O grau zero - III
Não comento sequer. Julgo que não será preciso.

Já vos falei aqui das vantagens terapêuticas do weirdnews. Junto-vos (copiando indecentemente a ideia do magnífico Guia Terapêutico de Cinema do «nosso» Pedro Marta Santos) mais um compósito com resultados garantidos. Voltei a tomá-lo ontem à noite, chama-se Korkalen (no original de 1921), pode comprar-se aqui, e a patente está registada em nome de um tal Sjöström (autor maior da farmacologia sueca muda) que adaptou um principio activo de Selma Lagerlöf . Garanto-vos que nunca mais deixarão de acreditar na capacidade de redenção dos hominídeos.
Eu deixei-me embalar de tal forma pelos efeitos do fármaco que acordei cheio de esperança no Dr. Menezes e no Sr. Ribau.
Edificante a cena em que Cavaco Silva na Ilha de Moçambique recebe como presente um cofió e pergunta com a sua simplicidade: para que serve? É um chapéu?
E a sua Maria responde com ternura:é para pôr na cabeça.
Com um Presidente tão descontraído não temos que nos preocupar. Estamos bem entregues concerteza.
Ontem Jean-Claude Trichet, presidente do BCE, fez um discurso optimista sobre o estado da economia europeia. Deve ser verdade, vinda essa interpretação como vem de um homem pouco dado a optimismos, até por dever do cargo que ocupa. Há problemas, claro, decorrentes sobretudo da valorização do Euro e dos riscos de inflação, mas parece que as coisas não estão muito mal. Nada do que se passa garantidamente com a economia norte-americana. Nesta senda, as noticias sobre a economia portuguesa também não são das piores, embora aqui os optimismos tenham de ser mais comedidos.
Ora isto leva a uma pergunta e a um comentário:
1) Afinal, onde está a esclerose da Europa e a absoluta necessidade que esta tinha de mudar para o “modelo” (as aspas é porque modelos destes não existem) americano? Quem sempre fala disso está com a viola um pouco no saco – mas terá seguramente no futuro outras oportunidade de a tocar porque a verdade é que estes campeonatos são de altos e baixos, ao longo dos anos.
2) Se Portugal vier a confirmar que consegue crescer nos próximos anos, será a primeira vez, desde os gloriosos anos 1960, que o fará com uma moeda forte e com algum equilíbrio nas contas públicas.
Venho ainda falar do triste episódio que, há poucos dias, numa escola secundária do Porto, aparentemente opôs uma professora e uma aluna na disputa de um telemóvel. Digo aparentemente, porque a realidade pode bem ser outra. Na verdade, talvez não fosse mau olharmos para tudo aquilo como a disputa de uma professora e de um telemóvel pela atenção de uma aluna.
À primeira vista, de facto, as imagens divulgadas no YouTube mostram a professora e a aluna agarradas a um telemóvel, que cada uma parece desesperadamente querer só para si. O filme, porém, não conta a história toda. Porque a história começa, como todos os dias em todas as escolas acontece, com uma professora que, ensinando uma qualquer disciplina numa qualquer sala de aula, constata que uma aluna não a ouve, absorta que está no mundo do seu telemóvel. Ora, é para reganhar a atenção desta aluna que a professora lhe tira o telemóvel, dando origem ao conflito de que as imagens depois dão conta.
Isto é importante, porque assim posta a questão, não pode já tratar-se como se fosse um excesso inusitado de uma adolescente problemática. Ao contrário – e por mais que dizê-lo seja politicamente incorrecto – é bom reconhecer que a aluna também tem razão (sublinho: também). A verdade é que a questão que se põem diariamente os nossos alunos é esta: A quem ouvir? A quem prestar atenção? E o facto do telemóvel ser, por um lado, omnipresente, e, por outro, instintivamente mais atractivo do que a professora, revela bem o imenso investimento que nele todos despositamos e ao qual os alunos, obviamente, não ficam alheios.
