quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A Joaninha e o carrapito

A Joaninha tem um carrapito. E acha que sabe tudo. E a Joaninha tem toda a razão. Quanto ao carrapito, entenda-se. O pai da Joaninha disse-lhe que ela era bonita e ela acreditou. Ela é submissa à autoridade e segue religiosamente o que os seus maiores lhe mandam fazer. No que, mais uma vez, a Joaninha tem razão.
 
A Joaninha aparece em público com um top de mangas de balão como a Branca de Neve porque julga que está rodeada de anões. E, em boa ecologista, aproveita para o adereço o tecido de um reposteiro da casa de férias da sua família algures na Areia Branca. À falta de solar presenteia-nos com flores. E um carrapito.
 
A Joaninha acha que sabe tudo, embora já saibamos que tem mais razão no carrapito que no que julga saber. E, por isso, sabe tudo o que há a saber sobre o cristianismo e a Europa. A Joaninha quer pontificar em púlpito e evangelizar os pobrezinhos que a rodeiam que não receberam a iluminação final algures num café em Viena. Mas como o pai lhe disse que ela era bonita e teria mesmo perfil grego (não percebeu que se referia mais à tragédia que às linhas gregas) ela acreditou e julga que sabe tudo.
 
A Joaninha doutrina sobre a Europa e a menor importância do cristianismo na Europa. Tenta diluir em doses homeopáticas o cristianismo entre muitas outras religiões que a Europa teve. E, depois de um esforço, que se viu titânico, ela para se lembrar, nós para a ouvir, lembra-se de duas religiões não cristãs na Europa: os huguenotes e os cátaros. A Joaninha – a malandra – lê muito jornal para conhecer da História.
 
Pequeno detalhe o de os huguenotes serem calvinistas e cristãos, e de os cátaros serem… cristãos. Se vindos dos bogomilos, estes dos paulicianos e por sua vez dos gnósticos, não vamos cansar a Joaninha com estas minudências.
 
Podia-se ter lembrado de outras religiões além do cristianismo, tanta é a sua vontade de multiplicar as religiões na Europa: os franciscanos, os agostinhos, dos dominicanos, as carmelitas (as descalças e as calçadas, mas arranjamos umas com carrapito também para agradar à Joaninha), os jesuítas... Tantas religiões que tem a Europa, tantas, tantas... E poderíamos multiplicar ainda mais a religiões da Europa: os assumpcionistas lá do quinto esquerdo, os padres brancos ao virar da esquina... Nada como dividir cada paróquia numa religião para agradar à cachopa.
 
A Joaninha tem uma lista na cabeça – além do carrapito – e por isso não a devemos cansar muito. Não lhe digamos que os huguenotes são cristãos, bem como os cátaros. Ela quer muitas religiões na Europa para diluir o cristianismo e faz muito bem. Temos de deixar tudo o que respeita à Joaninha diluído. Ela merece ser encharcada.
 
Se algo de que a Joaninha sabe muito é de cristianismo. Vemos aliás o seu carrapito oscilar entre o «homoousios» e o «homoiousios», entre os eunomianos e os pneumatómacos. A dupla natureza de Cristo ocupa a sua cabecita tanto quanto a processão do Espírito Santo. Se alguém diz filioque, ela diz «santinho», no que mostra a sua profundidade. Ela sabe tudo sobre isso. Se quiserem saber algo sobre a descida do Espírito Santo é com a Joaninha que se têm de haver. De descidas sabe ela.
 
 Curioso o segundo argumento da Joaninha, porque assimila o cristianismo ao catolicismo quando lhe dá jeito. Por isso pode inventar religiões que não são cristãs… quando o são. Mas a Joaninha está habituada a ser o que não é: mais que uma Joaninha. Mas desta feita (a Joaninha está sempre algures feita, poderia mesmo ser considerada uma grandessíssima feita) a Joaninha esquece-se significativamente – e bem vimos que o seu esforço foi titânico - de mais de metade do território europeu: dos ortodoxos orientais. A Joaninha sabe tudo sobre a Europa, mas esquece mais de metade dela. Porque não cita os ortodoxos? Porque a Joaninha tem uma visão paroquial do cristianismo e consequentemente da Europa. As Joaninhas são assim, e não se pode fazer muito: são Joaninhas e sabem as coisas pela metade.
 
Mas a Joaninha tem argumentos muito bem pensados – e isto tudo, porque, como bem sabemos, a Joaninha estudou em profundidade a História da matemática e da física. Tem aliás mesmo cara de poder doutrinar sobre os fundamentos do cálculo infinitesimal. Sempre que tiver um problema infinitesimal será à Joaninha que recorro. Olho para ela e penso logo numa derivada de n-ésimo grau de uma função constante. Trabalho inútil, mas esforço meritório. É que a Joaninha é meritória. E poderosa. Pode-se dela dizer mesmo que é uma grandessíssima poderosa.
 
Por isso a Joaninha lembra que a Europa foi influenciada por outras religiões e outras culturas, como os árabes e os muçulmanos. A pena e as lágrimas que todos deixamos escorrer pelas nossas órbitas é ter a Joaninha esquecido de pensar sobre o assusto. Árabes e muçulmanos não são a mesma coisa e a Joaninha esquece-se de ainda muito mais. Ser influenciado por alguém pode não ser coisa boa. Uma mulher que foi violada por um homem é por este profundamente influenciada para o resto da vida e temos de colocar a hipótese desesperada – bem sei, mas junto de Joaninhas somo-lo sempre – de isso não ser coisa boa. Pelo menos para a mulher que foi violada. Mas se a Joaninha se quer colocar nessa posição e a vê como agradável aceitemos pois o veredicto da Joaninha: toda a influência é boa desde que seja grande. A Joaninha gosta delas grandes. As influências, entenda-se. Desde que sejam grandes são boas. A Joaninha melhor saberá o que espera das influências; e se se sente bem com uma grande influência dentro de si, esperemos todos que haja alguém que lhe queira dar uma grande influência tantas as vezes quantas ela quiser.
 
A papisa Joaninha pontifica. Faz o que pode. Pudéramos nós fazer o que quiséramos, não fora violar o Código Penal. E bem sabemos que é a única coisa que nos apraz violar ao pé da Joaninha. A Joaninha apossou-se do poder sacerdotal e explica às massas o seu evangelho. Cheia de certezas absolutas, a Joaninha não admite contradita. A Joaninha seria quase inexpugnável não fora o carrapito lembrar-nos que pode ser puxada por trás. Talvez esteja a pedi-lo, não o sabemos. Mistérios das Joaninhas.
 
É certo que a Joaninha está já algo entradota para usar carrapito. Mas esta parte podemos poupá-la à Joaninha. Porque de entradas também sabe tudo... Como de tudo o resto. Assim nós gostaríamos de saber de saídas quando vemos a Joaninha.
 
Demos pois à Joaninha um espelho e um cérebro. O primeiro desmentirá o elogio paterno, o segundo… o segundo trar-lhe-á duas grandes vantagens: a experiência nova de ter um, e de que a penetração também pode existir acima das fossas nasais.
 
 
 Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 29 de outubro de 2013

BRAVO.

É importante falar nas causas escondidas das boas consequências. Quando Lisboa cresceu, em meados do século passado, foi preciso construir novas igrejas. O Patriarcado vendeu então três templos na Baixa e, com esse dinheiro, edificou S. João de Deus, S. João de Brito e a igreja de Fátima.


Este desinvestimento no coração de Lisboa, que estava a morrer com os seus velhos, foi contrariado mais tarde pelo Cardeal Ribeiro que chamou para as paróquias da Baixa padres novos, cultos e com um vigor evangélico que pudessem dar a volta à descristianização do Centro, ainda antes do incêndio.

Com Fé, bom gosto e muita persistência, estes homens reergueram a vitalidade destas 18 igrejas. Contaram com o rebanho transumante diário de quem trabalha ou visita a Baixa e o Chiado, mesmo que ali não viva. Montaram horários de missas das 8 da manhã às 10 da noite, com todas as despesas de iluminação, limpeza e guardaria que implica ter as portas abertas. Captaram voluntários que, às seis da manhã já estão a lavar os idosos do bairro e depois seguem para as suas vidas profissionais. Atraíram à Baixa grupos de empresários, como a ACEGE, e de Movimentos empenhados, como o CL, que ali fazem encontros, conferências, retiros.

