segunda-feira, 20 de abril de 2009

Quando For Grande X

Quero ser como o Clint Eastwood.

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I. La meglio gioventù, Marco Tullio Giordana, Itália, 2003


Todo o intelectual que se preze, quando se quer mostrar aberto, qualidade que isoladamente sempre me pareceu suspeita, diz que gosta de futebol e de filmes americanos. Quanto ao primeiro gosto pergunto-me se poderia ultrapassar tais hábitos familiares, quanto ao segundo gosto outro tanto haveria a dizer.

Há muito cinema americano, muito do qual mais não é que cinema europeu forçado à legibilidade por força do mercado, o que nem sempre lhe fez mal, e acabou por ser uma purga salutar para a obsessão investigativa de muita da arte europeia. Há muita coisa que é apenas divertida, como um sorvete, sem mais, mas também não menos. Muita coisa há que é apenas um produto industrial, incaracterístico, desfigurado.

A questão passa agora por outro lado. É que tendo uma força nos mercados, sobretudo desde os anos 80 até hoje dia, que se pode caracterizar de monopolista, a verdade é que o cinema americano que actualmente se produz é efectivamente um produto normalizado, expectável, com uma retórica apertada e mais que previsível. Em bens não essenciais a culpa está sempre mais em quem compra do que em quem vende e por isso o público acaba por ter o que merece, pelo menos na sua maioria.

Mas de vez em quando surgem, mais que resistências, pontos de luz que nos permitem respirar melhor. O curioso é que esses pontos de luz, respirando humanidade, vêm em geral do cinema europeu, tão desacreditado por um excesso de intelectualismo que hoje em dia cada vez menos pratica, mas de que ainda se está a purgar.

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domingo, 19 de abril de 2009

Geração de 59

Esta blog ficou mais pobre, há que dizê-lo com frontalidade. Havemos de recuperar, mas ficou mais pobre. Querem um bom exemplo disso? Nunca tanto se falou dele.

O MSF escrevia posts cultos. Há outros posts cultos por aqui, claro, mas não são como os dele (todos são únicos, aliás). Uma das coisas de que eu gostava era que podia apenas perceber metade - por só conhecer metade das referências cultas dadas - mas percebia sempre o sentido todo. O PN tinha outro efeito. É que era a metade dos comandos essencialmente liberais deste blog. A ideia era sempre que o que tem de ser feito muita força tem e a mais se não é obrigado. Por outras meias-palavras, se aparecia feito era porque assim tinha de ser e se não aparecia era porque assim não tinha de ser. Enfim, aqui jaz a minha capacidade de explicar a falta que esses dois fazem. Para apenas falar dos mais assíduos e não falar dos jantares (mas aí a conversa será outra seguramente).

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sábado, 18 de abril de 2009

What has Europe Ever done for us?

Sem quere fazer política (que não posso) não resisto, na sequência, da referência aos Monty Pyton do Carlos Jalali a colocar este video (autoria MEP mas inspirado num site inglês: http://www.whathaseuropedone.eu/)

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O sétimo Python?

Is it just me, ou a coluna de hoje de Vasco Pulido Valente no Público denota uma influência dos Monty Python?



'O PC recusa qualquer espécie de aliança com um PS que "virou completamente à direita" e acha como sempre que o PS se deve emendar. O Bloco, que António Costa descreveu como "um partido oportunista, que parasita a desgraça alheia", com certeza que não anda ansioso por se abraçar ao referido Costa. Ou, para não ir mais longe, a um PC que o despreza e combate. De resto, fora este ódio trilateral, há um ódio comum (e suponho que retribuído) aos "Cidadãos por Lisboa" de Helena Roseta e ao índio sem tribo Sá Fernandes, que não pára de arranjar sarilhos. Vale a pena perguntar qual é o objecto de tantas querelas? Vale a pena perguntar quais são, do PS a Roseta, as grandes diferenças políticas sobre Lisboa? Não vale. A esquerda gosta de se dividir e detestar; e a seguir de sofrer porque se dividiu e se detesta.' (VPV, Público, 18-4-2009)

PS: Sou fã de VPV - mesmo (ou até talvez especialmente quando) não concordo com o que ele diz. Ele já foi comparado neste blog aos ABBA - para mim, ele é o Morrissey dos comentadores portugueses.