Para além do divertimento intrínseco do telemóvel – a que a maioria dos adultos parece também não resistir e com o qual a professora não pode, de facto, competir –, é bom reparar como os meios de comunicação insistentemente impõem o seu uso: «Fale! Fale a 10 cêntimos por minuto! Fale a 5 cêntimos por minuto! Fale a 3 cêntimos por minuto! Fale de graça! Mas fale! Fale sempre! Fale agora! E envie mensagens todo o dia! Envie mensagens toda a noite! Esteja ligado a todo o mundo. Exista!»
Ao limite a mensagem é esta: Existimos através do telemóvel e sem ele, ao contrário, não existimos. Trata-se, além disso, de uma existência não só divertida, mas excitada e sempre nova. Ali controlamos (esta é uma outra ilusão, a do “contacto” com o mundo e do subsequente “controle” sobre o mundo) toda a informação. Tudo por ali passa. Tudo ali se passa: A vida privada (nossa e dos outros), a vida pública, a literatura e o desporto. Ali temos música; muita música; toda a música. Ali temos filmes, cinema, televisão. Ali falamos, discutimos e amamos. Ali vivemos e morremos. Todos os dias, 24 horas por dia.
Esta mensagem – a que os adultos não são de todo imunes, mas que às crianças, obviamente, mais afecta – é claramente reforçada pela maioria dos pais, que cada vez mais precocemente dão aos seus filhos telemóveis, nos quais creem encontrar uma ajuda para a sua tarefa de ser pais. Quem não ouviu já, ao vivo ou por interposta pessoa, a história de um pai, ou de uma mãe, dizendo ao professor do seu filho, ou filha, que durante a aula quer que este tenha o telefone ligado para assim poder saber sempre onde ele está? E quantos pais não se entregam a uma estranha sensação de segurança por saberem que os seus filhos têm um telemóvel quando, à noite, vão para sabe-se lá?
Ora, contrariamente ao que às vezes se diz, as crianças, de facto, aprendem. Por isso é que, desde sempre, vão à “escola”. O que não se pode é pretender que esta ensine com palavras o contrário do que com actos se faz cá fora. Na verdade, quantos pais não atendem os telemóveis interrompendo uma conversa com os seus filhos? Quantos adultos não calam os seus amigos para atenderem uma chamada? Quantos de nós não falamos com alguém enquanto mandamos a outrém uma mensagem? E quantos professores não atenderam já telemóveis nas aulas, perante a plateia atenta dos seus alunos? E quantos políticos não atendem os telemóveis durante os legítimos discursos dos seus pares?
É por isto que vos digo que a aluna também tem razão. A professora? Obviamente, tem toda. Mas a aluna também tem razão. Ela fez o que viu fazer. Fez aquilo que aprendeu. E quem ensinou fomos nós. Somos nós, portanto, que estamos em causa, no tribunal para onde vai esta criança (não deveria, aliás, ser sempre assim?): Quem queremos ser e que mundo queremos construir? Como vamos distinguir nas coisas diferentes graus de importância? Como vamos estabelecer relações sociais de confiança e de respeito? São estas as questões que suportam esta disputa de uma professora e de um telemóvel pela atenção da sua aluna.
Convenhamos, no entanto, que é uma luta desigual. Basta para isso lembrar que se todos falamos disto é porque o acontecimento foi filmado por um telemóvel. E se toda a sociedade está de acordo, ao que parece, quanto aos indispensáveis benefícios do uso permanente dos telemóveis, é a escola que, mais tarde ou mais cedo, vai ter que mudar, talvez no sentido da famosa máquina de ensinar, proposta, já a meio do século XX, pelo psicólogo norte-americano Burrhus Frederic Skinner. Os filhos dos nossos filhos, quem sabe, talvez já venham a aprender por mensagens de sms.