Faltava recuperar o Património. Depois de 2002, Santana Lopes deixou-se cativar por este trabalho extraordinário que também combatia a agonia do Centro e alargou o Fundo do Chiado à recuperação das igrejas. Viu bem. Em vez de esperar pela recuperação integral do conjunto pombalino, começou pelos seus polos monumentais e restaurou várias igrejas entre as quais se destacam Sta Catarina, S. Nicolau, Mártires, Encarnação (fachada), Sra da Oliveira, Vitória, Menino de Deus etc. Faltava o Sacramento, entretanto intervencionado, onde se discutiam estragos das obras do Metropolitano e de um parque de estacionamento, e a Conceição Velha.

Todo isto para dizer que a dupla Pedras/Santana se voltou a encontrar, dez anos depois, para completar o que ainda não tinha sido feito. A Conceição Velha, sede da Misericórdia de Lisboa antes do Terramoto, será finalmente recuperada a par de um apoio da Santa Casa ao Povo carente da Baixa. Bravo.

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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Ser e dever ser

Deixei a Faculdade de Direito há um quarto de século. Por isso não posso falar da que actualmente existe. Desconheço. Provavelmente estará cheia de pessoas com verdadeira cultura universitária, ou seja, universal, pessoas que se encontram habilitadas a pensar desde a matemática à filosofia, passando pela História e a física. Ou não. Não interessa.
 
Mas lembro-me de ouvir um dislate, que seria apenas anedota de estudante, se não o encontrasse ainda hoje em dia repetidamente dito. A destrinça ocorre entre ser e dever ser. Uma coisa é o mundo do ser, outra a do dever ser. Esta destrinça surge naturalmente da boca de juristas e de homens públicos como se fosse uma evidência. Mas não é.
 
São várias as razões que me levam a exigir uma outra reflexão sobre esta desgraçada destrinça.
 
Em primeiro lugar, quando vemos a História das línguas mais próximas, podemos verificar que esta coisa chamada “dever” levou muito tempo a construir. Para os Gregos, “Kathekon” é mais “o que é adequado”, “prepe”, o que é conveniente, quase numa perspectiva de etiqueta, o que os franceses traduzem pelo conceito de “bienséance”. Os romanos davam-se bem com o seu gerundivo, e construções com “debet” são sempre pouco clássicas. O seu gerundivo não destrinçava o que resultaria de uma necessidade ou de um dever. As destrinças entre os verbos “must”, “should” e quejandos nas línguas germânicas mostram que o dever, o conveniente, o necessário, o forçoso estão por vezes em fronteiras muito movediças em todas as línguas.
 
Por isso qualquer destrinça entre o ser e o dever ser deveria ser vista sempre com prudência por qualquer pessoa avisada. Quando dizemos que algo “deve” ser estamos a usar uma construção algo misteriosa. Estamos a falar de uma força que impulsiona para que seja? De um espelho do mundo que nos reflecte a verdadeira imagem dele? De um estalão que nos permite medir o erro?
 
Que algo deva ser, seja o que for, convencionemos que seja simples. Como viver supomos ser simples. Seria loucura estar sempre preocupado com o que é viver. Deixar-se-ia de viver. Mas coisa bem diversa é quem se arroga pensar sobre as coisas. Deve ser... Com que descontracção a figura é usada...
 
Em segundo lugar – e que segundo lugar – é curioso que criaturas que se dizem cristãs acabam em fracturas mais ou menos kantianas por via turista, ou simplesmente rotineiras. Ser e dever ser opõem-se? De que forma? Não terão percebido esses eminentes estudiosos um dado muito simples? O acme do ser é o acme do dever ser. Onde não há contradição entre um e outro. Mas mais importante, onde se percebe que a vida plenamente vida, o ser na sua plenitude, e o dever ser, não apenas no seu cumprimento, mas na sua enunciação se encontram totalmente.
 
De quem falo? Que surpresa para cristãos que fazem estas separações. De Cristo, é evidente. N’Ele ser e dever ser são uma e só coisa na sua plenitude. Como pode um cristão em mera rotina separar uma e outra coisa sem perceber que a oposição está a apenas no fenómeno, mas não na coisa em si?
 
 Kant construiu uma maravilhosa máquina que apenas pode suscitar a nossa admiração. Não confundo o mestre com os esbirros. O melhor mestre deixa sempre seguidores menores. Mas os limites dos seguidores já estão em germe no mestre. Obcecado com a separação, Kant sentiu a sua vida iluminada por separações, entre ser e dever ser, númeno e fenómeno e outras quejandas coisas. Mas as suas destrinças eram desafio e agora apenas enfado e repetição.
 
Deixemos Kant dormir em paz o seu sono crítico. Mas que tentemos perceber de uma vez por todas que ele não disse a última palavra, precisamente porque recusou a existência da sua possibilidade de uma palavra que fosse última. Também nisto os ortodoxos nos perceberam melhor nas nossas limitações. Desde Tolstoï a Khomakiov e a Soloviev passando por São Gregório Palamas estas distinções perdem sentido. Por isso, Tolstoï nunca percebeu Kant por mais que se esforçasse para o efeito. O problema de Soloviev e Khomakiov foi o de o terem percebido bem demais.
 
A procura da distinção clara, por mais heróica que seja, é sempre a demanda de uma faca cortante com dois gumes e que se verifica nunca ser suficientemente bem afiada. Um mundo que não distinga o ser do dever ser não é lúcido nem provido de sentimento. Um mundo que assente apenas nesta distinção é destituído de escatologia, ou seja, de destino. Mas isso deixarei para outras núpcias.
 
Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O TIGRE E A MALÁSIA

José Sócrates juntou à fama de líder com autoridade o proveito da agressividade e do planeamento. A sua entrevista a Clara Ferreira Alves não resulta apenas do ambiente informal e desligado que a jornalista pode favorecer. Mas resulta de um propósito arrabatador das esquerdas que não se revêem na docilidade de Tó Zé ou na espera de António Costa. Sócrates radicalizou. Com palavrões e jargões sobre a Direita. Com calúnia contra adversários internos. E injúria mais patriótica do que protocolar contra pretensos inimigos boches.
Capitalizou os revoltados. Aniquilou a utilidade do Bloco de Esquerda com um sopro. Prometeu curvas e mostrou que está aí para as fazer. Não foi excessivo. Nem descuidado. Foi propositadamente preciso. Porventura enganado por um Freud tardio. Acalentado num exílio da França secular. Materializado numa tese sobre a tortura, sob a forma de revolta democrática, hoje lançada ao grande público. O homem é hábil. Estudou o seu futuro rebanho. De cordeiros vestidos de lobos.

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domingo, 6 de outubro de 2013

O monge e a suástica

Num programa de televisão aparece um padre católico português na Coreia do Sul visitando um templo budista. É recebido por um monge, e a conversa vai amena. Ambos parecem mostrar uma grande aceitação mútua e mesmo uma simpatia, e a postura de ambos parece rodeada de grande respeito, talvez nem tanto pelas pessoas respectivas mas antes pelas suas concepções de vida.
 
Mas eis senão quando o padre católico não resiste e pergunta ao monge budista porque existem tantas suásticas nos seus templos, quando, bem sabemos, a suástica é o símbolo do mal. O que o padre católico não conseguia compreender era a razão pela qual uma religião tão doce quanto o budismo admitia ter um símbolo tão sulfuroso. Seria como ver uma igreja contendo no altar os cornos do demo. Refiro-me ao altar, porque é bem sabido que muitas igrejas e capelas representam o diabo sob várias formas, basta pensar na Capela Sistina. Isso seria natural.
 
O monge budista explica que se trata de um símbolo tipicamente budista e que a orientação da sua suástica é a inversa da orientação da nazi, e por isso significa vida e não morte, e mais umas pérolas quejandas. Parecem despedir-se simpaticamente, mas percebe-se que o padre católico não deixou de sentir algum desconforto.
 
O verdadeiramente desconfortável é o facto de nenhum deles ter conseguido sair do seu espaço mental e ir para um terceiro, que está na base da sua discussão. Mais uma vez: os indo-europeus. A História das religiões conheceu fenómenos de inversão múltiplos, mas mais importante ainda de reversão. Os «dev», seres divinos indo-europeus, passam a ser demoníacos entre os persas, num notório caso de reversão. Os «daimones» são espíritos de múltiplas facetas, podendo ser benfazejos, como o «daimon» de Sócrates, e passam a ser apenas demónios com o cristianismo.
 
