Manual do Preconceito 3
Os países atrasados sé têm uma solução, desatrasarem-se. Isso faz-se aos poucos e em várias frentes, económica, social, etc., e cultural. Na cultura, os agentes do desatraso têm maior visibilidade, talvez porque são uma coisa individual: cada um de nós tem os seus, uns mais próximos, outros mais distantes. Eu tenho alguns desses agentes, são poucos, porque não sou muito de culturas, mas alguns. Entre os nacionais, posso elencar, de forma imperfeita, o Sr. Garrett, o Sr. Queirós, o Sr. Sequeira (à Estrela), a Sra. Silva (às Amoreiras), o Sr. Ferreira (o das Gaivotas), o Sr. Gonçalves (o dos Painéis), alguns familiares e amigos e o Sr. Reis (que é meio-bife e portanto não conta bem), estes entre os mais próximos e, voltando atrás, aos mais distantes, … o Sr. Cardoso. Agora, o Sr. Cardoso está aqui ao lado e eu não posso falar mais bem dele, pois isso não se faz. Daí o meu protesto. Claro que haveria uma solução para não protestar. Mas quem disse que protestar é mau?
Assente a poeira do PREC e até 2005, existiam em Portugal dois mitos, no que ao Primeiro-Ministro dizia respeito.
Um, ideológico: o Primeiro-Ministro ou seria de direita ou seria de esquerda.
O outro, de natureza pessoal: o Primeiro-Ministro seria uma pessoa com uma formação académica e profissional digna de nota e reconhecida (curso superior clássico em Universidade de prestígio), carreira, formação sólida e diversificada, fluente em línguas, versado em matérias e conhecimentos vários.
A par da sua formação académica de excelência, também era aconselhável que do ponto de vista do carácter, cumprisse os "requisitos mínimos" commumente aceites.
Tanto assim foi que tivemos um Primeiro-Ministro que, embora nele se verificassem os dois pressupostos enunciados (de direita e com formação académica de relevo, completada em Inglaterra, e sem que houvesse quaisquer objecções do ponto de vista do carácter), ainda assim sempre foi olhado de lado por muitos por causa da sua modesta origem social.
Esses dois mitos cairam por terra em 2005.
Passámos a ter um Primeiro-Ministro que adoptou medidas típicas de direita e de esquerda, adoptando-as de acordo com as circunstâncias, sucessiva e indistintamente, de tal forma que se acabou com o primeiro mito.
Quanto ao segundo mito, o da excelência da formação académica e de um percurso profissional, o domínio de vários saberes, línguas, etc, a situação é pública e todos a conhecemos.
Aquilo a que estamos a assistir de uma forma genérica,é a chegada ao poder de pessoas para quem a política, e a posse do poder, é a única profissão que tiveram, têm ou terão.
Aliás, também o PSD teve um candidato a disputar a liderança de quem podemos dizer sensivelmente o mesmo no que se refere à ausência de verificação desses dois mitos.
Não me parece que seja por acaso que isto sucede. Ou que sejam episódios. Ou que seja uma moda passageira. E muito menos que tudo voltará ao "normal".
Os tempos mudaram definitivamente e vão aparecer mais casos semelhantes, isto já é "normal", isto passou a ser a "normalidade".
O que significa que temos de encarar a política e os políticos à luz de outras perspectivas, já não à luz desses dois mitos.
Fingir que ainda se verificam, e juntos na mesma pessoa, é um erro fatal para quem está no combate político e tem o mesmo interesse de dar murros em ponta de faca.
Palavra que não quero causar uma síncope a ninguém na bloga, mas temos mais uma novidade na Geração de 60. Depois do MEC, vai não vai, na lista de autores aparecerá o nome de João Pereira Coutinho. Já conversámos, já demos um aperto de mão, virtual e dos rijos, e o João até me anunciou ter uma estratégia fina e graciosa que estou proibido de antecipar. Agora é só ele receber e activar o e-mail de convite e inundar o blog com a irreverência, a provocação e os fulgurantes argumentos que, legitimamente, esperamos dele. João, estão abertos os jogos.
Na barra lateral do Geração de 60, nos autores, apareceu uma sigla mágica: MEC. Os meus companheiros de blog pediram-me que fosse eu a esclarecer e esclareço.

Seguramente, um dos filmes da minha vida. Amanhã na cinemateca às 21h30. Não percam.

Bem sei que o Liberalismo não está na moda. Mas as convicções políticas não são exactamente uma questão de moda e, nos tempos que correm, parece-me particularmente útil relembrar que no centro da ideia liberal (de que, para o bem e o mal, as nossas sociedades políticas são tributárias) sempre esteve a questão dos limites ao exercício do poder. Desde Locke e Montesquieu, e sobretudo na tradição liberal de raiz inglesa, a questão política essencial é a da limitação dos poderes do Estado em nome da protecção dos direitos individuais, entendidos como «naturais» e, consequentemente, como «anteriores» à própria sociedade política. É desta preocupação, aliás, que derivam a teoria da divisão de poderes, a ideia do «rule of law», as constituições escritas e a própria tradição parlamentar.