No site da internet do Correio da Manhã de hoje, dia 26 de Março, mesmo no fundo da página principal, em cima do anúncio “mulheres procuram homens”, aparece uma caixa com o título “você decide”, hoje dedicada ao tema “será que o divórcio de Menezes vai mesmo avançar?”, onde nos pedem para “votar” num dos dois pequenos círculos que aí vemos com a inscrição “sim” e “não” (ver aqui).
Pela confusão que um órgão de comunicação social assim estabelece em torno do que verdadeiramente possa ser a participação democrática, aliada à intromissão grosseira e despropositada que o mesmo faz naquilo que é obviamente da esfera da vida privada, quero aqui claramente classificar este acto como imoral.
Dias depois da divulgação da notícia de que o fisco considerava a celebração festiva de um casamento uma "oportunidade tributária", estou mais e mais preocupado.
Não apenas pela prática instaurada, que abaixo qualificarei, mas pela indiferemça que ela suscita.
A perseguição sistemática dos registos de casamento e a organização de um questionário sobre os festejos de casamento para efeitos de controlo fiscal não é apenas ridícula, é intolerável. Uma festa de casamento, qualquer que seja o número de convidados ou a indumentária, não consubstancia um facto tributário. Uma coisa é controlar, aleatoriamente ou por sector, as empresas de "catering", os profissionais de fotografia, as casas de moda, as "gift shops", as garrafeiras e adegas. Uma coisa é, na multitude dos contribuintes possíveis, fiscalizar, por rotina ou por suspeita, as contas de um ou vários "casais por acaso recém-casados". Outra, totalmente diferente, é eleger o casamento - a dimensão festiva, eminentemente pessoal - numa "espécie" de facto tributário autónomo e próprio, aglutinador de uma série de "operações económicas" (para usar a expressão cúmplice de Francisco Louçã). Trata-se de uma inadmissível intromissão na mais privada esfera privada. Cada um casa se quiser, quando quiser e como quiser. Com festa ou sem festa, vestido ou despido, com água, vinho ou refresco. E o Estado, que nada tem a ver com as uniões de facto, com os nascimentos, baptizados ou novas formas de família, nem com os seus festejos - por maiores ou glamorosos que sejam -, também não há-de ter nada que ver com os matrimónios (clássicos ou vanguardistas).
O que tudo isto revela - e, por isso, se mostra incomensuravelmente grave - é uma enorme apetência pelo controlo social, pelos mecanismos de controlo social. O Governo - este governo em particular - replica e multiplica os exemplos de vontade de controlo da vida cidadã.
A rolo compressor fiscal continua em marcha. Mais preocupado com os detalhes da vida quotidiana do que com a larga face oculta da fuga. Os detalhes da vida quotidiana não dão apenas dinheiro, dão informação. Rumo à "fichagem".
Mulher da tribo Mursi, Etiópia, 2000, Peter Grasser
O Meu Corpo Reclama-te
A professora Eugénia, que se vestia sempre de Castanho, tinha um ritual diário que nos fazia tremer. Todos os dias de manhã a pergunta fatídica: “quem não fez os trabalhos para casa?”, era recebida com um misto de ansiedade, medo e brio. Do lado direito da sua secretária uma tímida fila começava a formar-se. Nem sempre eram os mesmos, mas todos acabavam por a integrar. E os olhos já semicerrados de lágrimas viam a gaveta mesmo por cima do seu colo abrir de onde era retirado o pedaço de madeira que iria cruzar-se com a palma da mão num estridente. TRÁS!
Não sou apologista do uso da força ou da violência na educação. Existem inúmeras maneiras de conseguir ter mão de ferro com mão de veludo. Mas também existem limites. E todos os que são pais, se nunca o fizeram, já muitas vezes pensaram num açoite para resolver muitos problemas (não faço parte daquela nova maioria que se revê nos modernos livros de educação infantil).
Mas porque é que existe indisciplina nas escolas?