Mas a inversão não significa sempre reversão. Nem o contrário. Saturno é ao mesmo tempo divindade deposta, mas governante da época de ouro em Itália. E a cruz invertida de São Pedro não significa recusa, mas exaltação da verdadeira cruz. Que a suástica seja levogira ou dextrogira, ao contrário do que certos ideólogos dos anos 70 queriam fazer demonstrar, não é por si só suficiente. O monge budista pecou por ingenuidade.
 
Que a suástica tenha passado a ter uma carga tão negativa no Ocidente diz algo sobre o nazismo e a sua importância, que é constantemente descurado. O fenómeno a que se assistiu com a II Guerra mundial é eminentemente religioso. É um grande momento de criação de tabus. A suástica aparece alegremente numa e noutra ponta do mundo indo-europeu. Desde a Índia à Grécia. No mundo romano não parece estar tão presente e quando o está é por influência grega. Os templos e objectos decorativos gregos e indianos estão alegremente repletos de suásticas e ninguém vê algum problema nisso.
 
Símbolo solar segundo o consenso, não é em si bom ou mau. Tem a equivocidade de todos os símbolos da natureza, como equívoca é ela mesma. Nenhuma novidade nisto.
 
Que o templo budista tenha suásticas não significa em si mesmo que seja herança budista, mas antes do mais que recebeu herança indo-europeia, dado que o budismo é uma religião de matriz indo-europeia. O monge budista pecou pelo desconhecimento das origens da sua própria religião.
 
Mas aqui quem pecou não foi apenas o monge budista. O padre católico não esteve melhor. Dominado por uma visão do mundo que começa pelo tabu do século XX esqueceu-se que, para dialogar com pessoas de outras religiões, tem de as olhar com os olhos dos outros que nelas acreditam, mas também com os olhos de quem criou essas religiões. E isto não foi capaz de fazer.
 
Mas que a II Guerra Mundial tenha definido o início de um novo conjunto de tabus é sintomático de um fenómeno típico da história das religiões. No espaço indo-europeu pelo menos no ocidental existem três padrões para a designação de Deus: os países latinos e gregos usam o original «Deus», mas os germânicos e os eslavos usam o que restou de um tabu linguístico, segundo o consenso mais geral. Entre os germânicos, «Gott» é uma invocação, na impossibilidade de nominar directamente Deus, entre os eslavos «Bog» é parente do sânscrito «Bagha», dádiva, e resulta igualmente de um tabu linguístico. A criação de tabus tem semelhanças com outros fenómenos religiosos fundantes.
 
A inversão como dissemos nunca é neutra, mas pode significar reforço da mensagem original, tanto quanto a sua contestação. A reversão não impede por outro lado que o mesmo deus revertido apareça alhures a governar em boa memória.
 
O tabu, quanto mais tabu é, mais nos faz surgir paradoxos. As suásticas não foram apagadas. Ainda as temos de ver nos monumentos gregos e indianos, sejam eles hindus sejam jinaístas, mas também nos templos budistas. Em todos os casos vistos como símbolos de harmonia, vida, por vezes mesmo paz. O choque que sentimos com isso apenas diz algo sobre nós mesmos, não sobre o que efectivamente significam os símbolos. Fala-nos dos nossos tabus, não da maldade que os símbolos intrinsecamente tenham.
 
Não deixa de ser curioso que uma época que se diz tão relativista afinal tenha tabus tão absolutos, ao ponto de se lhe tornar ilegível o resto do mundo. Esta é uma das razões pelas quais não creio que a doença do século seja o relativismo. O que impera é apenas um relativismo de fachada, que esconde valores absolutos colhidos pela estrada. O problema não é o de relativizar, mas de viver da indigência.
 
Que um monge budista e um padre católico, ambos bem intencionados, não tenham percebido a razão de ser do símbolo que um usa e de que outro é herdeiro mostra que o diálogo entre religiosos (não existe diálogo entre as religiões propriamente ditas, ao contrário do lugar comum) tem de passar pela explicação de cada religião, mas igualmente do que lhe antecedeu. Se este diálogo é frequentemente pobre não é de espantar. É que cada lado acaba por não sair da sua pele precisamente porque, cheio de boa vontade, muitas vezes está vazio de boas ideias.
 
Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Mentir à lucidez

«Vitória, vitória, acabou-se a história». Era assim que acabava a delícia das crianças quando ouviam um conto antes de dormir.
E é assim mesmo nas eleições.
Ganhar e perder está previsto nas regras do jogo que conta votos como quem soma discernimentos e não como vagas de fundo. Quem ganha e quem perde age de acordo com este código. Não pode depois invocar singularidades, razões secundárias. Ganha o maior número, como está combinado. E esta  é a mentira da nossa lucidez de democratas.
Fernão Lopes,. nas suas crónicas medievais, falava no Povo como unidade sábia que acorria uno a fazer justiça. Como se a identidade colectiva não fosse plural.
Muitos escreveram sobre as  massas que somam sabedorias. Outros, pelo contrário, garantem que a maioria é sempre medíocre, por uma qualquer impossibilidade de generalizar a elevação, salvo em situações de perigo comum.
Sobra sempre a frase do melhor dos sistemas imperfeitos.
Ou a certeza de que quem governa os nossos dias são os nossos sonhos e mão os do olimpo eleito de quatro em quatro anos. E de que quem comanda as nossas vidas é o nosso trabalho, a nossa escolha pequena, livre, íntima. O nosso arbítrio. Inteiro.

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sábado, 14 de setembro de 2013

Precisamos da democracia?