Toda esta maçadora deriva pela teoria política vem a propósito da decisão anunciada pelo PS de romper as negociações com o PSD sobre a escolha do próximo provedor de justiça. Em circunstâncias normais, dir-se-ia que este é apenas mais um episódio de guerrilha política, absolutamente normal em democracia. Em circunstâncias normais faria sentido perder tempo a discutir as razões que assistem a ambos os partidos (que naturalmente se acusam reciprocamente do impasse a que se chegou). Acontece que não vivemos circunstâncias normais. Por várias razões. Porque Portugal é governado em maioria absoluta. Porque atravessamos um período particularmente sensível do ponto de vista do calendário político (um período em que se realizarão várias eleições). Porque se vêm repetindo, vindas um pouco de todos os quadrantes, acusações ao governo de «abuso de poder», de «arrogância», de «apetite pelos cargos públicos», de tentativas de «manipulação e de controlo da informação». Mas sobretudo por uma outra razão de que poucos têm falado: porque a crise financeira, económica e social que atravessamos tenderá a concentrar cada vez mais poder no executivo e no Primeiro-Ministro.
Não estou a sugerir nenhuma teoria da conspiração. É da natureza desta crise que assim seja. E o mesmo fenómeno aconteceria qualquer que fosse a cor do governo e qualquer que fosse a propensão do Primeiro-Ministro em funções para o exercício e o abuso desse mesmo poder. Mas é um facto indesmentível que, nos tempos difíceis que atravessamos, a tendência é para que se coloque na mão providencial do Estado – e do governo em particular - toda a esperança para a resolução dos problemas que nos afligem. É assim, infelizmente mas é assim, com os sindicatos, é assim com os patrões, é assim com as corporações e é assim com a generalidade dos cidadãos. De todo o lado se ouvem pedidos e se reclamam ajudas. Umas mais sensatas, outras mais oportunistas; umas necessárias, outras supérfluas; algumas mais justas, outras verdadeiramente obscenas. E é precisamente porque é esta a própria natureza da crise, que não me custa afirmar que José Sócrates é, provavelmente, o Primeiro-Ministro com mais poder em Portugal desde o 25 de Abril.
Esta é uma razão mais do que suficiente para que o PS tivesse actuado com mais bom senso no episódio da escolha do provedor. Não tanto pela importância intrínseca da questão em concreto. Mas pelo simbolismo da mesma. Porque o país precisa de receber sinais inequívocos de que, neste momento difícil, o governo saberá ser intransigente na defesa dos princípios liberais que são estruturantes da nossa democracia.
Estou convencido que o Facebook, o Linkedin, o Blogger e outras aplicações afins foram criados por uma organização terrorista com o objectivo de apagar do mundo quaisquer vestígios de produtividade e de pôr de joelhos o que resta da civilização e inteligência humanas. Alias, o declínio económico a que assistimos é, segundo a minha opinião, uma consequencia directa e exclusiva destas perniciosas aplicações (ver gráfico).
Senão vejamos.
Tomemos como exemplo um qualquer meu dia de trabalho.
Ás primeiras horas da manha antes de abrir o Outlook e mergulhar nas centenas de incómodos e irrelevantes e-mails que me esperam, faço uma visita relâmpago ao Hotmail para ver se recebi e-mail na minha conta pessoal.
Aí, encontro os importantes updates do Linkedin, do Facebook, do Plaxo, da Apple, do Star Tracker, do portal do cidadão, dos Supermercados Esselunga, e do ubíquo IKEA.
Após a reunião das nove verifico no Linkedin quem foi promovido, quem foi despedido (mais os últimos que os primeiros), quem se “linkou” a quem e quem se transferiu para outro país.
Imediatamente a seguir à intromissão de um telefonema por volta das dez, aproveito para ver se nos dois ou três blogues que sigo se publicou algo de interessante. Hoje mesmo li um post bastante profundo sobre a religião das abelhas, um outro bastante venenoso sobre a textura das almofadas do parlamento Europeu e ainda um outro particularmente pungente sobre as pragas de mosquitos que se reproduzem nas aguas estagnadas de piscinas que, nas casas abandonadas devido ao credit crunch no Arizona lhes servem de viveiros.
Antes de almoço tenho ainda tempo de visitar o Facebook, no qual respondo ao incisivo inquérito “What type of beer are you?”. Sou uma “Duvel” belga. Exprimo ainda o meu estado de espírito numa curta mas relevante frase do tipo “Tired of working, I’m ready to go on a vacation to the Maldives” e acabo a espreitar o mundo real lendo na diagonal e online os títulos principais da BBC, do Publico, do FT e do Corriere della Sera.
Durante a tarde, entre uma aborrecida reunião com um “Finance Controler” americano e uma outra com uma escorbútica directora de HR Croata sobre mais um inútil “Talent assessment review”, decido dedicar-me ao detalhado estudo de uma serie de interessantíssimas fotografias, que uma amiga que não vejo desde os tempos do liceu partilha com o resto do planeta e onde ela própria (está igual, mas mais gorda), sorri com turistica alegria para a câmara endossando luminosos e coloridos fatos de ski na companhia do marido e dos filhos numa qualquer estância de neve Espanhola (constato angustiado que casou com o surfista da turma B).
Ao fim do dia, tendo decidido ir para casa ás sete da tarde de forma a ainda poder dar um contributo à educação dos meus filhos, decido escrever mais um post, que duas pessoas se darão ao trabalho de ler e um iluminado anónimo proveniente do Rio Grande do Sul de comentar.
Chego a casa ás dez da noite. Os meus filhos dormem já à horas. Estou cansado mas satisfeito e com a convicção de dever cumprido. Estou “conectado” com o mundo e altamente produtivo no manter das minhas relações pessoais e profissionais. A minha contribuição para a economia mundial, essa, foi de exactamente menos 23 “basis points”.
É pois evidente que quem ganha sao os terroristas do “social networking”.
Já passou a febre do debate sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo. Agora que o ruído diminuiu, talvez valha a pena fazer aqui o elenco de algumas opiniões, digamos, fracturantes.