e sociais que são sobejamente estudados. O espírito do tempo. Sem mais. Porquê numa mesma época um conjunto significativo de povos dão soluções semelhantes para os mesmos tipos de problemas? Porquê outras épocas houve de grande crise económica e política, com grande crueldade sem dúvida, mas sem este sistemático desprezo acrescido pela dignidade humana? Há tempestades que atravessam a História, quer se goste quer não. Não cabe aos historiadores dissecá-las até à exaustão, por que ultrapassariam assim os seus limites epistemológicos, o que só abona a favor da sua probidade. Sem dúvida. Mas o facto de não ser lícito a um historiador fazê-lo, por limitações de método, não impede dever ser o facto reconhecido, mesmo sem provas científicas, mesmo sem apoio epistemólgico consensual, por quem quiser manter a lucidez. As pessoas não têm de ser científicas. Sobretudo não têm de ser sempre científicas.
E a cegueira? Como explicar a cegueira? São exactamente os que defendem a igualdade das culturas, em nome de um princípio tão político e tão pouco científico como quem defende a sua desigualdade, os que recusam tudo o que ultrapasse a materialidade, certa racionalidade pré-formatada, misturando de forma arbitrária razão, matéria (e que matéria?, e que concepção de matéria?) e defesa de ideologias, que recusam ou recusaram ver o óbvio. Os que recusaram a religião insistentemente, veementemente, de modo suspeitamente repetido (e por vezes perdendo a razão que tinham ao fazê-lo desta forma) são os mesmos que caíram na mais fanática forma da religião, a da cegueira. Recusar, querer colocar no inferno de forma irrevogável, definitiva, eterna, certos sentimentos, certos impulsos, seja quais eles forem, leva a natureza, destino, ou o que o que quiser, a vingar-se. Cometeram os erros dos que criticaram, e de forma mais brutal, mais arbitrária, mais desesperada. Não houve Inquisição ou Calvino que chegasse aos calcanhares dos exércitos, forças especiais, ou polícias secretas (tão notórias) dos estados totalitários. A igreja católica teve ao menos a sensatez de manter o Index como uma figura aberta, expandindo-se, mas apesar de tudo com oscilações. Manteve sempre a pluralidade, por via das ordens religiosas, das diferenciações sociais, geográficas, sociais, da distinção entre clero regular e secular. O que a História do século XX demonstra é que não há vida religiosa mais mal vivida que a que recusa a religiosidade, que a odeia, que a pretende revogar definitivamente. A cegueira é cegueira perante o invisível. Em uma análise, trata-se de um caso de iconolatria. Pense-se no que se passa com a física, já nem falo da do século XX, mas ainda do século XIX. A teoria de Maxwell, o conceito de campo, pressupõe que a matéria é um conjunto de berlindes como a física popular dos países totalitários pretende defender? Não é o invisível, mesmo o imaterial, o relacional, constitutivo do universo, mesmo para quem recuse segundas instâncias de realidade, sejam abstractas, sejam incarnadas? Que diferença sente a vítima de um idólatra de uma pessoa viva por mais imperial que esta seja em relação a uma vítima de idólatras de pensadores mortos ou de teorias pretensamente vitalistas? Os contornos são diferentes, mas a abjecção moral é a mesma. Não se trata de condenar qualquer cultura. Trata-se de reconhecer que fazer recuar como justificação ao mais profundo de uma cultura (como se fez com o Japão) actos bárbaros é afirmar que a cultura é bárbara. Fazer justificar a crueldade com uma teoria humanista é condenar a teoria, ou a possibilidade de qualquer teoria dominar sem mostrar o seu lado negro, mas em todo o caso é sempre condenar a abjecção de quem o fez. E da sociedade que o permitiu. Talvez mesmo da cultura ou da teoria que o sustentou, ou pelo menos de aspectos da mesma.
Considerou-se como sinal de refinamento intelectual distinguir a beleza do soldado japonês que mata depois de recitar a sua poesiazinha. Mesmo alguém de bom senso e superior estilo como Yourcenar caiu nesse erro. Confundimos a perspectiva. Sob o ponto de vista científico, tenho todo o prazer em compreender a multiplicidade da alma humana, tal como se manifesta em cada cultura. Ajuda a compreender. Não é pecado querer compreender. Mas não considero que haja contradição em querer compreender os fungos e ter nojo do seu cheiro e repulsa pelas suas acções. Um médico analista não tem obrigatoriamente de amar as fezes ou sentir identificação com as mesmas ao ponto de as admirar. O exemplo não é gratuito. Os que à força de chamar a atenção para a necessidade de compreender outras culturas ou certos movimentos se esquecem de revelar a sua natureza repugnante fazem lembrar os médicos do século XVII que se especializavam em cheirar e mesmo a provar as fezes. Compreenderiam por isso alguma coisa da sua constituição? Não me parece. E, pior ainda: não lhes gabo o gosto.