Um conjunto de selvagens reúne-se para decidir se hão-de comer um prisioneiro. A maioria vota a favor. Como há dois que se opõem veementemente são mortos. E para festejar a decisão espancam as mulheres. Este pequeno cenário mostra que estamos a falar de uma democracia, e de uma democracia directa em cúmulo. Etimologicamente é o poder do povo quem determina a vida em colectividade. Mas isto basta-nos? Não. Porquê então achamos que esta democracia é insuficiente? É que o que designamos por democracia recolhe muitas experiências históricas diversas.
Em primeiro lugar, o próprio poder do povo, mas por via do nexo de representação. Uma ideia sobretudo grega.
Em segundo lugar, a ideia de Estado de Direito, estóica e romana na origem. Esta nada tem a ver com a democracia. Mas atravessou toda a História da Europa. O poder obedece a regras, está limitado por elas. Quem pode, quando pode, como pode. E no entanto, não concebemos democracia sem Estado de Direito, mesmo que a sua origem seja bem diversa. O império, os príncipes europeus, o papado, não concebiam a vida sem a legitimação e a limitação jurídica. E nós igualmente. Este é um traço que a democracia herdou, não criou.
Em terceiro lugar, a proibição de divinização do homem. Não concebemos prostrar-nos perante ministros ou chefes de Estado, como o grego se recusava a fazer. Era bárbaro. Sempre que existem regras de prosternação na Europa elas surgem por influência oriental. O homem europeu pode fazer reverência, mas não se prosterna. Não adora o poder, os homens do poder. A democracia recebe esta ideia e não a cria igualmente.
Em quarto lugar, a dialéctica. Mas esta ideia surge do anti-democrata Platão e não com a democracia. A democracia ateniense praticou-a, mas o seu desenvolvimento teórico deve-se a anti-democratas. Mais uma coisa que a democracia herda e não criou.
Em quinto lugar, a ideia de legitimação pelo bem comum. Ideia sobretudo helenística e cristã. Mais uma vez a democracia herdeira e não criadora.
Em sexto lugar, a tradição liberal. A protecção das liberdades de acção, expressão, reunião, associação. A tradição liberal foi quase sempre antidemocrática, e no entanto só concebemos democracia de acordo com essa tradição. Herdeira, herdeira mais uma vez, não criadora a democracia.
Em sétimo lugar, a dignidade humana. Ideia cristã, muito anterior a qualquer democracia moderna. Ainda mais uma vez herdeira.
Em oitavo lugar, a igualdade da mulher, ideia sobretudo aristocrática e régia, profundamente anti-burguesa, anti-republicana (segundo o padrão do civismo republicano).
Em nono lugar, a economia de mercado, que pode ser adjuvante da democracia, mas é igualmente um enorme problema para ela, na medida em que distribui o poder de forma anti-democrática.
Em décimo lugar, uma determinada concepção da mulher, da criança, do velho, do homem adulto e das relações entre eles que se formou com a matrona romana, o cristianismo, e igualmente a senhora medieval.
A democracia constrói-se sobre muitas tradições que apenas recolheu e que em grande parte surgiram de pessoas que a ela se opuseram. Ao contrário do que se julga não foi a democracia que as criou, quando muito é a que as melhor tem garantido nas últimas décadas. Porque é de décadas que tratamos, ou seja, de um espaço cronológico muito apertado.
Todos nós somos sobretudo herdeiros de anti-democratas, e de não-democratas ou de pessoas que só não eram contra porque nem sequer concebiam a sua possibilidade. A Europa encontra a democracia como uma solução histórica para um tempo determinado que se dá o caso de ser o nosso. Mas da mesma forma que o império ou o feudalismo ou do domínio dos príncipes pareceram realidades eternas durante séculos, temos de aceitar que a democracia poderá não ser o esteio final das nossas sociedades no futuro.
A Europa sempre foi Europa, e no entanto só de há muito pouco foi democrática. Meio século para os mais velhotes, uma década para os mais recentes. Historicamente é uma camada muito fina, muito frágil e muito menos determinante que as outras. Sejamos claros. Habituados que estamos a considerar a democracia como o nec plus ultra da existência humana olhamos para os nossos antepassados com algum desdém porque eles, coitados, não viviam em democracia.
Tenhamos então algum bom senso e reponhamos as coisas nos devidos lugares. Na nossa época histórica a democracia tem sido o sistema que melhor tem garantido essa herança, esse património. Para um teórico político do século XVII o principado era o mundo natural, não obstante exemplos exóticos como os Países Baixos ou a Suíça, e em parte Veneza e a Polónia. E não era imbecil por assim achar. Tinha mais solo histórico sobre que assentar que nós quando falamos de democracia. Um pouco de humildade ficaria bem aos beatos da modernidade (com ou sem “pós” é a mesma coisa, porque quem apenas sabe conceber a sua vida como após uma anterior mostra que não a superou).
Mas isso não quer dizer que é o sistema definitivo na História. Muito do óbvio deixa de o ser. E quando queremos procurar o que pode estar em perigo, não é nos slogans dos bem pensantes que se encontra, mas no que consensualmente todos dão por certo. Sobretudo, como a democracia não é fundamento último, mas escora-se ela mesma em fundamentos que a precedem, fundamentos bem mais profundos que ela mesma, tudo querer assentar na democracia leva a uma sobrecarga da mesma.
 O fim da democracia aproxima-se na altura em que sobre esta tudo se quer assentar. Quando se quer definir a Europa pela democracia, esquecendo que esta é uma condição e não um fundamento, e daí se retira como conclusão que todo o bárbaro pode ser europeu, aliás, que quanto mais bárbaro, mais europeu pode ser (“mas porém a que cuidados?” e com que interesses?) os pilares quebram para deixar vir ao de cima o que é realmente fundamental.
Vivemos milhares de anos sem ser democratas, mas sendo europeus. Mesmo sem democracia não deixámos de ser franceses, portugueses, polacos, russos. E não produzimos por isso medíocre cultura, salvo se Goethe e Gauss devessem ser deitados ao lixo. Vivemos há milhares de anos desta confluência entre cristianismo e paganismo indo-europeu. Quando nos dizem que somos democracia, só democracia e economia de mercado, o confronto com outras culturas que de comum só têm connosco isso partirá o próprio sustento dessa democracia.
É certo que os cultores do curto prazo não se importam de assentar mais andares num prédio. E vão acrescentando mais e mais. No seu tempo de vida julgam que não pagarão preço nenhum. Mas quando o cidadão comum vir que se vai a votos para a antropofagia, ou para qualquer outro costume mais ou menos janízaro, e que no dia a dia se degolam carneiros nas escadas do seu prédio, ou que a criança, a mulher, o homem respiram muito diferente ar, veremos o que sobra. Se o húmus fértil em que nos gostamos de instalar e a que chamamos de democracia, ou se a rocha ou o magma sobre o qual assenta. Nessa altura é evidente, os sacerdotes da deusa única democracia já a estarão a incensar alhures. Aceitaram a destruição do templo para apenas manter o altar. Mas ao relento a tempestade levá-lo-á. E as suas fundações permanecem. Precisamos da democracia? Sim. Como protecção e conclusão (até haver outra) de um processo. Mas sem ilusões de que o tecto substitua as fundações.
Alexandre Brandão da Veiga

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sábado, 10 de agosto de 2013

Dogma e liberdade II


Os movimentos contemporâneos, não é contra o mundo medieval, ou antigo, que se dirigem, mas ao próprio mundo burguês que os fez nascer. São revoltas edipianas contra a sua paternidade e a sua origem. O ímpeto revolucionário destruidor dos seus pais virou-se agora contra eles, o que é simultaneamente poético e justo, e feito de uma ironia rotineira da História.

 

O resultado no caso concreto é que o bom do Polikoff, para compreender a mística de Rilke vai procurar a sua fonte no sufismo, esquecendo que o sufismo é herdeiro do cristianismo e do platonismo e não o inverso (lembro que São Gregório de Nissa viveu mais de dois séculos antes de Maomé, e Santo António do Deserto quase três séculos antes, para os mais exigentes). E que Rilke notória, gritante, expressamente influenciado pela mística russa, que, como toda a mística ortodoxa, é bem mais publicitada e visível entre os ortodoxos que a ocidental o é entre os ocidentais, seria bem mais compreensível pela mística ortodoxa que por uma putativa e nunca demonstrada influência da mística maometana.

 

Tique curioso e significativo: esvazia-se o passado da Europa e por isso tem de se ir ao exótico procurar referências. Quem o faz esquece-se que não é o vazio alheio que explica essa necessidade, mas o próprio. Polikoff não é médico, mas sintoma.

 

Depois de ver a situação na perspectiva negativa, que sobra então desta ideia de que Rilke se opunha ao catolicismo e construiu uma religião pessoal? O dogma impede a liberdade? É a pergunta a fazer, em suma.

 

Quando vemos os abismos que separam São Francisco de Santa Teresa de Ávila, Santo Agostinho de São Tomás de Aquino, Mozart de Joachim des Prés, Rubens de Giotto, Cervantes e Dante temos de nos perguntar se de alguma forma o cristianismo, e mais especificamente a ortodoxia dogmatizada, impediu a liberdade e a criação. Quando permitiu uma Alienor de Aquitânia e um Carlos Magno, bem como um Fernando Magno ou um Ivan o Terrível, não se pode dizer que as personalidades tenham ficado estereotipadas por causa do dogma. Verdade simples e difícil de compreender para a pouca oxigenação da época: todo o cristianismo é pessoal, e pressupõe uma relação pessoal com Deus.

 

O dogma é como um ponto de fuga num quadro que usa a perspectiva. É um ponto ideal sem o qual o resto do quadro cai em colapso. Não é apenas um desiderato, algo de residual, saliento. É o ponto de fuga para onde deve tender a nossa vida. O dogma neste sentido é sempre escatológico. Mas que toda a nossa vida seja determinada pelo dogma, ou que este tenha essa pretensão, já me parece temerário afirmar.

 

Vamos então ao bom do Jung, o verdadeiro, e não o digerido por molesta pança. Ele salientou bastante que a psicologia não pode falar de Deus mas apenas da «imago Dei». É verdade o que diz Tertuliano, em certo sentido: «anima naturaliter christiana», a alma é naturalmente cristã. Admita-se. Mas talvez se devesse dizer que «anima naturaliter haeretica» ou mesmo «gnostica». Por isso, o dogma tem essa função de ponto de fuga no quadro. Em suma, de ligação ao Espirito.

 

Santo Agostinho dizia que «graças a Deus não sou responsável pelos meus sonhos». Agostinho concubino e maniqueísta, geralmente pensa-se, em sonhos provocados pelo primeiro estatuto e não pelo segundo. Os sonhos de que fala Agostinho talvez sejam mais heréticos que eróticos. Os nossos sonhos não obedecem ao dogma. Nenhuma vida é absolutamente ortodoxa. Fora assim não haveria nenhuma luta.

 

A ideia de um tempo em que o dogma tudo uniformizava, tempo esse de que nos teríamos libertado, é apenas mais uma fantasia do servo da gleba que precisa de inventar uma gleba para não se sentir mais servo. A sua liberdade nasce de uma libertação de prisões imaginárias, para não sentir o peso das grilhetas reais que o afligem e que foram feitas por si. Nascido de migração, estranho no seu próprio mundo, não peregrino, mas transeunte, calcorreia os passeios da vida sem saber para onde ir e acabando por não querer que mais ninguém vá para alguma parte.