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O primeiro post...



A crise que, terrível, se abateu sobre todo o mundo, chegou também ao Geração de 60. Tentámos combatê-la: mantivemos a qualidade do nosso produto, animámos os trabalhadores, investimos em novas contratações (diversificámos, como agora se diz), enfim: fizemos tudo o que podíamos para continuar esta nossa missão de debatermos temas sérios, ainda que em tom divertido.
Mas não devemos ignorar os factos. Depois da Quimonda, e apesar dos inúmeros esforços do ministro Manuel Pinho, também o Geração de 60 foi vítima desta crise e, assim, obrigado a prescindir, temporária e/ou definitivamente, de alguns dos seus trabalhadores.
Dito isto, temos as contas sanadas. Os contratos foram rescindidos de comum acordo e a nossa missão poderá agora continuar. Os que saíram são nossos amigos e virão aqui regularmente visitar-nos. Os que ficam estão alegres, porque acreditam nesta sua empresa, pela qual trabalharão a dobrar por apenas metade do salário.
Estamos assim, com um espírito renovado, pois que, como diz um antigo provérbio chinês: «a escassez dos recursos aguça o engenho» (eles dizem sem os "éles").
A todos os nossos habituais leitores, comentadores e amigos, portanto, fica aqui feito o aviso: a nossa equipa está pronta a dar o seu melhor para continuar, assim o esperamos, a ser uma voz (in)conveniente, séria, culta e divertida, em prol de uma actividade social e política que tem urgentemente de ser credibilizada, também aqui, na blogosfera.
Continuaremos, por isso, como diz o nosso editorial, que se mantém inalterado, a ser «um espaço público onde, de modo livre e incondicionado, sem preconceitos e sem dogmas, se confrontam teorias e concepções distintas, ideias e visões opostas, das quais, em última análise, acabarão por brotar valores que nos implicam em tudo o que tem a ver com a nossa vida: da filosofia ao sexo, da arte à política, da história à moral, da liberdade a Deus.»
«Alea jacta est.» Contem connosco. Apareçam. Nós cá estaremos.

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quinta-feira, 16 de abril de 2009

O último post

Este é o meu último post no meu primeiro blog, o “Geração de 60”. Sinto-me muito infeliz por ir embora. E um bocadinho feliz por saber que estou livre e posso, agora, fazer tudo o que me apetecer, a começar por não escrever nem mais uma linha nos próximos 7 anos.
Outros valores se levantaram, não necessariamente mais altos. Ainda por cima, tinha acabado de convidar o Miguel (sim, o MEC) e o João (claro, o JPC), e ao abrigo de uma resma de artigos de caserna que regem as relações de rapazes da nossa idade frequentadores de tasquinhas onde se come um decente peixe grelhado e nunca escalado, eles entendem que devem sair também. Pelos inconvenientes causados aos meus adorados companheiros de blog e aos meus dois recentíssimos convidados, apresento-me a Sua Majestade a blogosfera, como o velho Egas, de corda ao pescoço. Conto com a Sua infinita misericórdia.
A questão – sair ou não sair – nem é estética, nem política, nem moral. O mundo está sério, dramático e a pedir tanta acção que o lema que me trouxe para o “Geração de 60” – chatices não! – já olha para mim de lado, e com ar sarcástico e ameaçador. Faço-lhe a vontade e vou sentar-me no meu cantinho hedonista. É que não me apanham, nem a escrever comentário anónimos.
O que interessa é que o “Geração de 60” continua. Já não tenho nada que me meter, mas arrisco-me a profetizar que, respondendo a estes tempos de perplexidade presente e futuro de solvabilidade incerta, o blog vai ser directo e contundente como nunca, focando-se no seu propósito cívico inicial. Para mim, ter convivido com as pessoas talentosas, brilhantes e generosas que o constituem, foi “one hell of a ride” – e se, como espero, um destes meus co-bloggers chegar a primeiro-ministro, garanto-vos que Portugal ficará decente e honestamente servido.
Mas não quero, nem é assim tão apaixonante, adivinhar o futuro. Se há paixão é sempre no passado e, ao longo destes dois anos, os meus camaradas do “Geração de 60” deram-me tudo: ternura, emoção, gentileza e sincera amizade. Meço as palavras e recordo o que pouco recomendável Bukowski disse num dos seus raros dias de sobriedade: “That’s what friendship means: sharing the prejudice of experience.”
Devo ao Pedro Norton o convite. O Pedro foi cúmplice mesmo nas quando tropecei em disparatadas divagações, poupando-me a desmentidos e contraprovas que arrasariam a reputação do mais pintado dos engenheiros, quanto mais a minha. Eu ia falar do “La Chunga”, infame cabaret da coxa que estamos sempre a apontar à cabeça um do outro, mas isso seria roubar um mote que lhe é querido e que, estou certo, ainda dará brilho a uma dezena dos muitos posts que há-de escrever.
Vou-me embora, já a morrer de saudades, mas com um baú recheado de recordações calorosas. As almas conspirativas podem estar descansadas: as partilhas vão ser fáceis e ninguém pedirá pensão de alimentos.
Viva o “Geração de 60”. Até sempre.