Alexandre Brandão da Veiga
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
I. Ignomínia no Séc. XX
Mas o século XX sofreu de doenças bem graves, duas das quais a cegueira voluntária e a brutalidade justificada teoricamente. Os intelectuais, e não os piores de entre eles, justificaram uma ou outra ou ambas das formas mais cruéis, mais indiferentes ao ser humano, ao auto-respeito mesmo, que alguma vez se viram na História. Hitler é um monstro sem paralelo, dizem. Mas o suave japonês que faz as suas poesias enquanto tortura um soldado inglês, ou que atira uma bomba ao enfermeiro australiano que o tenta socorrer, mais não é que a manifestação de uma cultura requintada, apenas com valores diferentes dos nossos. Como o marxismo é uma forma de humanismo, os crimes que o comunismo cometeu são apenas erros e não podem ser cotejados com os dos nazis.
Vejamos.
O soldado que está ser torturado, o pára-quedista inglês que de acordo com as leis internacionais deveria ser considerado prisioneiro de guerra e é qualificado pelo senhor imperador do Japão como criminoso de guerra. Daí que lhe arranquem os olhos, o torturem e acabem com a vida dele para terminar o prato com uma decapitação. Que diria o soldado inglês? Qualquer coisa como: “É sempre bom saber que não é um bárbaro qualquer que me está a fazer isto, mas uma cultura requintada”. Suponho que os seus sofrimentos deveriam ser reduzidos a muito pouca coisa por saber que participava de uma experiência cultural, que simultaneamente lhe alargava os horizontes e lhe diminuía a visão. Consolador. O soldado inglês perceberia finalmente que pertencia a uma cultura bárbara porque não conhecia o refinamento de tais receitas que, como é bem sabido, requerem uma imaginação imensa. Carece-se de uma boa dose de imaginação para saber como fazer sofrer um ser humano, de uma determinada dose de bagagem cultural, parece. Como se os olhos, as unhas, e outras partes do corpo humano não estivessem à vista de qualquer oligofrénico, e acções como pressionar, retirar, cortar, esmagar fossem o resultado de uma elaboração teórica superior.
O camponês ucraniano que morre à fome por força das frustrações de um poeta falhado chamado Estaline, rodeado de acólitos não menos medíocres, também se deveria sentir consolado por estar a participar de uma dieta que tem um fundamento teórico humanista. Ingrato seria se não percebesse a natureza metafísica e abissalmente diferente da sua fome em relação à dos campos de concentração nazis. Reconheçamos que o seu estômago não veria diferença nenhuma, mas todos nós sabemos como o estômago dos europeus é particularmente bárbaro e pouco disposto a reconhecer a grandeza das verdades escatológicas.
Que crime, que cegueira foi esta? Que cegueira é esta que se continua perpetuando assim de forma criminosa? Como podem as pessoas diferenciar o sofrimento de uns ou de outros? A resposta parece-me dever-se encontrar em vários factores. Por um lado, um pensamento profunda e insidiosamente racista que invadiu o Ocidente no século XX. Os crimes nazis são particularmente hediondos porque ocorrem na Europa. Se ocorressem fora desse continente já seriam tidos como naturais, como mera expressão de culturas diferentes (África) ou mesmo como sinal de requinte civilizacional (Ásia). Auto-flagelação. Mas também porque em última análise se consideram mais válidas as vidas de europeus que as dos outros povos. Que estranha mistura de auto-flagelação e de auto-exaltação. Por outro lado, há evidentemente poderes económicos interessados na feitura de filmes, livros, programas televisivos sobre uma matérias e menos sobre outras. Não se trata de uma teoria da conspiração, trata-se de uma defesa mais ou menos organizada de interesses próprios. Basta ver as poucas coisas que se fizeram sobre os ciganos, aristocratas, homossexuais e comunistas mortos pelo mesmo sistema. Em terceiro lugar, esquecemo-nos muitas vezes que há uma real comunhão de natureza (não de identidade sempre, mas sempre de comunhão) entre os fenómenos do nazismo, do comunismo e da expansão imperial japonesa.


