domingo, 23 de março de 2008

Holocausto em Angola

Por estarmos em período de Paixão, pemitam que me atreva a uma sugestão mais comprometida. Dois livros, pelos caminhos do Calvário a que nos conduzem, merecem a nossa atenção. Ambos falam de Angola e da repressão violenta – criminosa ao ponto do assassinato – que se abateu de forma arbitrária, com a cumplicidade e o mais alto patrocínio do poderes constituídos, sobre os cidadãos daquele país, entre 1976 e o começo dos anos 80.
Purga em Angola” e "Holocausto em Angola”, com intenções e vivências diferentes, acabam por nos dar o mesmo retrato, o retrato de uma barbárie que a Europa experimentou com Hitler ou Staline e que a China viveu com Mao.
“Purga em Angola” é um livro assinado por uma historiadora, Dalila Cabrita Mateus, e por um jornalista, Álvaro Mateus. O seu objectivo é claro: relatar os acontecimentos que tiveram lugar antes, durante e depois do 27 de Maio de 1977, data do golpe de Nito Alves que visaria derrubar o ditador Agostinho Neto da presidência da República Popular de Angola. Como se compreenderá, mais do que os antecedentes políticos, a purga – ou seja, o extermínio físico – que se seguiu ao confronto entre o Poder e os “golpistas” é o palco trágico deste livro.
“Holocausto em Angola” é um livro de memórias. É escrito por Américo Cardoso Botelho, um português que, de 1977 a 1980, viveu na carne e testemunhou o banditismo ignóbil que se instalou nas prisões controladas pelos torcionários da DISA

Não creiam que exagero na adjectivação. Nas prisões que os dois livros descrevem era norma:
- Arrancar às famílias e brutalizar, sem culpa formada, cidadãos, fosse pelas suas ideias políticas, fosse para lhes roubar os bens que possuíam;
- Fazer julgamentos fantoches que envergonham qualquer ideia de justiça;
- Despir, violentar e violar homens e mulheres;
- Espancar e torturar seres humanos até à loucura;
- Fuzilar cidadãos na calada da noite, sem lhes permitir sequer um último adeus às famílias;
- Fazer desses fuzilamentos festins de desaustinado deboche moral.

Destes actos repugnantes foram vítimas:
- Angolanos do MPLA que foram acusados de “fraccionismo”;
- Jovens esquerdistas angolanos do MPLA que passaram pelos CACs e criaram a OCA;
- Militantes e militares angolanos da Unita e da FNLA;
- Sul-africanos do ANC que se recusaram a lutar pelo MPLA contra os outros movimentos angolanos;
- Portugueses que tinham bens apetecíveis e eram alvos fáceis;
- Estrangeiros que, com ou sem razão aparente, foram apanhados entre fogos, dos mercenários ingleses a inocentes cidadãos zairenses, nigerianos, namibianos, são-tomenses, cabo-verdianos e outros.

Mas, para além das prisões e dos campos de concentração (ditos de reeducação), estes livros referem:
- Acções militares de genocídio premeditado de populações angolanas;
- bombardeamentos de aldeias;
- deslocamentos de velhos e crianças de Cabinda para o famigerado campo de S. Nicolau.

Nestes dois livros, a culpa não morre solteira. Na farsa de acusação dos “fraccionistas” que conduziria à prisão e tortura, e no fim da linha ao fuzilamento de muitos deles, participaram, numa cinicamente intitulada "Comissão das Lágrimas", intelectuais de esquerda (e podiam ser de direita que iria dar ao mesmo).
Entre eles, e de acordo com o que se lê na pg. 116 de “Purga em Angola”:
- Luandino Vieira;
- Pepetela;
- Manuel Rui Monteiro;
- Costa Andrade;
- Diógenes Boavida.
Nas sesões de espacamento e tortura, e de acordo com os testemunhos de “Holocausto em Angola”, participaram os mais altos quadros da DISA e mesmo ministros, entre os quais:
- Ludy (Rodrigues João Lopes);
- Onambwé (Henrique Santos);
- Xietu (João Luis Neto).
Angola só poderá fazer o luto, as famílias angolanas só recuperarão a memória destes mortos de que nunca viram os cadáveres, com livros como estes que não deixem cair os crimes na banalidade e silêncio da História. Simão Cacete, angolano, uma das vítimas e sobrevivente, pede uma Comissão da Verdade. Porque o caminho da verdade é o único caminho do perdão e da reconciliação.

3 comentários:

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Manuel,
Obrigado pela sugestão e pela descrição. É terrivelmente impressionante aquilo de que, aqui e agora, nós, homens, continuamos a ser capazes.

Pereira da Costa disse...

Boa tarde geração 60.
o livro Holocausto em Angola, de américo botelho, está esgotado.
haverá forma de do encontrar
Obrigado
Pereira da Costa

Alexandre Brandão da Veiga disse...

Talvez contactando o Manuel S. Fonseca através do escreveretriste@gmail.com consiga obter esse livro que procura.

Obrigado