Good-night? ah! no; the hour is ill
Which severs those it should unite;
Let us remain together still,
Then it will be good night.

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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Liberal ou reformador?


Pode um liberal ser reformador? Pode, na minha opinião, porque todos podem ser tudo. Mas não pode, também na minha opinião, pois corre o risco quase sempre de entar no campo dos outros, coisa que um liberal, como eu, pelo menos, não gosta. Reformar implica uma estratégia, uma visão, liderança, instituições para levar a cabo tudo isso e convencer os outros. Tudo isso é demais para um liberal (como eu). A não ser, claro, que seja mesmo importante. Por exemplo, em caso de guerra, de perigo de vidas humanas, de fome ou de violência. Enfim, deixemos as grandes teorias para os outros e deixem-me dar um exemplo.

Quando entrei neste blog pensei, ah, isto podia ser melhor e, como alguns se recordarão, sugeri uma modificação técnica substancial que o tornasse mais parecido com os blogs da Vox. A reacção foi simpática mas, claro, ausente. E eu percebi logo porquê. Não me disseram mas eu percebi: "então já viste o que isso implicaria? E quem iria fazer isso? E vamos fazer uma reunião e votar para que sim ou que não? Não é para tanto trabalho que estamos aqui. É só para escrever". Foi uma lição que me recordou que um liberal não deve ser um reformador (a não ser que queira, claro, e que os outros queiram ser convencidos). Este blog existe como nasceu e ponto final. Não é melhor, não é mais bonito, não é isto, não é aquilo? Não faz mal, o que interessa é escrever. Já viram a capa do New York Review of Books? Há coisa mais feia? Sim e não. Para mim até é bonita porque é a capa do NYRB. E se, nos psicadélicos anos 1970, alguém se tivesse lembrado de mudar a capa do New Yorker? Teríamos perdido o que temos. Reformas não, pequenas inovações que cada um faz sem pedir grandes autorizações sim. E continuar a concentrar nos conteúdos. É assim que gosto. Mas também do contrário.

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terça-feira, 14 de abril de 2009

Inez Teixeira — “De dentro para fora”




Inez Teixeira, exposição sob o título: “De dentro para fora”, inaugurou ao público no passado dia 26 de Março, na galeria VPF Cream Art, Rua da Boavista, n.º84 (até 9 de Maio)

Sobrevivendo a todas as mortes anunciadas da pintura e aos seus proclamados renascimentos, Inez Teixeira (Lx.1965), apresenta um conjunto heterogéneo de pinturas (acrílico s/ tela) e desenhos (de pequenos formatos), que dão continuidade a um percurso singular na pintura portuguesa do final do século XX e princípio do século XXI.

A singularidade surge deste facto: 25 anos de produção podem (e devem) ser lidos como uma narrativa que se vai desvelando e revelando a partir de um tema central— a paisagem— e a sua transformação pelo ponto de vista do seu observador ou autor.