1- A maior parte dos problemas de indisciplina não tem origem na escola mas na família. O respeito pelos professores, ou melhor, a falta de respeito, começa em casa. Perante a incapacidade dos seus filhos, os pais atiram a culpa sobre os professores, o ensino, e claro o Estado. A culpa nunca é das crianças e muito menos deles. Basta ouvir as declarações de Albino Almeida (dirigi a CONFAP – Confederação Nacional das Associações de Pais), ao afirmar que o caso mediático da jovem da escola do Porto é um caso isolado para perceber que este senhor vive num outro mundo que não o nosso. Um problema claro de falta de autoridade do Estado.
2- Os professores hoje não têm qualquer mecanismo para conseguir punir os alunos. Não há faltas a vermelho, não há alunos expulsos, não se chumba, não há processos disciplinares. É possível assim conseguir autoridade? Claro que é, mas só para alguns muito poucos. E esses, os melhores, estão em escolas privadas, onde não é por acaso que existem tão poucos problemas de disciplina?
3- Porque muitos dos professores não se importam. Aquela professora do Porto interrompeu a aluna e tomou uma atitude. Mas quantos olham para o lado e nada fazem? Muitos, muitos mesmos. E muitos, quase 100 mil dizem, vieram até Lisboa protestar contra as avaliações, mas sobre a indisciplina na escola nada fazem.
Por falar em avaliações, repararam que se deixou de falar da ministra da Educação? Pelo menos alguém suspirou de alívio nesta confusão toda.

Não posso evidentemente deixar de ficar satisfeita por em tão curto espaço de tempo verificar que umas escassas considerações, sem qualquer pretensão filosófica (não fique o Gonçalo Moita preocupado), tenham gerado tamanha violência. Num espaço aonde em meu entender seria saudável e mesmo essencial posições e convicções intelectuais “claramente distantes”, acaba de se gerar uma onda de indignação porque existe alguém que entende que o princípio da liberdade é a fé e não a crença.
Lamento contrariar o vosso entendimento mas ao contrário do que expressa o João Luis Ferreira é exactamente a capacidade de termos fé em algo que não se concretiza em histórias de um “Jesus Cristo” que consubstancia a liberdade, a diversidade, o “desconsenso”. Esse é um compromisso com a nossa inteligência e com a nossa participação social e não, como sugere o João, uma fuga ao compromisso.
Lamento, mas a realidade que está por trás desta liberdade que proponho, é sem dúvida aquela que obriga os antípodas a sentarem-se à mesma mesa.
Quando o universo saiu do Nada (que os gregos já chamavam de “Kaos”), sempre ficou a dúvida do porquê de ter sido criada a possibilidade de ser possível evoluir dos macacos até ao que somos. Só que o descer das árvores implicou que passássemos a ver rente ao chão e jamais tivemos horizontes das copas que permitem ver o Sol antes de tal ser possível às formigas. E, por isso, a inteligência que fomos desenvolvendo deixou de vislumbrar o além senão quando podemos subir ao cimo dos montes, o que é cada vez mais difícil quando se vive na cidade envolvido pela “civilização”. É preciso um certo retorno às origens para nos libertarmos, voltando um pouco ao nosso primitivismo. Aí sim, podemos voltar aos medos que nos fazem acreditar em Deus, ou a ter necessidade disso.
Eu quero continuar a poder subir ao cimo dos montes e a ter a liberdade de ter um Deus que não me julgue pelas minhas crenças mas sim pela minha fé.
Uma simples nota para registar a atitude do Dalai Lama na crise do Tibete. Onde muitos gostariam de ver uma posição extremada, encontram "tão-só" uma afirmação radical (radicada). Onde muitos esperavam um grito de revolta, descobrem um enigmático estender de mão. Nem todos percebem, mas um líder religioso que é (ou se sente) governante, dá sempre primazia ao seu carisma espiritual. E não cede, como alguns excogitam tronitruantemente, ao cálculo político.
Em tempos não muito longínquos, também num território sobre ocupação, muitos criticaram a visita de João Paulo II à Indonésia e a Timor. E o seu suposto silêncio. E a ausência do beijo da terra na descida do avião. Mas essa visita supostamente silente revelou-se decisiva para o fim da ocupação, para a chamada de atenção para o drama ali vivido. Foi o rosto da cumplicidade humana com um povo em sofrimento. Há silêncios que falam.