 

Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Dogma e liberdade I


Assim como sou um fervoroso admirador de Jung, não acho particularmente comestível a maioria dos seus seguidores. O próprio Jung dizia que não era junguiano. E tirando talvez o caso de Marie-Louise von Franz, que teve obra original e simultaneamente profundamente entendida no pensamento de Jung, os esbirros de Jung parecem-me muitas vezes tão confrangedoramente destituídos de bom senso, quando o seu patrono era dele dotado.

 

Uma das lengalengas da nossa época é a de que o dogma limita a liberdade. Renasceu este meu agastamento ao ler um livro de um tal Pollikoff sobre a obra de Rilke. Ora é significativo que este tal de Polikoff, rapaz bem comportado formado em academias longínquas, em vez de citar Jung, cita um seguidor de segundo nível chamado Hillman, que parece ser um rapaz inteligente, mas sem mais, talvez algures na sua cidade glória local, muito merecida, deduzo, mas constrangedoramente trivial e bem comportado nas suas ideias.

 

Explico em que sentido.

 

Como é usual, a obra dos poetas, pensadores, artísticas, científicas da Idade Contemporânea ou não é confrontada com o cristianismo, ou, quando tal é inevitável, desesperadamente inevitável, compara-se com o cristianismo.

 

Quando é tal inevitável? Quando o próprio autor declara, expressa, proclama a sua ligação ao cristianismo. Nos outros casos, omite-se pura e simplesmente a problemática cristã das suas obras. O que é pena. Muito haveria a dizer sobre a marca cristã em Poincaré e Maxwell, por exemplo.

 

Critério curioso. Seria a mesma coisa que só falar de organitos caso a célula nos falasse deles, ou só referir o electromagnetismo se o próprio campo electromagnético se declarasse com essa qualidade. A falta de profundidade, de perspicácia, dos críticos literários e historiadores na nossa época é em geral muito confrangedora. Vivem apenas do valor facial quando este lhes interessa, e procuram desesperadamente o reverso quando o facial os assusta.

 

Mas quando se compara com o cristianismo, com que cristianismo se confronta o autor? É evidente: com o cristianismo em versão popular, de preferência caricaturado e em veste burguesa.

 

É o que faz o bom do Polikoff. Impressionado com a repressão católica dos costumes do século XIX, constrói a obra e o pensamento de Rilke com base numa ideia de afastamento dos dogmas católicos.

 

Qual é o problema? É que não se trata de dogmática católica, mas de um catolicismo austríaco do século XIX, um dos séculos mais pobres para a criação católica, malgrado ser uma época de fecundação de movimentos que vieram mais tarde a produzir os seus frutos, como o do estudo da patrística. Mais pobres, mas atenção: Bruckner, Chateaubriand e Duhem não são medíocres. O mundo circundante, antes de ser dominado por hábitos católicos, era-o por costumes burgueses, herdeiros da revolução industrial e da revolução francesa.

 

A claustrofobia que o burguês tem em relação a essa época é antes do mais a claustrofobia que o burguês tem em relação ao mundo que ele próprio criou. O burguês, mal instalou o mundo, o seu, vive o horror da sua construção. A crítica dos artistas, dos revolucionários e dos pensadores, a maioria de origem burguesa, diz tudo sobre a honestidade e a inépcia desta classe. Todos os movimentos de revolta até à nossa época são, não uma revolta conta o cristianismo enquanto tal, e a sociedade aristocrática que o deixou florescer, mas revoltas edipianas contra as suas origens burguesas.

 

O pós-modernismo no fundo ataca bem mais o positivismo que é seu pai que o cristianismo que insulta. As correntes de pintura desde a segunda metade do século XIX não é tanto contra Da Vinci que se assanham, mas contra a pintura burguesa, industrial do século XIX. Heidegger ataca a teoria dos valores, que é uma pequena reclamação, mas no fundo submissão, ao positivismo.

 

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terça-feira, 30 de julho de 2013

Não gostei



Admirável força evangélica na simplicidade dos modos, na ausência do medo, no desejo de transparência, na exigência de Justiça, na sã frontalidade e no regresso aos primeiros valores e à pureza da palavra Esperança.
Falo da visita do Papa Francisco que também convoca os portugueses descendentes dos criadores do maior País do mundo católico. Foi impressionante ver três milhões de pessoas em Copacabana. Apenas João Paulo II tinha ultrapassado esta fasquia em Manila, na missa com quatro milhões de filipinos.
Mas não gostei de ouvir o Papa dizer que a ordenação das mulheres era um dossier fechado por causa de João Paulo II. Sugeriu que estava cativo de uma má herança. Saberá, como todos nós, que nenhum Papa desautoriza o anterior. Também João Paulo II ficou vinculado à Encíclica de Paulo VI na polémica questão do preservativo. E não se queixou. Gostava de estar enganada. Se estiver, ajudem-me a pensar melhor.

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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Temos de ser abertos e flexíveis?

Ouçamos com ouvido atento, mesmo que ferido por tão dissonantes melopeias, o que diz o transeunte. Como os homens públicos são hoje em dia os filhos das compoteiras, transeuntes relapsos, ouçamos o que nos dizem mais uma vez. “Temos de ser abertos, temos de ser flexíveis”. São duas versões de uma mesma cantiga, a primeira mais de uso na cultura, a segunda mais na gestão pública e privada, ambas na política.
 
A primeira pergunta que se nos oferece é a seguinte: quem disse isso? Quem se atreveu a impor tal imperativo moral? Quem lançou tal boato?
 
A segunda questão que se nos deve colocar é a do paradigma que subjaz a estas ideias. A ideia de abertura, por mais que custe a quem me ouve, tem o seu assento na metafísica, a da flexibilidade na biologia. Mais uma prova de que o homem público recolhe vindo não sabe de onde conceitos que na sua boca mais não são que rumores, porque rumor é tudo de onde não se sabe a origem.
 
Existe um ditame que afirma que perante uma garrafa uns dizem que está meio cheia, outros meio vazia. Imagem impressiva, mas em última análise grosseira, porque se esquece que a melhor visão é a de que vê que metade terá dado prazer e a outra metade ainda poderá dar satisfação. São os cultores da abertura quem mais o cita, o que mostra a rigidez da sua visão.
 
A abertura ganha relevância intelectual sobretudo com Heidegger. Antes dele ninguém se atreveria a dizer com ar solene que temos de ser abertos, sob pena de os interlocutores acharem que o autor de tais palavras pretendia ser objecto de cirurgia ou teria desejos mais ou menos inconfessáveis. Não querendo comparar os medíocres imitadores com o genial persuasor, a verdade é que no pensamento actual a abertura recolhe todas as pudicícias do pensamento de Heidegger. Ao ver a existência como abertura, na mesma esteira em que dizia que nunca poderemos atingir o centro da clareira (pois não, é uma inevitabilidade estarmos nele), o católico Heidegger, católico arrependido, pudibundo em relação à sua matriz, lançou uma semente de infantilismo que o mundo seguiu com alegria.
 
Aberto por excelência é o recém-nascido. Mais nenhuma idade da vida tem tantas possibilidades abertas. Porque a abertura é flutuar nas possibilidades, e não persistir nas realizações. Um recém-nascido pode ser das coisas mais ternurentas do mundo, mas é um incapaz, tenhamos a coragem de o reconhecer. Não se pode contar com ele para nos proteger, para nos sustentar, para ser um esteio da nossa vida. É evidente que seria demais exigir tal coisa de um recém-nascido. Mas quando adultos vivem só na abertura, abertos para o mundo, atiram-se a possibilidades apenas como forma de não terem de responder pelas suas realizações. Basta-lhes dizer que são abertos para se sentirem imediatamente no direito de serem absolvidos pela falta de qualquer obra.
 
Em termos militares é o que se chama uma diversão. Desvia-se a atenção dos outros para a nossa nulidade presente e passada mostrando o infinito de possibilidades que está à nossa frente.
 
A prova da imensa má fé deste tipo de atitude é que realmente acabam por ser abertos. Mas, destituídos, ainda e sempre de critério, acabam por estar abertos para o que de mais medíocre, indigno, trivial, tem a existência humana. Como o excelente carece de escolha dura, é-lhe mais fácil manter uma atitude de abertura. Sem mais. Mas quem está nesta atitude está parado, não deixa lastro, é mero destinatário da sua própria inércia.
 
Abertos sempre a outras culturas para as quais esperam que ninguém tenha competência para os julgar, abertos para outros modos de vida que não se dão ao trabalho de estudar. O homem pura e simplesmente aberto é o herdeiro tonto do cristianismo. Não recebe os publicanos e as prostitutas porque recusa uma pureza meramente ritual, ou como acto de amor. Recebe geralmente só publicanos e prostitutas porque em boa parte sabe que eles não o podem julgar, porque isso lhe dá um sentimento de superioridade.
 
