terça-feira, 15 de abril de 2008

A Fome, O Amor

O Pedro Lains escreveu este post louvável. A boa intenção é evidente e o que ele diz é de uma urgência indiscutível. Urgência que, chamo a atenção, existia já “quando eu era pequenino, acabado de nascer”. Gostaria de acreditar – e está na minha natureza optimista fazê-lo – na perspectiva progressiva que o Pedro nos anuncia: o mundo talvez esteja melhor (mais democracia, menos conflitos), pese embora o facto das bolsas de pobreza (vastíssimas bolsas) persistirem, tendendo a agravar-se.
Pensando bem (e se a ominosa desgraça dos famélicos da terra conta), talvez o mundo não esteja melhor, mesmo que a minha veia optimista insista em que não estará pior. É até provável que, por falta de bases para um sólido crescimento, nem sequer seja sustentável a prossecução do desenvolvimento económico que os índices agora nos anunciam.
Em última análise – era assim que se dizia nos comités m-l, mesmo na doce África da minha juventude – a única certeza que colhemos desta pescadinha de rabo na boca é que a pobreza se espalha, incontrolável, como tinta em folha de papel almaço – sejam o que forem os indicadores para determinar essa pobreza, questão que não é, parece-me, dispicienda.
“O que fazer?” como em tempos disse o notório russo. Sobretudo, o que se pode fazer num blogue para atacar essa pobreza que, obstinada, alastra?
Ora, se reconheço que, por diletantes que sejam, uma alinhavada prosa sobre um filme, uma nota mais confessional sobre um incidente pessoal, a sumptuária lista dos nossos gostos, são gestos conviviais que reforçam cumplicidades e nos ajudam a constituir uma comunidade (De gosto? De coração?), já me parece insuficiente a intervenção numa matéria em que está em causa o bem-estar de terceiros. Bem-estar é, aqui, um torpe eufemismo, por ser de dramática sobrevivência que estamos a falar. A gravidade do problema exige outro tipo de gesto.
Sou franco: não creio que, contra a pobreza, as boas intenções sirvam e que a chamada de atenção baste. E temo até que, em alguns casos, a gritaria vise menos a solução do drama do que o ajuste de contas com ideológicos moinhos de vento, venialidade de que o post do Pedro Lains está limpidamente isento, tão relevante é a informação que fornece.
Sobra, uma vez e sempre, a falta de soluções. Há os missionários, os médicos sem fronteiras, algumas ONGs. Podem ser paliativos, mas o seu voluntariado resolve (ou minora) problemas concretos de pessoas concretas. A grandeza apaixonada do gesto, a entrega dorida ao outro, são exemplares e são, o que conta muito, quantitativos.
E o resto que é quase tudo? A contradição entre os benefícios da globalização e a expansão da pobreza? Como e quem resolve este problema geo-estratégico?
A minha conclusão catastrófica é que a natureza política do problema torna risíveis, ilusórios ou quixotescos os discursos individuais, por magníficos que sejam. Ao contrário do amor, a fome não pode sublimar-se em criação estética.

13 comentários:

Alvaro Santos Pereira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alvaro Santos Pereira disse...

O Pedro tem toda a razão. A pobreza mundial tem decrescido um pouco por todo o mundo, tanto a nível relativo quer absoluto (alguns números estão aqui: http://desmitos.blogspot.com/2008/03/pobreza-mundial_18.html).
A razão? Na última década, os países subdsenvolvidos registaram as mais altas taxas de crescimento económico desde sempre. Países anteriormente alegadamente condenados ao fracasso e à miséria têm conseguido emerger das cinzas da pobreza e, aos poucos e poucos, têm alcançado verdadeiros milagres económicos. Estes factos não são de conhecimento geral, porque os media quase sempre preferem enfatizar as desgraças em vez dos sucessos. Mas há sucessos e muitos.
Dito isto, uma grande camada da população mundial (o "bottom billion" do Paul Collier) permanece desesperadamente pobre. Mesmo assim, nunca houve tanta esperança, nunca houve tanto desenvolvimento como agora. Esperemos que a subida dos preços dos produtos alimentares e/do petróleo não falam descarrilar este autêntica locomotiva do desenvolvimento.

Manuel S. Fonseca disse...

Caro Álvaro,
A razão do Pedro nunca esteve em causa. Ele tem razão ao sublinhar os avanços desenvolvimentistas (tanto quanto, eu que sou leigo, sei). Registo uma contradição entre o que o Pedro e o Álvaro afirmam sobre a pobreza. O Pedro sustenta que não há redução da pobreza e que o fosso entre pobres e ricos é maior. O Álvaro afirma que há menos pobre, o que muito me agradaria que fosse verdade.
O meu post é sobre outra coisa, texto num blogue ter ou não eficácia no combate à pobreza. E eu, que sou optimista, nesse caso passo a pessimista.
Um abraço

Manuel S. Fonseca disse...

Rectifico o primeiro período do último parágrafo do comentário anterior:

O meu post é sobre outra coisa, sobre a possibilidade dum texto num blogue ter ou não eficácia no combate à pobreza.

Manuel Rocha disse...

Caro M Fonseca,

Comento na sequência do seu último comentário: se os textos do blogue ajudarem a uma consciencialização de que a pobreza é um rio circular que ( também ) nasce na nossa postura como consumidores, então poderão ajudar...

Pedro Lains disse...