Impressiona-me a profunda humanidade e fraternidade do Dalai Lama para com as mulheres e os homens chineses e a China (não o Governo). Todos compreenderiam um apelo ao boicote dos Jogos Olímpicos, uma especial tolerância para com uma violência espontânea de gente oprimida.
Mas dele ouve-se sempre uma abertura ao diálogo, ao espaço próprio de cada povo, mesmo entre ocupantes e ocupados.
Os homens de boa-vontade nunca recusam falar com os pecadores, sejam os mais miseráveis ou os mais poderosos. O reino deles não é deste mundo.
Muito se tem aqui falado, nalguns dos últimos posts, sobre filosofia. Ora, sendo eu formado em filosofia (não confundir com informado em filosofia), senti-me finalmente na obrigação de dizer alguma coisa sobre o assunto, que resumirei em muito breves pontos.
1. Começo por esclarecer que não pretendo aqui dizer o que entendo por filosofia. Embora tenha já algum pensamento consistentemente elaborado sobre o tema – o qual será, aliás, este ano publicado pela Imprensa Nacional no âmbito de um escrito mais vasto dedicado a Francisco Suárez –, não consegui resumi-lo em menos de trinta páginas. Dizendo isto, quero que saibam duas coisas: a primeira, que o que brevemente se seguirá se inscreve em caminhos mais amplos; a segunda, e para quem tal possa interessar, que em filosofia sou suareziano.
2. Afirmar-me seguidor de Francisco Suárez, porém, não é afirmar que a sua filosofia é verdadeira e as outras são falsas. Em rigor, não há filosofias falsas. Afirmar-me suareziano é reconhecer que, dadas as minhas próprias circunstâncias, o pensamento de Francisco Suárez se constitui para mim como um acesso privilegiado ao ser. E este é o primeiro equívoco que gostaria de prevenir: a filosofia é primordialmente um acercamento do ser! A questão da verdade é posterior, tanto de um ponto de vista ontológico, como de um ponto de vista gnoseológico. Não cabendo aqui o desenvolvimento deste ponto, valha a citação de São Tomás, que, justamente no De veritate, diz que «a verdade se funda no ser.»
3. O segundo ponto que quero notar é que, apesar deste “acercamento do ser” ser de algum modo comum a todos os homens, tal não significa que todos os homens sejam filósofos. Dizendo de outro modo: a filosofia é natural ao homem, mas o homem não filosofa naturalmente. Ao contrário, a filosofia é uma ciência que implica uma aplicação metódica e continuada da mente sobre o seu objecto próprio, o qual, na expressão de Suárez nas Disputationes metaphysicae, é o "ente real", isto é, o ser tomado na sua máxima universalidade e contracção.
4. Esta absoluta universalidade do seu objecto, presente em todos os entes que são ou que podem ser, faz com que a filosofia não seja uma ciência como as outras. Na verdade, a máxima abstracção do seu objecto adequado implica que o sujeito que conhece não possa ser excluído do seu próprio conhecimento, pelo que a filosofia não pode ter o carácter objectivo próprio das restantes ciências. Daqui resulta o terceiro aspecto que quero notar: a filosofia não serve objectivamente para nada. Por isso devemos estar sempre atentos aos gritos daqueles que, como Marx, pretendem que tudo já foi dito, pelo que à filosofia cabe agora a tarefa de transformar o mundo. Não! A filosofia não é solução para os problemas do mundo, porquanto o ser, considerado na sua totalidade, não é objectivamente redutível à condição de coisa, pois que transporta sempre consigo a intenção daquele que na própria realidade se questiona.
