quinta-feira, 17 de abril de 2008

Do socialismo de Sócrates

Em diálogo com os últimos “posts” do Pedro Lains e do Martim Avillez Figueiredo e a propósito das medidas legislativas do Partido Socialista português relativas à família, pretendo aqui dizer duas ou três coisas sobre o socialismo de José Sócrates.
Ora, como dizia o Pedro Lains há uns quantos posts atrás: “o marxismo ainda não morreu”. É bem verdade. Julgo, aliás, que se há coisa que faz falta ao nosso velho e cansado Ocidente é tomar consciência da óbvia e muito marcada presença do marxismo no seu seio, tanto naquilo que tem de bom quanto naquilo que tem de mau – sendo que tem muito de ambos.
Do meu ponto de vista, porém, o principal é isto: a “descoberta”, feita pelo materialismo dialéctico, de que os modos de produção são o motor da história, e a consequente afirmação marxista do primado do facto económico sobre o social, aliadas aos movimentos socialistas de transformação política global iniciados na segunda metade do séc. XIX, geraram uma indiferenciação prática entre a economia e a política que, permanecendo confusamente nos nossos dias, escapa (ainda que diferentemente nos regimes socialistas e nos liberais) ao controlo democrático (porquanto anterior à própria sociedade) e condiciona tendencialmente a totalidade das nossas vidas.
Para o que aqui me interessa, duas coisas devem notar-se: a primeira é que os “socialistas”, a partir das ideias de Marx, queriam verdadeiramente transformar o mundo (dividiram-se e subdividiram-se quanto ao modo e ao alcance dessa mudança, mas todos queriam mudar a realidade e mudá-la num mesmo sentido); a segunda é que o ataque que desferiram contra a “família burguesa” se compreende dentro dessas suas propostas de transformação económica e política do mundo.
Para os marxistas, de facto, é a partir da “produção da vida imediata” que ulteriormente se estabelecem as diversas “formas sociais”, processo cujo desenvolvimento histórico levou até à sociedade burguesa, com as suas noções próprias de “família”, de “propriedade privada” e de “Estado”. É no sentido da ultrapassagem do capitalismo, portanto, que se dá o seu violento ataque à família burguesa, nomeadamente aos seus pressupostos religiosos e à sua lógica do interesse capitalista.
Para os “marxistas”, portanto, a união burguesa entre marido e mulher, falsamente sancionada pela religião de Moisés e pelo direito burguês, foi progressivamente comprendida à maneira de uma luta de classes, na qual a mulher, reduzida ao papel de escrava e de prostituta, era agora chamada a colaborar com a revolução em curso, por meio da sua “incorporação no trabalho social produtivo”, pela qual se emancipava do trabalho doméstico que a tinha confinado a uma “existência meramente privada”. Afrontar a família burguesa, assim, era afrontar o próprio mundo capitalista burguês e, neste sentido, promover a sua transformação.
Vamos agora ao socialismo de Sócrates. Ora, a primeira coisa que temos que dizer é que Sócrates não quer transformar o mundo. Resignado ao “facto” de que, no essencial, tudo está previamente decidido pelo aperto de “mão invisível” entre os agentes da economia global e os da política mundial, Sócrates luta apenas para manter o poder. Nisto, aliás, como bem notou o Martim Avillez Figueiredo, esquerda e direita são hoje em dia muito iguais.
Não concordo, porém, como pretende nesse seu “post” – “Que bom ter esquerda e direita semelhantes” –, que isso seja bom. Porque se elas são iguais – ou melhor, indiferentes – é porque a crença em que tudo está previamente decidido prevalece sobre a crença no próprio homem e na sua capacidade para transformar o mundo.
Na verdade, a associação historicamente construída entre a economia de tipo liberal e a política de tipo marxista, reduzindo a democracia ao sancionamento das decisões económico-políticas posteriormente feito por um conjunto maioritário de consumidores e de espectadores, sendo ideologicamente inconfessável, obriga à difusão da tão apregoada tese do fim da história. A pretensa inexistência das ideologias, porém, com o seu contraponto da “crença” nas absolutas possibilidades da ciência e da técnica, implica a convicção de que nos é impossível transformar o nosso próprio mundo. É isso que significa esquerda e direita serem iguais – e isso não é bom.
Ora, Sócrates, portanto, não quer mudar. Luta apenas para, perante a inevitabilidade económica e política global, manter o poder. E é nesse sentido que se devem compreender as medidas legislativas do actual Partido Socialista, ainda quando se inscrevam num quadro propriamente marxista de ataque à “família burguesa”. Porque quando Sócrates permite que o PS legisle sobre a família não o faz por razões ideológicas, a não ser remotamente, como diziam os escolásticos: a causa próxima dessas acções legislativas, na verdade, é a manutenção do poder, nas próximas eleições ameaçada pelos partidos à esquerda do PS.
É esta cedência às questões ideológicas, porém, que caracteriza o socialismo de Sócrates. Mas entendamo-nos. O perigo das ideologias está no seu modo de relação com o poder, com o qual devem estar independentemente comprometidas, isto é, suficientemente afastadas para propor o que se deve fazer e suficientemente próximas para que isso seja realizável. Numa palavra, as ideologias têm de estar em relação com o poder. Ora, no caso do socialismo de Sócrates não estão, porquanto o governo legisla independentemente das ideologias e o PS legisla independentemente da realidade. Em ambos os casos, porém, temos a inexistência de uma relação entre o poder e a ideologia, cuja presença no PS, permitida e incentivada por José Sócrates, não tem pontos de contacto com a realidade ou com a acção governativa. Por outras palavras: a ideologia torna-se absoluta!
É isso que explica, aliás, como bem lembrou José Manuel Fernandes, no Público – “Divórcio: a lei deve sempre proteger os mais fracos” –, que a nossa lei obrigue agora uma rapariga com menos de 18 anos a pedir autorização aos pais para pôr um piercing em qualquer zona do corpo legalmente admitida para esse efeito, ao mesmo tempo que lhe permite abortar, se assim o quiser, por sua decisão exclusiva, a partir dos seus 16 anos. Na verdade, não choca à ideologia socialista que o Estado restrinja fortemente as liberdades dos indivíduos, tal como não lhe choca afrontar a “família burguesa”. Ninguém considerou, entretanto, a própria realidade, na qual as duas medidas obviamente se mostram conjuntamente desajustadas.
Concluindo, o socialismo de Sócrates anuncia um regresso ao absolutismo na política, o que, juntamente com as crises económicas que se avizinham, faz dele um homem perigoso. A história já o mostrou. É claro que este perigo nem é exclusivo do socialismo, nem, tampouco, de José Sócrates. Ao contrário, está em curso no nosso mundo e é urgente enfrentá-lo. Contrariamente ao que nos “dizem”, porém, não está tudo decidido e nós podemos transformar o mundo, intervindo moralmente na realidade – só estará tudo decidido, de facto, se nós decidirmos não transformar o mundo. Ora, para nós, a transformação do mundo começa aqui, com – e não necessariamente contra – José Sócrates.