Se compararmos com a literatura, a personagem principal, o herói, é aqui a paisagem, e o autor que faz da personagem o seu alter ego, e vai através desse outro descobrindo-se a si mesmo e ao mundo, enquanto realidade que não está imediatamente dada, ou está apenas para quem fica na rama da ilusão, é aqui a visão pendular entre um interior e um exterior, um de dentro e um de fora, duma paisagem que Inez Teixeira mostra como aparições, e que são as imagens formadas pela subjectividade do olhar, imagens de visita a mundos encobertos pela opacidade do ser, imagens de desocultação lenta do que, ainda assim, permanece misterioso.

Glosando o título desta exposição, poderíamos chamar a uma primeira fase— De fora para fora— uma fase expectante, de contemplação do que se dava, filtrado por um olhar depurador que nos mostrava a solidão dos seres naturais e dos seres primitivos: pássaros sobre bancos de areia, cabanas no meio da noite em campos indistintos, abrigos, ninhos...

Numa segunda fase– De dentro para fora– surgiram, sobretudo, texturas e intrincadas tecituras que permitiam perceber um lado de fora que surgia filtrado e adiado– tempo de espera– como uma grelha que não sabíamos se era uma prisão ou uma protecção.

Numa terceira fase de novo— De fora para fora— em que as paisagens cósmicas (meteoritos) ou as topografias (metálicas), revelavam um mundo agressivo e sem intimidade, como se o mineral inorgânico, à deriva pelo espaço sideral, dominasse toda a realidade impiedosamente e sem destino.

Finalmente, e a culminar na actual exposição, de novo— De dentro para fora— mostrando a ruptura com o niilismo cósmico anterior e regressando ao enfoque na intimidade das construções orgânicas, mas transcendendo-as para um imaginário onírico, rico de impossibilidades materiais, fuga da normalidade e anulação do tempo.

Nesta fase, surgiram, primeiro, as paisagens construídas a partir de uma simbólica em que os abrigos ou as cabanas são agora casulos que evoluem em formas larvares até às borboletas, são mutantes que perdem a pele e as suas pregas formam caminhos e jardins, florestas densas, num ambiente quase gótico, como se as formas da paisagem ainda sem distinção entre corpos e extensão fossem animadas por um só e o mesmo movimento.

Depois, surgem as paisagens oníricas, o imaginário fantástico, casas que nascem nas árvores e florestas com árvores invertidas num efeito visual que tornam a paisagem numa impossibilidade material próprias de uma quinta dimensão (para lá do tempo e do espaço Kantianos).

Nesta fase, IT concebe uma viagem a lugares imemoriais e fascinantes. Lembra, todavia, num pequeno desenho, filho único no conjunto exposto, onde aparece uma caveira em fundo monocromático, que é preciso experimentar o perigo e o despojamento, para passar de dentro para fora e ver uma nova realidade que nos liberta do espaço e do tempo concebidos como distância e sucessão irremediáveis.

IT, poderia dizer ao fim destes anos: “Do meu esconderijo eu tenho observado tudo, e agora, mesmo de fora, continuo escondida”.

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segunda-feira, 13 de abril de 2009

E o J. P. Coutinho também faz falta...

Já que estou nesta de me presumir capaz de substituir o insubstituível Manuel Fonseca, permito-me dizer ao João Pereira Coutinho que ele também faz muita falta. O João desculpar-me-á a franqueza saída desta minha presunção de uma certa intimidade internética, mas tenho que lhe dizer que a sua irrupção aqui no blog foi assim como o programa nuclear fancês: muitos testes; muita polémica à volta desses testes; e depois, absolutamente, desaparece no silêncio próprio das profundezas do Pacífico. Vá lá. Venham daí esses mísseis. Tanto faz nucleares como não obrigado: os seus posts fazem falta.

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O Pedro Norton também faz falta...

Pois é. De boas intenções está o incherno feio - quer dizer: o inferno cheio. Lá jantámos, procedemos às maldades do costume, e comprometemo-nos todos a escrever mais posts. Ora a obrigação, em primeiro, lugar, é dos chefes, que, ainda por cima, quando escrevem, escrevem sempre muitíssimo bem! Por isso, Pedro, agora é contigo. Venha de lá esse exemplo - e venham de lá esses posts.