5. Dizer que a filosofia não serve objectivamente para nada, porém, não equivale a dizer que ela é absolutamente inútil. Ao contrário, como diziam os escolásticos, ela é muito útil para o "perfeccionamento da mente" (nela considerados o intelecto e a vontade). E é por isso que a filosofia, para além de ciência, é também sabedoria, permitindo àquele que filosoficamente se questiona no seio da realidade descobrir o seu sentido e dar razão desse sentido. Daí que se lhe venha chamando, desde os gregos, “amor da sabedoria”, ainda que tal amor e tal sabedoria – insisto – não sirvam para nada no quotidiano mundo das coisas.
6. Dizer que a filosofia não pode nem deve servir para transformar o mundo, por último, não é o mesmo que dizer que ela não é importante também para o próprio mundo (contra aqueles qu a pretendem importante apenas de um ponto de vista pessoal). Ao contrário, julgo-a, neste sentido, importantíssima, enquanto aproximação à realidade sem a qual não é possível estabelecer qualquer relação verdadeira entre a inspiração divina própria dos sábios e a observação das coisas própria dos cientistas. Dito de um outro modo, a filosofia é o saber que, captando o ser no seu vir a ser, descobre o sentido que liga o espírito e a matéria, assim permitindo a relação entre os saberes religioso e científico, que com ela constituem as três formas autónomas da razão humana conhecer a realidade.
Para acabar, e ainda que o corrector ortográfico instalado no meu computador insista em trocar gnoseológico por ginecológico, espero sinceramente que estas breves linhas possam ajudar a esclarecer todos aqueles que, como eu, desejam filosofar, aos quais deixo agora todo o espaço para pensar.
É impossível falar dos anos 60 sem logo associar como constituindo-se com a década dos Beatles, como impossível é falar dos Beatles sem logo pensar na década do Séc. XX em que tudo mudou, a década que tudo mudou.
M.Antonioni, Blow-up, 1966




M.Antonioni, Blow-Up, 1966
Post Sciptum
It’s All Over Now Baby Blue
No Newport Folk Festival de 1966, quando Bob Dylan surgiu de guitarra eléctrica em punho, foi apupado e quase linchado. Valeu-lhe a amizade de Peter Seeger para regressar mais tarde ao palco, empunhando já tão somente a sua velha viola acústica e a inseparável harmónica, para interpretar, em despedida, «It’s All Over Now Baby Blue».
Convidado há um ano para fazer parte deste Geração de 60, apesar de me encontrar na tangente, do lado de fora, e dadas as fracas disponibilidades de tempo, por razões de ordem profissional, perante a estima pessoal e o reconhecimento intelectual de quem insistia na minha colaboração, acabei por aceitar de corpo e alma, o desafio, tanto quanto corpo e alma permitiam. Aceitei porque, «filho» dos anos 60, tenho como maior orgulho ser Português e, como tal, não poder deixar de participar, de algum modo, daquela que é uma das mais admiráveis entre as mais admiráveis, iluminantes e fecundas tradições de civilização de que há memória em toda a História do Mundo, desde os mais remotos tempos. Por isso, também, a mágoa de não ter tido o «engenho» para dar mais fundo testemunho disso mesmo, não me restando sequer a consolação de, aqui, poder invocar o nosso Pessoa quando escrevia, evocando D. Duarte, o nosso Rei-Filósofo, «Cumpri contra o Destino cumpri o meu dever / Inutilmente? Não, porque o cumpri», por, em rigor, verificar, tristemente, quanto por dever ter assumido, cumprir não ter sabido.
“Purga em Angola” é um livro assinado por uma historiadora, Dalila Cabrita Mateus, e por um jornalista, Álvaro Mateus. O seu objectivo é claro: relatar os acontecimentos que tiveram lugar antes, durante e depois do 27 de Maio de 1977, data do golpe de Nito Alves que visaria derrubar o ditador Agostinho Neto da presidência da República Popular de Angola. Como se compreenderá, mais do que os antecedentes políticos, a purga – ou seja, o extermínio físico – que se seguiu ao confronto entre o Poder e os “golpistas” é o palco trágico deste livro.