6 comentários:

Manuel Rocha disse...

Olá Goançalo!


Transformar o mundo reformando-o ?
Bem...Walter Benjamim já dizia há um século que o capitalismo não se reforma.Ele comparava-o a uma religião que oferece a crença em si mesmo como única esperança. Sócrates representa apenas a forma de estar de um certo pragmatismo pro-activo dos prisioneiros conformados com a sua condição.

Bom post!

:)

Pedro Lains disse...

Se serve de alguma coisa: concordo com quase tudo. Sócrates está de facto bem retratado aqui. Só as referências aos ataques à família "burguesa" é que se calhar estão um pouco fora de tom.

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Manuel

Obrigado pelo comentário. Estamos em tempo de grandes mudanças, longas, estruturais, que não se mostraram ainda. Neste tempo de "crise", portanto, não creio nas reformas como solução para esses problemas que ainda não conhecemos. Já para a regular administração da coisa pública, sim - sem o excesso, no entanto, com que são feitas - e desfeitas - em Portugal.
Quanto ao capitalismo, creio, com Schumpeter, que é o melhor sistema económico até hoje encontrado pelos homens. Julgo, porém, como tentei dizer neste post, que tem que ter um contraponto político e moral. E é isso que hoje faz falta: a moralização do mundo, começada a partir dos agrupamentos sociais de natureza interior e privada, nomeadamente a família e a sociedade civil. Sem isso, estaremos entregues à associação inconsciente e antidemocrática existente entre a economia e a política.