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Argumento adaptado

Passou há algumas semanas na tv um episódio da série "Irmãos e irmãs". Série que vi mais no início e que agora, como todas as coisas, parece que vai perdendo a graça à medida que o tempo passa.
Um casal, constituído por um homem pai de filhos de um casamento anterior e por uma mulher sem filhos, tentam ambos ser pais de uma criança. Por peripécias várias parece que iriam recorrer a uma espécie de adopção(?). A mulher visita no hospital aquela que seria a mãe da criança que iriam adoptar. Visita essa que não corre bem e que acaba com a possibilidade da dita adopção.
Quando relata a visita ao marido e ele discorda dessa atitude, a mulher justifica-se dizendo que achava que aquela solução não iria resultar, que o bebé não lhes seria entregue, afirma enfim que preferiu agir assim porque não queria que lhes partissem o coração.
Nesse momento, o marido fita-a, calma e secamente diz-lhe: " - Se não estás preparada para que te partam o coração, não estás preparada para ser mãe."
Fim da cena.
Partem-nos o corpo ao meio para nascer, partem-nos o coração todos os dias. É o único amor que não parte nunca, que não perde graça, que nunca passa, esse amor que une pais a filhos.
Não consigo entender a notícia que ouvi há pouco: há crianças adoptadas que são devolvidas às Instituições, geralmente as maiorzinhas, com 5,6,7 anos.
O amor de um pai a um filho,biológico ou adoptado, nunca passa.
Se esse amor passa é porque nunca existiu.

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Ben-Hur


Quando Quintus Arrius diz:"- Vai remar 41", eu sei que a Páscoa finalmente chegou.

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sábado, 11 de abril de 2009

O MEC faz falta...

Um só post e o nosso blog tornou-se francamente mais divertido. Um só post e batemos o record dos comentários. Um só post e juntaram-se à mesma mesa os patrões e os funcionários do Geração de 60 para debater a estética do blog. Um só post gerou entusiasmada animação nesse plenário, no qual difíceis decisões foram tomadas e enérgicas medidas implementadas. Ora, se tudo isto aconteceu com um só post, quem pode imaginar o que irá acontecer com dois e com três e com quatro... e com cinco e com seis e com sete? Por isso, humildemente, aqui pedimos: MEC, venha o segundo, se faz favor.

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Familiarity breeds contempt?

Este post do Pedro Norton sobre os Velvet Underground & Nico fez-me lembrar um velho ‘jogo’ que tinha com amigos na universidade*. Se pudessem voltar atrás no tempo e ver uma banda ao vivo por década, quais escolheriam? O jogo começava nos anos 60 - parafraseando Larkin, achávamos que a música só tinha realmente começado nessa década. As minhas escolhas eram (e são, ainda hoje) os Velvet Underground nos anos 60; os Pistols na década de 70; e os Smiths nos 80. Não tinha dúvidas sobre isto na altura, e ainda hoje não as tenho.

Como “jogávamos” durante os anos 90, não tínhamos que escolher bandas dessa década (até porque essas, em geral, podíamos ver). Mas agora que o jogo incluiria também essa década, sinto uma enorme dificuldade em escolher a banda dos noventa que gostaria de ver. Das que não vi, talvez os Nirvana, embora mais pelo simbolismo – raramente oiço Nirvana hoje em dia; talvez os Stone Roses, embora o álbum epónimo seja de 89; talvez os My Bloody Valentine, ou os Tortoise, ou os Smoking Popes, ou os Happy Mondays, ou os Public Enemy (embora algumas sejam parcialmente dos anos oitenta)... Mas são demasiados talvez. E fico na dúvida se isto se deve a uma genuína ausência de grandes bandas nos anos 90; ou se é porque esta uma década que efectivamente “vivi” musicalmente, e fico sem a distância necessária para a avaliar.


*: Sim, reconheço que é um jogo muito ‘Nick Hornbyano’ – mas, em nossa defesa, inventámos isto algum tempo antes do High Fidelity.

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Lisboa e o seu herói...