Porque o adulto é sempre alguém que fechou possibilidades. Escolheu uma profissão e não outra, um parceiro e não outro, uma aprendizagem e não outra. Se for equilibrado, e sobretudo se for completo, manterá sempre o maior grau de abertura compatível com a realização de obra. Mas quem faz uma casa não pode ao mesmo tempo estar a jogar xadrez.
 
A flexibilidade tem o seu paradigma na biologia. No entanto, os animais superiores são-no exactamente porque têm zonas de flexibilidade e outras de dureza. Se os ossos fossem apenas flexíveis não nos moveríamos: arrastávamo-nos, ou melhor, esparramávamo-nos.
 
Não deixa de ser curioso que as pessoas que mais invocam este argumento sejam pessoas sem grande coluna, sem grande postura moral. Invocam como imperativo categórico o que nelas é uma inevitabilidade, o que mais não podem ser. Dão-se o mérito de uma naturalidade de invertebrados, quando essa naturalidade é apenas sinal de impossibilidade de escolha de melhor.
 
Desçamos um pouco à terra, ou melhor, falemos agora na linguagem chã do homem público para que ele perceba alguma coisa.
 
Quando se fala de uma Europa aberta, de uma Europa que deve ser aberta, sou o primeiro a concordar. Mas na medida em que seja aberta mas concentrada nas suas realizações, ou seja, fechada igualmente. Adulta, portanto. Uma Europa aberta não significa abrir-se ao ponto de receber os países deserdados da História só porque o são, só porque conseguiram o ódio ou o desprezo dos vizinhos como único legado histórico e quando muito a piedade da Europa. Quando se diz que temos de receber toda a miséria do mundo quando os Estados Unidos, a Austrália e o Canadá escolhem criteriosamente quem para eles emigra. Quando temos de estar abertos a qualquer indignidade desde que coberta por tradições mais ou menos vetustas, que o são apenas por falta de imaginação dos povos que as consagraram. Quando ao mesmo tempo estes que se dizem abertos, abrem-se ao sofrimento dos animais e a outras culturas que lhes provocam o sofrimento e vivem assim nessa abstrusa contradicção. Quando se diz que temos de ser flexíveis e aceitar entorses às leis, desvios em relação a planos equitativos e bem planeados, apenas porque nos temos de adaptar à realidade. Como se a realidade não fosse também qualquer coisa que tivéssemos o poder de adaptar às nossas exigências.
 
Quando se diz tudo isto em nome da abertura e da flexibilidade, e no espaço público vemos invocar tamanhos dislates, podemos perceber qual a alma e a anatomia dos defensores de tais despautérios. Infantilizados mimando recém-nascidos, merecendo-nos a mesma confiança que temos nos bebés, e menor ternura, esparramados na sua própria inércia, os flexíveis e abertos são apenas criaturas que fogem às suas responsabilidades, que traficam com influências porque para eles a vida é apenas tráfico. Entre os grandes não vemos nem essa abertura nem essa flexibilidade. Vemos antes teimosos, obstinados. Carlos Magno, Alexandre, César, Henrique IV, De Gaulle, Churchill negociaram com a realidade, adaptaram-se a ela, mas antes do mais forçaram-na, recusaram ser abertos ou flexíveis. Perante inércias ou iniquidades, jogos de interesses instalados e livres expressões de outras culturas, impuseram um paradigma, porque o julgaram, porque o sabiam melhor. Serôdios herdeiros de um cristianismo mal digerido, instalado em almas pouco preparadas para criticar a sua má aplicação, os abertos e flexíveis apenas sabem construir obra à sua imagem: mole, irrelevante, fugaz. O seu paradigma é Pasqualis que se opôs a Carlos Magno. Quem se lembra dele? Apenas os mesmos que se lembrarão de Carlos Magno em estudo minucioso. Por comparação entre o grande que exista ou venha a surgir, o mero contraponto da mediocridade sorridente.
 
Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 11 de julho de 2013

Trovas antigas


Um pouco por todo o lado, deu-se a revolta contra Paulo Portas perante a atitude da passada semana. Compreende-se. Entre todos, destacaram-se os adversários adormecidos que, pensando Portas morto politicamente, vieram a terreiro dizer finalmente o que pensavam. Luís Nobre Guedes, Pedro Santana Lopes, Manuel Monteiro, José Ribeiro e Castro e Durão Barroso falaram. Faltava Cavaco Silva. Parece que as questões pessoais tardam mas não falham. A que preço.

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O Secretário da Junta

Quem manda aqui sou eu.
Não há maioria, nem representação política organizada em partidos.
Nem erro nem correcção.
Eu não sou eu com a minha circunstância.
Eu sou eu. Que mando.

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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Morrer pelos outros


José Maria Cortes foi morto à facada quando tentava assistir um amigo no chão, vítima de dois golpes da mesma arma, dados por um desordeiro na madrugada de uma feira bem regada.
Era casado, geria uma cadeia empresarial, jogava rugby e liderava dezenas de rapazes que pegam toiros no Grupo de Forcados Amadores de Montemor-o-Novo. Era um exemplo de rectidão, de coragem e de condução de homens. Por isso atendeu a quem estava caído. Por isso morreu.
A demora dos bombeiros e das Forças de Segurança e a inactividade do Centro de Saúde de Alcácer nas primeiras duas horas de assistência devem ser objecto de inquéritos para apurar todas as responsabilidades desta tragédia. Vergonhosa foi, também, a cobertura televisiva inicial, sugerindo que a rixa da feira se travara entre grupos de forcados armados. É não conhecer quem pega toiros.
José Maria estava habituado a enfrentar de caras toiros bravos de 600 kg. Não estava preparado para homens cobardes armados nas suas costas.
Paz à sua alma. À Família, o consolo impossível.


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segunda-feira, 24 de junho de 2013

Os Estados Unidos e as relações especiais





Os ingleses salientam que têm uma relação especial com os Estados Unidos. Ainda noutro dia ouvi um deputado europeu do UKIP britânico afirmando que deveram sair da União Europeia e fazer um acordo com os Estados Unidos, porque o Reino Unido era, não apenas uma grande economia, e um país muito poderoso, como em acréscimo tinha uma relação especial com os Estados Unidos. Não se perguntou-se os Estados Unidos o queriam fazer...

Nem de propósito, poucos dias depois ouço numa televisão alemã um diplomata americano sedeado em Berlim lembrando que os Estados Unidos tinham uma relação especial com a Alemanha. Saliento: desta vez não foi um alemão a dizer que existia uma relação especial – foi o próprio americano que o disse. Não se trata de alguém que se arroga, mas de alguém que o proclama.

Lembro-me também de que nos foi vendido como ouro de lei o facto de haver uma relação especial entre o Reino Unido e os Estados Unidos e de que a prova era a que Blair fora recebido no Congresso americano, honra raramente dada a um político estrangeiro. É certo que a relação é especial: o bilhete custou-lhe biliões de libras na Guerra do Iraque e muitas vidas britânicas. Já pouco tempo depois Sarkozy é recebido no Congresso e depois ainda Merkel. E de graça. O bilhete não lhes custou nada. Relação especial, os ingleses? Sem dúvida. Paga a peso de ouro. Os franceses e alemães entram de graça.

Lembro-me igualmente de termos tido um Governo que teve de lembrar os Estados Unidos de que somos seus amigos, porque eles se tinham esquecido do facto. Realmente, nós portugueses temos uma relação especial com eles.

Mas lembro-me sobretudo do Don Giovanni de Mozart, quando o bom do Leporello, muito lucidamente diz a Dona Elvira:



Madamina, il catalogo è questo

delle belle che amò il padron mio,

un catalogo egli è che ho fatt’io,

osservate, leggete con me.



E que diz ele? Que lê nesse relato?