Pedro

Sempre supus que, no essencial, estávamos de acordo. Aproveitei apenas a boleia para expressar o meu ponto de vista. Quanto ao tom do ataque à família burguesa, concordo, mas, obviamente, nem o tom nem o ataque são meus.

Um abraço

Manuel Rocha disse...

Pois, Gonçalo... o problema dos rankings é que só consideram aquilo que se conhece, mas no caso de Schumpeter há ainda a considerar o pressuposto, ou seja, que tendo por bom o paradigma social do Ocidente ( burguês )o capitalismo é o que melhor o realiza.

Quanto à moralização do capitalismo, bem...devo dizer-lhe que respeito imenso ( sem cinismos )as razões da fé ! Mas daí a acreditar que a mãe de Cristo apareceu em cima de uma azinheira de Fátima há cem anos...

;)

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Meu caro Manuel Rocha

Devo dizer-lhe, em primeiro lugar, que você é, sem dúvida, a maior e melhor surpresa que até agora tive nesta experiência na blogosfera e que com muito proveito tenho visitado o seu blog, excelente no conteúdo e na forma. Digo isto para lhe mostrar o valor que dou à sua crítica, que no fundo diz que o capitalismo, em dois séculos de existência, não conseguiu ser moralizado, pelo que, não acreditando você em milagres - ou pelo menos não neste - não acredita que o venha agora a ser.
Respondo-lhe muito brevemente que:
1. Não defendo a moralização do capitalismo, mas a moralização do mundo, que, neste momento, na sua organização económica é capitalista.
2. O capitalismo, enquanto sistema histórico, terá o seu fim (esse era o pressuposto de Schumpeter - e já agora de Marx - que nesse sentido o comparavam a organizações económicas estruturais anteriores, afirmando, em consequência, que nunca no mundo se tinha conseguido criar tanta riqueza).
3. Penso, além disso, que no seio do capitalismo, e em grande parte com o advento dos socialismos, se operaram progressos morais notáveis, do ponto de vista da organização do trabalho, da distribuição da riqueza, do acesso à informação, etc.
4. Penso, também, que tais progressos morais estagnaram, pararam, retrocederam... sendo nós hoje vítimas de uma associação inconsciente e antidemocrática entre os agentes económicpos e os políticos - uma ditadura, como você diz, e bem, ainda que, no caso ocidental, ela seja, para já, confortável.
5. Creio, de facto, que a solução é a nossa intervenção moral. Mas com isso não pretendo salvar o capitalismo, mas o homem (tal como Schumpeter e Marx, penso também que o capitalismo esteja a atingir o seu fim, ainda que a sua substituição, ao contrário do que eles previram, dificimente se faça na nossa geração - a não ser, claro está, por meio de catástrofes e de revoluções, o que, sendo possível, espero que não aconteça).
6. Com intervenção moral no mundo, por último, quero dizer a associação e a realização livre dos homens nas diversas sociedades em que são chamados a simultaneamente viver (familiar, económica, civil e política), único modo de enfrentar o fundamento da actual ditadura e de afirmar verdadeiramente o primado do social sobre o económico (que não obsta a que o social, ao instaurar-se, seja também, por natureza, económico).
7. Penso que isto é possível e, talvez, dentro de não muito tempo, até surja realizando-se em projectos muito concretos como algo de motivador. Quanto à fé, que indirecta e pessoalmente também pode e deve intervir em tudo isto, ela é essencialmente sobre algo que está para além de tudo isto, inspirando-nos aqui e agora, é certo, mas deixando a nosa liberdade intacta quer para acreditar, quer para fazer o que nos cabe.
8. É porque nos creio livres que acredito que podemos mudar o mundo - devagar e à nossa medida, mas é esse o progresso que verdadeiramente importa e que, mudados os paradigmas das ciências e as utilidades das técnicas, permanece nos comportamentos humanos mesmo quando mudam os sistemas políticos e económicos. O maior património da humanidade são a descoberta histórica dos princípios que a realizam. O drama do actual ocidente, de facto, é que pensa que eles nada valem, não os reconhecendo nem defendendo no mundo e na vida. Ora, eu penso, de facto, que é possível mudar.

Um abraço

Manuel Rocha disse...

Apraz-me registar o excelente resultado da minha provocação!

:)))

Continuamos ?

:))