Estamos finalmente em tempo de eleições. No céu, que já há muito se mostrava carregado, surgiu finalmente a tormenta – e a pobre terra encheu-se de outdoors. Felizmente que o justiceiro Sá Fernandes – herói ainda indefinido, que não sabe bem se é o Lone Ranger ou o Tonto –, logo mandou retirar uns quantos que desfeavam a praça Marquês de Pombal.
A razão, obviamente, assiste-o, pois que, apesar dele próprio ali ter colocado uns outdoors na última campanha eleitoral para a Câmara de Lisboa, descobriu agora que existe um regulamento que proíbe terminantemente implantá-los naquele local. Vai daí, mandou tirá-los, brandindo o dito regulamento em frente à câmara – de televisão – e alto jurando tudo fazer para defender a lei: a mesma que ainda há pouco tempo, compreensivelmente, incumpriu, justamente pelo facto de que não a conhecia.
Ora, este episódio, trágico-cómico, com que se inicia este tempo festivo que são para nós as eleições, não faz mais do que confirmar aquilo que as pessoas pensam dos políticos e que pode bem resumir-se nestas três muito breves ideias: 1. São uns incompetentes, que nem sequer conhecem as leis e os regulamentos. 2. São uns intrujões, que usam as leis e os regulamentos conforme lhes convém. 3. São uns intrujões e uns incompetentes, que nem sequer conhecem as leis e os regulamentos que querem usar como lhes convém.
Talvez as pessoas estejam enganadas, mas, então, é bom começarmos a convencê-las do contrário, porque, nestes tempos pouco democráticos que vivemos, é cada vez mais o povo que faz falta.

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quinta-feira, 9 de abril de 2009

III. O que é a História?

Podemos assim descrever esse espécime execrável que é o anti-histórico. O que impera no espaço público europeu, em grande medida pela plebeização e americanização da época. Este caracteriza-se por três dimensões de ódio:
a) Odeia o que está fora dele, odeia a investigação, a procura da verdade. É o seu umbigo o único paradigma da vida, e recusa que haja efectiva diferença. “Todos diferentes” para ele significa apenas que as diferenças têm de existir de acordo com os seus paradigmas, ser dóceis à sua visão das coisas. A efectiva abrupta, abismal, e mesmo conflituosa diferença é-lhe repugnante. Se diz que a História é guerra é porque sente qualquer alteridade como uma afronta.
b) Odeia o ser humano. Para ele a Europa ser uma construção anti-histórica é enterrar segunda vez os mortos e enterrar preventivamente os vivos. Os seres humanos concretos, os que estão fora dos textos de declarações universais ou das reportagens etnológicas, os que já não podem testemunhar ou que nunca o puderam fazer são-lhe repelentes igualmente. O ser humano para ele não é o que concretamente vive e viveu, mas o que mais uma vez é dócil à Declaração Universal dos Direitos do Homem. É uma figura jurídica, desprovida de sangue e vida.
c) Odeia a mudança e consequentemente a constância. Apenas conhece a rigidez. Mais uma vez a rigidez dos textos políticos e jurídicos. Uma constante não pede rigidez. Bem pelo contrário, uma invariância pressupõe a mudança. Senão nada há que procurar que não varie. A sua concepção do tempo é a do folclore, a do festival de luzes e cores, facilmente domável e delimitado pelo seu princípio e fim. A vida é apenas apresentação, com um programa definido à partida, sem surpresas.

O que une todos estes traços do anti-histórico é em suma a docilidade. A docilidade que exige aos outros porque no fundo e na expressão é um ditador, um tirano. O seu paradigma é o domador circense de feras. Para ele o ser humano é a besta humana. Tem de ser domesticado, enfiado na gaiola dos direitos do homem, dos tratados internacionais. O seu chicote é dourado pela palavra doce, mas silva e estala ao mínimo desvio. O ser humano é apresentado como o leão, o rei da selva, elogia-se a sua nobreza, mas nega-se-lhe toda a liberdade e o contacto com a savana. O anti-histórico é circense. Nada mais. E de nada mais quer que o ser humano se aproveite.


Alexandre Brandão da Veiga

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As ideologias acabaram?

O Público (e o site do CDS) noticiam que "os 11.562 militantes do CDS com telemóvel" receberam um sms de Paulo Portas ontem à tarde, em que o líder do CDS os informava dos candidatos do partido para as Europeias.

Creio que podemos eventualmente tirar uma de duas conclusões disto:

1. Os militantes do CDS usam o telemóvel bastante menos que os portugueses em geral (proporção de portugueses que afirmam ter pelo menos um telemóvel em inquéritos: 4 em cada 5; número de telemóveis por cada 100 residentes em Portugal: aproximadamente 130).