In Italia seicento e quaranta,

in Lamagna duecento e trent’una,

cento in Francia, in Turchia novant’una,

ma in Ispagna son già mille e tre



Pois é. Todos temos relações especiais com os Estados Unidos, que promete amor a muitas e mesmo outras a quem não prometeu amor se sentem picadas por se dizerem amadas por eles. Critiquei muito certa classe política pela sua origem servil. Pena é que não tenha vindo da seiva de um Leporello, ou que não tenha aprendido com os ouvidos de Dona Elvira. Porque assim lhe cantaria a consciência:

ma in Ispagna son già mille e tre... mille e tre... mille e tre ... mille e tre



Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 7 de junho de 2013

António Costa e a democracia


Imaginem o que seria Pedro Passos Coelho pedir a Assunção Esteves o plenário da Assembleia da República para encher as bancadas de amigos e inaugurar a sua campanha eleitoral?! Nos lugares do Bloco de Esquerda, do PCP e dos Verdes, por exemplo, sentaria a JSD, os artistas que o apoiam, os ex-dirigentes do PSD, os actuais, o Povo laranja em geral. Um sucesso.
Foi exactamente o que aconteceu ontem na Assembleia Municipal de Lisboa. António Costa tomou as instalações do parlamento local para ali sentar toda a sua claque e fazer o balanço do mandato, sem qualquer contraditório. Para cúmulo, convidou os donos da casa, os deputados municipais, aos quais os serviços de protocolo indicavam a fila de lugares reservados. No templo do contraditório - que é qualquer parlamento - os deputados não tiveram voz. Os quatro ou cinco que aceitaram o convite para irem a sua casa, ouviram e calaram. Calaram mas não consentiram.
O orador falou durante duas horas o que bem quis. Apontou erros a gestões anteriores que não puderam contrapôr. Gabou-se de vitórias cujos méritos também pertencem ao Poder Central, sem que fosse possível ajustar essa verdade. Falou também da sua obra sem que a Oposição pudesse fazer reparos à lentidão dos processos ou ao que prometeu fazer, não fez e, claro, não disse que não fez.
Na assistência, o povo de esquerda aplaudia o comício. De Maria Barroso a Ferro Rodrigues; de Correia de Campos a Carlos Carmo; de Margarida Martins à equipa de vereadores que assim tomou os lugares dos deputados. Uma balbúrdia institucional que nunca teria sido perdoada à equipa de Santana Lopes, por exemplo.
Bem sei que a Assembleia Municipal funciona numa sala de espectáculos onde podem actuar artistas e passar fitas de ficção. Foi o caso. O Presidente da Câmara teve o bom gosto de não subir ao palco e de mandar apagar os focos que só iluminavam o próprio. Na forma cumpriu. Na essência foi o único «iluminado» num mundo de confusão institucional, para não dizer, de atrevimento institucional.
Em declaração de interesses, convém dizer que sou deputada municipal de Lisboa, eleita como independente nas listas do PSD. Aceitei o convite de ontem porque pensei que, como sempre, se tratava de um espaço aberto ao debate e com respeito pelo lugar do público, dos deputados e dos vereadores. Mas basta dizer: com respeito pela sede da democracia autárquica.

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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Relações de vizinhança

O que é um vizinho? É o que está perto de nós. Quando os vizinhos são países nem nós os escolhemos nem eles a nós. Foram meras vicissitudes históricas (a História tem importância afinal) que nos fizeram ficar perto. Conheço europeus que sentem muito mais afinidades com indianos, chineses ou brasileiros. Mas a verdade é que lá estão eles, teimosamente, os nossos vizinhos. São outros. São árabes, turcos e turcófonos.

Independentemente de maiores ou menores simpatias um vizinho tem um estatuto especial. Está perto. Cola-se à nossa vida e nós à dele. Podemos ignorá-los mais ou menos, mas nunca completamente, nem eles a nós. Não se trata portanto de simpatias especiais. De entre os não europeus tenho mais simpatias pelos indianos, pelos persas e pelos árabes, porque admiro mais povos criativos que medíocres. Mas isso é questão de gosto pessoal. Irreleva portanto.

O que fazem os vizinhos? Podem ignorar-nos, mas não é o caso porque somos mais ricos, mais ricos económica e culturalmente e, esquecemo-nos desse facto, somos muito grandes. Grandes demais para ser ignorados. Podem entrar-nos dentro de casa pela emigração, ou querer ser o que nós somos por uma paixão doentia e não correspondida, como acontece com os turcos. Podem odiar-nos, invejar-nos, ter ressentimentos em relação a nós e ao mesmo tempo admirar-nos.

É evidente que cada um dos nossos vizinhos é diverso do outro. Uns são particularmente sofisticados, como os do Levante (Médio Oriente e Egipto), outros um pouco menos (como os do Maghreb) outros nem sabem bem o que são, como os turcos e turcófonos da Turquia e da Ásia Central.

Mas têm aspectos comuns. Participam de processos civilizacionais falhados, que não produzem nenhum génio desde o século XII (árabes), ou nunca produziram (turcos). E que já não são potências relevantes desde o século XVIII no melhor dos casos (Turquia).

Que relações queremos ter com os nossos vizinhos? Para quem quer a paz, prefere que sejam boas. A ideia miraculosa da Europa, típica do seu espírito cristão, é o da engenharia histórica. Queremos convertê-los em europeus. Como? Através da ajuda humanitária e da ajuda ao desenvolvimento. Achamos que se eles forem ricos como nós estarão pacificados. E como enriquecê-los? Transformando-os em economias tipicamente europeias, em sociedades europeizadas. O herdeiro do espírito da cruzadas, generoso, mas visto como agressivo pelos nossos vizinhos.

É que se esta ajuda é sinal de sensatez, de sentido de responsabilidade e de generosidade, no que concedo, esquece o facto de que os povos não se alimentam só de pão. O que diríamos nós se a nossa última glória cultural fosse Santo Anselmo? Se não houvesse, nem Bach, nem Gauss, nem Tolstoï, nem Kant, nem Heisenberg, nem Camões? Se a nossa última poesia de relevo fosse a trovadoresca, e o nosso último grande pintor fosse Giotto? Que diríamos, caso fossemos turcos, caso não tivéssemos deixado nenhum nome para a História da cultura, ou apenas o conseguíssemos se disséssemos que Rûmi, poeta persa, era turco? Seria como dizer que Portugal é um país de grandes filósofos porque Ortega Y Gassett viveu refugiado em Lisboa algum tempo.

A pacificação pela ajuda é um instrumento, mas não basta. Os povos sentem necessidade de ter orgulho na sua cultura, sentem necessidade de prestígio em suma. O Japão não se pacificou apenas pela prosperidade económica. É porque a sua cultura tem prestígio. A Arábia Saudita, país rico, vive no ressentimento porque não produz um único homem de cultura que tenha prestígio.

O problema é que não podemos ajudar os outros a ser criativos, a serem estudiosos, a serem inteligentes. Pode-se dar o caso portanto de os nossos vizinhos se desenvolverem estrondosamente, mas continuarem estéreis sob o ponto de vista cultural, folclóricos em suma.

Uma das estratégias é a de fazermos de conta que ficamos fascinados com a profundidade da sua cultura. É o que tem acontecido com o cinema turco e com certos músicos turcos que alguns países europeus tentam promover. Mas não se encontram nem Eisenstein, nem Strawinski entre eles. E quanto a matemáticos ou físicos turcos, nem se pode fingir que eles existem. A longo prazo vale o que vale, como todos os embustes. Perceberão que nada resta, porque nada havia de origem.

A outra é a de rezarmos para que eles se resignem. É pia intenção e duplamente arriscada. A longo prazo não é muito sustentável a prosperidade sem invasões guerreiras (caso turco) ou sem criatividade (como aconteceu com árabes e persas). É mesmo duvidoso que se desenvolvam sequer de forma consistente nos próximos tempos. E pode-se dar o caso que um dia acordarem lúcidos e verificarem que têm uma cultura não criativa. Pensamos dizer-lhes: “ora isso não tem tanta importância assim”?

Não é por acaso que há fundamentalismos. O problema é económico-social mas também simbólico e cultural. Aquilo a que os estamos a obrigar é a que deixem o seu paradigma de civilização ou então que retornem a fontes arcaicas. É o que têm.

Daí que a vacina não baste, é necessário o hospital. Não é dizendo que nunca vai haver doença que a evitamos. Da mesma maneira não é dizendo que nunca vai haver guerra que ela nunca se verificará. Ou deixamos o hospital a ser gerido por outros, no caso os americanos, e toda a nossa política fica dependente deles, ou pagamos o preço desse hospital.

Porque historicamente os vizinhos fizeram guerra. Evitá-la implica reconhecer a sua possibilidade. E dotar-se dos meios para a vencer. E se não a queremos, se não a queremos real e profundamente, temos de não depender de guarda-chuva dos outros. Sempre que molhar mais para o lado deles escuso de dizer quem vai ficar protegido. Por isso quando vejo um político dizer que o nosso principal aliado são os americanos, pergunto-me se ele vota para o congresso americano ou o presidente dos Estados Unidos. Não sendo o caso, entrega-se nas mãos do Espírito Santo. E como diz Jung: “que imprudência!” Sobretudo porque não é espírito, e muito menos santo.