Caros,
Obrigado pelos comentários. Não há dúvida para muitos de que se pode combater a pobreza e Sachs diz que os ricos têm dinheiro suficiente para o fazer. Mas há dois debates adicionais. O primeiro é saber se o combate à pobreza reduz a eficiência económica dos pobres e por isso reduz as perspectivas futuras. O segundo é se, mesmo que isso seja assim, não é melhor combater à mesma a pobreza (aqui tiro o chapéu às igrejas, católica protestante e porventura outras, que não têm dúvidas quanto a isto - quem tem fome tem de comer).

sofia rocha disse...

Tenho muito pouca fé que o tratamento sério, de assuntos sérios, num blog possa surtir algum efeito, do ponto de vista da eficácia. Deve ser por isso que sempre prefiro falar de filmes, trivialidades,venalidades & afins. Quanto ao desenvolvimento e distribuição de riqueza, tenho as mais fundadas reservas. Os relatos de que me chegam de Angola e Moçambique são assutadores, com miséria galopante, falência de infra estruturas, países a saque pelas potências estrangeiras. São relatos de portugueses que lá vão e permanecem meses a trabalhar, que também conheceram a realidade anterior e que me dizem que tudo é muito precário e que as condições de vida das populações locais são miseráveis. Apenas lamento que muitos dos opinam ou escrevem sobre África, por exemplo, nunca tenham apanhado um voo, descido do avião, sentido de imediato o calor, a humidade, a estridência. E se o fazem, vivem nos ares condicionados, de passagem pelo hotel de 5 estrelas e regressam escrevendo sobre o progresso africano. É por isso que prefiro falar sobre filmes. Afinal de contas, já alguém viu o documentário sobre os Rolling Stones?

Pedro Lains disse...

Este nâo é seguramente o seu melhor comentário.
Saudações,
P

andrea disse...

Com o petroleo a galopar alegramente a caminho dos 150 dolares o barril e sabendo de antemão que é um bem finito, quero ver a urgencia da argumentação sobre um mundo melhor em que as diferenças entre ricos e pobres sejam menores.
Quero ver alguem a convencer um rico que tem que se desfazer de parte substancial da sua riqueza.
Infelizmente os factos falam por si.
E sim um Blog tem importancia, relativa é certo, mas tem importancia, nunca se sabe quem vem ate aqui espiolhar.
RA.

sofia rocha disse...

Ao Pedro Lains:não era a si, de que gosto pela sua atitude franca e positiva, que me referia, mas aos autores que citou. Tem razão, é um tema que me é difícil, o meu marido regressou há pouco tempo de mais uma estada de dois meses, a segunda em seis meses, de Maputo. E porque todos os dias me falava na miséria das centenas, milhares de crianças famélicas, que deambulam pelas ruas, das mulheres que se prostituem, na ausência de hospitais, nas casas fortificadas dos estrangeiros, no sucesso dos sul-africanos em Moçambique, hoje, como há quarenta anos, nos carros que não podem parar nos sinais encarnados, tendo a perder a panache. E é por isso que prefiro falar sobre vulgaridades.

Pedro Lains disse...

Afinal tinha uma boa razão. Peço desculpa. Mas que há coisas a fazer, isso há. Não serei eu, pois não nasci assim, mas posso dar umas palavras e uns argumentos de apoio a quem estiver no terreno. Infelizmente ainda não tive tempo de acabar a recensão dos 3 livros, a qual se tornou entretanto mais urgente (para mim, claro).
Saudações,
P

Alvaro Santos Pereira disse...

Manuel,
Poderá um blogue ser eficaz no combate à pobreza? Claro que sim, principalmente se for bem informado. Um blogue é mais um meio de comunicação, de informação e de diálogo. Claro que os blogues também servem para trivialidades, mas também para informar. E para desmistificar ideias quando é preciso. Exemplos? Basta ver alguns dos blogues de grandes economistas, como o Dani Rodrik, que tentam explicar os resultados da sua investigação para os não-economistas. Ou, á agora, o novo blogue do Pedro Lains, que tem a mesma intenção de informar e divulgar (http://pedrolains.typepad.com/pedrolains).

Sofia,

Moçambique é um óptimo exemplo sobre o tema da pobreza. É verdade que há muita miséria. Afinal, cerca de 50 por cento da população moçambicana é considerada pobre. No entanto, há 10 anos, a taxa de pobreza era 70 por cento. Não havia crescimento e o país parecia condenado ao fracasso total. Não mais. Actualmente, Moçambique é o país que TODAS as agências internacionais gostam de citar como o exemplo a seguir. Eu escrevi recentemente um artigo no DN sobre o milagre moçambicano, que talvez interesse. O artigo encontra-se em:
http://desmitos.blogspot.com/search/label/Mo%C3%A7ambique

Abraço a todos

Alvaro

Sofia

Manuel S. Fonseca disse...

Também eu agradeço a todos, e em particular ao Pedro Lains que deu o pontapé de saída com o excelente post dele. Saio mais esclarecidamente céptico deste debate. Reconheço que quanto mais informação haja - e sobretudo informação que resulte de investigação séria - mais lucidamente poderemos atacar o problema da pobreza, mas continuo a entender que esse problema se ataca no dia a dia no terreno (não nos blogues) e se ataca estrategicamente nos grandes foros de decisão que são (helàs) imunes a blogues. Resta-me contrariar o meu estimado Álvaro num ponto: não acho que falar de coisas pessoais, de gostos, de uma canção pop, ou mesmo do prazer de uma boa sesta sejam trivialidades, como não era uma trivialidade que esse fantástico blogger que se chamava Luis de Camões se entregasse a êxtases como este: "Ah, minha Dinamene, assim deixaste / quem não deixara nunca de querer-te". Garanto-lhe que até no chocolate se pode encontrar alguma metafísica.