Ou:

2. O número de militantes do CDS é de pouco mais de 11.652 militantes.

Pessoalmente, espero que a primeira esteja mais perto da realidade. A ideia dos militantes do CDS serem mais conservadores até na adopção de novas tecnologias agrada-me...

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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Árvores

Estou assim meio de férias que isto de trabalhar todos os dias cansa e meio de férias em Lisboa. Not bad. Ora isso serve para ler jornais velhos, também, e descobri que há mais um "plano" para o Terreiro do Paço. Fui ler porque queria ver se era desta que começavam a plantar árvores nesta maldita (para elas) cidade e, claro, o arquitecto acha que não. Aquilo deve ter uns pisos a marcar "percursos" e uns tons para aqui outros para ali, perspectivas, etc. Árvores? Se for preciso sombra (?) montam-se uns toldos, diz o profissional de urbanismo. Ora aí está. Tal como na Avenida dos Aliados, na Invicta. Será que um dia vamos ter alguém que ame árvores lá para a CML. A vereadora Helena Roseta achou o dito plano "muito interessante".
Será que as árvores são simbolo do passado, que há demasiada ligação ao mundo rural onde elas quase sempre, neste país, ainda são para abater?
Assunto sério: A Av. da República perdeu as árvores graças aos túneis e às obras do metro. A Fontes Pereira de Melo idem, ibidem. Mais recentemente foi a Joaquim António de Aguiar e também a António Augsusto de Aguiar (deve ter sido castigo pelos nomes). As árvores da Av. da Liberdade também foram arrasadas nos anos 1950 por causa do Metro mas alguém se lembrou de as replantar. Parece que resultou.
A excepção em Lisboa agora é a Expo. Ora bem, aí está, afinal não é preciso ir a Paris para ver como as árvores crescem mesmo, dão sombra e tornam a cidade mais rica. E são mais baratas do que os toldos.

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II. O que é a História?

O que se dá hoje em dia é uma mistura de fenómenos antigos com modernos. De antigo, o facto de todo o analfabeto se entender como especialista em História. Nunca a estudou, mas dedica-se “apenas” ao que de mais difícil esta tem: a síntese histórica. A Europa é isto e não é aquilo. Por sua sorte a História da Europa é curta e pouco rica, por isso qualquer edição do Reader’s Digest ou revista económica pode dizer em quarenta palavras tudo sobre a matéria.

De novo apenas o de que todo o destituído, não apenas se sente autorizado a falar na matéria, mas igualmente quer impedir que pessoas autorizadas falem. Ou tapando os ouvidos, ou mandando-as calar. Aprendeu no liceu umas banalidades e quer impor essas banalidades pouco verdadeiras como paradigma do mundo.

Do que se esquece é desta sementezinha que fez a História. A História é investigação. Não sabe História quem antes não a investigou, não foi atrás dele, não se perdeu nos seus imensos meandros e não encontrou referências no meio desse magma imenso de vidas humanas já passadas. Em nenhuma matéria se sabe se não se investigar, se não se estudar. Mas a História traz no seu próprio nome esta corveia.

A verdade é que não é de causar espanto que muitos destes desprovidos sejam anti-históricos. São contra a investigação, umas vezes atacando experiências genéticas, em geral atacando qualquer procura. Estão cheios de certezas absolutas, a começar pela de que elas não existem, e querem impedir os outros de procurar o saber.

A História, pela sua própria origem, implica procurar fora de si. Mas procurar o quê? A coisa poderia ter corrido de outra maneira, mas cristalizou-se e não por acaso, no ser humano. A História natural, expressão que durante milénios e pelo menos até ao século XX ainda se encontrava (ainda há restos dessa expressão nos museus de História Natural), cedeu cada vez mais o seu lugar à História sem mais. A História dos homens.

E que verificamos nessa História dos homens? Que as coisas mudam, e que os graus de mudança são diversos consoante as culturas, as épocas ou dentro da mesma época e cultura, consoante os estratos dessa mesma cultura. A economia, a tecnologia, as relações de parentesco, as estruturas de poder, os traços de mentalidade não têm a mesma fluidez, obedecem as constantes e variáveis diversas.

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