Alexandre Brandão da Veiga



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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Nada menos do que o melhor!


Com o Papa Francisco em Roma e D. Manuel Clemente no Patriarcado de Lisboa é imensa a responsabilidade dos crentes. Em ambos temos o Bom Pastor, amigo do óptimo comunicador. Vivemos dias felizes e exigentes.

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A cobardia como forma de luta


Que respeito pode merecer-me um professor que prejudica os alunos para defender a sua pele? Que professor pode usar um aluno como escudo numa qualquer batalha? Que gente é esta que faz das nossas crianças objectos de arremesso numa guerra com o Ministério da Educação?
Nem discuto os seus motivos. Porque todos perecem perante esta iniciativa de greve durante os exames dos menores.Haja decoro.

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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Racionais e científicos


Tendo eu dedicado algum tempo e paciência ao estudo de espécies de insuficientes, gostava de apresentar mais um que vegeta na praça pública. Descreve-se este pela frase “eu sou um homem racional, com espírito científico”. E nada mais diz a criatura. Não fundamenta nem desenvolve.

Façamos uma pausa e vejamos que enormidade está a ser dita. É que o pobre coitado julga que está a dizer coisa coerente, mas esquece-se de que a razão e a ciência não vivem sem duros conflitos entre si. A banalidade faz da fé a grande adversária da razão, ou pelo menos com quem mais se confronta. Mas a ciência não tem menos problemas com a razão.

Em primeiro lugar abandona qualquer hipótese de uma razão total. O sentimento de quem tem razão, as vivências que se instalam em simbiose com a razão e a alimentam são expurgados do seu horizonte. A razão da ciência pressupõe uma despedida e uma pobreza. Em segundo lugar é uma razão não imperante, antimonárquica. Essa mesma razão tem de ser sindicada pela experiência, pelos sentidos, mesmo que mediatamente. É uma razão dominada, obediente. É finalmente uma razão que abdica de tratar pelo menos directamente (ou seja, nunca) das coisas últimas, das últimas causas e dos últimos fins. É uma razão de renúncia, em boa verdade, casta.

A razão da ciência é assim uma razão que nasce de uma despedida, de uma dominação e de uma renúncia. Pobreza, obediência e castidade são os seus motes.

Os grandes filósofos medievais (cada vez mais percebo que este adjectivo diz muito pouco) conviviam alegremente com o infinito, traziam-se eles todos com a razão, e deixavam-na imperar. Nada desta glória é reservada à ciência moderna. A partir do momento que se abandona este primado da razão o espírito científico vive obcecado com a certeza e mais tarde obcecado com a sua destruição, como se de um bezerro de ouro fosse. Mas bezerro criado pelos primórdios da própria ciência e não por um mítico obscurantismo medieval.

Se bem virmos o que mais se aproxima do movimento científico não é o sacerdote de Ísis castrado, nunca o poderia dizer tendo em conta a sua fecundidade, mas o movimento monástico. Tanto os votos que a razão tem de fazer para se tornar científica são semelhantes, assim são semelhantes as manifestações de um e outro movimento. Ambos formam um modo de vida, as suas congregações. E entre os orgulhos de cada mosteiro, outras vezes orgulhos nacionais, a pertença à república das ciências traz ar de beneditina postura.

Como se vê, a razão da ciência não é uma soberana e folgazona que se atrevesse a cavalgar no seu império. A riqueza da sua vida faz-se da clausura, a extensão da sua vida mede-se na medida inversa dos seus constrangimentos. Como se vê, quem afirma ser racional e simultaneamente ter espírito científico sem mais fundamentar ou delimitar arroga-se ser rei e monge de um só golpe. Sem ter consciência da contradição.

Mas continuemos. Vejamos em que mais esta frase esquece os dados fundamentais do que deveria dizer.

De que razão se fala, de que ciência? Cada uma delas tem assentos bem diversos, modelos bem díspares entre si. O modelo mecânico imperou sobretudo nas ciências físicas, por vezes na química. O modelo morfológico nas ciências humanas e nas da vida. Um e outro atravessam a matemática e a química. Trata-se de modos de viver a razão bem diversos, sendo ela a mesma não obstante. É evidente que existem paralelos entre o filólogo, o linguista, o mineralogista, o biólogo e mesmo o especialista da álgebra abstracta, sobretudo na escola de Bourbaki e seus descendentes. E que existem semelhantes entre o especialista em análise, o físico, o teórico da informação. E mesmo assim apenas falo de tendências. Nenhuma ciência foi imune à morfologia ou à mecânica. Freud é mecânico e Jung morfologista, Spengler é mais mecânico e Ortega, Toynbee e Kantarowicz mais morfologistas. De que razão se arroga pois este espécime que se afirma racional e científico? De que espírito científico? Afirma que a sua razão obedece a um paradigma mecânico ou morfológico? Ou ambos? E como os concilia?

O espécime em causa, que pulula no espaço público, não vive apenas nesta podridão. É que esquece que o movimento científico tem origens algo obscuras, nasceu na obscuridade, mas nasce igualmente todos os dias da obscuridade. Vejamos alguns exemplos. A atracção e repulsão de Newton são conceito bebido na teosofia, na cabalística, na tradição hermética. Todas as crianças cantarolam hoje em dia a canção de Einstein, mas não foram “idealistas” alemães como Mach, ou um homem não muito enquadrável como Maxwell a dar foro de nobreza científica ao conceito de energia, esse conceito tão ressumando espiritismo, e ocultismos, seria palavra bem ridícula hoje em dia face à comunidade dos cientistas. Quando o padre Lemaître descobre que um dos corolários da teoria da relatividade generalizada seria o Big Bang é acusado de criacionismo. Quando se fala em múltiplos universos tem-se conversa que assusta o nosso espécime. Não deve ser a essa razão que se depara com o infinito que o move.

Vejamos mais um pouco o bicho. A dissecação prova ser divertida.

De novo em termos simplistas a ciência fez-se de dois movimentos contraditórios. Um primeiro assente no platonismo (ou melhor, num neopitagorismo), que dá origem à física do século XVII. O segundo nasce com o aristotelismo e o tomismo, e que faz nascer as ciências da vida, a mineralogia e a química. Mas igualmente a filologia, e as ciências humanas em geral. Seguem-se obviamente várias miscigenações entre estes movimentos e uma ideologia sobre a ciência que quer como paradigma a física (neopitagórica) mas em boa verdade tem prática aristotélica, passando pelo filão helenístico.

E isto sem esquecer que estes dois grandes movimentos se entrecruzam com os outros e entre si. O movimento é monástico, no seu paradigma, mecânico ou morfológico no seu símbolo, platónico ou aristotélico, na sua origem antiga. De fundo cristão e pagão indo-europeu muitas correntes contribuem para a conformação de cada ciência e de cada momento específico desta, e de cada escola que nela se forma.

De quem se reivindica este espécime que diz ser científico e racional? Que cruzamento faz entre este movimento, estes símbolos e estas origens? Qual o seu paradigma, qual a sua metáfora? Disto nada nos sabe dizer o espécime. O espécime é só isso. Um exemplar de uma espécie. Não uma pessoa, mas uma mera ocorrência. Não bebe de um paradigma, mas apenas se subsume a uma categoria lógica. Não acede à metáfora quem não tem substância. Não vale a pena inquiri-lo. Ele não sabe dar resposta porque não sabe o que é uma pergunta. Apenas afirma, porque essa é a sua única forma de afirmação.

De que razão fala ele então? Porque se arroga espírito científico? Convenhamos: a sua razão é caseira, é a razão de açafata ou mais correctamente de criada grave. A sua razão está para a que é magna como a economia doméstica está para a ciência económica. Tem o seu lugar, mas apenas na copa. O seu lugar natural não é a antecâmara do infinito, mas tão simplesmente a antecâmara. E porque considera ele que tem espírito científico? Porque usa telemóvel e anda de avião. O espírito científico é algo que se usa e se legitima pelo uso. Cultor da usucapião, é apenas isso: detentor de terra não por a ter conquistado ou comprado a esforço, mas porque a ter usado desde tempo bastante para a ela se acomodar. Cultor do uso vê nele e apenas nele a legitimação. Que diga disparates não nos deve espantar, portanto. Assim apenas revela, não a sua opinião, mas a sua natureza.

Alexandre Brandão da Veiga

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